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domingo, novembro 10, 2013

Depois de 10 anos, fábrica de remédios contra Aids começa a produzir na África






Projeto da Fiocruz em Moçambique é o mais longo e que mais consumiu recursos brasileiros na África



O mais emblemático projeto de cooperação brasileiro na África completa dez anos em novembro e vive hoje seu momento mais decisivo. É uma fábrica pública de medicamentos contra a Aids, instalada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em Moçambique. Em agosto, ela finalmente realizou seu objetivo: produziu pela primeira vez um remédio genérico que faz parte do coquetel anti-HIV, a lamivudina. Em outubro, repetiu a dose com um segundo componente do coquetel, a nevirapina. Toda a operação foi feita por moçambicanos, com a supervisão da Fiocruz.

A Sociedade Moçambicana de Medicamentos (SMM), o nome oficial da fábrica, é a única unidade pública de produção de medicamentos contra a Aids na África, o continente mais afetado pelo vírus e onde o acesso ao tratamento é escasso. No caso de Moçambique, a SMM é também a primeira indústria farmacêutica. Todos os medicamentos consumidos no país são importados.

Agora, os medicamentos precisam obter um selo de qualidade do órgão regulador em Moçambique. Enquanto isso, a fábrica deve começar a embalar um antibiótico e um medicamentos contra o HIV produzidos pela Fiocruz no Brasil e doados para que as vendas já possam ser iniciadas. No próximo ano, a fábrica deve tentar obter certificação da Organização Mundial da Saúde. A organização Médicos Sem Fronteira (MSF), que atua na área do HIV no país, diz que "ainda é cedo para tecer comentários profundos sobre como a fábrica irá beneficiar as pessoas que vivem com HIV em Moçambique".

Nenhum outro projeto de cooperação do Brasil na África está em curso há tanto tempo ou consumiu um volume tão alto de recursos. A Fiocruz estima que ele terá custado ao País cerca de US$ 20 milhões. "Demorou muito? Eu olho para trás e digo: ninguém tem noção do quanto a gente trabalhou", afirma a coordenadora do projeto, Lícia de Oliveira, da Fiocruz.

"Nem Moçambique nem o Brasil sabíamos onde estávamos nos metendo", diz ela. O País não tinha experiência na realização de um projeto de cooperação de tão grande porte no exterior. Além disso, a operação de uma indústria farmacêutica é um processo de alta complexidade. Toda a tecnologia de produção foi transferida para Moçambique, que vai operar a fábrica sem a intervenção do Brasil. A expectativa é que ao final de cinco anos a venda dos remédios custeie as operações e que a produção atenda a todo o mercado da parte sul da África.

"A fábrica é a primeira aqui em Moçambique, até em África. Temos muita expectativa e muita responsabilidade. Depois de vermos essa fábrica cheia, com movimento, nós vamos ficar já descansados, felizes da vida. Porque realmente é difícil, é muito difícil para chegar nessa fase", diz Feniosse Macuacua, operador da fábrica que atuou nas primeiras produções de medicamentos.

Aids. A incidência de HIV em Moçambique é uma das maiores do mundo - 13% das mulheres e 9% dos homens, totalizando 2,4 milhões de pessoas infectadas. No Brasil, calcula-se que 630 mil pessoas são soropositivas, menos de 1% da população.

É a comunidade internacional que custeia 100% do coquetel anti-Aids, a maioria deles genéricos comprados na Índia a preço baixo. "Até hoje me surpreendo com as dificuldades que esse país enfrenta quanto ao financiamento para a área da saúde, que depende de doadores internacionais", diz a enfermeira brasileira Kelly Cavalete, que trabalha no MSF no país.
A fábrica prevê a transferência de tecnologia e conhecimento para a produção de 21 medicamentos. Além dos usados para tratar a infecção por HIV, há remédios para atenção básica – entre julho e setembro, foram produzidos os primeiros, contra hipertensão. A capacidade instalada é de 400 milhões de comprimidos por ano.
A estrutura da fábrica é pequena, mas de ponta. Em um corredor vedado do exterior, com luz artificial, ar condicionado e protegido por portas de segurança codificadas, ficam as salas de produção e embalagem. Os equipamentos são iguais aos usados pela Fiocruz no Brasil. Segundo a fundação, é que há de melhor no mundo. São duas linhas de produção: uma específica para componentes do coquetel anti-HIV e outra para medicamentos em geral, além de uma unidade de soros.

História. Assinado em novembro de 2003 durante a primeira viagem do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva à África, o projeto da fábrica se tornou um símbolo das dificuldades do Brasil em realizar projetos de cooperação de grande porte. A primeira delas foi a concorrência com a China. Apenas cinco meses depois da assinatura, um grupo chinês começou a negociar com o governo moçambicano a construção de uma fábrica de antirretrovirais privada. Prevaleceu o projeto do Brasil.

De 2003 a 2007, as características do projeto foram discutidas e foi realizado um estudo de viabilidade. Depois, haviam dúvidas sobre como financiar a fábrica. Em 2008, o governo brasileiro encaminhou para o Congresso um projeto de lei para a doação de R$ 13,6 milhões. Um ano e dois meses depois, ele foi aprovado. "Nunca na minha vida eu tinha lidado tanto com advogados e procuradores. Virei figurinha fácil da Câmara dos deputados", lembra a doutora Lícia.

O parecer favorável do senador Eduardo Azeredo ao projeto de lei evidencia a importância da cooperação para o avanço brasileiro no continente. "A eventualidade de apropriação do projeto da fábrica de antirretrovirais por terceiros países acarretaria a perda de valioso instrumento de cooperação e de afirmação dos interesses brasileiros na África", escreveu Azeredo. A Vale, que já estava operando em Moçambique, doou outros UR$ 4,5 milhões. De 2009 a 2012, a infraestrutura física da fábrica foi preparada, os equipamentos adquiridos e os funcionários treinados no Brasil.

A fábrica é citada em discursos de governantes brasileiros como exemplo da ajuda que o Brasil pode dar à África e o diferencial da cooperação brasileira em relação a outros países. Enquanto a Europa e os Estados Unidos doam medicamentos, o Brasil doaria toda a tecnologia de produção. Apesar da importância dada ao projeto, ele ainda é um desconhecido em Moçambique. A largada da venda de medicamentos pode ampliar sua visibilidade.

Antes do início da produção, a comunidade internacional era descrente que o projeto pudesse dar certo. "Não sei se os medicamentos moçambicanos vão ser mais baratos que os indianos, se o preço vai ser competitivo", afirmou em 2010 o então coordenador do MSF em Moçambique, Alain Kassa. Agora que a produção finalmente começou, o desafio é manter a fábrica no âmbito público. Indústrias farmacêuticas privadas, sobretudo indianas, estão interessadas no projeto - visto como uma porta de entrada para o mercado de medicamentos na África.


FONTE: Amanda Rossi - Especial para o Estado

México, o subcomandante Marcos e os/as anarquistas







O diário "La Jornada" (México D.F.), em sua edição do último dia 3 de novembro, divulgou um comunicado sobre a primeira volta da "la Escuelita", que o EZLN (Exército Zapatista de Libertação Nacional) organizou em Chiapas em agosto passado. Dentro desse informe, intitulado "Malas y no tan malas noticias", o subcomandante Marcos dedica um trecho do comunicado a movida anarquista e a atual onda de histeria antianarquista que o Estado e o Capital promovem naquele país. A seguir, extrato do pronunciamento.


Casos especiais: os anarquistas

Visto a campanha Anti Anarquismo que levantam as boas consciências e a esquerda bem comportada, unidas em santa cruzada com a direita ancestral para acusar jovens e velh@s anarquistas de desafiar o sistema (como se o anarquismo tivesse outra opção), além de descompor suas cenografias (o apagar da luz é para não ver @s anarquistas?), e que é levada ao delírio com qualificativos como "anarco-falcões", "anarco-provocadores", "anarco-porro" [baseado, banza], "anarco-etcetera" (por aí li o qualificativo "anarco-anarquista", não é sublime?), nós, as zapatistas e os zapatistas não podemos ignorar o clima de histeria que, com tanta firmeza, demanda e exige que se respeitem os cristais (que não mostram, senão ocultam o que passa justo atrás do mostrador: condições laborais escravistas, higiene nula, má qualidade, baixo nível nutricional, lavagem de dinheiro, fraudes fiscais, fuga de capitais).

Porque agora resulta que, essas ratoeiras mal dissimuladas chamadas "reformas estruturais", que o despojo laboral ao magistério, que a venda outlet do patrimônio da Nação, que o roubo que o governo perpetra contra os governados pelos impostos, que a asfixia fiscal – que favorece só aos grandes monopólios -, que tudo isso é culpa d@s anarquistas.

Que a gente mal sai às ruas a protestar (ouça, mas sim aí estão as marchas, as greves, os bloqueios, as pichações, os panfletos. Sim, mas são de professor@s-motoristas-ambulantes-estudantes-ou-seja-nacos-e-nacas-e-de-província [nacxs é uma gíria mexicana para moradores da periferia, em especial descendentes de indígenas], eu digo gente bem bem bem do DF. Ah, a mítica classe média, tão cortejada e ao mesmo tempo depreciada e defraudada por todo o espectro midiático e político), que a esquerda institucional também despoja os espaços de manifestação, que o "único opositor ao regime" foi tornado opaco pelos sem nome uma e outra vez, que a imposição arbitrária se chama agora "diálogo e negociação", que o assassinato de migrantes, de mulheres, de jovens, de trabalhadores, de crianças, que tudo é culpa d@s anarquistas.

Para aqueles que militam e se reivindicam como da "A", bandeira sem nação nem fronteiras, e que são parte da SEXTA [Sexta declaração de Lancadona], mas que em verdade militam e não como moda de vestir ou de calendário, temos, além de um abraço companheiro, um pedido especial:

Compas Anarquistas: nós os zapatistas, nós as zapatistas, não os vamos achacar nossas deficiências (incluindo a falta de imaginação), nem os vamos fazer responsáveis de nossos erros, nem muito menos os vamos perseguir por ser quem são. E mais, conto vos que vários convidados em agosto cancelaram suas vindas porque disseram que não poderiam compartir a aula com "jovens anarquistas, andrajosos, punks, aretudos [cheio de piercings], e cheios de tatuagens", que esperavam (os que não são jovens, nem anarquistas, nem andrajosos, nem punks, nem aretudos, nem cheios de tatuagens) uma desculpa e que se depurasse o registro. Seguem esperando inutilmente.

O que queremos é pedir que, no momento do registro, entreguem um texto, de no máximo uma página de extensão, onde respondam as criticas e acusações que se lhes tem feito nos meios de comunicação. Esse texto será publicado em uma seção especial de nossa pagina eletrônica (enlacezapatista.ezln.org.mx) e em uma revista-fanzine-como-se-chame pronta para aparecer no mundo mundialmente mundial, dirigida e escrita por indígenas zapatistas. Será uma honra para nós que em nosso primeiro número esteja sua palavra junto à nossa.

Eh?

Sim, também vale uma página com uma só palavra que ocupe todo o espaço: algo como "MENTEM!". Ou algo mais extenso como "Lhes explicaria o que é o Anarquismo se pensasse que vão entender", ou "O Anarquismo é incompreensível para anões de pensamento"; ou "As transformações reais primeiro aparecem na nota vermelha"; ou "Me cago pra polícia de pensamento"; ou a seguinte citação do livro "Golpes y contragolpes" de Miguel Amorós: "Todo o mundo deveria saber que o Black Bloc não é uma organização, senão uma tática de luta similar à Kale Borroka [forma de guerrilha urbana dos radicais bascos], que uma constelação de grupos libertários, "autônomos" ou alternativos, vinha praticando desde as lutas dos squats (okupações) nos anos 80 em várias cidades alemãs" e agregar algo como "se vão a criticar algo, primeiro investiguem bem. A ignorância bem redatada é como uma idiotice bem pronunciada: igual de inútil".

Enfim, estou seguro de que não lhes faltarão ideias.

Vale. Saúde e, creiam ou não, o mundo é maior que o titular midiático mais escandaloso. É questão de ampliar o passo, o olhar, o ouvido... e o abraço.

Desde as montanhas do Sudeste Mexicano,

O subcomandante Marcos.

Zelador da Escolinha e encarregado de dar más notícias.

México, novembro de 2013.

Tradução; Caróu

FONTE: Diário Liberdade

Black blocs, o alvo é a Copa





“Vale a pena perguntar por que esses jovens chegaram ao ponto de enxergar na violência a única forma de ser escutados”, diz Esther Solano, professora da Unifesp, que entrevista os adeptos da tática desde as manifestações de junho




Jovens na casa dos 20 anos, com emprego e acesso ao ensino superior, embora ambos de qualidade discutível; submetidos à precariedade dos serviços públicos do Estado em áreas como saúde, transporte e educação; defensores de uma visão de mundo na qual atacar símbolos do capitalismo não pode ser considerado um ato violento, pois a verdadeira violência contra a população é praticadapelo sistema político e corporativo – dados como esses compõem o perfil dos black blocs de São Paulo, na visão da pesquisadora Esther Solano Gallego.

“Eles querem ser escutados, mas por alguém que tenha um olhar um pouco mais imparcial e se disponha a realmente entendê- los”, diz a professora de Relações Internacionais na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Esther vai às ruas desde junho – primeiro como manifestante; depois, com o colega Rafael Alcadipani, professor da Fundação Getúlio Vargas, passou a conversar com diferentes grupos para procurar entender suas motivações.

A pesquisa acabou centrada na dinâmica entre os policiais, a cargo de Alcadipani, e os adeptos da tática black bloc. É ao lado deles que a professora fica nas manifestações. O objetivo do trabalho, de acordo com Esther, não é emitir julgamentos ou defender qualquer dos lados, mas sim tentar entender um fenômeno social que cabe aos pesquisadores conhecer.

Uma das questões que agora ocupam a pesquisadora tem a ver com a criação de uma força-tarefa, unindo Ministério Público e as polícias Civil e Militar, anunciada pela Secretaria da Segurança Pública de São Paulo no início de outubro.O secretário Fernando Grella Vieira defende o indiciamento dos black blocs por associação criminosa.

Na entrevista a seguir, a espanhola Esther Solano – que se doutorou em Ciências Sociais em meio à crise econômica em seu país e veio para o Brasil em 2011, diz que é difícil saber se as medidas levarão os jovens a radicalizar suas ações ou a retroceder por medo da prisão. Certo mesmo é que por enquanto os adeptos da tática permanecem nas ruas, e que seu objetivo é chamar a atenção do mundo – literalmente – na Copa de 2014, cuja abertura coincidirá com o primeiro aniversário das grandes manifestações de junho.

Brasil de Fato – Com quantos jovens que utilizam a tática Black Bloc você já conversou?
Esther Solano Gallego – Mais ou menos 30. Comecei a falar com eles porque me parece muito importante entender o que está acontecendo, e a única forma de entender é sair para a rua e conversar com eles, o que para mim, por paradoxal que pareça, é muito fácil. Esses jovens não consideram os meios de comunicação de massa seus interlocutores. Mas, quando eu me apresentei como professora e pesquisadora, me aceitaram muito bem.

Qual o perfil que você já identificou neles?
É bem heterogêneo. Temos que diferenciar: há aqueles que sabem realmente o que significa a tática black bloc, leem e sabem articular um discurso mais ou menos politizado, e que são a grande maioria dos que entrevistei. Mas claro que há alguns que simplesmente aproveitam o momento de caos para cobrir o rosto. Tenho tentado conversar com eles também, porque acho que estão representando sua própria forma de violência. Mas são a minoria na minha pesquisa, e essas conversas não têm dado muitos frutos.

Em relação ao primeiro grupo, são jovens que têm um projeto político, que quando saem para a rua para quebrar um banco entendem que esse gesto tem um significado. Os mais novos têm 17 anos, mas em geral a idade vai de 20 a 24 anos; a grande maioria trabalha, muitos estudam. Há alguns formados, a maioria em universidade particular, mas há também gente de universidades públicas como a USP. A maioria é de classe média baixa. São usuários do transporte público, do SUS, da escola pública, mas a maioria não vem daquela periferia mais pobre e excluída.

Eles fazem parte do que vários estudiosos têm chamado de um subproletariado que vem crescendo muito nos últimos anos no Brasil?
A maioria, sim. São jovens que trabalham há pouco tempo, mas já conhecem bem a precariedade do Estado. Friso novamente que a maior parte não é daquela periferia que praticamente não tem acesso às manifestações.

Que tipo de leitura e formação política têm esses jovens com quem você conversa?
Tem de tudo. Alguns leram bastante os anarquistas e articulam bem essa linguagem. Outros não leram tanto, mas têm uma visão política bem articulada. São basicamente duas coisas: a grande maioria possui uma visão política mesmo – talvez não a da academia –, e enxerga bem o que quer fazer. Vale a pena reiterar que a maior parte dos jovens que entrevistei tem um pensamento definido como base de suas ações, o que não impede que, em momentos de manifestações maiores, apareçam indivíduos com muito menos articulação ou que simplesmente se aproveitam do momento.

Há alguma conexão com a origem dos black blocs na Alemanha do final da década de 1980 e com os chamados movimentos antiglobalização dos anos de 1990?
A maioria dos que entrevistei não pensava no que era o black bloc antes das manifestações. Muitos falam que começaram a pensar nisso depois daquele protesto do dia 13 de junho (no Centro de São Paulo), quando a Polícia Militar, como eles dizem, “chegou batendo”. Alguns já tinham lido alguma coisa, mas a grande maioria se envolveu pela ação e reação do momento.

Como você analisa a acusação de que eles são fascistas e estão a serviço de outra causa que não é a intenção original das manifestações?
Acho que aí existem duas coisas. Primeiro, que a esquerda mais institucionalizada, mais partidária, talvez se sinta muito afastada do que aconteceu. Minha percepção é de que há um certo ressentimento com isso, porque ninguém contou com os partidos de esquerda, com os sindicatos ou com os movimentos tradicionais para ir à rua. Outro aspecto é que, em todas as conversas que tive com eles, não percebi nenhuma indicação de que sejam manipulados ou de que respondam a outro grupo. Creio que a motivação é a indignação própria, e que eles têm um grau de autonomia suficiente para não ser movidos por outro grupo.

O anticapitalismo é o discurso mais forte?
Uma jovem me deu uma ótima explicação: em São Paulo a ação começou com o discurso black bloc internacional, de anticapitalismo e ataque aos símbolos do capital, mas depois foi se apropriando do discurso das manifestações brasileiras. Ou seja, talvez não tanto contra o capital, mas incorporando as bandeiras e as reivindicações dos protestos: mudanças e melhoria do sistema político de forma geral. O anarquismo é a inspiração, mas, durante as conversas, aparecem muito mais a precariedade do Estado brasileiro e a violência institucional do que as ideias anarquistas como motivações de sua presença nas ruas.

Eles também se colocam como a linha de frente contra a polícia, não é?
Eles dizem que nunca convocam as manifestações, e que vão à rua para proteger os manifestantes. São duas ações: uma que eles chamam de proteção – a linha de frente –, e outra, de ação direta. Essa é a forte agora: chamar a atenção, “dar um grito”, utilizando a violência como forma de expressar a indignação. Vale a pena perguntar por que esses jovens chegaram ao ponto de enxergar na violência a única forma de ser escutados.

Os black blocs de São Paulo já podem ser considerados um grupo?
Eles sempre falam que o black bloc não é um grupo, mas uma tática. No final das contas, não são muitos os que saem na rua. Acho que no Rio de Janeiro o movimento é maior. Em São Paulo, não são tantos assim, e acabam sendo as mesmas pessoas que a polícia já levou para a delegacia, já identificou etc. Há também outros que vão aparecendo, que simplesmente cobrem o rosto, e aí você perde a noção de quem é quem. As novas medidas da Segurança Pública em São Paulo podem representar um ponto de virada. Quase todos os black blocs, digamos, mais frequentes já foram para a delegacia. Os policiais também muitas vezes são os mesmos. Então já pedem a documentação, revistam as mochilas etc. Imagino que a polícia saiba quem é a maior parte deles.

Eles têm receio de ser presos e processados, agora que o Estado anunciou o endurecimento da reação?
Sem dúvida. Os que já têm uma passagem por delegacia receiam ser presos novamente e considerados reincidentes. Agora podem ser enquadrados até por formação de quadrilha. Processar por associação criminosa me parece excessivo, embora deva dizer que não tenho grande conhecimento do Direito em geral e do brasileiro em particular. Mas a questão é que os delegados passam a ter legitimado pelo Estado o poder de fazer esse enquadramento. O Estado, no seu papel de protetor da propriedade pública e privada, está se valendo de seu aparato policial e jurídico para propor o endurecimento das penas.

Você já teve algum problema nas manifestações?
Nunca. Comigo os jovens são muito respeitosos, e a polícia também. Isso também pode parecer paradoxal em razão das cenas de violência nas manifestações, mas o fato é que minha experiência destes meses nas ruas é esta, tanto com os policiais como com os Black blocs. Mas claro que fico com um pouco de medo quando começam a aparecer pedras e bombas.

O que eles acham de ser chamados de vândalos ou baderneiros?
Eles são absolutamente contra essa dicotomia criada entre o “bom manifestante” e o “ruim”, categorias que a imprensa coloca para tentar defini-los. Eles dizem que o que fazem não é violência, é performance – é um tipo de espetáculo, em que querem atingir símbolos para chamar a atenção. O discurso é de que a verdadeira violência é a de um sistema político que não dá respostas para a população e que mantém, por exemplo, índices altíssimos de homicídios e de mortes no trânsito. Para eles, a violência é a do sistema, e o que fazem é chamar a atenção para essa violência política e corporativa.
Críticos ao redor do mundo dizem que essa tática sequer arranha o capitalismo.
É. Inclusive há todas aquelas incoerêcias do tipo quebrar um banco, mas usar iPhone. Isso é parte do paradoxo humano. Claro que eles sabem que o dono do banco não está nem aí quando depredam uma agência – mas que conseguem chamar a atenção sobre as coisas que para eles estão equivocadas, tanto no governo quanto na ordem econômica, isso conseguem, até porque de fato a espetacularização dos acontecimentos por parte da imprensa é evidente. Agora, a partir da constatação de que as ruas estão ficando esvaziadas, já presenciei diálogos entre eles sobre se a população está entendendo ou não o que eles tentam fazer.

Você esteve na manifestação do dia 25 de outubro (quando o coronel da PM Reynaldo Simões Rossi foi agredido)?
Não, mas depois conversei com algumas pessoas que foram. O fato é que o Movimento Passe Livre (MPL) tem muita capacidade convocatória, então conseguiu juntar bastante gente que utiliza a tática black bloc. Como já disse, é um movimento muito heterogêneo, e entre eles há quem acredite numa violência mais focada e mais simbólica, e outros que acreditam numa violência mais pesada; os que são mais articulados e os menos, como aliás em todo grupo social. Quando você junta tantas pessoas, num estado de emoções à flor de pele – o componente emocional é muito importante –, com grandes tensões com a polícia, era claro que ia acontecer o que aconteceu. À noite é quando a tensão aumenta e todo mundo vai perdendo a paciência. É sempre o pior momento das manifestações.

Você conhece os rapazes que foram presos?
Os que eu conheço não foram presos. Sei que houve prisão de gente do MPL, anarcopunks etc. Ou seja, foi uma manifestação bem heterogênea. Não dá para falar que só havia black blocs.

Você acha que, a partir do episódio do espancamento do coronel, a PM e a Justiça vão endurecer definitivamente as ações contra os black blocs?
Claramente as políticas vão endurecer. O governador Alckmin já falou da necessidade de penas mais rígidas para quem agride policiais. O espancamento do coronel Reynaldo vai esquentar muito os ânimos. Foi uma agressão filmada, transmitida em todos os meios de comunicação, e espetacularizada, de um PM de alta patente. Depois houve a resposta da presidenta Dilma oferecendo ajuda à PM de São Paulo. É claro que isso vai trazer como consequência uma série de respostas institucionais, radicalizando o discurso, tanto em nível policial como jurídico. O problema será entrar numa dinâmica de ação-reação violenta na qual as posturas dos dois lados endureçam.

O black bloc veio para ficar?
Pelo menos por enquanto, sim. Mas, a partir dessas medidas do governo, será que eles vão se radicalizar? Ou vão retroceder com medo de ser presos? Não sei. De qualquer maneira, a Copa está aí e o foco deles é fazer um espetáculo nela para chamar a atenção de todo o mundo – de todo o mundo mesmo! Pode até acontecer de a ação policial ser muito dura e conseguir esvaziar o movimento. Afinal, eles são jovens de vinte e poucos anos, e é possível que fiquem com medo de ser presos. Mas a ideia é estar na Copa.
E logo depois tem a eleição...
A espiral da violência vem aumentando. Estou preocupada com o que possa vir a acontecer no ano que vem.

FONTE:BRASIL DE FATO



“O desenvolvimentismo não nos protegeu”



De um lado, o projeto do SUS, de saúde universal, pública e estatal; de outro, o discurso de que, com o aumento da renda, o direito se dá pela compra de serviços privados de saúde




O MÉDICO sanitarista Gastão Wagner, militante histórico da Reforma Sanitária e atualmente professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), cinco anos atrás, na primeira edição da Poli, fez um balanço do Sistema Único de Saúde (SUS) duas décadas depois da sua conquista.

Hoje, quando o Brasil lembra os 25 anos da Constituição Federal e, mais especificamente, do texto que institui um Sistema Único de Saúde na lei maior do país, Gastão foi convidado para atualizar essa análise.

Nesta entrevista, ele aponta entraves não resolvidos, como o subfinanciamento e uma política de pessoal para os trabalhadores da saúde, e problemas que se agravaram, como o espaço que tem sido conquistado pelo setor privado na saúde. O elemento mais otimista ocorrido entre a entrevista da primeira edição e agora são, segundo ele, as manifestações que têm tomado as ruas do país desde junho. Mas ele alerta: os sentidos do direito à saúde que as ruas têm reivindicado estão em disputa. De um lado, o projeto do SUS, de saúde universal, pública e estatal; de outro, o discurso de que, com o aumento da renda, o direito se dá pela compra de serviços privados de saúde.

Qual o balanço de 25 anos de um SUS universal?
Gastão Wagner – É um balanço que tem aspectos positivos e negativos. O positivo foi a expansão do sistema público, do acesso à saúde em várias áreas, desde a atenção básica até o atendimento ao câncer e aos brasileiros com diabetes, programas de vacinação, atenção à Aids... O negativo é que a constituição do SUS não avançou no sentido de se completar. Os entraves permanecem e um deles é o subfinanciamento.

O segundo entrave é que a gente não desenvolveu uma política de pessoal razoavelmente adequada. E o terceiro é que o modelo de gestão continua, com dois grandes desafios que não foram enfrentados. Um é a fragmentação do SUS em redes dos entes federados. Saiu a regulamentação da Lei nº 8.080, com o Contrato Organizativo da Ação Pública de Saúde (Coap), mas que é de uma ineficácia assustadora. O SUS continua heterogêneo e está cada vez mais evidente que se delega a principal tarefa da gestão do SUS aos municípios e que eles não conseguem sequer colocar médicos onde precisam na atenção básica.

O Mais Médicos teve esse lado positivo, que foi jogar luz sobre essa grande parte da população que não tem nem atenção básica e sobre a incapacidade dos municípios para resolver o problema da atenção básica. O outro problema do modelo de gestão é que a gente não criou uma alternativa, um conjunto de diretrizes para pensar um SUS público. Continuamos num dilema: a administração direta emperrada, antiga, ultrapassada, inadequada para a saúde, e as alternativas a isso são formas de privatização, como OS [Organização Social] e fundações privadas, que aumentam a fragmentação.

Eu estava dando curso para gestores da atenção básica do estado e de alguns municípios grandes da Bahia e fiquei assombrado. Eles confirmaram o diagnóstico de que a Bahia agora tem duas secretarias estaduais, duas direções concorrentes: a secretaria estadual e a fundação que eles criaram. E o pior é o quarto elemento, que eu acho que agravou: a hegemonia cultural, midiática, da perspectiva do seguro privado e da saúde suplementar, e a hegemonia concreta, no sentido de que hoje se gasta mais com saúde suplementar do que com o SUS.

Ela atende 25% da população e o SUS 75%. Estamos vendo agora, com essa história da demografia médica e o estudo da Maria Helena Machado, que mais de 50% da capacidade dos médicos está concentrada na saúde suplementar. Não é a maioria dos médicos, mas da capacidade de trabalho, porque a maioria dos médicos tem duplo vínculo. Se pegarmos os postos de trabalho e a carga horária, mais de 50% estão voltados para 25% dos brasileiros.

Ou seja, na prática, se a gente pegar a carga horária de 40 horas, o SUS tem menos de um médico para cada mil habitantes, para os 75% da população. Isso vale também para outros profissionais. Os impasses no SUS, todos esses que eu listei, deixam um espaço imenso para a medicina privada, de mercado.

Cinco anos atrás, você destacou o desafio de “inventar modelos de gestão para garantir o funcionamento desburocratizado, humanizado e com pouca corrupção dos serviços estatais de saúde.” Nesse período, proliferaram modelos como OS e fundações públicas de direito privado. Isso responde a esse desafio?
Eu ando defendendo que nós propuséssemos um projeto de lei para criar um SUS como autarquia municipal, estadual e nacional. Haveria o SUS com financiamento e gestão tripartite, os servidores seríamos todos do SUS, com carreiras do SUS, com concursos por estado. Essas carreiras poderiam ser por grandes áreas: atenção básica, área hospitalar com especialidades, vigilância à saúde... As regras que regulamentam cada profissão entrariam matricialmente nessas áreas de carreira.

Um outro elemento insuportável da crise é que ninguém aguenta mais ser governado, gerenciado por prefeitos, secretários municipais, estaduais e ministros da saúde absolutamente controlados pela lógica de poder, eleitoreira, com conflitos de interesse. Penso que uma alternativa à privatização seria pensar o SUS num modelo de gestão como o das universidades federais, só que não fragmentado: um SUS único, organizado a partir das 200 e poucas regiões de saúde, e em que os cargos de direção, exceto ministro, secretários estaduais e municipais, não fossem de confiança, e sim ocupados com critérios, mandatos de rodízio.

Por exemplo, eu acho que a gente deveria ter um secretário regional de saúde, indicado pelo colegiado de municípios e pela secretaria estadual, segundo critérios: formação em saúde pública, em gestão em saúde, três anos participando dessa carreira SUS, dedicação de mais de 30 horas por semana...
Financiamento já era um problema há cinco anos. Nesse tempo, tivemos a regulamentação da Emenda Constitucional 29. Mas muitas pessoas acham que piorou...

A proteção que o governo federal fez do seu orçamento, a não inclusão dos 10% do orçamento [da União] tornou a Emenda Constitucional 29 quase inócua. O único aspecto positivo foi dizer o que é despesa de saúde, deixou isso mais claro e criou uma jurisprudência para evitar as tramoias que os estados e alguns municípios faziam. Mas não resolveu nada, continua o interdito para aumentar os recursos do SUS. E falta muito.

Se conseguíssemos as assinaturas para o projeto de lei que pede o investimento de 10% [da União], a estimativa é de R$ 50 bilhões ou R$ 60 bilhões a mais. Daria para dobrar o atendimento da atenção básica, qualificá-lo, melhorar formação e carreira, financiar, construir e custear 200 hospitais nas regiões mais carentes, aumentar ações de vigilância à saúde e promoção. Já seria muito importante, mas na verdade, para ter um sistema adequado, além de mudar o modelo de gestão, tem que dobrar o recurso. O SUS gasta 3,5% do PIB, teria que gastar 7%, 8%.

Agora, tem uma vacilação muito grande do governo federal e dos deputados em apoiar essa medida. Se for aprovada, existe ainda a discussão sobre para onde vai o dinheiro. E quando entra nessa discussão, a frente supostamente pró- SUS se rompe absolutamente. Boa parte dela quer corrigir e manter a forma de convênios e contratos, reajustando o valor dos procedimentos. Vai ser inútil. Esse recurso a mais tem que ser investido para ampliar a cobertura da atenção básica para 80% [da população], criar uma carreira da forma como eu estou te falando, construir e fazer funcionar hospitais públicos, diminuindo convênios e contratos e reincorporando ao SUS as OS e Oscips, fazendo o movimento contrário.

Cinco anos atrás, você disse que o financiamento era um nó, mas que não havia dinheiro porque o SUS não era querido. Se a população estivesse pedindo o SUS, conseguiríamos dinheiro. Isso mudou?
Eu sustento isso. Para comover a população e pressionar os governantes e o parlamento, precisávamos apontar para a população o que pode ser feito, com base no que já se está fazendo de melhor no SUS; o que pode ser aperfeiçoado, acrescido, no SUS. Estou apostando que o movimento sanitário consiga construir um projeto estratégico de modelo de gestão, carreira e reforçar um modelo de atenção segundo a tradição dos sistemas públicos do Canadá, Inglaterra, Suécia. A gente tem que apresentar isso à população, dizer que é possível, que é necessário e que o Brasil tem dinheiro. A luta por mais recursos sem dizer o que fazer com ele não tem muita possibilidade de romper o bloqueio da lógica econômica.
25 anos na eficácia da ideia de conceito ampliado de saúde...

Eu acho que esse é um ponto positivo do SUS. Não que todas as ações e práticas do SUS sejam coerentes com a visão ampliada do processo saúde-doença, mas ganhou muita força no Brasil uma crítica a essa visão biologicista da terapêutica centrada no medicamento. E eu acho que essa é uma marca específica positiva da Reforma Sanitária brasileira e do SUS, que é garantir não só o acesso, mas o acesso a outro modelo de atenção, a outro modelo de cuidado, que seja mais integral, que considere o biopsico- social, que valorize a autonomia e a clínica compartilhada com os usuários. Eu acho que isso está ganhando terreno. Aparece inclusive na mídia, na imprensa. Sobre a saúde mental, tem uma divisão, mas a nossa proposta aparece em novela, como sendo a melhor.

Saúde foi uma das principais reivindicações dessas manifestações desde junho. É do SUS que as ruas estão falando?
Nos últimos cinco anos, o elemento otimista foram essas manifestações. E é muito forte porque reivindicou acesso à política pública, transporte... A saúde não foi a principal, mas foi muito forte. A população disse que a vida na cidade está impossível. Foi um movimento urbano, na maior parte dos casos. Como garantir isso, eu acho que o movimento não colocou nem a população sabe: qual o modelo de atenção, como organizar, como fazer o SUS funcionar...

O movimento exige o acesso, o direito à saúde. E o setor privado está fazendo o discurso de que o acesso pode ser conseguido pela expansão da saúde suplementar, pelo aumento de convênios, pelo subsídio estatal, pela compra de serviços ao setor privado. E por trazer uma lógica de mercado, através de OS e semelhantes, para dentro do SUS público estatal que ainda existe. Essa batalha não está resolvida e nós temos que enfrentá-la junto à população. Há um reclame pelo direito à saúde e isso é muito importante.
Só que há um discurso que diz que o direito à saúde depende de um sistema nacional público de base estatal, com carreira, etc, que é o meu, nosso, de muita gente, e há outro discurso de que podemos garantir a universalidade pelo setor privado, basta o Estado financiar, comprar e regular. É o Estado mínimo regulador, que põe dinheiro público para o mercado fazer. Essa é a grande polêmica, o grande divisor de águas atual.

Cinco anos atrás, você disse que, logo na sequência da conquista do SUS, o Estado foi enfraquecido pela onda neoliberal. Hoje, o país vive o que se tem chamado de neodesenvolvimentismo. O Estado se fortaleceu?
A partir de meados do seu primeiro governo, Lula retomou uma política desenvolvimentista, a la Celso Furtado, adaptada ao contexto atual. É uma política de industrialização, desenvolvimento do mercado interno, aumento da renda do povo através do Bolsa Família, aumento do salário acima da inflação, microcrédito, fi nanciamento público.

O BNDES, a Caixa Econômica e o Banco do Brasil estão mais fortes. A capacidade de o Estado brasileiro negociar com empreiteira, por exemplo, teoricamente, está maior. Só que esse projeto desenvolvimentista não incluiu políticas públicas, como de educação e saúde públicas gratuitas. De políticas habitacionais há alguns ensaios. O forte são investimentos urbanos maciços.

Melhorou a renda de boa parte da população, o mercado interno se dinamizou, mas nós continuamos vivendo um caos. O negócio domina a cidade e a urbanização, com especulação imobiliária, empreiteiras. O negócio avança na área da saúde, botando limites na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), na saúde pública, fazendo negócio com atendimento hospitalar e especializado, com a venda de medicamentos. Eu acho que o desenvolvimentismo não nos protegeu. Esse desenvolvimentismo não tem um componente de bem-estar social forte, tem de aumento da renda de modo que, pelo aumento de salário, as pessoas possam comprar saúde suplementar, iogurte etc. Não é cidadão, é consumidor. Nossa proposta não é essa, o SUS é direito à saúde, direito à educação, à habitação, a viver numa cidade com transporte público. Tudo isso ficou muito fraco. Houve um tensionamento muito grande agora em junho sobre essa falha do desenvolvimentismo.

O nosso problema é que toda a oposição no Brasil é antidesenvolvimentista. E a gente teve nesse período o enfraquecimento dos movimentos sociais. Teve agora em junho esse movimento espontâneo, essa coisa da juventude, sem as entidades, mas houve, no mundo inteiro, uma cooptação, um esvaziamento dos movimentos, uma incapacidade da sociedade civil em colocar limites nessa hegemonia dos negócios. O desenvolvimentismo se aliança com setores muito atrasados da sociedade, muito antigos, do Maranhão, do Nordeste, de São Paulo, do narcotráfico. É um bloco de alianças muito complexo.

Originalmente, o movimento da reforma sanitária tinha uma base na sociedade civil organizada. Como isso está hoje no campo da saúde?
O neoliberalismo e mesmo esse desenvolvimentismo enfraqueceu os movimentos sociais. O Fernando Henrique entra e, como a Margareth Tatcher, a primeira coisa que faz é derrotar o sindicalismo. O narcotráfi co desarticula boa parte do movimento popular associativo. A igreja católica tinha um peso grande no Brasil e é desarmada pelo papa polonês, que entra e troca os bispos. Foi uma desarticulação muito grande desses movimentos que constituíram a reforma sanitária. Ficaram os intelectuais, o pessoal da saúde coletiva.

O movimento estudantil se afastou dessa discussão. A UNE é uma burocracia, uma vergonha, não representa os estudantes. O Diretório da Executiva Nacional de Medicina (Denem) ainda discute o SUS, mas a capacidade de envolver é baixa. A maior parte do sindicalismo das profissões de saúde assumiu um perfil corporativista: o dos médicos é quase caricatural, mas se pegar os farmacêuticos, os fisioterapeutas, parte do movimento da enfermagem só falam em [jornada de trabalho de] 30 horas.

O modelo, a defesa do paciente, do usuário se enfraqueceu muito, exceto entre os psicólogos. E quando esses sindicatos tratam do SUS, falam contra qualquer regime que não seja o estatutário tradicional, falam contra OS ou fundação privada não porque é ruim, porque fragmenta, mas porque o regime de contratação é CLT e não o estatutário, que também tem sido usado para desrespeitar o direito à saúde das pessoas. No SUS se manteve um movimento interinstitucional, pelas conferências.

Nesses cinco anos, teve a conferência de que eu fui o relator que, na minha avaliação, foi um risco n’água, usando a expressão do [Otavio] Ianni. Os movimentos de junho tiveram muito mais fortaleza. Agora o sucesso do SUS depende da recomposição contemporânea – não pode ser a antiga – de um movimento em defesa do direito à saúde e do SUS.

O movimento sanitário não acabou?
Não, porque se renova. Movimento é um sujeito coletivo e sujeitos coletivos demoram mais tempo para morrer. Eles têm uma espécie de reencarnação. O movimento sanitário se fortaleceu muito com movimentos de trabalhadores não ligados às suas entidades profi ssionais, mas ligados a determinados projetos que compõem o SUS, como o Saúde da Família, a luta contra a Aids, a nova Saúde Mental. Mesmo o movimento da Humanização, HumanizaSUS, apesar de ser uma política do governo, é hoje em dia mais um movimento social de valorização do direito do usuário, de democracia institucional. Em Campinas, nos últimos seis, oito anos, o SUS está sendo desconstruído. E já vinha saindo movimento de rua antes de junho.

Quando estavam desconstruindo a reforma da saúde mental aqui, que é bem ampla, tinha 800, mil pessoas de várias extrações, convocadas também por internet, na Câmara. Nesse período de crise do movimento social, a defesa do SUS fi cou muito por conta dos gestores, Conass, Conasems. E, com todo respeito, gestor fi ca muito nessa lógica institucional e não tem autonomia e iniciativa para comprar esses confrontos abertamente como seria necessário. Mas eu acho que o movimento sanitário está se recompondo, é a minha esperança. Abrasco, Cebes, essas velhas entidades estão com cara nova. Mas de vez em quando o Estado coopta.

25 anos atrás, preparação e realização da Constituinte: há erros e perdas que já remetem àquele momento e cujas consequências a gente vive ainda hoje?
Com certeza tem. Mas eu acho que nesses 25 anos aconteceram três fenômenos entrelaçados. Resumindo: o Brasil melhorou para a maioria da população nos direitos, direitos da mulher, luta contra o racismo. Acho que estamos mais fortes. Ao mesmo tempo, houve uma industrialização, uma financeirização no Brasil. O Brasil é um país capitalista forte. Não é o capitalismo brasileiro, mas há um capitalismo globalizado no Brasil muito forte, com mercado interno muito forte, o setor financeiro muito forte, a lógica dos negócios, lógica liberal da competição cultural muito forte. E ao mesmo tempo se fortaleceu ou não foi eliminado, apesar de a gente viver em república e democracia, o Estado clientelista, privatizado, voltado para os negócios e não para a defesa da cidadania. Esse capitalismo no Brasil se compôs com o atraso, com o clientelismo. Nessa mistura, o Brasil é melhor, mas continua muito injusto, muito desigual.

A vida é muito áspera, o contrato é muito desrespeitado. O contrato empresarial é sagrado, mas o contrato de trabalho não é sagrado, ao contrário, pode ser rasgado a qualquer momento. Agora, tem um setor grande da sociedade brasileira, independentemente de estar organizado em movimento ou não, que tem um pensamento pelo direito, pelos direitos humanos, pela democracia republicana. São 20%, 30% da população, como nós temos 20%, 30% muito conservadores, preconceituosos, racistas, pró-mercado.

Esse Estado clientelista e o empresariamento da sociedade brasileira limitou os avanços sociais, inclusive na saúde e na educação. O fato de professor de ensino médio ganhar o que ganha é um sintoma gravíssimo disso. Todos esses entraves do SUS são sintomas gravíssimos disso. Nós não podemos ter um setor estatal forte, ágil, autônomo, fora do clientelismo, fora da politicagem partidária, comprometido com os usuários e com a racionalidade do direito à saúde.

Estamos tentando construir isso dentro dos conflitos, porque isso atesta a possibilidade de construir uma sociedade solidária e democrática. No fundo, eu diria que o sonho do Salvador Allende continua: será que é possível construir justiça social, solidariedade, socialismo – a gente nem sabe direito o que é socialismo – com democracia, com participação? Essa é a questão.

É possível?
Eu aposto nisso. Como já houve derrotas antes, de um médico inclusive, o Salvador Allende, eu sei que é uma aposta, não é uma certeza. Eu não tenho certeza. Mas prefiro assim, porque o contrário eu não quero.

FONTE: BRASIL DE FATO

‘Vou enfrentar o racismo até morrer’, diz o rapper Emicida



Cantor fala sobre preconceito, a morte do pai e a vida em família afetada pela carreira, temas das músicas ‘Crisântemo’ e ‘Hoje cedo’
Artista recebe Tulipa Ruiz e Wilson das Neves no Circo Voador, este sábado, durante primeiro show no Rio após lançamento de disco novo




Os óculos escuros não tiravam o cansaço do rosto. Músico e empresário de si mesmo, dono de um selo e responsável pela produção de tudo na sua turnê, Emicida chegou à sede do GLOBO com cara de escritório, num dia dedicado a entrevistas para divulgar seu show deste sábado no Circo Voador.

Vai ser a primeira apresentação no Rio depois do lançamento de “O glorioso retorno de quem nunca esteve aqui”, primeiro disco de estúdio do rapper que há anos é o protagonista do seu gênero no Brasil. Extremamente confessional, o álbum exigiu do artista coragem pra abordar de forma direta assuntos pessoais como a morte do pai, tema de “Crisântemo”; e os danos que a carreira causou no convívio com suas próprias mulher e filha, enredo de “Hoje cedo”.

Em 40 minutos de entrevista, Leandro Roque de Oliveira, de 28 anos, falou abertamente sobre esses e outros temas, como preconceito racial, as acusações de machismo por causa da faixa "Trepadeira" e o sonho de publicar uma HQ.

Leia, abaixo, a entrevista.

Depois de toda a projeção que você já conquistou, qual a importância desse primeiro disco de estúdio?
Só conseguimos estrutura pra gravar o disco agora, e esse processo também foi de amadurecimento musical. As minhas mixtapes foram feitas de forma rápida, barata e solitária. O beatmaker mandava o instrumental pela web e eu gravava a voz. Ele na solidao dele e eu na minha. Mas música tem que gerar uma historia, o convívio no estudio faz a música evoluir, e a energia dessa vivência também vai para o álbum. Conversei muito com o Felipe Vassão (produtor) sobre o Norte do CD, que é a musica brasileira dos últimos 100 anos com a pegada contemporânea do rap.

As participações de Tulipa Ruiz, Wilson das Neves, MC Guimê, Pitty e vários outros mostram influências de diferentes gêneros no disco...
Foi natural, tem a ver com São Paulo. Minha música é um espelho de São Paulo, caótica, com informação bombardeando a gente o tempo todo. Às vezes, parece desconexo. Queria que os convidados contribuíssem com as verdades deles. Quando terminei “Hoje cedo”, percebi que a Pitty era a garota que poderia imprimir aquela verdade, que sentiria a importância de se contar essa historia.

“Crisântemo” tem participação da sua mãe e fala sobre o alcoolismo do seu pai, que morreu numa briga de bar. Como foi pra você lidar com o tema?
Rap fala muito de vencedor, o cantor dizendo “olha como sou foda”. “Crisântemo” fala sobre uma derrota. Uma derrota que não diminui uma pessoa, mas é a derrota de uma familia para um mundo violento. Se aproxima muito de “Iracema”, do Adoniran Barbosa, que fala de morte, solidão e lembrança. “Crisântemo” fala disso também, da perspectiva de uma criança que virou adulto e de uma mulher que ficou sozinha com quatro filhos, segurando esse BO. No final das contas, sou um contador de histórias.

Qual a história por trás desse rap?
É a minha história e da minha mãe. Perdi meu pai com 6 anos, em 1991, e nunca mais tocamos nesse assunto. A morte nunca foi um tema. Muita gente da minha família morreu, a gente foi nos velórios, mas nunca falou disso. Pulei de cabeça nesse assunto e quis muito trazer a perspectiva da minha mãe. O disco todo tem muita participação feminina mas, no caso dessa música, com a minha mãe, isso ganha tom visceral. A presença dela também expõe a perspectiva da mulher preta da favela, pra falar de ausência do estado, da periferia, da violência, do candomblé...
Sua história também é uma história de racismo?
Sim. Sofri mais na infância. O racismo é muito mais cruel com as crianças, porque ele destrói a autoestima num momento em que a gente não faz idéia do que seja racismo. Falei disso na música “Cê lá faz ideia” (da mixtape “Emicidio”, de 2010), que diz “Cê sabe o quanto é comum dizer que preto é ladrao, antes mesmo de saber o que é um”. Mas enfrento o racismo até hoje e não vou deixar de enfrentar até eu morrer. Talvez o filho da minha filha seja livre. Minha geração ainda colhe os frutos ruins das anteriores, que ouviram dizer que a escravidão tinha acabado e que a miséria era culpa deles. Nossas cotas raciais estão 127 anos atrasadas.

“Hoje Cedo” aborda um tema também pessoal, sobre como a sua carreira afetou a vida com sua família...
“Hoje cedo” fala sobre algo que vivi desde o barraco na favela até hoje. Sobre a ilusão das pessoas de achar que a vida do artista é uma festa. Não, sou um guerrilheiro de rua. “Hoje cedo” fala de eu sentir minha ausência com minha filha. Abri mão de estar com ela pra fazer o que mais amo, mas o que mais amo hoje é estar com ela. É como se as duas coisas conflitassem.

Quando você percebeu isso?
Não vi a gravidez da minha mulher nem os primeiros anos da minha filha. Me tornei pai no momento em que minha carreira ascendeu. Estava rodando o país, programando mixtape, me tornando um artista internacional. Mas, como a minha mãe diz, de nada adianta conquistar o mundo, olhar pra trás e dizer “vou dividir isso com quem?”. Me desconectei da vida pessoal para abraçar as responsabilidades de representante do rap nacional. Tenho orgulho desse papel, mas aprendi que, hoje, posso abdicar de certas coisas, adiar uma entrevista ou até um show, para ficar mais tempo com a minha filha. Hoje, entendo que tudo tem seu tempo e que a gente tem todo o tempo que precisa.

A música “Trepadeira” gerou críticas de grupos feministas, que acharam a letra machista e ofensiva a mulheres
Adoro trepadeira (risos). Na vida real e na musica... Acho importante não desqualificar o tema, precisamos debater o machismo, mas, nesse caso, foi um equívoco da parte das feministas. A música fala do fim de um relacionamento, de um homem traído. É um flerte com a ficção, inspirado em Moreira da Silva, Dicró e outros que me influenciaram muito. Além de tudo, é horrivel ter que explicar uma piada.

Mas como você recebeu as críticas? Se sentiu patrulhado?
Eu nunca tinha sido vidraça na mídia. Aprendi que as pessoas são bem crueis quando querem. Mas as pessoas que cruscificaram o Emicida por trepadeira não têm ideia do que estou fazendo. Minha musica é uma viagem. Se você chegar lá e não entender, não é culpa do motorista. Eu só proponho o tema. Cheguei a pedir desculpas no Facebook, dizendo que não queria ofender ninguém com a música. Mas, quando vi as pessoas ironizando minhas desculpas, percebi que a intenção não era o diálogo. As pessoas perdem o tema de vista pra atacar uns aos outros. Na rede social todo mundo é policia. Se você coçar a cabeça, vão dizer que tem piolho.

Você acha suas letras difíceis?
Minha musica é chata, cara. É dificil, não é o lugar comum que as pessoas esperam do rap. Algumas têm flerte mais simples, como “Zoião” (incluída na trilha sonora da novela “Sangue bom”). Mas minhas referências são lugares esquisitos pra muita gente. Quando vejo que tem muito jovem no meu público, penso que é porque não perderam a curiosidade. Muitos sentem mas não entendem. Se for perguntar o que achou, o cara pode falar de outra coisa. Pior coisa é as pessoas saberem o que você vai dizer no palco. Digo coisas às vezes desconexas, mas que fazem sentido no contexto, são o entender e o sentir. Não busque ordem no que faço.

Fala um pouco desse primeiro show no Rio com o CD novo...
O show vai ser foda, pela primeira vez na vida tenho o disco que eu queria e o show que eu queria. Montamos um formato sem bateria, com percussão monstra e DJ dando o Norte. Tem baixo, guitarra, cavaco... É a sintese do poder da rítmica brasileira, mas com algo da música internacional, que é a maneira como as bases soam. Essa mistura cria uma identidade até com as pessoas que não estão muito acostumadas com o rap. Vamos ter também participações de Tulipa Ruiz, Wilson das Neves, Quinteto em Branco e Preto e uma surpresa. O show vai ter toda a nossa estrutura de luz e som. Sempre quis fazer algo especial assim no Rio.

Para terminar, quais são seus próximos planos?
Quero escrever meus quadrinhos. Voltei a desenhar, estou estudando, quero contar historia de outro jeito. Não tem obrigação de ficar só no rap. Eu dirigi um clipe este ano. Sou teimoso... Gostaria de reverberar na literatura como na música, fazer a mesma galera que vai ao show discutir de literatura. Preciso fazer isso.

FONTE: O GLOBO

Fascismo brasileiro revisitado


No rastro de manifestações violentas, historiadores analisam movimentos totalitários do passado




Cinco meses depois do início das manifestações populares Brasil afora, o padrão, em boa parte delas, continua o mesmo. Os protestos, inicialmente pacíficos, terminam em confronto entre dezenas de homens encapuzados e policiais. O quebra-quebra promovido pelo movimento fez a presidente Dilma Rousseff endurecer o seu discurso. Na semana passada, em entrevista a rádios, ela empregou o termo “fascista” para denunciar os radicais que tomam as ruas vestidos de preto. O discurso da presidente provoca uma reflexão histórica sobre a entrada no país de ideologias posteriormente repudiadas: o suposto fascismo que inspirou lideranças do Estado Novo de Getúlio Vargas e o anarquismo que seduziu operários da nascente indústria brasileira.

- Devemos repudiar integralmente o uso da violência, e mais, o fato de que o uso dela se dá tampando a face das pessoas - afirmou a presidente. - Destroem patrimônio público e privado, provocam ferimentos, machucam e mostram, não a civilidade da democracia, mas a barbárie.
O sociólogo Marcos Cezar de Freitas, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), concorda com a existência de traços fascistas entre os atuais manifestantes violentos.

- Há, de fato, uma associação - assegura. - Vemos uma violência característica, a negação da política institucionalizada, como os partidos políticos e o Parlamento. E, também, a produção de inimigos generalizados para os ataques, como a destruição de locais simbólicos para a democracia.
Freitas, no entanto, acredita que a ideologia assumiu, agora, um teor diferente daquele visto no país entre 1937 e 1945, na ditadura do Estado Novo. Na época, o fascismo brasileiro flertava com o governo italiano, conduzido por Benito Mussolini desde 1922, e que também inspirou, 11 anos depois, a ascensão de Adolf Hitler na Alemanha.

- Na década de 1930, os fascistas integravam um partido, a Ação Integralista Brasileira (AIB) - lembra Freitas, autor do livro “Integralismo: fascismo caboclo”. - Ou seja, eles participavam do jogo político. Os membros da AIB eram nacionalistas e vários descambaram para a militância fascista.

O uso de máscaras, de acordo com Freitas, é outra ligação entre os atuais black blocs e o antigo fascismo. Recorrer ao anonimato, segundo ele, facilita a adesão de vândalos e a imposição do terror. A tática não é nova.

- Ocultar o rosto é parte da lógica fascista, a da violência pela violência - ressalta. - Todas as ideias divulgadas por estes grupos foram resgatadas de algum lugar, mesmo que seja de um trecho de uma música, e distorcidas até transmitirem a mensagem destes radicais.

Já o professor de História Contemporânea da UFF, Daniel Aarão Reis discorda de qualquer associação entre fascistas e o atual movimento dos black blocs.

- O termo fascismo foi banalizado. Serve para qualquer coisa, e Dilma o usou como uma jogada de marketing - condena. - Esta corrente política é um tema histórico muito delimitado e cuja face original foi praticamente extinta, à exceção de alguns grupos neonazistas na Europa.

Reis interpreta o fascismo como um movimento restrito àquele concebido por Mussolini - é a ideologia que chega ao poder com amplo apoio popular, embora seja fortemente antidemocrática. No Brasil, ela se manifestou apenas durante o Estado Novo, entre as décadas de 1930 e 1940. Ainda assim, esta identificação foi pontual e rapidamente cortada pelos EUA, quando Vargas foi pressionado pela Casa Branca a lutar a seu lado na Segunda Guerra Mundial.

- Vargas, entre 1939 e 1940, namorou o fascismo. Seu sucessor, Eurico Gaspar Dutra (1946-1951), não era fascista, mas admirava características daquele movimento, como a ordem, o progresso e o nacionalismo - explica.

- Houve a figura sinistra do chefe da polícia política, Filinto Müller, que torturava opositores do Estado Novo, mas ele recuou anos depois.

Um dos organizadores de “História do anarquismo no Brasil”, Reis acredita que os black blocs inspiram-se mais no anarquismo, que nega qualquer tipo de governo. O berço do movimento foi a Europa pós-Revolução Industrial, no século XVIII.

Nas décadas seguintes o movimento perdeu força para o comunismo, que defendia um governo centralizador. O anarquismo só manteve influência no Sul da Europa, principalmente na Itália. A migração em massa de seus militantes para as Américas e o tom internacionalista desta corrente política conquistaram trabalhadores das metrópoles brasileiras, especialmente nas fábricas, e levou à formação de sindicatos. Sua influência, no entanto, sofreu um novo golpe, desta vez imposto pelos industriais, com a crescente hierarquização da produção.

O anarquismo manteve-se no ocaso por décadas, mas, segundo Reis, renasceu nos anos 1990, com a difusão da internet. E, agora, tem um terreno ainda mais fértil do que quando era conhecido apenas por operários.

- A proposta anarquista tem como base uma organização horizontal. Todos têm o mesmo poder. Por isso, ela estava totalmente fora de órbita no início do século passado - explica o historiador. - Hoje, a internet proporciona uma maior difusão de suas ideias, que eram restritas a jornais de sindicatos.

Para ele, a negação da política partidária, uma das bandeiras dos manifestantes, empolga a população. Reis destaca que, em certos casos nas últimas eleições, mais de metade do eleitorado se absteve ou votou nulo ou em branco.

- O anarquismo ganhou espaço. Nem sempre ele é sinônimo de violência. Recorrer ao vandalismo é contraproducente e isola estes grupos dos movimentos sociais - ressalta. - O fato é que ele se aproveita da falta de credibilidade do poder público.

FONTE: O GLOBO

Seminário da Consciência Negra de Pelotas






Nos dias 14, 17, 18, 21 e 22 de novembro ocorre o V Seminário da Consciência Negra de Pelotas (V SECONEP) organizado pelo Grupo Design, Escola e Arte.

Na quinta edição do evento, o Seminário terá como tema central a juventude pelotense, especialmente de etnia negra, evidenciando a atuação dos jovens no movimento negro e nas mais diversas questões que se incluem a luta pelo fim do preconceito e a igualdade de oportunidades. Saúde, direitos humanos, mercado de trabalho, o conhecimento de sua própria cultura e os dez anos da Lei 10.639 serão alguns dos temas a serem abordados.

Focados nas ações que elevam o conhecimento e o crescimento moral e intelectual, o V SECONEP homenageará aqueles que fazem das questões raciais uma luta constante em suas vidas, a Juventude Negra de Pelotas, não obstante, homens que lutaram pela preservação da cultura e defesa dos direitos da população negra: Rubinei Machado e Mestre Baptista.

Programação:

14 de Novembro:
Local: ICH (Instituto de Ciências Humanas).
Manhã: Das 8h às 11h45min: Apresentação de Experiências e Trabalhos Científicos em Cumprimento a Lei 10.639.
Tarde: Das 14h às 18h: Minicurso: Preservação do patrimônio negro brasileiro através acervo fotográfico e da poesia de Oliveira Silveira – Ministrado pela Mestranda Geanine Vargas Escobar – Bacharel em Conservação e Restauro de Bens Culturais Móveis UFPel – RS e Mestranda em Memória Social e Patrimônio Cultural – UFPel – RS.

17 de novembro:
Quizomba na Baronesa.
Oficinas de percussão, instrumentos, estêncil, turbantes, fotografia, Hip-hop, grafitti, customização, entre outras.
Início: 14h - Término: 18h30min.

18 de novembro:
Brasil sem Preconceito - Local: ASSUFPEL – Quinze de Novembro 262
Apresentações culturais e cinematográfica com a exibição do documentário “O grande Tambor”.
Início 13h30min - Término: 20h com roda de samba de raíz.

21 de novembro:
Ciclo de Palestras - Local: Centro de Integração do Mercosul – Rua Andrade Neves, 1529
Noite Palestras sobre juventude Negra e ações educacionais,culturais em prol da juventude.
Início: 18h30min - Término: 21h30min.

22 de novembro:
Juventude Negra em Ação - Local: Centro das Artes – Rua Alberto Rosa, 62
Tarde - Ciclo de palestras sobre diversos temas relacionados às ações em prol da juventude.
Início: 13h30min. - Término: 18h.

A realização deste evento somente será possível graças ao apoio da Pró-reitoria de Extensão universitária/UFPel; 5ª CRE; ASUFPel; Associação de Cabos e Soldados da Brigada Militar; Associação de Subtenentes e Sargentos da Brigada Militar; SECULT; Secretaria Municipal de Justiça Social; Sindic. Dos Trabalhadores da Alimentação; America Latina Presentes; Aquatintas; Livraria D. Pedro I e Papelaria Alternativa.

Inscrições ou mais informações no endereço eletrônico: seconep.blogspot.com.br.

Primeira-dama de Nova Iorque: negra e bissexual


A nova primeira-dama de Nova York, Chirlane McCray, tem uma vida que chama mais a atenção do que seu marido, Bill de Blasio, recém eleito prefeito da cidade.

Esta mulher negra, nasceu na cidade de Springfield. Lá ela viveu até 10 anos de idade quando seu pai, um funcionário do militar, decidiu se mudar para Longmeadow, um lugar que Chirlane McCray descobriu que o mundo não era tão justo quanto ela acreditava e levou-a a tornar-se poeta, escritora e a figura política que é hoje.

Na época da mudança, os vizinhos receberam a família pedindo-lhes para deixar o bairro. Eles foram a segunda família de negros na área e ela a estudante negra na escola. Seus colegas de classe brincavam com ela por causa da cor da pele, então ela calmamente se refugiou nos poemas que escreveu como uma válvula de escape para sua raiva reprimida. Esta foi a sua primeira abordagem ao racismo e intimidação, o que chamam agora de “bullying”.

McCray não sentiu-se triste, mas a raiva a levou a escrever, de expressar até no seu jornal da escola sobre o seu descontentamento. Assim que se formou, ela foi para Nova York, a metrópole onde, finalmente, seus escritos foram ecoadas. Em 1979, no auge da libertação da mulher escreveu um ensaio intitulado “Eu sou lésbica”. A carta tinha a intenção de desmistificar o ditado “Não negro é gay”. Foi publicado em uma revista onde McCray foi a primeira negra que ousou falar abertamente sobre sua sexualidade. “Em 1970, eu me identificava como lésbica e escrevi sobre isso. Em 1991, eu conheci o amor da minha vida e me casei com ele “, confessou em 2012.

Em 1991, ela passou a trabalhar como prefeito David Dinkins em Nova York, onde conheceu Bill de Blasio, de ascendência alemã e italiana. Ela escreveu discursos, enquanto ele atuava como vice-prefeito. Em meio às vicissitudes políticas se apaixonou e se casou três anos depois. Hoje eles têm dois filhos Clara e Dante, que se tornaram alvo de críticas por seus cabelos afro e pelas tranças. Na campanha de seu marido para prefeito de Nova York, foi ela quem editou as falas e entrevistou candidatos para cada posição.

Hoje McCray já entrou para a história como a primeira pessoa mulher bissexual que ocupa o cargo de primeira-dama no país. “Eu realmente nunca namorei nenhum homem. Então eu pensei: Uau, o que é isso? Agora eu me sinto atraído por homens. Eu fui atraída por Bill. Ele era a pessoa perfeita para mim. Como duas pessoas muito diferentes, mas temos muito em comum. Somos um casal muito convencional, não convencional “.

Fonte: Las2Orillas Tradução: Correio Nagô

“CAPOEIRA É TUDO QUE A BOCA COME”






Esta definição genial sobre a capoeira foi elaborada pelo não menos genial, Mestre Pastinha, quando inquirido, numa entrevista, sobre o que seria a Capoeira.

E tem sido com este espírito de liberdade, irreverência e ousadia que a Capoeira e os capoeiristas, têm enfrentado ao longo da vida toda sorte de preconceito e perseguições. Recentemente, na cidade do Salvador, participei de uma audiência pública, promovida pela Câmara Municipal de Vereadores, quando mais uma vez, presenciei a indignação de mais de uma centena de capoeiristas com mais um desses ataques a capoeira, desta vez, sob o pseudônimo da “esportivização”.

Para quem não sabe, tramitam no Congresso Nacional, dois projetos de lei que visam regulamentar a Capoeira, supostamente para profissionalizá-la e dotá-la das condições necessárias à sua inserção como esporte olímpico. Em verdade, segundo os mestres de capoeira presentes na audiência, esta é mais uma investida, mal disfarçada, do Conselho Nacional de Educação Física (Confef) e seus aliados, para enquadrar a capoeira exclusivamente na dimensão esportiva e aprisioná-la aos seus interesses e regras.

Os danos, caso esses projetos se viabilizem, são imensos, vão desde a subordinação da capoeira e dos capoeiristas aos ditames do Confef, passando pela ilegalidade de supressão da sua dimensão cultural, visto que a capoeira foi registrada como patrimônio cultural brasileiro, pelo IPHAN, no ano de 2008, na gestão do Ministro Gilberto Gil, até a expulsão ou impedimento de acesso ao mercado de trabalho de todos os capoeiristas que não possuam título universitário de formação em Educação Física. Seria um golpe mortal nos milhares de mestres tradicionais, que nos bairros populares de nossas cidades, ensinam, educam e socializam milhões de jovens excluídos de quaisquer possibilidades na vida. Mas a voracidade do Confef, no seu afã “regulamentatório” não se limita à capoeira, busca alcançar e controlar, também os praticantes da yoga, da dança e até mesmo do pilates. Mas, ao que tudo indica a briga não será fácil, pois todos estão se articulando e mobilizando para fazer frente a mais esta aberração.

Este imbróglio se arrasta desde 2005, quando fiscais dos Conselhos Regionais de Educação Física (Cref) de maneira arbitrária e ilegal, saíram ameaçando, multando e exigindo filiação à força de milhares de academias, escolas de dança e estúdios de yoga e pilatis pelo Brasil afora. O Ministério da Cultura, acionado por capoeiristas e dançarinos, não se fez de rogado. O Ministro Gilberto Gil e seu sucessor Juca Ferreira, sensibilizados com a questão, entraram em campo e adotaram medidas fortes e concretas para o enfrentamento da situação: Registraram, por meio do Instituto de Patrimônio Artístico e Cultural Nacional, a Roda da Capoeira – “que é um elemento estruturante desta manifestação, espaço e tempo, onde se expressam simultaneamente o canto, o toque dos instrumentos, a dança, os golpes, o jogo, a brincadeira, os símbolos e rituais de herança africana…” e o Ofício dos Mestres de Capoeira – “… saber transmitido pelos mestres formados na tradição da capoeira e como tal reconhecidos por seus pares…”. Além disto, criou o Programa Capoeira Viva, que apoiou, estimulou e premiou centenas de grupos de capoeira em atividade no país. Mais ainda, criou um grupo de trabalho no âmbito do Ministério da Cultura, para elaborar o Programa de Salvaguarda da Capoeira, enquanto manifestação cultural. Foi um período de alento e esperança para os capoeiristas em sua luta permanente pela dignificação da capoeira.

Pelo visto, o Confef voltou à carga e com toda força, via Congresso Nacional, e mais uma vez, os capoeiristas baianos, honrando sua tradição de resistência e luta estão dando o alerta para o enfrentamento desta forma excludente e reducionista com que pretendem classificar a capoeira. Na verdade, estão fazendo valer, aquilo que se encontra no livro de registro do Iphan – …A capoeira é uma manifestação cultural presente hoje em todo o território brasileiro e em mais de 150 países, com variações regionais e locais criadas a partir de suas “modalidades” mais conhecidas: as chamadas “capoeira angola” e “capoeira regional”.

Enfim, o que todos esperam é que o Congresso Nacional dialogue com os capoeiristas e não privilegiem aqueles que querem fazer da capoeira apenas um negócio, honrando assim o mestre dos mestres – Pastinha, para quem: “a capoeira é tudo que a boca come”.
Axe!

Toca a zabumba que a terra é nossa!


FONTE: PORTAL AFRICAS