Valoriza herói, todo sangue derramado afrotupy!

sexta-feira, junho 08, 2012

Ronaldinho e dois grandes sintomas de nosso tempo

 Ronaldinho encarna os dois grandes sintomas da contemporaneidade: a depressão e o imperativo do gozo* 
Embora apaixonado por futebol e leitor dos jogos em suas dimensões técnicas e táticas, evito tratar do assunto nesta coluna. Escrevo no caderno de cultura, não no de esportes. Mas uma das dimensões do futebol é a cultura; quando algum acontecimento no mundo do futebol revela um problema do campo cultural, sinto-me convocado a interpretá-lo. Já disse mais de uma vez que quem pudesse compreender com precisão a transformação de Ronaldinho Gaúcho em algum momento de 2006 estaria tocando no ponto fulcral do espírito do nosso tempo. O que essa transformação tem de singular é precisamente sua recusa à legibilidade. Outros personagens fundamentais de nosso tempo dão-se a ler com maior clareza — a metamorfose infinita de Michael Jackson se revela uma passagem ao ato em consequência do preconceito racial americano, por exemplo. Mas Ronaldinho Gaúcho permanece um enigma. É desse enigma que vou tentar me aproximar aqui.


Antes de tudo, devo assinalar meu mal-estar em interpretar publicamente a subjetividade de alguém. Reconheço que isso é uma forma de violência. Mas se trata de um caso em que o interesse público está em jogo, na medida que lhe serve de espelho. De modo geral, considero que só deve ser tratado publicamente aquilo que um sujeito dispõe deliberadamente na esfera pública. A subjetividade de Ronaldinho aparece na esfera pública, como uma sombra inevitável, a cada vez que ele entra em campo (e como uma luz dura de interrogatório nas informações extra-campo). Vou pensar essa sombra, repito, pelo que ela contém de segredo cifrado de nosso tempo. Mas tenho dúvidas sobre a correção moral da minha atitude. 


O enigma, em si, é claro: qual o sentido da transformação de Ronaldinho em algum momento de 2006? De reencarnação exuberante dos valores brasileiros do ludismo, improviso e alegria, ele se tornou uma espécie de autômato desencarnado, duplo triste de si mesmo. Quando estava no auge, chegou a receber de Maradona a declaração de que era o único jogador do mundo a jogar sorrindo. Pouco tempo depois, o sorriso desapareceu, mas não deu lugar a uma paixão qualquer contrária, e sim à ausência absoluta de paixões. As paixões são legíveis. Ronaldo Fenômeno estourando o joelho, o rosto contorcido de dor, a lenta e desacreditada recuperação, a volta por cima na Copa de 2002, a nova contusão, a decadência física, os travestis com a suposta cocaína, a “traição” ao Flamengo, a nova volta por cima, a fúria no alambrado. A própria pança como signo das paixões desenfreadas. 


As paixões não são apenas legíveis, elas são também preferíveis. Mesmo as piores paixões despertam mais identificações, mais paixões — pena, revolta, admiração pela superação — do que a ausência de paixões. 


A ausência de paixões não produz nenhum tipo de identificação, e assim não pode ser convertida em valor moral pela publicidade. No Flamengo, Ronaldinho Gaúcho foi um fracasso absoluto nesse quesito; é irônico que a paixão da ruptura, terceirizada por ele ao irmão Assis, tenha como motivo justamente o pagamento dos direitos de imagem. O outro nome da ausência de paixões é depressão. Talvez a paixão de repúdio que Ronaldinho desperta venha de que ele traz à cena o que queremos esconder: a depressão como sintoma fundamental de nosso tempo. E isso tem um efeito intensificado por força do contraste: a ausência de paixões justo na ópera dos esportes, no palco das paixões sublimadas e primais. 


A psicanálise considera a depressão uma resposta falhada ao excesso de demanda. Isso a explicaria como grande sintoma contemporâneo: diante das altas exigências de performance das nossas sociedades capitalistas, o sujeito recua, desiste, depõe as armas, renuncia ao desejo e ao falo. A convulsão de Ronaldo Fenômeno às vésperas da decisão da Copa de 1998 pode ser lida também por essa chave. Mas em Ronaldinho ela se tornou a resposta permanente. E no entanto dividida, sem deixar, talvez num esforço sobre-humano, de tentar responder desejosamente às demandas do mundo. Quando penso nisso sinto compaixão por ele. Todos nós estamos há anos reproduzindo as demandas opressivas — o que só pode ter como efeito o agravamento da resposta depressiva. 


Por outro lado, Ronaldinho demonstra uma paixão desmedida pelas noitadas.

Não é contraditório. Às demandas de produtividade, de ascese, às pressões para corresponder ao desejo do mundo, que quer desejar por ele a todo custo, ele responde com improdutividade, ócio, dissolução, todas as formas da dépense. De modo que Ronaldinho acaba encarnando, intensamente, os dois grandes sintomas da contemporaneidade: a depressão e o imperativo do gozo. São os dois lados da mesma moeda. E a moeda talvez possa virar para qualquer um, a qualquer momento. 


A entrevista de Ronaldinho ao “Fantástico” confirma mais uma vez essa leitura. Em postura não relaxada, mas indiferente, com aquele olhar perdido que é uma verdadeira janela da alma vazia, ele respondeu evasivamente às perguntas diretas do entrevistador: respostas acuadas, sem qualquer tipo de afirmação, sem revolta, sem inteligência, sem nada de ativo, sem paixão. 


Se ele fosse capaz de nos mandar cuidar das nossas vidas, de recusar o massacre do desejo dos outros pesando sobre ele, talvez, depois de algum tempo, jogando uma pelada, entre amigos, sem as dezenas de câmeras e os milhares de olhos esperando dele uma resposta, talvez, a sós com a bola, pudesse abrir, sem se dar conta, aquele mesmo sorriso que encantou Maradona e o mundo.

*Este artigo foi publicado na coluna de Francisco Bosco, no Segundo Caderno do GLOBO.
FONTE: COLUNA DO ANCELMO N'O GLOBO

Quer fazer parte do Femen Brasil? Sara Winter explica como


A primeira aparição de Sara Winter em público foi cantando músicas de desenho animado japonês, aos 15 anos, quando frequentava festivais de animê no interior de São Paulo e atendia pelo codinome Kagome. Hoje, aos 19, adotou o Winter para encarar outro tipo de exposição, mais áspera e muito mais aberta a interpretações erradas, mesmo que o japonês tenha sido substituído por argumentos claros em português.
Sara é a primeira integrante do Femem Brazil, braço nacional do grupo de mulheres ucranianas que usa o topless como forma de protesto. A partir de julho, ela começa aqui o que as ativistas europeias fazem por lá há quase dois anos. Vai exigir, entre outras mudanças, o fim do turismo sexual.            O método é empunhar cartazes em eventos cobertos pela mídia e, para atrair os cliques dos fotógrafos, tirar a roupa e mostrar os seios.
Antes disso, ela viaja à Ucrânia para se unir a suas mentoras em protestos durante a Eurocopa, de 8 de junho a 1º de julho. Em Kiev, os turistas que chegam para ver os jogos são recebidos com propaganda agressiva sobre casas de massagem e prostituição (proibida no país). O Femen luta contra isso. E está de olho no Brasil por causa da Copa do Mundo e das Olimpíadas. Para arrecadar dinheiro, pede doações e vende suvenires tais como folhas de papel sulfite “carimbadas” com os próprios seios das manifestantes, que assinam o mimo antes de enviá-lo pelo correio.
Sara vai ter que encontrar o seu jeito de financiar o grupo aqui no Brasil, onde já reuniu uma rede de cerca de 40 voluntários (entre fotógrafos, tradutores, advogados). Até agora, conseguiu convencer duas garotas a tirar a blusa nos protestos. Está à procura de outras a partir de sua casa em São Carlos, onde mora com os pais (que “fingem não ver” as atividades da filha) e recebe o apoio dos dois irmãos mais velhos e das cunhadas. Sara falou à Marie Claire sobre suas escolhas (por que jamais posaria para uma revista masculina?), suas expectativas de enfrentar a polícia ucraniana e a dificuldade de encontrar um namorado que entenda sua luta.

Confira o bate-papo e veja, ao final da entrevista, como se candidatar ao Femen Brazil.
Marie Claire – Precisa ser bonita para fazer parte do Femen?

Sara Winter – Não! O Femen não tem nenhum requisito de beleza. Coincidentemente, o grupo nasceu na Ucrânia, onde a genética das meninas as faz magras e altas. Eu mesma já fujo desse padrão. Sou mais baixinha, mais gordinha.

MC – Quais os requisitos para participar do grupo?

SW – Se identificar com a causa, ter muita vontade de lutar e estar preparada para enfrentar policiais, para perder o emprego, e para sofrer uma superexposição na mídia.

MC – Por que precisa tirar a roupa para participar?
SW – O objetivo do grupo é expor os problemas. Quando as meninas da Ucrânia começaram a protestar (no início, a causa era estudantil, depois, virou feminista), ninguém dava bola. Em 2009, elas testaram essa estratégia de tirar a blusa e tudo mudou, os protestos começaram a aparecer na mídia. Mas, além de ser uma estratégia, mostrar o corpo também é um jeito de dizer “ele é meu e faço o que quiser com ele”.

MC – No Brasil, tirar a roupa em público é crime. Está preparada para ser presa?

SW – Estou pronta física e emocionalmente. Mas o apoio jurídico acaba de ser acertado. Por isso, fiz até agora aparições com os seios pintados, e não à mostra. Os protestos vão começar quando eu voltar da Europa.

MC – E na Ucrânia, não tem medo de ser maltratada por ser estrangeira?

SW – Curiosamente, não. Mas sei que as meninas de lá já passaram por muita coisa, principalmente em um protesto que fizeram na Bielorrússia, em que foram presas pela KGB, levadas ao meio do mato e estupradas por oficiais, além de serem molhadas com óleo e ameaçadas de serem queimadas.

MC – Como você se transformou na líder do Femen Brazil?

SW – Eu acompanhei o noticiário sobre os protestos delas no ano passado e adorei. Na hora pensei: “alguém vai criar o braço brasileiro já já”. Mas foram passando os meses e nada. Em março, me candidatei.

MC – Pela causa, posaria nua para uma revista masculina?

SW – Jamais. O Femen é contra a indústria pornográfica.

MC – Mas as revistas masculinas não são pornográficas. E se elas topassem clicar você com sua mensagem?

SW – Mesmo assim, não. Temos que velar pela nossa moral. Por exemplo, na Alemanha, é comum meninas que querem arrecadar dinheiro para alguma coisa montar uma barraquinha do beijo. Não faria isso de jeito nenhum. Eu uso meu corpo para lutar. Seria contraditório para mim ir contra o turismo sexual e, ao mesmo tempo, sair na Playboy.

MC – Por quê? É contra mostrar o corpo por dinheiro?

SW – O Femen não é contra a mulher-fruta, contra a Gretchen (cujo show Sara tentou invadir durante a Virada Cultural em São Paulo, em maio). Mas a mensagem que elas passam do Brasil no exterior fortalece o turismo sexual. Elas não são responsáveis por isso, claro que não, mas as conseqüências são ruins.

FONTE: MARIE CLAIRE BRASIL /Letícia Gonzáles/Fotos: Thiago Marzano; Rafael Vila Nova e Arquivo Pessoal




LEIA TAMBÉM: Entrevista Exclusiva: GRUPO FEMEN 
http://guebala.blogspot.com.br/2012/06/entrevista-exclusiva-grupo-femen.html

                       Feminismo no Brasil é elitista e hermético, diz líder do Femen nacional
                         http://guebala.blogspot.com.br/2012/09/feminismo-no-brasil-e-elitista-e.html

                  Femen Brazil não tem propostas feministas, acusa ex-número 2 do grupo
                         http://guebala.blogspot.com.br/2012/09/femen-brazil-nao-tem-propostas.html

Entrevista Exclusiva: GRUPO FEMEN


Elas vêm chamando atenção por seus protestos ousados nos quais muitas vezes estão sem roupa. Desta forma elas descobriram como a mulher ucraniana pode ser ouvida não só em seu país, mas no mundo todo. Entrei em contato com elas na curiosidade de saber como é a vida de um grupo feminista em um país ainda tão machista, e que visão elas têm do povo ucraniano.
Como surgiu a ideia de protesto sem roupa? Alguma vez você já protestaram de roupa?
Nós não somos as autoras da ideia de protesto sem roupa, apenas só tentamos realizar esta ação de forma mais marcante. “Se a nudez feminina é um símbolo do mundo moderno e, independente na publicidade e no cinema, porque então ela não pode ser usada em campanhas políticas?” – pensamos. Além disso, estamos sempre experimentando protestos diferentes, e não é sempre que mostramos só os nossos corpos, a nossa ideologia principal é ser irônicas e corajosas. Enfim, nós protestaríamos com roupa, mas as pessoas apenas conhecem e lembram os nossos protestos nus, porque o uso de roupa tem menor grau de eficiência.
Vocês acham que a mídia pode distorcer a  imagem do grupo e fazer as pessoas pensarem que vocês estão promovendo a si mesmas ao invés das causas que defendem?
Claro que pode. Na nossa história existe um monte de casos assim. Especialmente na televisão, jornais e estações de rádio que promovem o governo ucraniano. Há alguns sujeitos que dizem que não acreditam em nossos protestos, e o próprio governo está tentando queimar a nossa imagem com apelidos humilhantes do tipo, “vacas”, “garotas de programa”, “sanguessugas”, etc. Existem até meios de comunicação que estão espalhando esta informação, que a indústria sexual internacional está nos financiando, para promover o turismo sexual na Ucrânia visando o campeonato de futebol Euro 2012. As agências de notícia internacionáis geralmente entendem o nosso posicionamento e destacam  nossos protestos de maneira objetiva, mostrando que queremos transmitir de verdade.
Sou ucraniana e eu sei o que significa ser uma mulher em nosso país. E o que é ser uma feminista na Ucrânia?
Ser uma feminista na Ucrânia não é fácil! Estamos brincando! Na Ucrânia é possível ser uma feminista e nós provamos isso quase que todos os dias. A única coisa que complica e estraga nossa postura como feministas é a constante pressão por parte da polícia e autoridades.
Até que ponto a cultura do povo ucraniano impede o desenvolvimento das condições sociais e econômicas do país?
A nossa cultura tem muitos aspectos negativos e positivos ao mesmo tempo. Ajudar o próximo, trabalhar duro e  ser tolerante são as características mais antigas da mentalidade ucraniana. As coisas que atrapalham são os aspectos culturais adquiridos por ucranianos no século 20: a intimidação, a indiferença, a apatia, a ignorância e outras características negativas do povo soviético. O Yanukovich, por exemplo, se tornou presidente graças a resquícios da mentalidade soviética dos ucranianos. E o surgimento de fenômenos como o FEMEN, já são o embrião de pensamentos europeus na Ucrânia, especialmente entre os jovens. Pensamos que no Brasil a situação é semelhante, o pensamento antigo colonial anda junto com o desejo de liberdade. Percebemos que o Brasil já conseguiu uma grande parte das reformas democráticas e isso tudo se transmite no  fato de vocês terem uma mulher como presidente, a sra. Dilma Rousseff.
As mulheres brasileiras, bem como as ucranianas são esterotipadas no exterior. Que mensagem vocês enviariam para as mulheres do Brasil?
Mulheres do Brasil, vão para as ruas, dispam-se, protestem contra tudo o que interfere com o seu país, que atrapalha o seu crescimento, para tornar o mais justo, e que as mulheres brasileiras sejam as mais livres do mundo!
FONTE: Tudo Sobre a Russia / Sasha Yakovleva
LEIA TAMBÉM: Quer fazer parte do Femen Brasil? Sara Winter explica como
http://guebala.blogspot.com.br/2012/06/quer-fazer-parte-do-femen-brasil-sara_08.html
VEJA MAIS SOBRE O FEMEM NOS VÍDEOS ABAIXO









quinta-feira, junho 07, 2012

A filha de Betty


Ser filha de Malcolm X é fácil. Difícil foi ser filha de Betty Shabazz, com outras seis irmãs, pobres, no Harlem.” Todas as vezes que encontro Malak Shabazz ela sempre prefere falar da mãe quando pergunto sobre seu pai. Nessa família de ativistas afro-americanos, não há um sem o outro. Malak é a caçula, e não chegou a conhecer Malcolm, morto quando Betty estava grávida. E como os pais, ela segue na luta por direitos humanos e justiça social. Nos últimos tempos, seu foco tem sido o feminismo. “Igualdade”, ela diz. “Equal rights.”
Na sede da National Action Network: House of Justice, o clima é triste, mas não como o do velório no dia anterior, de Gil Noble, um famoso âncora negro de tevê. Malak, metida em uma bata africana, toma o microfone: “Brother Gil era um amigo da família. Eu sei quem ia lá em casa. Muita gente diz que é amigo. Depois do filme Malcom X, de repente todo mundo era amigo. Mas no clima de ódio daquele tempo, ele sempre estava lá. E quando teve espaço na tevê, minha mãe cobrou dele para representar e defender o povo negro, o povo da diáspora africana. E ele fez. Gil também nos apoiou na luta para preservar o local onde meu pai foi assassinado, e hoje se chama The Malcolm X and Dra. Betty Shabazz Memorial and Educational Center.”
O centro fica a poucas quadras da House of Justice. No início do ano, uma bela exposição lembrava as “freedom sisters”, mulheres negras que lutaram pelos direitos civis. Agora em maio está em cartaz The Long Walk to Freedom, a longa marcha pela liberdade. Também com fotografias, gráficos e biografia de ícones do movimento pelos direitos civis.
O memorial ocupa o antigo Audubon Ballroom, local onde Malcolm X, aos 39 anos, foi assassinado na noite de 21 de fevereiro de 1965 por três integrantes da Nação do Islã. O edifício pertence à Columbia University e foi cedido em 2005 para uso da família por 99 anos, após intensa mobilização no fim dos anos 1980, quando a universidade quase derrubou o prédio.
A reforma foi bancada pela cidade de Nova York e pelo banco Chase e planejada pelo também conhecido arquiteto negro Max Bond, que estudou em Columbia. “Ainda faltam 97 anos, temos muita coisa para fazer aqui”, diz Malak, confiante. A exposição Freedom Sisters foi financiada pela Fundação Ford. Além do centro, a família dirige a Malcolm X Foundation, o X Legacy Inc., e uma série de planos de bolsas para estudantes negros, especialmente em medicina, em Columbia.
Há um belo salão de danças no segundo andar do memorial. Piso de madeira, telhado branco e um imponente mural. Malak emociona-se. Ela para no exato local do crime, próximo à janela, onde ficava o palco em que seu pai discursava. Na parede oposta, um grande mural resume a vida de Malcolm X. “Foi bem aqui que mataram ele. A minha mãe estava ali do lado, eu e minha irmã na barriga dela.” Qubilah Shabazz, segunda das irmãs, foi testemunha do crime (e acabaria presa em 1995 acusada- de encomendar a morte de Louis Farrakhan, que teria incentivado o assassinato de seu pai).
Malak é uma celebridade no Harlem e mantém viva a memória dos pais
“As pessoas falam de meu pai, mas esquecem de Betty. Ela criou seis filhas sozinha. Estudou, fez doutorado. Organizou a luta pelos direitos, foi intensa ativista. E ela nos protegeu. Só nos demos conta do ódio que havia lá fora quando fomos à universidade.”
Malak é uma celebridade no Harlem. Nas ruas, apertos de mão, acenos. Descendente de italianos, pareço deslocado – o único não afrodescendente na reunião da House of Justice. Mas a identidade brasileira abre portas. “Eu tenho lido muito sobre os quilombos, que luta incrível os nossos irmãos travam no Brasil”, afirma Gary, um radialista de voz forte durante a cerimônia. “Meu pai queria unir os povos africanos. Na África, na América, todos os negros da diáspora imposta pela escravidão”, afirma a ativista. “Minha mãe adorava a Bahia. Foi muitas vezes para lá. Acho até que ela tinha algum namorado”, sorri.
A adoção do islamismo, talvez uma forma de protesto, é sustentada pelo que Malak diz ser sua fé. Cristãos e muçulmanos eram opostos na luta nos direitos civis, inclusive dentro do movimento negro. Ela lembra a histórica divergência entre seu pai e Martin Luther King. “Se batessem nele, Luther King iria oferecer a outra face. Meu pai partiria para a briga. Ele nunca aceitou a submissão.” Suas palavras, diz ela, fortaleciam a autoestima do afro-americano para lutar por seus direitos. “Hoje estamos vivendo um retrocesso.” A militante teme pelas eleições presidenciais deste ano. “Não é fácil (re)eleger um negro neste país racista.”
A conversa logo entra no tema das cotas raciais, as ações afirmativas. “Temos de ter acesso a direitos. Vivemos como exilados. Viemos embaixo de um navio, no porão. Contra a nossa vontade.” Ela fala em “direito para vivermos e justiça social”, o “direito de existir”. Contra os argumentos popularmente apresentados no Brasil, entre eles o de que as cotas pioram o nível da educação, é direta: “Isso é ridículo. Quem acredita nisso?”
A música está em cada canto do Harlem. Malak diz não gostar de rap (“É violência, degrada as mulheres”), mas mostra simpatia pelo hip-hop (“É um modo de vida. Como o jazz, usa a arte para abrir a mente e a alma”).
“A música é uma arma”, diz Gary, parceiro de Steve Wonder no famoso disco Songs In The Key of Life, enquanto conduz a cerimônia na House of Justice. “Com a música ninguém pode nos impedir de criar, de falar. E hoje, com a web, estamos livres das gravadoras. Ninguém pode nos impedir de distribuir”, incentiva ao microfone. “Uma revolução está sendo criada pela música. Temos de usar o poder da música, que é a mais poderosa forma de comunicação.” Malak aprova. A resistência e a esperança ela herdou, em igual medida, de Malcolm e Betty.


FONTE: CARTA CAPITAL

Transação de R$ 12,2 milhões envolvendo reitor da UFPel transforma universidade em alvo de investigação



Dois terrenos adquiridos por uma ONG foram

revendidos no mesmo dia para a instituição federal

Dois terrenos adquiridos por R$ 700 mil por uma ONG foram revendidos, no mesmo dia, por R$ 12.285.754,97 para uma das mais importantes universidades federais do Estado.
 
Concretizado no dia 15 de março, o negócio suspeito envolve a Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e a Fundação Simon Bolívar – organização não-governamental idealizada pelo atual reitor da instituição de Ensino Superior, Antônio César Gonçalves Borges.

A aquisição é uma das 27 transações imobiliárias feitas pela UFPel nas duas últimas gestões de Borges (2005-2012). Com a implementação do Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni) pelo governo federal, em 2007, a UFPel aqueceu o mercado imobiliário. Comprou prédios e terrenos, num investimento de R$ 19,9 milhões.

A compra mais controversa autorizada pelo reitor Borges envolve uma área vendida pela Fundação Simon Bolívar. A universidade pagou R$ 12,2 milhões por 5,2 hectares próximo de onde funcionam a reitoria e o Campus Porto da UFPel. 

A aquisição, segundo registrado em cartório, foi feita no mesmo dia em que a Simon Bolívar havia comprado o terreno por um valor 17 vezes menor.

Maior parte da área foi doada para a universidade federal

A incorporação deste terreno é o epílogo de uma negociação que se iniciou há sete anos e envolveu a fundação, a UFPel e o banco Santander Banespa. Em dezembro de 2005, após obter um empréstimo de R$ 700 mil, a fundação comprou 12 hectares do Frigorífico Casarin SA (ex-frigorífico Anglo). De acordo com o Tribunal de Contas da União (TCU), o banco não exigiu fiador, avalista ou qualquer outra garantia na operação.

Houve apenas autorização expressa, diz o TCU, “em caráter irrevogável ou irretratável para que o banco pudesse fazer uso das disponibilidades existentes em qualquer conta ou posição da titularidade da Fundação Simon Bolívar, seja conta corrente, de poupança ou de qualquer aplicação financeira podendo... efetuar resgates e remanejar saldos de uma conta para outra”.

A maior parte da área (64,56%) foi doada para a UFPel. O restante foi negociado com investidores privados. Um dos projetos visava à construção de um shopping center.

Em 20 de fevereiro de 2006, a UFPel repassou R$ 14,4 milhões para a Simon Bolívar.

O dinheiro, enviado pelo MEC, serviria para a fundação implantar a Unipampa no sul do Estado – o que aconteceu. Mas, antes disso, a fundação retirou do Banco do Brasil os R$ 14,4 milhões recebidos da União e os depositou no Santander Banespa – o mesmo que havia concedido o empréstimo para aquisição do antigo frigorífico e cujo contrato firmado previa “efetuar resgates e remanejar saldos de uma conta para outra”. O TCU considerou a operação irregular, e os recursos voltaram ao BB.

A Unipampa tornou-se realidade, mas o shopping que seria construído junto à UFPel não saiu do papel. A fundação decidiu recomprar os terrenos vendidos a investidores. Essa operação despertou a suspeita do Ministério Público Federal, que investiga o caso. 

A Simon Bolívar pagou R$ 700 mil para readquirir 5,2 hectares e os revendeu, no mesmo dia, para a UFPel por R$ 12.285.754,97 – conforme a escritura 023/42.318, registrada no 1º tabelionato de Pelotas. O documento é assinado pelo reitor Borges, pelo diretor financeiro da Simon Bolívar, Maurício Pinto da Silva, e pelo presidente da fundação, Geraldo Rodrigues da Fonseca.

MEC informou que o negócio não tem amparo legal

Ao analisar o negócio, o Ministério da Educação recomendou que a transação fosse desfeita. Para o MEC, o negócio “não possui amparo legal”. Em nota enviada a ZH, a assessoria de comunicação do MEC informou que no início do ano, ao tomar conhecimento da transação, o ministério “solicitou a imediata devolução do recurso liberado pela universidade à fundação”.

— O reitor comunicou ao MEC que faria a devolução — diz a nota.

A ZH, Borges deu duas versões. Na sexta-feira, dizia ter sido um bom investimento porque o valor aplicado no terreno teria sido R$ 8,4 milhões (não é o que consta na escritura):

— A UFPel decidiu investir, com recursos do MEC, R$ 8.405.471,00, o que permitiu adquirir o imóvel cujo preço era de R$ 12.195.755,37.

Às 20h11min de ontem, após o MEC informar que a transação “não tinha amparo legal”, Borges enviou e-mail com outra versão:

— Informo que o MEC não concordou com a forma de negociação feita com a Fundação Simon Bolivar. Solicitei audiência com a Sesu-MEC para analisar a proposta de desfazimento da aquisição ou a utilização de alternativa legal capaz de permitir o aproveitamento da área contígua ao campus Porto. As diferenças de valores e esclarecimentos jurídicos serão objeto da audiência solicitada ao MEC.

FONTE: ZERO HORA

quarta-feira, junho 06, 2012

Servidores dos Institutos Federais Deflagram Greve

Em plenária nacional, os 61 delegados, representantes 
dos servidores dos Institutos Federais, definiram 
o dia 13 de junho para início da paralisação

Os docentes e servidores técnico-administrativos dos Institutos Federais de Educação Básica, Profissional e Tecnológica vão entrar em greve a partir do dia 13 de junho por tempo indeterminado. A decisão – que ocorreu na tarde desta quarta-feira (6), durante a 109 Plenária Nacional do Sindicato Nacional dos Servidores Federais da Educação Básica, Profissional e Tecnológica (Sinasefe) e por ampla maioria – fortalece a proposta de uma greve conjunta do setor da educação e das entidades dos servidores públicos federais reunidas na Coordenação Nacional das Entidades dos Servidores Federais (CNESF).

Os 61 delegados participantes da plenária, realizada em Brasília, definiram também os eixos principais de uma pauta de reivindicações com mais de dez itens a ser apresentada ao governo federal e que estará disponível a partir desta quinta-feira (7), no site do Sinasefe. Na pauta, além do reajuste emergencial, da reestruturação de carreira docente e do Plano de Carreira dos Cargos Técnico-Administrativos em Educação (PCCTAE), a categoria vai lutar pela destinação de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) para a educação pública e a redução da jornada de trabalho para 30 horas semanais.

Este ano, as entidades do campo da educação decidiram realizar uma greve conjunta em razão de o governo não ter atendido aos acordos firmados com as categorias e também porque elas lutam por objetivos comuns, como, por exemplo, a reestruturação da carreira única para os docentes da rede federal.

A primeira entidade a paralisar suas atividades foi o Sindicato dos Docentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andes-SN), em 17 de maio, e, em seguida, os estudantes de várias universidades públicas. 

A Federação dos Sindicatos dos Trabalhadores das Universidades Públicas Brasileiras (Fasubra) também vai entrar em greve na próxima segunda-feira (11/6). 

Com a decisão da Plenária, o Sinasefe completa e integra o conjunto das categorias que lutam por melhores condições de salário e de trabalho da educação. Além dos 61 delegados, que representam 41 seções sindicais, tiveram presentes 37 observadores.

FONTE: Sinasefe.Org

A erva do sul













Como o mate, planta de uso tradicional indígena, se tornou símbolo de várias nações sul-americanas


Faz um domingo frio e ensolarado em Porto Alegre. O céu muito azul, depois de dias de chuva, é um convite a sair de casa. O parque da Redenção, o mais popular da capital gaúcha, está lotado. Jovens casais conduzem carrinhos de bebês. Idosos tomam sol ou leem jornal. Atletas domingueiros passam com o fôlego curto. Jovens andam de bicicleta ou sentam-se em grupos animados sobre o gramado.
A cena não seria diferente da de qualquer outro parque urbano não fosse por um detalhe. Muitos desses porto-alegrenses comungam o mesmo curioso hábito. Enquanto conversam, passeiam, tomam sol ou chamam a atenção das crianças, eles vão consumindo uma bebida quente, sorvida de recipiente côncavo chamado de cuia, com a ajuda de um canudo metálico prateado. Cada cuia é sempre compartilhada por duas ou mais pessoas. Reabastecida com água quente, ela vai sendo passada de mão em mão entre amigos de um mesmo grupo, em um ciclo que se renova repetidas vezes.
Uma semana depois, no malecón da rambla que margeia o estuário do rio da Prata na capital do Uruguai, Montevidéu, a cena se repete. Observo casais de namorados, famílias, pescadores de fim de semana, todos desfrutando de mais um domingo de sol e da mesma misteriosa bebida quente, com seus mesmíssimos instrumentos e gestos: a cuia entre as mãos, a bomba entre os lábios, a garrafa térmica debaixo do braço.
Degusta-se o mate quente ou frio, dependendo da latitude. A bebida ganha o nome de chimarrão no Brasil e de mate nos países de língua hispânica. Sua versão refrescante, com água fria, é o tereré (pronuncia-se "tererê"). O consumo do mate está tão entranhado no cotidiano do Sul do Brasil e em três vizinhos austrais - Argentina, Paraguai e Uruguai - que, às vezes, pode se tornar até assunto de Estado. Ou de segurança no trânsito. O atual presidente uruguaio, José Alberto Mujica, ameaçou, no início de seu governo, declarar guerra aos funcionários públicos flagrados usando a cuia durante o expediente. Na Argentina, um polêmico deputado propôs, no ano passado, um projeto de lei que aplicará pesadas multas a quem tomar mate enquanto dirige na província de Buenos Aires.(O caso provocou reações indignadas dos caminhoneiros. Afinal, nas rutas argentinas, os postos oferecem não só gasolina para os veículos mas também água quente para as garrafas térmicas que enchem as cuias de mate - o combustível dos motoristas.) E, em Porto Alegre, museus, como a Fundação Iberê Camargo, anunciam já na porta, em uma placa em que se vê uma cuia coberta por uma faixa oblíqua: "É proibido ‘matear' nas dependências do museu".
"A erva-mate tem efeitos digestivos e diuréticos, mas é mais consumida por ser estimulante. Tem alcaloides em sua composição, como a cafeína", explica o professor Antônio Salatino, do Departamento de Botânica da Universidade de São Paulo. A cafeína, que atua no sistema nervoso central, aumenta a capacidade de concentração e atenção, e está presente em outras bebidas, como café, chocolate e guaraná. Nenhuma delas, porém, conquistou tanto seus consumidores como a erva-mate. Afinal, ninguém sai de casa com garrafa térmica para preparar cafezinhos na rua, toma chá ao dirigir ou constrói monumentos ao guaraná - muitas cidades sulistas, contudo, erigiram estátuas oficiais à erva, esculturas em forma de cuia instaladas em parques, praças ou na confluência de avenidas importantes.
Essas efusivas manifestações de amor a uma infusão típica só fazem reforçar a pergunta: de onde vem a surpreendente paixão com que se consome o mate nesta parte da América?
Em uma fria manhã de junho, veem-se poucos carros na BR-153, rodovia que liga Bagé a Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. O agente Carlos Antônio de Araújo Carvalho, da Polícia Rodoviária Militar, contempla a estrada vazia entre sorvos de seu chimarrão. É um quadro em que tudo está no lugar certo: paisagem, homem, erva-mate - uma imagem perfeita do sul-rio-grandense em seu hábitat natural. Carvalho, porém, é fluminense de Volta Redonda, e está ali servindo o tempo de uma transferência temporária. O chimarrão é um hábito recente, mas fundamental.
"Tomar mate me ajudou na adaptação ao frio do sul", diz. "Também me ajudou a fazer amigos. O chimarrão tem papel importante na socialização das pessoas. Ele é um pretexto para se reunir. As pessoas se encontram, conversam em roda enquanto a cuia vai passando de mão em mão." Diante do súbito ronco da cuia, sinal de que a água acabou, ele alcança a garrafa térmica sobre o balcão e enche novamente o porongo decorado de entalhes em baixo-relevo com motivos campestres. "O mate me ajudou a me tornar um pouco mais nativo", reflete.
Outra estrada, a RS-332, corta o verde vale do Taquari, na serra gaúcha, a principal zona produtora da planta no Brasil. Por isso, também é chamada de Caminho da Erva-Mate. Nas suas margens, pequenas cidades e indústrias dependem de produção e comercialização da commodity nativa. Os ervais sucedem-se à beira da via de asfalto, mas, à primeira vista, fica difícil perceber terrenos cultivados, já que não há aparente regularidade na disposição das árvores.
De perto, a planta de erva-mate - Ilex paraguariensis, como foi classificada pelo naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire, em 1822 - tem caule acinzentado e folhas ovaladas de um verdeescuro brilhante. Nos ervais, ela nunca é muito alta, pois cada árvore é podada para se manter a não mais que 3 metros de altura e facilitar a colheita periódica dos ramos. Porém, na mata, certos exemplares podem chegar a 12 metros.
As árvores nativas são o tesouro da Ervateira Putinguense, uma empresa familiar administrada há várias gerações pela família Guadagnin. Sua produção tem certificação florestal: é orgânica, sem agroquímicos, e os pés de erva-mate crescem entre outras árvores no meio da mata. "Meus pais já produziam erva-mate quando ainda se usava banha de porco no lampião para alumiar a casa", conta Eduardo Guadagnin, atual responsável pela empresa. "A cancheadeira era movida a cavalo e toda a erva passava pelo barbaquá", prossegue ele, referindo-se aos antigos fornos rústicos em que as folhas da erva-mate eram secadas - a empresa está hoje totalmente mecanizada. Guadagnin produz apenas para o mercado nacional, mas a certificação florestal de seu produto tem conseguido novos clientes fora do mercado tradicional, como a empresa de cosméticos Natura, que utiliza o extrato das folhas de erva-mate em alguns de seus produtos de beleza.
Perto dali, em Ilópolis, sente-se a influência da erva-mate até no nome da cidade. Ele deriva de ilex (a primeira palavra do nome científico da erva) e de polis (cidade, em grego). Ilópolis, cidade do mate. É tempo de comemoração no município de 5 mil habitantes descendentes de italianos, onde as poucas avenidas são divididas por jardineiras que servem de apoio para grandes cuias de mate, uma decoração permanente em homenagem a seu principal produto. Naquela noite, aconteceria a primeira aparição pública das Soberanas do Mate, as madrinhas de uma festa tradicional que ocorre a cada dois anos, sempre na primeira quinzena de novembro.
No início da noite, o interior do antigo Moinho Colognese, decorado com sacos de erva-mate e bandeiras italianas e brasileiras, já está repleto de ilopolitanos, ansiosos com a aparição de suas soberanas. Autoridades circulam entre os presentes, trocando impressões e expectativas sobre a festa. Nos cartazes e nos cartões de visita das autoridades chama a atenção o logotipo municipal: o nome Ilópolis seguido de três folhinhas de erva- mate - a primeira verde, a segunda amarela e a terceira avermelhada -, que representam as cores dos estágios de germinação pelos quais passa a semente da planta. Não por acaso, são também as cores da bandeira do Rio Grande do Sul.
Depois de longo suspense, o resultado: Viviane de Bona, de 17 anos, Gessica Provence, de 18, e Franciele Dall'Agnol, de 20 - a rainha e as duas princesas do mate em 2010 -, adentram o recinto. Trajadas em vestidos longos cuja cor homenageia o tom rubro do último estágio da semente de erva-mate e coroadas de diademas, as lindas soberanas recebem o aplauso entusiasmado dos presentes. Seguem-se os discursos das autoridades, que enfatizam o fato de que a erva representa 70% da economia municipal. "A planta é o nosso ouro verde", afirma um dos presentes.
A commodity lidera um mercado quase tão antigo quanto a chegada dos espanhóis à bacia do Prata, a partir de onde adentraram no continente. Em São Miguel das Missões, no noroeste do Rio Grande do Sul, ainda é possível escutar fantasmagóricas vozes de índios e colonizadores. E também gritos de guerra, tropéis de cavalos, algaravias de batalhas antigas entre portugueses, espanhóis e tribos indígenas. Para ouvi-los, é preciso que seja noite fechada e você se coloque diante das ruínas de uma antiga e monumental igreja. Não se trata de uma atividade paranormal: as vozes são do espetáculo Som e Luz, uma atração turística do sítio arqueológico de São Miguel Arcanjo, que conta a saga das missões jesuíticas no Brasil e nos países vizinhos.
No século 17, a coroa espanhola e a Igreja se opunham na defesa de dois modelos distintos de colonização para a região. O centro dessa disputa era o índio. 

De um lado os representantes da empresa colonial - soldados, comerciantes, mercadores - buscavam a conquista total da nova terra, o que incluía a escravização de todos os seus índios. 

Do outro os padres da Companhia de Jesus propunham civilizar o índio em comunidades autônomas e igualitárias, nas quais as principais atividades seriam o trabalho e a devoção a Deus. Entre 1610 e 1707, a Companhia de Jesus fundou 30 dessas comunidades - as missões jesuíticoguaranis -, espalhadas por uma área de cerca 490 mil quilômetros quadrados, território que hoje é dividido entre Brasil, Argentina e Paraguai.

As missões, também chamadas de reduções, foram os principais centros de desenvolvimento da bacia do Prata. Os jesuítas introduziram ali a pecuária, além de diversas técnicas e artes europeias, como a fundição de metais, o trabalho com o couro, a escultura e a música. E também foram os primeiros a organizar o cultivo da erva-mate.
"O mercado da erva surgiu no início do século 17, dentro do sistema de trocas da colônia espanhola", explica o arqueólogo Artur Barcelos, da Universidade Federal do Rio Grande, que participou de diversas escavações na antiga redução de São Miguel Arcanjo, cujas belas ruínas hoje integram a lista do Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade da Unesco. A erva era um hábito frequente dos índios guaranis e chegou a ser proibida pelos espanhóis no início da colonização, mas isso logo mudou com a percepção de seu valor de troca - o mate tornou-se então um importante recurso econômico. "Os missionários foram bem-sucedidos no cultivo da árvore, sabendo que o excedente de sua produção poderia ser vendido a um bom preço. Muitas reduções ficaram ricas com o comércio. A Companhia de Jesus tinha um registro bastante preciso de sua economia interna", conta Barcelos.
Graças ao intercâmbio constante dos grupos indígenas subjugados pelos espanhóis, o hábito do mate espalhou-se pela colônia, chegando até o alto Peru, às minas de prata de Potosí, na Bolívia, e ao Chile. A palavra máti, da língua quíchua, que designa a cuia, acaba batizando a planta - a erva que se toma no máti: erva-mate.
Pergunto a Barcelos por que tomar mate é algo tão arraigado nesta parte do continente. "A persistência tem a ver com o processo histórico de miscigenação. A região platina tem um passado colonial comum, e gosta de cultivar suas tradições. O mate é uma delas. É algo que nos une, um hábito público. Uma espécie de código de convívio e também um signo de identidade", diz.
Uma lenda guarani conta a história de um velho guerreiro de pernas trôpegas que, já incapaz de sair para as guerras, pescando e caçando com dificuldade, pediu a um mensageiro do deus Tupã uma solução para seus males. O mensageiro entregou-lhe o galho de uma árvore e ensinou-o a fazer uma infusão - ka'ay - que lhe devolveria suas forças. O velho combatente assim fez, recuperou o vigor perdido e divulgou a novidade entre os membros de sua tribo, os quais, passando a tomar a infusão ka'ay, se tornaram cada dia mais fortes e valentes.
Ka'ay: é assim que se chama o mate no mercado El Quatro, em Assunção, no Paraguai, onde o guarani é a língua oficial nacional, ao lado do espanhol. Uma comerciante, Amelia Galeano, tenta nos ensinar a falar mate em guarani. Mas ka'ay é uma palavra de difícil pronúncia. O problema é o ipsílon final, um som levemente gutural, que se pronuncia com a língua no céu da boca, e não existe em português nem em espanhol. Amelia vende garrafas térmicas para mate e tereré, um artigo indispensável do paraguaio. Ela tem termos especiais para mulheres, cobertos de bordados, tecidos floridos e estampados. Ou, para torcedores de futebol, com brasões dos times do Mercosul. E, para homens elegantes, revestidas de pelo de vaca macio ou de couro de alta qualidade. Há ainda garrafas térmicas para ocasiões especiais, como aniversário de namoro, casamento, o Dia das Mães, com dedicatórias gravadas como "Te quiero", "Tu eres mi cariño" ou "Felicidad, mamá!"
Assunção fica às margens do rio Paraguai, e quem cruza suas águas adentra território argentino. Se Amelia Galeano fosse vender suas garrafas na outra margem, ela certamente fracassaria. Pois os argentinos não costumam tomar seu mate na rua. São mais discretos. (Decerto porque não achem muito elegante andar com um termo a tiracolo.) Isso não quer dizer, porém, que apreciem menos o mate que seus vizinhos.
Muitas celebridades argentinas já declararam seu amor à erva-mate. Em um texto, o escritor Julio Cortázar lembra a época em que morava em Paris, e esperava com ansiedade as caixas enviadas de Buenos Aires, "cajoncitos en los que la familia nos mandaba yerba", entre outros mantimentos. Jorge Luis Borges, em um de seus poemas, elogiou o perfume que se desprende de uma cuia de mate. E o revolucionário Ernesto Che Guevara fez questão de ser fotografado inúmeras vezes com mate e bombilla entre as mãos.
Apesar de não gostarem de consumir a bebida na rua, os argentinos inventaram um jeito de tomar mate em público - os chamados bares de mate. No bairro de Palermo Viejo, em Buenos Aires, é possível ver, em um domingo, amigos em torno de uma mesa sorvendo de cuias modernas, coloridas, de alumínio anodizado a água quente suprida por chaleiras - que os argentinos chamam de pavas - do mesmo material.

O empresário Santiago Olivera é dono de três bares na capital argentina, e um dos precursores dessa nova modalidade de se tomar mate. "Tudo começou na época em que eu era universitário", diz. "Os estudantes bebem mate para virar a noite em véspera de prova e entrega de trabalhos."
É manhã de sexta-feira, e em seu bar Volviste Clara, no centro da cidade, todas as mesas estão ocupadas por grupos de alunos com livros abertos, cadernos e laptops - ao lado, é claro, de cuias de erva-mate. "É bem mais íntimo que o café. Como a cuia é compartilhada, o mate aproxima as pessoas, cria laços", explica a jovem Arantza Olagues. "O mate aconchega. É um ritual de confiança", completa seu colega Matías de Vicenzi.
Jaguarão, na fronteira entre Brasil e Uruguai, fica às margens do rio de mesmo nome. A cidade histórica, famosa por suas casas antigas, de altas portas entalhadas, platibandas e bandeiras bem preservadas, deverá ser declarada patrimônio nacional pelo Instituto do Patrimônio Histórico Nacional (Iphan) em 2011. Na margem oposta fica Rio Branco, no Uruguai. Na verdade, Jaguarão e Rio Branco são praticamente uma só cidade, cujas duas metades por acaso estão em países diferentes. Natural de Jaguarão, embora hoje more em Pelotas, o escritor Aldyr Garcia Schlee me acompanha em uma visita à região. Ele é autor de vários livros sobre as tradições sulistas e a vida na fronteira.
Sobre o rio Jaguarão estende-se a ponte internacional Mauá, com seus arcos elegantes refletidos sobre a superfície da água. Nesse domingo, há um vaivém frenético na ponte, pois Rio Branco é na verdade um enorme free shop que atrai nos fins de semana milhares de brasileiros ávidos por compras. "Aqui eles podem ir ao exterior sem sair do interior", observa Schlee com um sorriso.
Sacoleiros e turistas passam o domingo nas lojas do outro lado da fronteira, e a cidade mantém seu ritmo tradicional. A praça diante da Igreja Matriz está cheia de pequenos grupos, acompanhados de suas garrafas térmicas, tomando chimarrão. Chegamos ao cerro da Pólvora, onde se encontram as ruínas de uma antiga enfermaria militar construída em 1883. Ali, conta Schlee, será erguido o futuro Centro de Interpretação do Pampa, que deverá ser inaugurado em 2012, um grande museu dedicado às tradições pampeanas - como seu hábito de tomar mate.
FONTE: Viaje aqui Abril




Diário Oficial traz vetos de Dilma à Lei Geral da Copa


Presidente barrou seis pontos, mas manteve 

um dos aspectos mais polêmicos

O texto da Lei Geral da Copa está publicado na edição de hoje (6) do Diário Oficial da União. A norma estabelece as regras para os jogos do Mundial de 2014 no país. A presidenta Dilma Rousseff vetou seis pontos, mas manteve um dos aspectos mais polêmicos: a venda de ingressos pela metade do preço para estudantes, pessoas com mais de 60 anos e beneficiários de programas sociais de transferência de renda, entre eles, o Bolsa Família.

No texto, não há referências sobre a liberação ou proibição da venda de bebidas em estádios durante a Copa do Mundo de 2014. No mês passado, o ministro dos Esportes, Aldo Rebelo, informou que a decisão sobre a comercialização de bebidas alcoólicas nos estádios ficará a cargo dos nove estados onde ocorrerão os jogos.

A norma estabelece as regras oriundas do acordo feito pelo governo brasileiro e a Federação Internacional de Futebol (Fifa). No capítulo cinco, o texto assegura que 50 mil ingressos serão colocados à disposição para a venda de bilhetes a preços de meia-entrada. Os bilhetes serão personalizados com a identificação do comprador e classificados em quatro categorias – de 1 a 4.

Indígenas e os que contribuírem com a campanha do desarmamento também poderão obter descontos, mas o percentual ainda será definido pelas autoridades. No texto da lei, há ainda a regulação da propaganda e a exploração das imagens e sons referentes aos jogos.

O Instituto Nacional de Propaganda Industrial (Inpi) será o órgão federal responsável pelo controle e cadastramento do material de marketing sobre os jogos. O Inpi atuará em parceria com a Fifa, de acordo com a legislação. Porém, o uso indevido de símbolos será criminalizado.

Os jogadores das copas do Mundo de 1958, 1962 e 1970 receberão benefícios, de acordo com o texto. Eles ganharão dinheiro e auxílio especial mensal, no caso dos que estão em dificuldades financeiras. Segundo o texto, o auxílio poderá ser pago à mulher do jogador e aos filhos menores de 21 anos.

Os vetos da presidenta se referem ao pagamento de outros benefícios a atletas mais velhos, à venda de ingressos, ao serviço voluntário em atividades que ameacem a segurança.

Há, também, a ordem para que os sistemas de ensino ajustem os calendários escolares de tal forma que os estudantes possam acompanhar os jogos. A ordem vale para os ensinos público e privado.

Na parte final do texto, a legislação determina prisão até três anos para os que burlarem a lei no que se refere ao uso da imagem da Copa do Mundo de 2014. Todos os produtos comercializados sobre o evento devem ter autorização da Fifa, reitera o texto em vários artigos.

Em maio, o texto da Lei Geral da Copa foi aprovado pelo Congresso Nacional sob controvérsias e uma série de divergência envolvendo, inclusive, a Fifa. Os temas mais polêmicos se referiam à venda de bebidas alcoólicas e à meia-entrada para estudantes e idosos.

FONTE:Portal Copa2014

terça-feira, junho 05, 2012

PLENÁRIA DA FASUBRA CONFIRMA GREVE PARA 11 DE JUNHO


Assufsm avalia paralisação em assembleia nesta quarta

A reunião plenária da Federação dos Servidores das Universidades Brasileiras (Fasubra), ocorrida domingo e segunda, 3 e 4 de junho, foi aprovada, com apenas duas abstenções, a deflagração da greve para o dia 11 de junho. Ao todo participaram 37 entidades e 173 delegados de todo país.
Os discursos e proposições giraram em torno da unidade e do êxito do movimento. “Com certeza faremos a maior greve da história da educação. A palavra de ordem é a unidade”, afirmaram os representantes da Federação. As reitorias serão devidamente avisadas atendendo os prazos previstos em Lei.
Na UFSM, o sindicato dos técnico-administrativos em educação (Assufsm) convocou assembleia para esta quarta, 13h30min, no Auditório Loi Berneira (prédio 18, da Química). O principal ponto de pauta é a deflagração da greve na UFSM a partir do dia 11 de junho, conforme a orientação nacional.
Governo não quis negociar
Depois de várias tentativas de negociação com o governo, todas sem sucesso, os servidores chegaram ao limite.“Nosso caminho preferencial é sempre o da negociação, a greve é a última medida. Infelizmente o Governo Federal preferiu não negociar e não nos deu outra opção”, informou a Fasubra.
Calendário
Dia 11/06 – Deflagração da Greve
Dia 12/06 – Atos e Mobilizações de Rua
Dia 14/06 – Atos e Mobilizações nos Hospitais Universitários
Dia 15/06 – Instalação do Comando nacional de Greve (CNG)
Dia 18/06 – Atos nas Reitorias.


Fonte: Assufsm e Fasubra / Fritz R.Nunes (SEDUFSM)

As universidades de Lula


Nas centenas de discursos que o presidente Lula pronunciou nos últimos meses de seu mandato, em 2010, um dos temas mais recorrentes foi a educação. Em diversas oportunidades afirmou ter criado mais universidades que o presidente Juscelino Kubitschek. Em cinco anos de governo, JK criou 10 instituições, enquanto Lula, em seus dois mandatos, criou 14, sendo 10 voltadas para a interiorização da educação superior e 4 para promover a integração regional e internacional.
Um ano e meio depois de ter deixado o governo, algumas das universidades por ele inauguradas com muita pompa, circunstância e rojão funcionam em instalações emprestadas e prédios improvisados, sem água, refeitório, biblioteca e professores em número suficiente. O câmpus da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) em Guarulhos é uma boa amostra do tipo de instituições de ensino erguidas pelo presidente "recordista" com a preocupação precípua de "mostrar serviço".
O acesso ao câmpus é difícil e não há ônibus suficientes. As salas de aula são abafadas. O refeitório funciona num galpão de madeira. Cerca de 30 mil livros destinados à biblioteca continuam encaixotados. A biblioteca tem 240 mil livros mas, como não há lugar onde colocá-los, só 70% do acervo pode ser consultado. Por falta de infraestrutura, o laboratório de informática não tem como ser ampliado. A demora para se tirar uma fotocópia é de 40 minutos, em média. E quando os 50 computadores são operados simultaneamente, a velocidade da internet cai.
Projetado originariamente pela prefeitura de Guarulhos para abrigar uma escola técnica, o câmpus funciona desde 2006, oferecendo cursos de ciências sociais, filosofia, história, letras e pedagogia a cerca de 3,1 mil alunos. Mas, como um edifício prometido desde 2007 jamais saiu do papel, os poucos prédios disponíveis estão superlotados e algumas aulas tiveram de ser transferidas para uma escola municipal que atende cerca de 700 crianças.
Nessa escola, os cursos da Unifesp são dados à tarde e à noite, mas o número de salas também é insuficiente. "Estamos discutindo Hegel e a molecada está no recreio, fazendo correria ao lado. Como não há ventilação e o prédio pega sol o dia inteiro, no verão é insuportável", diz o estudante Michael de Santana. Por causa da falta de salas climatizadas, a ilha de edição de vídeo financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo não pode ser usada. Além disso, há carência de professores em muitos cursos e o quadro administrativo tem menos da metade do número de servidores necessários.
Para exigir que o governo da presidente Dilma Rousseff terminasse o que Lula "inaugurou", os alunos deflagraram uma greve no final de março, que perdura até agora. Em maio, ocuparam a reitoria acadêmica por três dias. A direção do câmpus da Unifesp em Guarulhos alega que o uso das dependências da escola municipal do bairro dos Pimentas foi planejado de comum acordo com a prefeitura de Guarulhos, como contrapartida pela instalação do câmpus na cidade, em 2007. As salas serão devolvidas quando o prédio novo - cuja licitação só foi concluída este ano - for construído. Para amenizar os problemas, a Unifesp alugou um prédio em frente ao câmpus, para servir de sala de aula.
Outras universidades federais criadas por Lula enfrentam problemas semelhantes. Na própria Unifesp, um dos prédios da unidade da Baixada Santista está interditado desde o final de abril, por causa de uma forte chuva. Em Minas Gerais, o câmpus avançado da Universidade Federal do Vale do Jequitinhonha, também criada em 2007, só tem um quinto de suas instalações construídas. Na Universidade Federal do ABC, os problemas de gestão e logística desestimularam os alunos - em 2009, a instituição registrou uma taxa de evasão de 42%, uma das mais altas do País.
Esse é o cenário de muitas das universidades criadas por Lula. Suas primeiras turmas estão tendo fortes prejuízos em sua formação acadêmica, como reconhecem os professores e dirigentes dessas instituições.
FONTE: O Estado de S.Paulo