Valoriza herói, todo sangue derramado afrotupy!

domingo, abril 13, 2014

Osmar Terra e Jean Wyllys debatem política de drogas brasileira







Deputados federais apresentaram projetos de lei que dispõem sobre o assunto



Os deputados Osmar Terra (PMDB-RS) e Jean Wyllys (PSOL-RJ) concordam em uma coisa: o Brasil erra em sua política de drogas. No entanto, cada um apresenta soluções diametralmente opostas para resolver essa questão. Enquanto o ex-ministro da Saúde do Rio Grande do Sul propôs o PL 7663/10, que já passou pela Câmara e aguarda votação no Senado, Jean propôs o PL 7270/14, que ainda não foi votado. O primeiro prevê internação compulsória de dependentes químicos e o aumento das penas para tráfico de drogas, já o segundo quer regular produção, industrialização e comercialização de maconha. Para deixar claras as posições de cada lado da discussão, “O Globo a Mais” fez dez perguntas semelhantes a cada um deles. Afora as estatísticas que ambos usam para sustentar seus pontos de vista, sobram posições firmes e bem definidas, em que endurecimento e flexibilização duelam a cada resposta.

Por que endurecer a lei antidrogas é a solução?
Osmar Terra: Primeiro porque o Brasil não tem política nenhuma. Existe um plano bem montado, o primeiro da história, que foi lançado em 2011 pela presidente Dilma. Mas esse plano não está sendo executado porque alguns setores do governo jogam a favor da liberação. Segundo, porque não existe nenhum exemplo histórico de que a liberação é a solução. Liberar não é novidade. Se os países proíbem, e são todos os 198 da ONU, deve haver uma razão. A única proposta de legalização de uma droga veio do Uruguai. A regra é a proibição. Dizer que o proibicionismo existe por influência dos EUA é uma bobagem. Isso é um mito. Você acha que China, Irã e Vietnã seguem orientação americana? Todos esses países proíbem e têm leis duríssimas. A proibição é fruto do sofrimento histórico das sociedades, das tragédias que acontecem quando as drogas são liberadas. A Suécia liberava todas as drogas até 1969. Quando percebeu os problemas sociais, econômicos e de segurança gerados por elas, proibiu. Atualmente, o país tem as leis mais duras da Europa. E, por isso, reduziu o consumo, o número de homicídios e de acidentes de automóveis. Para um nível de comparação local, a Suécia tem um quinto dos acidentes de carros de Portugal. Tem a metade de homicídios. E os dois países têm populações semelhantes. A China tem pouquíssimos dependentes químicos. Além disso, tem baixíssimos 13 mil homicídios por ano. O Brasil tem 52 mil. E não dá pra comparar as populações dos dois países. Políticas firmes reduzem o consumo e reduzem tudo que o consumo traz junto: doença mental, acidente, homicídio, etc.

Por que endurecer a lei antidrogas não é a solução?
Jean Wyllys: Todas as estatísticas mostram que o endurecimento é ineficaz. A resposta que o Brasil e o mundo deram ao consumo de drogas nos últimos anos foi a resposta da guerra. Em nenhum momento se encarou isso como um problema de saúde pública ou uma questão de liberdades individuais. O problema foi enfrentado apenas pela ótica da repressão. E, mesmo assim, o consumo aumentou. Além do consumo, aumentam anualmente os números de vítimas dessa “guerra às drogas”. No Brasil, são cerca de 50 mil homicídios por ano. Uma grande parte deles está ligada a isso. Morrem traficantes, policiais e civis, que não têm nenhuma relação com o problema. Além disso, se você for traçar um perfil da pessoa que morre, ou que é encarcerada, percebe que esse grupo é composto por pessoas negras, pobres e da periferia. Apesar do volume de recursos empregados e das vidas sacrificadas por essa política, o consumo só aumentou. Por que? Porque o Estado participa indiretamente através da corrupção policial, que permite que a droga circule livremente, através da corrupção de juízes, que vendem sentenças, e até mesmo de políticos, cujas carreiras são finaciadas por traficantes. Não é justo que, ao mesmo tempo, o Estado produza um discurso público hipócrita e participe indiretamente do tráfico através da corrupção.

Por que flexibilizar a lei antidrogas não é a solução?
Osmar Terra: Flexibilizar como? Liberando a maconha? A maconha não é uma droga leve. Isso é um mito. Ela causa dependência química. Pesquisas mostram que, quanto mais jovem a pessoa começa a consumir, mais problemática é a questão. Uma pesquisa do National Institute of Drug Abuse mostra que 50% dos adolescentes que usam aos 16 anos ficam dependentes. Nos adultos, o percentual fica em torno de 10%. Quanto mais imaturo o cérebro, maior o dano. Outra coisa: é impossível discriminalizar o uso e criminalizar a venda. Como assim? Comprar não é crime, mas vender é? Esse é o primeiro passo para a legalização. A “Folha de S.Paulo” fez um editorial no dia 19 de junho de 2011 em que mostra toda a estratégia para a legalização. E não é uma denúncia! É uma defesa! O primeiro passo é descriminalizar o uso, depois liberar tudo para a regulação do mercado. Esse é o objetivo. Isso não existe em lugar nenhum do mundo. Quer dizer que a Angela Merkel é ignorante e só o Mujica é inteligente? São dois caminhos: ou libera-se, ou controla-se mais. Todos que agem com rigor maior têm melhores resultados.

Por que flexibilizar a lei antidrogas é a solução?
Jean Wyllys: É a solução porque a outra resposta não deu certo. Não sou eu que digo. Se olharmos para o contexto internacional, veremos que presidentes e outros líderes mundiais que se engajaram na “guerra às drogas” hoje dizem que aquilo foi um equívoco. Segundo a ONU, há no mundo cerca de 300 milhões de usuários de drogas. Desses, 80% são usuários de maconha. Então, a “guerra às drogas” é uma “guerra à maconha”. Se a repressão não deu certo, é nossa obrigação apresentar outra resposta. O que você chama de flexibilização, eu chamo de legalização e regulamentação da maconha. É fundamental que a gente encare essa medida como meio para reduzir essa estatística absurda de homicídios e para reduzir a população carcerária, que hoje é a 4ª do mundo.

O que acha da política de drogas implantada pelo Uruguai?
Osmar Terra: Um desastre! Para a juventude uruguaia e para nós, que vamos receber um grande incremento na importação de drogas. Assim como temos uma grande importação por conta do narco-Estado da Bolívia, onde se planta coca livremente. O crack que os meninos do Rio e São Paulo fumam vem da pasta-base boliviana, principalmente depois que o Evo Morales assumiu a presidência. A questão das drogas é séria e grave. Eu respeito a história do Mujica, mas ele está mal assessorado. O Julio Calzada, que é o responsável por pensar a política de drogas por ele, é uma pessoa que milita numa corrente filosófica. Eu estive no Senado uruguaio para debater isso. Os argumentos deles estão longe de ter qualquer embasamento científico. São ideológicos: “a pessoa deve ter a liberdade de usar”. São argumentos que podem ser rebatidos da mesma maneira. Alguém que tem a liberdade de usar e não consegue trabalhar por isso, prejudica a pessoa que tem que trabalhar mais para sustentá-la. A liberdade também é um conceito social. Ou todos têm liberdade ou ninguém é livre.

Jean Wyllys: De uma forma geral, eu gosto. O único ponto de discordância é que o Mujica propõe o controle absoluto do Estado sobre produção, comércio e consumo. Na sociedade em que vivemos, não podemos prescindir do mercado. O mercado deve ser regulamentado, sim, mas deve estar presente. Essa questão não pode ser prerrogativa única do Estado.

Onde o Brasil erra hoje nessa questão?
Osmar Terra: Erra porque não estabelece uma política concreta. Nunca teve. Na prática, a gente não consegue internar quem está doente. Nos Centros de Atenção Psicossocial, a orientação não é manter a pessoa em abstinência. A orientação é reduzir danos, quando o melhor resultado para a dependência é a abstinência. O dependente só consegue estudar e trabalhar quando está em abstinência. No Brasil, não existe execução de uma política pública. São muitas propostas e pouca prática. E a culpa não é da Dilma, que criou um programa que pode dar resultado, mas do segundo escalão, que faz as coisas não funcionarem.

Jean Wyllys: O país erra ao não debater publicamente essa questão. Erra ao não enxergar que uma resposta à violência urbana passa fundamentalmente pela questão das drogas. Os presidenciáveis, quando apresentarem seus programas de governo, não poderão fugir desse assunto. E, se fugirem, estarão sendo covardes e hipócritas.

É justo que os usuários sejam punidos como são hoje?
Osmar Terra: Eu acho que eles têm que ser convencidos a não usá-las. Drogas é uma doença incurável. Eu não deixo que meus filhos tenham qualquer procedimento que possa levá-los a contrair uma doença. A mesma coisa eu faço com as drogas. O meu projeto mantém essa questão. Eu respeito o fato que a dependência é uma doença, por isso o usuário não é preso. Mas, de alguma forma, isso tem que ser considerado crime. Para constranger quem usa. Se não for crime, a pessoa vai levar para a escola, oferecer para os amigos e vai aumentar o número de dependentes. O álcool e o tabaco, juntos, têm 40 milhões de dependentes. As drogas ilícitas têm 7 milhões. Se disser que não é crime, quem garante que esse número não vai subir para 40 milhões? Minha lei é didática: ela ensina que o consumo não é uma coisa boa.

Jean Wyllys: É injustíssimo! Claro que não é justo. Primeiro, porque o Estado intervir no uso que um individuo faz do seu corpo é ferir a dignidade humana, ferir a liberdade individual. O que o Estado deve fazer é passar as informações sobre como o uso, ainda que recreativo, interfere na sáude. Graças ao fato de o tabaco ser regulamentado, o usuário conhece os componentes do cigarro e sabe que seu uso pode provocar câncer, enfisema pulmonar e disfunção erétil. Com base nisso, ele decide se quer usar ou não. E, se optar por utilizar, ele será tributado, como o a produção e o comércio também são. Esses recursos arrecadados podem ser empregados em políticas de prevenção em saúde. O usuário não deve ser encarcerado. Sabemos como nossas prisões são. Pedrinhas e Carandiru são exemplos públicos recentes do que acontece diariamente em nossas prisões. São infernos. Que futuros estamos dando a quem é encarcerado por usar droga?

Droga é questão de saúde ou questão de polícia?
Osmar Terra: É de saúde, mas a polícia ajuda a prevenir a doença. Eu vim para o Congresso depois que saí da Secretaria de Saúde do Rio Grande do Sul. Se a polícia não influir, aumenta o número de doentes. Para diminuir o número de dependentes, tem que ter polícia também. Quanto mais droga na rua, mais dependente. Até porque 25% da população não tem defesa psíquica contra a dependência. São pessoas que têm impulsividade maior, déficit de atenção, hiperatividade, transtorno bipolar, depressão, síndrome de borderline, desvio de conduta. Gente que é vulnerável a usar essas substâncias compulsivamente. São doenças do cérebro, assim como a dependência é. Essas pessoas são oito vezes mais suscetíveis à dependência. Dizer que a droga é apenas uma questão de saúde e que a polícia não pode intervir está dando uma desculpa para deixar a droga livre, para que não haja repressão.

Jean Wyllys: Droga é questão de saúde. De saúde e de liberdade individual.

Qual sua opinião sobre a repressão violenta a usuários, como aconteceu recentemente na Universidade Federal de Santa Catarina?
Osmar Terra: Eu vi noticiário, o pessoal estava fumando lá dentro. Não existiu repressão violenta a usuários, existiu uma reação violenta dos usuários contra a polícia. E aí a força policial tem que responder. Se fazer de vítima é a coisa mais fácil do mundo. Pelo que vi ali, a polícia abordou algumas pessoas para ver se eram traficantes e as pessoas reagiram. Sou contra qualquer tipo de repressão à população. Mas a polícia não pode ser agredida, e foi isso que aconteceu em Santa Catarina.

Jean Wyllys: Uma estupidez! Em todos os aspectos. Volto a dizer: a melhor resposta que podemos dar a um estudante universitário que está fumando um baseado é “cair de pau” nele e trancafiá-lo em uma cela? Estaremos abortando o futuro dessa pessoa. Não teremos a chance de apurar se ele faz uso recreativo ou se abusa da droga. A distinção que tem que ser feita é entre uso e abuso. Quem abusa tem que ser tratado como doente. Tem que ser tratado na perspectiva da saúde, não da segurança pública. É uma estupidez, um absurso. Interfere nos direitos individuais. Eu apresentei essa pauta no meu primeiro semestre de mandato. Essa pauta (da legalização) é absolutamente condizente com todas as outras questões de direitos humanos que eu trato.

A maconha é a porta de entrada para outras drogas? Como se lidar com drogas como a cocaína e o crack?
Osmar Terra: O UNDOC (Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime da ONU) mostra que 83% dos usuários de crack e heroína começaram com maconha. Por que? A maconha sensibiliza núcleos que comandam a sensação de prazer. Regiões do cérebro ficam sensibilizadas pela maconha e, portanto, mais suscetíveis a adição a outras drogas. E sabemos que é difícil que exista usuário de uma droga só. O usuário é normalmente multiuso. Sabemos que traficantes adicionam pedrinhas de crack à maconha para aumentar a dependência.

Jean Wyllys: A maconha não é uma porta de entrada. Isso é uma falácia que deve ser derrubada. Cada droga tem uma dinâmica própria de consumo. Não há qualquer relação de consequência. Um usuário de maconha não vai necessariamente progredir para a heroína. Em países que empregam políticas que não são a repressão, a maconha pode ser usada como uma redutora de danos. Se há uma droga que é a porta de entrada, embora isso não seja ainda provado cientificamente, essa droga é o álcool, que é legal e regulamentado. Entretanto, as pessoas gostam de criar mitos para justificar um status quo que beneficia a elas. Incluindo aí o próprio deputado Osmar Terra, que é médico, pasme! Sobre cocaína e crack, o país deveria regulamentar todas elas. Eu não estou dizendo liberar. Atualmente, a maconha é liberada: liberada de qualquer regulamentação. Há uma série de pesquisas avaliando o uso de substâncias hoje ilícitas na cura de certas doenças. Para que as pesquisas avancem, é fundamental que o Estado legalize essas drogas e regulamente seu uso.

Como o país deve lidar com as drogas lícitas?
Osmar Terra: Elas obviamente causam dano, dependência química. Afinal, a maior causa de violência química é o álcool. Políticas devem ser estabelecidas para que o consumo sejam restringidos gradualmente. Como a Suécia lidou com isso? As lojas que vendem álcool são concessões públicas e, por isso, existem em número reduzido. Não pode comprar no posto de gasolina ou no mercado da esquina. Além disso, existe um cadastro. Quem compra grandes quantidades com frequência é convidado a fazer tratamento. Isso faz com que a Suécia, que tem a mesma população do Rio Grande do Sul, tenha 90 homicídios por ano, contra 2000 do RS. Quando se age com rigor, tudo melhora.

Jean Wyllys: Atualmente, temos duas drogas lícitas cujo consumo é estimulado e que são altamente consumidas. Elas, claro, têm impacto na questão de saúde. O que a gente faz é salvaguardar esse direito delas de uso, esse direito de dispor de seus corpos, de consumir substâncias recreativamente. A gente regulamenta. Se fazemos com álcool e tabaco, por que não fazer com maconha? Meu projeto de lei prevê que um conselho paritário acompanhe a implementação da política e obriga o Estado a renovar anualmente sua lista de drogas ilícitas. Além disso, prevê que o Estado leve em conta pareceres científicos sobre os usos medicinais de certas drogas ilícitas. Essa lista tem que estar de acordo com resultados da ciência. O projeto altera também todas as leis vigentes para o álcool e o tabaco e inclui a maconha. Por fim, modifica as leis que não fazem distinção entre drogas lícitas e ilícitas e usam a palavra “droga” para caracterizar as substâncias ilícitas.

O que o senhor acha dos pontos de vista defendidos por Jean Wyllys?
Osmar Terra: Eu respeito as bandeiras dele e concordo com boa parte do que ele fala. Mas acho que, nessa questão, ele está querendo entrar na moda. É um modismo e falta de conhecimento científico e histórico. Por isso, eu considero essa posição equivocada. Esse assunto merece um debate mais profundo.

O que o senhor acha dos pontos de vista defendidos por Osmar Terra?
Jean Wyllys: Absolutamente equivocados. Eles partem do senso comum e, às vezes, da desonestidade intelectual. Reduzir todos usuários de drogas ilícitas a usuários de crack é estupidez. Sustentar que maconha leva ao crack é estupidez. Não distinguir uso de abuso é estupidez.


* Entrevistas publicadas no vespertino O Globo a Mais

FONTE: O GLOBO

sexta-feira, abril 11, 2014

Os Ninguéns (Eduardo Galeano)











As pulgas sonham em comprar um cão, e os ninguéns com deixar a pobreza, que em algum dia mágico de sorte chova a boa sorte a cântaros; mas a boa sorte não chova ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, nem uma chuvinha cai do céu da boa sorte, por mais que os ninguéns a chamem e mesmo que a mão esquerda coce, ou se levantem com o pé direito, ou comecem o ano mudando de vassoura.


Os ninguéns: os filhos de ninguém, os dono de nada.

Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos:

Que não são embora sejam.

Que não falam idiomas, falam dialetos.

Que não praticam religiões praticam superstições.

Que não fazem arte fazem artesanato.

Que não são seres humanos, são recursos humanos.

Que não tem cultura têm folclore.

Que não têm cara têm braços.

Que não têm nome têm número.

Que não aparecem na história universal aparecem nas páginas policiais da imprensa local.


Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata.”.

FONTE: Livro dos Abraços

Lei que define crimes de racismo completa 25 anos








Foi criada há exatos 25 anos a Lei 7.716, que define os crimes resultantes de preconceito racial. A legislação determina a pena de reclusão a quem tenha cometidos atos de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. Com a sanção, a lei regulamentou o trecho da Constituição Federal que torna inafiançável e imprescritível o crime de racismo, após dizer que todos são iguais sem discriminação de qualquer natureza.

A lei ficou conhecida como Caó em homenagem ao seu autor, o deputado Carlos Alberto de Oliveira. A partir de 5 de janeiro de 1989, quem impedir o acesso de pessoas devidamente habilitadas para cargos no serviço público ou recusar a contratar trabalhadores em empresas privadas por discriminação deve ficar preso de dois a cinco anos.

É determinada também a pena de quem, de modo discriminatório, recusa o acesso a estabelecimentos comerciais (um a três anos), impede que crianças se matriculem em escolas (três a cinco anos), e que cidadãos negros entrem em restaurantes, bares ou edifícios públicos ou utilizem transporte público (um a três anos). Os funcionários públicos, tratado na lei, que cometerem racismo, podem perder o cargo. Trabalhadores de empresas privadas estão sujeitos a suspensão de até três meses. As pessoas que incitarem a discriminação e o preconceito também podem ser punidas, de acordo com a lei.

Apesar da mudança no papel, os negros ainda sofrem racismo e frequentemente se veem em situação de discriminação. Para o coordenador nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais e Quilombolas (Contaq), no campo legislativo pouca coisa mudou desde que a escravidão foi abolida, em 1888. “A realidade continua a duras penas. Desde o começo, muitos foram convidados para entrar no Brasil, o negro foi obrigado a trabalhar como escravo”, disse, citando leis como a da Vadiagem, a proibição da capoeira e o impedimento à posse de terras.

De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios, divulgada em setembro de do ano passado, %).104,2 milhões de brasileiros são pretos e pardos, o que corresponde a mais da metade da população do país (52,9 A diferença não é apenas numérica: a possibilidade de um adolescente negro ser vítima de homicídio é 3,7 vezes maior do que a de um branco, de acordo com estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

De 1989 para cá, outras legislações importantes na luta contra o preconceito racial foram criadas, como o Estatuto da Igualdade Racial (2010) –, e a Lei de Cotas (2012), que determina que o número de negros e indígenas de instituições de ensino seja proporcional ao do estado onde a universidade esta instalada. “Essas são ações muito importantes de reparação. Tem alguns fatores que a gente ainda precisa quebrar para que o negro tenha direitos e oportunidades reais”, acredita Biko.

Para denunciar o crime de racismo ou injúria racial, o cidadão ainda não tem à disposição um telefone em todo o Brasil. Mas unidades da Federação têm criado os seus próprios, como o Distrito Federal (156, opção 7) e Rio de Janeiro (21-3399-1300). Segundo Biko, é importante saber quem é de onde são as pessoas que cometem tal crime. “Sem dúvida, quando mais espaço de denúncia a gente tiver, mais reforça a luta conta a esse processo de segregação racial que a gente ainda vive nesse país”, avalia.

FONTE: AGÊNCIA BRASIL / Paulo Victor Chagas

Racismo se alastra: futebol brasileiro tem ao menos uma denúncia por mês


Estádios do país têm 14 casos que se tornaram públicos desde fevereiro de 2013. Lei é dúbia, árbitro relata medo de represálias e clube é punido com rebaixamento

No dia 13 de março, a presidente do Brasil, Dilma Rousseff, abriu as portas do Palácio do Planalto para receber Paulo César Tinga, meia do Cruzeiro, e o árbitro gaúcho Márcio Chagas da Silva, ambos vítimas recentes de manifestações racistas em estádios de futebol. Não participaram do encontro, e tampouco são conhecidos nacionalmente, personagens como Pantico, Zambi, Dudu e Dida. Todos eles são jogadores. E fazem parte de uma já longa lista de profissionais do futebol que denunciaram supostos casos de racismo dentro do país no último ano. E que pouco foram notados.

Contabilizados apenas episódios que se tornaram públicos, ocorreram ao menos 14 acusações de racismo em estádios brasileiros desde fevereiro do ano passado - a última nessa quinta-feira, quando Marino, do São Bernardo, foi a uma delegacia prestar queixa contra um torcedor do Paraná. É como se uma vez por mês alguém saísse de campo, do Norte ao Sul do Brasil, se sentindo vítima de preconceito por causa da cor de sua pele. Há atletas de clubes grandes, casos de Inter e Santos, mas também de equipes menores: Uberlândia, Pimentense, Sapucaiense. Juntos, famosos e anônimos formam um panorama assustador: o país que vai receber a Copa do Mundo dentro de dois meses é palco de repetidas manifestações racistas.

O cenário abre espaço para dois pontos polêmicos - quem punir e como punir. A legislação esportiva dá margem para punições rígidas, mas o texto é dúbio em uma questão central: até onde penalizar os clubes aos quais estão ligados os agentes das manifestações racistas. Geralmente, as penas englobam multas e perdas de mando de campo. Mas houve uma revolução nesta quinta-feira: o Esportivo teve nove pontos retirados na tabela e acabou rebaixado no Campeonato Gaúcho pelo episódio envolvendo Márcio Chagas. Cabe recurso no STJD.

Paralela à discussão sobre as penas, existe um ambiente que dificulta a exposição desses gestos: o temor de represálias em casos de denúncias, a timidez dos clubes no combate ao preconceito e a permissividade do meio esportivo a gestos que em outras esferas são mais condenados - como se chamar alguém de macaco em um campo de futebol fosse diferente de fazê-lo em um restaurante, por exemplo.

QUEM PUNIR E COMO PUNIR

O parágrafo primeiro do artigo 243-G do Código Brasileiro de Justiça Desportiva abre a possibilidade de um clube perder pontos ou até ser excluído de uma competição em casos de racismo. Mas tem uma ressalva: se a discriminação for "praticada simultaneamente por considerável número de pessoas". É aí que mora a primeira questão: quantas pessoas são necessárias para se definir a ideia de "considerável número"?

Ninguém sabe. O que o texto implica é que manifestações individuais e manifestações coletivas de racismo devem ter punições diferentes. O extremo da lei, com perda de pontos e exclusão, costumava ficar longe da pauta. Mas a pena aplicada ao Esportivo nesta quinta-feira muda esse panorama.

O clube gaúcho inicialmente havia perdido cinco mandos de campo e levado multa de R$ 30 mil depois de o árbitro Márcio Chagas da Silva sofrer ofensas racistas durante jogo contra o Veranópolis e encontrar bananas em seu carro após a partida. Ele recorreu. Em novo julgamento, a punição foi muito diferente: perda de nove pontos e seis mandos de campo, mais multa de R$ 30 mil. Com isso, o clube foi rebaixado para a Segunda Divisão do Campeonato Gaúcho.

O tamanho da penalização à equipe de Bento Gonçalves resulta da ideia de manifestação coletiva presente no CBJD. Segundo Márcio Chagas, os gritos durante o jogo partiram de um grupo de 15 a 20 pessoas. E seu carro, onde foram colocadas bananas, estava nas dependências do clube.

Aí pode estar a diferença para a pena que sofreu o Mogi Mirim, que inicialmente teve seu estádio, o Romildão, interditado e foi condenado a pagar R$ 50 mil de multa por um torcedor ter chamado o volante Arouca, do Santos, de macaco. O Mogi entrou com recurso e conseguiu efeito suspensivo da pena. O novo julgamento, na última quarta, reduziu o valor pela metade. O estádio está liberado.

A discussão sobre como punir um clube em situações assim divide opiniões - e o tamanho da pena, mais ainda. Afinal, a entidade tem culpa de ter um torcedor racista? O procurador-geral do STJD, Paulo Schmitt, entende que as agremiações sempre devem ser julgadas em casos da racismo, seja quem for o agente da manifestação - torcedor, dirigente, jogador.

- Clubes já respondem por violência dentro dos estádios, seja por meio de tumultos, desordens, arremesso de objetos, invasões etc, e devem ser também responsabilizados por essa forma de atraso social. Nesse aspecto, nossas normas disciplinares são até mais abrangentes do que as da Fifa e não se restringem apenas a atos de racismo, mas qualquer forma de preconceito vedado pela Carta Constitucional. E todos que praticarem esse grave desvio de comportamento devem ser processados e julgados pelos tribunais desportivos, do torcedor ao atleta, do árbitro ao dirigente, e os clubes em qualquer hipótese - comentou.

O mais complicado, mesmo para os integrantes do STJD, é a matemática da pena. O presidente do órgão, Flávio Zveiter, diz que é uma questão de "dosimetria" - ou seja, devem ser levados em conta agravantes e atenuantes de cada caso. Na visão do jurista, o clube é responsável por gestos racistas inclusive de seus torcedores, mas é preciso ter cuidado na hora de punir.

- O clube é responsável pela atitude do torcedor. Mas tem que haver uma dosimetria. Foi um torcedor? Foram vários torcedores? Um marginal que vai chamar alguém de macaco tem que ser preso, mas o clube não pode ser punido por perda de pontos, porque assim vai prejudicar os demais torcedores. Por outro lado, sem dúvida alguma, o clube é responsável.

Zveiter levou um susto quando soube que a reportagem contabilizou 14 casos de acusações de racismo apenas em estádios brasileiros em um intervalo de um ano - fora aqueles que eventualmente não se tornaram públicos ou foram silenciados pelas vítimas. Muitos episódios ficam restritos a tribunais regionais, longe dos holofotes da mídia nacional, e acabam não tendo ressonância. Diante da reincidência dos casos, Zveiter pretende criar um mecanismo para que situações assim sempre caiam na esfera nacional - ou seja, no STJD.

Quem também se surpreendeu com o número foi o ex-jogador e técnico Alfredo Sampaio, vice-presidente da Federação Nacional dos Atletas Profissionais de Futebol e presidente do braço do órgão no Rio de Janeiro. Diante do fato, ele disse que pretende acionar o Ministério do Esporte e a CBF para que sejam tomadas medidas em conjunto.

- As medidas necessárias são uma campanha forte do governo e uma cobrança nossa com entidades esportivas. Esse número é preocupante - opinou.

A reportagem procurou o ministro do Esporte, Aldo Rebello, para comentar a reincidência de casos de racismo no futebol brasileiro. Por meio de sua assessoria, deu uma resposta que se limita a listar o que diz a Constituição e o código esportivo. Antes, em nota publicada no site da pasta, o ministro pedira punição exemplar aos responsáveis por manifestações racistas, a quem classificou como "criminosos".

MEDO DE REPRESÁLIAS

Em 6 de março, Márcio Chagas da Silva começou a ser chamado de macaco antes mesmo de começar o jogo entre Esportivo e Veranópolis, na Montanha dos Vinhedos, em Bento Gonçalves. Seguiu sendo chamado de macaco durante a partida. E encontrou bananas em seu carro, inclusive no cano de descarga, ao deixar o estádio. Ele não pensou duas vezes: colocou tudo na súmula.

Mas o próprio árbitro faz um alerta. Segundo ele, colegas deixam de denunciar casos de preconceito por medo de represálias. O raciocínio é simples: em uma denúncia, um clube é prejudicado, e presidentes de clubes costumam ser próximos a presidentes de federações, que podem acabar perseguindo o árbitro em questão.

- Muitos têm medo e se omitem. É medo de represália, de levar o assunto à tona. O pessoal meio que mascara, fica com medo de represálias em geral, de dirigente, de levar o assunto à tona e não ser escalado. A arbitragem não é profissional. Somos prestadores de serviço. E um dirigente pode ter relação mais forte com alguma equipe envolvida na história. Eu corri sério risco de sofrer alguma represália muito forte, mas valeu muito mais a pena (denunciar do que se omitir). O grande problema é que não temos respaldo. Daqui a pouco, não estão escalando determinado árbitro e vão dizer que é por deficiência técnica.

Flávio Zveiter entende que a denúncia feita por Márcio Chagas efetivamente ainda possa fazer parte da realidade brasileira, mas diz que cabe aos árbitros procurar a Justiça desportiva se sentirem que podem ser perseguidos por terem colocado algum caso de racismo na súmula.

- Certamente, em alguns locais, pode haver algum constrangimento. O Tribunal está aberto a receber isso. Não pode uma pessoa ficar constrangida de denunciar racismo por medo de não ser escalada no próximo jogo.

AS AGRESSÕES

A imagem das bananas sobre o carro de Márcio Chagas da Silva é forte - e ajudou a história a se espalhar nacionalmente, a ponto de ele ser recebido pela presidente da República. Mas há outras denúncias de conteúdo tão agressivo quanto a do juiz - mas desconhecidas do grande público.

Lucio, goleiro reserva do São Paulo de Rio Grande no ano passado, disse que ouviu as seguintes palavras de um torcedor do Pelotas: "Preto vagabundo, macaco, teu lugar é no circo". O árbitro da partida era justamente Márcio Chagas da Silva, que citou o caso na súmula.

Assis, lateral-esquerdo do Uberlândia, disse no mês passado que foi chamado de "macaco, negro, safado e fedorento" por um torcedor do Mamoré, um homem de 45 anos que foi detido pela polícia e alegou ter ofendido o atleta "apenas" como "safado, vagabundo e pilantra".

Márcio Chagas, nos dias posteriores à agressão que sofreu em Bento Gonçalves, se emocionou muito ao falar do caso (veja no vídeo ao lado). Sempre que comenta o assunto, ele cita seu filho de 11 meses e o temor de que ele sofra preconceito parecido.

- Eu me senti violentado. Fiquei inerte, chocado com tudo aquilo. Às vezes, somos agredidos e temos a possibilidade de responder, mas nisso fiquei inerte, sem ação. Fui xingado e depois me deparei com meu veículo da forma como estava. Agir de forma sorrateira, como aconteceu, com o ato de colocar bananas, foi sorrateiro, foi covarde. Sou adulto, sei reagir, sei me defender. Mas tenho um filho de 11 meses. Será que ele vai conseguir ter esse discernimento? Não vou aliená-lo de dizer que não vai acontecer. Vai. Vai acontecer. E ele vai ter que ter sabedoria para lidar com isso, para não se machucar de forma muito grave.

A constituição federal avisa que "a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão, nos termos da lei".

EM DISCUSSÃO

Em 2011, o atacante Diego Maurício, defendendo a camisa da seleção brasileira sub-20, foi vítima de manifestações racistas no Peru, durante disputa do Sul-Americano da categoria. Três anos depois, no mesmo país, Tinga sofreu agressão parecida da torcida do Real Garcilaso, em jogo pela Libertadores. É curioso comparar os comunicados da CBF nos dois casos. No primeiro, ela diz que "a manifestação não passou de um fato isolado"; no segundo, pede "punição exemplar" ao Garcilaso e lembra que até a possibilidade de exclusão do clube está inclusa no regulamento - o que não ocorreu.

Acontece que vem aumentando a atenção despertada pelo tema. Nos últimos anos, o Grêmio se viu envolvido em três acusações de racismo: uma de Elicarlos, do Cruzeiro, em 2009, contra o atacante Maxi López; e outras duas de colorados, Zé Roberto em 2011 e Paulão no Gre-Nal do último dia 30, ambas contra torcedores. Ainda no ano passado, o clube tricolor divulgou um vídeo com uma campanha, protagonizada por atletas, contra o racismo. Agora, com o caso envolvendo Paulão, voltou a se pronunciar oficialmente. Em nota, manifestou seu "repúdio a qualquer ato de racismo e discriminação, entendendo tratar-se de um caso particular e que em nada representa o pensamento da torcida gremista" e rejeitou "qualquer mácula a sua conduta institucional neste sentido". O clube foi multado em R$ 80 mil pelo episódio do Gre-Nal.

Enquanto isso, um grupo de torcedores do site Grêmio Libertador iniciou uma discussão para que a torcida pare de se referir aos colorados como "macacos" ou "macacada". Um dos cantos mais presentes em jogos do clube tem a seguinte letra: "Somos campeões do mundo/ da Libertadores também/ Chora, macaco imundo/ Tu nunca ganhou de ninguém". O argumento de muitos gremistas é de que o termo "macaco", neste caso, não contém conotação racista, de que na verdade eles estão chamando os colorados de primatas, de seres irracionais. O Inter até adotou o animal como mascote de seus projetos sociais - e o apelidou de Escurinho. Mas o debate pode reverberar no Gre-Nal do próximo domingo, em Caxias do Sul. O árbitro será justamente Márcio Chagas da Silva, que já avisou que vai parar a partida se escutar alguma referência que considere racista.

É uma discussão que entra em outro aspecto do debate sobre racismo: de que as manifestações em um estádio ganham o calor do jogo e a rivalidade como atenuantes. Há quem não veja em xingamentos de torcedores um ato necessariamente racista. No caso do Rio Grande do Sul, mesmo um ídolo dos colorados, o técnico Abel Braga, amenizou a polêmica sobre a música dos gremistas e disse que não vê conotação racista nela.

Na Europa, onde brasileiros são vítimas habituais de racismo em campo, as campanhas são fortes. Na Inglaterra, a Federação pede que os próprios torcedores denunciem quem se manifestar de forma preconceituosa em estádios. No Brasil, quando um clube ajuda a identificar o torcedor de quem partiu determinada agressão, abre o caminho para evitar uma punição forte - ou até conseguir a absolvição.

No dia 13 de março, a presidente do Brasil, Dilma Rousseff, abriu as portas do Palácio do Planalto para receber Paulo César Tinga, meia do Cruzeiro, e o árbitro gaúcho Márcio Chagas da Silva, ambos vítimas recentes de manifestações racistas em estádios de futebol. Não participaram do encontro, e tampouco são conhecidos nacionalmente, personagens como Pantico, Zambi, Dudu e Dida. Todos eles são jogadores. E fazem parte de uma já longa lista de profissionais do futebol que denunciaram supostos casos de racismo dentro do país no último ano. E que pouco foram notados.

Contabilizados apenas episódios que se tornaram públicos, ocorreram ao menos 14 acusações de racismo em estádios brasileiros desde fevereiro do ano passado - a última nessa quinta-feira, quando Marino, do São Bernardo, foi a uma delegacia prestar queixa contra um torcedor do Paraná. É como se uma vez por mês alguém saísse de campo, do Norte ao Sul do Brasil, se sentindo vítima de preconceito por causa da cor de sua pele. Há atletas de clubes grandes, casos de Inter e Santos, mas também de equipes menores: Uberlândia, Pimentense, Sapucaiense. Juntos, famosos e anônimos formam um panorama assustador: o país que vai receber a Copa do Mundo dentro de dois meses é palco de repetidas manifestações racistas.

O cenário abre espaço para dois pontos polêmicos - quem punir e como punir. A legislação esportiva dá margem para punições rígidas, mas o texto é dúbio em uma questão central: até onde penalizar os clubes aos quais estão ligados os agentes das manifestações racistas. Geralmente, as penas englobam multas e perdas de mando de campo. Mas houve uma revolução nesta quinta-feira: o Esportivo teve nove pontos retirados na tabela e acabou rebaixado no Campeonato Gaúcho pelo episódio envolvendo Márcio Chagas. Cabe recurso no STJD.

Paralela à discussão sobre as penas, existe um ambiente que dificulta a exposição desses gestos: o temor de represálias em casos de denúncias, a timidez dos clubes no combate ao preconceito e a permissividade do meio esportivo a gestos que em outras esferas são mais condenados - como se chamar alguém de macaco em um campo de futebol fosse diferente de fazê-lo em um restaurante, por exemplo.

QUEM PUNIR E COMO PUNIR

O parágrafo primeiro do artigo 243-G do Código Brasileiro de Justiça Desportiva abre a possibilidade de um clube perder pontos ou até ser excluído de uma competição em casos de racismo. Mas tem uma ressalva: se a discriminação for "praticada simultaneamente por considerável número de pessoas". É aí que mora a primeira questão: quantas pessoas são necessárias para se definir a ideia de "considerável número"?

Ninguém sabe. O que o texto implica é que manifestações individuais e manifestações coletivas de racismo devem ter punições diferentes. O extremo da lei, com perda de pontos e exclusão, costumava ficar longe da pauta. Mas a pena aplicada ao Esportivo nesta quinta-feira muda esse panorama.

O clube gaúcho inicialmente havia perdido cinco mandos de campo e levado multa de R$ 30 mil depois de o árbitro Márcio Chagas da Silva sofrer ofensas racistas durante jogo contra o Veranópolis e encontrar bananas em seu carro após a partida. Ele recorreu. Em novo julgamento, a punição foi muito diferente: perda de nove pontos e seis mandos de campo, mais multa de R$ 30 mil. Com isso, o clube foi rebaixado para a Segunda Divisão do Campeonato Gaúcho.

O tamanho da penalização à equipe de Bento Gonçalves resulta da ideia de manifestação coletiva presente no CBJD. Segundo Márcio Chagas, os gritos durante o jogo partiram de um grupo de 15 a 20 pessoas. E seu carro, onde foram colocadas bananas, estava nas dependências do clube.

Aí pode estar a diferença para a pena que sofreu o Mogi Mirim, que inicialmente teve seu estádio, o Romildão, interditado e foi condenado a pagar R$ 50 mil de multa por um torcedor ter chamado o volante Arouca, do Santos, de macaco. O Mogi entrou com recurso e conseguiu efeito suspensivo da pena. O novo julgamento, na última quarta, reduziu o valor pela metade. O estádio está liberado.

A discussão sobre como punir um clube em situações assim divide opiniões - e o tamanho da pena, mais ainda. Afinal, a entidade tem culpa de ter um torcedor racista? O procurador-geral do STJD, Paulo Schmitt, entende que as agremiações sempre devem ser julgadas em casos da racismo, seja quem for o agente da manifestação - torcedor, dirigente, jogador.

- Clubes já respondem por violência dentro dos estádios, seja por meio de tumultos, desordens, arremesso de objetos, invasões etc, e devem ser também responsabilizados por essa forma de atraso social. Nesse aspecto, nossas normas disciplinares são até mais abrangentes do que as da Fifa e não se restringem apenas a atos de racismo, mas qualquer forma de preconceito vedado pela Carta Constitucional. E todos que praticarem esse grave desvio de comportamento devem ser processados e julgados pelos tribunais desportivos, do torcedor ao atleta, do árbitro ao dirigente, e os clubes em qualquer hipótese - comentou.

O mais complicado, mesmo para os integrantes do STJD, é a matemática da pena. O presidente do órgão, Flávio Zveiter, diz que é uma questão de "dosimetria" - ou seja, devem ser levados em conta agravantes e atenuantes de cada caso. Na visão do jurista, o clube é responsável por gestos racistas inclusive de seus torcedores, mas é preciso ter cuidado na hora de punir.

- O clube é responsável pela atitude do torcedor. Mas tem que haver uma dosimetria. Foi um torcedor? Foram vários torcedores? Um marginal que vai chamar alguém de macaco tem que ser preso, mas o clube não pode ser punido por perda de pontos, porque assim vai prejudicar os demais torcedores. Por outro lado, sem dúvida alguma, o clube é responsável.

Zveiter levou um susto quando soube que a reportagem contabilizou 14 casos de acusações de racismo apenas em estádios brasileiros em um intervalo de um ano - fora aqueles que eventualmente não se tornaram públicos ou foram silenciados pelas vítimas. Muitos episódios ficam restritos a tribunais regionais, longe dos holofotes da mídia nacional, e acabam não tendo ressonância. Diante da reincidência dos casos, Zveiter pretende criar um mecanismo para que situações assim sempre caiam na esfera nacional - ou seja, no STJD.

Quem também se surpreendeu com o número foi o ex-jogador e técnico Alfredo Sampaio, vice-presidente da Federação Nacional dos Atletas Profissionais de Futebol e presidente do braço do órgão no Rio de Janeiro. Diante do fato, ele disse que pretende acionar o Ministério do Esporte e a CBF para que sejam tomadas medidas em conjunto.

- As medidas necessárias são uma campanha forte do governo e uma cobrança nossa com entidades esportivas. Esse número é preocupante - opinou.

A reportagem procurou o ministro do Esporte, Aldo Rebello, para comentar a reincidência de casos de racismo no futebol brasileiro. Por meio de sua assessoria, deu uma resposta que se limita a listar o que diz a Constituição e o código esportivo. Antes, em nota publicada no site da pasta, o ministro pedira punição exemplar aos responsáveis por manifestações racistas, a quem classificou como "criminosos".

MEDO DE REPRESÁLIAS
Em 6 de março, Márcio Chagas da Silva começou a ser chamado de macaco antes mesmo de começar o jogo entre Esportivo e Veranópolis, na Montanha dos Vinhedos, em Bento Gonçalves. Seguiu sendo chamado de macaco durante a partida. E encontrou bananas em seu carro, inclusive no cano de descarga, ao deixar o estádio. Ele não pensou duas vezes: colocou tudo na súmula.

Mas o próprio árbitro faz um alerta. Segundo ele, colegas deixam de denunciar casos de preconceito por medo de represálias. O raciocínio é simples: em uma denúncia, um clube é prejudicado, e presidentes de clubes costumam ser próximos a presidentes de federações, que podem acabar perseguindo o árbitro em questão.

- Muitos têm medo e se omitem. É medo de represália, de levar o assunto à tona. O pessoal meio que mascara, fica com medo de represálias em geral, de dirigente, de levar o assunto à tona e não ser escalado. A arbitragem não é profissional. Somos prestadores de serviço. E um dirigente pode ter relação mais forte com alguma equipe envolvida na história. Eu corri sério risco de sofrer alguma represália muito forte, mas valeu muito mais a pena (denunciar do que se omitir). O grande problema é que não temos respaldo. Daqui a pouco, não estão escalando determinado árbitro e vão dizer que é por deficiência técnica.

Flávio Zveiter entende que a denúncia feita por Márcio Chagas efetivamente ainda possa fazer parte da realidade brasileira, mas diz que cabe aos árbitros procurar a Justiça desportiva se sentirem que podem ser perseguidos por terem colocado algum caso de racismo na súmula.

- Certamente, em alguns locais, pode haver algum constrangimento. O Tribunal está aberto a receber isso. Não pode uma pessoa ficar constrangida de denunciar racismo por medo de não ser escalada no próximo jogo.

AS AGRESSÕES
A imagem das bananas sobre o carro de Márcio Chagas da Silva é forte - e ajudou a história a se espalhar nacionalmente, a ponto de ele ser recebido pela presidente da República. Mas há outras denúncias de conteúdo tão agressivo quanto a do juiz - mas desconhecidas do grande público.

Lucio, goleiro reserva do São Paulo de Rio Grande no ano passado, disse que ouviu as seguintes palavras de um torcedor do Pelotas: "Preto vagabundo, macaco, teu lugar é no circo". O árbitro da partida era justamente Márcio Chagas da Silva, que citou o caso na súmula.

Assis, lateral-esquerdo do Uberlândia, disse no mês passado que foi chamado de "macaco, negro, safado e fedorento" por um torcedor do Mamoré, um homem de 45 anos que foi detido pela polícia e alegou ter ofendido o atleta "apenas" como "safado, vagabundo e pilantra".

Márcio Chagas, nos dias posteriores à agressão que sofreu em Bento Gonçalves, se emocionou muito ao falar do caso (veja no vídeo ao lado). Sempre que comenta o assunto, ele cita seu filho de 11 meses e o temor de que ele sofra preconceito parecido.

- Eu me senti violentado. Fiquei inerte, chocado com tudo aquilo. Às vezes, somos agredidos e temos a possibilidade de responder, mas nisso fiquei inerte, sem ação. Fui xingado e depois me deparei com meu veículo da forma como estava. Agir de forma sorrateira, como aconteceu, com o ato de colocar bananas, foi sorrateiro, foi covarde. Sou adulto, sei reagir, sei me defender. Mas tenho um filho de 11 meses. Será que ele vai conseguir ter esse discernimento? Não vou aliená-lo de dizer que não vai acontecer. Vai. Vai acontecer. E ele vai ter que ter sabedoria para lidar com isso, para não se machucar de forma muito grave.

A constituição federal avisa que "a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão, nos termos da lei".

EM DISCUSSÃO

Em 2011, o atacante Diego Maurício, defendendo a camisa da seleção brasileira sub-20, foi vítima de manifestações racistas no Peru, durante disputa do Sul-Americano da categoria. Três anos depois, no mesmo país, Tinga sofreu agressão parecida da torcida do Real Garcilaso, em jogo pela Libertadores. É curioso comparar os comunicados da CBF nos dois casos. No primeiro, ela diz que "a manifestação não passou de um fato isolado"; no segundo, pede "punição exemplar" ao Garcilaso e lembra que até a possibilidade de exclusão do clube está inclusa no regulamento - o que não ocorreu.

Acontece que vem aumentando a atenção despertada pelo tema. Nos últimos anos, o Grêmio se viu envolvido em três acusações de racismo: uma de Elicarlos, do Cruzeiro, em 2009, contra o atacante Maxi López; e outras duas de colorados, Zé Roberto em 2011 e Paulão no Gre-Nal do último dia 30, ambas contra torcedores. Ainda no ano passado, o clube tricolor divulgou um vídeo com uma campanha, protagonizada por atletas, contra o racismo. Agora, com o caso envolvendo Paulão, voltou a se pronunciar oficialmente. Em nota, manifestou seu "repúdio a qualquer ato de racismo e discriminação, entendendo tratar-se de um caso particular e que em nada representa o pensamento da torcida gremista" e rejeitou "qualquer mácula a sua conduta institucional neste sentido". O clube foi multado em R$ 80 mil pelo episódio do Gre-Nal.

Enquanto isso, um grupo de torcedores do site Grêmio Libertador iniciou uma discussão para que a torcida pare de se referir aos colorados como "macacos" ou "macacada". Um dos cantos mais presentes em jogos do clube tem a seguinte letra: "Somos campeões do mundo/ da Libertadores também/ Chora, macaco imundo/ Tu nunca ganhou de ninguém". O argumento de muitos gremistas é de que o termo "macaco", neste caso, não contém conotação racista, de que na verdade eles estão chamando os colorados de primatas, de seres irracionais. O Inter até adotou o animal como mascote de seus projetos sociais - e o apelidou de Escurinho. Mas o debate pode reverberar no Gre-Nal do próximo domingo, em Caxias do Sul. O árbitro será justamente Márcio Chagas da Silva, que já avisou que vai parar a partida se escutar alguma referência que considere racista.

É uma discussão que entra em outro aspecto do debate sobre racismo: de que as manifestações em um estádio ganham o calor do jogo e a rivalidade como atenuantes. Há quem não veja em xingamentos de torcedores um ato necessariamente racista. No caso do Rio Grande do Sul, mesmo um ídolo dos colorados, o técnico Abel Braga, amenizou a polêmica sobre a música dos gremistas e disse que não vê conotação racista nela.


Na Europa, onde brasileiros são vítimas habituais de racismo em campo, as campanhas são fortes. Na Inglaterra, a Federação pede que os próprios torcedores denunciem quem se manifestar de forma preconceituosa em estádios (veja no vídeo acima). No Brasil, quando um clube ajuda a identificar o torcedor de quem partiu determinada agressão, abre o caminho para evitar uma punição forte - ou até conseguir a absolvição.

FONTE: GLOBO.COM / Por Rio de Janeiro

O laboratório artístico e sonoro de Emicida













Rapper lança trilha sonora, esboça roteiro e quer escrever para crianças




Ao lado de Criolo, Emicida é um dos artistas independentes de maior projeção na música brasileira. Suas criações não estão apenas na boca dos jovens das periferias, estão no corpo. Com o seu selo Laboratório Fantasma, que acaba de completar cinco anos, vende bonés, camisetas e moletons. A marca tem dado tão certo que outros artistas, como Caetano Veloso, têm vendido produtos com fabricação pelo selo de Emicida.
Aos 28 anos, ele tem sido presença constante em festivais internacionais. Depois de se apresentar no Coachella, em 2011, acaba de retornar de Austin, no Texas, onde participou pela segunda vez do South by Souhtwest, e foi confirmado no Roskilde, na Dinamarca.
Emicida pensa em atuar em outros campos da música. Autor da trilha da premiada animação O Menino e o Mundo, o MC esboça um roteiro de um filme de ficção e anuncia um documentário sobre o Laboratório Fantasma. O compositor, que fez duas músicas para o próximo disco do Skank, quer também escrever livros infantis.
Ao Estado, Emicida fala do combate ao racismo nas escolas, da música que fez em homenagem ao antropólogo Darcy Ribeiro, dos protestos contra a Copa do Mundo, dos casos recentes de violência policial e do show que faz nesta quarta em São Paulo com Thiago França e Rodrigo Campos. Leia abaixo.
Como surgiu a ideia do show com Thiago França e Rodrigo Campos e como será o repertório?
Tinha o desejo de fazer algo com o Thiago e com o Rodrigo. A gente acabou não tendo agenda pra se encontrar antes. Estou num momento em que tenho pesquisado muito o samba. E acho que desconstruir músicas minhas e reler com outra textura vai me fazer crescer como artista. Vai ser um aprendizado, a gente tem ali dois caras magníficos, e sou muito emocional, não sou um músico técnico, não toco nada. A única coisa que consigo fazer é rima, no máximo tocar uma caixinha de fósforo.
E do repertório de samba, o que você tem ouvido?
Sempre volto no Adoniran. Talvez ele seja um dos únicos artistas que conseguiram chegar tão longe, ser tão popular, com uma voz fora do comum. Tem uma música dele, que provavelmente vai estar no show, que é Despejo na Favela, é muito emocional.
O que mais você ouve?
Tenho escutado muito Moacir Santos. Na época de O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui (disco de Emicida lançado em 2013), a gente pensou em samplear Coisas. Chegamos a levar o disco para o estúdio, mas falei: não, não dá pra mexer num negócio desses às pressas. E acabei de ler Zicartola, que conta a história do bar (de Cartola e Dona Zica). Ficava lendo e mandando mensagem pro Fióti (Evandro Fióti, irmão de Emicida), fazendo uns comparativos com as coisas que a gente vive. De certa maneira, nós fazemos a mesma coisa: uns caras da música que abriram um negócio.
E que balanço você faz desses cinco anos do seu selo, o Laboratório Fantasma?
Estou cansado (risos). Vou em Macapá e tem o "A Rua é Noiz" (frase de Emicida que estampa produtos de sua marca), e pirata. Pirata só vende o que tá vendendo, você nunca vê o disco do Artic Monkeys pirata na favela, tá ligado? (risos) É louco, toda vez que vejo a pessoa com o boné do "A Rua é Noiz", acho que ela vai me reconhecer, mas não. Ganhou essa projeção, acabou virando uma marca independente, era o sonho também, fazer com que a Laboratório caminhasse sem ter que depender do show do Emicida.
Como enxerga o fato de letras suas com crítica social, feitas há cinco anos, continuarem atuais?
A gente vive essa crise de bater na mesma tecla, lutar para uma situação se reverter. Mas a quantidade de moleque que me manda e-mail falando que entrou numa faculdade, você não acredita. Odiei a escola na minha época, repetia de ano por falta. Hoje é preciso redefinir o ensino, a forma com que ele se comunica com o jovem. Tenho tristeza de escutar O Meu Guri, do Chico Buarque, e dizer que essa música poderia ter sido escrita hoje. Não só ela, Como Nossos Pais, do Belchior, as músicas da ditadura ainda são muito atuais. A ditadura ainda é muito dos dias de hoje, está todo mundo na rua, os assassinos estão todos soltos. Tirando nós, está todo mundo livre. Não quero que os moleques da favela tenham que ser um Emicida, cantando rap para poder se emancipar, eu sou uma exceção à regra. Quando começar a ter gente nossa nas faculdades de medicina, engenharia, direito, aí a gente vai inserir outra perspectiva dentro da universidade e das empresas, e vai desenhar um Brasil para todo mundo.
Como você vê os protestos contra a Copa?
Cresci pintando a rua, chegava a época da Copa, a gente juntava dinheiro para comprar tinta verde e amarela para torcer. E, simultaneamente, éramos o hip-hop, estávamos lutando contra tudo isso para que a rapaziada despertou agora. São dois problemas bizarros: a desigualdade social e o racismo. A gente teve três casos pesados. O Amarildo, o Douglas (Rodrigues), que tomou um tiro no peito, sentado, desarmado, e a moça (Claudia Silva Ferreira) que foi arrastada na rua. Rolou a euforia, muita gente falou? Falou, mas quando os moleques de classe média tomaram tiro de borracha na Paulista foi capa de todos os jornais. E essa polícia que está matando na favela desde sempre? A gente tem que rever isso há muito tempo. É bem sério, são bandeiras que para a gente não são novidades, não somos do gigante que acordou, porque nós não dormimos: de fome e de medo.
Compositores têm buscado referências não só musicais. Thiago França fez Malagueta, Perus e Bacanaço, inspirado no conto do João Antonio, Racionais fizeram inspirados no Marighella, e você fez uma música em homenagem ao Darcy Ribeiro. Como surgiu essa música?
São caras muito importantes para a nossa formação, só que você não vê nos livros de história, na televisão. Tinha o lance de desenhar o país fora do clichê. Achei que a música tinha que ir mais pelo viés da esperança, da reflexão sobre o Brasil, do que falar de água de coco, Cristo Redentor, bateria da Mangueira. Quando, em Obrigado, Darcy, falo "um povo que tem como seu maior bem gritar gol", não estou fazendo uma crítica às pessoas serem apaixonadas pelo futebol, estou fascinado pelo modo como, no meio de tantas mazelas, as pessoas conseguem achar força para isso.
Não só os nomes que você citou, mas a própria história da África aprece muito pouco dentro das escolas...
Ano passado fez dez anos da lei 10.639, que obriga a história da África a fazer parte da grade curricular. Mas é muito delicado, o racismo come solto na infância. É lá que a gente precisava trabalhar. É muito difícil você inserir a história da África num lugar onde as pessoas veem o cabelo crespo como um crime. Tenho dois trabalhos: acompanhar o que a escola ensina para a minha filha e tenho que ensinar para ela que o cabelo dela é bonito do jeito que é, que a cor da pele dela não é um defeito. Comprei até uns tutoriais de como escrever livro infantil, quero conversar com as crianças.
FONTE: Lucas Nobile - Especial para O Estado de S. Paulo