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quarta-feira, fevereiro 13, 2013

Os agudás



Assim são chamados no Benin os herdeiros

de antigos escravos brasileiros que,

livres, retornaram à África. 

Com festas, sobrenomes e fé importados da 

Bahia, eles moldaram uma nova identidade 

para superar o estigma do passado

Em janeiro, as tradicionais homenagens a Nosso Senhor do Bonfim em Salvador ecoam do outro lado do Atlântico, deixando ainda mais claros os laços culturais que há séculos aproximam a Bahia da África. No sul do Benin, homens e mulheres vestem uma faixa verde e amarela sobre o peito e seguem rumo a missas para o padroeiro, cerimônias cristãs formais que são acompanhadas por cortejos carnavalescos pelas ruas de cidades como Uidá e Porto-Novo. Identificado como Oxalá (o orixá criador da humanidade) no candomblé baiano, o Senhor do Bonfim é um elo entre dois mundos físicos e espirituais, separados por um oceano e marcados pelo estigma da escravidão. A devoção tem causa nobre: para os escravos que, libertos, puderam regressar à África nos séculos 18 e 19, tal viagem de volta à terra natal significava um “bom fim”, um bom destino.

O culto a um santo católico é um dos traços marcantes dos “brasileiros” que habitam a faixa costeira do Benin, do Togo e da Nigéria. Os agudás, como são conhecidos – a palavra deriva de “ajuda”, nome português da cidade de Uidá, movimentado entreposto negreiro da África Ocidental no passado –, integram famílias que descendem de escravos e de comerciantes baianos lá estabelecidos no auge do tráfico humano entre os dois continentes. Possuem sobrenomes como Souza, Silva, Medeiros, Almeida, Aguiar, Campos, entre outros, dançam a “burrinha”, uma versão arcaica do bumba meu boi, e se reúnem nas festas ao redor de uma feijoadá ou de um kousidou. Não raro, os agudás mais velhos se saúdam com um singelo “Bom dia, como passou?”, e a resposta não demora: “Bem, brigado”.
“O português chegou a ser língua franca no Benin na época da implantação da administração colonial francesa”, observa o antropólogo Milton Guran, pesquisador do Laboratório de História Oral e Imagem da Universidade Federal Fluminense, no Rio de Janeiro, em seu livro Agudás, os Brasileiros do Benin. A escola da Missão Católica de Lyon, que se estabeleceu em Uidá em 1862, ensinava em português aos filhos dos retornados, que levaram para a África negra aspectos da cultura ocidental, como técnicas de arquitetura e engenharia (a alvenaria), festas religiosas, hábitos alimentares (a mandioca, o doce de coco), organização familiar patriarcal e uso de sobrenomes. “A presença brasileira foi tão marcante nesse trecho da costa africana entre os séculos 18 e 19 que poderíamos falar de uma colonização informal”, analisa Guran. “É exemplo único de implantação de uma cultura brasileira – no caso, a baiana – fora de nossas fronteiras.”
para os governantes do reino do Daomé (antigo nome do Benin), o comércio de cativos era um projeto econômico oficial, de desenvolvimento comercial e fortalecimento de um Estado. Esse ambiente foi favorável à chegada de brasileiros dispostos a trabalhar como negreiros, entre os quais o lendário Francisco Félix de Souza. Filho de índia com português, Souza nasceu na Bahia, em 1754, e desembarcou no Daomé, acredita-se, em 1788. Escrivão e contador do Forte São João Batista de Ajuda, em Uidá, logo tornou-se mercador influente – dependia dele a entrada ao reino de produtos como pólvora, fuzis, cachaça – e galgou a aura de mito nos relatos de viagem da época, alardeado por manter 2 mil escravos em seus barracões, ser pai de 80 filhos homens (não houve contabilidade de filhas) e gozar de sua fortuna em festins cercados das mais belas mulheres e de vinhos, iguarias e roupas finas importadas de Paris, Londres e Havana.
A trajetória de Souza ganhou ares de folhetim quando ele foi preso pela petulância de cobrar uma dívida do rei Adandozan (como castigo, consta que o rei ordenou que o prisioneiro fosse mergulhado várias vezes ao dia em um tonel de índigo para que sua pele ficasse escura). Nesse ínterim, porém, o baiano fez um pacto de sangue com o príncipe Gakpé, que cobiçava o trono. O irmão caçula do rei ajudou na fuga do brasileiro em troca de seu apoio em um golpe que, por fim, destituiu Adandozan. Souza entrou para a nobreza: foi consagrado vice-rei de Uidá. Ganhou um título honorário inédito, o de Chachá, e o direito de monopolizar o tráfico de escravos no Daomé.
O mercador deixou uma dinastia no país. Em outubro de 1995, Mitô Honoré Feliciano de Souza foi entronizado como Chachá VIII, em uma cerimônia em Singbomey, a ancestral residência da família em Uidá onde Francisco Félix está enterrado. O sobrenome Souza ainda significa poder social no Benin. “O Chachá arbitra os conflitos que não implicam em crime de sangue e disputa de propriedade. Além disso, ele tem certo peso eleitoral e é a referência maior de uma identidade cultural, os agudás”, diz Milton Guran.
O etnólogo francês Pierre Verger, radicado no Brasil de 1946 até sua morte, em 1996, aos 94 anos, foi pioneiro na documentação dos agudás. Nos anos 1950, disposto a estudar o fluxo e o refluxo de escravos entre os dois continentes, Verger iniciou-se em ritos ancestrais e fotografou pessoas e eventos que expressavam uma ligação cultural viva e recíproca entre a África e o Brasil. Em 1951, suas imagens do Benin ilustraram uma série de reportagens na revista O Cruzeiro, com textos assinados pelo sociólogo Gilberto Freyre. Freyre destacou o fato de a Irmandade do Senhor do Bonfim vestir a faixa verde e amarela. “Os agudás se conservam sociologicamente católicos e brasileiros[...], à sombra do culto da família e da casa organizada em torno da mulher e da monogamia”, escreveu. “A Bahia conseguiu conservar seu estandarte através de homens que se estabeleceram na África livres e, às vezes, ricos.”
Brasileiros do além-mar, os agudás da costa africana são pessoas de identidade peculiar, forjada na experiência de dor e separação da escravatura. Mas que conservaram a alegria por uma razão que, hoje, parece elementar. “Acontece que são baianos”, resumiu Gilberto Freyre.

Fonte: NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL / por Ronaldo Ribeiro

UNIDOS DA TIJUCA / Samba Enredo 2003 - Agudás, Os Que Levaram a África No Coração, e Trouxeram Para o Coração da África, o Brasil


sexta-feira, janeiro 27, 2012

Vale: novos conflitos em Moçambique. Entrevista especial com Jeremias Filipe Vunjanhe


“Diante das reivindicações das famílias, os governos Distrital de Moatize e Provincial de Tete têm se posicionados como porta-vozes da Vale defendendo interesses desta companhia em detrimento do seu povo”, denuncia o jornalista.
Confira a entrevista.

“Dividir para reinar”. É assim que os cidadãos moçambicanos interpretam o reassentamento de aproximadamente 1313 famílias  decorrente da conclusão da primeira fase do projeto de mineração da  Vale no Distrito de Moatize, Província central de Tete. A instalação da mineradora brasileira em Moçambique tem gerado polêmica e diversos conflitos entre o governo e os órgãos de direitos humanos locais. Representando as comunidades reassentadas, a Justiça Ambiental submeteu uma Carta Queixa e uma petição à Comissão dos Assuntos Sociais, Gênero e Ambiente da Assembleia da República, mas as ações “foram ignoradas”, segundo o jornalista Jeremias Vunjanhe.

Vunjanhe participa da campanha de monitoria do projeto de mineração da Vale  e, na semana passada, visitou as famílias reassentadas durante três dias. Em entrevista concedida à IHU On-Line por e-mail, ele diz que a situação das pessoas que foram realocadas para outros bairros da região “é péssima e revoltante. (...) Há dificuldades de acesso à água potável, energia, transporte, serviços básicos como escolas e saúde, acesso à terra arável para agricultura. De fato estas famílias estão passando fome aguda e estão vivendo em precárias condições por causa do deslocamento em função do projeto da Vale, que não tem honrado com os seus compromissos”.

Para a ele, a situação é ainda mais grave porque o governo conhece a situação das famílias e utiliza a força policial para conter os protestos e reivindicações. “De acordo com a informação obtida, o Comandante da Polícia da República de Moçambique - PRM e o seu batalhão, incapazes de dispersar os reassentados, ordenaram a vinda da Força de Intervenção Rápida - FIR para Cateme. (...) Durante a sua intervenção, a FIR fez rusgas às casas, arrombando portas com pontapés e agredindo várias pessoas. 14 jovens foram capturados e encarcerados, durante cerca de três horas no Posto Policial local. Mais tarde, cinco dos detidos foram soltos e os outros nove, foram transferidos para as celas da cadeia da Carbomoc, na Vila de Moatize, onde permaneceram durante dois dias e duas noites sem alimentação adequada e submetidos a torturas e maus tratos por agentes da PRM. Só foram libertados no dia 12, após intervenção da Procuradoria. Dois dos detidos apresentam ferimentos nas nádegas e sinais de vários golpes no corpo”, relata.

Jeremias Filipe Vunjanhe é jornalista graduado pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade Eduardo Modlane de Maputo, Moçambique. Atualmente é coordenador da Área de Mídia da Justiça Ambiental e da campanha de Monitoria do Projeto de Mineração da Vale em Moatize.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Quantas famílias já foram reassentadas  em função dos projetos de Mineração da Vale na Província da Tete?

Jeremias Filipe Vunjanhe - A primeira fase do Projeto de Mineração da Vale no Distrito de Moatize, Província central deTete, já reassentou cerca de 1313 famílias, o equivalente a sete mil pessoas. 717 famílias classificadas pela Vale como sendo rurais foram reassentadas na região de Cateme, há aproximadamente 40 quilometros da Vila de Moatize e 60 quilometros da cidade de Tete. Outras 596 famílias consideradas urbanas pela empresa foram reassentadas no Bairro 25 de Setembro, nos arredores do município de Moatize. Segundo Thomas Selemane (2011), investigador do Centro de Integridade Pública, a divisão das 1313 famílias reassentadas em rurais e urbanas é considerada por setores da sociedade moçambicana como uma estratégia da companhia brasileira  que tem como objetivo “dividir para reinar”.

IHU On-Line – Qual a situação das famílias que estão vivendo no bairro 25 de Setembro e em outros bairros da região?

Jeremias Filipe Vunjanhe - Cerca de 596 famílias reassentadas pela vale no Bairro 25 de Setembro, nos arredores da Vila de Moatize. A situação e a condição de vida destas famílias é péssima e revoltante, semelhante a das pessoas que estão na região de Cateme. Falta tudo neste bairro. Há dificuldades de acesso à água potável, energia, transporte, serviços básicos como escolas e saúde, acesso à terra arável para agricultura. De fato estas famílias estão passando fome aguda e estão vivendo em precárias condições por causa do deslocamento em função do projeto da Vale, que não tem honrado com os seus compromissos. Os fatos e circunstâncias vividas pelas famílias reassentadas pela Vale  são mais graves ainda se considerarmos que esta situação é conhecida pelos governos local, distrital, provincial e central de Moçambique, que nada fazem para ultrapassá-las.

IHU On-Line - Você visitou essas famílias? O que as pessoas dizem em relação à Vale e quais são suas reivindicações?

Jeremias Filipe Vunjanhe - Durante três dias (13, 14 e 15 de janeiro), novamente, visitei as famílias reassentadas pela Vale no Bairro 25 de Setembro e na região de Cateme, onde mantive vários contatos.

 As pessoas estão revoltadas e dizem que foram enganadas e burladas pela Vale. Dizem ainda que foram abandonados e traídas pelo governo de Moçambique.  As famílias reassentadas dizem que Moatize é um “Pequeno Brasil” e já não pertence a Moçambique. Elas reivindicam contra o processo de reassentamento desde o início mal conduzido; infraestrutura de má qualidade e sem condições de habitação; dificuldade de acesso à água, terra e energia; terra imprópria para a agricultura; fome aguda e subnutrição de crianças; o não cumprimento de promessas de indenização; restrição à circulação de pessoas através da instalação da vedação à volta da Vila de Moatize e das vias de acesso aos recursos; o não cumprimento da promessa de provisão trimestral de produtos alimentares durante os primeiros cinco anos de reassentamento; o não cumprimento das responsabilidades do Estado de monitorar todo o processo de reassentamento e garantir o cumprimento total e integral das obrigações da Vale Moçambique para com os afetados; conflitos de terra com as comunidades originárias de Cateme; falta de meios de transporte para a circulação de pessoas e bens; permanente abandono e desamparo a que as comunidades reassentadas foram sujeitas pelas instituições de Justiça, do Estado, do governo, às quais têm recorrido, nos últimos dois anos, com vista à reposição dos direitos violados através de petições, queixas e reclamações sem resposta.

Relato
"Nós queremos voltar para as nossas zonas de origem. Só aceitamos sair de lá e sermos reassentados por causa das promessas que a Vale se comprometeu a cumprir. A Vale se comprometeu a repor condições iguais ou melhores das que nós já tínhamos. Prometeu que durante cinco anos iria prestar todo o apoio necessário e assistência técnica, além de manutenção das novas infraestruturas. Mas agora nada disso está sendo cumprido. Faltam escolas, água, energia, terra para a agricultura. Estamos  passando fome. Falta quase tudo e nós estamos sofrendo." Este foi um dos relatos que ouvi de um dos populares que vive no Bairro 25 de Setembro.
IHU On-Line - Como os governos Distrital de Moatize e de Tete se posicionam diante das reivindicações das famílias? Quais as relações dos governos com a Vale?

Jeremias Filipe Vunjanhe - Diante das reivindicações das famílias, os governos Distrital de Moatize e Provincial deTete têm se posicionados como porta-vozes da Vale defendendo interesses desta companhia em detrimento do seu povo. Durante as manifestações de caráter pacífico e consagradas na Constituição da República de Moçambique, o governo de Moçambique, do Distrito de Moatize e da Província de Tete, com recurso da Polícia da República de Moçambique - PRM e da Força de Intervenção Rápida - FIR, reprimiu brutal e violentamente as famílias reassentadas em Cateme. De acordo com a informação obtida, o Comandante da PRM e o seu batalhão, incapazes de dispersar os reassentados, ordenaram a vinda da FIR para Cateme. Curiosamente, encontra-se instalada uma unidade da FIR, alimentada por fundos da Vale, junto à estrada Nacional Nº 103, que liga a cidade de Tete ao Malawi, passando por Zóbwe e o cruzamento da estrada de terra planada que vai para Cateme. Por volta das 10 horas do dia 10 de janeiro, a FIR chegou ao local e o som da sua sirene atraiu os reassentados ao local. Eles pensavam que finalmente teriam uma oportunidade para ouvir o governador ou o representante da Vale. No entanto, de imediato a FIR começou a agredir violentamente os reassentados fazendo com que estes fugissem para as suas casas. Durante a sua intervenção, a FIR fez rusgas às casas, arrombando portas com pontapés e agredindo várias pessoas. 14 jovens foram capturados e encarcerados, durante cerca de três horas no Posto Policial local. Mais tarde, cinco dos detidos foram soltos e os outros nove, foram transferidos para as celas da cadeia da Carbomoc, na Vila de Moatize, onde permaneceram durante dois dias e duas noites sem alimentação adequada e submetidos a torturas e maus tratos por agentes da PRM. Só foram libertados no dia 12, após intervenção da Procuradoria. Dois dos detidos apresentam ferimentos nas nádegas e sinais de vários golpes no corpo.

No dia 17 de janeiro, em sequência dos acontecidos acima referidos, ocorreu um encontro entre o governador de Tete, Alberto Vaquina, e as famílias reassentadas no Bairro 25 de Setembro, na Vila de Moatize. Várias fontes presentes na reunião denunciaram à Justiça Ambiental durante à tarde do dia 18, aquilo que consideram ameaças feitas pelo governador.

Tráfico de influência

O peso do investimento da Vale na economia do país e sua excessiva influência política no governo de Moçambique permitiram o surgimento de relações perigosas com o poder local, distrital, provincial e central, muitas vezes construídas a partir da divisão de membros de uma mesma família, comunidade ou governo. Há denúncias de tráficos de influência junto de figuras importantes do governo Central, que simultaneamente tem interesses empresariais no empreendimento da Vale. Uma unidade da Força de Intervenção Rápida - FIR da Polícia da República de Moçambique foi destacada para guarnecer os interesses da Vale  junto à estrada Nacional Nº 103, que liga a cidade de Tete ao Malawi, passando por Zóbwe e o cruzamento da estrada de terra planada que vai para Cateme. Toda a logística desta unidade da FIR é suportada pela Vale, que é responsável pelos custos de alimentação, transporte, água e outras condições consideradas como estímulos para a execução do seu trabalho. A Vale também financiou despesas significativas do governador Alberto Vaquina. Sabe-se ainda que muitas vezes a Vale financia instituições do governo.

IHU On-Line - Como a sociedade civil e os órgãos de Direitos Humanos têm se posicionado diante dos conflitos entre as famílias e a Vale?

Jeremias Filipe Vunjanhe - Diante dos conflitos entre as famílias e a Vale, a sociedade civil e os órgãos de Direitos Humanos têm se posicionado contra a forma como a empresa brasileira Vale Moçambique reassentou populações que foram desalojadas dos seus locais habituais de residência, além de manifestar a sua solidariedade e prestar todo o apoio e assistência necessária para as famílias. Os órgãos de Direitos Humanos condenam amplamente o uso excessivo e justificado da violência contra pessoas indefesas e desprotegidas. A Justiça Ambiental, organização na qual trabalho em parceria com a Liga dos Direitos Humanos, tem facilitado o acesso a instituições de justiça e de saúde das famílias reassentadas e vítimas da repressão da Polícia de Moçambique. Uma equipa da Liga dos Direitos Humanos está em Moatize para trabalhar com as famílias reassentadas. Outras organizações como Associação de Apoio e Assistencial Jurídica às Comunidades - AAAJC e o Fórum das organizações Não Governamentais de Tete também estão trabalhando com as famílias reassentadas.

IHU On-Line – Esses fatos estão sendo divulgados na imprensa local?

Jeremias Filipe Vunjanhe - Felizmente, uma parte significa da imprensa local, particularmente a chamada imprensa independente, tem noticiado amplamente os casos de reivindicação das famílias reassentadas e da repressão a que foram vítimas pela Polícia da República de Moçambique e sua unidade de Força de Intervenção Rápida - FIR. Vários órgãos de imprensa moçambicana com destaque para os jornais Canal de Moçambique, Savana, Canal de Televisão STV, Diário de Moçambique, a Rádio Moçambique, A Verdade, O País fizeram uma cobertura dos acontecimentos de Cateme. Maior parte destes órgãos enviaram seus repórteres a Cateme, que com devido profissionalismo e rigor deram  maior destaque e repercussão nacional ao fato. Desta vez parece que este segmento da imprensa local teve pujança e coragem suficientes para estarem do lado dos fatos e da verdade, ainda que sem a requerida investigação e enquadramento. Entretanto, os chamados órgãos públicos como a Televisão de Moçambique - TVM (o único órgão de televisão pública no país), e o Jornal Notícias (diário de maior circulação) foram demasiado cautelosos e excessivamente omissos na abordagem destes acontecimentos. Aliás, setores importantes da sociedade moçambicana consideram que a TVM e o Jornal Notícias manipularam os fatos e tentaram, sem sucesso, desinformar a opinião pública.

Todavia e apesar dessa avaliação positiva da cobertura da imprensa local, é preciso realçar que a mesma agiu com alguma lentidão e não tem dado seguimento às notícias. Apenas começaram a mostrar interesse pelos acontecimentos de Cateme quando uma nota de imprensa da autoria da Justiça Ambiental foi divulgada regional e internacionalmente pelas principais agências de notícias do mundo como a Reuters, CNN, Rádio France Internacional, a Rádio Voz da Alemanha, Agência Lusa entre outros. É particularmente interessante destacar a forma peculiar como a Justiça Ambiental agiu evitando com os acontecimentos de Cateme não fossem mais uma vez alvos de uma censura generalizada pela imprensa local.

IHU On-Line - Deseja acrescentar algo?

Jeremias Filipe Vunjanhe - Desde agosto de 2009 coordeno a campanha da Justiça Ambiental – JA!, uma importante organização da sociedade civil reconhecida pelo seu trabalho contra os impactos negativos dos projetos de desenvolvimento em Moçambique, e de Monitoria do Projeto de Mineração da Vale em Moatize. Desde então acompanho com particular atenção e muita indignação o assentamento das 1313 famílias e todos os impactos sociais negativos provenientes deste processo. Durante os últimos três anos a JA! tem desenvolvido um intenso trabalho de monitoria, confrontada com denúncias e queixas relatando graves irregularidades no contexto do processo de reassentamento involuntário resultante da implantação do projeto de Mineração da Vale.

Entre os dias 25 e 26 de outubro de 2011, decorreu em Maputo o Seminário sobre Responsabilidade Corporativa em Moçambique, organizado em parceria entre o Centro de Serviços de Cooperação para o Desenvolvimento Kepa e aJA!. Durante o encontro, a voz das comunidades de Moatize ergueu-se mais uma vez, denunciado os impactos e violações da Vale como um grito de socorro para as autoridades governamentais nacionais e organizações da sociedade civil, que advogam em prol do respeito e promoção dos direitos humanos. A Justiça Ambiental aproveitou a oportunidade da presença dos representantes das comunidades de Moatize em Maputo para agendar dois encontros com os Ministérios dos Recursos Minerais e da Administração Estatal. Em seguida, a JA! Representando as comunidades reassentadas pela Vale, teve um encontro com a Comissão dos Assuntos Sociais, Gênero e Ambiente da Assembleia da República, onde submeteu uma Carta Queixa e uma petição. Cópias desta documentação foram entregues pelos reassentados ao governador de Tete, à Direção Provincial dos Recursos Minerais e Energia de Tete e aos Ministérios dos Recursos Minerais e da Administração Estatal, solicitando a intervenção destas entidades na resolução urgente dos problemas. Entretanto, todas as diligências feitas pelas famílias e por diversas organizações foram ignoradas.

FONTE: ihu.unisinos

segunda-feira, abril 04, 2011

Embrapa dá curso de produção de alimentos para africanos



Teve início hoje (4) a segunda edição do Diálogo Brasil-África, programa lançado em março do ano passado para promover a integração brasileira com os países africanos. O encontro tem como objetivo a capacitação de 49 técnicos em agricultura vindos de 28 países africanos. O curso é promovido pela Embrapa Estudos e Capacitação, vinculada a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

Criada em 2010, a Embrapa Estudos e Capacitação é a responsável pelos cursos de capacitação em agricultura tropical e pela elaboração de estudos técnicos estratégicos na Embrapa. Nessa segunda edição que vai até o dia 15 de abril, os representantes africanos receberão 80 horas de capacitação em dois módulos, Agricultura: Motor do Desenvolvimento Econômico e Social e O Homem (produtor e trabalhador rural), a Terra, a Organização Política e Social, a Pesquisa e a Tecnologia e o Capital Financeiro.

Todos os técnicos africanos são vinculados em seus países de origem a ministérios de Agricultura e de Desenvolvimento Rural. Além disso, os técnicos fazem parte de Centros de Pesquisa Agrícola, Investigação Agrária, Institutos de Extensão Rural e Universidades atuando como pesquisadores, especialistas, coordenadores e supervisores.

Participam do curso técnicos dos seguintes países: Argélia, África do Sul, Angola, Benin, Botsuana, Burkina Faso, Cabo Verde, Camarões, Costa do Marfim, Egito, Eritréia, Gabão, Gana, Guiné Bissau, Mali, Marrocos, Mauritânia, Moçambique, Namíbia, Níger, São Tomé e Príncipe, Senegal, Sudão, República Democrática do Congo, Tanzânia, Tunísia, Yganda e Zimbábue.

No primeiro dia de palestras, o pesquisador da Embrapa, Zander Navarro, mostrou uma visão panorâmica da agricultura brasileira, especialmente da agricultura familiar. Além da Sede da Embrapa em Brasília, o Diálogo Brasil-África ocorre em Sete Lagoas (MG) e Londrina (PR), com capacitação da Embrapa Milho e Sorgo e Embrapa Soja, respectivamente.