Valoriza herói, todo sangue derramado afrotupy!
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quinta-feira, janeiro 15, 2015

Manifesto ao povo Brasileiro; Às vésperas do julgamento pelo Supremo Tribunal Federal, STF











A PEC 215/2000 e seu Substitutivo é descaradamente inconstitucional e ultrajante aos povos. Inviabiliza novas demarcações de terras indígenas. Reabre procedimentos administrativos já finalizados. Legaliza a invasão, a posse e a exploração das terras indígenas demarcadas.

De diversos movimentos e entidades
Às vésperas do julgamento pelo Supremo Tribunal Federal, STF, da Ação Direta de Inconstitucionalidade, ADIN, 3239, proposta pelo partido Democratas, contra o Decreto Federal 4.887/200 e da votação pela Comissão Especial da Câmara dos Deputados, do “Substitutivo à Proposta de Emenda à Constituição 215/2000 expressamos nossa profunda preocupação com o que está acontecendo neste país.
O Decreto Federal 4.887 de 20 de novembro 2003, regulamentou o processo de titulação das terras dos remanescentes das comunidades de quilombos criando mecanismos facilitadores do processo de identificação e posterior titulação do território das comunidades, encontrou no partido Democratas (um dos últimos resquícios da sustentação parlamentar da ditadura militar) ferrenha oposição até o ajuizamento de Ação junto ao STF alegando inconstitucionalidade do decreto.
A PEC 215/2000 e seu Substitutivo é descaradamente inconstitucional e ultrajante aos povos. Inviabiliza novas demarcações de terras indígenas. Reabre procedimentos administrativos já finalizados. Legaliza a invasão, a posse e a exploração das terras indígenas demarcadas.
O que une as ações dos ruralistas é o desejo de extermínio dos povos e comunidades tradicionais ao retirar-lhes os seus territórios fundamentais para a reprodução de suas vidas e dos seus modos de viver, seus costumes e tradições, seus saberes e sabores.
Esperamos que os ministros do STF julguem a ADIN 3239 a partir dos direitos fundamentais da pessoa humana e não se enredem em questões minúsculas de formalidades jurídicas.
Está em jogo o direito de populações que historicamente foram discriminadas, massacradas, jogadas à margem da sociedade. É mais que necessário que se garantam os poucos direitos tão duramente conquistados. Igualmente esperamos que a PEC 215/2000 seja definitivamente sepultada e o Estado respeite os direitos dos povos originários e comunidades quilombolas e que caminhemos para o reconhecimento dos Direitos da Mãe Natureza.
Assinam:
Articulação Nacional de Quilombos – ANQ
Comissão Pastoral da Terra - CPT
Conselho Indigenista Missionário – CIMI
Comunidade indígena – Povo Gamela/MA
Associação Carlos Ubiali
Justiça nos Trilhos
Paróquia São Daniel Comboni
GEDMA/UFMA
Paroquia do Divino Espirito Santo Mirinzal Maranhão
Padre Clemir Batista da Silva

terça-feira, novembro 19, 2013

TRF4 marca julgamento sobre a titulação de comunidade quilombola













O julgamento será no dia 28 de novembro, no TRF4, Porto Alegre/RS. Ao julgar a titulação do Paiol de Telha, desembargadores federais consolidarão uma posição acerca de todos os outros territórios quilombolas da região Sul


No mês que marca a luta e a resistência do povo negro no Brasil, com o Dia da Consciência Negra, o Tribunal Regional Federal da Quarta Região – TRF4 irá julgar processo que envolve a titulação das terras da comunidade quilombola Paiol de Telha. O julgamento será no dia 28 de novembro, em Porto Alegre/RS. A decisão afetará diretamente 300 famílias do Paiol de Telha, de Reserva do Iguaçu, região centro do Paraná.

O caso é emblemático por envolver o questionamento da constitucionalidade do Decreto Federal 4887/03, que trata da titulação de territórios quilombolas, prevista no art. 68 do ADCT – Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição Federal. Ao julgar a titulação da comunidade Paiol de Telha, desembargadores federais do TRF4 consolidarão uma posição acerca de todos os outros territórios quilombolas da região Sul, influenciando também outros processos em curso no país. Logo, toda Comunidade Quilombola auto-identificada no Brasil, passará pela mesma ameaça de deslegitimação identitária.

A Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 3239 questiona o Decreto Federal 4887/03 no Supremo Tribunal Federal. Seu julgamento teve início no ano de 2012, quando o Ministro Relator Cesar Peluso votou pela inconstitucionalidade. Outros dez ministros do Supremo Tribunal Federal ainda deverão votar, não sendo possível afirmar a posição do STF acerca do tema.

Neste contexto de tramitação da ADI, o julgamento do caso Paiol de Telha ganha uma dimensão nacional, que poderá influenciar outros julgamentos ligados à titulação de terras quilombolas. Caso a decisão seja favorável às famílias, poderá significar avanço no processo histórico de afirmação e conquista de direito humanos dos povos tradicionais quilombolas do Brasil, além de influenciar positivamente o julgamento da ADI 3239.

Participe da campanha que cobra a titulação do território quilombola da comunidade Invernada Paiol de Telha Fundão. Assine e divulgue a petição. Curta e divulgue também a página da campanha no facebook.


FONTE: Do Terra de Direitos

quarta-feira, maio 29, 2013

CARTA DO MOVIMENTO QUILOMBOLA DO MARANHÃO



















Pisa Ligeiro, pisa ligeiro.
Quem não pode com quilombos
 não assanha seus guerreiros!
Nós, quilombolas do Maranhão, reunidos em Mangabeira-Santa Helena (MA), dirigimo-nos aos irmãos e irmãs Quilombolas e Povos Indígenas do Brasil, às Igrejas, às Religiões e a toda a Sociedade Brasileira para denunciar a continuidade do extermínio dos povos tradicionais por parte do Estado Brasileiro Racista. 
Há mais de 500 anos sofremos na pele a força e crueldade dos canhões: os navios nos quais fomos trazidos da Mãe-África; a escravidão para a produção das riquezas das elites; a destruição de milhares de quilombos e o assassinato de nossos ancestrais; a demonização de nossas Religiões e tantos outros. Mas não nos deixamos vencer. Resistimos com a força de nossos Ancestrais, nossos Orixás, Caboclos e de Jesus de Nazaré. 
Nossa Resistência e nossas Lutas fizeram com que o Estado Brasileiro reconhecesse nosso Direito aos nossos Territórios tradicionalmente ocupados, à nossa Cultura, à nossa Religião. Ainda por causa de nossa luta, as mais diversas Instituições do Estado Brasileiro estão se articulando para promoverem a extinção dos Direitos garantidos na Constituição Federal que continuarão o genocídio.
Diante dessa situação vimos denunciar:
O Poder Legislativo – onde Projetos de Lei e Propostas de Emenda Constitucional – PEC 215 e outras - das bancadas ruralista e evangélica visam exterminar direitos consagrados na Constituição Federal; 
O Poder Executivo - com a continuação da politica de cortes de recursos que resulta no sucateamento dos órgãos fundiários – INCRA, ITERMA, FUNAI – e na paralisação dos processos de demarcação das Terras Indígenas e Titulação dos Territórios Quilombolas; 
O Poder Judiciário - onde tramitam centenas de Ações de Reintegração de Posse que se destinam a nos condenar à miséria e à morte nas periferias das cidades vítimas do tráfico de drogas e das polícias dos governos, além da Ação Direta de Inconstitucionalidade – ADI 3239 – contra o Decreto 4.887/2003, que regulamenta o procedimento de Reconhecimento, Demarcação e Titulação dos Territórios Quilombolas.
Como se não bastassem tantas atrocidades, no último dia 15 de maio de 2013, 202 deputados federais assinaram pedido de abertura de CPI para investigar a FUNAI e o INCRA com a finalidade de pôr fim às Demarcações de Terras Indígenas e Titulações de Territórios Quilombolas. Da Bancada Maranhense assinaram esse Pedido de CPI os deputados: ALBERTO FILHO - PMDB; CARLOS BRANDÃO - PSDB; DAVI ALVES SILVA JÚNIOR – PR; FRANCISCO ESCÓRCIO - PMDB; LOURIVAL MENDES – PT do B; PROFESSOR SETIMO WAQUIM– PMDB; SIMPLÍCIO ARAÚJO - PPS; HÉLIO SANTOS – PSD; e WEVERTON ROCHA – PDT. 
Causa indignação saber que o objeto da investigação da CPI já está previamente determinado como inconstitucional pelos deputados que farão a investigação. Eles são os maiores interessados por serem latifundiários ou financiados pelas empresas que tem interesses nos territórios dos quilombolas e povos indígenas para a implantação de projetos de monocultivos, barragens ou mineração. Todos já sabemos qual será o resultado dessa CPI se ela for instalada. 
Diante disso, afirmamos:
Não nos reconhecemos representados por um Congresso formado em sua maioria por latifundiários e por uma elite racista;
As riquezas do país devem ser colocadas a serviço de todos e não apenas dos interesses dos banqueiros, dos latifundiários que matam e desmatam, das empresas de mineração que exploram nosso solo e subsolo.
Os Magistrados e Magistradas que, de seus Palácios de vidros, pronunciam sentenças de morte de nossos companheiros e companheiras responderão diante do Trono de Deus.
E proclamamos:
Seguiremos lutando pela libertação da Terra das cercas do latifúndio;
Seguiremos lutando por nossa libertação;
Seguiremos buscando a convivência harmoniosa entre nós, povos da terra; entre nós e a criação de Deus; entre nós e Deus.
Pois assim diz Javé:
“Eu não vou perdoar: porque vendem o justo por dinheiro e o necessitado por um par de sandálias; pisoteiam os fracos no chão e desviam os caminhos dos pobres… Por isso vou abrir o chão debaixo de vocês como abre o chão uma carroça carregada de feixes. Oráculo de Javé!” (Am 2, 6.12-13).

Mangabeira – Santa Helena (MA), maio de 2013
FONTE: JORNAL VIAS DE FATO

sexta-feira, maio 10, 2013

Quilombolas há 6 anos esperam água potável em Dourados











MPF/MS: Quilombolas há 6 anos esperam água potável em Dourados

Prefeitura e Funasa empurram responsabilidade sem solucionar o problema
Em Dourados, Mato Grosso do Sul, o Ministério Público Federal (MPF) ajuizou ação civil pública para assegurar à Comunidade Quilombola Dezidério Felipe de Oliveira o direito básico de acesso à água potável. Há 6 anos, os moradores aguardam a implantação de sistema de abastecimento de água na comunidade.
Nos ofícios encaminhados ao MPF, a Prefeitura de Dourados e a Fundação Nacional de Saúde (Funasa) reconhecem a existência de convênio com o Ministério da Saúde para execução da obra, mas empurram entre si a responsabilidade de dar encaminhamento ao procedimento licitatório.
Prorrogação de prazo, pendência de análise da solicitação de repactuação do preço da obra, falta de documentos complementares são alguns dos obstáculos argumentados pelas instituições.
Para o MPF, é “inadmissível” que um serviço essencial – como o acesso à água potável – demore tantos anos para ser concretizado. “Garantir acesso à água é dever do Estado e direito fundamental dos cidadãos, essencial à vida e à saúde, independentemente de grupo social”.
Na ação, o MPF pede que os órgãos tomem todas as providências necessárias para a repactuação do preço da obra e, logo em seguida, iniciem os procedimentos de licitação e execução do sistema de abastecimento no prazo improrrogável de 120 dias.
Picadinha
A Comunidade Quilombola Dezidério Felipe de Oliveira – também conhecida como Picadinha - está situada no município de Dourados e tem o nome em homenagem ao seu fundador. Nascido em 1867, Dezidério foi escravo e testemunha da abolição da escravatura de 1888.
Ao deixar Minas Gerais, ele seguiu em direção a Mato Grosso do Sul, onde ocupou terras de 3.748 hectares. Faleceu em 1935, antes de concluir o processo de titulação de suas terras, o que deu origem a diversas invasões, que resultaram no esbulho que sofreu Dezidério de Oliveira e sua família. 

FONTE: Assessoria de Comunicação Social / Ministério Público Federal em Mato Grosso do Sul 

quinta-feira, maio 09, 2013

No Brasil, 75% dos quilombolas vivem na extrema pobreza
















Relatório divulgado pelo governo federal reforça a visão de que faltam muitos passos para consolidar os direitos básicos das comunidades quilombolas. Das 80 mil famílias quilombolas do Cadastro Único, a base de dados para programas sociais, 74,73% ainda viviam em situação de extrema pobreza em janeiro desde ano, segundo o estudo do programa Brasil Quilombola, lançado na segunda-feira (6) pela Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir). Entre cadastrados ou não, eles somam 1,17 milhões de pessoas e 214 mil famílias.
Um dos principais motivos para a manutenção dos quilombolas na pobreza é a dificuldade de acesso a programas de incentivo à agricultura familiar, devido à falta do título da terra, que garante a posse das famílias. Segundo o relatório, das 2.197 comunidades reconhecidas oficialmente, apenas 207 são tituladas. Apesar das dificuldades, 82,2% viviam da agricultura familiar no começo deste ano.
“O perfil dos quilombolas é de agricultores, extrativistas ou pescadores artesanais, mas eles têm uma limitação de acesso à terra e não conseguem ser inscritos na Declaração de Aptidão do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), que dá acesso a políticas públicas”, explica a coordenadora de Políticas para Comunidades Tradicionais da Seppir, Barbara Oliveira.
A estratégia para reverter o quadro será, segundo a coordenadora, transferir a responsabilidade de incluir os quilombolas na Declaração de Aptidão do Pronaf para o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) até o final desse ano. O órgão também deverá ajudar a acelerar a titulação das terras, feitas em geral pelo próprio órgão ou por governos municipais e estaduais. “A partir daí eles receberão assistência técnica rural e sua produção será certificada com o selo Quilombolas do Brasil, que agrega valor ao produto”, conta Barbara. “O objetivo é fortalecer a produção”. 
Serviços
Os quilombolas têm menos acesso aos serviços básicos, como saneamento e energia elétrica, que o restante da população, segundo o relatório: 48,7% deles vivem em casas com piso de terra batida, 55,21% não têm água encanada, 33,06% não têm banheiro e 15,07% possui esgoto a céu aberto. Ao todo, 79,29% têm energia elétrica.
Um dos dados que mais chama a atenção, de acordo com Barbara, é a o alto índice de analfabetos: 24,81% deles não sabem ler. A taxa de analfabetismo no país é de 9,1%, segundo a Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílio (PNAD). “Apesar de termos conquistado uma série de programas para educação quilombola, que garantem orçamento, capacitação de professores, material didático e equipamentos, há ainda um desafio muito grande para oferecer Educação de Jovens e Adultos e para ultrapassar a educação além do ensino fundamental, garantindo inclusive acesso ao ensino médio e à universidade”, afirma.

FONTE: BRASIL DE FATO

quarta-feira, novembro 21, 2012

Governo ampliará alcance do Programa Brasil Quilombola com ações do Brasil Sem Miséria

Presidenta Dilma Rousseff preside evento alusivo ao 
Dia Nacional da Consciência Negra
 na quarta-feira (21), no Salão Nobre do 
Palácio do Planalto, em Brasília (DF)
As comunidades quilombolas representam um patrimônio cultural da sociedade brasileira. Essas comunidades, definidas como grupos étnicorraciais, são majoritariamente rurais e vêm se mantendo unidas a partir de relações históricas com o território, a ancestralidade, as tradições e práticas culturais e religiosas que, em muitos casos, subsistem ao longo de séculos. Estima-se que são 214 mil famílias no país. Ao todo, são 1.834 comunidades certificadas pela Fundação Cultural Palmares.

São estas comunidades que estarão sendo representadas nesta quarta-feira (21), às 11 horas, no Salão Nobre do Palácio do Planalto, quando o Governo Federal vai reforçar o Programa Brasil Quilombola com o anúncio de um conjunto de ações a serem executadas em parceria entre a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), o Ministério da Educação (MEC) e o Ministério da Cultura (MINC), por meio da Fundação Cultural Palmares.

Em alusão ao Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, celebrado na terça-feira (20), a Presidenta Dilma Rousseff e as ministras e ministros Luiza Bairros, Tereza Campelo, Marta Suplicy, Pepe Vargas e Aloísio Mercadante, além do presidente da Fundação Cultural Palmares, Eloi Ferreira, assinam atos para garantir os direitos dessa parcela da população e marcar a expansão do Programa Brasil Quilombola (PBQ), incluindo as ações do Plano Brasil Sem Miséria (BSM) voltadas para estas comunidades. A coletiva de imprensa com os ministros acontece às 12h45.

Programa Brasil Quilombola

A Constituição Federal, no Artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, assegura à população quilombola o direito aos seus territórios. Com a criação do Programa Brasil Quilombola (PBQ), em 2004, as comunidades passaram a ser beneficiárias de uma série de políticas sociais específicas, com investimentos públicos crescentes nos últimos anos. 

Entre os principais resultados do Programa, pode-se destacar: 193 comunidades têm o território titulado, beneficiando; no âmbito do PAC, o investimento em saneamento básico já alcança R$ 152 milhões empenhados, para atender 421 comunidades; o Programa Luz para Todos eletrificou mais de 25 mil domicílios quilombolas, até 2012; há 2.008  equipes de Saúde da Família e 1.536 equipes de Saúde Bucal, em 1.117 municípios, que atendem assentados da reforma agrária e comunidades quilombolas. 

Além disso, existem 1.912 escolas quilombolas em todo o País beneficiadas pelo adicional no valor da merenda escolar e pela priorização para recursos voltados à manutenção e reforma operados pelos Programas Nacional de Alimentação Escolar e Dinheiro Direto na Escola. Novas escolas continuam sendo construídas: há projetos conveniados para 75 escolas quilombolas desde 2009.

Eixos das Novas Ações PBQ/BSM

1.    Regularização Fundiária
A regularização fundiária é questão fundamental para a população quilombola e o primeiro eixo das novas ações. No evento da quarta-feira, serão assinados 11 decretos de declaração de interesse social em benefício de 11 comunidades; e entregues Títulos Fundiários para 2 comunidades quilombolas de Sergipe, com reconhecimento definitivo do seu território.

Também serão entregues certidões de reconhecimento para 23 comunidades do Piauí, que se somarão às mais de 1,8 mil comunidades já certificadas pela Fundação Cultural Palmares. Um anúncio de Termo de Cooperação entre a SEPPIR e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) para ações de regularização fundiária será feito, com previsão de repasse de R$ 1,2 milhão para identificação e delimitação de terras, que deverão beneficiar 3.350 famílias de 26 comunidades.

2 - Inclusão produtiva
O segundo eixo é a inclusão produtiva. Segundo levantamento da SEPPIR, as comunidades quilombolas têm como principais atividades produtivas a agricultura, o extrativismo e a pesca artesanal. Nesse sentido, estão previstos:

– Assinatura de portaria regulamentando a ação da Fundação Cultural Palmares na emissão de Declaração de Aptidão (DAP) ao Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) para quilombolas, ampliando a possibilidade de acesso dessas comunidades às políticas de crédito, fomento e compras da pequena agricultura familiar.

– Assinatura da portaria do Selo Quilombos do Brasil, que envolve a SEPPIR e o MDA e se articula com o Selo da Agricultura Familiar para ampliar a emissão dos certificados de origem e identidade cultural dos produtos de procedência quilombola, fortalecendo assim a qualificação dos produtos quilombolas, através da sua identificação, valorização e reconhecimento no mercado nacional. 

– Assinatura, dentro do Brasil sem Miséria, de acordo de cooperação para aprimorar a implementação da 2ª Chamada de Assistência Técnica e Extensão Rural (Ater) Quilombola do BSM, lançada pelo MDA em outubro de 2012, e que beneficiará 4,5 mil famílias. O Programa de ATER possibilita o aumento da renda e a melhoraria da qualidade de vida das famílias rurais, por meio do aprimoramento da produção agrícola de forma sustentável. A 1ª Chamada de Ater, feita em 2011, já beneficia 4,48 mil famílias.  O acordo de cooperação articulará o MDS, o MDA, a SEPPIR e a Fundação Cultural Palmares.

– Anúncio da programação da oferta de água às comunidades quilombolas do Semiárido, por meio do Programa Água Para Todos do Brasil sem Miséria;

3 - Políticas sociais
O terceiro eixo de ações trata da ampliação do acesso a políticas sociais, incluindo programas e ações de transferência de renda por meio da Busca Ativa:

– Busca Ativa no âmbito do Brasil sem Miséria para inclusão no Bolsa Família e atualização das famílias quilombolas no CadÚnico (MDS), visando à ampliação do acesso ao programa de transferência de renda do Governo Federal e a identificação como quilombola - mesmo para os já beneficiários do PBF – permitindo que se amplie o acesso das comunidades a um conjunto de políticas sociais;

– Anúncio de Homologação das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Escolar Quilombola (MEC), que institui orientações curriculares baseadas nos valores históricos e culturais das comunidades quilombolas.

Saiba mais:

1) O que muda na vida dessas comunidades a partir da regularização fundiária? Quais são os benefícios, além da posse da terra?
O território é a principal reivindicação das comunidades quilombolas. É na terra que a comunidade assegura sua reprodução física, social, cultural e econômica. A regularização fundiária permite, ainda, o acesso com maior segurança a políticas de inclusão produtiva, como crédito, e infraestrutura, como o Minha Casa Minha Vida. Essas e as demais políticas sociais são acessíveis a todas as comunidades certificadas (1834) e tituladas (193).

2) Quando começam essas ações? 
As ações previstas no conjunto a ser lançado em 21 de novembro prevêem a implementação de ações para além do universo de comunidades a serem decretadas. Inclusive, parte dessas ações já possui histórico de implementação desde 2004, como é o caso da Assistência Técnica e Extensão Rural para quilombos, executada pelo MDA. As ações a serem lançadas reforçam essa articulação já existente entre diversos órgãos do Governo Federal. 

Parte dos instrumentos que serão assinados tem resultado imediato a partir de sua publicação, como as Diretrizes Curriculares para a Educação Quilombola e os títulos de domínio que reconhecem os territórios. Outros terão suas as ações implementadas ou continuadas em 2013. 

3) Como funciona a certificação com os selos Quilombos do Brasil e Agricultura Familiar?
Sobre essa questão, a articulação dos dois selos favorece as comunidades que serão certificadas, pois assegura que os produtos quilombolas possam ser incluídos nas redes que estimulam a compra pela agricultura familiar e garante o reforço no produto de sua identidade quilombola.

FONTE: SEPPIR

terça-feira, junho 05, 2012

Base de Aratu: um oásis sitiado

A base naval de Aratu, na zona metropolitana de Salvador, é um recanto para algumas personalidades da República. Em dezembro de 2011, Dilma Rousseff escolheu como destino a Praia de Inema para tirar alguns dias de folga. A base é também um dos locais preferidos de Luiz Inácio Lula da Silva: durante dois anos consecutivos o ex-presidente passou o reveillon no local, cujo acesso é restrito à Marinha do Brasil.


São aproximadamente 500 pessoas. Há relatos de gerações de famílias que estão na área há mais de 100 anos e hoje estão assediados pela opressão dos oficiais. “A gente vive sendo ameaçado de morte. É uma verdadeira guerra contra nossas crianças e idosos”, conta Rosemeire Santos, 33 anos, uma das líderes da comunidade.Descrevendo dessa maneira pode até parecer que Aratu é um oásis. Mas os oficiais que garantem a segurança dos chefes da República durante suas férias são os mesmos que há cerca de 40 anos tiram o sossego dos moradores da região do Rio dos Macacos, terreno localizado dentro da base e já reconhecido como quilombola pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).
Ela nasceu e cresceu no quilombo e explica que a Marinha reveza momentos de extrema violência com outros de relativa paz. “Hoje em dia minha filha pequena tem medo dos camburões. Minha avó está doente, em cima de uma cama, e nem isso eles respeitam. Colocam armas nos nossos rostos. Chegam à nossa casa no meio da noite, não podemos nem dormir”, lamenta.
Histórico
O embate entre os oficiais e os moradores do quilombo começou em 1954, quando a prefeitura de Salvador doou o terreno para a Marinha, que logo construiu uma barragem. Nos anos 1970 foi levantada uma vila naval para ser a residência dos fuzileiros. “Essa vila foi feita em cima de terreiros de candomblé. Desde então os relatos são de que 50, 60 famílias foram expulsas sem direito à indenização. Essa comunidade que restou fica do outro lado do Rio dos Macacos e são os remanescentes dessa primeira investida”, afirma Maurício Correia, da Associação de Advogados de Trabalhadores Rurais da Bahia. Junto com a Defensoria Pública da União no estado, a entidade presta assessoria jurídica aos moradores da comunidade.
Em 2010, a Marinha entrou com uma ação na Justiça Federal, por meio da Advocacia-Geral da União, pedindo uma liminar de reintegração de posse, concedida pelo juiz Evandro Reimão dos Reis, da 10ª Vara Federal de Salvador. Desde então os moradores começaram a se mobilizar. Em setembro do mesmo ano a Fundação Palmares certificou o território como quilombo, o que fez com que o despejo passasse a ser postergado. “A reintegração de posse já foi adiada duas vezes: a primeira foi uma tentativa de negociação, estavam propondo um relocamento dessa comunidade, algo que eles não pretendem aceitar”, diz Correia.
A reintegração de posse ocorreria em 4 de março deste ano, mas foi adiada para 1º de agosto. “Foi articulado um novo acordo para a suspensão do cumprimento dessa decisão durante o tempo necessário para o Incra elaborar o Relatório de Identificação e Demarcação da Comunidade”, explica.
Mais agressões
Enquanto o Incra trabalha na elaboração do relatório, os quilombolas fazem o que podem para a preservação de seu terreno. No dia 13 de maio estiveram em Brasília para pedir ajuda. “Foi um ônibus com toda a comunidade. Tivemos uma reunião com a Secretaria Geral da Presidência, com o Ministério da Defesa e com a Procuradoria Geral da República, mas o governo insiste que só tomará novas providências com a conclusão do documento do Incra”, relata Correia.
Rosemeire conta que nem durante a viagem os moradores ficaram livres de truculência. “Do dia 13 até o dia 17, quando a gente voltou para a comunidade, eles seguiram a gente. Lá em Brasília um tenente estava andando em um carro da Polícia Militar. Outro rapaz em um carro branco atirou na minha irmã, mas ela conseguiu desviar. Enquanto isso, nossas crianças que permaneceram no quilombo estavam cercadas pelos oficiais que ficaram na base”.
Mesmo recorrendo ao governo, a violência não cessou. Em 28 de maio, uma segunda-feira, seis camburões da Marinha invadiram o local. Isso porque o morador José Araújo dos Santos estava reconstruindo uma parede de sua casa, destruída pelas fortes chuvas que atingiram Salvador no fim de semana anterior. “Nós fomos chamados por eles e fomos barrados na portaria da vila militar, mesmo tendo procuração do processo. Tivemos que dar a volta por um caminho alternativo, fomos interpelados, recebemos voz de prisão de um soldado. Chegamos lá e encontramos a comunidade sitiada, a casa rodeada com fuzileiros com escudo, com tropas de choque mesmo e um acampamento militar, cheio de crianças, de idosos, um pessoal desarmado. Os almirantes estavam enfrentando a comunidade com fuzil, algo que não se usa em nenhum tipo de gestão de crise com sociedade civil”, conta o advogado.
E complementa: “Nós ficamos lá até 9 horas da noite e só saímos quando houve um acordo com o comando da Marinha, mediado pela Secretaria de Promoção da Igualdade da Bahia. Ficou combinada a retirada imediata das tropas e marcado que no prazo de 48 horas fosse verificada essa questão da possibilidade de reconstruir as moradias, mas até agora a gente não tem resposta sobre isso”.
“Mais do que a questão da permanência no terreno, o que mais nos preocupa é a constante opressão. Não é somente violência física, mas também psicológica. Quando nós estamos lá garantimos que não haverá violência, mas e quando saímos?”, questiona Correia.Apesar do acordo, a líder da comunidade diz que a Marinha não saiu do local. “Eles não cumpriram. Saíram dois camburões, o restante ficou no fundo do quilombo. Os oficiais que não saíram rodearam a casa do meu irmão à uma hora da manhã com armas e ficaram lá”, narra.
Assembleia pública
Diante da situação, membros do Conselho de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados visitaram o Quilombo do Rio dos Macacos na última segunda-feira 4. A comissão, presidida pelo deputado Domingos Dutra (PT-MA), tinha como objetivo verificar a veracidade das denúncias contra a Marinha e ter uma dimensão do tamanho do terreno. Além dele, estiveram também presentes os deputados baianos Amauri Teixeira, Luiz Alberto e Valmir Assunção.
Dutra diz ter comprovado as violações no local. “O que nós verificamos aqui é uma situação talvez única no País. O nível de miséria é alarmante, é uma miséria absoluta, incompatível com um País que se intitula a sexta economia do mundo. As pessoas aqui não têm uma residência, mas umas choupanas. Pessoas idosas estão morando em chiqueiros e ainda por cima estão proibidos de fazer qualquer melhoria nessas casas”, relata o deputado.
Os quilombolas também não têm acesso à energia elétrica, tampouco podem plantar no território ou pescar no Rio dos Macacos. A Marinha realiza três patrulhas por dia, sempre ostensivamente armada, mas nega a opressão. Em nota oficial, afirma estar no direito de proibir a construção das casas, uma vez que ganhou o processo de reintegração de posse na 10ª Vara Federal. “Eles negam as acusações. Estivemos com o Vice-Almirante Monteiro Dias e ele disse que não há agressões e que, muito pelo contrário, são os fuzileiros os verdadeiros injustiçados”, conta o deputado.
A Marinha também nega que o território seja um quilombo, dizendo que os moradores estão há menos de 40 anos na área. Também afirmam que o território é fundamental para a permanência da Base de Aratu e que apenas estão defendendo o patrimônio da União. “Nós recebemos cartas de crianças que estão com medo dos fuzileiros navais. Diante dessas denúncias, dos relatos de jovens, idosos, homens e mulheres e considerando a negativa do almirante da Marinha, nós vamos fazer audiência na Comissão dos Direitos Humanos e vamos levar todo mundo para relatar isso para quem quiser ouvir. Vamos conversar com a Advocacia-Geral da União porque eu considero um absurdo que a entidade antes de esgotar todos os diálogos tenha ingressado uma ação judicial para despejar uma comunidade que afirma que tem mais de 100 anos”, garante.
Para Dutra, é possível compatibilizar a vida da base naval com a do quilombo e considera que realocar os moradores não deve ser uma opção. “Esse caso é simbólico. Se essa moda pega e o governo federal ficar realocando quilombola, como Marambaia no Rio de Janeiro e Alcântara no Maranhão, vai acabar com os quilombos do Brasil”, acredita.

FONTE: CARTA CAPITAL

segunda-feira, maio 14, 2012

Comunidades quilombolas da BA ainda vivem no século passado

Nem mesmo a água suja e salgada que abastece o pequeno distrito de Serra do Queimadão, na região baiana da Chapada Diamantina, tem conseguido calar a boca e fechar os olhos dos quilombolas que habitam na região. A comunidade rural, que vive no município de Seabra, próximo a cidadezinha de Boninal, foi praticamente esquecida pelo poder público. No povoado, o analfabetismo impera entre os adultos. Os moradores bebem água de péssima qualidade, quando o carro-pipa não vem. Não têm direito a médico, emprego, transporte, saneamento ou qualquer outro meio básico de sobrevivência. As famílias conservam, por décadas, o mesmo parentesco. Homens, jovens e mulheres,sem esperança,migram para São Paulo em busca de novos horizontes. 


Quem vai à comunidade quilombola rural de Serra do Queimadão, no município de Seabra, a 478 quilômetros de Salvador, no coração da Chapada Diamantina, não esquece jamais. O rigoroso contraste entre a pobreza socioeconômica e a riqueza multicultural da população é um pedacinho triste do país ainda desconhecido para milhões de brasileiros.
Não se trata de nenhum paraíso tropical, cercado por relíquias naturais, cobiçadas em meio ao “boom” turístico dos novos tempos. As casas erguidas com adobe – barro cru – insistem em se manter de pé, em meio à terra seca, rodeada de mato e caatinga, remontando um cenário típico das primeiras evoluções do século passado.
A água, que chegou há apenas alguns anos, não serve para beber. Os moradores se queixam da falta de um agente de saúde. O posto médico, levantado por incentivo da própria comunidade, está totalmente desativado. Não há médicos, nem nenhum sinal de atendimentos por aqui. Os sanitários domiciliares não existem e os dejetos são jogados a céu aberto, aumentando os riscos para a saúde. A falta de saneamento básico se junta à ausência de iluminação nas ruas. O transporte também é difícil nesta localidade.
As atividades voltadas para a roça predominam e têm sido por décadas a tentativa de “ganha-pão” de 55 famílias, residentes na região. O cultivo de milho, feijão e mandioca, como em tantas áreas rurais do Brasil, nunca foi suficiente para garantiro desenvolvimento sustentável. A comunidade tenta se organizar através da Associação Quilombola de Serra do Queimadão, com 62 sócios: 25 homens e 37 mulheres.
Água salgada - Segundo José Alcides da Silva, 56, presidente da associação e morador do povoado desde que nasceu, a água que abastece a localidade é de péssima qualidade e não serve para abastecimento humano. “A água é muito salgada. Quando a gente bota uma chaleira para esquentar no fogão, tem uma química que fecha o bico. Tudo isso por causa do salitre da água”, conta.
O trabalhador rural explica que muita gente diz sentir “uma queimação nos peitos”, quando consome a água. “Até eu mesmo comecei sentir que estava queimando. E agora, apareceu o problema da mulher que estava internada em Seabra e depois foi para São Paulo. Disseram que era barriga d’água. Aí, levaram para UTI. Mas, um rapaz da comunidade me ligou, confirmando pelos médicos que todo problema de doença da mulher veio dessa água.”.
Senhor Alcides diz que é só deixar a água uns três a quatro dias numa vasilha e que quando vai tirar está aquele sal coberto por cima, feito uma coalhada. “Essa água destrói até resistência de banheiro, chega a destruir até a parte de alumínio, imagine o intestino da gente”.
Os moradores explicam que mesmo para tomar banho o corpo fica coçando. “Precisamos de uma urgência, de um socorro. O pessoal de Saúde de Seabra já alertou: se continuarmos consumindo esta água, nos próximos 10 anos, poderemos morrer todos de câncer ou de outras doenças”, diz, inconformado.
Ele lembra que há casos de morte no povoado sem explicação. “Teve um casal aqui que morreu sem sabermos direito a causa. A mulher morreu primeiro, faltando poucos dias para completar nove meses, o homem morreu. Era Jandira e Adão, dois moradores daqui da Serra. Eram ainda novos, na faixa de 40 a 42 anos. Algumas crianças também ficam inchadas”, alerta, enfatizando que esse tipo de água abastece, além de Serra do Queimadão e de Capão das Gamelas, várias comunidades quilombolas vizinhas.
Outra vítima dos problemas causados pelas precárias condições de vida é Maria Aparecida Mendes dos Santos, 37, mãe de quatro filhos. Já na adolescência, ela passou por um AVC – Acidente Vascular Cerebral, derrame no cérebro que, segundo especialistas em saúde, pode ser agravado pela ingestão de grande quantidade de sal.
Como muitas mulheres, jovens e homens do campo, além das questões relacionadas à saúde, Maria compartilha com o marido a angústia da distância e do cruel destino de quem tem que deixar sua terra para sustentar a família. Muitos vão para outro estado para trabalhar como serventes, pedreiros e domésticos.
“Ele saiu daqui no meio do ano com os olhos cheios de lágrima para trabalhar em São Paulo e todo mês manda um dinheirinho para ajudar a sustentar a gente, aqui. Não sei quando vem. É um sacrifício e uma dor que só quem vive é que sabe. Aqui, a gente precisa de tudo: sanitário, casa para morar, água para ver se cria uma horta, de escola, de uma igreja, de transporte e de respeito”, ressalta.
Forquilha

O retrato da crise também está estampado no rosto de Dona Cardosina Maria da Conceição, 48, casada com Valter José Cassemiro, e mãe de 10 filhos. Como a maioria das mulheres de Serra, ela desconhece as letras. A lavradora conta que há um ano vem se sustentando com a ajuda do bolsa-família de aproximadamente R$ 140,00 e com o trabalho que sempre fez na roça, plantando mandioca, feijão-de-corda e milho. Mas quando essa ajuda não vem…
“Fica todo mundo na mão de Deus, não tem comida. Às vezes uns amigos ajudam, outras vezes não. Hoje, mesmo, não tem nada. Nem para a noite, nem para o dia. Não tem nada na roça, está tudo murchinho, sem chuva, morre tudo. A água salgada não dá para molhar”.
O marido dela deslocou a perna com três anos de idade e não agüenta trabalhar. “Ele vai para a roça, mas não agüenta por muito tempo, por causa da perna – uma é fina e a outra mais grossa. Aqui, também tenho um filho, Damião, mabaço, que não mexe o braço. Foi na hora de nascer que aleijou, estava difícil de sair”.
A conversa foi interrompida pelo meio por gritos que vinham detrás da casa. Eram da pequena Cecília, de seis anos, que chorava pedindo socorro. Pai, mãe e irmãos correram para ajudar. A menina havia ficado presa na forquilha – pau ou tronco bifurcado. Estava confirmada mais uma vez a situação precária das moradias na comunidade. A forquilha da casa de Cardó, como Dona Cardosina também é conhecida, foi utilizada pelos pais para escorar uma parte da casa ameaçada de cair.
Cardó explica que a menina foi brincar, colocando a perna para o alto, na bifurcação, ficou presa e quase quebrou a perna. “Essa casa não é minha. É de Maria Bela da Silva, minha sogra, que já morreu. Mas, meu marido tem mais dois irmãos, que são herdeiros, por enquanto estamos aqui, porque a casa que morava – de enchimento de madeira – caiu há dois anos. Essa aqui, quando aparecem dias de chuva,temos que chamar por Deus mesmo. Por isso, é bom usar a forquilha”, defende o suporte improvisado, fruto de uma criatividade típica dos desassistidos.
O sonho de Cardó é ter uma televisão. As crianças, conta, dormem emboladas no chão, sem colchão. Na casa, há uma cama velha de solteiro que usa com o marido para dormir, cadeiras aqui também são difíceis. “Faz vergonha trazer uma visita, mas tenho fé que Deus vai me ajudar”, reafirma, em meio à miséria, sua fé.
Cultura - O presidente da Associação de Baixão Velho e liderança quilombola, Júlio Cupertino, 72, lembra que, num passado bem recente, os negros não sabiam dizer o que eram remanescentes de quilombos, porque as escolas não ensinavam isso. “Se dependesse de escola, seria analfabeto de pai e mãe. Naquele tempo, não tínhamos escola pública. Não tinha merenda escolar, cadeira para sentar, nem livros, nem caneta. Naquela época, para escrever, enfiava-se a madeira no tinteiro. Quando pesava um pouco a mão, só riscava o bico. Tinha que levar o banco de casa para estudar”.
Cupertino disse que aprendeu a ler, escrever e fazer as quatro operações em 30 dias, porque, com a falta de escolas, os negros só podiam aprender quando o pai podia pagar aula particular. “Hoje, é necessáriovários meses, e até anos, para aprender”, analisa.
Em Serra do Queimadão, hoje, funciona um núcleo do PETI (Programa de Erradicação do Trabalho Infantil), do governo federal, que atende alunos dos 7 aos 14 anos. As atividades realizadas tentam amenizar os descompassos sociais e educacionais visíveis.
A única escola vai da pré-escola até a 3ª série. Quem quiser estudar mais tem que se deslocar para a sede de Seabra a mais de 60 quilômetros. A professora Célia Alves Neves diz que há muitas dificuldades para o ensino devido à distância do povoado. “Lá, na sede de Seabra, encontramos melhor acesso às fontes de pesquisa, mesmo assim, os alunos são muito interessados e desenvolvem as atividades com gosto”, informa, lamentando as condições de vida da população local.
Em meio a tanta tristeza, carências, miséria e descaso social, ainda renascem as tradições deste povo, multicultural e rico em suas raízes. A crença religiosa, mesmo sem a celebração de missas e cultos, ganha força na devoçãoà padroeira Nossa Senhora de Fátima e nos festejos de Cosme e Damião.
O batuque – dança africana e brasileira acompanhada de cantigas e de instrumentos de percussão, o reisado – dança dramática popular com que se festeja a véspera e o dia de Reis -, a capoeira (arte praticada pelos jovens da Serra) e outras manifestações da cultura negra estão presentes e, atravessando séculos, ecoam do sangue de cada morador da comunidade.
Foi para mostrar mais uma vez a fé, força, riqueza e beleza desta comunidade, que, em pleno final de tarde de uma quinta-feira, o batuque – um samba contagiante e gostoso – invadiu as ruas da esquecida localidade e desceu a Serra do Queimadão, numa mistura de cor, ritmo, batidas e mistérios que, sem sombra de dúvida, ainda fariam tremer e envaidecer os velhos quilombos. ta Rosa dos Santos, 63, mulher de Cupertino e chefe do batuque. O grupo já tem nove anos e, segundo ela, foi idéia de Iêda, uma amiga de Boninal, que já trabalhava com isso. “Essa dança é uma alegria que vem do coração. Gostaria que todo mundo aprendesse, pelejo para ensinar aos mais novos, para essa festa continuar.
São mulheres dos povoados da Lagoa, do Basílio, da Serra, do Baixão e do Agreste. Tudo aqui da região”.
E para não deixar morrer a tradição, Dona Arlinda Rosa, 97, mesmo de longe, em sua casa, no alto da Serra, ainda entoa parte da cantiga “He, he, he….boiolé, Maria…. Não posso mais dançar, porque meus pés doem”.
As marcas cansadas do rosto, não escondem todo sofrimento vivido pela lavradora, que ainda mora com a irmã Martinha, já com seus 92 anos. As duas contam que não casaram, porque escolheram demais. “Aqui, a vida toda, sempre foi assim na Serra do Queimadão. Morava na casa ao lado que caiu. Hoje, não quero mais marido. A gente precisa é de água, de sabão, de consertar a casa”.
Todo trabalho e vida sofrida dos moradores da Serra também são confirmados pelo irmão de Arlinda, João Cosme dos Santos, 94. As mãos calejadas da roça não deixam mentir. Ele, mesmo sem estudo, conta sua façanha:
“Aqui, este posto de saúde fui eu que fiz força para chegar. Doei o terreno e até hoje não tenho médico. Aquele espaço que devia funcionar a igrejinha também fui eu, que saí pedindo. Mas, aqui, moça, não tem esse negócio de grandeza, não. A gente é fraquinho de tudo mesmo, se me colocar pelo avesso não sai um tostão, e o que chegar para cá agradeço”, conta, lembrando que, em sua época de moço, trabalhava na enxada para ganhar apenas três tostões por dia – os três centavos de hoje.
Política quilombola - João Evangelista de Souza, 40, morador do povoado de Lagoa Alagadiço e liderança quilombola regional, disse que a luta em prol das comunidades quilombolas apresentou nos últimos dez anos um crescimento tímido.
“Nessas últimas gestões da administração federal, foi dada maior importância à questão das comunidades tradicionais. Percebemos essa mudança na política praticada pelo governo nas áreas de saúde, moradia e energia. Hoje, por exemplo, estas comunidades têm prioridade no programa Luz para Todos. Há uma cota em todos os projetos do governo, embora nem todos os ministérios e secretarias obedeçam isso. Mas, sabemos que há decreto e Lei que garantem os direitos da comunidade nas políticas públicas”.
Ele informa que na região da Chapada Diamantina algumas comunidades foram reconhecidas há pouco tempo como quilombolas. Para isso, explica: primeiro a comunidade tem que se autodefinir e encaminhar um documento à Fundação Palmares para ser certificada. Depois de reconhecida é que é feito um trabalho de antropologia, geralmente pelo Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) e CDA (Coordenação de Desenvolvimento Agrário), da Secretaria de Agricultura do Estado.
Depois que os órgãos fazem a regularização fundiária, territorial, adquire-se o título da posse da terra. Segundo Evangelista, seis das 11 comunidades de Seabra, já finalizaram o processo de titulação e delimitação da área. Quatro estão em andamento e apenas uma (Cachoeira da Várzea/ Mocambo da Cachoeira) não abriu o processo ainda.
”Podemos dizer que Serra do Queimadão é uma das comunidades mais carentes. Toda água salgada em comunidade quilombola causa um dano maior do que em comunidade comum, porque há uma tendência da raça negra a ter problemas de hipertensão e anemia falciforme. O índice de sal aumenta a hipertensão e vêm os AVCs. E isso é científico. É grande o índice de derramee a alta freqüência de outros problemas de saúde”, explica Evangelista.
Ele enfatiza que o sal é prejudicial aos rins, sendo também grande a incidência de problemas de pedras neste órgão.
“Quando não sofrem com a água salgada, padecem com a falta de qualidade dela. A comunidade quilombola de Corcovado, no município de Palmeiras, não tem água, luz, escola, nem estradas. O carro não vai lá, para ir tem de ser a pé”.
Para Evangelista, com a falta de sanitários nessas localidades, a tendência é também aumentar o índice de verminose, já que os dejetos não possuem a destinação adequada e são jogados de qualquer jeito, contribuindo para a degradação ambiental.
De acordo com informações da comunidade, um projeto da Funasa (Fundação Nacional de Saúde), em parceria com a prefeitura de Seabra, não foi concluído, parando a construção de sanitários domiciliares, iniciada há cinco anos em algumas comunidades quilombolas do município, a exemplo de Vão das Palmeiras, Morro Redondo e Olhos D’água do Basílio.
Meio Ambiente – Os prejuízos com o meio ambiente também não poderiam ser outros. Em Serra do Queimadão, não há coleta de lixo e a água salgada que serve a comunidade sai de um poço, na baixa do Baixão, cercado de sujeira. Aquilino Marques dos Santos, 67, responsável por ligar e desligar diariamente a bomba de água, conta que nos últimos dias teve que “fechar” a respiração para cumprir o serviço.
“A bomba sai de dentro do poço, chego lá antes das 6 da manhã, ligo e saio correndo. Tinha vaca morta ali perto, virou carniça, por isso o lugar ficou cheio de urubu. Mas, não chega a pegar na água, não”, explica.
Os moradores mais antigos contam que em Serra já existiu, em décadas passadas, uma fonte de água boa e doce, diferente da triste herança que vem sendo recebida pelas novas gerações de quilombolas. “Com as queimadas, a água passou a ser ruim. Agora, piorou para gente”, lamenta Maria Glicéria Cassemiro, 80, mãe de sete filhos.
Ela lembra que quando a comunidade surgiu o nome era João de Duvirgens, referência ao primeiro morador João Celestino. Em Serra, curiosamente, todas as famílias são parentes. “O cartório não aceitou e como existia o queimadão atrás da serra, ficou sendo Serra do Queimadão”.
Glicéria diz que o povo, em tempos passados, andava nas gamelas para pegar água. “Nessa época, aqui, era tudo um “capoeirão”, do Baixãozinho até a Pedra D’água do Agreste. Era uma fazendona, com gado, jegue, égua. Tinha que andar muito para pegar água”.
A entrega de água através de carro-pipa é feita pela prefeitura de Seabra, mas, segundo os moradores, não têm regularidade. Outras ações municipais estão sendo esperadas pela comunidade, não obtendo ainda êxito.
Quilombos – Os quilombos foram formados pelos escravos que resistiram à escravidão imposta pelo colonialismo e se refugiaram em territórios independentes. Eles desenvolveram formas próprias de organização socioeconômica e cultural, o que manteve os povos remanescentes de quilombos desintegrados dos processos produtivos.
Com o reconhecimento da propriedade definitiva das terras que ocupavam, a Constituição de 1988 lançou luz neste isolamento e resgatou essa dívida histórica com aqueles que investiram efetivamente seu trabalho no Brasil colonial e foram destituídos de cidadania no início do século XIX.
O Decreto 4887/2003, um dos principais avanços legais nesse sentido, está sendo julgado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). O documento define o que são quilombos e estabelece os procedimentos administrativos para a titulação de suas respectivas terras.O julgamento quer decidir a validade das regras que definem se uma área pertence ou não a descendentes de escravos.
De acordo com as fontes de pesquisa, as lutas pelo acesso aos direitos quilombolas não cessam. As informações levantadas evidenciam ainda que as comunidades remanescentes de quilombos estão entre as principais riquezas do país. Elas se constituem em espaços de preservação histórica, onde se projetam a identidade étnica e a solidariedade mútua.
A Bahia é o segundo estado com o maior número de população quilombola do Brasil. Do total de 1.886 comunidades certificadas pela Fundação Cultural Palmares, do Governo Federal, mais de 500 estão na Bahia, das quais, 438 já são reconhecidas pela Fundação Palmares.
FONTE: Maria Augusta da Luz Especial para o Jornal da Mídia