Valoriza herói, todo sangue derramado afrotupy!

domingo, setembro 30, 2012

TVs vão faturar R$ 600 milhões com horário “gratuito”

Horário eleitoral não é gratuito, mas muito bem pago

– Governo vai pagar, em renúncia fiscal, R$ 600 milhões pelo horário ocupado pelos candidatos nas emissoras de rádio e TV.

As emissoras de rádio e televisão chamam o horário eleitoral de “gratuito”.

Grátis pra quem?

O governo (nós) paga o horário para as emissoras com a renúncia de Imposto de Renda. Paga o horário integral ocupado pelos candidatos, como se estivesse fazendo uma propaganda.

A estimativa da Receita Federal, segundo a Agência Congresso, é que o horário eleitoral proporciona um faturamento estimado, para este ano, de R$ 606 milhões para as emissoras.

O Decreto 7.791 de 17/8/12, em seu artigo 1º. define que as emissoras poderão efetuar a compensação fiscal na apuração do Imposto de Renda de Pessoa Jurídica, inclusive na base de cálculo  dos recolhimentos mensais previstos pela legislação.

Desde 2002, o governo pagou para as emissoras de TV e rádio R$ 4 bilhões. E eu não li nenhum editorial reclamando do “desperdício de dinheiro público”.

Em alguns casos o horário “gratuito” é, na verdade, um grande negócio para a emissora, pois o governo paga todo o tempo de inserção por dia como se estivesse comprando um espaço publicitário. Ocorre que originalmente aquele espaço não estava totalmente destinado à propaganda, mas também a programação: jornalismo, música, entretenimento, variedades.  Assim, o faturamento da rádio ou da TV aumenta.

O Decreto prevê que o pagamento seja de 80% do preço de tabela da emissora, isso porque este é o percentual que fica com a empresa, uma vez que a Agência que veicula a propaganda recebe a comissão de 20%.

Mas um anunciante comum paga bem abaixo do preço de tabela, pois o negócio é fechado após ampla negociação. É comum descontos de 40%, 50% sobre o preço de tabela. Às vezes mais. Uma emissora de TV em São Paulo negociou com uma grande rede de varejo, no ano passado, um contrato anual com desconto de 95%.

No caso do horário eleitoral “gratuito” não há negociação. É tabela cheia.

Grátis pra quem cara pálida?

FONTE: JOEL LEITE / VIOMUNDO

sábado, setembro 29, 2012

Há 20 anos, Collor foi o primeiro presidente do país a sofrer impeachment


Há exatos 20 anos o Brasil assistiu à abertura do processo de impeachment do então presidente Fernando Collor de Melo, aprovado por 441 votos na Câmara dos Deputados. Collor foi o primeiro presidente da República eleito pelo voto direto após o regime militar, ao derrotar em segundo turno o então candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva.
As primeiras denúncias contra Collor surgiram após os 100 primeiros dias de mandato e diziam respeito a um esquema de corrupção montado pelo ex-tesoureiro de campanha, Paulo César Farias – conhecido como PC Farias. As denúncias, intensamente divulgadas pela imprensa, culminaram com a criação de uma comissão parlamentar mista de inquérito, a CPI do PC.
As denúncias de corrupção, associadas ao desgaste do então presidente em função da implementação de planos de estabilização da economia, levaram mais tarde à mobilização popular e à aprovação do pedido de impeachment. Os planos econômicos, chamados de Collor I e Collor II, consistiam basicamente em tentar controlar a inflação, que já vinha alta desde o governo anterior de José Sarney. No primeiro momento os planos surtiram efeito, mas o confisco do dinheiro da população nos bancos e a volta da alta da inflação começaram a provocar insatisfação do povo com o presidente.
Muitas empresas e até pessoas físicas faliram quando o governo determinou que todas as contas bancárias poderiam ter saldo máximo de Cr$ 50 mil (cinquenta mil cruzeiros, a moeda da época). Impedidos de arcar com os compromissos financeiros, os empresários foram os primeiros a abandonar o apoio a Collor. Além disso, denúncias como as de desvio de dinheiro público para a construção dos jardins na residência oficial, chamada de Casa da Dinda, e o pagamento de vultosas despesas do casal presidencial, com dinheiro das empresas de PC Farias, levaram o povo às ruas pedindo a saída do presidente.
Duas entrevistas foram determinantes para a mobilização popular. Primeiro o irmão do presidente, Pedro Collor, à revista Veja, denunciando o chamado esquema PC e o desvio de verbas públicas para as empresas do ex-tesoureiro de campanha. Depois, o motorista Francisco Eriberto França confirmou à revista Isto É ter feito pagamentos para Fernando Collor e sua esposa, Rosane Collor, com cheques e valores que buscava nas empresas de PC Farias.
A conclusão dos trabalhos da CPI do PC, com relatório que considerou as denúncias procedentes, foi outro fator que incentivou a mobilização popular. O movimento Fora Collor era formado principalmente por estudantes, os chamados "Caras Pintadas", e por mais pessoas ligadas às universidades, os professores. Diante do clamor da sociedade civil, os presidentes da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Marcelo Lavanère, e da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Barbosa Lima Sobrinho, entregaram ao presidente da Câmara dos Deputados, Ibsen Pinheiro, o pedido de impeachment com mais de 20 mil assinaturas.
Pinheiro acolheu o pedido e designou o então deputado Nelson Jobim como relator, que posteriormente apresentou parecer favorável ao impedimento do presidente da República de prosseguir no mandato. No dia 29 de setembro de 1992, Ibsen Pinheiro abriu a sessão de votação pelo impeachment de Fernando Collor de Melo em um Congresso Nacional cercado por milhares de manifestantes Caras Pintadas. Com 441 votos favoráveis, 38 contrários, 23 ausências e 1 abstenção, a Câmara dos Deputados decidiu pelo afastamento imediato do presidente da República de suas funções e autorizou o Senado Federal a abrir processo de cassação de mandato e dos direitos políticos.
No dia 2 de outubro, Collor foi comunicado de seu afastamento temporário pelo período que durasse o processo de impeachment e o então vice-presidente da República, Itamar Franco, assumiu o cargo. Itamar permaneceria na cadeira presidencial até o fim do mandato, em 1994. A cassação de Fernando Collor de Melo foi confirmada por 76 votos favoráveis e dois contrários no Senado Federal, em 29 de dezembro de 1992. O ex-presidente ainda tentou uma manobra para evitar a perda de seus direitos políticos. Depois de aberta a sessão no Senado, o advogado de defesa de Collor, José Moura Rocha, apresentou aos senadores a carta de renúncia dele. A tentativa, no entanto, foi em vão, e a cassação foi confirmada.
Em 1994, o ex-presidente foi absolvido no Supremo Tribunal Federal (STF) da acusação de corrupção passiva por falta de provas. A absolvição na ação penal, entretanto, não o livrou da suspensão dos direitos políticos por oito anos, a contar da data do que seria o término do seu mandato presidencial, em 1994. Collor voltou à cena política do país apenas em 2002, quando tentou se eleger governador de seu estado, Alagoas, mas foi derrotado. Em 2006, ele se elegeu senador e passou a ocupar uma cadeira no plenário que cassou seus direitos políticos. Em 2010, o senador Collor tentou novamente governar seu estado, mas ficou em terceiro lugar nas eleições. O mandato dele no Senado termina em fevereiro de 2015.
FONTE: AGÊNCIA BRASIL

sexta-feira, setembro 28, 2012

França: orçamento socialista taxa mais ricos e empresas


O presidente François Hollande apresentou um projeto de orçamento para 2013 marcado por um nível de arrocho jamais visto nos últimos 30 anos e por um aumento dos impostos que, globalmente, recairá sobre os bolsos das famílias de maior renda e das empresas com maiores lucros. O primeiro orçamento socialista modifica o que foi realizado até agora pela direita: dois terços das arrecadações virão do aumento dos impostos para os ricos e as empresas, o que implica o fim de numerosas isenções fiscais. 


O socialismo francês acaba de formatar uma versão inédita da disciplina orçamentária: o rigor à esquerda. O presidente François Hollande apresentou ao Conselho de Ministros um projeto de orçamento para 2013 marcado por um nível de arrocho jamais visto nos últimos 30 anos e por um aumento dos impostos que, globalmente, recairá sobre os bolsos das famílias de maior renda e das empresas com maiores lucros. 

No total, esse plano qualificado como “orçamento de combate” se articula em torno da arrecadação de 20 bilhões de euros de novos impostos e de 10 bilhões cortados em gastos administrativos. Os 20 bilhões serão pagos, em partes iguais, 10 bilhões os mais ricos e 10 bilhões as empresas mais lucrativas. A essa soma deve-se agregar ainda outros 2,5 bilhões de euros que serão cortados do seguro social.

No total, se se adicionarem os objetivos deste orçamento mais as medidas votadas em julho passado, o Executivo aposta em obter uma arrecadação suplementar de 40 bilhões de euros. O objetivo não é social, mas orçamentário: trata-se de levar o déficit atual, 4,5% em 2012, para 3% em 2013. A meta, no entanto, se apoia em um cálculo de crescimento de 0,8%, uma variável que os economistas julgam demasiado otimista e tão incerta quanto um número de loteria.

O certo é que, após dez anos de governos de direita e de orçamentos conservadores que decapitaram as classes médias e populares, François Hollande elaborou o primeiro orçamento da esquerda. Não há, cabe dizer, nenhuma reorientação substancial. Trata-se sempre de reduzir a dívida e os déficits, mas sem sancionar aqueles que antes pagavam a conta nem desmantelar o pouco que resta do Estado de Bem-Estar. 

O Executivo assegurou que os mais de 24 bilhões que serão arrecadados com os novos impostos virão “unicamente de um em cada dez cidadãos e das maiores empresas”. O cálculo está longe de ser verossímil. O primeiro ministro francês, Jean-Marc Ayrault, assegurou quinta-feira que “90% dos franceses, as classes médias e populares, não pagarão mais impostos. O esforço recairá sobre os 10% que têm mais renda e, entre estes, sobre o 1% mais ricos”.

No entanto, a França sabe hoje que todo mundo terminará pagando algo, ainda que desta vez a redistribuição do esforço será mais equitativa porque rompe com a política da vítima única tão comum quando a direita está no poder. A demonstração em cifras mostra que o Executivo socialista apontou suas calculadoras para as pessoas que tem maiores recursos: as pessoas que têm ganhos equivalentes a 150 mil euros (1%, o que equivale a 50 mil contribuintes) pagarão muito mais impostos do que antes. A partir de 250 mil euros os impostos aumentam exponencialmente. A isso se soma uma taxa de 3% que sobe para 4% para quem ganha na casa do meio milhão de euros. As 1.500 pessoas que ganham esta soma pagarão uma taxa excepcional de 75%.

Antes que fosse divulgado o projeto de orçamento para 2013, os empresários franceses lançaram uma ofensiva e questionaram a filosofia da reforma fiscal. O organismo que agrupa o patronato, o MEDEF, vem dizendo que a chave está tanto na redução do gasto público quanto nos custos necessários para manter um posto de trabalho.

A situação da França é complexa. Há hoje mais de 3 milhões de desempregados e um crescimento que está estagnado. François Hollande deve, ao mesmo tempo, cumprir suas promessas de justiça social sem perder de vista a dívida e o déficit. O contexto, porém, é adverso. O Instituto Nacional de Estatística (INSEE) revelou esta semana que durante o segundo trimestre de 2012 a economia teve um crescimento nulo. O ex-presidente liberal Nicolas Sarkozy saiu em maio passado, mas deixou uma dívida colossal. Nos cinco anos de seu mandato, a dívida passou de 64% do PIB para 91%. François Hollande disse nesta sexta-feira que o país teve “600 bilhões de dívida suplementar durante o último quinquênio. Eu me comprometo a que, no final de meu mandato, não haja nenhum euro a mais”. 

A dívida da França tem repercussões enormes. Segundo explicou o governo, o que se cortará e o que se arrecadará no ano que vem servirá apenas para pagar os juros dos empréstimos contraídos, a saber, cerca de 46 bilhões de euros. A missão de François Hollande se parece com a de um desses filmes norteamericanos onde o herói tem que fazer um monte de proezas impossíveis para sobreviver e seguir sendo herói: o chefe de Estado tem que acalmar os mercados, a Alemanha e a Comissão Europeia, zelosa guardiã dos interesses liberais; ao mesmo tempo, Hollande deve corrigir o caminho traçado pela direita que governou durante a última década e manter vivo o moribundo Estado de Bem-Estar. E como se isso não fosse o bastante, também precisa ser fiel aos compromissos de igualdade, justiça e solidariedade.

O primeiro orçamento socialista modifica o que foi realizado até agora pela direita: dois terços das arrecadações virão do aumento dos impostos para os ricos e as empresas, o que implica o fim de numerosas isenções fiscais aprovadas pela direita para essa categoria. O terço final sai dos cortes nos gastos administrativos. Com exceção dos ministérios da Educação, Justiça e Segurança, todos os demais entraram no regime de cortes. Os socialistas estão produzindo um novo filme: “Os caçadores das arcas vazias”. Por enquanto a conta será paga pelos ricos. No entanto, só se conheceu o primeiro capítulo de uma produção que pode trazer muitas surpresas. Os fundos não saem do nada e é muito possível que, de alguma forma, todo mundo termine pagando algo.

Fonte: Carta Maior / Tradução: Katarina Peixoto / Eduardo Febbro, direto de Paris.

Sobre o mensalão, hipocrisias e fraudes


Como era de se esperar, a combinação do julgamento do chamado mensalão pelo STF com a campanha para as eleições municipais, tem gerado muita polêmica. Mais ainda porque agora, diferente do entendimento que se tinha antes, começa a se disseminar a percepção que de o julgamento – e o vasto noticiário a respeito - incide na formação de opinião dos eleitores. Vou me permitir, neste artigo, uma opinião a respeito.

Hipocrisia I

Começo falando das hipocrisias que tem cercado as discussões sobre o assunto. Primeiro a hipocrisia da direita tradicional do país, representada partidariamente pelo DEM, PSDB, PPS e assemelhados. Declarações dos dirigentes políticos destes partidos apresentam o julgamento como uma evidência de que a corrupção na política brasileira é obra exclusiva do PT e de Lula, e que esta prática seria extirpada do cenário político do país com a condenação dos acusados, Zé Dirceu à frente. Fala-se até em resgate da política no Brasil. Inacreditável, simplesmente deletam, só para dar um exemplo, a existência do mensalão de Minas, em torno das atividades do ex-governador Azeredo, do próprio PSDB.

Chegam a soar patéticas as peças da propaganda eleitoral do candidato do PSDB na cidade de São Paulo, José Serra, atribuindo ao candidato do PT, Fernando Hadad, a pecha de ser portador de relações perigosas com pessoas envolvidas no crime de corrupção em pauta. Um dos condenados no julgamento do mensalão apóia a candidatura do próprio Serra. O PSDB chega a apresentar o mensalão como o maior processo de corrupção que já ocorreu na história do nosso país. No entanto, para sermos justos, o mínimo que precisa ser dito é que este título é disputado, palmo a palmo, com a bandalheira com patrimônio e recursos públicos realizada nos processos de privatização nos governos do tucanato, nos oito anos que antecederam o primeiro governo Lula.

Esta é a verdade, evidente para qualquer cidadão medianamente informado em nosso país. A corrupção tem sido marca registrada de todos os governos e governantes que passaram pelo Palácio do Planalto. Não vale a pena perder tempo falando de Collor de Mello, mas é preciso registrar que esta prática foi utilizada com particular intensidade nos governos do PSDB/DEM /PMBD encabeçados pelo ex-presidente FHC. Isto se pode observar nos processos de privatização, passando pelas maracutaias para salvar banqueiros amigos, até a compra de votos no Congresso Nacional para aprovar emenda constitucional que possibilitou mais um mandato para o então chefe de governo.

A cumplicidade de boa parte da imprensa nacional (Veja e rede Globo à frente) que dá guarida a esta versão falaciosa sustentada pela direita conservadora, apenas serve para nos lembrar de que os grandes meios de comunicação não estão aí para informar o público. Estão aí para difundir as informações que atendam aos interesses – quase nunca publicáveis - dos proprietários destes meios de comunicação. Da mesma forma que alguns outros meios de comunicação usam os mesmos métodos para defender o governo e o PT, movidos também por interesses nada republicanos.

Hipocrisia II

Mas há outra hipocrisia em toda esta discussão, e por isso o plural no título deste artigo. Os defensores do PT e dos acusados no mensalão, contra todas as evidências e fatos concretos teimam em dizer que não houve corrupção, que se trata de tentativa de golpe da direita contra Lula, que tudo isso não passa de invenção da mídia golpista. Com o maior cinismo, alguns dizem que tudo se resumiu a caixa dois de campanha, como se combater esta prática não fosse uma das razões que o PT alegava para a sua própria existência. Fosse isso apenas, e já seria grave o suficiente para ser repudiado por todos.

E não são apenas os fatos relacionados ao chamado mensalão. Que nome dar à troca do apoio de Maluf ao candidato do PT em São Paulo, pela nomeação de um apaniguado deste senhor para um alto cargo do Ministério das Cidades? Este “afilhado” de Maluf foi nomeado para agregar competência técnica, preocupação social ao Ministério das Cidades? Alguém acredita nisso? Que falar dos acordos vergonhosos feitos pelo Governo Dilma para segurar investigações que poderiam acabar com o mandato (e muito mais) do senador José Sarney, fato este ocorrido ainda no ano passado? Cadê a faxina?

E, à exceção do trabalhador comum, que muitas vezes têm em relação à Lula uma confiança quase messiânica, todos os demais defensores do legado Lula o fazem com a consciência de que, sim, a corrupção foi um elemento importante na constituição da base de sustentação do governo Lula (e agora Dilma). Muitos são dirigentes e ativistas das lutas sindicais e populares, muitas vezes estão nas lutas dos trabalhadores junto conosco. Isso é o que causa mais tristeza.

Parecem ter esquecido que no sistema político vigente há séculos em nosso país, os altos cargos da administração pública são utilizados como instrumentos dos grupos políticos que estão no poder para oferecer benefícios – quase sempre pouco lícitos – aos grupos empresariais. Estes, em troca, financiam as campanhas eleitorais dos políticos donos dos cargos. O que mudou desta prática nos governos Lula e agora, no governo Dilma? Nada! O nome disso, caros companheiros, é corrupção. O mesmo nome que tinha quando o governo era FHC e todos nós, juntos, denunciávamos esta prática.

Para sermos um pouco mais precisos teríamos de registrar que a corrupção é parte essencial do sistema político e do sistema de governo da sociedade capitalista. Apropriar-se dos recursos públicos e/ou usar de favores dos governantes para potencializar seus ganhos privados é uma política universal do grande empresariado de todas as partes do mundo. Qual explicação, se não essa, para a prática generalizada dos bancos e grandes empresas em investir (sim, o termo é esse mesmo, investir) centenas e centenas de milhões de reais para financiar candidatos em todas as eleições?

Identidade política ou ideológica não vale como resposta, pois os grandes financiadores têm dado dinheiro igualmente para o PT, PSDB, PMDB (ou outro partido qualquer que apresente chance de ganhar as eleições). Isso é assim para que, depois, o governante eleito fique comprometido em atender os interesses - não do eleitor que lhe deu o voto - mas sim o do financiador que lhe deu milhões de reais (afinal de contas, em quatro anos haverá outra eleição e alguém terá de pagar sua campanha milionária).

É preciso, portanto, repudiar sim, com veemência as práticas corruptas que estiveram presentes no governo Lula e que estejam presentes no atual governo. Da mesma forma que é preciso, com igual veemência,a repudiar a corrupção dos governos do PSDB, DEM, PMDB e companhia. Não se pode admitir a idéia de que por sermos “todos iguais”, seria hipocrisia um falar da corrupção do outro. Não! Nós não somos todos iguais. Eu sou dirigente de um partido que não tem nem aceita esta prática, assim como há muito dirigentes e militantes políticos em outras organizações que não coadunam com a corrupção.

O STF está frente ao desafio de, além de condenar aqueles contra os quais haja provas de corrupção no processo em curso do mensalão, também julgar com celeridade, e condenar aqueles contra os quais haja provas de corrupção no processo de mensalão de Minas. Isso para não falar de tantas outras denúncias paradas nos escaninhos da Justiça brasileira. Se não o fizer, estará apenas confirmando mais uma vez o caráter político, e não jurídico, da atuação dos tribunais em nosso país.

Fraude

Mas não quero terminar estas linhas sem tocar numa questão que surge do julgamento em andamento no STF. Uma fraude, gigantesca, que teria sido praticada contra o país, no Congresso Nacional. O relator do julgamento, Ministro Joaquim Barbosa, afirmou em seu voto que a aprovação da Reforma da Previdência em 2003 (além de outras leis importantes aprovadas neste período) foi garantida na base da compra de votos de parlamentares. Aliás, a própria Procuradoria Geral da República em sua denúncia já havia chamado a atenção para a coincidência entre votações importantes no Congresso e o repasse de dinheiro do esquema do mensalão a parlamentares.

Já havíamos feito este questionamento antes junto à Procuradoria Geral da República que, naquele momento, não aceitou dar curso à denúncia. Confirmada esta hipótese pelo julgamento, estará provado que a aprovação daquela reforma se deu em base a uma fraude. Uma fraude não pode – pelo ordenamento legal brasileiro - constituir ato jurídico perfeito. Teremos então que direitos de milhões de trabalhadores foram e estão sendo prejudicados por uma lei que não pode ter sua validade mantida, pois foi fruto de uma fraude. Há que se corrigir esta ilegalidade!

FONTE: Zé Maria é metalúrgico, participa da Coordenação Nacional da CSP-Conlutas / Artigo escrito para o site Congresso em Foco

Aborto legal e seguro para salvar vidas



Muitos pensam que a criminalização é a melhor forma de evitar que o aborto aconteça, o que não é verdade. Quando analisamos os dados a conclusão é oposta. Na América Latina, onde o aborto é considerado crime na imensa maioria dos países, a taxa de aborto (número de abortos ocorridos a cada mil mulheres) é a mais alta do mundo. Nas regiões onde o aborto é legalizado ocorre o oposto, as taxas de aborto são menores. 

No continente, apenas quatro países legalizaram o aborto: Cuba, México (apenas na Cidade do México), Porto Rico e Uruguai. Até mesmo o aborto terapêutico, em caso de risco a vida da mulher, é proibido em muitos países, como é o caso do Chile, El Salvador, Haiti, Honduras, Nicarágua, República Dominicana e Suriname. No último mês, um triste fato mostrou a intransigência dessa legislação conservadora: uma adolescente de 16 anos, grávida e portadora de uma grave doença, morreu na República Dominicana, porque os médicos se recusaram a iniciar um tratamento contra o câncer.

Esses números demonstram que o argumento comumente usado por aqueles que são contrários ao aborto, de que a legalização deste procedimento tornaria o aborto uma prática generalizada e o transformaria em um método contraceptivo, não passa pela prova da realidade. 

Na América Latina ocorrem 4,4 milhões de abortos por ano. 95% deles são considerados inseguros, e aproximadamente 1 milhão de mulheres são internadas em razão de complicações do aborto mal feito.

O aborto é a primeira causa de mortalidade materna no Chile, na Argentina, na Nicarágua e no Paraguai. Nos outros países é uma das primeiras. São milhões de mulheres que colocam suas vidas em risco. 

Outro argumento comumente usado contra o aborto, a defesa da vida, se mostra falso diante desses números. A criminalização mata as mulheres e não inibe o aborto. 

Quem são as mulheres que abortam?

Uma pesquisa sobre o perfil das mulheres que abortam no Brasil aponta que elas têm entre 20 e 29 anos, vivem em união estável, têm até oito anos de estudo, são trabalhadoras, católicas, com pelo menos um filho e usam métodos contraceptivos. Essas mulheres recorreram ao aborto como uma tentativa desesperada de interromper uma gravidez indesejada. 

A situação no subcontinente
 
A América Latina está repleta de governos de “frente popular”, que se dizem de esquerda. Mesmo havendo mulheres à frente de alguns desses governos, não houve avanço em quase nada nos direitos das mulheres. Dilma no Brasil é um exemplo emblemático. O aborto foi um dos principais temas debatido no segundo turno que a elegeu presidente e o PT optou pela aliança com os setores mais conservadores lançando um compromisso por escrito (Carta ao Povo de Deus) de não modificar a legislação sobre o aborto.

No Uruguai, a recente legalização do aborto é uma exceção, infelizmente. Com a crise econômica, os governos do mundo inteiro tem feito o oposto. Nos Estados Unidos, país em que o aborto é legalizado desde 1973, Obama encaminhou ao congresso, no bojo da reforma da saúde, a restrição ao uso de recursos públicos para o aborto. Os recursos só seriam permitidos nos casos de estupro, incesto, ou para salvar a vida da gestante. O mesmo tem acontecido na Europa: o aborto é um dos direitos que está sendo ameaçado pelos planos de austeridade. 

Direitos não garantidos pelo Estado 



As mulheres não têm o direito à maternidade, plenamente garantido, e também não tem direito ao aborto. Mas essa realidade atinge de forma muito diferente as mulheres ricas e as pobres. Quem pode pagar tem acesso a todos os exames do pré-natal em hospitais de qualidade, pode fazer ultrassons de ultima geração e usufruir todos os recursos que permitem prevenir e identificar doenças da mãe e do bebê. 

Para as mulheres pobres tudo isso é negado. Por isso, a defesa de direitos sociais como o acesso à saúde pública de qualidade, à escola pública desde a primeira infância, à licença a maternidade de seis meses, são fundamentais. Defendemos que a mulher tenha todas as condições de ser mãe se assim o desejar.

A defesa do direito ao aborto não é o um incentivo ao aborto. O que incentiva o aborto são as condições de pobreza e miséria as qual as mulheres estão submetidas. O aborto deve ser evitado com o acesso à educação sexual, distribuição gratuita de contraceptivos, incluindo a pílula do dia seguinte. Mas quando só restar o aborto como alternativa para evitar uma gravidez indesejada, as mulheres devem ter este direito garantido pelo sistema público de saúde.

Não podemos fechar os olhos, milhares de mulheres fazem aborto. E quem pode pagar tem acesso a ele em clínicas clandestinas, que cobram um preço alto por este procedimento e lucram com o preconceito e a intolerância. A criminalização do aborto não preserva a vida, ao contrário, coloca em risco a vida de milhões de mulheres pobres que, desesperadas, recorrem a métodos inseguros para ter direito a decidir sobre o seu corpo e seu futuro. 

FONTE: OPINIÃO SOCIALISTA

Ato Nacional em defesa da Lei Piso Salarial dos Educadores será realizado no Rio Grande do Sul, em 1° de outubro

 O governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro (PT-RS), mais uma vez, tenta desrespeitar o piso salarial nacional dos educadores estipulado por lei, em 2008. Para atacar esse direito, o governo do Rio Grande do Sul entrou com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin), a 4848, para não aplicar o piso. Os governadores dos estados de Mato Grosso do Sul, Santa Catarina, Piauí, Goiás e Roraima também assinam essa ação.  

Para lutar contra esse ataque aos educadores, foi convocado um ato político nacional em defesa do Piso Salarial dos Educadores e em repúdio à Adin 4848. No ato será denunciada essa ação inaceitável desses governos, uma vez que a população espera o respeito ao direito de se ter uma educação de qualidade e a valorização dos trabalhadores que exercem esse ofício.

A atividade acontece no dia 1º de outubro, às 18 horas, no teatro da AMRIGS (Avenida Ipiranga, 5311), em Porto Alegre. Diversas entidades e personalidades ligadas à educação serão convidadas para o ato político. O membro da CSP-Conlutas, Zé Maria de Almeida, irá participar do ato representando a Central.

De acordo com a vice-presidente do CPERS/Sindicato Neida de Oliveira, o governador questiona o índice de reajuste do piso alegando que a União não tem competência para estabelecer um piso nos estados e questiona seu caráter nacional. “O governador não está atacando só os professores, ele está atacando uma Lei que assegura o caráter no piso e estabelece um parâmetro mínimo nas carreias. Estamos na defesa para que seja cumprida a lei do piso, que é uma reivindicação histórica dos trabalhadores”, explica.

Os estados do Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul e Ceará, após a aprovação da lei do piso em 2008, chegaram a protocolar uma Adin no STF (Supremo Tribunal Federal), que foi apreciada pelo tribunal em 27 de abril de 2011, e considerada improcedente.

Essa nova Adin, além de não respeitar a lei e a determinação do STF, busca outra medida para protelar o cumprimento de uma importante conquista dos educadores brasileiros.

A CSP-Conlutas junto com o setorial de Educação tem denunciado que a maioria dos estados não aplica nem o piso salarial. Não bastasse isso, esses governadores querem tirar o que é assegurado por lei aos educadores.

Por isso, torna-se necessária uma resposta urgente de todos que defendem o respeito à lei do piso.


FONTE: CSP-CONLUTAS



NOTA DO CPERS: 

governo Tarso quer atribuir às escolas e aos educadores a responsabilidade pela crise da educação

Mais uma vez, o governo do Estado tenta culpar os trabalhadores em educação pela caótica situação da escola pública. Através de mais uma tentativa de avaliação externa, sem qualquer respeito à categoria ou uso de critérios democráticos, a Secretaria de Educação impõe um novo sistema para atribuir notas às escolas no Rio Grande do Sul. O objetivo é bem conhecido dos educadores: fazer com que os problemas existentes nas escolas sejam lançados sobre os professores, funcionários e as direções das escolas. 
                 

Como se vivesse no mundo da fantasia, o governo afirma querer identificar a origem dos problemas educacionais. Uma verdadeira pérola de cinismo e hipocrisia! Os problemas vividos pelos educadores e pela comunidade escolar têm origem na política deliberada por este governo de promover a degradação do ensino público. O desvio de verbas, o descumprimento do repasse estabelecido pela Constituição Estadual, o não pagamento da lei do piso nacional, os ataques aos direitos de educadores e estudantes e o assédio moral são as verdadeiras razões para a crise da escola pública. Todas elas promovidas pelo próprio governo Tarso e pela Secretaria de Educação.

A instalação de um sistema de avaliação vem, na realidade, a serviço de uma política acertada com o Banco Mundial e busca acentuar critérios de meritocracia na educação. O atual governo consegue a façanha de descumprir todas as promessas feitas ao povo gaúcho e seguir os mesmos planos do governo Yeda.

Mas o governo Tarso já não está mais conseguindo sustentar as suas mentiras. A defesa da escola pública é uma luta que continua contando com o apoio do povo gaúcho. Ao CPERS/Sindicato cabe esclarecer que a verdadeira valorização da escola pública continuará passando pela luta contra os ataques e medidas destes governos. E, portanto, contra o novo e perverso Sistema de Avaliação das Escolas.

CPERS/Sindicato

quinta-feira, setembro 27, 2012

Salve Cosme e Damião!














Os santos gêmeos Cosme e Damião foram médicos e sua santidade é devida por exercer a medicina sem cobrar por isto. Seu dia é celebrado no dia 26 de setembro pela Igreja Católica, no dia 27 de setembro pelas religiões afro-brasileiras e no dia 1º de novembro pela Igreja Ortodoxa.
SRZD falou com Manuel de Souza, da Federação Brasileira de Umbanda, para entender sobre as festas e a tradição da doação de doces. "Enfeitamos nossos templos com muita alegria para oferecer uma festa ao Ibiji (divindade gêmea da vida, protetor dos gêmeos, na Mitologia Yoruba). Como Cosme e Damião eram crianças, oferecemos doces as nossas crianças para homenageá-los", explicou Manuel que disse ainda que o Orixá não protege só as crianças, mas a todos.
Diz a lenda que os santos eram dois pequenos príncipes gêmeos que traziam sorte a todos e resolviam os problemas mais difíceis das pessoas. Em troca, pediam doces, balas e brinquedos. Durante uma brincadeira e uma cachoeira, um deles caiu e morreu afogado. O gêmeo que sobreviveu não tinha mais vontade de comer e vivia chorando de saudades do seu irmão, pedia sempre a Orumilá (orixá da mitologia Yoruba) que o levasse para perto do irmão. Orumilá resolveu levá-lo para se encontrar com o irmão no céu, deixando na Terra duas imagens de barro. Desde então, todos que precisam de ajuda deixam oferendas aos pés dessas imagens para ter seus pedidos atendidos.
A Igreja Católica celebrava a data no dia 27 de setembro, porém, em 1969, com a reforma litúrgica, o Calendário Romano passou a comemorá-los no dia 26, pois, considerada a importância de São Vicente de Paulo, também celebrado dia 27, preferiram não pôr as duas Memórias na mesma data. São Vicente ficou com o dia 27. Mesmo assim, católicos tradicionalistas, devotos mais antigos e as religiões afro-brasileiras que também os cultuam, como o Candomblé e a Umbanda, continuam a comemorá-los no dia 27. Apesar da mudança na Igreja Católica, ao menos no Brasil, por conta da tradição, populares continuam fazendo comemorações no dia 27 de setembro.
No Brasil, são considerados os santos padroeiros dos farmacêuticos e dos médicos. A história de São Cosme e São Damião tem versões diferentes, dependendo da crença de cada religião.
No Candomblé, Batuque, Xangô do Nordeste, Xambá e nos centros de Umbanda, São Cosme e São Damião são associados aos ibejis, gêmeos amigos das crianças que teriam a capacidade de agilizar qualquer pedido que lhes fosse feito em troca de doces e guloseimas. O nome Cosme significa "o enfeitado" e Damião, "o popular". Estas religiões os celebram no dia 27 de setembro, enfeitando seus templos com bandeirolas e alegres desenhos, tendo-se o costume, principalmente no Rio de Janeiro, de dar às crianças que lotam as ruas em busca dos agrados: doces e brinquedos. Na Bahia, as pessoas comemoram oferecendo caruru, vatapá, doces e pipoca para a vizinhança.
FONTE: SRZD

quarta-feira, setembro 26, 2012

Movimento feminista merece respeito

A perspectiva histórica é fundamental quando falamos de política e feminismo, porque feminismo é, essencialmente, política

Movimentos questionando a organização social opressora estão de volta. É o caso dos mineiros espanhóis, da "Primavera Árabe", dos estudantes chilenos e das vadias canadenses. Os chamados "indignados" tomaram o mundo e questionam a sociedade em que vivemos. Nesse processo, também se abre o questionamento à opressão contra a mulher.

Em consonância com os levantes mundiais, os movimentos feministas ressurgem com mais força. Não se trata de algo dissociado, até mesmo das movimentações vistas pelo mundo por mudanças mais profundas na sociedade. Isso porque, quando analisamos dados estatísticos, percebemos que aqueles que mais sofrem com as políticas de austeridade, a falta de emprego e o aumento da violência policial, são justamente os que têm gênero, raça e orientação sexual diferentes ou "minoritários".

No âmbito do feminismo, também surgiram novas formas de organização, mas que talvez não sejam tão inovadoras assim, como propõe a organização Femen Brazil, cuja líder, Sara Winter, protagonizou uma recente polêmica por afirmar que o feminismo é "elitista e hermético". O movimento feminista brasileiro tem história e vitórias importantes, que precisam ser retomadas como base para o amadurecimento de futuras ações, mesmo que seja repensando métodos, organizando as falas para o mundo de hoje.

Uma coisa é certa: as chamadas "tarefas feministas", levantadas durante a revolução sexual no anos 60, perduram. Dessa forma, por compreender que diversas bandeiras colocadas naquele momento ainda não foram alcançadas, o conceito do neofeminismo deve ser condenado. No Brasil, ainda travamos diversas lutas, como a da descriminalização das mulheres, da legalização do aborto, da efetivação de uma política pública que combata a violência machista, pelo casamento civil igualitário, contra a mercantilização do corpo da mulher, pela nossa liberdade sexual e tantas outras. Todos esses elementos estão ao fácil alcance, ainda mais na época da internet. A luta pela emancipação das mulheres está em todas as partes.

Além disso, o movimento feminista brasileiro é sortido, diverge entre si. Porém, não é elitista. Tanto que em 2012 celebramos o aniversário de 80 anos do  voto feminino. Conquistamos o voto e o ampliamos depois para as mulheres trabalhadoras. Surgiu então a licença-maternidade, o SUS, a redemocratização do país, a Lei Maria da Penha e tantas outras lutas importantes que as mulheres feministas estiveram à frente. Nossa história é repleta de conquistas importantes e é nos baseando nelas que analisamos o presente e as perspetivas e estratégias futuras.

Olhamos para a história que pessoas como Amelinha Telles, Tatau Godinho, Nalu Faria, Heleieth Saffiotti, Beth Lobo, Helena Hirata, Sônia Coelho, entre tantas outras companheiras, e podemos observar, existindo divergências ou não, um caminho que deve ser respeitado e experiências e reflexões que devem servir como parâmetro para novas reflexões e atuações no movimento. A perspectiva histórica é fundamental quando falamos de política e feminismo, porque feminismo é, essencialmente, política.

O debate é concreto, porque as mulheres, atualmente organizadas em diversos coletivos com posicionamentos políticos variados, se olham e percebem que precisam se juntar em torno de uma agenda mínima para a disputa da sociedade. Existe de sobra a disposição para organizar e conversar com mulheres que não tenham a bagagem teórica ou militante, ao contrário do que disse Sara Winter.

A conclusão é a de que se abre hoje um momento importante para nós, feministas no Brasil e no mundo. Momento propício e fundamental para a organização, com o intuito de disputar, organizar e ganhar cada vez mais espaço no país. O caminho para isso é por meio do debate e combate, principalmente com os expoentes do conservadorismo. Disputaremos uma sociedade em conjunto, com o desejo de criar espaços de discussão fortes o bastante para provocarem inúmeras rupturas.

FONTE: Opera Mundi / Luka Franca é jornalista e militante do movimento feminista  

Milhares de espanhóis saem às ruas para pedir renúncia de Mariano Rajoy

Durante Assembleia Geral das Nações Unidas, presidente da argentina criticou reação do governo aos protestos

Defendendo a criação de uma nova assembleia constituinte e exigindo a renúncia do presidente de governo Mariano Rajoy, milhares de espanhóis se concentraram nesta terça-feira (25/09) diante do parlamento nacional.
Convocado por vários sindicatos para denunciar o "sequestro da democracia" a partir de cortes orçamentários, o protesto começou com uma passeata pelas ruas do centro de Madri e terminou do lado de fora do Legislativo. Alguns deputados da bancada de esquerda do congresso se aproximaram da multidão que se amontoava do lado de fora do edifício. Ao todo, confrontos com policiais deixaram nove feridos e 15 detidos.
Autoridades estimam que cerca de seis mil pessoas participaram das manifestações, que receberam o nome de "Cerque o Congresso". O projeto inicial dos sindicatos era bloquear a câmara dos deputados durante a sessão ordinária que promove todas as terças-feiras.
Mais de mil policiais, contudo, compareceram ao local para tentar evitar a ocupação do edifício. Manifestantes tentaram furar os bloqueios instalados pela polícia. Oficiais chegaram a golpeá-los com cassetetes. Participantes lançaram objetos contra policiais. O confronto ocorreu nas imediações da Porta do Sol, local que abrigou os acampados do movimento dos "indignados", em 2011.
María Dolores de Cospedal, líder do governista PP (Partido Popular), irritou representantes sindicais e membros de outras forças políticas ao comparar a decisão de cercar o Congresso com a tentativa de golpe de estado perpetrado em 23 de fevereiro de 1981 por comandos militares favoráveis ao regime franquista.
O ministro da Justiça, Alberto Ruiz-Gallardón, defendeu o direito da manifestação, mas ressaltou que chegar a um confronto com a soberania nacional representaria "uma agressão ao sistema democrático".
Os protestos contra o governo de Rajoy nesta terça-feira não se limitaram apenas à capital Madri. Em Barcelona, ao grito de "ladrões" e "culpados", cerca de 500 manifestantes se concentraram em frente ao parlamento regional da Catalunha para também criticar a atuação dos deputados e membros do governo local.
Crítica argentina
A presidente da Argentina, Cristina Kirchner, denunciou durante seu discurso nos debates da Assembleia Geral da ONU a "repressão" por parte da polícia espanhola contra os protestos em Madri. "Enquanto falamos aqui está ocorrendo uma repressão contra os indignados (em Madri) que se opõem às políticas de ajuste", afirmou na ocasião.
Kirchner estabeleceu um paralelo entre os protestos dos últimos meses em países como Grécia e Espanha com as manifestações que ocorreram em seu país em 2001, ápice dos protestos contra o governo do então presidente Fernando de la Rúa e sua equipe econômica.
"A Argentina chegou a dever 160% do PIB, produto de políticas de endividamento e de ajuste permanente que agora vemos serem aplicadas de forma feroz em países como Espanha, Grécia e Portugal, que estão pondo em perigo a zona do euro", lamentou a líder argentina.
FONTE: OPERA MUNDI

terça-feira, setembro 25, 2012

Quem nos acha sensuais só pode ser idiota, dizem ativistas do Femen


"Nosso deus é mulher, nossa missão é protestar e nossas armas são nossos seios". Com este lema e fazendo topless, as meninas do grupo feminista ucraniano Femen se manifestam contra tudo e contra todos que ousem colocá-las em uma posição inferior à dos homens. Religião, moda, prostituição ou qualquer promoção do sexismo são alvo do grupo. E para aqueles que enxergam apelo sexual em seus protestos, as ativistas são taxativas: "quem acha que somos sensuais só pode ser um idiota". 
Elas se dizem terroristas sexuais e fazem do "sexextremismo" o seu método de luta. Em apenas quatro anos de existência, o grupo conseguiu chocar a conservadora sociedade ucraniana (e grande parte do mundo) com atos polêmicos, como tentar roubar o troféu da Eurocopa e cortar uma cruz ortodoxa com uma serra elétrica no centro da capital, Kiev. Mas elas parecem não ter medo de represálias nem de críticas.
O grupo Femen foi formado em 2008 com o singelo objetivo de protestar contra o corte de água nas residências estudantis durante o verão, mas o movimento rapidamente mudou de rumo e passou a lutar pela valorização da mulher ucraniana, não somente dentro do país, mas também da imagem que os estrangeiros têm das mesmas.
O turismo sexual na Ucrânia é considerado barato e, aliado à aclamada beleza das ucranianas, coloca o país entre os destinos preferidos de quem quer pagar por sexo - bom e barato, como vendem as agências. O Instituto Ucraniano de Estudos Sociais estima que pelo menos 50 mil mulheres trabalhem como prostitutas no país, sendo 17% delas menores de idade. Mas os números podem ser muito maiores. Com salários médios em torno de 2,5 mil grivnas (aproximadamente R$ 600), muitas mulheres veem na atividade a única maneira para complementar a renda familiar.
"Nossa vida é um ativismo político
As líderes do movimento Femen começaram o ativismo ainda na época do ensino médio, durante a adolescência. "Tínhamos 14 anos e estávamos lutando para que nossos direitos fossem garantidos, que os diretores das escolas nos escutassem", explica Oksana Shachko, 25 anos, uma das líderes do grupo. "Quem vê a gente na televisão não tem ideia da nossa história. Estamos há 10 anos trabalhando pelo que acreditamos. Todo a nossa vida é um ativismo político".
As ativistas acreditam que, graças à visibilidade do Femen, a mídia internacional colocou em discussão a situação das mulheres ucranianas e a indústria do sexo do país. Durante a Eurocopa, realizada na Ucrânia em junho de 2012, o topless das ativistas dividia a capa de jornais e revistas com os ídolos do futebol. "Somos contra a legalização da prostituição. Temos que nos perguntar o porquê das mulheres começarem a se prostituir. Temos que debater a problemática do turismo sexual. A questão é que o (nosso) governo tem interesse no dinheiro que entra com os turistas que buscam sexo com as nossas meninas", conta Oksana.
O Femen justifica seu método provocativo dizendo que esta é a única maneira de serem escutadas na Ucrânia. "Se fizermos cartazes e formos às ruas, ninguém vai nos escutar. Descobrimos o nosso corpo como arma e chamamos atenção do governo e do mundo para as nossas causas", diz Kateryna Dmitrenko, outra ativista do grupo. "A popularidade que temos é importante para o movimento, para divulgar as nossas ideias, mas não para a nossa própria imagem. Nós só somos interessantes juntas", conclui.
Resposta às críticas
Junto da enorme visibilidade, vieram também as críticas. Acusadas de querer somente fama e de ter um discurso raso, as meninas já têm a resposta na ponta da língua para cada crítica ao grupo. "Fomos protestar na Bielorrússia, onde o presidente é um ditador. E aqui na Ucrânia recebemos o patriarca Kirill, chefe da Igreja Ortodoxa russa, com uma faixa que dizia 'Morte a Kirill'. Que popularidade é essa?", pergunta Oksana. "A nossa popularidade nos põe em risco e muitas vezes na cadeia. Já poderíamos ser cantoras, atrizes, mas não queremos."
Segundo as ativistas, a polícia secreta ucraniana fica dia e noite à paisana próximo ao escritório do Femen em Kiev, numa rua ao lado da principal praça da cidade. Elas afirmam que as ações não podem ser planejadas na sede porque há microfones instalados ao redor do local. E contam ainda que, durante o campeonato europeu de futebol, elas eram acompanhadas por um policial até mesmo quando iam ao supermercado ou voltavam pra casa.
Sobre a crítica de que elas só querem a atenção midiática e não apresentam nenhuma proposta concreta, a resposta também é rápida: "Aqui na Ucrânia, não há nenhum debate público sobre nada. Meninas da nossa idade devem estar casadas e ponto final. Muita gente diz que só queremos chamar a atenção, mas isso aqui já é muita coisa. Nada chama a atenção na Ucrânia. Nosso movimento é uma provocação e estamos satisfeitas se o resultado é esse", explica Kateryna. E continua: "É suficiente para começar a discussão, que ainda é inexistente. Agora as pessoas falam na rua sobre a imagem da Ucrânia como paraíso do turismo sexual. Por quê? Porque gritamos e fizemos topless pela causa".
"Quem nos acha sensuais só pode ser um idiota"
Muitos veem certa incoerência em mostrar os seios para protestar contra a prostituição, mas as meninas do Femen argumentam que o topless que elas fazem não tem nenhum apelo sexual - é por isso que elas gritam durante o protesto, para deixar claro que elas estão lutando. "Quem olha pra gente toda pintada, com cara-de-poucos-amigos e acha que somos sensuais só pode ser um idiota. Mulheres peladas só podem estar na cama e na capa de revistas? Quanta hipocrisia! O topless é o reconhecimento da nossa condição de mulher".
As tensões com a vizinha Rússia também estão no programa das feministas, que acusam Vladimir Putin e a Igreja Ortodoxa Russa de exercerem forte influência nas decisões do governo ucraniano. "Eu fui duas vezes à Rússia e fui presa nas duas vezes. Em uma das ocasiões, passei 20 horas sendo entrevistada pelo serviço secreto", conta Oksana. "Este ano apareceu na mídia um grupo Femen de Moscou, mas elas não estão vinculadas ao movimento. São apenas mais uma criação do Kremlin para colocar a opinião pública a favor deles e contra a gente. Putin acha que ainda estamos na época da União Soviética".
O Femen continua atravessando as fronteiras e ganhando adeptos e detratores. Na semana passada, o grupo abriu um escritório em Paris, onde Inna Shevchenko, uma das líderes do movimento, estabeleceu como base depois de alegadas perseguições sofridas na Ucrânia. No Brasil, o grupo atravessa uma crise de credibilidade, com denúncias de autoritarismo da líder, Sara Winter, além das críticas a todo o movimento.
Mas as meninas parecem não se abalar. A um mês das eleições parlamentares da Ucrânia, elas prometem mais topless e mais polêmicas. "Precisamos somente de uma pessoa e fazemos um protesto. Temos o nosso corpo e vamos utilizá-lo para mudar a política do nosso país e quem sabe do mundo".
FONTE: JORNAL DO BRASIL

sexta-feira, setembro 21, 2012

Feminismo no Brasil é elitista e hermético, diz líder do Femen nacional

Para Sara Winter, a imprensa é fundamental para a popularização do debate sobre o feminismo no país

O Femen Brazil está em processo de renovação. As críticas de Bruna Themis, ex-número 2 do grupo no país, obrigou a reflexão das atuais representantes da organização que se define como neofeminista. Em entrevista exclusiva ao Opera Mundi, Sara Winter, líder do Femen Brazil, reconhece erros da sua atuação, admite que o grupo ainda é inexperiente e tem discurso raso e esclarece quais são os principais objetivos dos protestos.

Sara também destaca a importância das aparições em programas de televisão, nega que tenha dito que Hitler foi um bom marido e deixa aberta a possibilidade do Femen Brazil se unir com outros movimentos feministas.

Questionada sobre a relação do grupo brasileiro com as idealizadoras ucranianas, Sara afirma que, a partir de setembro, passou a receber cerca de 400 dólares por mês, dinheiro utilizado apenas para as necessidades do projeto. Apesar das dificuldades financeiras e de não receber nada como ativista, garante: nunca vai deixar o Femen Brazil.

Opera Mundi: Sara, vamos começar com um tema que foi muito debatido nas redes sociais. A Bruna Themis disse que vocês receberam um “puxão de orelha” da Ucrânia por terem colocado mulheres fora do peso nos protestos…

Sara Winter: Não sei de onde a Bruna tirou isso. Ela vai ter que provar. As meninas na Ucrânia nunca me disseram nada a respeito disso. Uma das ucranianas me disse uma vez que a minha calcinha estava muito apertada numa foto que ela viu do protesto e parecia que eu estava acima do peso. Mas ela falou em tom de brincadeira. Eu comentei com a Bruna e acho que ela entendeu mal.

OM: E qual é o envolvimento do Femen com Andrey Cuia, candidato a vereador em Santo André pelo PMN (Partido de Mobilização Nacional)? Qual é o papel do Andrey e do PMN no movimento?

SW: O Andrey sempre escrevia na página do Femen Ucrânia, deixando mensagens de apoio ao grupo. Quando começamos o Femen Brazil, ele também se mostrou simpático à causa, mas mantivemos o contato somente por e-mail. No dia da Marcha das Vadias, ele me reconheceu na Rua Augusta e veio falar comigo. E foi aí que ele entrou no movimento. Como ele tem mais experiência para lidar com a mídia, ficou o responsável por essa parte.

OM: E por que o PayPal do Andrey é utilizado pelo Femen Brazil?

SW: A gente precisava de alguma conta PayPal porque eu não tenho cartão, cheque, conta em banco, nada. E ele se ofereceu, nada mais.

OM: Mas você não acha que o Andrey poderia ter pensado em se aproveitar da popularidade do Femen Brazil para dar uma alavancada na candidatura dele?

SW: Não. Duvido muito. Quando o Andrey se ofereceu para ajudar, ele não tinha recebido o convite para a candidatura ainda. E por diversas vezes perguntou se queríamos que ele se afastasse de todas as funções do Femen para não comprometer o movimento. Mas o Femen não abandona e não deixa ninguém para trás. O Andrey ajuda muito o grupo. Por exemplo, quando a produção do Danilo Gentili [do programa "Agora é Tarde", da Band] entrou em contato comigo, eles queriam que eu fosse aqui de São Carlos até São Paulo por minha conta e que eu bancasse todos os gastos, inclusive de hotel. Eles queriam se aproveitar de mim porque sabem que eu não entendo como funciona a relação com a imprensa. O Andrey conseguiu que o programa pagasse a minha passagem e duas diárias de hotel. Esse é o papel dele no Femen. Quando o Andrey se candidatou a vereador, fizemos uma outra reunião e ficou decidido que ele já não teria poder de voto no grupo. Ele participa, mas já não decide nada.

OM: Você fala de “nós tomamos a decisão”, “a equipe se reuniu”, mas a Bruna disse que vocês nunca se reuniam e não decidiam nada em grupo. Quantas pessoas fazem parte desta equipe do Femen?

SW: Depois dessa situação com a Bruna, a gente teve que sentar e repensar tudo. Muitas pessoas saíram e, as que ficaram, eu chamo de heroínas. Não foi fácil e não está sendo fácil. Agora somos 10 ou 12 com poder de voto, não mais do que isso. Antes éramos 30. Quando eu voltei da Ucrânia e as pessoas viram os nossos protestos na Eurocopa, todo mundo queria ser Femen, mas essa vontade de lutar durou pouco.

OM: E quantas são as ativistas que fazem topless agora no Femen?

SW: Quatro. E outras ainda estão conhecendo o movimento. Mas o tempo todo tem pessoas que entram e acabam saindo.

OM: Por que elas entram e saem logo?
SW: Acho que a vontade de ser ativista passa rápido. Parece que elas não têm uma opinião forte sobre nada e que ainda estão submetidas ao que pensam os maridos e namorados.

OM: Mas algumas pessoas já disseram que você é bem autoritária. Isso não poderia ser uma razão? 

SW: Eu confesso que sou individualista e preciso aprender a trabalhar em equipe. Eu pedi muito à Bruna para que me ajudasse com isso, mas parece que não adiantou. Eu comecei o Femen sozinha aqui no Brasil e fiquei muito tempo sendo a única cara do movimento, mas isso acabou prejudicando o projeto.

OM: A falta de comunicação da equipe foi criticada pela Bruna e, quando a gente acompanha um pouco o grupo do Facebook, isso fica bem claro. Parece que vocês não se entendem como equipe. Cada um fala uma coisa…

SW: Sim, mas a gente mudou tudo. Com a nova equipe, temos uma comunicação excelente. Conversamos todos os dias por Skype e discutimos tudo.

OM: Essas pessoas são todas voluntárias?

SW: Sim, são pessoas que acreditam no Femen como um todo, que acreditam na nossa ideia.

OM: E qual é essa ideia?

SW: A nossa missão é muito clara, na verdade. A missão, por enquanto, ... eu vou repetir sempre... somos mulheres simples, não temos dinheiro. A única coisa que temos é o nosso corpo e a nossa voz. Como ainda não podemos formar uma ONG e trabalhar de maneira efetiva para ver quantas mulheres são exploradas, a nossa missão ainda é de outdoor, de mostrar para a opinião pública, para o governo, um problema que existe e é negligenciado. O Femen é um instrumento do feminismo. Lutamos contra toda e qualquer opressão patriarcal machista. E cada país tem sua luta específica. Na França, por exemplo, eles colocam a luta contra a lei islâmica [sharia] na agenda. Aqui no Brasil, incluímos a violência doméstica, os direitos LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transsexuais) e a questão indígena.

FONTE: OPERA MUNDI

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Em entrevista exclusiva, Bruna Themis contou também que o grupo rejeita a participação de meninas acima do peso

O Femen Brazil é um movimento sem propostas e afastado dos ideais do feminismo. Foi dessa forma que a estudante paulistana e ex-número 2 do Femen Brazil, Bruna Themis, classificou em entrevista exclusiva ao Opera Mundi o braço brasileiro do grupo feminista ucraniano, cujas integrantes ficaram conhecidas no mundo por fazer do topless uma arma de protesto.

Themis, que vive em São Paulo, acusou a líder do grupo no Brasil Sara Winter de ser centralizadora: "a palavra final é sempre da Sara, sem nenhuma discussão prévia". A ex-Femen Brazil também sugeriu que a líder do grupo é simpática ao nazismo. "A Sara disse que admira Hitler como pessoa, que ele foi um bom marido, que amava os animais, mas que não admira o Hitler público", afirmou. 

Além disso, Themis detalhou como é o processo de seleção das meninas que desejam ingressar no Femen Brazil e contou que a "matriz" ucraniana criticou as brasileiras, "porque colocamos meninas gordinhas nos protestos". De acordo com ela, o Femen "quer somente meninas que se enquadrem no padrão de beleza delas" nos protestos. 

Opera Mundi: O Femen cada vez mais ganha novos adeptos em diversos países e, apesar da crescente popularidade do grupo, você resolveu se desvincular do movimento. Por quê?

Bruna Themis: Eu acreditava no movimento, na causa, mas o tempo foi passando e eu vi que não compartilhávamos a mesma ideologia. Participei do meu primeiro protesto em 29 de julho, pela humanização do parto em casa, mas em menos de um mês já não estava contente com os rumos do projeto. O movimento no Brasil está sem propostas, sem perspectivas, sem embasamento teórico. O Femen Brazil está perdido, sem rumo algum.

A questão do envolvimento político do grupo também pesou para a minha saída. O Femen se apresenta como apartidário, mas eu não sabia que o Andrey (Russo, assessor da Sara Winter, líder do grupo, e do Femen Brazil) era candidato a vereador. Eu perguntei à Sara quem era o Andrey, qual era a relação que eles tinham, mas não tive resposta. Os dois estão enganando muita gente e tenho provas. Não quero prejudicar ninguém, mas não quero que mais pessoas caiam na mesma história.

(Andrey Cuia ou Andrey Russo é candidato a vereador em Santo André pelo PMN, o Partido da Mobilização Nacional, que apoia a candidata Soninha Francine para a prefeitura de São Paulo. Em seu perfil do Twitter, ele se apresentava como “assessor voluntário do Femen Brazil”, mas já não coloca o “cargo” na descrição do perfil)

Tive muito pouco contato com o Andrey. Ele aparecia somente quando dávamos entrevistas. Há muita falta de comunicação no grupo. Tudo é passado diretamente à Sara e ela repassa à equipe. Passei uma semana na casa dela em São Carlos e as conversas que tivemos me fizeram ter ainda mais certeza de que queria deixar o movimento. Muitas coisas me desagradaram, como a maneira que ela enxerga o projeto e o futuro dele. Também questionei as inúmeras revistas com a figura de Hitler que ela tem em casa. A Sara disse que admira Hitler como pessoa, que ele foi um bom marido, que amava os animais, mas que não admira o Hitler público. Achei meio estranho.

OM: Mas vocês tiveram alguma formação teórica, algum curso? Qual é a relação do Femen Brazil com a sede na Ucrânia?

BT: Não sei o que elas querem, por que elas criaram o Femen. O Femen Ucrânia me escreveu somente agora, quando eu saí do movimento. Eles não sabem quem é a líder, quem é a Sara Winter. E nós não sabemos nada delas. A Sara foi a Kiev (capital da Ucrânia) sozinha.

Funcionamos quase de maneira independente. Sou contra muitas das ações do grupo. Não concordei com o protesto pela banda punk russa Pussy Riot, por exemplo, na porta da embaixada. Não estou de acordo com a sentença das meninas, obviamente, mas acho que no Brasil temos muitos problemas, temos muitos assuntos para serem debatidos. O assunto das Pussy Riot é menos relevante para nós. Precisamos falar de números, de estatísticas e apresentar propostas ao governo. Fui contra também quando as meninas cortaram a cruz lá na Ucrânia. Achei desnecessário.

OM: O Femen Ucrânia é muitas vezes classificado como conservador por posicionar-se contra a prostituição, mesmo quando a mulher quer exercer a atividade. A Sara declarou em uma entrevista que pensa igual. Essa era a posição do Femen Brazil?

BT: O Femen Brazil não se posiciona sobre o assunto. O Femen Ucrânia acredita que a mulher escolhe a prostituição por falta de opção, mas não acho que seja sempre a verdade. Os membros do Femen Brazil nunca sentaram para falar sobre isso, porque toda e qualquer opinião vem da Sara.

Sou a favor do direito de escolha da mulher. Já conversei com algumas meninas que se dedicam à prostituição e inclusive tenho uma amiga que já trabalhou neste ramo, mas se ela chegar pra mim e disser que é realmente a escolha dela, eu não tenho nada a dizer. É a decisão dela. Eu ouvi histórias de meninas que disseram que não tinham opção e caíram nesta vida, mas outras que realmente preferiam vender o corpo. A decisão tem que ser sempre da mulher, é o corpo dela.

OM: Mas qual é a proposta do Femen?

BT: O Femen não tem proposta, isso eu posso afirmar. Elas não gostam nem de ler as críticas nos jornais ao movimento. Eu sempre lia e queria saber o porquê de falarem isso ou aquilo.

A sociedade ucraniana é diferente da nossa e o discurso do Femen deveria ser adaptado ao nosso contexto. As meninas da Ucrânia não sabem o que acontece no Brasil. Na Ucrânia, elas são o primeiro movimento feminista do país. No Brasil, não. Como podemos ser um movimento feminista no Brasil se não dialogamos com os outros movimentos que compartilham a mesma luta?

Muitas pessoas se ofereceram para ajudar, para nos dar formação, para nos explicar um pouco a história do movimento feminista no país, mas a Sara sempre recusou. O Femen é um movimento feminista que não trabalha com as feministas. E o Femen não é nem um movimento social porque não desenvolve e nem tem projeto para realizar nenhum trabalho social. Nenhum.

OM: E como é a seleção das meninas? Quem pode participar do grupo?

BT: O processo seletivo tem três etapas. Primeiro, fazemos uma entrevista, depois pedimos para que a candidata coloque um foto de topless no Facebook, para receber a reação de amigos e família e, por último, para que faça um topless em público, para que ela sinta o corpo dela. Mas muitas pessoas entraram no Femen sem entrevista. Não sabemos nem o que a pessoa buscava no movimento. A Sara estava mais preocupada com quantidade do que com a qualidade.

OM: Muita gente critica o movimento dizendo que as meninas só querem ficar famosas. Dizem que é um produto para ser consumido pelos meios de comunicação de massa, mas sem profundidade.

BT: Quando fui detida, uma das meninas me empurrou porque queria aparecer na câmera. É engraçado e triste. O Femen não é um movimento feminista. Ninguém lá sabe o que é feminismo. Eu sugeri que a gente buscasse vínculos com outros coletivos ou outros grupos feministas, mas a Sara recusou.

OM: Mas o movimento da Ucrânia também é assim? Elas também só querem estar na televisão ou essa crítica é somente ao grupo no Brasil?

BT: Da Ucrânia a gente sabe muito pouco. Mas segundo a Sara, nós recebemos criticas porque colocamos meninas gordinhas nos protestos. Elas querem somente meninas que se enquadrem no padrão de beleza delas. Nem sei se eu deveria estar falando sobre isso, mas enfim… As meninas da sede do Femen reclamaram dizendo que não seria bom para o movimento colocar meninas acima do peso no grupo.

OM: E quem administra a parte financeira?

BT: Eu nunca me envolvi com a questão de dinheiro, mas não há nenhuma prestação de contas. O dinheiro vai pra conta da Sara e pelo que a gente ficou sabendo agora, para a conta de PayPal do Andrey. Não sei como ela gasta o dinheiro. Eu disse pra Sara que o dinheiro das camisetas poderia ser usado para cobrir nossos gastos, mas as doações poderiam ser revertidas a organizações e ONGs que trabalham, por exemplo, com mulheres que são vítimas de violência domestica. A Sara não se posicionou. Não sei se ela vai considerar esta ideia.

OM: Você era a número 2 do movimento. Por que você saiu do grupo sem nenhuma explicação prévia?

BT: Eu já sabia que não ia fazer o protesto em Brasília. Não falei nada com a Sara. Fiz o check-in no aeroporto, fomos para a praça de alimentação e, enquanto a Sara cochilava, eu resolvi dar uma volta. Precisei de uns minutos pra tomar coragem, cancelei o meu voo e não falei nada para ela. Fiquei na sala de desembarque e desliguei o celular.  Liguei para o Andrey e avisei que estava me desligando do movimento. Ele me disse que a Sara estava me procurando, mas que depois nós podíamos conversar, quando ela voltasse de Brasília. Fui para casa, dormi e não liguei o computador nem chequei as redes sociais. Às 22h, a minha mãe me ligou perguntando o que havia acontecido, que história era aquela de sequestro. Eu não sabia de nada, estava em casa. A Sara inventou isso pra imprensa e deixou todo mundo preocupado. Eu nunca recebi ameaça nenhuma.

OM: E você não recebeu ameaças da Sara ou do Andrey, depois de ter saído do grupo?

BT: Ainda não. Talvez depois desta entrevista (risos). Eu não quero prejudicar ninguém. Eles vão se destruir sozinhos. Cada um querendo comer o outro. O Femen não conversa nem mesmo sobre o que a líder ou os membros vão falar em público. A única preocupação é em aparecer. A palavra final é sempre da Sara, sem nenhuma discussão prévia. Não éramos uma equipe. Temos uma líder que não sabe pra onde ir. A Sara me disse que eu estou recebendo dinheiro de alguém pra prejudicá-la, mas eu só quero mesmo é alertar as pessoas que acreditam na história do Femen.

OM: Você é feminista ou neofeminista?

BT: Eu perguntei à minha psicanalista esta semana algo parecido, mas a minha dúvida é se eu sou feminista ou humanista. Quero continuar com trabalhos sociais, mas quero ver que estou mudando algo. Não entrei no Femen buscando fama e não tenho intenção de participar de nenhum programa de televisão, mesmo se me chamarem.

OM: E posar nua?

BT: Quando eu estava no Femen, não fazia sentido posar nua. Agora eu não sei se teria coragem de fazer isso.

OM: Você se arrependeu de ter feito parte do movimento?

BT: Não estou frustrada. Estou magoada. Conheci pessoas erradas.