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quarta-feira, abril 16, 2014

Como o autismo ajudou Messi a se tornar o melhor do mundo










Os sintomas da Síndrome de Asperger trabalharam a seu favor.

Messi é autista. Ele foi diagnosticado aos 8 anos de idade, ainda na Argentina, com a Síndrome de Asperger, conhecida como uma forma branda de autismo. Ainda que o diagnóstico do atleta tenha sido pouco divulgado e questionado, como uma maneira de protegê-lo, o fato é que seu comportamento dentro e fora de campo são reveladores.
Ter síndrome de Asperger não é nenhum demérito. São pessoas, em geral do sexo masculino, que apresentam dificuldades de socialização, atos motores repetitivos e interesses muito estranhos. Popularmente, a síndrome é conhecida como uma fábrica de gênios. É o caso de Messi.
É possível identificar, pela experiência, como o autismo revela-se no seu comportamento em campo — nas jogadas, nos dribles, na movimentação, no chute. “Autistas estão sempre procurando adotar um padrão e repeti-lo exaustivamente”, diz Nilton Vitulli, pai de um portador da síndrome de Asperger e membro atuante da ong Autismo e Realidade e da rede social Cidadão Saúde, que reúne pais e familiares de “aspergianos”.
“O Messi sempre faz os mesmos movimentos: quase sempre cai pela direita, dribla da mesma forma e frequentemente faz aquele gol de cavadinha, típico dele”, diz Vitulli, que jogou futebol e quase se profissionalizou. E explica que, graças à memória descomunal que os autistas têm, Messi provavelmente deve conhecer todos os movimentos que podem ocorrer, por exemplo, na hora de finalizar em gol. “É como se ele previsse os movimentos do goleiro. Ele apenas repete um padrão conhecido. Quando ele entra na área, já sabe que vai fazer o gol. E comemora, com aquela sorriso típico de autista, de quem cumpriu sua missão e está  aliviado”.
A qualidade do chute, extraordinária em Messi, e a habilidade de manter a bola grudada no pé, mesmo em alta velocidade, são provavelmente, segundo Vitulli, também padrões de repetição, aliados, claro, à grande habilidade do jogador. Ele compara o comportamento de Messi a um célebre surfista havaiano, Clay Marzo, também diagnosticado com a síndrome de Asperger. “É um surfista extraordinário. E é possível perceber características de autista quando ele está numa onda. Assim, como o Messi, ele é perfeito, como se ele soubesse exatamente o comportamento da onda e apenas repetisse um padrão”. Mas autistas, segundo Vitulli, não são criativos, apenas repetem o que sabem fazer. “Cristiano Ronaldo e Neymar criam muito mais. Mas também erram mais”, diz ele.
Autistas podem ser capazes de feitos impressionantes — e o filme Rain Man, feito em 1988, ilustra isso. Hoje já se sabe, por exemplo, que os físicos Newton e Einstein tinham alguma forma de autismo, assim como Bill Gates.
Também fora de campo, seu comportamento é revelador. Quem já não reparou nas dificuldades de comunicação do jogador, denunciadas em entrevistas coletivas e até em comerciais protagonizados por ele? Ou no seu comportamento arredio em relação a eventos sociais? Para Giselle Zambiazzi, presidente da AMA Brusque, (Associação de Pais, Amigos e Profissionais dos Autistas de Brusque e Região, em Santa Catarina), e mãe de um menino de 10 anos diagnosticado com síndrome de Asperger, foi uma revelação observar certas atitudes de Messi.
“A começar pelas entrevistas: é  visível o quanto aquele ambiente o incomoda. Aquele ar “perdido”, louco pra fugir dali. A coçadinha na cabeça, as mãos, o olhar que nunca olha de fato. Um autista tem dificuldade em lidar com esse bombardeio de informações do mundo externo”, diz Giselle. Segundo ela, é possível perceber o alto grau de concentração de Messi: “ele sabe exatamente o que quer e tem a mesma objetividade que vejo em meu filho”.
Giselle observou algumas jogadas do argentino e também não teve dúvidas:  “o olhar que ‘não olha’ é o mesmo que vejo em todos. Em uma jogada, ele foi levando a bola até estar frente a frente com um adversário. Era o momento de encará-lo. Ele levantou a cabeça, mas, o olhar desviou. Ou seja, não houve comunicação. Ele simplesmente se manteve no seu traçado, no seu objetivo, foi lá e fez o gol. Sem mais”.
Segundo Giselle, Messi tem o reconhecido talento de transformar em algo simples o que para todos é grandioso e não vê muito sentido em fama, dinheiro, mulheres, badalação. “Simplesmente faz o que mais sabe e faz bem. O resto seria uma consequência. Outra aspecto que se assemelha muito a meu filho”.
Outra característica dos autistas, segundo ela, é ficarem extremamente frustrados quando perdem, são muito exigentes. “Tudo tem que sair exatamente como se propuseram a fazer, caso contrário, é crise na certa. E normalmente dominam um assunto específico. Ou seja, se Messi é autista e resolveu jogar futebol, a possibilidade de ser o melhor do mundo seria mesmo muito grande”, diz ela.
A ideia de uma das maiores celebridades do mundo ser um autista não surpreende, mas encanta. Messi nunca será uma celebridade convencional. Segundo Giselle, ele simplesmente será sempre um profissional que executa a sua profissão da melhor forma que consegue — mas arredio às badalações, às entrevistas e aos eventos.  “Ele precisa e quer que sua condição seja respeitada. Nunca vai se acostumar com o assédio. Sempre terá poucos amigos. E dificilmente saberá o que fazer diante de um batalhão de fotógrafos e fãs gritando ao seu redor. De qualquer modo, certamente a sua contribuição para o mundo será inesquecível”, diz ela.
FONTE: DIÁRIO DO CENTRO DO MUNDO / Roberto Amado

sexta-feira, junho 08, 2012

Ronaldinho e dois grandes sintomas de nosso tempo

 Ronaldinho encarna os dois grandes sintomas da contemporaneidade: a depressão e o imperativo do gozo* 
Embora apaixonado por futebol e leitor dos jogos em suas dimensões técnicas e táticas, evito tratar do assunto nesta coluna. Escrevo no caderno de cultura, não no de esportes. Mas uma das dimensões do futebol é a cultura; quando algum acontecimento no mundo do futebol revela um problema do campo cultural, sinto-me convocado a interpretá-lo. Já disse mais de uma vez que quem pudesse compreender com precisão a transformação de Ronaldinho Gaúcho em algum momento de 2006 estaria tocando no ponto fulcral do espírito do nosso tempo. O que essa transformação tem de singular é precisamente sua recusa à legibilidade. Outros personagens fundamentais de nosso tempo dão-se a ler com maior clareza — a metamorfose infinita de Michael Jackson se revela uma passagem ao ato em consequência do preconceito racial americano, por exemplo. Mas Ronaldinho Gaúcho permanece um enigma. É desse enigma que vou tentar me aproximar aqui.


Antes de tudo, devo assinalar meu mal-estar em interpretar publicamente a subjetividade de alguém. Reconheço que isso é uma forma de violência. Mas se trata de um caso em que o interesse público está em jogo, na medida que lhe serve de espelho. De modo geral, considero que só deve ser tratado publicamente aquilo que um sujeito dispõe deliberadamente na esfera pública. A subjetividade de Ronaldinho aparece na esfera pública, como uma sombra inevitável, a cada vez que ele entra em campo (e como uma luz dura de interrogatório nas informações extra-campo). Vou pensar essa sombra, repito, pelo que ela contém de segredo cifrado de nosso tempo. Mas tenho dúvidas sobre a correção moral da minha atitude. 


O enigma, em si, é claro: qual o sentido da transformação de Ronaldinho em algum momento de 2006? De reencarnação exuberante dos valores brasileiros do ludismo, improviso e alegria, ele se tornou uma espécie de autômato desencarnado, duplo triste de si mesmo. Quando estava no auge, chegou a receber de Maradona a declaração de que era o único jogador do mundo a jogar sorrindo. Pouco tempo depois, o sorriso desapareceu, mas não deu lugar a uma paixão qualquer contrária, e sim à ausência absoluta de paixões. As paixões são legíveis. Ronaldo Fenômeno estourando o joelho, o rosto contorcido de dor, a lenta e desacreditada recuperação, a volta por cima na Copa de 2002, a nova contusão, a decadência física, os travestis com a suposta cocaína, a “traição” ao Flamengo, a nova volta por cima, a fúria no alambrado. A própria pança como signo das paixões desenfreadas. 


As paixões não são apenas legíveis, elas são também preferíveis. Mesmo as piores paixões despertam mais identificações, mais paixões — pena, revolta, admiração pela superação — do que a ausência de paixões. 


A ausência de paixões não produz nenhum tipo de identificação, e assim não pode ser convertida em valor moral pela publicidade. No Flamengo, Ronaldinho Gaúcho foi um fracasso absoluto nesse quesito; é irônico que a paixão da ruptura, terceirizada por ele ao irmão Assis, tenha como motivo justamente o pagamento dos direitos de imagem. O outro nome da ausência de paixões é depressão. Talvez a paixão de repúdio que Ronaldinho desperta venha de que ele traz à cena o que queremos esconder: a depressão como sintoma fundamental de nosso tempo. E isso tem um efeito intensificado por força do contraste: a ausência de paixões justo na ópera dos esportes, no palco das paixões sublimadas e primais. 


A psicanálise considera a depressão uma resposta falhada ao excesso de demanda. Isso a explicaria como grande sintoma contemporâneo: diante das altas exigências de performance das nossas sociedades capitalistas, o sujeito recua, desiste, depõe as armas, renuncia ao desejo e ao falo. A convulsão de Ronaldo Fenômeno às vésperas da decisão da Copa de 1998 pode ser lida também por essa chave. Mas em Ronaldinho ela se tornou a resposta permanente. E no entanto dividida, sem deixar, talvez num esforço sobre-humano, de tentar responder desejosamente às demandas do mundo. Quando penso nisso sinto compaixão por ele. Todos nós estamos há anos reproduzindo as demandas opressivas — o que só pode ter como efeito o agravamento da resposta depressiva. 


Por outro lado, Ronaldinho demonstra uma paixão desmedida pelas noitadas.

Não é contraditório. Às demandas de produtividade, de ascese, às pressões para corresponder ao desejo do mundo, que quer desejar por ele a todo custo, ele responde com improdutividade, ócio, dissolução, todas as formas da dépense. De modo que Ronaldinho acaba encarnando, intensamente, os dois grandes sintomas da contemporaneidade: a depressão e o imperativo do gozo. São os dois lados da mesma moeda. E a moeda talvez possa virar para qualquer um, a qualquer momento. 


A entrevista de Ronaldinho ao “Fantástico” confirma mais uma vez essa leitura. Em postura não relaxada, mas indiferente, com aquele olhar perdido que é uma verdadeira janela da alma vazia, ele respondeu evasivamente às perguntas diretas do entrevistador: respostas acuadas, sem qualquer tipo de afirmação, sem revolta, sem inteligência, sem nada de ativo, sem paixão. 


Se ele fosse capaz de nos mandar cuidar das nossas vidas, de recusar o massacre do desejo dos outros pesando sobre ele, talvez, depois de algum tempo, jogando uma pelada, entre amigos, sem as dezenas de câmeras e os milhares de olhos esperando dele uma resposta, talvez, a sós com a bola, pudesse abrir, sem se dar conta, aquele mesmo sorriso que encantou Maradona e o mundo.

*Este artigo foi publicado na coluna de Francisco Bosco, no Segundo Caderno do GLOBO.
FONTE: COLUNA DO ANCELMO N'O GLOBO