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quarta-feira, novembro 20, 2013

Quilombo dos Palmares expõe vestígios da resistência negra em AL










Memorial fica localizado na Serra da Barriga, em União dos Palmares.
Sítio arqueológico deve receber 7 mil pessoas no dia da Consciência Negra.

O Quilombo dos Palmares, maior centro de resistência negra do Brasil Colonial, resiste. Do alto da Serra da Barriga, em União dos Palmares, o local que foi símbolo da luta pela liberdade dos escravos por mais de um século, é mantido preservado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), que considera o Parque Memorial Quilombo dos Palmares como Patrimônio Histórico, Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico desde 1985.

Destino turístico de Alagoas, o sítio arqueológico do principal quilombo de resistência negra das Américas teve algumas de suas principais edificações reconstituídas, recuperando aspectos históricos e culturais da comunidade e do povo que resistiu por mais de 100 anos aos ataques de holandeses, portugueses e bandeirantes.

De Maceió até o município de União dos Palmares são 84 km. Da cidade conhecida como 'Terra da Liberdade' até o pico da Serra da Barriga, onde está localizado o Parque Memorial, mais 9 km por estrada de terra, em um percurso que exige prudência do condutor, mas que compensa diante da vista que se abre a cada curva da serra.

Ao chegar ao quilombo é preciso atravessar a muralha protegida por uma torre de vigilância para alcançar o largo onde estão situadas as edificações feitas de pau a pique e cobertura vegetal. No destaque, do cenário montado entre árvores, estão ocas em formatos indígenas, a casa de farinha, a estátua em homenagem aos negros e os espaços destinados a convivência comunitária e religiosa.

“O Quilombo dos Palmares é um lugar especial porque representa a ancestralidade de um povo que resistiu a diversas batalhas em nome da liberdade. Além de tudo, este local faz parte da história de Alagoas e do Brasil que merece ser conhecido e compreendido pelo povo brasileiro”, expõe a representante da região Nordeste da Fundação Palmares, Maria José da Silva.

Ainda no entorno do quilombo, outros pontos que chamam a atenção dos visitantes são os mirantes, com vistas ampliadas de grande parte da região, e a Lagoa Encantada dos Negros, nascente que ainda abriga uma antiga árvore gameleira. Atualmente, 16 famílias descendentes dos quilombolas ainda vivem dentro do Parque Quilombo dos Palmares, entre elas, a dona de casa Adriana da Silva dos Santos, 27 anos, que trabalha vendendo água e comida para os visitantes.

“Vivi toda minha vida aqui. Gosto deste lugar. A única coisa que sinto falta é a presença de pessoas durante as outras épocas do ano. Só em novembro é que o movimento de visitantes aumenta e consigo ganhar um dinheiro extra para ajudar meu esposo”, diz a vendedora de cocada Adriana enquanto aguarda os poucos turistas que visitam o local.

Consciência Negra
Durante as festividades da Consciência Negra, comemorado no dia 20 de novembro, data da morte do último comandante-chefe do Quilombo dos Palmares, o guerreiro Zumbi dos Palmares, que foi morto em 1695, a expectativa é que cerca de 7 mil pessoas visitem o local, entre elas turistas de todo o mundo e integrantes de movimentos negros.

Neste ano, as comemorações na Serra da Barriga contam com cortejo religioso, roda de capoeira e diversas outras atividades culturais. As festividades se estendem ainda por União dos Palmares, onde acontece o show do sambista Martinho da Vila, e pela comunidade quilombola Muquém, que fica a 4 km da cidade palmarina.

Zumbi dos Palmares
Zumbi dos Palmares nasceu no estado de Alagoas no ano de 1655. Foi um dos principais representantes da resistência negra à escravidão na época do Brasil Colonial. Foi líder do Quilombo dos Palmares, comunidade livre formada por escravos fugitivos das fazendas.

No ano de 1675, o quilombo é atacado por soldados portugueses. Zumbi ajuda na defesa e destaca-se como um grande guerreiro. Após uma batalha sangrenta, os soldados portugueses são obrigados a retirar-se para a cidade de Recife. Três anos após, o governador da província de Pernambuco aproxima-se do líder Ganga Zumba para tentar um acordo, Zumbi coloca-se contra o acordo, pois não admitia a liberdade dos quilombolas, enquanto os negros das fazendas continuariam aprisionados.

Em 1680, com 25 anos de idade, Zumbi torna-se líder do quilombo dos Palmares, comandando a resistência contra as topas do governo. Durante seu “governo” a comunidade cresce e se fortalece, obtendo várias vitórias contra os soldados portugueses. O líder Zumbi mostra grande habilidade no planejamento e organização do quilombo, além de coragem e conhecimentos militares.

Resistência
Foram necessárias cerca de 18 expedições para destruir definitivamente o Quilombo dos Palmares. Em uma das ocasiões de batalha, Fernão Carrilho ofereceu a Ganga Zumba, um líder que emplementou táticas de guerrilha na defesa do território, um tratado de paz, onde ficaria instituído que todos os nascidos no quilombo seriam livre. Proposta que foi rejeitada por grande parte dos quilombolas.

No embate político, Ganga Zumba foi envenenado, deixando o poder para o irmão, Ganga Zona, aliado dos portugueses. Fato que resultou em rompimento entre os negros gerando um novo grupo liderado por Zumbi. Na ocasião, ele substituiu a estratégia de defesa passiva por guerrilha, com a prática de ataques surpresa a engenhos, libertando escravos e apoderando-se de armas, munições e suprimentos.

Após várias investidas relativamente infrutíferas contra Palmares, o governador e Capitão-general da capitania de Pernambuco, Caetano de Melo e Castro, contratou o bandeirante Domingos Jorge Velho e o Capitão-mor Bernardo Vieira de Melo para erradicar de vez a ameaça dos escravos fugitivos na região.

O quilombo passou a ser atacado pelas forças do bandeirante que contou com um contingente de 6 mil homens, bem armados e municiados. Um quilombola, Antônio Soares, foi capturado e, mediante a promessa de Domingos Jorge Velho, entregou Zumbi, que foi encurralado e morto em uma emboscada, no dia 20 de novembro de 1695.

A cabeça de Zumbi foi cortada e conduzida para Recife, onde foi exposta em praça pública, no alto de um mastro, para servir de exemplo a outros escravos. Sem a liderança militar de Zumbi, por volta do ano de 1710, o quilombo desfez-se por completo.

FONTE: Waldson Costa / G1 AL

ZUMBI, O EDUCADOR









Zumbi deixou um importante legado educacional tanto para a sua época quanto para os dias de hoje. Entrou para a história por suas lições de rebeldia, liderança e gestão dos conflitos nas lutas antiescravagista do século 17. É isto o que nos revelam os documentos oficiais produzidos à época e suas mais importantes interpretações historiográficas do século 20, a exemplo das obras de Edison Carneiro, Décio Freitas, Joel Rufino dos Santos e Clóvis Moura. A assunção política de Zumbi se dá a partir de uma dissidência dentro do Quilombo dos Palmares no ano de 1678. Juntamente com outros palmarinos insatisfeitos com o Pacto do Recife assinado por Ganga Zumba (então grande líder quilombola) com os agentes coloniais, Zumbi planeja e executa a morte do seu líder, assume a liderança da luta antiescravagista em nome do seu povo e protagoniza um dos mais importantes feitos históricos do Brasil Colonial. O

Pacto do Recife buscava pôr um fim às guerras entre as forças coloniais e as forças quilombolas, garantia a paz entre as povoações em conflito, mas reconhecia a liberdade apenas dos negros nascidos nos Palmares, os demais ficariam vulneráveis ao terrível regime escravagista do Brasil Colonial. A deposição e a morte de Ganga Zumba foram atos de rebeldia política que garantiram a Zumbi prosseguir na luta a favor da liberdade de todos os negros do Quilombo dos Palmares. A liderança das lutas anticoloniais sob a tutela de Zumbi dos Palmares durou aproximadamente 15 anos, percorre o intervalo de 1680 a 1695 (ocasião do seu assassinato). Foi um processo complexo, uma vez que o Quilombo dos Palmares era resultado de inúmeras povoações que se interligavam por histórias de fuga do trabalho escravo e reconstrução das relações sociais a partir da consolidação de uma ampla rede de cooperações sociais e econômicas que afrontavam o modelo de sociedade vigente à época.

Além de zelar pelas conquistas sociais e históricas das comunidades palmarinas, Zumbi protagonizou uma liderança de combate guerreiro, contra as forças coloniais. Deste longo processo de liderança, surge mais uma faceta que nos revela o papel educador cumprido por Zumbi dos Palmares: a gestão dos conflitos coloniais. Além do governo local para garantir a subsistência dos mocambos palmarinos, Zumbi comandou inúmeras batalhas contra as forças coloniais, muitas delas foram vencidas graças ao profundo conhecimento da ecologia local associado ao conhecimento da produção e uso de armas de fogo.

FONTE: Gazeta de Alagoas

Mais de 300 anos após a morte de Zumbi, negro ainda sofre com discriminação










Comemorado hoje (20), data da morte de Zumbi dos Palmares, o Dia da Consciência Negra deve servir para que os brasileiros reflitam sobre a desigualdade, a intolerância e o preconceito ainda existentes na sociedade. É o que revela nota técnica do Instittuto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) ao mostrar, por exemplo, que, em Alagoas, os homicídios reduziram a expectativa de vida de homens negros em quatro anos.

A nota Vidas Perdidas e Racismo no Brasil aponta que, além de Alagoas, estados como o Espírito Santo e a Paraíba concentram o maior número de negros vítimas de homicídio. “Enquanto a simples contagem da taxa de mortos por ações violentas não leva em conta o momento em que se deu a vitimização, a perda de expectativa de vida é tanto maior quanto mais jovem for a vítima”, revela o estudo.

Os autores Daniel Cerqueira e Rodrigo Leandro de Moura, ambos da Fundação Getúlio Vargas (FGV), analisaram até que ponto as diferenças nos índices de mortes violentas de negros e não negros estão relacionadas com questões como as diferenças econômicas, ao racismo e de ordem demográfica. “O componente de racismo não pode ser rejeitado para explicar o diferencial de vitimização por homicídios entre homens negros e não negros no país”, concluiram os pesquisadores da FGV.

Considerando o universo dos indivíduos vítimas de morte violenta no país entre 1996 e 2010, o estudo mostra que, para além das características socioeconômicas, escolaridade, gênero, idade e estado civil, a cor da pele da vítima, quando preta ou parda, aumenta a probabilidade do mesmo ter sofrido homicídio em cerca de oito pontos percentuais.

“O negro é duplamente discriminado no Brasil, por sua situação socioeconômica e por sua cor de pele”, dizem os técnicos. No estudo, eles concluem que essas discriminações combinadas podem explicar a maior prevalência de homicídios de negros quando comparada aos índices do restante da população.

Coincidentemente, Alagoas, líder de mortes violentas, especialmente o homicídio, contra negros e pardos também simboliza a luta dos africanos escravizados trazidos da África, no século 19, para trabalhar nos canais. A personificação desta luta que, pelos índices apresentados no estudo do Ipea, ainda perdura é Zumbi dos Palmares. Alagoano de nascença e natural de União dos Palmares, Zumbi, duende na língua do povo Banto, de Angola, liderou o maior quilombo do país.

Aos 7 anos, em 1670, ele foi capturado por soldados e entregue ao padre Antônio Melo, responsável por sua formação. Com o passar do tempo, Zumbi, batizado na igreja Católica com o nome de Francisco, fugiu para o Quilombo dos Palmares onde impressiona os demais escravos fugidos de fazendas de engenho pela sua habilidade em lutas. Aos 20 anos, ele já tinha se tornado o maior estrategista militar e guerreiro, responsável pela derrota imposta pelos quilombolas na luta contra soldados fiéis ao império português.

FONTE: Diario de Pernambuco

Serra da Barriga celebra o Dia da Consciência Negra







Após a morte de Zumbi, negro ainda sofre com discriminação
Desigualdade, intolerância e o preconceito precisam deixar de existir na sociedade


Servindo para que os brasileiros reflitam sobre a desigualdade, a intolerância e o preconceito ainda existentes na sociedade, a comemoração do Dia da Consciência Negra, celebrado hoje (20), coincidentemente com a morte de Zumbi dos Palmares, 1695, tem como destaque em Alagoas o Parque Memorial Quilombo dos Palmares, localizado na Serra da Barriga, em União dos Palmares, que apresenta grandes atrativos e apresentações culturais.

Iniciado pela manhã, com o banho de cheiro feito por religiosos de matriz africana, cortejo sagrado e cerimônia de depósito de flores na Lagoa Encantada dos Negros, o festejo também apresentou para o público as tradicionais rodas de capoeira desenvolvidas por mestres.

Até o fim das comemorações, por volta das 20h na Praça Brasiliano Sarmento com apresentações dos grupos Afro Zumba e Afro Nação Dandara, e dos cantores Janaína Martins, Igbonan Rocha e Martinho da Vila, mais de dez mil pessoas deverão fazer parte do evento, onde também vão poder presenciar homenagens, oficinas e cerimônia para a entrega das novas obras realizadas no Parque Memorial.

Tido como uma referência por ter sido o maior refúgio de escravos da América Latina, o Parque Memorial Quilombo dos Palmares mantém a tradição inovando significativamente sua programação a cada ano.

Discriminação

De acordo com análises realizadas pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Alagoas teve redução expressiva na expectativa de vida de homens negros em quatro anos.

A nota Vidas Perdidas e Racismo no Brasil aponta que, além de Alagoas, estados como o Espírito Santo e a Paraíba concentram o maior número de negros vítimas de homicídio. ““Enquanto a simples contagem da taxa de mortos por ações violentas não leva em conta o momento em que se deu a vitimização, a perda de expectativa de vida é tanto maior quanto mais jovem for a vítima”, revela o estudo.

Os autores Daniel Cerqueira e Rodrigo Leandro de Moura, ambos da Fundação Getúlio Vargas (FGV), analisaram até que ponto as diferenças nos índices de mortes violentas de negros e não negros estão relacionadas com questões como as diferenças econômicas, ao racismo e de ordem demográfica. “O componente de racismo não pode ser rejeitado para explicar o diferencial de vitimização por homicídios entre homens negros e não negros no país”, concluiram os pesquisadores da FGV.

Considerando o universo dos indivíduos vítimas de morte violenta no país entre 1996 e 2010, o estudo mostra que, para além das características socioeconômicas – escolaridade, gênero, idade e estado civil –, a cor da pele da vítima, quando preta ou parda, aumenta a probabilidade do mesmo ter sofrido homicídio em cerca de oito pontos percentuais.

“O negro é duplamente discriminado no Brasil, por sua situação socioeconômica e por sua cor de pele”, dizem os técnicos. No estudo, eles concluem que essas discriminações combinadas podem explicar a maior prevalência de homicídios de negros quando comparada aos índices do restante da população.

Coincidentemente, Alagoas, líder de mortes violentas, especialmente o homicídio, contra negros e pardos também simboliza a luta dos africanos escravizados trazidos da África, no século 19, para trabalhar nos canais. A personificação desta luta que, pelos índices apresentados no estudo do Ipea, ainda perdura é Zumbi dos Palmares. Alagoano de nascença e natural de União dos Palmares, Zumbi – duende na língua do povo Banto, de Angola – liderou o maior quilombo do país.

Aos 7 anos, em 1670, ele foi capturado por soldados e entregue ao padre Antônio Melo, responsável por sua formação. Com o passar do tempo, Zumbi, batizado na igreja Católica com o nome de Francisco, fugiu para o Quilombo dos Palmares onde impressiona os demais escravos fugidos de fazendas de engenho pela sua habilidade em lutas. Aos 20 anos, ele já tinha se tornado o maior estrategista militar e guerreiro, responsável pela derrota imposta pelos quilombolas na luta contra soldados fiéis ao império português.

FONTE: Agência Brasil

sábado, novembro 16, 2013

Nei Lopes: O samba é refém do racismo








“O elogio da mestiçagem tem sido um empecilho ao avanço dos direitos dos negros."





Nei Lopes está de bem com a vida. No sossego de seu sítio em Seropédica, a 75 quilômetros da cidade do Rio, ele pode dar vazão às múltiplas paixões que o movem. Compositor de samba, incansável pesquisador da cultura afro-brasileira e da história do subúrbio carioca, romancista, enciclopedista, e que também cultua orixás, nunca esteve tão produtivo.

Quase nada o tira do sério. A exceção: a resistência de alguns setores da sociedade às políticas de inserção social dos negros, sua principal bandeira ideológica. O debate público é acalorado, já rendeu acusações de racismo de parte a parte e foi um dos temas da conversa que tivemos com ele, num agradável encontro no sítio. Nei tem críticas de sobra à forma como a cultura negra é deixada de lado em nome de um “elogio à mestiçagem”, que, segundo ele, camufla a desigualdade racial ainda existente.

Afiado nas argumentações como é afinado na música, este é o resumo de sua formação. Caçula de 13 irmãos, foi o único a completar o primário e ir além: formou-se em Direito e chegou a advogar por oito anos. “Chateado” com a morosidade e a ineficácia do Judiciário, seguiu “naturalmente” o caminho da música, há décadas trilhado em sua família por tios e irmãos. Daí para escritor, livre-pensador, militante social e, agora, debatedor político.

Por onde quer passe, deixa marcas perenes. Do seu “terreiro”, o autor de obras referenciais como o samba “Senhora liberdade” e a Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana saúda a negritude e pede passagem.


REVISTA DE HISTÓRIA O carnaval ainda é uma festa negra?

NEI LOPES O samba é refém do racismo. Primeiro, sofreu um processo brutal de desafricanização. Estabeleceram um gueto para o que seria o samba africanizado, que é exatamente a escola de samba. Só que o gueto das escolas de samba foi desafricanizado também. Como diz um amigo meu, a sociedade brasileira conseguiu um negócio impressionante, que é criar uma cultura negra sem negros. As pessoas, de modo geral, não se dão conta disso. Pensam que escola de samba ainda é uma manifestação de cultura africana. Não é mais. O que havia de substrato africano no samba foi diluído. E o mais doloroso é que não há um carnaval em que esses supostos conteúdos africanos não sejam evocados pelas escolas de samba. Tem sempre uma coisa de orixás, de África, a África distante, esse é o chavão, não é? A África não está distante coisa nenhuma, a África está dentro da gente.

RH Não tem mais nem o samba de terreiro?

NL Não tem, porque a lógica é outra. Antigamente você entrava em um terreiro de escola de samba – que nem se chamava quadra, se chamava terreiro mesmo, exatamente como os da religião africana. Homem não entrava no terreiro, só mulher, como no candomblé, que hoje também não tem mais essa distinção. Até o sentido da roda do samba era o mesmo do candomblé: o sentido anti-horário. Era assim: tinha o puxador cantando, os compositores cantando, a bateria de frente, como é até hoje, mas no centro do terreiro ficavam as pastoras ensaiando. E elas rodavam como rodam as iaôs no candomblé. E tinha um diretor de harmonia no meio, coordenando aquilo. Qual era o objetivo? Era elas aprenderem o samba, fazerem o coro e dançarem de uma forma semelhante à que iriam apresentar no desfile na avenida. Hoje você vai a uma escola de samba e é um grande baile de carnaval. Apenas isso. Não tem sentido simbólico nenhum.

RH O Brasil está mais mestiço?

NL Eu discuto muito essa questão da mestiçagem, porque ela tem sido uma forma de negar a africanidade – “Não vamos discutir isso porque todos são mestiços”. Mas cadê a representação do lado africano dessa mestiçagem nos círculos de poder? Não tem. Quem repete isso com uma virulência cada vez maior é a “direita social”, Ali Kamel [jornalista, editor do jornal O Globo] e sua rapaziada, Demétrio Magnoli, etcétera e tal. O elogio da mestiçagem tem sido um empecilho ao avanço dos movimentos de direitos civis dos negros. E nem sei muito até onde vai esta mestiçagem, que a gente só vê na base da pirâmide. Não vê acima.

RH O embate sobre políticas para afro-descendentes está radicalizado?

NL Todos os que propugnam hoje pela inserção do negro acabam chamados de “racialistas”, para não dizer racistas. Escrevi um artigo no Globo esclarecendo que a exclusão do negro na sociedade brasileira após a abolição se dá basicamente em benefício dos imigrantes. O negro sai de cena, jogado fora, uma abolição com um artigo só – “Declaro extinta a Abolição no Brasil”. “E faz o que com eles agora?”, “Larga aí, eles se viram”. Nisso vêm entrando os imigrantes, recebendo subsídios, uma porção de coisas. Gilberto Freyre diz que os italianos foram os imigrantes mais paparicados da história do Brasil. A minha mulher é descendente de italianos. Citei isso no artigo. Rapaz, o Ali Kamel escreveu dizendo que eu era o [Jean-Marie] Le Pen [político francês de extrema direita] brasileiro. Para se manifestar a favor de qualquer coisa que seja “subversiva”, você tem que arcar com as consequências. Já fui discriminado também, isso é recorrente. Tem uma história muito engraçada da minha juventude lá no Irajá. Tinha um senhor, vizinho nosso, que me viu nascer ali. Quando eu me formei, ele começou a me chamar de doutor. “Doutor Nei, doutor Nei”. Bom, se ele quer chamar, deixa chamar. E quando larguei a advocacia e comecei a me dedicar à música, todo mundo ficou sabendo. Tem um clubezinho lá da vizinhança, fundado pelo meu pai junto com esse senhor, e houve uma divergência política meio acirrada. E esse senhor, no meio de uma discussão, me tratou de maneira meio ríspida, mal-educada. Eu reclamei e ele disse: “Eu o respeitava quando você era um doutor. Você agora é um sambista” [risos]. Engraçado isso, não é? É um preconceito social onde o etnorracial está embutido com tranquilidade.

RH A consciência quanto à origem étnica fez parte de sua formação?

NL Não, isso a gente adquire com o tempo. Inclusive eu fui desestimulado a ter essa consciência pelo fato de meus pais serem muito velhos. Meu pai é de 1888, nasceu antes da Abolição, e minha mãe nasceu em 1900. Para eles, era um assunto que não interessava. Como é que você vai querer pensar em afirmação negra em um contexto totalmente desfavorável, sabendo que isso não levaria a nada naquela época, só levaria para trás? Até bem pouco tempo, era ofensivo você dizer que alguém tinha ascendência africana. Em qualquer dicionário biográfico ou enciclopédia, a circunstância raramente é apontada. A não ser quando o cara se assume ou quando não tem condição de negar. Ou então quando você está querendo derrubar o cara: o Lima Barreto é sempre mostrado como mulato, talvez pelo fato de ter sido um outsider, com problema de alcoolismo e tal. Então, era “o mulato Lima Barreto”. Não era uma coisa que engrandecesse. A minha família não poderia agir de outra forma.

RH Como começou seu engajamento nessa questão?

NL Minha primeira mulher, a mãe do meu filho, era uma negra de família de classe média, com status econômico e social bem diferente do meu. Desde a década de 1950, seu pai e sua mãe frequentavam a questão étnica. Eu aprendi um pouco no convívio, percebi coisas que não percebia. Isso foi fundamental para mim. Conheci muita gente nessa época, negros que trabalhavam em atividades de cultura, o Teatro Experimental do Negro, a Orquestra Afro-Brasileira. Depois veio a coisa política mesmo, já na década de 70. Com a abertura política, pós-ditadura, as entidades negras se organizaram. A coisa tomou vulto, e eu comecei a ter um embasamento mais teórico. Porque não adianta ter só o sentimento; você tem que organizar isso na sua cabeça. Tem uma psicanalista famosa, negra [Neusa Santos Souza], que escreveu um livro chamado Tornar-se Negro. É isso: uma coisa que a gente se torna. É todo um processo até você se conscientizar. Hoje é muito mais fácil, a coisa já vem mais prontinha. A partir dos movimentos negros da década de 70, qualquer criança tem essa percepção.

RH Mas varia de região para região?

NL Muito. Na Zona Sul [do Rio de Janeiro] não existe cidadania em termos de cultura africana, a não ser, possivelmente, em algum núcleo de favela. É um sentimento mais forte no subúrbio, até pela circunstância numérica: você tem muito mais negros no subúrbio do que na Zona Sul. Seropédica tem uma população de 60% de afro-descendentes. Entre os absolutamente carentes, são 80%. Quanto mais afastado do centro, mais tem esse peso. É muito mais fácil, muito mais plausível, um negro suburbano ter consciência da sua identidade étnica do que um negro de outra região.

RH Qual o significado do subúrbio para você?

NL É a matriz da cultura carioca. A primeira freguesia do Rio de Janeiro ocupava um pedacinho do centro da cidade e ia, no máximo, até o atual Campo de Santana. A cidade era aquilo ali e o resto era o resto. Só que nesse resto, primeiro se constitui a freguesia de Irajá, onde, por felicidade, eu nasci, fui criado e tenho família até hoje. De Irajá é que nasceram Jacarepaguá, Campo Grande. Era o celeiro de abastecimento da Corte. Quando eu vou para o Rio, fico recuperando as coisas. Outro dia estava mostrando para a Sonia [sua mulher] um canal fétido, que você cruza quando vai pela Linha Vermelha, quase em frente ao Fundão: é o Canal da Pavuna, feito no século XIX para escoar a produção até o mar. É fundamental saber essas coisas. O que hoje é Gávea, Jardim Botânico, Lagoa, na Zona Sul, eram os subúrbios rurais da época, a ponto de a Gávea ter sido sede de um quilombo abolicionista.

RH No subúrbio também tinha quilombos?

NL Tinha. A Vila Cruzeiro – do Adriano “Imperador” [jogador do Flamengo] – sediou um quilombo fomentado e incentivado pelo vigário da Penha, que era da pesada, o padre português Ricardo Silva. É uma história muito bonita. Esse padre incentivou a grande festa da Penha. Foi o cara que reformou o templo, trouxe para o Brasil um conterrâneo dele, um grande arquiteto [Luiz Moraes Júnior] que deu o formato atual à Igreja da Penha. E Oswaldo Cruz, trabalhando na região, conheceu esse arquiteto e o convidou para fazer o palácio mourisco da Fundação Oswaldo Cruz. Interessante, não é? Bangu tem uma história muito bonita também. O futebol carioca como um esporte popular nasceu entre os operários da fábrica de tecidos Bangu. Durante muito tempo pensou-se que o Vasco tinha sido o pioneiro dessa abertura aos negros, mas não foi. Muita coisa precisa ser reabilitada para que se tenha uma visão diferente. Até para que os governantes tenham uma visão diferente. O atual prefeito, [Eduardo Paes], não sei se por empolgação por causa de Olimpíadas e Copa do Mundo, está acolhendo algumas idéias, como a de fazer um museu vivo na região de Madureira e Osvaldo Cruz, com a memória do samba de lá.

RH Por que deixou a Zona Norte para vir morar num sítio em Seropédica?

NL Eu cultuo orixás desde 1977 e sempre quis ter um local onde pudesse fazer isso com tranquilidade e da maneira correta. Tem gente que consegue ter orixás em apartamento – já conheci até sacerdotes. Eu achava altamente desconfortável, não só para o cultor como para a própria energia. O orixá exige natureza, exige uma dedicação que envolve espaço, essa coisa toda.

RH O que significa ter orixá?

NL É ser iniciado no culto. Eu tenho uma relação com Cuba, onde acontece uma coisa interessante: por razões políticas e históricas, lá as religiões africanas não sofreram essa carnavalização que acontece aqui no Brasil. Permaneceram bastante próximas dos modelos originais. Foi isso que me encantou. A coisa simples, sem ostentação, sem estardalhaço. Na Bahia, o orixá é explorado mercadologicamente: Shopping Iemanjá, não-sei-o-quê Oxumaré, um outdoor com uns caras com fio de contas no pescoço. Tempos atrás eu achava bacana, agora não acho. É um desgaste, porque essas energias encerram um mistério. O importante na religião é você se entregar, praticar, ritualizar. Religião é um mistério. Ninguém tem noção exata do que seja uma divindade suprema até a própria morte, não é? Então, o que eu observei lá em Cuba e me chamou atenção foi a permanência de determinadas tradições e cultos que no Brasil desapareceram. Por uma determinação superior, conheci lá um sacerdote que veio morar aqui próximo, em Guaratiba. Aí a gente reciclou – reciclagem é o termo – e vamos continuar cultuando os mesmos orixás, somando mais alguns outros que a gente recebeu depois de Cuba.

RH Qualquer dia sai uma enciclopédia de Seropédica?

NL Sabe que tem muita coisa interessante? Estou reunindo material. Pouca gente sabe que a localidade nasceu através de um empreendimento industrial criado por D. Pedro II, de fabricação de seda. Daí “seropédica”, um nome, aliás, errado, porque o radical de seda é seri, de sericultura, por exemplo. O certo seria Seripédica, e não Seropédica, pois o radical sero tem a ver com soro. Seropédica fica situada exatamente no centro da antiga Fazenda Imperial de Santa Cruz, que ia de Guaratiba até Vassouras. Conta-se a história de que um dia D. Pedro II teria isolado o marido da marquesa de Santos nessa região. E um dia, sabendo que ele andava falando mal da ex-mulher, deu-lhe uns puxões de orelha.

RH Sua Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana se tornou uma referência. Como foi essa experiência e quais os critérios para a seleção dos verbetes?

NL Na época, imaginei o seguinte: o objetivo é tornar visível o que estava invisível. Mostrar que tem, por exemplo, uma quantidade enorme de personalidades que o grande público conhece de nome, mas não tem ideia de que tenham origem africana. Tem uns exemplos internacionais também, como o Alexandre Dumas. É uma figura da literatura mundial e pouca gente sabe que era um afro-descendente. Procurei ilustrar, buscar fotos, mostrar a figura do negão. Pesquisei pessoas que tenham significado dentro do contexto histórico-social, no Brasil e em outros países. Biografias de grandes sacerdotes das religiões africanas nas Américas, grandes militares, grandes personalidades. Muitos não ganharam registro em lugar nenhum. A escolha daqueles que são importantes foi pela minha avaliação.

RH No fim das contas, esse é o melhor critério, não é?

NL Quer ver como se justifica? Pega uma Delta Larousse. O critério dela para verbetar jogadores de futebol é a participação na seleção brasileira. Eu não posso utilizar só esse critério. Grandes jogadores de futebol foram barrados da seleção brasileira, até por racismo. Foram muitos, grandes craques. Um que me impressionou muito foi um jogador do América chamado Maneco. Era tão bom que, segundo Mário Filho em O Negro no Futebol Brasileiro, “dava bicicleta quase que ao rés do chão”. Um grande craque mesmo. Ele morreu tragicamente, suicidou-se no Irajá. Quando da escalação da legendária seleção de 1950, que perdeu a Copa para o Uruguai, ele só não foi porque estava machucado. Esse cara não aparece em lugar nenhum, mas tem que aparecer, entendeu? A enciclopédia está agora em processo de preparação da segunda edição, revista, atualizada e aumentada.

RH Como você se relaciona com o mundo acadêmico?

NL Tenho relações de amizade, mas nunca tive vinculação acadêmica nenhuma. A não ser quando fiz o Dicionário Banto do Brasil, e tinha na Uerj um amigo que era pró-reitor e me botou em contato com o pessoal da área de Linguística. Mas não rendeu nada. Pensaram que eu tinha um projeto de bolsa, alguma coisa aprovada que pudesse reverter em benefício para a instituição. Utilizei só a parte material da universidade, porque eu não tinha computador na época. Não houve, como eu gostaria, uma orientação. Esse trabalho foi o primeiro choque com o mundo acadêmico. Uma figura da área de línguas ficou tão incomodada quando o livro saiu que publicou um artigo dizendo que os estudos no âmbito das línguas africanas estavam sendo avacalhados. Não usou esse termo, mas disse “aventureiros fazendo dicionários”, quer dizer, o negócio foi diretamente para mim. Só que, quando eu tive a ideia, pedi a essa pessoa que me orientasse, e ela me desestimulou. Disse algo do tipo “Não se mete nisso, não. É muito complicado”. Só que eu me meti, fiz e foi essa comoção quando o negócio saiu. Encurtando a história: quando saiu o dicionário, mandei um exemplar para o Antônio Houaiss, que estava fazendo seu grande dicionário. Um tempo depois daquela porrada que levei, ele me mandou um bilhete, perguntando se eu não podia arranjar outro exemplar para servir à equipe que fazia a obra. Conclusão: sou a principal fonte de referência do Dicionário Houaiss no que toca a bantuísmos. Você abre o dicionário: “Segundo Nei Lopes...”. Tem pelo menos umas quatrocentas citações ao meu nome. Aí aquela determinada pessoa, um dia encontro em um Congresso; ela sobe ao púlpito e me elogia [risos]. O bilhetinho do Houaiss eu guardo como um troféu.

RH Como a produção artística atual tem tratado do tema do negro, do afro-descendente?

NL Depois do boom do “Cidade de Deus”, em 2001, começou-se a produzir uma literatura e uma filmografia que eu acho extremamente prejudiciais. Pode ser que esteticamente sejam coisas boas, tenham valor, mas politicamente reforçam estereótipos. O Arthur Dapieve, jornalista, que é meu camarada, lançou um romance sobre favela [Black Music], que é o tema da moda. Em determinado momento, ele transcreve a letra inteira do rap da Tati Quebra-Barraco, um rap com duplo sentido pesado, o negócio do fogão Dako, “Dako é bom, Dako é bom”. E ele transcreve isso. São umas coisas que eu acho que só atrapalham. Há uma predominância dessa ótica, que dá dinheiro. Outra coisa perversa é um incensamento da periferia, da cultura de rua. Em vez de trazer essas manifestações para o centro, acham melhor deixar elas lá, onde não incomodam. Criam uma categorização para essas manifestações: é a cultura de rua, é a periferia. Se eu escrevesse um romance periférico, teria muito mais mídia do que o romance histórico que escrevi [Mandingas da mulata velha da Cidade Nova]. Mas faço o que gosto, o que quero. Já iniciei outro romance, sobre o universo da época do nascimento do samba, das escolas de samba. Falo da Portela, Oswaldo Cruz, Estácio de Sá, acho que dá um tremendo pé. Eu gosto de história. O futuro não me agrada muito, não. “Avatar”, para mim, são os meus orixás.

FONTE: REVISTA DE HISTÓRIA / Rodrigo Elias e Vivi Fernandes de Lima

quinta-feira, dezembro 06, 2012

Anemia falciforme é problema cada vez mais grave, diz especialista


Doença hereditária que causa malformação das hemácias e provoca complicações em praticamente todos os órgãos do corpo, a anemia falciforme tem alta incidência no mundo, especialmente entre as populações afrodescendentes. No Brasil, a prevalência é de uma a cada mil pessoas, em média. Na Bahia, onde o contingente de negros é maior, a doença atinge um em cada 650 indivíduos nascidos vivos.
Congênita, a doença piora continuamente ao longo do tempo, reduzindo a expectativa de vida do paciente para uma média de 40 anos. O tratamento se torna cada vez mais difícil, uma vez que adultos apresentam lesões crônicas em todos os órgãos, com crises agudas de dor provocadas pela oclusão dos vasos sanguíneos, além de sequelas neurológicas e outras alterações degenerativas graves.
Há cerca de 30 anos, a professora Sara Olalla Saad, do Centro de Hematologia e Hemoterapia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), se dedica a estudar a doença e aplicar o conhecimento no tratamento de pacientes.
Em 1992, grupos internacionais de pesquisadores publicaram pela primeira vez trabalhos que demonstravam os benefícios da hidroxiureia para diminuir o sofrimento dos pacientes. Desde então, o grupo da Unicamp passou a utilizar o medicamento, que, no entanto, só seria aprovado no Brasil 10 anos depois.
O pioneirismo, unindo pesquisa e clínica, levou o grupo a publicar muitos trabalhos com impacto internacional. Atualmente, os cientistas realizam um estudo de coorte com 114 pacientes de 14 a 55 anos, acompanhando-os continuamente a fim de compreender a doença e testar novas terapias.
Saad, que coordena o Instituto Nacional da Ciência e Tecnologia (INCT) do Sangue,  participou, na sexta-feira (02/12), na sede da FAPESP, do Simpósio Regional sobre Medicina Translacional, realizado em celebração aos 60 anos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
Em entrevista à Agência FAPESP, Saad comentou os rumos das pesquisas sobre anemia falciforme e destacou que as condições sociais dos pacientes, associadas às sequelas neurológicas, contribuem para que a doença, apesar de sua alta incidência e gravidade, seja negligenciada pelas políticas públicas de saúde. 


Agência FAPESP – A hidroxiureia é utilizada para tratar pacientes de anemia falciforme há mais de 20 anos. O que falta aprender sobre esse medicamento? 

Sara Olalla Saad – Embora já venhamos utilizando a hidroxiueria há muito tempo, ainda não sabemos se esse medicamento pode ser usado a partir do nascimento. Esse é o principal foco dos estudos recentes. Geralmente, para começar o tratamento, os médicos esperam por uma indicação, como uma síndrome torácica, ou uma sequência de crises. Mas quando o paciente chega à idade adulta já tem sequelas muito graves e uma péssima qualidade de vida. Queremos que os pediatras possam iniciar o tratamento precocemente, seja com a hidroxiureia ou com o transplante de medula óssea.

Agência FAPESP – Como a senhora avalia o impacto da doença na qualidade de vida do paciente? 


Sara Olalla Saad – Todos consideram o diabetes, por exemplo, uma doença grave pelas sequelas que pode causar. Mas a anemia falciforme é muito mais grave, porque o paciente tem todos os órgãos lesionados. As hemácias, com má formação, têm dificuldade para atravessar os capilares, que podem entupir, causando necrose, morte celular e crises de dor intensa. É comum o aparecimento de úlceras nas pernas, descolamento de retina, priapismo, acidente vascular cerebral, enfartes, insuficiência renal e pulmonar. Todos os ossos são comprometidos, causando dores nas articulações. E a doença é um caminho sem volta: com o passar do tempo ela só piora. Quando esses indivíduos chegam aos 40 anos, o quadro é de uma gravidade desesperadora.

Agência FAPESP – Qual o objetivo dos estudos de coorte que estão sendo realizados pelo seu grupo? 


Sara Olalla Saad – Temos investigado todas as complicações crônicas que ocorrem e o quanto conseguimos intervir em cada uma delas. Temos marcadores renais que hoje são usados no mundo todo e, no caso do coração, usamos ecocardiogramas para saber se está na hora de fazer transfusões. Mas para várias das complicações crônicas não temos muitos detalhes sobre os parâmetros que devem ser controlados. Fazemos nessa coorte um estudo de boas práticas de medicina, a fim de definir como podemos cuidar desses pacientes, prevenir e retardar sequelas, além de promover uma maior sobrevida.

Agência FAPESP – A senhora manifestou preocupação com o crescimento do número de pessoas com anemia falciforme. Isso está ocorrendo porque esses pacientes estão vivendo mais? 


Sara Olalla Saad – Sim, isso está ocorrendo. À medida que vamos fazendo intervenções, eles vão vivendo mais. Mas isso não garante a qualidade de vida deles, que é muito ruim. Há algumas décadas, a sobrevida era de no máximo 30 anos. Hoje, a média de idade dos nossos pacientes é de 40 anos. Já aumentamos muito a sobrevida, mas eles estão com as sequelas.

Agência FAPESP – A prioridade, então, além de estudar meios de prevenção, é descobrir novas maneiras de minimizar as sequelas? 


Sara Olalla Saad – Queremos aproveitar nossos métodos avançados para testar algumas opções que já estão em testes in vitro ou em animais. Graças a avanços como a pinça óptica, podemos fazer isso, mesmo trabalhando em uma coorte pequena de pacientes, sem necessidade de estudos enormes e demorados. Com esse recurso, podemos testar o uso de diversos medicamentos e observar rapidamente como ele modifica a dinâmica das células. Não conseguimos observar a complicação crônica, demora-se 20 anos para isso. Então, precisamos de parâmetros que possam ser estudados rapidamente.

Agência FAPESP – Há polêmica em torno do uso de transplante como alternativa, já que é preciso aplicar quimioterapia em pacientes que não têm câncer. Como a senhora avalia isso? 


Sara Olalla Saad – Sou favorável ao transplante e recentemente pedi para transplantar um paciente meu. Disse a ele que, se fizesse o transplante, corria o risco de morrer em 10 dias, mas ele preferiu fazer, porque tinha muitas sequelas e dores ósseas terríveis. Está bem agora. Tenho agora um paciente de 19 anos na fila. O rapaz tem muitas crises de vaso-oclusão. É um adolescente que, quando sai à noite, fica uma semana internado, com muitas complicações sérias. Está tendo uma vida péssima. Temos receio em fazer transplantes em pacientes adultos, porque estão cheios de sequelas e, para fazer a quimioterapia, o ideal seria que os pacientes não tivessem órgãos lesionados. Mas os estudos mostram que os resultados dos transplantes são excelentes.

Agência FAPESP – O tratamento com hidroxiureia e o transplante são as principais alternativas? Há muitas limitações? 


Sara Olalla Saad – Há algumas limitações. Alguns pacientes não respondem à hidroxiureia. Também não é todo mundo que consegue doador para transplante. Além disso, temos que trabalhar com outras drogas que melhorem toda a inflamação e não apenas a vaso-oclusão, por causa da sequela neurológica causada pela doença. Tratar só a vaso-oclusão não vai resolver, porque é também a inflamação que leva à morte neuronal, causando as sequelas neurológicas. Não sabemos ainda se só a hidroxiureia vai prevenir esse problema. Como vamos ter um número cada vez maior de pacientes, será preciso investir em outras drogas, como o composto que associa a hidroxiureia à talidomida – que é uma droga anti-inflamatória e imunossupressora. Tenho esperança que alguns doadores de óxido nítrico e magnésio possam ser usados nas crises de vaso-oclusão, para aliviar a dor do paciente. Acho que todas essas alternativas podem ter resultados bons.

Agência FAPESP – Pode-se dizer que a anemia falciforme foi negligenciada ao longo da história? 


Sara Olalla Saad – Sim, com certeza. Basta observar a história da hidroxiureia. Em 1992, já havia evidências em humanos de que a droga era eficiente e mesmo assim não conseguíamos aprovação. O Ministério da Saúde publicou uma portaria para o uso da hidroxiureia na qual foi incluída uma absurda lista de efeitos colaterais e um termo de consentimento para que o paciente não queira usar. Mas usávamos a droga há 10 anos e esses efeitos colaterais nunca ocorreram. Qualquer remédio pode ter muitos efeitos colaterais, mas eles podem ser raros, enquanto as sequelas da doença são absolutamente reais.

Agência FAPESP – Por que houve tanta resistência à adoção do medicamento? 


Sara Olalla Saad – Não sei. Não entendo por quê. Mas acho que a negligência pode estar ligada ao fato de que esses pacientes são muito pouco mobilizados. São muito carentes, muito pobres, vários são afrodescendentes, têm uma doença crônica e grave, com sequelas neurológicas. São excluídos da sociedade de todas as formas. 

FONTE: agencia.fapesp
LEIA TAMBÉM:

Duzentos mil brasileiros têm gene da anemia falciforme

http://guebala.blogspot.com.br/2010/06/duzentos-mil-brasileiros-tem-gene-da.html

sábado, dezembro 01, 2012

Jovens negros: aspectos relevantes de discriminação racial


É necessário equilibrar o jogo de poder. 
Temos de fazer valer nossa maioria, 
pois o racismo ainda produz invisibilidade
 da população negra na
 disputa dos rumos do país.

Para pensar a juventude negra, de largada temos de entender em que contexto esse grupo social está inserido na história, pois sua condição atual está intimamente ligada ao que foi forjado ao longo dos anos após a “abolição”. A juventude negra vive sob um legado de discriminação com ações históricas de marginalização e exclusão dos postos de trabalho. Um exemplo disso foi o apoio à vinda da mão de obra imigrante no período inicial do processo de industrialização do Brasil. Com isso, nos anos 1940 houve um movimento de cotas para brasileiros nas empresas nacionais, exigindo maior participação dos locais nas empresas. Entretanto, é notório que se optou pela exclusão da mão de obra dos afrodescendentes do mercado de trabalho e da vida social brasileira.

Da mesma forma, devemos jogar luz no fato de que o Brasil forjou, com muito empenho de sua elite, a diminuição drástica do número de afrodescendentes em relação à população total. Fez isso com diversas ações públicas, utilizando a máquina estatal por meio de políticas de higienização, embranquecimento racial e precarização da moradia, dificultando o acesso a serviços básicos, financiando a vinda dos imigrantes na procura de alijar os negros da manutenção de sua sobrevivência. Soma-se a isso o fato de que a educação notadamente evidencia a contribuição europeia na construção da nação em detrimento dos demais aportes históricos dos indígenas e africanos. Por isso, o movimento negro lutou pela alteração da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, instituindo a Lei n. 10.639/03, que obriga a inclusão da temática “História e Cultura Afro-Brasileira” no currículo oficial da rede de ensino.

Além da exclusão do sistema econômico, a marginalização se estabelece em ações de criminalização. O sujeito negro é continuamente parado e assediado pela polícia por todo o país em revistas que não cumprem o básico direito de ir e vir garantido na Constituição. Um dos fatores que geram essa violação é que seus traços são associados à representação do tipo marginal. Foi criado o estereótipo que legitima mortes por atos infracionais muitas vezes duvidosos, como os casos de resistência à prisão seguida de morte. Procedimento herdado da ditadura, quando se podia matar um criminoso por estarmos em estado de conflito contra insurgentes que queriam tomar o país, para a população negra esse recurso está em uso até hoje. Essa anistia, fornecida pelo Estado às corporações policiais como uma espécie de carta branca, aplica-se a todos os tipos de inquérito. É de causar estranhamento como isso ocorre, sem exceção, com jovens negros moradores da periferia. Assim, esse quadro deixa dúvidas sobre se o combate às drogas é o melhor caminho a tomar na luta contra o crime nas periferias, pois as mortes são justificadas em grande medida ao se caracterizar as vítimas como traficantes ou ladrões − muito no sentido de tranquilizar a consciência da sociedade, que assiste a tais crimes como diversão nas telas de televisão. Em complemento, as mulheres negras e jovens vêm morrendo por, em razão da discriminação, não terem seus direitos garantidos à saúde pública de qualidade. Ainda no governo Lula, o ministro da Saúde admitiu que, no Sistema Único de Saúde, muitas mulheres morriam por não terem seu pré-natal feito com qualidade e atenção devidas, por serem negras. Essa é a razão que fundamenta a afirmação, por parte do movimento negro, de que está em curso um processo de genocídio da juventude negra no Brasil.

Equilibrar o jogo de poder

Por isso a juventude negra e o movimento negro organizam-se para lutar contra os estereótipos fortalecidos pelos meios de comunicação e educação racistas. É necessário equilibrar o jogo de poder. Temos de fazer valer nossa maioria, pois o racismo ainda produz invisibilidade da população negra na disputa dos rumos do país. Precisamos ter, além de sindicalistas, membros do movimento negro no Legislativo. Devem-se garantir eleições em que o capital não se torne o diferencial. Por outro lado, avaliamos que, na última eleição, houve sinais de mudanças pelo país. Elegemos alguns vereadores comprometidos com nossas causas, além dos que já tínhamos. Ainda temos o desafio de chegar de maneira mais efetiva ao Congresso e ao Executivo. Devemos pretender alcançar o patamar de metade de negras e negros no poder, considerando a proporcionalidade da população brasileira. Não convivemos harmoniosamente como pregam, mas estamos na luta para vencer a camuflada cultura racista brasileira.

O racismo no Brasil cria lugares para nos abater, espaço para nos limitar e um mundo para nos devorar. A juventude negra faz diferença ao se lançar ao mundo, mesmo que este seja tão desigual e perverso, cheio de caminhos sinuosos e perigosos. Construímos, educamos, ensinamos, cantamos, amamos e não atacamos ninguém com tantas armas e balas que estão apontadas para nós. A elite branca pretende ver nosso fim, mas somos amor, somos história, somos legítimos vencedores de um jogo de cartas marcadas.

FONTE: DIÁRIO LIBERDADE / Gerson Sergio Brandão Sampaio é membro da Articulação Política de Juventudes Negras. / Samoury Mugabe Ferreira Barbosa é membro da Articulação Política de Juventudes Negras.

quarta-feira, novembro 14, 2012

A Maldição da Traição: os próprios negros do PT, querem destruir Joaquim Barbosa


A Maldição da Traição: Petistas oportunistas, “esquerdistas” de classe média, e os próprios negros do PT, querem destruir Joaquim Barbosa.

“É  inadimissivel que o governo nomeie ministros
 que depois condenem membros do partido”
Senador PT-Acre Jorge Viana

Pensaram realizar um crime perfeito... Porém esqueceram “...mas crime perfeito não deixa suspeitos.”

Discordo de quem quer condenar Joaquim Barbosa, a servo por gratidão eterna, capacho do governo. Em 2004 quando começaram os primeiros boatos de compra de ingressos de um grande show, pelo Banco do Brasil, para aquisição de uma mega sede nacional para o PT, já se sabia quem era o responsável pela estratégia, e que ia dar merda.

Em seguida, um direitista notório, foi filmado com a boca na butija, recebendo propina nos Correios. O individuo era assessor do Zé Dirceu. O que o chefe da Casa civil estaria fazendo acompanhado daquele tipo de gente? Mas antes, ele já havia defendido ardorosamente a coalizão com Zé Sarney, Quercia e outras figuras eminentemente asquerosas e corruptas do congresso.

Então pintou o MENSALÃO. Pensei: Foi pro saco...; está tudo perdido!!! Porém a medida vacilante de Lula, a providencial exclusão do governo, de algumas figuras, abafou uma catástrofe, possibilitando a reeleição. O governo, antes “em disputa”, segundo setores e alinhados esperançosos, o partido, já não seria o mesmo, tinha se contaminado todo e estava refém.  Preço da governabilidade, cobrando pelo PMDB. Dai aos escândalos, demissões sucessivas, do PP de Maluf, PR, PTB de Collor, PRB do Bispo Macedo, até hoje, com a entrada do novo/velho PSD (ex-DEM) de Kassab e Kátia Abreu, e outras figuras detestáveis, direitistas e corruptas.

Não havia quem não soubesse que era o Zé quem comandava. Ninguém fazia segredo também, da sua "sede ao pote". Preparava com maestria, a própria eleição em sucessão ao Lula, reeleito.

Tudo começou em 1991, quando começou o expurgo de toda a esquerda do PT, alegando impossibilidade de convivência, abrindo assim, caminho até a edição da Carta aos Brasileiros. Os oportunistas celebraram. Um governo pra todos! Cumprimento dos contratos!  Em 2002, estupraram 20 anos de construção e debates de princípios e programa, contra a corrupção, à direita, pela ética na política, e por Um governo dos trabalhadores!

Agora, nas eleições de 2002, o PT se propõe igualzinho aos outros. A partir de 2004, cessam as esperanças, a partir dai é pragmatismo puro incorporam-se as oligarquias parlamentares, corruptos e fascistas de todo norte e nordeste, além do antes desafeto Maluf e seu PP.

Fazem-no acreditando em crime perfeito... Alegando que "Não foi pra enriquecimento pessoal!" Que diferença faz? Era crime. Trocavam a confiança do povo, que os elegeu, por uma aliança com as oligarquias corruptas, que tinha como método: A compra e venda de votos, inflacionando os custos das campanhas eleitorais, impossibilitando a eleição de candidatos populares. Desde então, institucionalizou-se, todos deveriam se vender, se pretendesse eleger-se.

De quem foi a ilustre ideia?  Quem tinha um grande projeto de governo, pra usar desse expediente, competir com os iguais e "amigos", enfrentar e inviabilizar os "inimigos", as esquerdas.

Muita grana rolou... Muita gente enriqueceu... Aprenderam, assim como os corruptos do PSDB, DEM, e Cia? Quem comandava o vapor, quem!? Políticos de alto coturno do PT abriram empresas de consultoria. De que atividade ninguém sabe, mas, o ex-prefeito de Ribeirão Preto, fez melhor (do que o Cristo bíblico simbolicamente na multiplicando dos pães e do vinho), mega-aplicando seus milhares e colhendo milhões de reais, em pouco mais de 02 anos.

Destruíram um projeto popular, unindo-se à decadente e egoísta burguesia nacional, dando-lhe fôlego e muita grana. Compuseram-se com os antes inimigos, acreditando ser a melhor tática. Utilizaram-se dos métodos dos “agora amigos”, “afinal se todos fizeram, e nunca deu errado nem jamais daria nada!” Engendraram um plano estratégico, em cima de um crime perfeito que não existe quando alguém investiga seriamente.

Alegam não existir provas documentais e testemunhais. E precisa? Alguém já viu mafioso subalterno, fazer algo que não seja a mando? Alcaguetagem de superiores? Este tipo de gente pensa bolar o crime perfeito e não deixar vestígios visíveis, mas, sempre ficam evidencias... A casa caiu...

Por que se cercaram daqueles tipos, porque não demitiram os corruptos imediatamente? As evidências e os rastros estão lá. O curioso é que nenhum deles cobra provas quando a policia alega auto-de-resistência nos assassinatos de milhares de pretinhos!?  Por quê?

Quando em 1982, denunciei e provei com documentos, que um candidato, depois vereador do PT de Campinas locupletava-se pessoalmente dos recursos do nosso sindicato, Dirceu em resposta, em 1986, bloqueou a minha candidatura a Dep. Estadual, por medo de que elegêssemos 02 negros (eu e o Miltão a Dep. Constituinte), de minha proximidade às esquerdas Trotskistas, ou por provar documentalmente, que um prócer seu, em evidencia, acabava de trair as esquerdas e se juntar aos métodos, que Zé, certamente já defendia?!

O fato é que liberado para a campanha a 20 dias da eleição passei todo o tempo explicando o motivo da candidatura embargada. O PT jamais foi o mesmo, para as esquerdas e para os negros. Depositamos como opositores a ditadura, toda esperança na consigna: Por um governo de Trabalhadores.

Minha avó dizia que “se afoga, quem vai com muita sede ao pote!” A pretensão de sucessão, de Zé ao Lula, malogrou com suas manobras. Quem tem pressa, come cru diz outro ditado. Não existe crime perfeito! À Lula, sucedeu um (a) poste!

O Procurador Gurgel, indicado pelo ex-presidente, tem a tarefa constitucional de receber, e encaminhar os processos para o STF. Aos presidentes deste, compete receber e distribuir entre seus pares, os processos para serem arrolados (não sei quem era o presidente quando chegou o mensalão do PSDB, nem do PT), mas, um mandou proceder outro não.

Dos 11 membros daquela corte, 08 foram indicados por Lula e Dilma. A maioria deles tem votado pela condenação do núcleo político do mensalão (que é o que interessa). Eles são legítimos, estão certos ou errados!? Porque só o Joaquim Barbosa é perseguido? 

Espanta-nos, mas até entenderia isso, partindo dos petistas, e acumpliciados lacaios e vendidos por um cargo a soldo, das classes médias oportunistas e racistas, que ascenderam socialmente beneficiados pelo governo. Mas de militantes de “esquerda” e do movimento negro?

O procurador Geral, não é cobrado com o mesmo ódio pelos petistas. Nem os demais juízes, mesmo os notórios alinhados ao latifúndio e ao PSDB/DEM. Só Joaquim Barbosa deve ser repudiado pelo cumprimento de sua função constitucional? Querem-no subserviente e eternamente grato pela nomeação?

A mesma constituição que estabelece as condições e quem nomeia, determina as funções do indicado e a independência dos juízes e dos poderes. Os brancos podem ser independentes, mas JB não! Porque não?  Por isso deve compactuar com os erros do governo Lula/Dilma?

Se a mídia capitalista, por oportunismo colou em JB, aproveitando-se para atacar o PT, o problema é do PT e da mídia. Se a direita perversa e fascista faz o mesmo, o problema é dela e do Zé Dirceu. A responsabilidade é de quem fez merda, não de JB. Exigir que não cumprisse com suas funções constitucionais, com o argumento de que não deveria fazer isso com o PT de Lula, que o nomeou e por que a direita pegou carona, é fechar os olhos aos princípios e ao programa transfigurado do partido.

Duvido que alguém concorde que J. Ma. Marin faça o mesmo com Mano Menezes, na seleção.

Transformaram em paternalismo, a marca, como em outros partidos elitistas: O povo, de cidadão em mero eleitor manobrado em sua vontade, sem direito a ser votado, ao bel prazer dos interesses das classes dirigentes sem escrúpulos. Uma estratégia de conquista, manutenção e alternância do poder, nas mãos de poucos e dos mesmos.

Certas pessoas a quem respeito, me decepcionam quando jogam água no moinho inimigo. Não sou de acreditar na justiça burguesa, entretanto, pela primeira vez, vejo alguém fazendo a coisa certa. Se tivesse oportunidade, eu faria o mesmo...

Tenho visto traição dos “nossos”, por muita gente cooptada, que presta desserviço à causa negra e a luta contra o racismo, por um punhado de dinheiros. Seria capaz de citá-los nominalmente, às dezenas. 
Não creio ser esse o caso de alguns dos críticos do JB, pelos quais nutro amizade e admiração. Aos vendidos nutro o desprezo. Mas é a primeira vez que, por equivoco ou vaidade, os vejo (a quem considero) fazendo concessão, pra satisfação de alguns pseudos intelectuais “esquerdistas”. Assim encaro agora, as confusões “democratistas” que se fazem contra este homem negro.

Ao contrario do que exigem dos demais ministros, a expectativa da classe média racista e dos negros petistas, em maioria, é que esse juiz (que já foi bom, ao menos para os negros, quando nomeado), abandone a sua dignidade, traia a sua consciência e a função constitucional, transformando-se, em servo voluntário e lacaio do sistema, de modo a inocentar o manipulador e corruptor Zé Dirceu!

Não exigem isso dos outros, pois nenhum outro pertence a um povo, que deva ser perseguido e inferiorizado, de modo a reafirmar a superioridade da sociedade branca e racista. Acusam-nos de povo incompetente, e lacaio de qualquer pai branco, depreciado até pelas línguas negras de aluguel. 
Fazem isso há 500 anos!

Que maldição é essa?!  É traição ao povo negro, que luta por afirmação, autonomia e reparação! Mal posso acreditar que negros altivos, inteligentes, comprometidos e determinados, se unam a esse coro, de fascistas e capitães do mato.

Há algo errado nessa lógica, que alguns negros idealistas, não entendem: O repudio de um, é a desmoralização de todos por algum tempo! Mas a desqualificação de um negro potencialmente correto e competente é a condenação e a segregação de todos por muito tempo.  É o triunfo do racismo para sempre!

Quando esses processos políticos são contra os “amigos”, e os interesses deles, a exemplo do que conclui Jorge Viana, senador pelo Acre – “É inadmissível que o governo nomeie ministros que depois condenem membros do partido”  é  uma lógica, que exige a submissão completa, na reação vale tudo, Maquiavel, Goebels, Stalin, qualquer método, para salvar o status quo! Não importando se a aliança é com racistas, que ignoram o genocídio da juventude negra, com empresários do agronegócio, latifundiários ruralistas, que expulsam e matam quilombolas e indígenas. Se com quem remove e queima favelado, reprime e atiram contra grevistas. O cumulo do pragmatismo adesista, perdoa e privilegia os RACISTAS!? E condenam o SEMELHANTE CORRETO!

É medo da concorrência de JOAQUIM BARBOSA, ao vosso projeto de dominação e poder, na PRESIDENCIA?
Que se lixem todos!!!!!!!!! 

FONTE: Reginaldo Bispo – Fração Publica MNU de Lutas Autônomo e Independente.

terça-feira, agosto 14, 2012

A MESCLA DE COTAS SOCIAIS E COTAS PARA A POPULAÇÃO NEGRA!

NOTA DO QUILOMBO RAÇA E CLASSE




O Senado aprovou, no dia 8 de Agosto, o projeto de lei (PLC) 180/2008, que determina políticas de ações afirmativas em todas as universidades e escolas técnicas federais do país. A lei, que já havia sido aprovada pelos deputados e agora só depende da sanção da presidente Dilma, é uma mescla de cotas sociais e raciais (população negra). A lei prevê que 50% das vagas destas instituições deverão ser reservadas para alunos que cursaram todo o ensino médio em escolas públicas. Dessa porcentagem, metade será destinada a estudantes que tenham renda familiar de até um salário mínimo e meio (R$ 933,00). 

Dentro deste universo de vagas destinadas a alunos que vieram das escolas públicas, também serão aplicados critérios raciais: estudantes autodeclarados negros, “pardos” e indígenas terão cotas proporcionais à porcentagem da população de cada grupo nos estados em que vivem, de acordo com os dados do IBGE, não importando a renda per capita do aluno, contanto que ele ou ela tenha cursado escola pública.

A Polêmica das Cotas!

A aprovação pelo Senado causou um enorme impacto particularmente entre os ativistas do movimento negro que sabem muito bem há quanto tempo e o quanto se têm lutado por cotas neste país. Iniciada antes mesmo do golpe militar, a luta por ações afirmativas ganhou destaque já no período da democratização, quando o movimento negro se reorganizou.

De lá pra cá, e particularmente a partir do final dos anos 1980, o debate cumpriu um papel fundamental ao provocar a discussão sobre o racismo no Brasil, questão sempre negada (ou amenizada, chegando a ser chamado de “cordial”), em função dos lamentáveis danos provocados pelo mito-farsa da “democracia racial”.

A polêmica foi alimentada de diversas formas. Por um lado, houve a reação irada de intelectuais de direita, dos setores mais conservadores e racistas da sociedade, que saíram a público defendendo que não há racismo no Brasil ou que cotas violariam o princípio de “igualdade” previsto na constituição. Por outro, dentro da esquerda e no interior dos movimentos sindical, popular e estudantil e, inclusive, do movimento negro, não faltaram setores que também por não enxergarem o racismo como um elemento estrutural de nossa sociedade, rejeitaram a proposta, com argumentos de que isto “dividiria a classe”, na medida que não considerava os brancos pobres.

Além do refluxo que deu após a capitulação de grande maioria dos dirigentes do movimento negro pelo governo de frente popular, os quais se burocratizaram nos estafes de governo, abandonando a luta e as bandeiras da população negra.

13 anos, se passaram!

Um passo a frente que foi dado, mas cercado de contradições. A primeira contradição está no simples fato de que a lei só tenha sido aprovada 13 anos desde que começou a tramitar, dez dos quais o PT esteve no governo. Nesse “meio tempo”, as mobilizações dos movimentos negro e estudantil independentes do governo arrancaram cotas raciais em várias universidades do país, como a UERJ primeira universidade a implementar a política de cotas, a UNEB, UFBA, entre outras, e a Federal do Rio Grande do Sul, onde recentemente uma mobilização do movimento negro e estudantil, com ocupação da reitoria, impediu uma manobra do Conselho Universitário que visava atacar o sistema.

Enquanto isso, o governo do PT, apesar de muitas promessas, falatório e conferência, pouco ou nada fez para que a medida fosse implementada. Aliás, contribuiu concretamente para que ela fosse adiada, o que ficou evidente na votação do Estatuto da Igualdade Racial. Aprovado em 2010, o Estatuto teve as reivindicações históricas do movimento negro (que constavam de sua versão original) retalhadas por um vergonhoso acordo entre Paulo Paim (PT-RS), a SEPPIR (Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial) e senador Demóstenes Torres (DEM-GO) – ele mesmo, o lacaio de Cachoeira – que resultou na retirada de qualquer referência às cotas, à regularização das terras quilombolas e até mesmo aos termos raça, escravidão e identidade negra.

Da mesma forma que o Estatuto ficou muito aquém do que o movimento defendia a proposta aprovada esta semana também está longe do que os setores mais consequentes do movimento sempre defenderam. Como também, vale lembrar que a covardia política do governo foi jogada sob os holofotes depois que o movimento negro impôs uma vitória, também parcial, anterior: a aprovação, pelo Supremo Tribunal Federal, da constitucionalidade das cotas, o que minou o centro das desculpas que o governo, os reitores e seus aliados estavam utilizando para não aprovar qualquer política de ação afirmativa. 

Projeto ainda limitado!

Em termos raciais, assim como o Quilombo Raça e Classe (movimento negro que é filiado a CSP-Conlutas), e várias organizações sempre defenderam a aplicação de cotas diretamente proporcionais há população negra e totalmente desvinculadas das cotas sociais.

O PLC, no entanto, reduz a um quarto a representação à qual negros e negras têm direito, na medida em que, na prática, a porcentagem será considerada em relação à metade da metade das vagas. Vale lembrar, também, que a lei, ao mesmo tempo que prevê que a medida será aplicada apenas por dez anos (prazo duvidoso para eliminar o enorme abismo que existe entre negros e brancos no interior das universidades), também dá um prazo de quatro anos para que as universidades se adaptem ao sistema.

Além disso, o projeto não prevê mecanismos de permanência (como bolsa de alimentação e transporte) nem políticas de nivelamento acadêmico (que possam amenizar as deficiências da escola pública, enormemente sucateada exatamente em função das políticas neoliberais do governo). 

Para os negros e negras e todos aqueles que atuam com uma perspectiva de “raça e classe”, o projeto é ainda mais limitado. Primeiro, porque não está inserido num projeto global de “reparações” para a população negra. Da mesma forma que sempre defendemos as cotas como uma medida paliativa no combate aos absurdos efeitos do racismo na educação, também defendemos que a luta por ações afirmativas deva ser parte de uma luta mais ampla tanto contra o racismo quanto pela destruição do sistema que dele se beneficia.

Afinal, ter uma legislação que prevê uma maior entrada de negros e pobres nas universidades pode se transformar em letra morta, já que são estes mesmos setores que estão sujeitos a situações a condições sociais tão precárias que fazem com que os portões das universidades pareçam uma miragem cercada por obstáculos dos mais diversos.

Obstáculos instransponíveis como o desemprego crônico, os salários miseráveis, a falta de acesso à saúde e moradia e tantos outros, inclusive a eliminação física, tanto em função das péssimas condições de vida quanto pela crescente política de genocídio, capitaneada por agentes do Estado.

Bombardeio contra o ensino público!

Um exemplo de que o governo está tendo uma política a conta-gotas no que se refere ao combate ao racismo, particularmente na Educação, é sua completa falta de iniciativa (reafirmada pelo projeto aprovado) de impor políticas de ações afirmativas exatamente onde se encontram a enorme maioria (cerca de 80%) das instituições de ensino: as privadas, onde há grande número de estudantes negros e pobres.

Como também, o projeto se cala por completo em relação às políticas racistas e elitistas de algumas das principais universidades do país, as estaduais, como a Universidade de S. Paulo (que resiste ferozmente a qualquer tipo de ação afirmativa) e a Unicamp entre tantas outras, que mantém políticas que resultam em ínfimas porcentagens de negros e estudantes oriundos de escolas públicas em seus projetos de “inclusão”.

Nos últimos dez anos, com ímpeto ainda maior do que aquele utilizado para barrar uma política de cotas, o governo promoveu um bombardeio contra o ensino público deste país. Prova disto é a amplitude e garra da greve nas universidades federais, que há meses tem mobilizado professores, estudantes e funcionários em defesa de melhores condições de trabalho e estudo.

A intransigência com a qual Dilma e o ministro Aloysio Mercadante têm enfrentado o movimento é apenas um dos capítulos mais lamentáveis da série de ataques que o governo promoveu à educação, afetando, particularmente, os mesmos setores que, agora, são alvos da política de cotas. Afinal, ao retirar verbas da educação, e favorecer o ensino privado e sucatear a rede federal, atacando condições de ensino e trabalho, os governos de Lula e Dilma têm contribuído, em muito, para manter negros e negras, estudantes de escolas públicas fora das universidades e institutos federais.

Como também não pode ser desconsiderado que o projeto de cotas irá ser implementado dentro de um projeto mais global que, se depender da vontade do governo, na prática, irá jogar contra ele, na medida em que pode piorar ainda mais a já caótica situação das universidades onde as cotas serão aplicadas.

É isto que está previsto, caso o movimento não consiga avançar na luta pela implementação da Lei 10.639 (institui o ensino da história e da cultura da África nas escolas) e barrar a implementação de dois projetos já aprovados pelo governo Dilma e o mesmo Congresso que acaba de aprovar as ações afirmativas: que são a aplicação de 10% do PIB para a Educação somente (e talvez) em 2023 e o Plano Nacional de Educação (PNE).

A negação em destinar mais verbas para um sistema já agonizante é uma contradição aberta com qualquer política realmente coerente para garantir acesso à educação de qualidade, principalmente para os setores mais marginalizados da sociedade. Como também a política de cotas não podem servir como cortina de fumaça para um PNE que, através de medidas como o Reuni, precariza ainda mais as instituições federais.

Só a luta, traz vitórias!

Assim como a votação sobre o orçamento para a educação foi uma tentativa de desmobilizar o movimento estudantil, que se encontra em Ascenso país afora, a aprovação das cotas também pode ser vista à crescente mobilização do movimento negro, impulsionado exatamente pelo acirramento do racismo, um resultado direto do desprezo com qual o governo tem tratado a questão, sem negociar com os ativistas. 

Não se pode menosprezar, de forma alguma, que a medida foi aprovada, não só depois de décadas de lutas, mas também particularmente em um momento em que estamos vendo a série de mobilizações promovidas pelo “Comitê contra o genocídio da juventude negra”, em S. Paulo; a forte reação aos ataques às terras quilombolas, no MA, RS, RJ, MG, PE, SC e Bahia, por exemplo; a formação país afora de “frentes pró-cotas”, coletivos ou núcleos de discussão nas universidades e a indignação generalizada contra a violência policial e racista.

Exatamente por isso, é preciso que o movimento negro responda à aprovação do PLC da mesma forma que os setores combativos dos movimentos sindical e estudantil – têm feito: organizando-se de forma independente do governo e patrões e intensificando a luta, até que conquistemos o que negros e negras e a população pobre em geral precisa.

Elemento positivo, com limites e contradições!

E, apesar de todas as contradições e limites que apontamos, vemos um elemento radicalmente positivo na aprovação da lei. Não há como não saudar a entrada de um setor mais amplo da classe trabalhadora e dos oprimidos e marginalizados nas universidades, pois temos certeza que, exatamente pela sua origem, eles não demorarão a perceber, de dentro das salas de aula, a necessidade de se organizar e lutar pela universidade e a sociedade que realmente precisamos. Uma universidade composta e voltada para os interesses da maioria da população; uma sociedade livre do racismo, da exploração e da mercantilização do ensino. Uma universidade de e para os trabalhadores. Uma sociedade socialista. 

Contudo, os setores mais combativos do movimento negro e aqueles que defendem, como nós do Movimento Nacional Quilombo Raça e Classe, uma política que combine, permanentemente, raça e classe, não pararam de lutar (com diferentes políticas e perspectivas, vale destacar) por políticas de ações afirmativas, conseguindo levar o debate para todos os cantos.

Foi isto que garantiu, por exemplo, que, muito antes da votação do Senado, algum tipo de cota tenha sido conquistado em várias instituições de ensino. Por isso mesmo, não causa surpresa o entusiasmo dos ativistas com a aprovação do projeto.

Entretanto, mesmo que reconheçamos esta importante vitória, é preciso apontar seus limites e contradições. Principalmente para que não se caia no discurso dos setores governistas que, com a certeza da sanção da presidente, estão prestes a entronar Dilma como uma nova Princesa Isabel!

Movimento Nacional Quilombo Raça e Classe