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quarta-feira, setembro 26, 2012

Milhares de espanhóis saem às ruas para pedir renúncia de Mariano Rajoy

Durante Assembleia Geral das Nações Unidas, presidente da argentina criticou reação do governo aos protestos

Defendendo a criação de uma nova assembleia constituinte e exigindo a renúncia do presidente de governo Mariano Rajoy, milhares de espanhóis se concentraram nesta terça-feira (25/09) diante do parlamento nacional.
Convocado por vários sindicatos para denunciar o "sequestro da democracia" a partir de cortes orçamentários, o protesto começou com uma passeata pelas ruas do centro de Madri e terminou do lado de fora do Legislativo. Alguns deputados da bancada de esquerda do congresso se aproximaram da multidão que se amontoava do lado de fora do edifício. Ao todo, confrontos com policiais deixaram nove feridos e 15 detidos.
Autoridades estimam que cerca de seis mil pessoas participaram das manifestações, que receberam o nome de "Cerque o Congresso". O projeto inicial dos sindicatos era bloquear a câmara dos deputados durante a sessão ordinária que promove todas as terças-feiras.
Mais de mil policiais, contudo, compareceram ao local para tentar evitar a ocupação do edifício. Manifestantes tentaram furar os bloqueios instalados pela polícia. Oficiais chegaram a golpeá-los com cassetetes. Participantes lançaram objetos contra policiais. O confronto ocorreu nas imediações da Porta do Sol, local que abrigou os acampados do movimento dos "indignados", em 2011.
María Dolores de Cospedal, líder do governista PP (Partido Popular), irritou representantes sindicais e membros de outras forças políticas ao comparar a decisão de cercar o Congresso com a tentativa de golpe de estado perpetrado em 23 de fevereiro de 1981 por comandos militares favoráveis ao regime franquista.
O ministro da Justiça, Alberto Ruiz-Gallardón, defendeu o direito da manifestação, mas ressaltou que chegar a um confronto com a soberania nacional representaria "uma agressão ao sistema democrático".
Os protestos contra o governo de Rajoy nesta terça-feira não se limitaram apenas à capital Madri. Em Barcelona, ao grito de "ladrões" e "culpados", cerca de 500 manifestantes se concentraram em frente ao parlamento regional da Catalunha para também criticar a atuação dos deputados e membros do governo local.
Crítica argentina
A presidente da Argentina, Cristina Kirchner, denunciou durante seu discurso nos debates da Assembleia Geral da ONU a "repressão" por parte da polícia espanhola contra os protestos em Madri. "Enquanto falamos aqui está ocorrendo uma repressão contra os indignados (em Madri) que se opõem às políticas de ajuste", afirmou na ocasião.
Kirchner estabeleceu um paralelo entre os protestos dos últimos meses em países como Grécia e Espanha com as manifestações que ocorreram em seu país em 2001, ápice dos protestos contra o governo do então presidente Fernando de la Rúa e sua equipe econômica.
"A Argentina chegou a dever 160% do PIB, produto de políticas de endividamento e de ajuste permanente que agora vemos serem aplicadas de forma feroz em países como Espanha, Grécia e Portugal, que estão pondo em perigo a zona do euro", lamentou a líder argentina.
FONTE: OPERA MUNDI

quarta-feira, maio 30, 2012

“Primavera do Quebec” sacode província canadense em defesa do acesso democrático à educação


Claro que os processos de mobilização ampla sempre impressionam, em particular aos que simpatizam de antemão... De qualquer modo, não é exagero afirmar que há algo de novo no reino do Primeiro Mundo. No Quebec, a província mais populosa e mais rica do industrializado Canadá, uma greve começou estudantil e se tornou a maior mobilização popular do pós-guerra.

Os mais de 7 milhões de habitantes do Quebec são descendentes de colonizadores franceses, em contraste com as outras nove províncias anglófonas do país. 82% dos quebequianos são franco-canadenses e 10% anglo-canadenses. A província é de tradição ultracatólica e conservadora: até os anos 60, a Igreja Romana monopolizava a educação, por força da constituição provincial. À Universidade superelitista chegavam 3% dos jovens francófonos do lugar e não mais que 11% dos anglos.

Nos revolucionários anos 60, com o Partido Liberal do Québec (tido como progressista) no poder, a educação passou à responsabilidade do Estado provincial, que mantém os liceus secundários e universidades. Os liberais são os mesmos que, liderados pelo premiê Jean Charest, hoje enfrentam as passeatas e panelaços da rebelião. Nas Universidades, estuda-se em troca de uma taxa anual chamada de “direitos de escolaridade” ou simplesmente frais (custos), que começou nos 500 dólares canadenses (R$ 1.000 de hoje) ao ano e veio aumentando e se congelando de acordo com a correlação de forças.

É o equivalente à "tuitions" das universidades privadas norte-americanas. (Não é exatamente a soma das mensalidades das privadas brasileiras, porque inclui impostos.) Pois o governo de Monsieur Charest decidiu, em 2010, que a partir de 2012 até 2017 haveria um aumento progressivo da taxa, dos atuais 2.168 dólares canadenses (cerca de R$ 4.200) ao ano para o equivalente a R$ 7.300, o que significa 75% de aumento em cinco anos.

Como essas cifras anuais podem até parecer pouco para os castigados estudantes de escolas privadas no Brasil, é bom ressaltar os seguintes dados: dois terços dos universitários quebequianos não moram com os pais, 80% estudam e trabalham em regime parcial, 40% não recebem ajuda alguma da família e os outros 60%, além de ajuda, se endividam para bancar os estudos. Porque quase todos precisam de período integral, ou quase isso, para concluir os cursos.

Segundo o IBGE deles, a Statistique Canada, o aumento de 200% nos custos de estudos entre 1995 e 2005 fez saltar de 49% a 57% a proporção de secundaristas que desistem da universidade. Outro detalhe interessante: o mercado de empréstimos para pagar as "frais" criou, com a financeirização, uma bolha especulativa com papéis lastreados em empréstimos estudantis... Os analistas norte-americanos se arrepiam só de pensar...

Pois bem, enquanto o governo liberal preparava o pacotaço, as organizações estudantis preparavam a greve, que começou em 13 de fevereiro deste ano. Em 22 de março, uma data "nacional" quebequiana (com tradição de luta por autonomia frente ao governo central do Canadá), aconteceu a maior passeata da história de Montreal, a maior cidade da província. Incapaz e refratário a negociar, o governo liberal começou a ver cair mais rapidamente sua maioria nas pesquisas (até abril a opinião pública do Quebec ainda estava bem dividida em torno da necessidade do aumento das taxas).

Àquela altura, os estudantes já passavam a contar com o apoio de pais, mães, avós em passeatas diárias. Artistas, esportistas, personalidades, sindicatos e OAB local aderiram. Os jovens grevistas inventaram umas incríveis passeatas noturnas nas cidades quebequianas, com muitos tambores, cornetas e os indefectíveis paninhos vermelhos grudados nas lapelas. Em 13 de abril, o sindicato docente de uma das maiores universidades, Université du Québec en Outaouais (UQO), votou em assembléia partir para "ação direta" em defesa dos estudantes contra a polícia, o que desencadeou uma onda de adesões de professores. (Quem vir os vídeos das marchas no youtube vai identificar os docentes vestidos com trajes de “segurança” das manifestações.)

Acuado, Charest não teve melhor idéia do que fazer aprovar agora em maio, no parlamento provincial, que controla, uma Lei que restringe o direito de manifestação, impedindo aglomerações públicas de mais de 10 pessoas sem aviso prévio de 8 horas e licença da polícia, vetando reuniões a menos de 50 metros das universidades e proibindo o uso de máscaras, sob pena de multas altíssimas. A aprovação da lei foi o estopim de uma nova fase do movimento: os dirigentes chamaram a população a apoiar as passeatas, cada vez mais radicalizadas, com enfrentamentos, pedradas e pauladas com a repressão, com o barulho das panelas. As mesmas panelas do Chile de Allende e da Argentina do argentinazo.

O concerto das caçarolas

O Quebec vive há semanas um imenso e ininterrupto panelaço. A nova fase tirou da paralisia as velhas gerações. O movimento hacker Anonymous perpetrou uma invasão dos sites do ministério da Educação e do governo do Quebec. E a moçada autodenominou sua rebelião Primavera do Quebec, em analogia com a Primavera Árabe.

No dia 23 passado, depois de tentar excluir uma organização estudantil da mesa de negociações, a ministra da Educação caiu. Começaram sinais de concessões mínimas por parte do governo. Mas a radicalização do movimento parece estar impedindo os negociadores estudantis de qualquer recuo. E agora as ruas exigem a revogação da Loi 78, a que restringiu o direito de manifestação e expressão.

As principais organizações dos estudantes são a Federação dos Universitários do Quebec (FEUQ), a Federação dos Secundaristas (FECQ), e a interessante Classe, sigla em francês de Coalizão Ampla da Associação por uma Solidariedade Sindical Estudantil. Essa, organizada pela base, decide tudo em Congressos, não tem líderes, mas dois “co-porta-vozes”, e é ligada pelo menos a uma federação importante, a dos funcionários públicos do Quebec. A Classe tem como ponto programático a educação pública e gratuita e não aceita menos do que o congelamento das taxas.

No sábado, 26, o principal jornal de Montreal tinha como chamada de capa a decisão dos grevistas da fábrica da Rio Tinto Alcan, em Alma, Quebec, de se "somar à greve estudantil". Dizia um piqueteiro: "Nós nos manifestamos contra a obra de Charest. Chegou a hora de a voz do povo se fazer ouvir. Nós queremos denunciar a venda da eletricidade estatal à Hydro-Québec, mas também nossa solidariedade aos estudantes. O conflito é um conflito da sociedade contra o governo".

Impossível prever os desdobramentos dos fatos dos últimos 104 dias de luta. No entanto, há quem diga, como Jean Marc Léger, dono do Ibope canadense, uma das personalidades pró-movimento, que há no ar e nas ruas uma raiva maior do que a raiva contra o aumento dos "direitos de escolaridade". Léger é autor de um texto que já se tornou um manifesto do movimento. No estilo das pesquisas de opinião de que é especialista, ele diz: "E você? O que você defende? Retornar a seus velhos hábitos no conforto e na indiferença? Você acha essa greve super-simpática desde que não mexa na sua quietude e que passe logo para que tudo fique como antes? Muito bem, senhores babyboomers (cidadãos hoje entre 60 e 70 anos), vocês não entenderam nada desse movimento! Os meninos e meninas não querem mais carregar o fardo dos seus erros. Não os quebrem e dêem a eles a chance de vencer. Do contrário, vocês terão fracassado".

O movimento do Quebec, descaradamente boicotado pela grande mídia, conta com o apoio do Ocuppy Wall Street, dos estudantes da Universidade da Cidade Nova York, de universidades de todo o resto do Canadá e da Islândia! Bem que está precisando e merecendo um apoio fraterno dos sindicatos docentes, de professores e organizações estudantis brasileiras.

FONTE: Correio da Cidadania / Ana Cristina Carvalhaes é jornalista.

Este é um vídeo do movimento que se tornou um viral no mundo anglo-saxão, lindíssimo:


sábado, outubro 01, 2011

Crise cria classe de novos pobres na Espanha










Segundo pesquisa, 11% das famílias espanholas têm todos seus integrantes desempregados

A crise econômica vem causando uma perigosa mudança social na Espanha, empurrando de volta para a pobreza uma classe de pessoas que até então vinha ascendendo economicamente.

Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), mais de um em cada cinco espanhóis – 21% da população, ou cerca de 10 milhões de pessoas – era classificado como pobre em julho, e analistas estimam que este índice chegue a 22% até o fim do ano. Em 1991, era de 14%.

O governo espanhol considera pobres os indivíduos com renda familiar abaixo de 570 euros mensais (cerca de R$ 1.300). As famílias com renda inferior a 215 euros (cerca de R$ 490) são consideradas na pobreza extrema.

Uma de cada quatro famílias não tem dinheiro o suficiente para saldar as dívidas no fim do mês.

A pesquisa estatal sobre a população economicamente ativa indica que em 2009 havia 4% das famílias com todos os integrantes desempregados. No primeiro trimestre de 2011, a taxa alcançou 11%.

Os serviços sociais estão sobrecarregados. Há quase 30 anos não havia tanta demanda.

Perfil

E o que mais chama a atenção dos pesquisadores é o perfil da nova classe. Os solicitantes de auxílio são geralmente trabalhadores entre 20 e 40 anos, alguns com formação profissional, que antes da crise tinham imóveis e bons salários.

"Com a falta de ofertas de trabalho, eles passaram a ser desempregados de longo prazo. Trata-se de uma crise que está mudando a vida das pessoas de maneira radical", disse à BBC Brasil o Secretário Geral da ONG Cáritas-Espanha, Sebastián Mora.

O responsável pela área de assistência social da igreja Católica explicou que nas décadas passadas a Cáritas ajudava indigentes, ciganos e imigrantes sem família na Espanha. Agora, estas ajudas se dividem entre imigrantes (60%) e espanhóis (40%) que até pouco tempo atrás pertenciam à classe média.

"Tinham créditos bancários para pagar casas e carros e não sobravam recursos para economizar. Hoje solicitam caridade envergonhados. Jamais pensaram que passariam por isso", afirmou Mora.

Solicitação de ajuda

O relatório Observatório da Realidade Social, feito pela Cáritas, mostra que os pedidos de ajuda mais que dobraram em quatro anos. De 950 mil pessoas atendidas em 2010, 35% recorreram ao auxilio de caridade pela primeira vez.

Segundo a instituição religiosa, estes novos pobres usam quase tudo que obtêm através de ajudas do governo para pagar aluguéis ou créditos bancários, o que não deixa o suficiente para contas, comida e roupa.

As crianças são as principais vítimas desta situação. Em novembro de 2010, a Unicef divulgou um relatório sobre a pobreza infantil denunciando que um de cada quatro menores na Espanha pertence a uma família cuja renda está 60% abaixo da média nacional.

Este índice coloca a Espanha quase na lanterninha das nações da União Europeia. No grupo dos 27 países do euro, apenas Romênia, Bulgária, Letônia e Itália têm taxas inferiores.

O Instituto Nacional de Estatística confirma os dados. No segundo trimestre de 2011, quase 2 milhões de menores de idade (24,1% do total) moravam em casas onde faltavam elementos básicos.

O governo admitiu que terá que revisar o sistema de benefícios, porque as contribuições estão sendo insuficientes, os recursos humanos estão sobrecarregados e alguns problemas burocráticos atingem pessoas em situação insustentável.

A fila é tão grande que o tempo de espera para atendimento em uma seção de assistência social pública é de 65 dias. Em instituições de caridade, como a Cáritas, o prazo cai para uma semana.

Falsa classe média

"Vivíamos uma bonança que não correspondia à economia real"

Ignácio Alvarez, professor de Economia Aplicada da Universidade Complutense de Madri

As estatísticas da Espanha atual contrastam com a de um país que até seis anos atrás criava 500 mil empregos por ano e que, em uma década de prosperidade, importou 5 milhões de imigrantes.

"A verdade é que vivíamos uma bonança que não correspondia à economia real", disse à BBC Brasil o professor de Economia Aplicada da Universidade Complutense de Madri Ignácio Alvarez.

"Não era lógico que as empreiteiras espanholas produzissem mais do que Reino Unido, Alemanha e França juntos a cada ano. Quando estourou a bolha da construção, percebeu-se como os valores de certos ativos, como imóveis, estavam inflados. Agora o caminho é reinventar o modelo produtivo."

Segundo o Barômetro Social Nacional, com o boom do setor da construção o PIB da Espanha cresceu mais de 60% nos últimos 15 anos.

Entre 1994 e 2007 os imóveis se valorizaram 175% e os valores de ações e ativos financeiros subiram 130%.

A socióloga Violante Martínez, professora da Universidade à Distância (Uned), avalia que quem se beneficiou muito dessa bonança também entrou em queda livre com ela.

"Trabalhadores que antes da crise tinham um status econômico acima do seu nível de formação ascenderam bruscamente. Agora seus negócios quebraram e eles estão endividados", afirmou.

"Mas são pobres transitórios. Terão que reconduzir sua economia e viver em outra realidade, mas certamente sairão deste baque."

FONTE:BBC Brasil / Anelise Infante