Valoriza herói, todo sangue derramado afrotupy!

domingo, novembro 10, 2013

‘Vou enfrentar o racismo até morrer’, diz o rapper Emicida



Cantor fala sobre preconceito, a morte do pai e a vida em família afetada pela carreira, temas das músicas ‘Crisântemo’ e ‘Hoje cedo’
Artista recebe Tulipa Ruiz e Wilson das Neves no Circo Voador, este sábado, durante primeiro show no Rio após lançamento de disco novo




Os óculos escuros não tiravam o cansaço do rosto. Músico e empresário de si mesmo, dono de um selo e responsável pela produção de tudo na sua turnê, Emicida chegou à sede do GLOBO com cara de escritório, num dia dedicado a entrevistas para divulgar seu show deste sábado no Circo Voador.

Vai ser a primeira apresentação no Rio depois do lançamento de “O glorioso retorno de quem nunca esteve aqui”, primeiro disco de estúdio do rapper que há anos é o protagonista do seu gênero no Brasil. Extremamente confessional, o álbum exigiu do artista coragem pra abordar de forma direta assuntos pessoais como a morte do pai, tema de “Crisântemo”; e os danos que a carreira causou no convívio com suas próprias mulher e filha, enredo de “Hoje cedo”.

Em 40 minutos de entrevista, Leandro Roque de Oliveira, de 28 anos, falou abertamente sobre esses e outros temas, como preconceito racial, as acusações de machismo por causa da faixa "Trepadeira" e o sonho de publicar uma HQ.

Leia, abaixo, a entrevista.

Depois de toda a projeção que você já conquistou, qual a importância desse primeiro disco de estúdio?
Só conseguimos estrutura pra gravar o disco agora, e esse processo também foi de amadurecimento musical. As minhas mixtapes foram feitas de forma rápida, barata e solitária. O beatmaker mandava o instrumental pela web e eu gravava a voz. Ele na solidao dele e eu na minha. Mas música tem que gerar uma historia, o convívio no estudio faz a música evoluir, e a energia dessa vivência também vai para o álbum. Conversei muito com o Felipe Vassão (produtor) sobre o Norte do CD, que é a musica brasileira dos últimos 100 anos com a pegada contemporânea do rap.

As participações de Tulipa Ruiz, Wilson das Neves, MC Guimê, Pitty e vários outros mostram influências de diferentes gêneros no disco...
Foi natural, tem a ver com São Paulo. Minha música é um espelho de São Paulo, caótica, com informação bombardeando a gente o tempo todo. Às vezes, parece desconexo. Queria que os convidados contribuíssem com as verdades deles. Quando terminei “Hoje cedo”, percebi que a Pitty era a garota que poderia imprimir aquela verdade, que sentiria a importância de se contar essa historia.

“Crisântemo” tem participação da sua mãe e fala sobre o alcoolismo do seu pai, que morreu numa briga de bar. Como foi pra você lidar com o tema?
Rap fala muito de vencedor, o cantor dizendo “olha como sou foda”. “Crisântemo” fala sobre uma derrota. Uma derrota que não diminui uma pessoa, mas é a derrota de uma familia para um mundo violento. Se aproxima muito de “Iracema”, do Adoniran Barbosa, que fala de morte, solidão e lembrança. “Crisântemo” fala disso também, da perspectiva de uma criança que virou adulto e de uma mulher que ficou sozinha com quatro filhos, segurando esse BO. No final das contas, sou um contador de histórias.

Qual a história por trás desse rap?
É a minha história e da minha mãe. Perdi meu pai com 6 anos, em 1991, e nunca mais tocamos nesse assunto. A morte nunca foi um tema. Muita gente da minha família morreu, a gente foi nos velórios, mas nunca falou disso. Pulei de cabeça nesse assunto e quis muito trazer a perspectiva da minha mãe. O disco todo tem muita participação feminina mas, no caso dessa música, com a minha mãe, isso ganha tom visceral. A presença dela também expõe a perspectiva da mulher preta da favela, pra falar de ausência do estado, da periferia, da violência, do candomblé...
Sua história também é uma história de racismo?
Sim. Sofri mais na infância. O racismo é muito mais cruel com as crianças, porque ele destrói a autoestima num momento em que a gente não faz idéia do que seja racismo. Falei disso na música “Cê lá faz ideia” (da mixtape “Emicidio”, de 2010), que diz “Cê sabe o quanto é comum dizer que preto é ladrao, antes mesmo de saber o que é um”. Mas enfrento o racismo até hoje e não vou deixar de enfrentar até eu morrer. Talvez o filho da minha filha seja livre. Minha geração ainda colhe os frutos ruins das anteriores, que ouviram dizer que a escravidão tinha acabado e que a miséria era culpa deles. Nossas cotas raciais estão 127 anos atrasadas.

“Hoje Cedo” aborda um tema também pessoal, sobre como a sua carreira afetou a vida com sua família...
“Hoje cedo” fala sobre algo que vivi desde o barraco na favela até hoje. Sobre a ilusão das pessoas de achar que a vida do artista é uma festa. Não, sou um guerrilheiro de rua. “Hoje cedo” fala de eu sentir minha ausência com minha filha. Abri mão de estar com ela pra fazer o que mais amo, mas o que mais amo hoje é estar com ela. É como se as duas coisas conflitassem.

Quando você percebeu isso?
Não vi a gravidez da minha mulher nem os primeiros anos da minha filha. Me tornei pai no momento em que minha carreira ascendeu. Estava rodando o país, programando mixtape, me tornando um artista internacional. Mas, como a minha mãe diz, de nada adianta conquistar o mundo, olhar pra trás e dizer “vou dividir isso com quem?”. Me desconectei da vida pessoal para abraçar as responsabilidades de representante do rap nacional. Tenho orgulho desse papel, mas aprendi que, hoje, posso abdicar de certas coisas, adiar uma entrevista ou até um show, para ficar mais tempo com a minha filha. Hoje, entendo que tudo tem seu tempo e que a gente tem todo o tempo que precisa.

A música “Trepadeira” gerou críticas de grupos feministas, que acharam a letra machista e ofensiva a mulheres
Adoro trepadeira (risos). Na vida real e na musica... Acho importante não desqualificar o tema, precisamos debater o machismo, mas, nesse caso, foi um equívoco da parte das feministas. A música fala do fim de um relacionamento, de um homem traído. É um flerte com a ficção, inspirado em Moreira da Silva, Dicró e outros que me influenciaram muito. Além de tudo, é horrivel ter que explicar uma piada.

Mas como você recebeu as críticas? Se sentiu patrulhado?
Eu nunca tinha sido vidraça na mídia. Aprendi que as pessoas são bem crueis quando querem. Mas as pessoas que cruscificaram o Emicida por trepadeira não têm ideia do que estou fazendo. Minha musica é uma viagem. Se você chegar lá e não entender, não é culpa do motorista. Eu só proponho o tema. Cheguei a pedir desculpas no Facebook, dizendo que não queria ofender ninguém com a música. Mas, quando vi as pessoas ironizando minhas desculpas, percebi que a intenção não era o diálogo. As pessoas perdem o tema de vista pra atacar uns aos outros. Na rede social todo mundo é policia. Se você coçar a cabeça, vão dizer que tem piolho.

Você acha suas letras difíceis?
Minha musica é chata, cara. É dificil, não é o lugar comum que as pessoas esperam do rap. Algumas têm flerte mais simples, como “Zoião” (incluída na trilha sonora da novela “Sangue bom”). Mas minhas referências são lugares esquisitos pra muita gente. Quando vejo que tem muito jovem no meu público, penso que é porque não perderam a curiosidade. Muitos sentem mas não entendem. Se for perguntar o que achou, o cara pode falar de outra coisa. Pior coisa é as pessoas saberem o que você vai dizer no palco. Digo coisas às vezes desconexas, mas que fazem sentido no contexto, são o entender e o sentir. Não busque ordem no que faço.

Fala um pouco desse primeiro show no Rio com o CD novo...
O show vai ser foda, pela primeira vez na vida tenho o disco que eu queria e o show que eu queria. Montamos um formato sem bateria, com percussão monstra e DJ dando o Norte. Tem baixo, guitarra, cavaco... É a sintese do poder da rítmica brasileira, mas com algo da música internacional, que é a maneira como as bases soam. Essa mistura cria uma identidade até com as pessoas que não estão muito acostumadas com o rap. Vamos ter também participações de Tulipa Ruiz, Wilson das Neves, Quinteto em Branco e Preto e uma surpresa. O show vai ter toda a nossa estrutura de luz e som. Sempre quis fazer algo especial assim no Rio.

Para terminar, quais são seus próximos planos?
Quero escrever meus quadrinhos. Voltei a desenhar, estou estudando, quero contar historia de outro jeito. Não tem obrigação de ficar só no rap. Eu dirigi um clipe este ano. Sou teimoso... Gostaria de reverberar na literatura como na música, fazer a mesma galera que vai ao show discutir de literatura. Preciso fazer isso.

FONTE: O GLOBO

Fascismo brasileiro revisitado


No rastro de manifestações violentas, historiadores analisam movimentos totalitários do passado




Cinco meses depois do início das manifestações populares Brasil afora, o padrão, em boa parte delas, continua o mesmo. Os protestos, inicialmente pacíficos, terminam em confronto entre dezenas de homens encapuzados e policiais. O quebra-quebra promovido pelo movimento fez a presidente Dilma Rousseff endurecer o seu discurso. Na semana passada, em entrevista a rádios, ela empregou o termo “fascista” para denunciar os radicais que tomam as ruas vestidos de preto. O discurso da presidente provoca uma reflexão histórica sobre a entrada no país de ideologias posteriormente repudiadas: o suposto fascismo que inspirou lideranças do Estado Novo de Getúlio Vargas e o anarquismo que seduziu operários da nascente indústria brasileira.

- Devemos repudiar integralmente o uso da violência, e mais, o fato de que o uso dela se dá tampando a face das pessoas - afirmou a presidente. - Destroem patrimônio público e privado, provocam ferimentos, machucam e mostram, não a civilidade da democracia, mas a barbárie.
O sociólogo Marcos Cezar de Freitas, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), concorda com a existência de traços fascistas entre os atuais manifestantes violentos.

- Há, de fato, uma associação - assegura. - Vemos uma violência característica, a negação da política institucionalizada, como os partidos políticos e o Parlamento. E, também, a produção de inimigos generalizados para os ataques, como a destruição de locais simbólicos para a democracia.
Freitas, no entanto, acredita que a ideologia assumiu, agora, um teor diferente daquele visto no país entre 1937 e 1945, na ditadura do Estado Novo. Na época, o fascismo brasileiro flertava com o governo italiano, conduzido por Benito Mussolini desde 1922, e que também inspirou, 11 anos depois, a ascensão de Adolf Hitler na Alemanha.

- Na década de 1930, os fascistas integravam um partido, a Ação Integralista Brasileira (AIB) - lembra Freitas, autor do livro “Integralismo: fascismo caboclo”. - Ou seja, eles participavam do jogo político. Os membros da AIB eram nacionalistas e vários descambaram para a militância fascista.

O uso de máscaras, de acordo com Freitas, é outra ligação entre os atuais black blocs e o antigo fascismo. Recorrer ao anonimato, segundo ele, facilita a adesão de vândalos e a imposição do terror. A tática não é nova.

- Ocultar o rosto é parte da lógica fascista, a da violência pela violência - ressalta. - Todas as ideias divulgadas por estes grupos foram resgatadas de algum lugar, mesmo que seja de um trecho de uma música, e distorcidas até transmitirem a mensagem destes radicais.

Já o professor de História Contemporânea da UFF, Daniel Aarão Reis discorda de qualquer associação entre fascistas e o atual movimento dos black blocs.

- O termo fascismo foi banalizado. Serve para qualquer coisa, e Dilma o usou como uma jogada de marketing - condena. - Esta corrente política é um tema histórico muito delimitado e cuja face original foi praticamente extinta, à exceção de alguns grupos neonazistas na Europa.

Reis interpreta o fascismo como um movimento restrito àquele concebido por Mussolini - é a ideologia que chega ao poder com amplo apoio popular, embora seja fortemente antidemocrática. No Brasil, ela se manifestou apenas durante o Estado Novo, entre as décadas de 1930 e 1940. Ainda assim, esta identificação foi pontual e rapidamente cortada pelos EUA, quando Vargas foi pressionado pela Casa Branca a lutar a seu lado na Segunda Guerra Mundial.

- Vargas, entre 1939 e 1940, namorou o fascismo. Seu sucessor, Eurico Gaspar Dutra (1946-1951), não era fascista, mas admirava características daquele movimento, como a ordem, o progresso e o nacionalismo - explica.

- Houve a figura sinistra do chefe da polícia política, Filinto Müller, que torturava opositores do Estado Novo, mas ele recuou anos depois.

Um dos organizadores de “História do anarquismo no Brasil”, Reis acredita que os black blocs inspiram-se mais no anarquismo, que nega qualquer tipo de governo. O berço do movimento foi a Europa pós-Revolução Industrial, no século XVIII.

Nas décadas seguintes o movimento perdeu força para o comunismo, que defendia um governo centralizador. O anarquismo só manteve influência no Sul da Europa, principalmente na Itália. A migração em massa de seus militantes para as Américas e o tom internacionalista desta corrente política conquistaram trabalhadores das metrópoles brasileiras, especialmente nas fábricas, e levou à formação de sindicatos. Sua influência, no entanto, sofreu um novo golpe, desta vez imposto pelos industriais, com a crescente hierarquização da produção.

O anarquismo manteve-se no ocaso por décadas, mas, segundo Reis, renasceu nos anos 1990, com a difusão da internet. E, agora, tem um terreno ainda mais fértil do que quando era conhecido apenas por operários.

- A proposta anarquista tem como base uma organização horizontal. Todos têm o mesmo poder. Por isso, ela estava totalmente fora de órbita no início do século passado - explica o historiador. - Hoje, a internet proporciona uma maior difusão de suas ideias, que eram restritas a jornais de sindicatos.

Para ele, a negação da política partidária, uma das bandeiras dos manifestantes, empolga a população. Reis destaca que, em certos casos nas últimas eleições, mais de metade do eleitorado se absteve ou votou nulo ou em branco.

- O anarquismo ganhou espaço. Nem sempre ele é sinônimo de violência. Recorrer ao vandalismo é contraproducente e isola estes grupos dos movimentos sociais - ressalta. - O fato é que ele se aproveita da falta de credibilidade do poder público.

FONTE: O GLOBO

Seminário da Consciência Negra de Pelotas






Nos dias 14, 17, 18, 21 e 22 de novembro ocorre o V Seminário da Consciência Negra de Pelotas (V SECONEP) organizado pelo Grupo Design, Escola e Arte.

Na quinta edição do evento, o Seminário terá como tema central a juventude pelotense, especialmente de etnia negra, evidenciando a atuação dos jovens no movimento negro e nas mais diversas questões que se incluem a luta pelo fim do preconceito e a igualdade de oportunidades. Saúde, direitos humanos, mercado de trabalho, o conhecimento de sua própria cultura e os dez anos da Lei 10.639 serão alguns dos temas a serem abordados.

Focados nas ações que elevam o conhecimento e o crescimento moral e intelectual, o V SECONEP homenageará aqueles que fazem das questões raciais uma luta constante em suas vidas, a Juventude Negra de Pelotas, não obstante, homens que lutaram pela preservação da cultura e defesa dos direitos da população negra: Rubinei Machado e Mestre Baptista.

Programação:

14 de Novembro:
Local: ICH (Instituto de Ciências Humanas).
Manhã: Das 8h às 11h45min: Apresentação de Experiências e Trabalhos Científicos em Cumprimento a Lei 10.639.
Tarde: Das 14h às 18h: Minicurso: Preservação do patrimônio negro brasileiro através acervo fotográfico e da poesia de Oliveira Silveira – Ministrado pela Mestranda Geanine Vargas Escobar – Bacharel em Conservação e Restauro de Bens Culturais Móveis UFPel – RS e Mestranda em Memória Social e Patrimônio Cultural – UFPel – RS.

17 de novembro:
Quizomba na Baronesa.
Oficinas de percussão, instrumentos, estêncil, turbantes, fotografia, Hip-hop, grafitti, customização, entre outras.
Início: 14h - Término: 18h30min.

18 de novembro:
Brasil sem Preconceito - Local: ASSUFPEL – Quinze de Novembro 262
Apresentações culturais e cinematográfica com a exibição do documentário “O grande Tambor”.
Início 13h30min - Término: 20h com roda de samba de raíz.

21 de novembro:
Ciclo de Palestras - Local: Centro de Integração do Mercosul – Rua Andrade Neves, 1529
Noite Palestras sobre juventude Negra e ações educacionais,culturais em prol da juventude.
Início: 18h30min - Término: 21h30min.

22 de novembro:
Juventude Negra em Ação - Local: Centro das Artes – Rua Alberto Rosa, 62
Tarde - Ciclo de palestras sobre diversos temas relacionados às ações em prol da juventude.
Início: 13h30min. - Término: 18h.

A realização deste evento somente será possível graças ao apoio da Pró-reitoria de Extensão universitária/UFPel; 5ª CRE; ASUFPel; Associação de Cabos e Soldados da Brigada Militar; Associação de Subtenentes e Sargentos da Brigada Militar; SECULT; Secretaria Municipal de Justiça Social; Sindic. Dos Trabalhadores da Alimentação; America Latina Presentes; Aquatintas; Livraria D. Pedro I e Papelaria Alternativa.

Inscrições ou mais informações no endereço eletrônico: seconep.blogspot.com.br.

Primeira-dama de Nova Iorque: negra e bissexual


A nova primeira-dama de Nova York, Chirlane McCray, tem uma vida que chama mais a atenção do que seu marido, Bill de Blasio, recém eleito prefeito da cidade.

Esta mulher negra, nasceu na cidade de Springfield. Lá ela viveu até 10 anos de idade quando seu pai, um funcionário do militar, decidiu se mudar para Longmeadow, um lugar que Chirlane McCray descobriu que o mundo não era tão justo quanto ela acreditava e levou-a a tornar-se poeta, escritora e a figura política que é hoje.

Na época da mudança, os vizinhos receberam a família pedindo-lhes para deixar o bairro. Eles foram a segunda família de negros na área e ela a estudante negra na escola. Seus colegas de classe brincavam com ela por causa da cor da pele, então ela calmamente se refugiou nos poemas que escreveu como uma válvula de escape para sua raiva reprimida. Esta foi a sua primeira abordagem ao racismo e intimidação, o que chamam agora de “bullying”.

McCray não sentiu-se triste, mas a raiva a levou a escrever, de expressar até no seu jornal da escola sobre o seu descontentamento. Assim que se formou, ela foi para Nova York, a metrópole onde, finalmente, seus escritos foram ecoadas. Em 1979, no auge da libertação da mulher escreveu um ensaio intitulado “Eu sou lésbica”. A carta tinha a intenção de desmistificar o ditado “Não negro é gay”. Foi publicado em uma revista onde McCray foi a primeira negra que ousou falar abertamente sobre sua sexualidade. “Em 1970, eu me identificava como lésbica e escrevi sobre isso. Em 1991, eu conheci o amor da minha vida e me casei com ele “, confessou em 2012.

Em 1991, ela passou a trabalhar como prefeito David Dinkins em Nova York, onde conheceu Bill de Blasio, de ascendência alemã e italiana. Ela escreveu discursos, enquanto ele atuava como vice-prefeito. Em meio às vicissitudes políticas se apaixonou e se casou três anos depois. Hoje eles têm dois filhos Clara e Dante, que se tornaram alvo de críticas por seus cabelos afro e pelas tranças. Na campanha de seu marido para prefeito de Nova York, foi ela quem editou as falas e entrevistou candidatos para cada posição.

Hoje McCray já entrou para a história como a primeira pessoa mulher bissexual que ocupa o cargo de primeira-dama no país. “Eu realmente nunca namorei nenhum homem. Então eu pensei: Uau, o que é isso? Agora eu me sinto atraído por homens. Eu fui atraída por Bill. Ele era a pessoa perfeita para mim. Como duas pessoas muito diferentes, mas temos muito em comum. Somos um casal muito convencional, não convencional “.

Fonte: Las2Orillas Tradução: Correio Nagô

“CAPOEIRA É TUDO QUE A BOCA COME”






Esta definição genial sobre a capoeira foi elaborada pelo não menos genial, Mestre Pastinha, quando inquirido, numa entrevista, sobre o que seria a Capoeira.

E tem sido com este espírito de liberdade, irreverência e ousadia que a Capoeira e os capoeiristas, têm enfrentado ao longo da vida toda sorte de preconceito e perseguições. Recentemente, na cidade do Salvador, participei de uma audiência pública, promovida pela Câmara Municipal de Vereadores, quando mais uma vez, presenciei a indignação de mais de uma centena de capoeiristas com mais um desses ataques a capoeira, desta vez, sob o pseudônimo da “esportivização”.

Para quem não sabe, tramitam no Congresso Nacional, dois projetos de lei que visam regulamentar a Capoeira, supostamente para profissionalizá-la e dotá-la das condições necessárias à sua inserção como esporte olímpico. Em verdade, segundo os mestres de capoeira presentes na audiência, esta é mais uma investida, mal disfarçada, do Conselho Nacional de Educação Física (Confef) e seus aliados, para enquadrar a capoeira exclusivamente na dimensão esportiva e aprisioná-la aos seus interesses e regras.

Os danos, caso esses projetos se viabilizem, são imensos, vão desde a subordinação da capoeira e dos capoeiristas aos ditames do Confef, passando pela ilegalidade de supressão da sua dimensão cultural, visto que a capoeira foi registrada como patrimônio cultural brasileiro, pelo IPHAN, no ano de 2008, na gestão do Ministro Gilberto Gil, até a expulsão ou impedimento de acesso ao mercado de trabalho de todos os capoeiristas que não possuam título universitário de formação em Educação Física. Seria um golpe mortal nos milhares de mestres tradicionais, que nos bairros populares de nossas cidades, ensinam, educam e socializam milhões de jovens excluídos de quaisquer possibilidades na vida. Mas a voracidade do Confef, no seu afã “regulamentatório” não se limita à capoeira, busca alcançar e controlar, também os praticantes da yoga, da dança e até mesmo do pilates. Mas, ao que tudo indica a briga não será fácil, pois todos estão se articulando e mobilizando para fazer frente a mais esta aberração.

Este imbróglio se arrasta desde 2005, quando fiscais dos Conselhos Regionais de Educação Física (Cref) de maneira arbitrária e ilegal, saíram ameaçando, multando e exigindo filiação à força de milhares de academias, escolas de dança e estúdios de yoga e pilatis pelo Brasil afora. O Ministério da Cultura, acionado por capoeiristas e dançarinos, não se fez de rogado. O Ministro Gilberto Gil e seu sucessor Juca Ferreira, sensibilizados com a questão, entraram em campo e adotaram medidas fortes e concretas para o enfrentamento da situação: Registraram, por meio do Instituto de Patrimônio Artístico e Cultural Nacional, a Roda da Capoeira – “que é um elemento estruturante desta manifestação, espaço e tempo, onde se expressam simultaneamente o canto, o toque dos instrumentos, a dança, os golpes, o jogo, a brincadeira, os símbolos e rituais de herança africana…” e o Ofício dos Mestres de Capoeira – “… saber transmitido pelos mestres formados na tradição da capoeira e como tal reconhecidos por seus pares…”. Além disto, criou o Programa Capoeira Viva, que apoiou, estimulou e premiou centenas de grupos de capoeira em atividade no país. Mais ainda, criou um grupo de trabalho no âmbito do Ministério da Cultura, para elaborar o Programa de Salvaguarda da Capoeira, enquanto manifestação cultural. Foi um período de alento e esperança para os capoeiristas em sua luta permanente pela dignificação da capoeira.

Pelo visto, o Confef voltou à carga e com toda força, via Congresso Nacional, e mais uma vez, os capoeiristas baianos, honrando sua tradição de resistência e luta estão dando o alerta para o enfrentamento desta forma excludente e reducionista com que pretendem classificar a capoeira. Na verdade, estão fazendo valer, aquilo que se encontra no livro de registro do Iphan – …A capoeira é uma manifestação cultural presente hoje em todo o território brasileiro e em mais de 150 países, com variações regionais e locais criadas a partir de suas “modalidades” mais conhecidas: as chamadas “capoeira angola” e “capoeira regional”.

Enfim, o que todos esperam é que o Congresso Nacional dialogue com os capoeiristas e não privilegiem aqueles que querem fazer da capoeira apenas um negócio, honrando assim o mestre dos mestres – Pastinha, para quem: “a capoeira é tudo que a boca come”.
Axe!

Toca a zabumba que a terra é nossa!


FONTE: PORTAL AFRICAS

sábado, outubro 26, 2013

‘4x0’ ou a vida










Em homenagem à varada, comi um picanha-burger, atração dos ‘food teams’, que é como chamam os bares nesse novo Maracanã


Quando o Flamengo marcou o terceiro gol, no início do segundo tempo, dei meia- volta e mirei a rampa.

Antes, em homenagem à varada que tínhamos levado, comi um picanha-burger com cheddar, uma das atrações dos food teams, que é como chamam os bares nesse novo Maracanã, que é tão nosso quanto insosso.

Perto da lancheria, um jovem botafoguense baixo e parrudo deu uma saraivada de socos no azulejo do banheiro. Minha mão sangraria fartamente. Desci a rampa num passo calmo e firme, certo de que os táxis mais espertos correriam para a saída Sul, de onde imigravam os primeiros fugitivos da goleada.

Foi fácil. Nem dez minutos de espera. No carro, respirei aliviado.
— Pra onde, campeão?
Não entendi se era sarcasmo, mas preferi manter minha crença no semelhante.
— Leblon.

Viera de Metrô e aspirara, na passarela da Estação Maracanã, um ar cívico, de satisfação e cidadania. A maioria dos cidadãos, no entanto, eram flamenguistas entoando cânticos que se dirigiam, de algum modo, a mim.

— E ninguém cala, esse chororôôô-ô...

Outros refrães aludiam à ausência da torcida, na base do “cadê você”? “Eu” estava lá, mas achei melhor calar e seguir rumo ao Sul — terra da torcida alvinegra —, único setor para o qual ainda restavam alguns ingressos. Ou melhor, muitos ingressos.

Vamos ser claros: toneladas.

Pensei positivo. Neste aspecto, é até uma vantagem ser o que sou. Sair do trabalho, pegar o metrô, comprar o tíquete rapidinho e subir a rampa cercado por alguns saltimbancos entusiasmados empunhando bumbos e bambus, em vez de uma multidão em júbilo. Oba!

Um correligionário me abordou.
— Isso aqui parece um cemitério.
— Está cedo. Ainda vem gente.
— O povo não vem.

Vi que era a oportunidade de lançar mão, mais uma vez, de minha teoria sobre como a condição alvinegra se assemelha à chamada “condição judaica”.

— Somos o povo da estrela, de cinco pontas em vez de seis, mas estrela mesmo assim. Predestinados, temos uma missão. Fomos perseguidos através da História. Somos supersticiosos e tememos a fúria dos céus. Nos tempos de grandes ameaças e fome, ficamos entocados em nome da autopreservação. E, frequentemente, somos profetas, loucos e barbudos.

Não sei se o sujeito entendeu, mas, com certeza, ficou um tempo atordoado. Ao cair em si, despediu-se com um tapinha no ombro, ansioso para escapar logo da encrenca.
— Sim, sim, claro, claro.

A encrenca, porém, já estava armada, escrita, inscrita, subscrita, reescrita ou como Deus e o diabo quiserem. No apito inicial, havia até uma quantidade digna de devotos da estrela, o barulho estava bom, os gritos de guerra soavam viris mesmo diante da massa rival — que lotava não apenas o seu setor, norte, mas também as cadeiras centrais, caríssimas, cobertas de vermelho e negro. Se eu tivesse um daqueles binóculos de ópera com um cabo de madrepérola, talvez surpreendesse ali um ou outro botafoguense perdido na numerosa burguesia da Gávea.

O resto foi o resto, e não vou entrar aqui em nenhum detalhe técnico nem tático, apenas voltar àquele momento em que, feito o terceiro gol, desci a rampa e peguei o táxi. O motorista, solícito ou cruel, tentou ligar o rádio.
— Não! Não faça isso! — implorei. — Vamos logo embora daqui, por favor.

O trajeto foi tranquilo como um voo espacial. Deserto, o Rebouças era um túnel do tempo: eu avançava rumo ao futuro, e toda a vida pregressa ficava no passado.

Que cidade boa, o Rio! Sem engarrafamento, sem flamenguistas e até sem botafoguenses. Claro que, em algum momento entre a Lagoa e a Conde de Bernadote, ouvi os urros de glória que, de todos os cantos da cidade, como araras, vinham anunciar o quarto gol.

Mas eu já estava em outra dimensão, na qual não há futebol, nem estrela, e “eles” foram engolidos por um buraco rubro-negro.
Estava em casa antes do fim do jogo. Tomei um pequeno copo de um shiraz madurão português metido a vinho de sobremesa late harvest mas que era um Porto com gosto de terra meio safado, perfeito para a doce tumba. E fui ao leito imerso na paz dos justos.

No dia seguinte, de manhã, um torpedo de minha mãe eclodiu no celular. Uma colega sua havia feito um bolo de fubá fabuloso, fofo e ainda quente. Eu tinha almoço marcado com o pai. A mãe propunha que eu passasse no seu trabalho para pegar o bolo.

Estava ocupado e não respondi. Quando cheguei à casa do pai, ela estava lá, aflita e ofendida, com o bolo. Viera do trabalho só para isso. A vida continua. Não há de faltar alimento nem amor.

Como o amor de Dona Nena por Sérgio França, amigo de uma multidão, editor, jornalista e alvinegro. Dona Nena, que se foi, era de uma alegria firme que cativava a galera desbundada desde os anos de faculdade.

Ela era da galera. Saudações.


FONTE: O GLOBO / ARNALDO BLOCH

domingo, outubro 13, 2013

Use sua desilusão







Acreditei que às vésperas de 2014 o Galeão seria um aeroporto moderno, e não um labirinto com canos e fios aparentes como o cenário de um filme de terror


O país do futuro
O Brasil é um país pródigo em desilusões. No entanto, nós, brasileiros, nunca somos vistos — nem por nós mesmos — como um povo desiludido. O que é uma pena. Temos a aprender com a desilusão.
Ilusão
Os Guns N’ Roses lançaram na década de 1990 dois discos de muito sucesso e inspiração chamados “Use your illusion I e II”. O título, “Use sua ilusão”, remete à ideia de que a ilusão — erro de percepção ou de entendimento; engano dos sentidos ou da mente; interpretação errônea — pode ser usada de forma criativa e construtiva, já que a percepção “errada” de um fato pode revelar novos e surpreendentes ângulos desse mesmo fato. Quando nos divertimos e nos emocionamos com filmes como “Toy story” ou com livros como “A metamorfose”, estamos usando nossa ilusão.
A semântica não mente
Paradoxalmente, a desilusão nunca é compreendida como o avesso da ilusão, ou seja, uma maneira correta de entendimento. Desilusão expressa sempre descrença e perda de esperança. E isso não é mera semântica. Resistimos a nos desiludir e, mesmo quando nos desiludimos, demoramos a admitir. Por que temos vergonha de aceitar que estamos desiludidos? Por que encaramos a desilusão como uma derrota?
Use sua desilusão
Em 1968 James Brown lançou uma música que fez muito sucesso no mundo todo. Sua estrofe principal, um grito de guerra que é também o refrão e o nome da canção, diz assim:
“Say it loud
I’m black and I’m proud”
(“Diga com um grito
Sou preto e me orgulho disso”, numa tradução livre e descuidada).
O funk exuberante do Rei do Soul exorta negros oprimidos à insubmissão e à valorização de seu orgulho próprio. Não à toa tornou-se uma espécie de hino informal do movimento Black Power. Inspirado por James Brown e Guns N’ Roses, orgulhoso de minha desilusão, lanço um outro grito de guerra, destinado aos desiludidos anônimos do Brasil: Use sua desilusão!
O caminho da ilusão leva ao palácio da desilusão
Faço uma breve lista de algumas de minhas recentes ilusões. Sou um daqueles ingênuos — se preferir chamar de otário fique à vontade — que acreditaram, entre outras coisas, que a realização da Copa do Mundo no Brasil e das Olimpíadas no Rio trariam investimentos para o país e para a cidade, e que eles seriam revertidos em melhorias nos transportes, aeroportos, hotéis e infraestrutura em geral.

1- Acreditei que às vésperas de 2014 o Galeão seria um aeroporto moderno, e não um labirinto com canos e fios aparentes como o cenário de um filme de terror de baixo orçamento.
2- Acreditei que em 2014 eu iria até São Paulo num trem-bala contemplando pela janela as comunidades pacificadas.
3- Acreditei que o Santos poderia até, quem sabe, empatar com o Barcelona.
4- Acreditei que o Supremo Tribunal Federal tinha mudado os paradigmas e dado uma lição de democracia ao condenar os mensaleiros e que no dia de hoje eles estariam lendo O GLOBO na cadeia e não comendo pizza na casa do… como é mesmo o nome dele?
5- Acreditei que os policiais das UPPs eram diferenciados e que o Amarildo não desapareceria.
6- Acreditei que as manifestações de junho tinham despertado o povo brasileiro e nos ejetado da letargia bovina em que chafurdamos há séculos.
7- Acreditei que os black blocs eram apenas um grupo de manifestantes mais exaltados e que, com a ajuda deles — que são muito mais eficientes em meter medo nos políticos do que os manifestantes pacíficos — caminharíamos juntos “hasta la victoria”.
8- Acreditei que depois da ditadura militar nunca mais eu veria policiais descendo o cacete em professores.
9- Acreditei, acreditei, acreditei.
Bananão
Ivan Lessa, o grande cronista desterrado, chamava o Brasil de Bananão. Embora seja possível denotar algum carinho na definição, o sarcasmo agudo do apelido é inegável. Bananão, além de lembrar que nunca deixamos realmente de ser uma república das bananas em escala continental, alude também à acepção de “banana” como o sujeito covarde e sem iniciativa, o popular bundão. Ivan Lessa foi um dos muitos brasileiros que optaram pelo autoexílio mesmo depois de restaurada a democracia no país. Num de seus textos, revela um dos motivos que o levaram a deixar o Brasil: “Achava que, de uma maneira ou de outra, estava embromando ou sendo embromado por alguém.”
Não é assim que todos nos sentimos por aqui?

FONTE:O GLOBO / TONY BELLOTTO

sábado, outubro 12, 2013

‘Não pode haver tribunal racial’, diz médico aprovado por cotas no Itamaraty












  • Uma entrevista com Mathias Abramovic, o candidato de pele branca e olhos verdes que se declarou negro ao se inscrever no concurso
  • Ex-aluno de colégio de elite e morador de bairro nobre, ele passou na primeira fase graças à reserva de vagas para afrodescendentes
  • ‘Bisavó por parte do meu pai é negra. Por parte da minha mãe, tenho avós pardos’, conta ele. ‘Sou uma concentração de minorias’

  • Escoltado pela cadela fox paulistinha Penélope, Mathias Abramovic tem nas mãos um exemplar de “Casa grande e senzala”, herdado de um avô, médico — a mesma profissão escolhida por ele, por seu pai e por seu irmão. A clássica obra de Gilberto Freyre, que acompanhava Mathias nesta entrevista, faz parte da bibliografia do concurso de admissão à carreira diplomática no Instituto Rio Branco, o Itamaraty, e aborda um tema que colocou o carioca na berlinda no último mês: a miscigenação como parte da formação da sociedade brasileira.

    Desde 2011, quando o Itamaraty instituiu cotas para afrodescendentes como benefício na primeira fase do concurso, Mathias opta pela autodeclaração. Naquele ano, o médico de olhos verdes e declarada ascendência negra e índia não apareceu na lista dos 30 cotistas, pois obteve uma nota alta o suficiente para figurar entre os 300 candidatos da listagem geral. Ele foi aprovado em três das quatro fases do concurso. Em 2012, foi reprovado na primeira fase. Este ano, figurou entre os dez afrodescendentes aprovados na primeira etapa, candidato a um salário de R$ 13.623,19. Na segunda etapa, Mathias obteve 59.89 pontos, onze décimos abaixo da nota de corte para a convocação, no dia 21, para a fase seguinte. Ele entrou com recurso para revisão da nota da prova escrita de língua portuguesa e aguarda o resultado.

    Ex-aluno do Colégio Santo Agostinho do Leblon, um dos mais tradicionais do Rio, e formado em Medicina pela Uerj em 2003, Mathias mora com a mãe no Jardim Botânico, na Zona Sul, enquanto divide sua rotina de estudos para o Itamaraty com dois plantões por semana como clínico geral em uma unidade emergencial pública. O médico, que prefere não dizer há quanto tempo estuda para ingressar no Itamaraty, é bolsista no curso preparatório Clio, benefício concedido àqueles que obtêm boa classificação nas provas internas da escola.

    A história sobre Mathias e as cotas do Itamaraty veio à tona em uma reportagem do site de Educação, do GLOBO, há um mês, e agora o médico fala sobre ela pela primeira vez. Ele responde às questões sobre a polêmica de forma diplomática, argumentando pausadamente e, de vez em quando, consultando anotações que levou a uma praça calma do Jardim Botânico, onde a entrevista foi concedida. Embora colegas de Mathias no curso afirmem que o estudante emitia opiniões contrárias às cotas raciais no Itamaraty, o médico afirma se enquadrar nessa política no aspecto legal e moral, justificando que há na árvore genealógica de sua família avós e bisavó negros. Segundo ele, critérios socioeconômicos seriam mais interessantes para promover a inclusão.

    O GLOBO: Você se formou em Medicina na Uerj, mas desistiu duas vezes da residência em oftalmologia. Por quê?
    Mathias Abramovic: A primeira vez foi involuntária, porque no ano em que passei (na residência), em 2004, o serviço militar era obrigatório, e não existia ainda a reserva de vagas (para médicos no programa de residência em que se classificaram). Em 2005, como já não era o meu ano obrigatório de servir, passei novamente (na residência), mas escolhi fazer o curso de paraquedista no Exército. Por isso, abri mão da minha residência pela segunda vez. Acabei gostando e servi ao Exército durante cinco anos e meio. Tinha muitas viagens, muitas missões, pude conhecer o resto do país.

    Por que você, na terceira geração de uma família de médicos, decidiu tentar o concurso para diplomata?
    Apesar de eu ter gostado muito de servir ao Exército, já sabia, desde que cheguei ali, que era temporário. Achei bem interessante, bastante aventura, mas sabia que não queria fazer carreira ali. Então, em 2007, comecei a procurar saber sobre o concurso, um pouco depois comecei a tentar as provas e estou insistindo desde então.

    O que o encantou nessa carreira? A estabilidade?
    Não foi uma questão nem de dinheiro, como é para alguns, nem de estabilidade. Eu provavelmente conseguiria mais dos dois na área médica. Foi uma questão de me identificar com a carreira. Sempre gostei de conhecer novos lugares e não apenas de passar por eles. Sempre tive uma certa facilidade para fazer amizades, para me relacionar, e por isso escolhi a carreira diplomática. Além disso, desde o segundo grau (atual ensino médio) eu tinha o interesse. Só que alguém me aconselhou a fazer Direito para isso, e, na época, a única coisa que eu sabia é que eu não queria fazer Direito. Então, tirei da mente o Itamaraty, mas, depois, quando vi que era aberto a qualquer carreira, resolvi me empenhar.

    Você se autodeclara afrodescendente desde que o Itamaraty instituiu essa política, em 2011?
    Eu não me lembro exatamente quando começou, mas desde o primeiro ano em que houve a opção de autodeclaração, eu me autodeclaro.

    Por que fez essa opção?
    Porque eu me identifico. Realmente é uma questão de criação. Desde bem pequeno, minha família, minha mãe, meu pai sempre frisaram nossa origem multiétnica. Minha mãe, especificamente, sempre falava que a gente tem negro, índio... Ela mesma é nordestina, vinda do interior do Piauí. Veio para cá quando criança com o resto da família. Meu pai também tem origens variadas. Uma bisavó por parte do meu pai é negra. Por parte da minha mãe, eu tenho avós pardos. Na família da minha mãe, são dez filhos, e há grande variedade de tipos, de ruivo de olho azul até mulata ou mulato, e todos filhos da mesma mãe e do mesmo pai. Isso só é possível para famílias que têm uma carga genética muito variada, muito misturada. Acho que é a comprovação de que a origem multiétnica é indiscutível. Meu sobrenome não deixa esconder que tem uma origem judaica também. Então, eu sou de repente uma concentração de minorias. Negro com ascendência negra, indígena, nordestina e judaica.

    Mas você se percebe dentro da sociedade como um afrodescendente? Alguma vez já foi discriminado ou teve menos oportunidades por causa de sua origem?
    Eu me identifico como afrodescendente pelos motivos que já expliquei. E, é claro, dependendo da situação em que você está, as pessoas podem te olhar de uma maneira não tão enaltecedora. A experiência como afrodescendente é algo muito pessoal, personalíssimo. Nenhuma pessoa, independentemente da tonalidade de pele, por mais clara que seja, por mais escura que seja, vai poder dizer de outra se teve uma experiência mais afrodescendente ou menos afrodescendente. E, por esse motivo, eu concordo com a política de cotas que seja baseada em autodeclaração. Não pode haver outra maneira de implementar essa política.

    E como você traduziria sua experiência afrodescendente?
    Eu tenho um orgulho muito grande de ter essa origem, incluindo a africana, misturada com todas as outras.

    As políticas afirmativas de cotas foram idealizadas pelo governo para pessoas com trajetórias de exclusão ou de dificuldades de inserção no mercado. Você acredita ser um alvo dessa política?
    Eu acredito que a política de ações afirmativas, de maneira geral, é uma conquista importante e tem que ser mantida. Ela já existia antes, voltada para os portadores de necessidades especiais. Então, não é algo novo em essência. A gente não pode levar ao pé da letra o artigo quinto da Constituição que fala que todos são iguais perante a lei. A própria Constituição já impõe diferenças, por exemplo, o auxílio-maternidade. Não tem como se tratar de maneira absolutamente igual todas as pessoas. A política afirmativa foi discutida no Congresso, então a sociedade, por seus representantes, decidiu que a política deveria ser implementada e que as regras seriam essas. E escolheram esse termo afrodescendência especificamente. Eu, pessoalmente, acho que deveria ser mais abrangente ou então voltada, principalmente, para o critério socioeconômico.

    Mais abrangente em que sentido?
    Indígenas… E hoje em dia é um pouco menos, mas existe ainda uma carga, uma dívida histórica, como se fala, com os nordestinos. Eles imigraram para o Sudeste e para o Sul e até hoje são alvo de discriminação. A gente ouve falar de nordestinos agredidos na rua, e não existe uma política voltada especificamente para eles. Acho que a política ainda é tímida nesse aspecto.

    O Brasil é um país miscigenado por natureza. Você acha que uma política que leva em conta a declaração dessas origens variadas é eficaz?
    Acho que ela ajuda à medida que facilita que uma população que normalmente tem uma menor oportunidade consiga uma chance maior de aprovação no concurso. Quanto a se ela poderia ser melhor ou não, é uma questão que requer muito estudo, muita pesquisa em cima disso, e eu realmente não tenho conhecimento para argumentar. Com certeza, se o pessoal do Itamaraty optou por essa, foi depois de algum estudo aprofundado sobre o assunto. Não tenho base de conhecimento para poder argumentar exatamente como ela poderia ser melhorada.

    Você citou que essa política é voltada para uma população que teve menos oportunidades. Você se sente enquadrado nesse objetivo da política de cotas?
    Claro que me sinto. Uma vez que ficou definido que a cota é para afrodescendentes, eu me encaixo. Se eu me encaixo, não é apenas por uma questão legal, de autodeclaração, mas é uma questão moral de eu ter essa origem na minha família e de a lei ter sido voltada para isso. Então eu me encaixo. Eu me considero alvo da política.

    Você imaginava a repercussão que teve sua opção pela autodeclaração?
    Não imaginava essa repercussão tão grande e confesso que fiquei perplexo. Não pelo assunto em si, mas pela reação das pessoas. Fiquei perplexo com o preconceito do qual fui alvo. Pessoas que não conheciam nada sobre mim, sobre as minhas origens, e, baseadas em apenas uma foto, não hesitaram um minuto em me julgar mais ou menos apto a me declarar afrodescendente. O mais importante é que é um preconceito que a política procura evitar, que é o preconceito visual, o preconceito de aparência. Julgar a pessoa baseado naquilo que você vê, se ela é mais ou menos digna de se declarar afrodescendente, se é mais ou menos digna de entrar no Itamaraty. Também fiquei perplexo com as propostas que as pessoas davam, segundo eles, para melhorar a seleção. Você pode usar qualquer nome bonito, eufemismo, mas para mim é instituir um tribunal racial. Qualquer comissão avaliadora de aptidão afrodescendente, no fim das contas, estará sempre instituindo um tribunal racial, e as experiências que a gente teve, que são vistas na História, foram na Alemanha nazista e no apartheid sul-africano. A gente não precisa ser muito estudioso de História para saber que o resultado não foi muito bom.

    As críticas em relação à sua escolha não foram apenas por você ter pele branca, mas também pelo fato de ser médico, pertencer a uma família de médicos, morar na Zona Sul do Rio. Questionam se você seria alguém que realmente precisaria de uma cota para entrar no Itamaraty.
    Esse questionamento tem que ser feito ao Itamaraty, para que eles mudem a política de cotas deles para uma política socioeconômica, e não racial. Inclusive existe um problema prático muito grande de você determinar se uma pessoa é afrodescendente ou não, ou então preta, parda, amarela ou branca. Até o IBGE, que usa uma nomenclatura mais objetiva, baseia-se no critério de autodeclaração. Qual seria a outra opção? Trazer um mostruário de tinta igual ao de carros? A partir do “pardo seis”, a pessoa é afrodescendente? Além de ser um absurdo em si, dá margem ao favorecimento. Além disso, você tem variações que são naturais. Se eu ficar um mês pegando sol, vou ficar bem moreno. Quando eu fui me alistar na Marinha, olharam para mim e não me perguntaram o que eu era. Botaram lá: cútis parda. É uma questão, é claro, que só acontece com quem tem uma genética muito variada. A questão é que eu não tenho podido ir à praia justamente porque estou me dedicando aos estudos. Um critério objetivo, por mais que seja um anseio das pessoas, se não for socioeconômico, corre o risco muito grande de cair num tribunal racial e institucionalizar uma comissão que vai atribuir à pessoa uma raça A, B, C ou D, cada uma com direitos e deveres diferentes. Acredito que daí não pode sair coisa boa, principalmente num Estado que se espera democrático de direito.

    Então você acredita que o critério socioeconômico é mais eficiente para uma política de inclusão?
    Se o Itamaraty julgar que é mais adequado o critério socioeconômico, então deve mudar sua política de ação afirmativa e incluir critérios socioeconômicos. O critério socioeconômico, em teoria, poderia também ser motivo de uso de má-fé. A pessoa tentar falar que ganha menos do que ganha, mas isso é mais difícil. Você pode pedir uma declaração de renda, alguma comprovação de ganho ou de falta de rendimento. De alguma maneira, isso já é usado, por exemplo, no Bolsa Família. Você tem que dar uma declaração de que você tem limitação de meios para poder fazer jus ao programa. Isso seria uma maneira mais objetiva de selecionar os candidatos.

    Você acha que a política racial é frágil?
    A política racial no Brasil é difícil de ser implementada por causa da miscigenação. Em todos os extratos sociais, você vai ter brancos e negros. Em proporções diferentes, com aparências diferentes. Mas mesmo as pessoas mais abastadas vão ter algum traço do negro. Eu até trouxe aqui o “Casa grande e senzala” justamente para mostrar uma citação do Gilberto Freyre. Ele fala: “Todo brasileiro, mesmo alvo de cabelo loiro, traz na alma e no corpo a sombra ou pelo menos a pinta do indígena e do negro”. É um livro que faz parte da bibliografia do concurso. E você vê que na década de 1930, quando foi lançado o livro, já se percebia isso, que é difícil separar as raças aqui no Brasil. De lá para cá, você teve uma tendência cada vez maior de não ter uma segregação, mas uma mistura. Então, só posso acreditar que tem ficado cada vez mais difícil você separar as raças. A meu ver, aqueles críticos da minha autodeclaração, principalmente aqueles que prestam o concurso também, mostram que, no mínimo, não têm estudado a bibliografia indicada.
    O conceito de raça dentro da Sociologia e da Ciência Política já foi superado, mas ainda é usado para políticas públicas porque existe discriminação...
    Na verdade, cientificamente não existe uma divisão da raça humana. Só que existe um ranço muito grande, uma resistência — e eu não ouso dizer de onde ela vem — mas até hoje as pessoas usam. Desigualdade racial, critérios raciais ou então cotas raciais. Se a gente for olhar por esse lado, essa divisão já é equivocada desde o início. Se você não tem uma divisão de raças, você também não pode esperar que haja uma política de raças. Agora, se tem uma divisão socioeconômica, você pode implementar uma política de autoafirmação socioeconômica. O Itamaraty, como subordinado à Presidência da República, tem a obrigação de seguir suas determinações. Se a Presidência julgou por bem uma política de autoafirmação racial, então não seria correto o Itamaraty não seguir. Agora, se existe um questionamento quanto a se seria melhor um critério socioeconômico ou racial, aí é uma discussão que deve ser mais ampla, que abranja a sociedade inteira, e aí sim repercutir no Executivo e no Itamaraty.

    Mas você, Mathias, acredita na política de cotas raciais?
    Eu acho que seria melhor uma política de cotas que não deixasse de lado o critério socioeconômico. Claro que isso (a condição socioeconômica baixa) é mais ceifador de oportunidades.

    Você não tem medo, caso entre no Itamaraty, de ser visto como alguém que teve uma atitude oportunista?
    Não tenho receio porque as pessoas que eu conheço, que já estudaram comigo e passaram, não são preconceituosas, têm uma bagagem muito grande sobre o assunto. Seriam pessoas que, se fizessem isso, estariam incorrendo numa incoerência, porque se eu tiver, por algum motivo, que um dia me envergonhar de ter me candidatado por meio de cotas, então qualquer pessoa, independentemente da cor da pele, por mais escura que seja, deverá também que se envergonhar. E acho que não é o caso. Acho que todo mundo reconhece que não tem por que uma pessoa de pele escura se envergonhar. E se essa pessoa não tem que se envergonhar, eu também não tenho. Sou tão afrodescendente quanto ela.

    O presidente do Supremo Tribunal Federal (STJ), Joaquim Barbosa, afirmou este ano que o Itamaraty é uma das instituições mais discriminatórias do Brasil, ao lembrar que foi eliminado na prova oral. Você acha que o perfil do diplomata brasileiro deveria mudar, buscando alterar esse funil destinado a uma elite?
    A declaração do Joaquim Barbosa fazia referência à época em que ele passou pela seleção, que era diferente da atual. Era uma seleção que incluía a prova e uma entrevista oral. E, claro, qualquer entrevista dá margem para o favorecimento, seja pela aparência, pelo apadrinhamento ou por qualquer critério. Ele faz referência a uma época que já passou. Há alguns anos o concurso é totalmente escrito, e as provas não são identificadas pelo nome. São feitas pelo Cespe, uma instituição de reputação ilibada, e, até onde eu sei, há plena confiança de que há isenção no concurso atual. Quanto ao fato de ser uma instituição elitista, é inegável. Só as pessoas que têm uma condição mais favorecida, que puderam ter uma graduação, além de dedicar quatro ou cinco anos de estudo para o concurso, conseguem passar. Mas isso não é particular do Itamaraty. Não é todo mundo que tem condições de sustentar o filho depois do segundo grau (ensino médio) por mais seis anos numa faculdade de Medicina. Outras carreiras também são muito elitistas, como a de juiz. E, assim, poderíamos enumerar várias outras que são elitistas no plano socioeconômico, porque não há como ser de outra maneira. Outra opção, supondo deselitizar os juízes, seria começar a colocar pessoas que só têm o segundo grau? Realmente não tem o menor cabimento. E por essa exigência de bagagem de estudo e experiência é que acaba havendo essa seleção, essa elitização. É fazer uma bolsa com critérios socioeconômicos (como o próprio Itamaraty já faz) para a pessoa se preparar para prestar o concurso: de juiz, da escola de Medicina ou qualquer outro. Acho que seria interessante o governo prover algum tipo de política, uma bolsa, para custear os estudos, seja em nível de graduação ou no preparatório para o vestibular, e depois nos concursos.

    Quando se fala em uma política de cotas raciais, ela não teria um efeito mais rápido, principalmente numa instituição como o Itamaraty, para que a miscigenação seja representada no nosso corpo diplomático lá fora?
    Um dos argumentos para a política de cotas raciais é que você tem um maior percentual de negros entre aquelas pessoas menos favorecidas do que entre as mais favorecidas. Se o Itamaraty ou qualquer outro órgão optar por uma política de cotas ou de auxílio de bolsas favorecendo pessoas com condição socioeconômica mais complicada, naturalmente você vai ter um favorecimento maior de negros e também das outras minorias que sofrem discriminação. Elas vão estar todas sendo favorecidas no mesmo grau, e você vai ter uma tendência a diminuir essa disparidade, essa elitização baseada tanto em critérios socioeconômicos como raciais ou de origem.

    O Itamaraty deveria fazer uma mudança nesse sentido?
    Como eu falei, tenho pouco conhecimento sobre o assunto. Acredito que há pessoas muito competentes dentro do Itamaraty, que devem ter estudado muito sobre o assunto, e eles devem ter o motivo deles para terem escolhido a política de cotas raciais. Não quer dizer que a política de cotas não precise ser revista ou melhorada.

    Se hoje a política de cotas para afrodescendentes é a única forma de colocar pessoas que têm menos oportunidades nessa peneira, você não se sente tirando uma vaga?
    O fato de eu ter me autodeclarado afrodescendente não me faz pensar que estou tirando vaga de outra pessoa que mereceria mais o lugar do que eu. Agora, o fato de eu ocupar uma vaga, seja como afrodescendente ou não, inevitavelmente tira a vaga de alguém. E, se foi alguém que não passou no concurso, provavelmente foi alguém que teve menos estudo do que eu. A gente também não pode cair no erro de, pensando em uma política de favorecimento, jogar na lata de lixo a meritocracia. Pessoas que estão estudando há mais tempo e tiveram melhores estudos merecem passar. A prova é feita para selecionar as pessoas que tiveram melhor desempenho. Então, normalmente, em qualquer prova séria, as pessoas que passaram tiveram melhores oportunidades de estudo, seja porque tiveram uma facilidade na criação, seja porque elas souberam usar a oportunidade delas. Se a gente quiser esquecer isso é melhor fazer sorteio. As pessoas se candidatam ao concurso, sorteia-se na loteria federal, e quem tirar o bilhete premiado entra no Itamaraty.

    Você está estudando há quanto tempo?
    Há um bom tempo. É que nem idade de mulher. Já chega uma hora em que fica constrangedor perguntar. Há mais tempo do que deveria.

    Se você não passar desta vez, pretende continuar tentando o Itamaraty e se autodeclarando afrodescendente?
    Eu, por enquanto, não tenho previsão de desistência.