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domingo, fevereiro 05, 2012

As torcidas organizadas e a Revolução egípcia

"Os torcedores radicais da equipe do Cairo e os do Zamalek foram os que mais se comprometeram no combate contra Mubarak"

Nas horas mais violentas da segunda fase da Revolução egípcia que fez da praça Tahrir o seu território de rebeldia, as torcidas organizadas egípcias atuaram como a tropa de choque que se enfrentou com a polícia nos combates mais cruentos que estouraram nos acessos à rua Mohamed Mahmud. Essa via conduzia ao Ministério do Interior e era, tanto para os manifestos quanto para a polícia, um lugar estratégico. Sem aqueles jovens de 20 anos fanáticos por futebol e oriundos dos bairros pobres do Cairo, sem sua cultura aguerrida dos enfrentamentos, a praça teria caído nas mãos da polícia. As torcidas organizadas que surgiram na América Latina nos anos 70 apareceram recentemente no Egito. Os primeiros grupos apareceram em 2005 e, quase imediatamente, entraram para a oposição ao regime do deposto Hosni Mubarak e aos membros de seu braço político, o PND (Partido Nacional Democrático).
Incontroláveis pelas estruturas patriarcais que dirigem os clubes de futebol, a maior parte das vezes aliadas de uma ou de outra forma com o regime, hostis ao comando do PND, furibundos contestadores da autoridade policial, a qual desprezam por sua endêmica corrupção e pela brutalidade insensata com que atuava, os « ultras », como são conhecidos, desenvolveram uma estrutura poderosa, rebelde e violenta.
Autônomos nos planos político e material, já que não dependem dos clubes com os quais simpatizam, eles fizeram da guerrilha contra as forças da ordem um estilo de vida. Seu desenvolvimento foi tão rápido quanto sua capacidade de se organizar. Os analistas egípcios davam conta de que, depois da Irmandade Muçulmana, os clubes de torcedores que nasceram nos meados do ano 2000, eram as estruturas mais organizadas do país. Duas torcidas se destacam entre todas : a White Knights, dos torcedores do clube Zamalek SC, e a dos torcedores do Al Ahly Sporting Club, um dos grupos envolvidos no massacre de Port Said.
Em outubro e novembro do ano passado, em plena revolta da Praça Tahrir, Carta Maior compartilhou com esses torcedores momentos de uma extrema violência e de uma grande solidariedade interna. Poucos dias antes das eleições que marcaram o ingresso do Egito em um sistema democrático mais aberto, os revolucionários de janeiro de 2011 voltaram a ocupar a praça para exigir da junta militar mudanças substanciais no dispositivo eleitoral, assim como a entrega imediata do poder aos civis. A polícia respondeu com mais virulência do que nas revoltas que desembocaram na queda de Hosni Mubarak. Mas as torcidas organizadas estavam ali para defender a praça Tahrir. Nada os dissuadia : estavam perfeitamente treinados para suportar os gases lacrimogêneos, pular paredes, atirar pedras e se chocar diretamente contra as unidades policiais especializadas em repressão urbana.
A Revolução egípcia unificou as torcidas por cima das rivalidades clubísticas. "Eles foram os atores determinantes da Revolução de janeiro. No dia 25, sem que ninguém os chamasse e sem que houvesse uma consigna posterior, eles vieram para defender a Praça Tahrir e dali não se moveram", lembrava Tamer, um advogado recém formado. Sua presença ficou gravada nos muros do Cairo junto aos grafites da revolução.
A consiga dos ultras, ACAB (All Cops are bastards, Todos os policiais são bastardos) ocupa tantos lugares quanto as consignas revolucionárias.
Graças à internet, aos telefones celulares e às redes sociais, a capacidade de mobilização destes grupos é tão massiva como instantânea. Os três principais nucleos de torcidas organizadas, Ahlawy, White Knights e Blue Dragons, atraem dezenas de milhares de pessoas em um piscar de olhos.
Calcula-se que esses três grupos são capazes de reunir cerca de 20 mil pessoas e levar para a rua mais de 50 mil. Sua influência chegou a tal nível que, durante os últimos anos de Kubarak, a policia ia prender os líderes das torcidas em suas casas e os julgava logo em tribunais militares.
Os torcedores radicais da equipe do Cairo, Ahly, e os do Zamalek foram os que mais se comprometeram no combate contra Mubarak. Não parece ser um acaso que tenham sido agora objeto de uma vingança sangrenta ante à passividade cúmplice da polícia. Omar, um cairota de 20 anos, membro dos White Knights, dizia em novembro de 2011 que a polícia egípcia era "uma assassina" e que se havia algo que era preciso mudar com urgência no país era "limpar esse corpo de torturadores e corruptos". Gasser Abdel Ruzek, um dos dirigentes da Iniciativa Egípcia para os Direitos Pessoais, contava no ano passado que os torcedores de futebol passaram da condição de fanáticos de um clube para a de "soldados" da liberdade.
FONTE: OPERA MUNDI / Artigo publicado originalmente no Carta Maior. 

terça-feira, dezembro 27, 2011

Tribunal egípcio pede fim de 'testes de virgindade' em prisões


Um tribunal egípcio ordenou nesta terça-feira que o exército pare com os testes forçados de virgindade a prisioneiras, meses depois de a pratica ter provocado um protesto nacional e manchado a reputação dos militares, atualmente no poder.
O Tribunal Administrativo do Cairo decidiu a favor de Samira Ibrahim, que processou o exército por causa da prática, considerada por grupos de direitos humanos como tortura e violência sexual.
Ibrahim foi uma das muitas mulheres submetidas a testes forçados de virgindade quando foram detidas durante uma manifestação em março na Praça Tahrir, no Cairo, epicentro dos protestos que derrubaram o ditador Hosni Mubarak.
O veredicto foi recebido com gritos de comemoração e aplausos de dezenas de ativistas de direitos humanos que estavam na audiência.
Hossam Bahgat, o diretor da Iniciativa Egípcia para os Direitos Pessoais, que agiu em favor de Ibrahim, receberam a sentença como uma "boa notícia".
Mas ele disse que muito trabalho ainda era necessário para garantir a responsabilização criminal daqueles que ordenaram e realizaram os testes.
Um alto oficial do exército justificou os exames, dizendo que eles eram necessários para afastar possíveis acusações de estupro.
Respondendo ao veredicto, o chefe da inteligência militar, Adel Mursi, disse que a sentença era "inaplicável" porque não há instruções para realizar esses testes.
"Não há, absolutamente, nenhuma ordem para realização de testes de virgindade. Se alguém realiza esse teste, então isso é um ato individual e a pessoa estará sujeita à investigação criminal", disse Mursi.
No dia 3 de janeiro, um soldado enfrentará a corte marcial por causa dos testes de virgindade, acusado de "indecência pública e de não seguir ordens".
"O modo como a ação é apresentada dá a impressão de que foi um soldado desonesto agindo sozinho", disse Bahgat à AFP. "Por isso, ele pode escapar apenas com uma multa", emendou.
"Estamos trabalhando duro para mudar a acusação para violência sexual. Lutaremos para que seja realizada uma investigação adequada", afirmou Bahgat.
Em um emotivo testemunho postado no YouTube, Ibrahim, de 25 anos, contou como ela e outras mulheres foram agredidas, eletrocutadas e acusadas de serem prostitutas.
Ela disse que o "teste de virgindade" foi realizado por um soldado uniformizado, diante de dezenas de pessoas.
"Quando saí, eu estava destruída fisicamente, mentalmente e emocionalmente", disse.
No dia 9 de março, oficiais do exército evacuaram violentamente a Praça Tahir, no Cairo e prenderam pelo menos 18 mulheres.
As mulheres disseram que foram agredidas, receberam choques elétricos, foram submetidas a revistas, enquanto eram fotografadas por soldados, forçadas a fazer "testes de virgindade" e ameaçadas com acusações de prostituição.
Em maio, um general do exército, falando à CNN em condição de anonimato, defendeu a prática.
"Não queremos que elas digam que foram sexualmente atacadas ou violentadas, nem que queríamos provar que elas não eram virgens em primeiro lugar", disse ele.
As declarações causaram ainda mais furor, levando o exército a prometer que testes de virgindade não seriam mais realizados no futuro.
Os militares do Egito receberam status de herói, no começo dos levantes de janeiro por ficar do lado da população e se recusar a atirar nos manifestantes.
Mas o Conselho Supremo das Forças Armadas (SCAF), que assumiu o poder quando Mubarak caiu, tem recebido, cada vez mais, críticas, por usar táticas do antigo regime para reprimir dissidentes e por abusos dos direitos humanos.
Na semana passada, o SCSAF pediu desculpas publicamente às mulheres depois que vídeos circulando nas redes sociais mostravam tropas do exército atacando brutalmente as manifestantes.
Uma imagem que mostra uma manifestante usando véu estendida no chão e soldados com capacetes, chutando-a e despindo-a para mostrar o sutiã dela, resumiu a violência usada contra os manifestantes e levou à condenação internacional.
FONTE: JORNAL DO BRASIL

quarta-feira, setembro 29, 2010

Egito e vizinhos sedentos entram em disputa pelas águas do Nilo

Países localizados ao norte do rio histórico defendem novo acordo e chamam tratado sobre utilização das águas de colonialista


Um lugar para se começar a entender por que o Egito, um país assolado pela seca, rompeu as relações com seus vizinhos Nilo acima é a região lamacenta das plantações de algodão e milho de Mohamed Abdallah Sharkawi. O preço que ele paga pelo precioso recurso que inunda sua fazenda? Nada.

"Graças a Deus", disse Sharkawi sobre a água do rio Nilo. Ele ergueu as mãos para o céu, então fez um gesto na direção de um funcionário do Estado visitando sua fazenda."Tudo vem de Deus e do ministério".

Mas talvez não por muito tempo. Países localizados rio acima, buscando corrigir o que acreditam ser erros históricos, se uniram na tentativa de acabar com o quase monopólio que Egito e Sudão têm sobre a água, ameaçando uma crise que especialistas egípcios dizem que poderia, na sua forma mais extrema, levar à guerra.

Desde que a primeira civilização surgiu na região, os egípcios têm se agrupado ao longo das margens ricas em lodo do Nilo. Quase todas as 80 milhões de pessoas do país vivem a poucos quilômetros do rio, e os agricultores mudaram pouco seus métodos de cultivo em quatro milênios. A população do Egito está crescendo rapidamente, porém, e até o ano de 2017 as taxas atuais de uso da água do Nilo vão apenas atender às necessidades básicas do país, de acordo com o Ministério da Irrigação.

E isso caso o fluxo do rio se mantenha intacto. Sob o domínio colonial britânico, um tratado de 1929 reservou 80% de todo o fluxo do Nilo para o Egito e o Sudão, na época governados como um único país. Esse tratado foi reafirmado em 1959.

Tratado

Os sete países acima do rio – Etiópia, Uganda, Tanzânia, Quênia, República Democrática do Congo, Burundi e Ruanda – dizem que o tratado é um resquício injusto do colonialismo, enquanto o Egito diz que esses países estão repletos de recursos hídricos, ao contrário do Egito árido, que depende apenas de um.

O confronto de hoje tem se desdobrado em câmera lenta. Em abril, as negociações entre os nove países do Nilo foram interrompidas depois que Egito e Sudão se recusaram a ceder terreno. Os países acima rapidamente se reuniram e em maio ofereceram uma proposta que iria libertá-los para construir seus próprios projetos de irrigação e barragens, reduzindo o fluxo para o Lago Nasser, o vasto reservatório artificial que atravessa o Egito e o Sudão.

Até agora, Etiópia, Uganda, Tanzânia, Quênia e Ruanda assinaram o acordo da nova bacia do Nilo, que exigiria uma maioria simples dos países membros para aprovar novos projetos. O Egito quer manter o poder de veto sobre projetos em qualquer país e com o Sudão alega que as principais disposições do tratado da era colonial devem ser preservadas.

Congo e Burundi ainda não tomaram lados. Egito e Sudão têm até maio de 2011 para retomar as negociações, ou então os demais países irão ativar o novo acordo.

FONTE: ultimosegundo.ig /*Por Thanassis Cambanis