Valoriza herói, todo sangue derramado afrotupy!

segunda-feira, novembro 11, 2013

5ª Semana da Consciência Negra em Jaguarão







O município de Jaguarão vai receber neste mês a 5ª edição da Semana da Consciência Negra, que neste ano vem com algumas novidades na programação. Nesta semana, a reportagem do Jornal Tradição Regional conversou com a diretora de Patrimônio da Secretaria de Cultura e Turismo, Andréa Lima, para conhecer mais detalhes sobre a atividade.

Confira a entrevista:

Jornal Tradição Regional: Qual será o período do evento?

Andréa Lima: A 5ª Semana da Consciência Negra este ano acontecerá de 18 a 24 de novembro. Dando sequência as atividades, também estamos programando um acampamento afro na Comunidade Quilombola Madeira que será realizado, a princípio, nos dias 6, 7 e 8 de dezembro.

JTR: O que podes destacar sobre a programação? Tem alguma novidade neste ano?
A.L: Entre as novidades teremos a “Marcha de Zumbi”, que acontecerá no dia 20 de novembro e marcará a abertura oficial da semana. Na sequência serão realizadas rodas de conversa, oficinas e atividades de formação. Já está confirmado um encontro com os professores da rede pública para a discussão da lei 10.639 e relatos de experiências, uma roda de conversa sobre Gênero e Diversidade, a fim de marcar as trajetórias de luta das mulheres negras, atividades de formação sobre agroecologia e saúde da população negra e uma mesa sobre clubes sociais negros. Também acontecerão apresentações culturais na Praça Alcides Marques e diversas oficinas, que serão realizadas no clube 24 de Agosto e nas escolas, com inscrições.
JTR: Durante a Semana será dado destaque a um tema central?
A.L: Ao invés de privilegiar um tema central para a semana, optamos pela diversidade de enfoques e pluralidade das discussões. Assim, poderemos trabalhar com questões relacionadas à cultura, saúde, meio-ambiente e educação, de forma integrada.

JTR: Podes nos contar mais sobre a marcha que acontecerá pela primeira vez em Jaguarão?
A.L: A Marcha Zumbi dos Palmares é uma tradicional mobilização organizada por ativistas do movimento negro para fortalecer e dar destaque as pautas da população negra e às lutas diárias por ações de reparação, cidadania e justiça social. No Rio Grande do Sul em 2013, a marcha chega a sua 7ª edição.
Em Jaguarão, a Marcha será realizada pela primeira vez com a ideia de fortalecer e levantar as pautas que temos na cidade, onde também precisamos nos organizar, lutar por políticas afirmativas, combater o preconceito e a discriminação, o genocídio da juventude negra, entre tantas outras questões, de forma alinhada com o movimento nacional. Ela está marcada para as 18h do dia 20, com saída da Praça do Regente em direção ao Clube 24.

JTR: Qual é a expectativa da organização?
A.L: A expectativa é a de aumentar a mobilização e contar com a participação expressiva da comunidade, pois o 20 de novembro marca a tomada de consciência da população negra sobre o seu valor, sua memória e a trajetória de resistência. É uma data evocativa, construída pelo movimento, e que traz à tona as lutas do povo negro no Brasil. Um de seus idealizadores foi Oliveira Silveira, negro, gaúcho, poeta e professor, atuante no grupo Palmares. Essa data foi pensada na década de 70, por ser a possível data da morte do Líder Zumbi dos Palmares.

JTR: A construção desta Semana está sendo feita de forma colaborativa com a participação de várias entidades. Quem são essas representações e como os interessados podem participar?
A.L: Exatamente. Quem quiser participar e buscar mais detalhes pode se informar na
Secretaria do Clube 24 de Agosto (rua Augusto Leivas, 217, das 8h às 14h) ou com a
Secretaria de Cultura e Turismo pelo telefone (53) 3261-5100, das 8h às 14h.
Estão participando da organização, o Clube Social 24 de Agosto; CEU e Afro Reino de Ogum Abassá de Xangô e Oxum, Associação Zumbi dos Palmares, Cia de Dança Os Donos da Rua, Coletivo PédeQuê?, Laboratório de História Social e Política da Unipampa, Câmara de Vereadores e Prefeitura de Jaguarão, através das Secretarias de Cultura e Turismo, Educação e Desporto e Desenvolvimento Rural e Meio Ambiente.


Confira a programação completa da 1ª Semana Municipal da Consciência Negra:


18/11


17h – Roda de conversa e atividade preparatória para a Marcha de Zumbi de Palmares em Jaguarão.


Confecção de cartazes e mobilização no Clube 24 de Agosto.


19/11


18h – Apresentação de “Dança Afro” e leitura do chamado para a V Semana da Consciência Negra de Jaguarão no Espaço Cultural do Legislativo.


Local: Câmara Municipal de Jaguarão.


20/11


18h – Concentração para a Marcha de Zumbi dos Palmares. Saída da Praça do Regente em direção do Clube Social Negro Local: 24 de Agosto.


20h - Abertura Oficial da 5ª Semana da Consciência Negra com apresentação de escolas de samba e homenagem a Rubinei Machado, Dona Mocinha e Veríssimo.


Exposição das Casas de Religião de Matriz afro de Jaguarão.


21/11


9h – Encontro com professores da rede municipal de ensino para discussão da Lei 10.639 e relatos de experiências. Local: Câmara Municipal de Jaguarão.


14h – Roda de conversa sobre “Gênero e Diversidade e as lutas das mulheres negras”.


Local: Clube 24.


19h – Grupos de discussão sobre:


“Agroecologia e segurança alimentar” – Convidado: Antônio Leonel – Secretário Municipal de Desenvolvimento Rural e Meio Ambiente. Presidente da Federação das Comunidades Quilombolas do RS.


“Políticas públicas para a saúde da população negra”.


Local: Clube 24.


22/11


9h – Percurso pelo centro histórico: “Territórios Negros em Jaguarão”.


(Aberta para professores)


Concentração na Praça do Desembarque.


Andréa Lima (Secult)


Caiuá Cardoso Al-Alam


Laboratório de História Social e Política da Unipampa.


14h – Oficina de produção de vídeo como registro da memória.


Edson Costa – Diretor de Cinema


Corja Filmes


19h - Roda de conversa sobre Clubes Sociais e comunidades negras.


Convidadas: Fernanda Oliveira da Silva.


Juliana Nunes.


23/11


16h – Feira, oficinas e programação cultural na Praça Alcides Marques.


Tranças nagô, práticas agroecológicas, teatro, dança e artes visuais (SDRMA).


21h - Concurso Mais Bela Negra e Mais Belo Negro


Local: Clube 24 de Agosto.


24/11


16h - Apresentação do grupo Afoxé, Dança de Rua e Roda de Capoeira.


Praça Alcides Marques.


19h Baile - Encerramento da Semana da Consciência Negra.


Clube 24 de Agosto.


E mais oficinas voltadas para as escolas e associações comunitárias que serão disponibilizadas mediante inscrições:


- Oficinas do projeto “A Cor da Cultura”


- Valores Civilizatórios Afro-brasileiros


- Heróis de todo mundo


- Brincando com as palavras – Ministrante: Ialorixá Nice de Xangô – Afoxé.


De 20 a 23 de Agosto, no turno da manhã.


- A Capoeira e a preservação do Meio Ambiente – Associação de Capoeira Zumbi dos Palmares.


- Danças Urbanas – Cia de Dança Os Donos da Rua.


Inscrições e informações: (53) 3261 5100 – Secult (das 08 às 14h).


Clube Social 24 de Agosto – Augusto Leivas, 217. (das 13h30 às 17h)


Organização: Clube Social 24 de Agosto, CEU e Afro Reino de Ogum Abassá de Xangô e Oxum, Cia de Dança Os Donos da Rua, Associação de Capoeira Zumbi dos Palmares, Laboratório de História Social e Política da Unipampa, Secult, SMED, SDRMA, Secretaria da Saúde, Câmara Municipal de Vereadores.


* Programação sujeita a alterações.

FONTE: Jornal Tradição Regional

domingo, novembro 10, 2013

Governo Dilma implementa 'agenda África' para ampliar relações



Estão em jogo o aumento do comércio e dos investimentos brasileiros no continente e também o reforço da cooperação Sul-Sul


O governo da presidente Dilma Rousseff está implementando uma agenda de ações para ampliar as relações do Brasil com a África. Estão em jogo o aumento do comércio e dos investimentos brasileiros no continente e também o reforço da cooperação Sul-Sul. O objetivo é desobstruir alguns dos gargalos verificados na última década de relações, como dificuldades no acesso a financiamentos para exportação e na execução de projetos de ajuda ao desenvolvimento.

Faz parte da agenda a renegociação de US$ 900 milhões em dívidas de 12 países africanos com o Brasil, anunciada por Dilma durante viagem oficial à Etiópia, em maio. Além dela, a agenda tem outras duas ações principais: a realização de missões aos países africanos para negociar novos acordos de investimento e novas condições de financiamento, que foi iniciada na primeira semana de outubro, e uma reforma na Agência Brasileira de Cooperação (ABC), órgão ligado ao Itamaraty, ainda sem data para acontecer.

"As medidas visam à intensificação das relações do Brasil com o continente africano em bases de cooperação recíproca e desenvolvimento mútuo. Bases estas que têm diferido o país de outros que possuem relações com o continente africano", afirmou em nota a Casa Civil. O "outros" é uma referência indireta aos países desenvolvidos e à China, que também ampliou sua presença na África na última década.

A agenda África foi elaborada por um grupo interministerial coordenado pela Casa Civil, na figura do então secretário-executivo, Beto Vasconcelos, o número dois do ministério. Chamado de Grupo de Trabalho África, ele foi criado com o objetivo de fazer um diagnóstico das relações e apresentar propostas de mudança para a presidente. As reuniões começaram no primeiro semestre de 2012 e envolveram os ministérios das Relações Exteriores, Fazenda, Desenvolvimento Comércio e Indústria (MDIC), Desenvolvimento Agrário (MDA).

O trabalho se encerrou com a apresentação da agenda para Dilma, uma semana antes da viagem presidencial à Etiópia – onde a presidente anunciou algumas das ações. Na sequência, foram designados os ministérios responsáveis pela execução das ações.

"Diversas pastas têm ações na África. O governo buscou um alinhamento e o estabelecimento de uma estratégia nacional", diz o secretário executivo da Câmara de Comércio Exterior (Camex), André Alvim. Segundo a Casa Civil, a Camex acompanha a as ações econômicas da agenda.

Lula. A agenda África pode mudar a cara da gestão Dilma sobre o tema. A impressão de empresários e diplomatas é que a presidente amornou as relações, após o boom dos anos de Luiz Inácio Lula da Silva.

Com Lula, os gastos do Brasil em projetos de cooperação técnica nos países africanos tiveram um aumento de 40 vezes e atingiram o recorde de US$ 20,2 milhões em 2010. Com Dilma, desceram a US$ 9,7 milhões em 2012. O mesmo ocorreu com as exportações do Brasil para a África. Elas vinham em um crescimento continuado desde 2001, só interrompido no pós-crise de 2008. Na média, o aumento anual das vendas para o continente foi de 24% de 2001 a 2011. Já em 2012, ficou zerado.

"Lula puxava o empresariado para a África. Agora é o empresariado que precisa puxar Dilma. Sempre foi assim, só com Lula que mudou um pouquinho", disse o diretor da Odebrecht em Moçambique, Miguel Peres, em entrevista feita em maio. "A gente parou, demos uma segurada mesmo", comentou um diplomata da ABC, em março.

Já a ministra do Desenvolvimento Social, Tereza Campello, defende que Dilma não descuidou da África. "A postura do presidente Lula era novidade. Antes dele, o Brasil estava de costas para a África. Era muito grande a necessidade de você ir lá, fazer propaganda, dar sinal de que você está aberto. Hoje, os sinais que o Brasil precisa dar são de outra natureza", afirma.

Comércio. O eixo econômico da agenda África pretende costurar novos acordos de comércio e de investimento no continente, que é o que mais cresce no mundo. A expectativa é que o PIB africano cresça acima de 5% ao ano na próxima década. "A África é uma nova fronteira comercial para todo o mundo. Com um crescimento forte, todos os países estão correndo para lá e temos que estar presentes. Não é só a China", diz Alvim, da Camex.

A renegociação das dívidas foi a primeira etapa para possibilitar novos negócios, já que o nome sujo na praça restringia a costura de financiamentos e investimentos. Paralelamente, foi iniciada uma revisão dos procedimentos para concessão dos créditos de exportação oferecidos pelo Brasil. Segundo a Camex, o processo vai se tornar mais ágil. Além disso, está previsto o ajuste das linhas de crédito do BNDES destinadas aos países africanos, de acordo com a Casa Civil.

"O que buscamos hoje é a montagem de mecanismos que permitam que o requisito de ter garantias adequadas seja atendido e, ao mesmo tempo, que a participação das empresas brasileiras não se inviabilize economicamente", diz Luiz Eduardo Melin, do BNDES. Ele comanda a diretoria para África e América Latina do banco, criada por decreto presidencial em abril. O BNDES também prevê para este ano a abertura do seu primeiro escritório africano, na África do Sul. As duas medidas foram discutidas no Grupo África.

Já as missões para a África, uma das principais ações da agenda, foram iniciadas este mês pelo MDIC e já visitaram Nigéria, África do Sul, Angola e Moçambique. Nos três últimos países, elas propuseram novos modelos de acordos de investimento. "Temos proposta de cláusulas ambiental e social para que o investimento não tenha só face econômica, mas também se preocupe com o país que vai recebê-lo. O governo assume o dever de que o investimento brasileiro no exterior seja qualificado", diz Daniel Godinho, secretário de Comércio Exterior do ministério.

Cooperação Sul-Sul. Além da área econômica, a agenda África trata da cooperação para o desenvolvimento dos países africanos. A ideia apresentada para Dilma era ampliar o orçamento e o pessoal das áreas de apoio humanitário, prestado em situações emergenciais, e de cooperação técnica, que transfere conhecimento e tecnologias brasileiras. Segundo a Casa Civil, devem ser priorizadas "ações em áreas que o Brasil tem conhecimento especializado, como combate à pobreza, educação, saúde e agricultura".

A agenda África também prevê a criação de um novo marco legal para a ABC. Hoje, o órgão não tem autonomia para realizar projetos sem a parceria de um organismo internacional. A medida foi anunciada por Dilma na Etiópia e retomada em pronunciamentos públicos do ex-ministro das Relações Exteriores Antônio Patriota. O Itamaraty diz que a reforma na ABC ainda está sendo analisada.

FONTE: ESTADÃO

Depois de 10 anos, fábrica de remédios contra Aids começa a produzir na África






Projeto da Fiocruz em Moçambique é o mais longo e que mais consumiu recursos brasileiros na África



O mais emblemático projeto de cooperação brasileiro na África completa dez anos em novembro e vive hoje seu momento mais decisivo. É uma fábrica pública de medicamentos contra a Aids, instalada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em Moçambique. Em agosto, ela finalmente realizou seu objetivo: produziu pela primeira vez um remédio genérico que faz parte do coquetel anti-HIV, a lamivudina. Em outubro, repetiu a dose com um segundo componente do coquetel, a nevirapina. Toda a operação foi feita por moçambicanos, com a supervisão da Fiocruz.

A Sociedade Moçambicana de Medicamentos (SMM), o nome oficial da fábrica, é a única unidade pública de produção de medicamentos contra a Aids na África, o continente mais afetado pelo vírus e onde o acesso ao tratamento é escasso. No caso de Moçambique, a SMM é também a primeira indústria farmacêutica. Todos os medicamentos consumidos no país são importados.

Agora, os medicamentos precisam obter um selo de qualidade do órgão regulador em Moçambique. Enquanto isso, a fábrica deve começar a embalar um antibiótico e um medicamentos contra o HIV produzidos pela Fiocruz no Brasil e doados para que as vendas já possam ser iniciadas. No próximo ano, a fábrica deve tentar obter certificação da Organização Mundial da Saúde. A organização Médicos Sem Fronteira (MSF), que atua na área do HIV no país, diz que "ainda é cedo para tecer comentários profundos sobre como a fábrica irá beneficiar as pessoas que vivem com HIV em Moçambique".

Nenhum outro projeto de cooperação do Brasil na África está em curso há tanto tempo ou consumiu um volume tão alto de recursos. A Fiocruz estima que ele terá custado ao País cerca de US$ 20 milhões. "Demorou muito? Eu olho para trás e digo: ninguém tem noção do quanto a gente trabalhou", afirma a coordenadora do projeto, Lícia de Oliveira, da Fiocruz.

"Nem Moçambique nem o Brasil sabíamos onde estávamos nos metendo", diz ela. O País não tinha experiência na realização de um projeto de cooperação de tão grande porte no exterior. Além disso, a operação de uma indústria farmacêutica é um processo de alta complexidade. Toda a tecnologia de produção foi transferida para Moçambique, que vai operar a fábrica sem a intervenção do Brasil. A expectativa é que ao final de cinco anos a venda dos remédios custeie as operações e que a produção atenda a todo o mercado da parte sul da África.

"A fábrica é a primeira aqui em Moçambique, até em África. Temos muita expectativa e muita responsabilidade. Depois de vermos essa fábrica cheia, com movimento, nós vamos ficar já descansados, felizes da vida. Porque realmente é difícil, é muito difícil para chegar nessa fase", diz Feniosse Macuacua, operador da fábrica que atuou nas primeiras produções de medicamentos.

Aids. A incidência de HIV em Moçambique é uma das maiores do mundo - 13% das mulheres e 9% dos homens, totalizando 2,4 milhões de pessoas infectadas. No Brasil, calcula-se que 630 mil pessoas são soropositivas, menos de 1% da população.

É a comunidade internacional que custeia 100% do coquetel anti-Aids, a maioria deles genéricos comprados na Índia a preço baixo. "Até hoje me surpreendo com as dificuldades que esse país enfrenta quanto ao financiamento para a área da saúde, que depende de doadores internacionais", diz a enfermeira brasileira Kelly Cavalete, que trabalha no MSF no país.
A fábrica prevê a transferência de tecnologia e conhecimento para a produção de 21 medicamentos. Além dos usados para tratar a infecção por HIV, há remédios para atenção básica – entre julho e setembro, foram produzidos os primeiros, contra hipertensão. A capacidade instalada é de 400 milhões de comprimidos por ano.
A estrutura da fábrica é pequena, mas de ponta. Em um corredor vedado do exterior, com luz artificial, ar condicionado e protegido por portas de segurança codificadas, ficam as salas de produção e embalagem. Os equipamentos são iguais aos usados pela Fiocruz no Brasil. Segundo a fundação, é que há de melhor no mundo. São duas linhas de produção: uma específica para componentes do coquetel anti-HIV e outra para medicamentos em geral, além de uma unidade de soros.

História. Assinado em novembro de 2003 durante a primeira viagem do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva à África, o projeto da fábrica se tornou um símbolo das dificuldades do Brasil em realizar projetos de cooperação de grande porte. A primeira delas foi a concorrência com a China. Apenas cinco meses depois da assinatura, um grupo chinês começou a negociar com o governo moçambicano a construção de uma fábrica de antirretrovirais privada. Prevaleceu o projeto do Brasil.

De 2003 a 2007, as características do projeto foram discutidas e foi realizado um estudo de viabilidade. Depois, haviam dúvidas sobre como financiar a fábrica. Em 2008, o governo brasileiro encaminhou para o Congresso um projeto de lei para a doação de R$ 13,6 milhões. Um ano e dois meses depois, ele foi aprovado. "Nunca na minha vida eu tinha lidado tanto com advogados e procuradores. Virei figurinha fácil da Câmara dos deputados", lembra a doutora Lícia.

O parecer favorável do senador Eduardo Azeredo ao projeto de lei evidencia a importância da cooperação para o avanço brasileiro no continente. "A eventualidade de apropriação do projeto da fábrica de antirretrovirais por terceiros países acarretaria a perda de valioso instrumento de cooperação e de afirmação dos interesses brasileiros na África", escreveu Azeredo. A Vale, que já estava operando em Moçambique, doou outros UR$ 4,5 milhões. De 2009 a 2012, a infraestrutura física da fábrica foi preparada, os equipamentos adquiridos e os funcionários treinados no Brasil.

A fábrica é citada em discursos de governantes brasileiros como exemplo da ajuda que o Brasil pode dar à África e o diferencial da cooperação brasileira em relação a outros países. Enquanto a Europa e os Estados Unidos doam medicamentos, o Brasil doaria toda a tecnologia de produção. Apesar da importância dada ao projeto, ele ainda é um desconhecido em Moçambique. A largada da venda de medicamentos pode ampliar sua visibilidade.

Antes do início da produção, a comunidade internacional era descrente que o projeto pudesse dar certo. "Não sei se os medicamentos moçambicanos vão ser mais baratos que os indianos, se o preço vai ser competitivo", afirmou em 2010 o então coordenador do MSF em Moçambique, Alain Kassa. Agora que a produção finalmente começou, o desafio é manter a fábrica no âmbito público. Indústrias farmacêuticas privadas, sobretudo indianas, estão interessadas no projeto - visto como uma porta de entrada para o mercado de medicamentos na África.


FONTE: Amanda Rossi - Especial para o Estado

México, o subcomandante Marcos e os/as anarquistas







O diário "La Jornada" (México D.F.), em sua edição do último dia 3 de novembro, divulgou um comunicado sobre a primeira volta da "la Escuelita", que o EZLN (Exército Zapatista de Libertação Nacional) organizou em Chiapas em agosto passado. Dentro desse informe, intitulado "Malas y no tan malas noticias", o subcomandante Marcos dedica um trecho do comunicado a movida anarquista e a atual onda de histeria antianarquista que o Estado e o Capital promovem naquele país. A seguir, extrato do pronunciamento.


Casos especiais: os anarquistas

Visto a campanha Anti Anarquismo que levantam as boas consciências e a esquerda bem comportada, unidas em santa cruzada com a direita ancestral para acusar jovens e velh@s anarquistas de desafiar o sistema (como se o anarquismo tivesse outra opção), além de descompor suas cenografias (o apagar da luz é para não ver @s anarquistas?), e que é levada ao delírio com qualificativos como "anarco-falcões", "anarco-provocadores", "anarco-porro" [baseado, banza], "anarco-etcetera" (por aí li o qualificativo "anarco-anarquista", não é sublime?), nós, as zapatistas e os zapatistas não podemos ignorar o clima de histeria que, com tanta firmeza, demanda e exige que se respeitem os cristais (que não mostram, senão ocultam o que passa justo atrás do mostrador: condições laborais escravistas, higiene nula, má qualidade, baixo nível nutricional, lavagem de dinheiro, fraudes fiscais, fuga de capitais).

Porque agora resulta que, essas ratoeiras mal dissimuladas chamadas "reformas estruturais", que o despojo laboral ao magistério, que a venda outlet do patrimônio da Nação, que o roubo que o governo perpetra contra os governados pelos impostos, que a asfixia fiscal – que favorece só aos grandes monopólios -, que tudo isso é culpa d@s anarquistas.

Que a gente mal sai às ruas a protestar (ouça, mas sim aí estão as marchas, as greves, os bloqueios, as pichações, os panfletos. Sim, mas são de professor@s-motoristas-ambulantes-estudantes-ou-seja-nacos-e-nacas-e-de-província [nacxs é uma gíria mexicana para moradores da periferia, em especial descendentes de indígenas], eu digo gente bem bem bem do DF. Ah, a mítica classe média, tão cortejada e ao mesmo tempo depreciada e defraudada por todo o espectro midiático e político), que a esquerda institucional também despoja os espaços de manifestação, que o "único opositor ao regime" foi tornado opaco pelos sem nome uma e outra vez, que a imposição arbitrária se chama agora "diálogo e negociação", que o assassinato de migrantes, de mulheres, de jovens, de trabalhadores, de crianças, que tudo é culpa d@s anarquistas.

Para aqueles que militam e se reivindicam como da "A", bandeira sem nação nem fronteiras, e que são parte da SEXTA [Sexta declaração de Lancadona], mas que em verdade militam e não como moda de vestir ou de calendário, temos, além de um abraço companheiro, um pedido especial:

Compas Anarquistas: nós os zapatistas, nós as zapatistas, não os vamos achacar nossas deficiências (incluindo a falta de imaginação), nem os vamos fazer responsáveis de nossos erros, nem muito menos os vamos perseguir por ser quem são. E mais, conto vos que vários convidados em agosto cancelaram suas vindas porque disseram que não poderiam compartir a aula com "jovens anarquistas, andrajosos, punks, aretudos [cheio de piercings], e cheios de tatuagens", que esperavam (os que não são jovens, nem anarquistas, nem andrajosos, nem punks, nem aretudos, nem cheios de tatuagens) uma desculpa e que se depurasse o registro. Seguem esperando inutilmente.

O que queremos é pedir que, no momento do registro, entreguem um texto, de no máximo uma página de extensão, onde respondam as criticas e acusações que se lhes tem feito nos meios de comunicação. Esse texto será publicado em uma seção especial de nossa pagina eletrônica (enlacezapatista.ezln.org.mx) e em uma revista-fanzine-como-se-chame pronta para aparecer no mundo mundialmente mundial, dirigida e escrita por indígenas zapatistas. Será uma honra para nós que em nosso primeiro número esteja sua palavra junto à nossa.

Eh?

Sim, também vale uma página com uma só palavra que ocupe todo o espaço: algo como "MENTEM!". Ou algo mais extenso como "Lhes explicaria o que é o Anarquismo se pensasse que vão entender", ou "O Anarquismo é incompreensível para anões de pensamento"; ou "As transformações reais primeiro aparecem na nota vermelha"; ou "Me cago pra polícia de pensamento"; ou a seguinte citação do livro "Golpes y contragolpes" de Miguel Amorós: "Todo o mundo deveria saber que o Black Bloc não é uma organização, senão uma tática de luta similar à Kale Borroka [forma de guerrilha urbana dos radicais bascos], que uma constelação de grupos libertários, "autônomos" ou alternativos, vinha praticando desde as lutas dos squats (okupações) nos anos 80 em várias cidades alemãs" e agregar algo como "se vão a criticar algo, primeiro investiguem bem. A ignorância bem redatada é como uma idiotice bem pronunciada: igual de inútil".

Enfim, estou seguro de que não lhes faltarão ideias.

Vale. Saúde e, creiam ou não, o mundo é maior que o titular midiático mais escandaloso. É questão de ampliar o passo, o olhar, o ouvido... e o abraço.

Desde as montanhas do Sudeste Mexicano,

O subcomandante Marcos.

Zelador da Escolinha e encarregado de dar más notícias.

México, novembro de 2013.

Tradução; Caróu

FONTE: Diário Liberdade

Black blocs, o alvo é a Copa





“Vale a pena perguntar por que esses jovens chegaram ao ponto de enxergar na violência a única forma de ser escutados”, diz Esther Solano, professora da Unifesp, que entrevista os adeptos da tática desde as manifestações de junho




Jovens na casa dos 20 anos, com emprego e acesso ao ensino superior, embora ambos de qualidade discutível; submetidos à precariedade dos serviços públicos do Estado em áreas como saúde, transporte e educação; defensores de uma visão de mundo na qual atacar símbolos do capitalismo não pode ser considerado um ato violento, pois a verdadeira violência contra a população é praticadapelo sistema político e corporativo – dados como esses compõem o perfil dos black blocs de São Paulo, na visão da pesquisadora Esther Solano Gallego.

“Eles querem ser escutados, mas por alguém que tenha um olhar um pouco mais imparcial e se disponha a realmente entendê- los”, diz a professora de Relações Internacionais na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Esther vai às ruas desde junho – primeiro como manifestante; depois, com o colega Rafael Alcadipani, professor da Fundação Getúlio Vargas, passou a conversar com diferentes grupos para procurar entender suas motivações.

A pesquisa acabou centrada na dinâmica entre os policiais, a cargo de Alcadipani, e os adeptos da tática black bloc. É ao lado deles que a professora fica nas manifestações. O objetivo do trabalho, de acordo com Esther, não é emitir julgamentos ou defender qualquer dos lados, mas sim tentar entender um fenômeno social que cabe aos pesquisadores conhecer.

Uma das questões que agora ocupam a pesquisadora tem a ver com a criação de uma força-tarefa, unindo Ministério Público e as polícias Civil e Militar, anunciada pela Secretaria da Segurança Pública de São Paulo no início de outubro.O secretário Fernando Grella Vieira defende o indiciamento dos black blocs por associação criminosa.

Na entrevista a seguir, a espanhola Esther Solano – que se doutorou em Ciências Sociais em meio à crise econômica em seu país e veio para o Brasil em 2011, diz que é difícil saber se as medidas levarão os jovens a radicalizar suas ações ou a retroceder por medo da prisão. Certo mesmo é que por enquanto os adeptos da tática permanecem nas ruas, e que seu objetivo é chamar a atenção do mundo – literalmente – na Copa de 2014, cuja abertura coincidirá com o primeiro aniversário das grandes manifestações de junho.

Brasil de Fato – Com quantos jovens que utilizam a tática Black Bloc você já conversou?
Esther Solano Gallego – Mais ou menos 30. Comecei a falar com eles porque me parece muito importante entender o que está acontecendo, e a única forma de entender é sair para a rua e conversar com eles, o que para mim, por paradoxal que pareça, é muito fácil. Esses jovens não consideram os meios de comunicação de massa seus interlocutores. Mas, quando eu me apresentei como professora e pesquisadora, me aceitaram muito bem.

Qual o perfil que você já identificou neles?
É bem heterogêneo. Temos que diferenciar: há aqueles que sabem realmente o que significa a tática black bloc, leem e sabem articular um discurso mais ou menos politizado, e que são a grande maioria dos que entrevistei. Mas claro que há alguns que simplesmente aproveitam o momento de caos para cobrir o rosto. Tenho tentado conversar com eles também, porque acho que estão representando sua própria forma de violência. Mas são a minoria na minha pesquisa, e essas conversas não têm dado muitos frutos.

Em relação ao primeiro grupo, são jovens que têm um projeto político, que quando saem para a rua para quebrar um banco entendem que esse gesto tem um significado. Os mais novos têm 17 anos, mas em geral a idade vai de 20 a 24 anos; a grande maioria trabalha, muitos estudam. Há alguns formados, a maioria em universidade particular, mas há também gente de universidades públicas como a USP. A maioria é de classe média baixa. São usuários do transporte público, do SUS, da escola pública, mas a maioria não vem daquela periferia mais pobre e excluída.

Eles fazem parte do que vários estudiosos têm chamado de um subproletariado que vem crescendo muito nos últimos anos no Brasil?
A maioria, sim. São jovens que trabalham há pouco tempo, mas já conhecem bem a precariedade do Estado. Friso novamente que a maior parte não é daquela periferia que praticamente não tem acesso às manifestações.

Que tipo de leitura e formação política têm esses jovens com quem você conversa?
Tem de tudo. Alguns leram bastante os anarquistas e articulam bem essa linguagem. Outros não leram tanto, mas têm uma visão política bem articulada. São basicamente duas coisas: a grande maioria possui uma visão política mesmo – talvez não a da academia –, e enxerga bem o que quer fazer. Vale a pena reiterar que a maior parte dos jovens que entrevistei tem um pensamento definido como base de suas ações, o que não impede que, em momentos de manifestações maiores, apareçam indivíduos com muito menos articulação ou que simplesmente se aproveitam do momento.

Há alguma conexão com a origem dos black blocs na Alemanha do final da década de 1980 e com os chamados movimentos antiglobalização dos anos de 1990?
A maioria dos que entrevistei não pensava no que era o black bloc antes das manifestações. Muitos falam que começaram a pensar nisso depois daquele protesto do dia 13 de junho (no Centro de São Paulo), quando a Polícia Militar, como eles dizem, “chegou batendo”. Alguns já tinham lido alguma coisa, mas a grande maioria se envolveu pela ação e reação do momento.

Como você analisa a acusação de que eles são fascistas e estão a serviço de outra causa que não é a intenção original das manifestações?
Acho que aí existem duas coisas. Primeiro, que a esquerda mais institucionalizada, mais partidária, talvez se sinta muito afastada do que aconteceu. Minha percepção é de que há um certo ressentimento com isso, porque ninguém contou com os partidos de esquerda, com os sindicatos ou com os movimentos tradicionais para ir à rua. Outro aspecto é que, em todas as conversas que tive com eles, não percebi nenhuma indicação de que sejam manipulados ou de que respondam a outro grupo. Creio que a motivação é a indignação própria, e que eles têm um grau de autonomia suficiente para não ser movidos por outro grupo.

O anticapitalismo é o discurso mais forte?
Uma jovem me deu uma ótima explicação: em São Paulo a ação começou com o discurso black bloc internacional, de anticapitalismo e ataque aos símbolos do capital, mas depois foi se apropriando do discurso das manifestações brasileiras. Ou seja, talvez não tanto contra o capital, mas incorporando as bandeiras e as reivindicações dos protestos: mudanças e melhoria do sistema político de forma geral. O anarquismo é a inspiração, mas, durante as conversas, aparecem muito mais a precariedade do Estado brasileiro e a violência institucional do que as ideias anarquistas como motivações de sua presença nas ruas.

Eles também se colocam como a linha de frente contra a polícia, não é?
Eles dizem que nunca convocam as manifestações, e que vão à rua para proteger os manifestantes. São duas ações: uma que eles chamam de proteção – a linha de frente –, e outra, de ação direta. Essa é a forte agora: chamar a atenção, “dar um grito”, utilizando a violência como forma de expressar a indignação. Vale a pena perguntar por que esses jovens chegaram ao ponto de enxergar na violência a única forma de ser escutados.

Os black blocs de São Paulo já podem ser considerados um grupo?
Eles sempre falam que o black bloc não é um grupo, mas uma tática. No final das contas, não são muitos os que saem na rua. Acho que no Rio de Janeiro o movimento é maior. Em São Paulo, não são tantos assim, e acabam sendo as mesmas pessoas que a polícia já levou para a delegacia, já identificou etc. Há também outros que vão aparecendo, que simplesmente cobrem o rosto, e aí você perde a noção de quem é quem. As novas medidas da Segurança Pública em São Paulo podem representar um ponto de virada. Quase todos os black blocs, digamos, mais frequentes já foram para a delegacia. Os policiais também muitas vezes são os mesmos. Então já pedem a documentação, revistam as mochilas etc. Imagino que a polícia saiba quem é a maior parte deles.

Eles têm receio de ser presos e processados, agora que o Estado anunciou o endurecimento da reação?
Sem dúvida. Os que já têm uma passagem por delegacia receiam ser presos novamente e considerados reincidentes. Agora podem ser enquadrados até por formação de quadrilha. Processar por associação criminosa me parece excessivo, embora deva dizer que não tenho grande conhecimento do Direito em geral e do brasileiro em particular. Mas a questão é que os delegados passam a ter legitimado pelo Estado o poder de fazer esse enquadramento. O Estado, no seu papel de protetor da propriedade pública e privada, está se valendo de seu aparato policial e jurídico para propor o endurecimento das penas.

Você já teve algum problema nas manifestações?
Nunca. Comigo os jovens são muito respeitosos, e a polícia também. Isso também pode parecer paradoxal em razão das cenas de violência nas manifestações, mas o fato é que minha experiência destes meses nas ruas é esta, tanto com os policiais como com os Black blocs. Mas claro que fico com um pouco de medo quando começam a aparecer pedras e bombas.

O que eles acham de ser chamados de vândalos ou baderneiros?
Eles são absolutamente contra essa dicotomia criada entre o “bom manifestante” e o “ruim”, categorias que a imprensa coloca para tentar defini-los. Eles dizem que o que fazem não é violência, é performance – é um tipo de espetáculo, em que querem atingir símbolos para chamar a atenção. O discurso é de que a verdadeira violência é a de um sistema político que não dá respostas para a população e que mantém, por exemplo, índices altíssimos de homicídios e de mortes no trânsito. Para eles, a violência é a do sistema, e o que fazem é chamar a atenção para essa violência política e corporativa.
Críticos ao redor do mundo dizem que essa tática sequer arranha o capitalismo.
É. Inclusive há todas aquelas incoerêcias do tipo quebrar um banco, mas usar iPhone. Isso é parte do paradoxo humano. Claro que eles sabem que o dono do banco não está nem aí quando depredam uma agência – mas que conseguem chamar a atenção sobre as coisas que para eles estão equivocadas, tanto no governo quanto na ordem econômica, isso conseguem, até porque de fato a espetacularização dos acontecimentos por parte da imprensa é evidente. Agora, a partir da constatação de que as ruas estão ficando esvaziadas, já presenciei diálogos entre eles sobre se a população está entendendo ou não o que eles tentam fazer.

Você esteve na manifestação do dia 25 de outubro (quando o coronel da PM Reynaldo Simões Rossi foi agredido)?
Não, mas depois conversei com algumas pessoas que foram. O fato é que o Movimento Passe Livre (MPL) tem muita capacidade convocatória, então conseguiu juntar bastante gente que utiliza a tática black bloc. Como já disse, é um movimento muito heterogêneo, e entre eles há quem acredite numa violência mais focada e mais simbólica, e outros que acreditam numa violência mais pesada; os que são mais articulados e os menos, como aliás em todo grupo social. Quando você junta tantas pessoas, num estado de emoções à flor de pele – o componente emocional é muito importante –, com grandes tensões com a polícia, era claro que ia acontecer o que aconteceu. À noite é quando a tensão aumenta e todo mundo vai perdendo a paciência. É sempre o pior momento das manifestações.

Você conhece os rapazes que foram presos?
Os que eu conheço não foram presos. Sei que houve prisão de gente do MPL, anarcopunks etc. Ou seja, foi uma manifestação bem heterogênea. Não dá para falar que só havia black blocs.

Você acha que, a partir do episódio do espancamento do coronel, a PM e a Justiça vão endurecer definitivamente as ações contra os black blocs?
Claramente as políticas vão endurecer. O governador Alckmin já falou da necessidade de penas mais rígidas para quem agride policiais. O espancamento do coronel Reynaldo vai esquentar muito os ânimos. Foi uma agressão filmada, transmitida em todos os meios de comunicação, e espetacularizada, de um PM de alta patente. Depois houve a resposta da presidenta Dilma oferecendo ajuda à PM de São Paulo. É claro que isso vai trazer como consequência uma série de respostas institucionais, radicalizando o discurso, tanto em nível policial como jurídico. O problema será entrar numa dinâmica de ação-reação violenta na qual as posturas dos dois lados endureçam.

O black bloc veio para ficar?
Pelo menos por enquanto, sim. Mas, a partir dessas medidas do governo, será que eles vão se radicalizar? Ou vão retroceder com medo de ser presos? Não sei. De qualquer maneira, a Copa está aí e o foco deles é fazer um espetáculo nela para chamar a atenção de todo o mundo – de todo o mundo mesmo! Pode até acontecer de a ação policial ser muito dura e conseguir esvaziar o movimento. Afinal, eles são jovens de vinte e poucos anos, e é possível que fiquem com medo de ser presos. Mas a ideia é estar na Copa.
E logo depois tem a eleição...
A espiral da violência vem aumentando. Estou preocupada com o que possa vir a acontecer no ano que vem.

FONTE:BRASIL DE FATO



“O desenvolvimentismo não nos protegeu”



De um lado, o projeto do SUS, de saúde universal, pública e estatal; de outro, o discurso de que, com o aumento da renda, o direito se dá pela compra de serviços privados de saúde




O MÉDICO sanitarista Gastão Wagner, militante histórico da Reforma Sanitária e atualmente professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), cinco anos atrás, na primeira edição da Poli, fez um balanço do Sistema Único de Saúde (SUS) duas décadas depois da sua conquista.

Hoje, quando o Brasil lembra os 25 anos da Constituição Federal e, mais especificamente, do texto que institui um Sistema Único de Saúde na lei maior do país, Gastão foi convidado para atualizar essa análise.

Nesta entrevista, ele aponta entraves não resolvidos, como o subfinanciamento e uma política de pessoal para os trabalhadores da saúde, e problemas que se agravaram, como o espaço que tem sido conquistado pelo setor privado na saúde. O elemento mais otimista ocorrido entre a entrevista da primeira edição e agora são, segundo ele, as manifestações que têm tomado as ruas do país desde junho. Mas ele alerta: os sentidos do direito à saúde que as ruas têm reivindicado estão em disputa. De um lado, o projeto do SUS, de saúde universal, pública e estatal; de outro, o discurso de que, com o aumento da renda, o direito se dá pela compra de serviços privados de saúde.

Qual o balanço de 25 anos de um SUS universal?
Gastão Wagner – É um balanço que tem aspectos positivos e negativos. O positivo foi a expansão do sistema público, do acesso à saúde em várias áreas, desde a atenção básica até o atendimento ao câncer e aos brasileiros com diabetes, programas de vacinação, atenção à Aids... O negativo é que a constituição do SUS não avançou no sentido de se completar. Os entraves permanecem e um deles é o subfinanciamento.

O segundo entrave é que a gente não desenvolveu uma política de pessoal razoavelmente adequada. E o terceiro é que o modelo de gestão continua, com dois grandes desafios que não foram enfrentados. Um é a fragmentação do SUS em redes dos entes federados. Saiu a regulamentação da Lei nº 8.080, com o Contrato Organizativo da Ação Pública de Saúde (Coap), mas que é de uma ineficácia assustadora. O SUS continua heterogêneo e está cada vez mais evidente que se delega a principal tarefa da gestão do SUS aos municípios e que eles não conseguem sequer colocar médicos onde precisam na atenção básica.

O Mais Médicos teve esse lado positivo, que foi jogar luz sobre essa grande parte da população que não tem nem atenção básica e sobre a incapacidade dos municípios para resolver o problema da atenção básica. O outro problema do modelo de gestão é que a gente não criou uma alternativa, um conjunto de diretrizes para pensar um SUS público. Continuamos num dilema: a administração direta emperrada, antiga, ultrapassada, inadequada para a saúde, e as alternativas a isso são formas de privatização, como OS [Organização Social] e fundações privadas, que aumentam a fragmentação.

Eu estava dando curso para gestores da atenção básica do estado e de alguns municípios grandes da Bahia e fiquei assombrado. Eles confirmaram o diagnóstico de que a Bahia agora tem duas secretarias estaduais, duas direções concorrentes: a secretaria estadual e a fundação que eles criaram. E o pior é o quarto elemento, que eu acho que agravou: a hegemonia cultural, midiática, da perspectiva do seguro privado e da saúde suplementar, e a hegemonia concreta, no sentido de que hoje se gasta mais com saúde suplementar do que com o SUS.

Ela atende 25% da população e o SUS 75%. Estamos vendo agora, com essa história da demografia médica e o estudo da Maria Helena Machado, que mais de 50% da capacidade dos médicos está concentrada na saúde suplementar. Não é a maioria dos médicos, mas da capacidade de trabalho, porque a maioria dos médicos tem duplo vínculo. Se pegarmos os postos de trabalho e a carga horária, mais de 50% estão voltados para 25% dos brasileiros.

Ou seja, na prática, se a gente pegar a carga horária de 40 horas, o SUS tem menos de um médico para cada mil habitantes, para os 75% da população. Isso vale também para outros profissionais. Os impasses no SUS, todos esses que eu listei, deixam um espaço imenso para a medicina privada, de mercado.

Cinco anos atrás, você destacou o desafio de “inventar modelos de gestão para garantir o funcionamento desburocratizado, humanizado e com pouca corrupção dos serviços estatais de saúde.” Nesse período, proliferaram modelos como OS e fundações públicas de direito privado. Isso responde a esse desafio?
Eu ando defendendo que nós propuséssemos um projeto de lei para criar um SUS como autarquia municipal, estadual e nacional. Haveria o SUS com financiamento e gestão tripartite, os servidores seríamos todos do SUS, com carreiras do SUS, com concursos por estado. Essas carreiras poderiam ser por grandes áreas: atenção básica, área hospitalar com especialidades, vigilância à saúde... As regras que regulamentam cada profissão entrariam matricialmente nessas áreas de carreira.

Um outro elemento insuportável da crise é que ninguém aguenta mais ser governado, gerenciado por prefeitos, secretários municipais, estaduais e ministros da saúde absolutamente controlados pela lógica de poder, eleitoreira, com conflitos de interesse. Penso que uma alternativa à privatização seria pensar o SUS num modelo de gestão como o das universidades federais, só que não fragmentado: um SUS único, organizado a partir das 200 e poucas regiões de saúde, e em que os cargos de direção, exceto ministro, secretários estaduais e municipais, não fossem de confiança, e sim ocupados com critérios, mandatos de rodízio.

Por exemplo, eu acho que a gente deveria ter um secretário regional de saúde, indicado pelo colegiado de municípios e pela secretaria estadual, segundo critérios: formação em saúde pública, em gestão em saúde, três anos participando dessa carreira SUS, dedicação de mais de 30 horas por semana...
Financiamento já era um problema há cinco anos. Nesse tempo, tivemos a regulamentação da Emenda Constitucional 29. Mas muitas pessoas acham que piorou...

A proteção que o governo federal fez do seu orçamento, a não inclusão dos 10% do orçamento [da União] tornou a Emenda Constitucional 29 quase inócua. O único aspecto positivo foi dizer o que é despesa de saúde, deixou isso mais claro e criou uma jurisprudência para evitar as tramoias que os estados e alguns municípios faziam. Mas não resolveu nada, continua o interdito para aumentar os recursos do SUS. E falta muito.

Se conseguíssemos as assinaturas para o projeto de lei que pede o investimento de 10% [da União], a estimativa é de R$ 50 bilhões ou R$ 60 bilhões a mais. Daria para dobrar o atendimento da atenção básica, qualificá-lo, melhorar formação e carreira, financiar, construir e custear 200 hospitais nas regiões mais carentes, aumentar ações de vigilância à saúde e promoção. Já seria muito importante, mas na verdade, para ter um sistema adequado, além de mudar o modelo de gestão, tem que dobrar o recurso. O SUS gasta 3,5% do PIB, teria que gastar 7%, 8%.

Agora, tem uma vacilação muito grande do governo federal e dos deputados em apoiar essa medida. Se for aprovada, existe ainda a discussão sobre para onde vai o dinheiro. E quando entra nessa discussão, a frente supostamente pró- SUS se rompe absolutamente. Boa parte dela quer corrigir e manter a forma de convênios e contratos, reajustando o valor dos procedimentos. Vai ser inútil. Esse recurso a mais tem que ser investido para ampliar a cobertura da atenção básica para 80% [da população], criar uma carreira da forma como eu estou te falando, construir e fazer funcionar hospitais públicos, diminuindo convênios e contratos e reincorporando ao SUS as OS e Oscips, fazendo o movimento contrário.

Cinco anos atrás, você disse que o financiamento era um nó, mas que não havia dinheiro porque o SUS não era querido. Se a população estivesse pedindo o SUS, conseguiríamos dinheiro. Isso mudou?
Eu sustento isso. Para comover a população e pressionar os governantes e o parlamento, precisávamos apontar para a população o que pode ser feito, com base no que já se está fazendo de melhor no SUS; o que pode ser aperfeiçoado, acrescido, no SUS. Estou apostando que o movimento sanitário consiga construir um projeto estratégico de modelo de gestão, carreira e reforçar um modelo de atenção segundo a tradição dos sistemas públicos do Canadá, Inglaterra, Suécia. A gente tem que apresentar isso à população, dizer que é possível, que é necessário e que o Brasil tem dinheiro. A luta por mais recursos sem dizer o que fazer com ele não tem muita possibilidade de romper o bloqueio da lógica econômica.
25 anos na eficácia da ideia de conceito ampliado de saúde...

Eu acho que esse é um ponto positivo do SUS. Não que todas as ações e práticas do SUS sejam coerentes com a visão ampliada do processo saúde-doença, mas ganhou muita força no Brasil uma crítica a essa visão biologicista da terapêutica centrada no medicamento. E eu acho que essa é uma marca específica positiva da Reforma Sanitária brasileira e do SUS, que é garantir não só o acesso, mas o acesso a outro modelo de atenção, a outro modelo de cuidado, que seja mais integral, que considere o biopsico- social, que valorize a autonomia e a clínica compartilhada com os usuários. Eu acho que isso está ganhando terreno. Aparece inclusive na mídia, na imprensa. Sobre a saúde mental, tem uma divisão, mas a nossa proposta aparece em novela, como sendo a melhor.

Saúde foi uma das principais reivindicações dessas manifestações desde junho. É do SUS que as ruas estão falando?
Nos últimos cinco anos, o elemento otimista foram essas manifestações. E é muito forte porque reivindicou acesso à política pública, transporte... A saúde não foi a principal, mas foi muito forte. A população disse que a vida na cidade está impossível. Foi um movimento urbano, na maior parte dos casos. Como garantir isso, eu acho que o movimento não colocou nem a população sabe: qual o modelo de atenção, como organizar, como fazer o SUS funcionar...

O movimento exige o acesso, o direito à saúde. E o setor privado está fazendo o discurso de que o acesso pode ser conseguido pela expansão da saúde suplementar, pelo aumento de convênios, pelo subsídio estatal, pela compra de serviços ao setor privado. E por trazer uma lógica de mercado, através de OS e semelhantes, para dentro do SUS público estatal que ainda existe. Essa batalha não está resolvida e nós temos que enfrentá-la junto à população. Há um reclame pelo direito à saúde e isso é muito importante.
Só que há um discurso que diz que o direito à saúde depende de um sistema nacional público de base estatal, com carreira, etc, que é o meu, nosso, de muita gente, e há outro discurso de que podemos garantir a universalidade pelo setor privado, basta o Estado financiar, comprar e regular. É o Estado mínimo regulador, que põe dinheiro público para o mercado fazer. Essa é a grande polêmica, o grande divisor de águas atual.

Cinco anos atrás, você disse que, logo na sequência da conquista do SUS, o Estado foi enfraquecido pela onda neoliberal. Hoje, o país vive o que se tem chamado de neodesenvolvimentismo. O Estado se fortaleceu?
A partir de meados do seu primeiro governo, Lula retomou uma política desenvolvimentista, a la Celso Furtado, adaptada ao contexto atual. É uma política de industrialização, desenvolvimento do mercado interno, aumento da renda do povo através do Bolsa Família, aumento do salário acima da inflação, microcrédito, fi nanciamento público.

O BNDES, a Caixa Econômica e o Banco do Brasil estão mais fortes. A capacidade de o Estado brasileiro negociar com empreiteira, por exemplo, teoricamente, está maior. Só que esse projeto desenvolvimentista não incluiu políticas públicas, como de educação e saúde públicas gratuitas. De políticas habitacionais há alguns ensaios. O forte são investimentos urbanos maciços.

Melhorou a renda de boa parte da população, o mercado interno se dinamizou, mas nós continuamos vivendo um caos. O negócio domina a cidade e a urbanização, com especulação imobiliária, empreiteiras. O negócio avança na área da saúde, botando limites na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), na saúde pública, fazendo negócio com atendimento hospitalar e especializado, com a venda de medicamentos. Eu acho que o desenvolvimentismo não nos protegeu. Esse desenvolvimentismo não tem um componente de bem-estar social forte, tem de aumento da renda de modo que, pelo aumento de salário, as pessoas possam comprar saúde suplementar, iogurte etc. Não é cidadão, é consumidor. Nossa proposta não é essa, o SUS é direito à saúde, direito à educação, à habitação, a viver numa cidade com transporte público. Tudo isso ficou muito fraco. Houve um tensionamento muito grande agora em junho sobre essa falha do desenvolvimentismo.

O nosso problema é que toda a oposição no Brasil é antidesenvolvimentista. E a gente teve nesse período o enfraquecimento dos movimentos sociais. Teve agora em junho esse movimento espontâneo, essa coisa da juventude, sem as entidades, mas houve, no mundo inteiro, uma cooptação, um esvaziamento dos movimentos, uma incapacidade da sociedade civil em colocar limites nessa hegemonia dos negócios. O desenvolvimentismo se aliança com setores muito atrasados da sociedade, muito antigos, do Maranhão, do Nordeste, de São Paulo, do narcotráfico. É um bloco de alianças muito complexo.

Originalmente, o movimento da reforma sanitária tinha uma base na sociedade civil organizada. Como isso está hoje no campo da saúde?
O neoliberalismo e mesmo esse desenvolvimentismo enfraqueceu os movimentos sociais. O Fernando Henrique entra e, como a Margareth Tatcher, a primeira coisa que faz é derrotar o sindicalismo. O narcotráfi co desarticula boa parte do movimento popular associativo. A igreja católica tinha um peso grande no Brasil e é desarmada pelo papa polonês, que entra e troca os bispos. Foi uma desarticulação muito grande desses movimentos que constituíram a reforma sanitária. Ficaram os intelectuais, o pessoal da saúde coletiva.

O movimento estudantil se afastou dessa discussão. A UNE é uma burocracia, uma vergonha, não representa os estudantes. O Diretório da Executiva Nacional de Medicina (Denem) ainda discute o SUS, mas a capacidade de envolver é baixa. A maior parte do sindicalismo das profissões de saúde assumiu um perfil corporativista: o dos médicos é quase caricatural, mas se pegar os farmacêuticos, os fisioterapeutas, parte do movimento da enfermagem só falam em [jornada de trabalho de] 30 horas.

O modelo, a defesa do paciente, do usuário se enfraqueceu muito, exceto entre os psicólogos. E quando esses sindicatos tratam do SUS, falam contra qualquer regime que não seja o estatutário tradicional, falam contra OS ou fundação privada não porque é ruim, porque fragmenta, mas porque o regime de contratação é CLT e não o estatutário, que também tem sido usado para desrespeitar o direito à saúde das pessoas. No SUS se manteve um movimento interinstitucional, pelas conferências.

Nesses cinco anos, teve a conferência de que eu fui o relator que, na minha avaliação, foi um risco n’água, usando a expressão do [Otavio] Ianni. Os movimentos de junho tiveram muito mais fortaleza. Agora o sucesso do SUS depende da recomposição contemporânea – não pode ser a antiga – de um movimento em defesa do direito à saúde e do SUS.

O movimento sanitário não acabou?
Não, porque se renova. Movimento é um sujeito coletivo e sujeitos coletivos demoram mais tempo para morrer. Eles têm uma espécie de reencarnação. O movimento sanitário se fortaleceu muito com movimentos de trabalhadores não ligados às suas entidades profi ssionais, mas ligados a determinados projetos que compõem o SUS, como o Saúde da Família, a luta contra a Aids, a nova Saúde Mental. Mesmo o movimento da Humanização, HumanizaSUS, apesar de ser uma política do governo, é hoje em dia mais um movimento social de valorização do direito do usuário, de democracia institucional. Em Campinas, nos últimos seis, oito anos, o SUS está sendo desconstruído. E já vinha saindo movimento de rua antes de junho.

Quando estavam desconstruindo a reforma da saúde mental aqui, que é bem ampla, tinha 800, mil pessoas de várias extrações, convocadas também por internet, na Câmara. Nesse período de crise do movimento social, a defesa do SUS fi cou muito por conta dos gestores, Conass, Conasems. E, com todo respeito, gestor fi ca muito nessa lógica institucional e não tem autonomia e iniciativa para comprar esses confrontos abertamente como seria necessário. Mas eu acho que o movimento sanitário está se recompondo, é a minha esperança. Abrasco, Cebes, essas velhas entidades estão com cara nova. Mas de vez em quando o Estado coopta.

25 anos atrás, preparação e realização da Constituinte: há erros e perdas que já remetem àquele momento e cujas consequências a gente vive ainda hoje?
Com certeza tem. Mas eu acho que nesses 25 anos aconteceram três fenômenos entrelaçados. Resumindo: o Brasil melhorou para a maioria da população nos direitos, direitos da mulher, luta contra o racismo. Acho que estamos mais fortes. Ao mesmo tempo, houve uma industrialização, uma financeirização no Brasil. O Brasil é um país capitalista forte. Não é o capitalismo brasileiro, mas há um capitalismo globalizado no Brasil muito forte, com mercado interno muito forte, o setor financeiro muito forte, a lógica dos negócios, lógica liberal da competição cultural muito forte. E ao mesmo tempo se fortaleceu ou não foi eliminado, apesar de a gente viver em república e democracia, o Estado clientelista, privatizado, voltado para os negócios e não para a defesa da cidadania. Esse capitalismo no Brasil se compôs com o atraso, com o clientelismo. Nessa mistura, o Brasil é melhor, mas continua muito injusto, muito desigual.

A vida é muito áspera, o contrato é muito desrespeitado. O contrato empresarial é sagrado, mas o contrato de trabalho não é sagrado, ao contrário, pode ser rasgado a qualquer momento. Agora, tem um setor grande da sociedade brasileira, independentemente de estar organizado em movimento ou não, que tem um pensamento pelo direito, pelos direitos humanos, pela democracia republicana. São 20%, 30% da população, como nós temos 20%, 30% muito conservadores, preconceituosos, racistas, pró-mercado.

Esse Estado clientelista e o empresariamento da sociedade brasileira limitou os avanços sociais, inclusive na saúde e na educação. O fato de professor de ensino médio ganhar o que ganha é um sintoma gravíssimo disso. Todos esses entraves do SUS são sintomas gravíssimos disso. Nós não podemos ter um setor estatal forte, ágil, autônomo, fora do clientelismo, fora da politicagem partidária, comprometido com os usuários e com a racionalidade do direito à saúde.

Estamos tentando construir isso dentro dos conflitos, porque isso atesta a possibilidade de construir uma sociedade solidária e democrática. No fundo, eu diria que o sonho do Salvador Allende continua: será que é possível construir justiça social, solidariedade, socialismo – a gente nem sabe direito o que é socialismo – com democracia, com participação? Essa é a questão.

É possível?
Eu aposto nisso. Como já houve derrotas antes, de um médico inclusive, o Salvador Allende, eu sei que é uma aposta, não é uma certeza. Eu não tenho certeza. Mas prefiro assim, porque o contrário eu não quero.

FONTE: BRASIL DE FATO