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domingo, novembro 10, 2013

México, o subcomandante Marcos e os/as anarquistas







O diário "La Jornada" (México D.F.), em sua edição do último dia 3 de novembro, divulgou um comunicado sobre a primeira volta da "la Escuelita", que o EZLN (Exército Zapatista de Libertação Nacional) organizou em Chiapas em agosto passado. Dentro desse informe, intitulado "Malas y no tan malas noticias", o subcomandante Marcos dedica um trecho do comunicado a movida anarquista e a atual onda de histeria antianarquista que o Estado e o Capital promovem naquele país. A seguir, extrato do pronunciamento.


Casos especiais: os anarquistas

Visto a campanha Anti Anarquismo que levantam as boas consciências e a esquerda bem comportada, unidas em santa cruzada com a direita ancestral para acusar jovens e velh@s anarquistas de desafiar o sistema (como se o anarquismo tivesse outra opção), além de descompor suas cenografias (o apagar da luz é para não ver @s anarquistas?), e que é levada ao delírio com qualificativos como "anarco-falcões", "anarco-provocadores", "anarco-porro" [baseado, banza], "anarco-etcetera" (por aí li o qualificativo "anarco-anarquista", não é sublime?), nós, as zapatistas e os zapatistas não podemos ignorar o clima de histeria que, com tanta firmeza, demanda e exige que se respeitem os cristais (que não mostram, senão ocultam o que passa justo atrás do mostrador: condições laborais escravistas, higiene nula, má qualidade, baixo nível nutricional, lavagem de dinheiro, fraudes fiscais, fuga de capitais).

Porque agora resulta que, essas ratoeiras mal dissimuladas chamadas "reformas estruturais", que o despojo laboral ao magistério, que a venda outlet do patrimônio da Nação, que o roubo que o governo perpetra contra os governados pelos impostos, que a asfixia fiscal – que favorece só aos grandes monopólios -, que tudo isso é culpa d@s anarquistas.

Que a gente mal sai às ruas a protestar (ouça, mas sim aí estão as marchas, as greves, os bloqueios, as pichações, os panfletos. Sim, mas são de professor@s-motoristas-ambulantes-estudantes-ou-seja-nacos-e-nacas-e-de-província [nacxs é uma gíria mexicana para moradores da periferia, em especial descendentes de indígenas], eu digo gente bem bem bem do DF. Ah, a mítica classe média, tão cortejada e ao mesmo tempo depreciada e defraudada por todo o espectro midiático e político), que a esquerda institucional também despoja os espaços de manifestação, que o "único opositor ao regime" foi tornado opaco pelos sem nome uma e outra vez, que a imposição arbitrária se chama agora "diálogo e negociação", que o assassinato de migrantes, de mulheres, de jovens, de trabalhadores, de crianças, que tudo é culpa d@s anarquistas.

Para aqueles que militam e se reivindicam como da "A", bandeira sem nação nem fronteiras, e que são parte da SEXTA [Sexta declaração de Lancadona], mas que em verdade militam e não como moda de vestir ou de calendário, temos, além de um abraço companheiro, um pedido especial:

Compas Anarquistas: nós os zapatistas, nós as zapatistas, não os vamos achacar nossas deficiências (incluindo a falta de imaginação), nem os vamos fazer responsáveis de nossos erros, nem muito menos os vamos perseguir por ser quem são. E mais, conto vos que vários convidados em agosto cancelaram suas vindas porque disseram que não poderiam compartir a aula com "jovens anarquistas, andrajosos, punks, aretudos [cheio de piercings], e cheios de tatuagens", que esperavam (os que não são jovens, nem anarquistas, nem andrajosos, nem punks, nem aretudos, nem cheios de tatuagens) uma desculpa e que se depurasse o registro. Seguem esperando inutilmente.

O que queremos é pedir que, no momento do registro, entreguem um texto, de no máximo uma página de extensão, onde respondam as criticas e acusações que se lhes tem feito nos meios de comunicação. Esse texto será publicado em uma seção especial de nossa pagina eletrônica (enlacezapatista.ezln.org.mx) e em uma revista-fanzine-como-se-chame pronta para aparecer no mundo mundialmente mundial, dirigida e escrita por indígenas zapatistas. Será uma honra para nós que em nosso primeiro número esteja sua palavra junto à nossa.

Eh?

Sim, também vale uma página com uma só palavra que ocupe todo o espaço: algo como "MENTEM!". Ou algo mais extenso como "Lhes explicaria o que é o Anarquismo se pensasse que vão entender", ou "O Anarquismo é incompreensível para anões de pensamento"; ou "As transformações reais primeiro aparecem na nota vermelha"; ou "Me cago pra polícia de pensamento"; ou a seguinte citação do livro "Golpes y contragolpes" de Miguel Amorós: "Todo o mundo deveria saber que o Black Bloc não é uma organização, senão uma tática de luta similar à Kale Borroka [forma de guerrilha urbana dos radicais bascos], que uma constelação de grupos libertários, "autônomos" ou alternativos, vinha praticando desde as lutas dos squats (okupações) nos anos 80 em várias cidades alemãs" e agregar algo como "se vão a criticar algo, primeiro investiguem bem. A ignorância bem redatada é como uma idiotice bem pronunciada: igual de inútil".

Enfim, estou seguro de que não lhes faltarão ideias.

Vale. Saúde e, creiam ou não, o mundo é maior que o titular midiático mais escandaloso. É questão de ampliar o passo, o olhar, o ouvido... e o abraço.

Desde as montanhas do Sudeste Mexicano,

O subcomandante Marcos.

Zelador da Escolinha e encarregado de dar más notícias.

México, novembro de 2013.

Tradução; Caróu

FONTE: Diário Liberdade

sexta-feira, janeiro 18, 2013

O retorno do zapatismo no México




O subcomandante Marcos reapareceu para instalar o movimento zapatista no horizonte da agenda política do recém- eleito presidente Enrique Peña Nieto, cuja vitória marcou o retorno do PRI ao poder, após 12 anos na oposição. Artigo de Eduardo Febbro, publicado na Carta Maior.


Já se passaram cerca de duas décadas desde que, logo após a meia noite de 31 de dezembro de 1993, o então presidente mexicano Carlos Salinas de Gortari ingressou no ano de 1994 com um brinde aguado: estava a festejar o ano novo e a entrada em vigor do Tratado de Livre Comércio da América do Norte quando o ministro da Defesa da época o informou que um grupo armado acabava de tomar a localidade de San Cristóbal de las Casas e vários pontos de Chiapas, o Estado situado ao sul da península de Yucatã.

O Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) impôs-se na política mexicana junto ao seu líder, o subcomandante Marcos. O subcomandante e os zapatistas romperam o modelo dos tradicionais grupos revolucionários latino-americanos: eram maioritariamente indígenas e o seu discurso e as suas exigências estavam distantes das entonações marxistas, desenhando uma exigência democrática para um México que ainda era governado ininterruptamente pelo Partido Revolucionário Institucional (PRI). Os combates daquele primeiro levante duraram quase duas semanas, ao final das quais houve centenas de mortos. Salinas de Gortari decretou um cessar-fogo e o subcomandante Marcos ganhou a batalha, não com as armas, mas sim com as palavras.

Em um inesquecível comunicado dirigido à imprensa, Marcos respondeu ao suposto “perdão” oferecido pelo governo federal: Do que devemos pedir perdão? Do que nos vão perdoar? De não morrermos de fome? De não nos calarmos na nossa miséria? De não acertarmos humildemente a gigantesca carga histórica de desprezo e abandono? De nos termos levantado em armas quando encontrámos todos os outros caminhos fechados? De não termos observado o Código Penal de Chiapas, o mais absurdo e repressivo do qual se tem memória? De termos demonstrado ao resto do país e ao mundo inteiro que a dignidade humana ainda vive e está presente nos seus habitantes mais empobrecidos? De nos termos preparado bem e de forma consciente antes de iniciar? De termos levado fuzis para o combate, no lugar de arcos e flechas. De termos aprendido a lutar antes de fazê-lo? De todos sermos mexicanos? De sermos maioritariamente indígenas? De chamarmos todo o povo mexicano a lutar de todas as formas possíveis em defesa do que lhes pertence? De lutarmos pela liberdade, democracia e justiça? De não seguirmos os padrões das guerrilhas anteriores? De não nos rendermos? De não nos vendermos? De não nos trairmos?

Denso, legítimo, inapagável. Transcorreram quase vinte anos, houve muitos mortos em Chiapas, repressão, matanças como as Acteal (com 45 indígenas assassinados), centenas de páginas da prosa literária com a qual o subcomandante Marcos seduziu o mundo, um enorme terremoto político no México e, sobretudo, o fim do mandato interrompido do PRI e a chegada ao poder de outra força política, o conservador Partido da Ação Nacional (PAN), que governou o México durante dois mandatos consecutivos: Vicente Fox (2000-2006) e Felipe Calderón (2006-2012).

O PRI retornou ao poder em dezembro de 2012, após o seu candidato, Enrique Peña Nieto, ganhar as eleições presidenciais de julho do ano passado. E com o PRI voltou também o zapatismo, com a ação e a palavra. Após um longo período de recesso, o Exército Zapatista de Libertação Nacional irrompeu no espaço público em dois tempos: primeiro, no dia 21 de dezembro com uma mobilização silenciosa da qual participaram 40 mil pessoas com o rosto coberto com o gorro popularizado pelo subcomandante. Marcos divulgou um comunicado nesta marcha zapatista que percorreu várias comunidades dizendo: Escutaram? É o som do seu mundo a desmoronar, e o do nosso a ressurgir. A marcha do dia 21 foi a maior mobilização protagonizada pelos zapatistas desde que pegaram em armas no dia 1º de janeiro de 1994.

A escolha da data não foi casual: coincidiu com o décimo-quinto aniversário do massacre de Acteal perpetrado por paramilitares e no qual morreram 45 indígenas, na sua grande maioria mulheres e crianças. O governo mexicano atribuiu à matança a um conflito étnico e condenou 20 indígenas. Após 11 anos de prisão, os acusados recuperaram a liberdade devido a irregularidades no processo.

O segundo tempo da instalação do zapatismo na agenda política foi assumido pelo subcomandante Marcos mediante duas cartas e um copioso comunicado nos quais, com sua verve habitual, entre crítico, poético e guerreiro, interpela e despedaça a classe política no seu conjunto, esquerda e direita, os meios de comunicação e o presidente Enrique Peña Nieto, a quem exige que cumpra com os acordos de San Andrés (Acordos de San Andrés sobre Direitos e Cultura Indígena firmados em 16 de fevereiro de 1996 pelo governo mexicano do presidente Ernesto Zedillo e pelo EZLN).

Estes textos que figuram nas cartas do Comité Clandestino Revolucionário Indígena são os primeiros em extensão que, nos últimos dois anos, levam a assinatura do subcomandante Marcos. O líder mexicano anuncia uma série de ações cívicas e, desde o princípio, assinala o caminho que será seguido: “A nossa mensagem não é de resignação, não é de guerra, morte ou destruição. Nossa mensagem é de luta e de resistência”.

O subcomandante arremete contra o atual presidente, acusando-o de ter chegado ao poder mediante um “golpe mediático” e destaca que “estamos aqui presentes para que eles saibam que se eles nunca se forem, nós tampouco”. O insurgente zapatista não livrou ninguém: critica a esquerda de Manuel López Obrador, os governos passados e presentes e a imprensa por ter pretendido sentenciar a desaparição do zapatismo. “Nos atacaram militar, política, social e ideologicamente. Os grandes meios de comunicação tentaram fazer com que desaparecêssemos, com a calúnia servir e oportunista em um primeiro momento, com o silêncio e cumplicidade, depois”.

Marcos celebra o nível de vida que gozam os indígenas da região, muito superior, escreve, “ao das comunidades indígenas simpáticas aos governos de plantão, que recebem as esmolas e as gastam em álcool e artigos inúteis. As nossas casas melhoraram sem danificar a natureza, impondo-lhe caminhos que lhe são alheios. Nas nossas comunidades, a terra que antes era usada para engordar o gado de latifundiários, agora é para cultivar o milho, o feijão e as verduras que iluminam nossas mesas”.

Este comunicado constitui um aparato crítico e um programa de ação que compreende “iniciativas de caráter civil e pacífico”, uma tentativa de “construir as pontes necessárias na direção dos movimentos sociais que surgiram e surgirão”, e, sobretudo, a preservação irredutível de uma “distância crítica frente à classe política mexicana”. 

O subcomandante Marcos coloca o governo ante o desafio de demonstrar “se continua a estratégia desonesta de seu antecessor, que além de corrupto e mentiroso, tomou dinheiro do povo de Chiapas para o enriquecimento próprio e de seus cúmplices”. Sem piedade ante o novo Executivo, Marcos dedica extensos parágrafos a lembrar o passado de alguns membros do atual governo.

Com o PRI no poder, o zapatismo voltou a ocupar espaço na agenda nacional como soube fazer com tanto êxito em anos anteriores. Os analistas, partidários e adversários de Marcos, estão divididos acerca da capacidade que o subcomandante ainda possui para mobilizar um país açoitado pela violência gerada por esse novo ator decisivo que é o narcotráfico.

FONTE: ESQUERDA NET / Tradução: Katarina Peixoto