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Assim são chamados no Benin os herdeiros
de antigos escravos brasileiros que,
livres, retornaram à África.
Com festas, sobrenomes e fé importados da
Bahia, eles moldaram uma nova identidade
para superar o estigma do passado
Em janeiro, as tradicionais homenagens a Nosso Senhor do Bonfim em Salvador ecoam do outro lado do Atlântico, deixando ainda mais claros os laços culturais que há séculos aproximam a Bahia da África. No sul do Benin, homens e mulheres vestem uma faixa verde e amarela sobre o peito e seguem rumo a missas para o padroeiro, cerimônias cristãs formais que são acompanhadas por cortejos carnavalescos pelas ruas de cidades como Uidá e Porto-Novo. Identificado como Oxalá (o orixá criador da humanidade) no candomblé baiano, o Senhor do Bonfim é um elo entre dois mundos físicos e espirituais, separados por um oceano e marcados pelo estigma da escravidão. A devoção tem causa nobre: para os escravos que, libertos, puderam regressar à África nos séculos 18 e 19, tal viagem de volta à terra natal significava um “bom fim”, um bom destino.
O culto a um santo católico é um dos traços marcantes dos “brasileiros” que habitam a faixa costeira do Benin, do Togo e da Nigéria. Os agudás, como são conhecidos – a palavra deriva de “ajuda”, nome português da cidade de Uidá, movimentado entreposto negreiro da África Ocidental no passado –, integram famílias que descendem de escravos e de comerciantes baianos lá estabelecidos no auge do tráfico humano entre os dois continentes. Possuem sobrenomes como Souza, Silva, Medeiros, Almeida, Aguiar, Campos, entre outros, dançam a “burrinha”, uma versão arcaica do bumba meu boi, e se reúnem nas festas ao redor de uma feijoadá ou de um kousidou. Não raro, os agudás mais velhos se saúdam com um singelo “Bom dia, como passou?”, e a resposta não demora: “Bem, brigado”.
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A trajetória de Souza ganhou ares de folhetim quando ele foi preso pela petulância de cobrar uma dívida do rei Adandozan (como castigo, consta que o rei ordenou que o prisioneiro fosse mergulhado várias vezes ao dia em um tonel de índigo para que sua pele ficasse escura). Nesse ínterim, porém, o baiano fez um pacto de sangue com o príncipe Gakpé, que cobiçava o trono. O irmão caçula do rei ajudou na fuga do brasileiro em troca de seu apoio em um golpe que, por fim, destituiu Adandozan. Souza entrou para a nobreza: foi consagrado vice-rei de Uidá. Ganhou um título honorário inédito, o de Chachá, e o direito de monopolizar o tráfico de escravos no Daomé.
O mercador deixou uma dinastia no país. Em outubro de 1995, Mitô Honoré Feliciano de Souza foi entronizado como Chachá VIII, em uma cerimônia em Singbomey, a ancestral residência da família em Uidá onde Francisco Félix está enterrado. O sobrenome Souza ainda significa poder social no Benin. “O Chachá arbitra os conflitos que não implicam em crime de sangue e disputa de propriedade. Além disso, ele tem certo peso eleitoral e é a referência maior de uma identidade cultural, os agudás”, diz Milton Guran.

Brasileiros do além-mar, os agudás da costa africana são pessoas de identidade peculiar, forjada na experiência de dor e separação da escravatura. Mas que conservaram a alegria por uma razão que, hoje, parece elementar. “Acontece que são baianos”, resumiu Gilberto Freyre.
Fonte: NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL / por Ronaldo Ribeiro
UNIDOS DA TIJUCA / Samba Enredo 2003 - Agudás, Os Que Levaram a África No Coração, e Trouxeram Para o Coração da África, o Brasil
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