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quinta-feira, julho 18, 2013

No meio do redemunho








O Mídia Ninja não tenta explicar ao espectador o que está acontecendo. Com seu material bruto, prefere levar o próprio público ao centro da ação


Uma mochila. Um laptop. Partindo do laptop, um cabo conectado ao iPhone. O sinal da rede 3G. Ou o wi-fi de alguém da redondeza. Às vezes um modem 4G conectado ao mesmo laptop. Está armada a “unidade móvel” do Mídia Ninja.
Lá mesmo, no fim da Paulista, às últimas horas da terça, 18/6, bem no momento em que um pequeno grupo decide atear fogo ao painel da Copa das Confederações. Lá na M’Boi Mirim, no meio de manifestantes sentados em círculos, que repetiam num jogral a pauta das reivindicações a serem levadas ao subprefeito na quarta seguinte.Para entrar no ar, um dos vários canais gratuitos de transmissão de vídeo na internet. Para atrair espectadores, um post no Facebook, outro no Twitter. A dinâmica de compartilhamentos das redes sociais se encarrega de avisar que ela está lá.
O Mídia Ninja (uma abreviação livre de Narrativas Independentes Jornalismo e Ação) não obedece à formalidade nem aos rituais da mídia tradicional. Suas imagens são transmitidas em tempo real, sem nenhuma edição. Não há vistas aéreas, não há tomadas a partir de postos de observação: é rua o tempo inteiro, e o ponto de vista é o mesmo do manifestante. Daí as imagens tremidas em meio à correria e os longos trechos de caminhada em busca dos pontos onde se reagrupam os dispersados. A narrativa é crua. Não tenta (nem seria capaz de) explicar ao espectador o que está acontecendo. Com seu material bruto, coloca o público no centro da ação.
Mas a quem pertencem as mochilas? A um grupo de ativistas que, depois de fazer uma cobertura ao vivo da Marcha da Liberdade, realizada em São Paulo em 28 de maio de 2011, lançou uma série de programas de debates transmitidos pela internet em um canal batizado de PósTV. Ligados a diferentes grupos militantes, a maioria deles fazia parte do Movimento Fora do Eixo, coletivo cultural fundado em 2005 por produtores de Campo Grande, MT, Rio Branco, AC, Uberlândia, MG, e Londrina, PR, com o objetivo inicial de promover músicos e bandas de todas as regiões do Brasil, em especial as situadas além do eixo Rio-São Paulo. Presente em 25 cidades, agora também se ocupa da organização de festivais e eventos no Brasil e no exterior, novamente fora do circuito comercial tradicional.
Os autointitulados ninjas, que sempre mostram a cara, expandiram sua grade de programação no primeiro turno das eleições municipais no ano passado, realizando programas diários que discutiam as diferentes candidaturas em 20 cidades do País. Para tanto, se valeram da capilaridade – e dos recursos – do Fora do Eixo. No começo deste ano, visitaram aldeias dos guaranis-caiovás no Mato Grosso do Sul para uma série de reportagens e cobriram o Fórum Social Mundial na Tunísia. Quando se preparavam para discutir linhas de pauta, alternativas de financiamento e os próximos passos da iniciativa, os 20 centavos explodiram nas ruas e os ninjas se jogaram de cabeça nos protestos.
A maioria deles não tem formação jornalística. O chamado núcleo duro, responsável pelas transmissões que ajudaram a dar visibilidade ao coletivo, é formado por cerca de dez jovens, quase todos com menos de 25 anos. A exceção é Bruno Torturra, de 34, que trabalhou na revista Trip por 11 anos como repórter, editor e diretor de redação. Ele, que ficou nos bastidores coordenando as coberturas, orientando quem estava na rua, afirma que a cobertura era guiada por instinto, por um “espírito de perdigueiro sem muito adestramento, sem processos e técnicas que são, sim, muito valiosos”.
Um exemplo dessa falta de “adestramento” foi dado durante a transmissão do dia 18 de junho. Filipe Peçanha, carioca de 24 anos que estudou audiovisual, acompanhava a manifestação desde a porta da Prefeitura. Depois de quase quatro horas no ar, de ter percorrido 4,5 quilômetros e ser atingido pelo gás lacrimogêneo, ele não se conteve quando o policial militar sem identificação no uniforme ordenou que desligasse a câmera. Correndo atrás do oficial para fazer com que dissesse o próprio nome, desferiu palavrões do mesmo naipe daqueles de torcedor contra juiz. Como esse formato de transmissão permite uma intervenção imediata do público por meio da seção de comentários, logo ficou claro: boa parte dos espectadores não gostou da atitude. Para Peçanha, é o preço do ao vivo – e de um novo jornalismo. Ele reconhece que, no calor do momento, qualquer um pode perder a cabeça. E atribui a reação do público a uma visão “antiquada”, a de que o repórter tem de ser imparcial, sempre. “Não estamos cobrindo um ato, estamos nele. As reações do repórter podem ter um efeito importante de denúncia.”
O calor que vem das redes, principalmente na forma de comentários, é objeto de trabalho de uma parcela da equipe fincada no QG. Dríade Aguiar, de 22 anos, faz parte dela. Se estivéssemos falando de uma emissora de TV tradicional, Dríade seria chamada de produtora. Na PósTV, ela ajuda a delimitar as coberturas mapeando atos e manifestações pelo País, identificando fotógrafos e repórteres que possam cuidar de cada um desses eventos e, uma vez com as transmissões em curso, triando os comentários e repassando dicas de furos e alertas de quem está nas ruas. Assim como Peçanha, Dríade, cuiabana que mora em São Paulo desde o fim de 2010, faz parte do Movimento Fora do Eixo. Ela se juntou a eles aos 16 anos, quando cobria eventos culturais para redes sociais. Cursou apenas três meses da faculdade de história, que abandonou para se dedicar integralmente às atividades do coletivo.
O trabalho de base, feito por jovens como Dríade, ajuda a estabelecer uma conversa entre espectadores e emissores e também a entender a simpatia com que os ninjas vêm sendo recebidos pelas ruas. Comerciantes emprestam tomadas para recarregar as baterias dos laptops, admiradores enviam mensagens colocando carros e equipamentos à disposição das equipes, moradores do entorno dos atos compartilham senhas de wi-fi e chegam a abrir suas casas para que os repórteres possam tomar banho ou descansar sem precisar se afastar dos centros nervosos. O calor da ação empolga até profissionais experientes, como o correspondente da Globo News em Nova York Jorge Pontual. Na noite do dia 18/6, quando Filipe Peçanha corria com seu iPhone pela Avenida Paulista, Pontual indicava o link da transmissão aos seus seguidores: “Se a bateria do ninja não morrer, eu não durmo essa noite”.
O domínio sobre a tecnologia é outro aspecto que intriga os espectadores do Mídia Ninja. Que operadora de telefonia usam? Como conseguem sinal no meio da multidão? Que telefones e computadores são esses cujas baterias parecem imortais? São os mesmos nossos de cada dia. Mas os ninjas se valem de gambiarras e jeitinhos que foram aprendendo na produção dos festivais de música da Fora do Eixo. Até fevereiro deste ano, as transmissões fora do estúdio ou de um espaço para shows tinham mobilidade limitada. Eles se muniam de cabos de até 300 metros para conectar as câmeras à internet e tinham de se restringir a esse raio de ação. Foi durante o carnaval que, em conjunto com o coletivo Tanque Rosa Choque, da USP, criaram seu caminhão link. A ideia era construir um minitrio elétrico para animar os blocos de carnaval que inundaram os quarteirões de diferentes regiões da cidade. Em um carrinho de supermercado, reuniram duas caixas de som, um gerador, uma mesa de som e laptops.
Quando, meses mais tarde, se preparavam para cobrir os protestos, devolveram o carrinho ao asfalto, turbinado com uma câmera Go Pro e uma torre improvisada. Para garantir internet móvel pelo percurso, visitaram apartamentos e estabelecimentos comerciais ao longo do trajeto das manifestações pedindo acesso às suas redes de internet sem fio. Também perceberam que o melhor momento para fazer transmissões via rede 3G é quando a polícia entra com a força para dispersar os manifestantes. “Quando todo mundo guarda os celulares no bolso para sair correndo, é hora de sacar os nossos”, diz Torturra.
Boa parte do tal núcleo duro mora na Casa Fora do Eixo (R. Escuvero, 282, Cambuci), onde até o guarda-roupa é compartilhado. Celulares, computadores, câmeras e planos de internet são, portanto, bancados pelos recursos do Fora do Eixo. Pablo Capilé, principal porta-voz do movimento, diz que a força de trabalho, composta por gente jovem, altamente qualificada e que se envolve nos projetos como militante, é a principal força mantenedora. E os festivais e eventos que produzem (alguns deles realizados em 300 cidades simultaneamente), a principal fonte de renda. Dinheiro público? Capilé diz que não passa de 3% do total.
A dúvida que paira sobre a evolução e o futuro de um veículo de mídia alternativa como a Ninja é o que fazer para financiar sua expansão sem cair no modelo tradicional das empresas jornalísticas, que passam por crises no mundo todo. A ambição declarada é fugir de formatos padrão e evitar clichês. Mas o caminho para colocar na rua uma grande equipe de reportagem que teria como elemento central células temáticas tocadas por editores mais experientes está longe de ser pavimentado. Eles são completamente avessos à ideia de um conglomerado com fins lucrativos. Acreditam que esse modelo é o responsável pelo abalo da imprensa. Rechaçam também uma organização hierárquica. Defendem um sistema horizontal, sem sócios, sem chefes, em que as decisões são tomadas por consenso. E veem nas ferramentas de financiamento coletivo (crowdfunding) a principal alternativa. “O leitor, o espectador, se sente diretamente responsável pelo que é produzido. Cria-se uma relação interessante”, diz Torturra.
Outro elemento importante é delimitar o foco da cobertura quando as ruas se aquietarem. Eles dizem que a agenda atual já dá mostras desse futuro. Além das manifestações, os jovens vêm cobrindo aulas abertas que ajudam a aprofundar temas dos protestos, como modelos alternativos de transporte, e ações de movimentos sociais, como ocupações e assembleias. Nesse cenário, a veia militante dos ninjas pode ameaçar a qualidade do jornalismo produzido? Eles acreditam que a disputa por narrativas criou novos parâmetros e demandas. “A melhor forma de nossa militância não significar perda de qualidade é não esconder nada”, diz Torturra. “É preciso não tentar vê-la como antítese da objetividade. Só é fundamental que o posicionamento fique claro.” Quanto ao surgimento de outros ninjas em novas redes – e às críticas de que estariam mais interessados em construir uma marca do que um novo modo de narrativa – os ninjas originais dizem o seguinte: o objetivo final é perder o controle. É ver surgir muitos novos clãs inspirados por eles – e que os inspirem também.
FONTE: ESTADÃO / ALIAS/ Camila Hessel 

quinta-feira, abril 18, 2013

Transparência e a desconcentração na publicidade do governo federal










Uma série de informações sobre as programações publicitárias do governo federal (administrações direta e indireta, incluídas as empresas estatais) têm sido publicadas nos últimos meses em alguns veículos de comunicação, inclusive na internet. Algumas delas, passam a falsa ideia de que ocorreram mudanças de rumo na estratégia da Secretaria de Comunicação Social (Secom) da Presidência da República a partir de 2011. Segundo tais interpretações, os recursos estariam concentrados nas grandes emissoras de televisão e nos seus grupos por terem eles passado a receber mais nos últimos anos; que a participação em pequenos e médios veículos, como alguns sites, teriam sido restringidas; que a regionalização teria sido abandonada. Afirmações como essas, sem qualquer fundamento, podem ser confrontadas pela análise dos dados das programações de mídia realizadas, disponíveis no site www.secom.gov.br.
Cabe aqui mostrar os dados com clareza. A princípio, é necessário explicitar, quantas vezes forem necessárias, os critérios técnicos de mídia da Secom.
Se a publicidade de governo tem como objetivo primordial fazer chegar sua mensagem ao maior número possível de brasileiros e de brasileiras, a audiência de cada veículo tem que ser o balizador de negociação e de distribuição de investimentos. A programação de recursos deve ser proporcional ao tamanho e ao perfil da audiência de cada veículo.
Em 2012, por exemplo, cerca de 62% das verbas foram programadas para o meio televisão, dentro da média dos últimos seis anos (Quadro 1). Desse total, 43% foram investidos na emissora líder, após ter caído a 41% em 2011 (Quadro 2), nível mais baixo já registrado. Este índice chegou a ser de mais de 60% em 2003. A participação nos demais canais abertos, emissoras regionais e de TV fechada subiu de 39% para 57% nos últimos nove anos [Informação gerada a partir de dados fornecidos pelo Instituto para Acompanhamento da Publicidade – IAP e de acordo com a previsão de utilização de espaços publicitários nos períodos. IAP – Instituto para Acompanhamento da Publicidade: associação civil sem fins lucrativos, mantida pelas agências de propaganda licitadas que prestam serviços a órgãos e entidades do Executivo Federal. As informações são oriundas dos pedidos de inserção encaminhados pelas agências de publicidade e não correspondem aos gastos efetivamente executados].


Isso é reflexo da mudança do perfil de audiência do país, mas também foi fruto da visão do executivo federal de promover a maior participação em diferentes canais e meios. Sempre considerando as audiências.
Na realidade, os investimentos do governo em televisão ficam abaixo da média dos percentuais praticados pelo setor privado no Brasil. Para melhor exemplificar o diferencial da atuação, basta citar que nas campanhas publicitárias de empresas privadas o peso do meio televisão nos últimos dois anos foi superior a 70%, acima dos 62% do Governo Federal. A indústria financeira chega a aplicar mais de 73% dos investimentos publicitários em televisão (Quadro 3).
Dados do meio jornal são significativos para demonstrar a estratégia de desconcentração de recursos do executivo federal: em 2000, por exemplo, 91% dos investimentos estavam nos jornais de capitais e 9% no interior, percentuais que passaram para 80% nas capitais e 20% no interior no ano de 2011. Foi a melhor participação dos últimos 13 anos nos títulos de pequenas e médias cidades do país. Em 2012, a participação em jornais sofreu leve retração, motivada pelo período eleitoral, que restringe participações institucionais de governo. Porém se manteve acima da média dos últimos oito anos. Mesmo assim, foram programados cerca de 1.500 jornais, mais de 80% em títulos do interior. Para o meio rádio, no mesmo exercício, foram programadas cerca de 3.000 emissoras em ações do Governo Federal, cerca de 80% em emissoras do interior (Quadro 4).

É propósito do governo ampliar a participação em novos canais e meios como a internet, seja em sites de abrangência nacional ou regional. A quantidade de veículos programados na rede mundial de computadores ainda está abaixo de meios como jornal e rádio. No entanto, o executivo federal constata a força do meio digital, tanto que a participação de valores no meio teve um crescimento de 580%, com programações em diferentes segmentos e com sites representativos de vários setores.
Em 2011, a participação dos sites menores (excluídos os cinco maiores portais em audiência no Brasil) chegou a um dos seus maiores índices históricos: 61% do total investido no meio. Em 2012, esse índice caiu para 52%, em virtude também das restrições do período eleitoral (Quadros 5 e 6).
Critérios
A atuação descrita anteriormente resulta de estratégia que completou dez anos em 2012 e constituiu processo continuado de qualificação da gestão de mídia do governo federal. Em 2003, o Comitê de Negociação de Mídia estabeleceu critérios para unificar ganhos e rentabilidades de todos os órgãos e entidades federais junto aos veículos de comunicação que contavam com as maiores participações de audiência no país e que recebiam os maiores investimentos. Até então, cada órgão executava sua negociação individualmente, o que gerava grandes diferenças e sensíveis perdas de visibilidade para as ações.
Foi o ponto de partida para nova era de gestão na contratação de mídia, em que o governo federal passou a ser visto como um grande anunciante do país, com prática unificada e referenciada em critérios técnicos de negociação e distribuição de recursos. Foi também o pontapé inicial do processo que possibilitou a realização de duas das principais diretrizes de atuação do governo: a desconcentração e a regionalização de suas ações de comunicação.
A iniciativa gestada no início do governo Lula tornou-se linha de atuação efetiva a partir de 2009, com a consolidação de um cadastro de veículos, de abrangência nacional, com critérios técnicos bem definidos de inclusão e negociação. Em 2013, o cadastro alcançou veículos de municípios acima de 5 mil habitantes, o que ampliou a base para cerca de 9 mil veículos cadastrados. E o processo continua.
Para fazer parte do cadastro, os veículos precisam manter atualizados seus dados formais, além de comprovar sua regularidade de veiculação. No caso de jornais não auditados, por exemplo, são exigidos envios periódicos de exemplares, em datas aleatórias escolhidas pela Secom, bem como documento, certificado em cartório, atestando sua tiragem.
A cada ano, a Secom amplia seus instrumentos de controle para garantir a qualidade do cadastro. Em 2013, passará a aceitar certificações de circulação de tiragem de institutos e órgãos independentes, reconhecidos pelo mercado, além de verificar a regularidade das distribuições junto a diversas entidades nos municípios. No caso de rádio, somente são aceitos no cadastro veículos regularmente licenciados pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).
Desconcentração
Em 2012, a programação de veículos em ações publicitárias do governo federal atingiu marca expressiva: ao longo do ano, cerca de 5 mil veicularam peças de campanhas dos diferentes órgãos. Não há registro no mercado publicitário de programações de anunciantes tão abrangentes. Este número é resultado das diversas ações realizadas pela Secom com o objetivo principal de aproximar do cidadão, em todos os cantos do país, as mensagens de utilidade pública, institucionais e de prestação de contas. A desconcentração de ações em veículos e praças, com destaque para valorização das mídias regionais, a partir de critérios técnicos de planejamento, é uma das diretrizes de atuação da Secom.
Programações abrangentes, evitando concentração em poucos veículos, são o caminho estratégico adotado para tornar essas ações mais efetivas. Por isso, a Secom recomenda a todos os órgãos e entidades federais o uso do maior número possível de veículos em suas campanhas, garantido impacto significativo das mensagens junto à população, apoiada na grande força dos veículos regionais, principalmente nos meios jornal e rádio, e também nos somatórios das audiências dos diferentes tipos e tamanhos de veículos
Os desafios não são poucos nem pequenos. Novos meios assumem participações significativas na preferência da população, como os canais digitais nas ruas e veículos de transporte público, além da grande entrada de novas faixas da população para a internet. A multiplicidade de canais de informação, cada dia mais acessíveis, se apresenta como cenário a ser acompanhado e estudado pelos profissionais de comunicação do país e por todos que desejam levar sua mensagem com eficiência aos públicos de interesse.
Ao governo, cabe estar atento a essas tendências, procurando sempre a maior qualidade na sua comunicação, aproximando sua mensagem do cidadão, contribuindo, cada vez mais, para a profissionalização e desenvolvimento dos veículos em todo o país. Tudo isso dentro de critérios claros e técnicos. E com a maior transparência.
***
FONTE: OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA / TEXTO Roberto Bocorny Messias é Secretário-Executivo da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República

quarta-feira, outubro 31, 2012

São Paulo, uma guerra particular











Agora a informação é oficial: a explosão de violência em São Paulo tem relação com uma guerra entre o crime organizado e a Polícia Militar. Os jornais de quarta-feira (31/10) revelam detalhes que confirmam suspeitas de descontrole das autoridades do estado sobre seus agentes e evidenciam que a causa principal da onda de assassinatos é a própria estratégia de segurança.
Estado de S.Paulo informa, com reportagem destacada na primeira página, que a polícia encontrou uma “lista da morte” na favela de Paraisópolis, com nomes e descrições físicas de policiais marcados para morrer. A relação teria sido apreendida numa “central de espionagem” do grupo conhecido como Primeiro Comando da Capital, que, segundo a imprensa, controla presídios, domina o tráfico de drogas e mantém sob seu poder muitas comunidades da periferia da cidade.
Estado de S. Paulo reproduz o que seria um fac-símile da ordem para a execução de policiais militares. Sob o título “Salve geral”, o texto convoca os integrantes do grupo a reagir contra flagrantes forjados pela polícia e contra as execuções de seus parceiros.
Para cada membro do PCC preso sob falsa alegação, a ordem é matar um policial, e para cada integrante do grupo morto em circunstância que eles consideram desigual, sem chance de reação, devem ser mortos dois policiais, sempre da mesma corporação e na mesma região onde ocorrerem os eventos, diz o comando.
Acusações mútuas
A se considerar verdadeiro o material divulgado pelo jornal, não há mais como o governo do estado negar que a explosão de homicídios que assusta os paulistas tem uma relação direta com ações questionáveis da Polícia Militar.
As causas expostas seriam flagrantes forjados de posse de droga e execuções sob a alegação de confronto armado.
O noticiário vinha dando margem a interpretações perigosas como essa, e já alimentava especulações ainda mais perturbadoras, como, por exemplo, por que esse estado de beligerância não afeta também a Polícia Civil. No entanto, entre os documentos apreendidos havia indícios de que a quadrilha pretendia matar pelo menos dois policiais civis do setor de repressão a roubos e assaltos.
A apreensão dos documentos só foi possível porque, desde a madrugada de segunda-feira (29/10), a favela de Paraisópolis foi tomada por 600 policiais militares, que mantém barreiras em todos os acessos da comunidade.
Paralelamente, os jornais relatam desentendimentos entre o secretário da segurança paulista e o ministro da Justiça, envolvendo questões partidárias e acusações mútuas de omissão. O secretário de Segurança afirma que a causa da violência em São Paulo é o descontrole das fronteiras, atribuição federal. O ministro da Justiça diz que ofereceu ao governo paulista apoio nas investigações e vagas em presídios federais para abrigar líderes de organizações criminosas.
Medo na Avenida Paulista
Diferente do Estadão, que usou seus repórteres para esclarecer o estado de guerra que assusta a população paulista, a Folha de S. Paulo procura desviar a pauta para o cenário nacional, com uma manchete na qual afirma que “um policial é morto a cada 32 horas no Brasil”.
O levantamento tem como base relatórios das secretarias estaduais de Segurança Pública e dá a entender que o fenômeno é nacional, mas lá pelo meio da manchete o texto esclarece que quase a metade das ocorrências se concentra em São Paulo, onde 98 policiais foram assassinados neste ano, sendo 88 da Polícia Militar. Só cinco deles morreram em horário de serviço, o que comprova a tese de que os criminosos estão caçando policiais militares em suas casas, executando-os quando estão de folga.
O esforço da Folha para diluir as atenções que se voltam para São Paulo produz no leitor mais crítico a sensação de que alguém está tentando enganá-lo. Os números da violência contra policiais em São Paulo são esclarecedores: no próprio texto em que procura amenizar a situação paulista, o jornal informa que os estados do Pará e da Bahia, que ficam em segundo lugar no total de policiais assassinados, tiveram cada um apenas 16 casos durante o ano.
Especialistas citados pelos dois jornais lembram que, acuados pela ameaça constante, os policiais perdem eficiência e aumentam a agressividade, sem contar que muitos deles saem deliberadamente em missão de vingança, o que explica a espiral de assassinatos.
Segundo o Estadão, a onda de violência tem provocado o fechamento de escolas e casas de comércio em bairros da periferia. “Medo já muda rotina até na [avenida] Paulista”, diz o título de uma reportagem do jornal.
FONTE: Observatorio da Imprensa /  Por Luciano Martins Costa

quarta-feira, junho 08, 2011

Demissões nas redações marcam crescente submissão e precarização no jornalismo
















Apresentando-se ao público como defensora da liberdade de imprensa, qualidade da informação e ética jornalística, a grande mídia brasileira talvez não resista a uma simples radiografia de si mesma. Neste primeiro semestre, o balanço a ser feito sobre as redações brasileiras é dos mais lastimáveis, tendo sido abaladas por uma verdadeira varredura.


A onda é nacional, mas o principal centro econômico (e midiático) do país chama a atenção. Só em São Paulo foram 238 demissões registradas até março, número que certamente já se elevou. Outras cabeças continuaram a ser cortadas, conforme o noticiário dos bastidores do ramo vem mostrando. Saltou aos olhos o caso do Meia Hora-SP, periódico dito “popular” do grupo Ejesa, que recém aportou no Brasil com grandes investimentos, sendo dono também do Brasil Econômico. Alegando necessidade de corte de custos (cada vez mais useiro e vezeiro), demitiu sumariamente toda a redação, sem qualquer aviso prévio, quando todos se achavam ali presentes para o que parecia apenas mais um dia de trabalho.


Apesar da enorme concentração na Paulicéia, a mesma tendência se verifica nacionalmente, inclusive com escândalos pontuais, como se viu na greve da retransmissora da Globo em Sergipe e na demissão de um editor do Diário do Nordeste, da Bahia, por fazer uma matéria sobre livro “Revoluções”, do marxista Michel Lowy. É provável que ao fim do primeiro semestre as vagas cortadas batam em 400.


Além do momento tempestuoso para os trabalhadores da comunicação, outro fator envolvido na questão é a cada vez maior incapacidade de reação da categoria diante de tantos ataques. Pode-se dizer que tal surto não começou da noite para o dia e vem no bojo de uma série de derrotas sofridas nos últimos tempos.


Como não poderia deixar de ser na imprensa comercial, os ditames neoliberais invadiram completamente as redações dos jornais que os propagandeiam, significando o enfraquecimento da classe e o fortalecimento do patronato em várias frentes, tal como testemunhamos em todos os ramos da economia brasileira.



Além da abertura ao capital estrangeiro nas empresas de mídia, outros dois fatos marcaram o enfraquecimento da classe jornalística: a supressão da antiga lei de imprensa, que apesar de antiquada deixou vazio jurídico, e a queda da exigência de diploma jornalístico para atuar na área, regra que jamais vigorou de fato, e que por sua vez deveria ser substituída por uma regulamentação geral da profissão de jornalista. Tais debates são solenemente ignorados pelos barões da mídia, os quais, em tempos de discussão sobre regulação da imprensa, contra-atacam aprovando em convescotes próprios a idéia da auto-regulação.


Obviamente, os monopólios midiáticos do país cerraram fileiras exatamente por tais decisões do Supremo, argumentando que no primeiro caso estaríamos livres de um “entulho da ditadura” (aquela que apoiaram) e que os direitos das pessoas eventualmente feridas por suas matérias já dispunham da Constituição Federal para serem preservados. Ignoram, claro, as dificuldades jurídico-processuais de um assunto não abordado direta e especificamente pela Constituição que tanto descumprem. Já no segundo caso, o argumento foi meramente mercadista, como sempre, pois o fim do diploma abriria o mercado e facilitaria contratações – “esquecem” de mencionar também o aumento da exploração, arrocho salarial e incremento da ideologia ultraconservadora e ‘liberal’ nas redações, pela imposição do medo e autocensura.


Dessa forma, a ausência de respostas a tal bombardeio é aterradora. Mas articulações para combatê-lo começam a buscar novo fôlego. Foi com esse intuito que a chapa opositora do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, denominada “Sindicato é pra lutar”, promoveu debate na última terça-feira (31) sobre as demissões nos meios de comunicação paulistas, abordando também algumas tendências que têm afetado a profissão.


“A categoria precisa ficar atenta pra algo que nunca foi muito falado nas discussões internas: os jornais brasileiros, seus donos, também entraram na economia financeirizada. Não apenas recebendo dinheiro de quem atua no mercado financeiro, mas também com seus próprios investimentos nesse mercado. E como é uma jogatina, um perde-ganha diário, essa velocidade de produção e resultados também alcançou as redações”, afirmou Jorge Felix, o primeiro jornalista a tomar a palavra.


Mediado pela jornalista Lucia Rodrigues, da Caros Amigos, o debate dedicou bastante foco à precarização da profissão, cada vez mais visível. E de modo sofisticado, pois se dá através de diversos mecanismos, alguns vendidos até como inovadores. Aliada a isso, está a pejotização (que transforma o profissional em Pessoa Jurídica na relação com o empregador), que de acordo com os debatedores continua a enganar a categoria acerca de seus benefícios.


“A maioria acha ótimo, porque vai ganhar mais. Mas isso é uma visão individualista, pois o colega pode ganhar menos sem motivo aparente, além de ser uma relação de trabalho que barateia diversos custos ao empregador e não garante salvaguardas futuras, como uma aposentadoria segura”, disse Marilu Cabañas, uma das vítimas do choque que abalou a Rádio e TV Cultura com 150 demissões no início do ano.


Com o desenrolar do debate, não ficou difícil tecer conexões com o desmantelamento das principais categorias sindicais no Brasil, consagrado nos anos Lula, com a cooptação e “docilização” (como ressaltado por Felix) das principais centrais sindicais. O fenômeno dentro do jornalismo foi praticamente idêntico, devastando os tradicionais laços de solidariedade, companheirismo e consciência de classe que sempre marcaram a categoria.


Um exemplo da situação de submissão total foi dado por Felix. “Os jornalistas ficaram individualistas, ganham o seu e reproduzem cada vez mais o pensamento do dono do jornal. Às vezes não é nem por vontade própria, e sim por assimilar completamente seus valores. Uma vez mandei uma estagiária minha fazer uma matéria de economia. Depois de publicada, liguei pra ela em sua folga e perguntei: ‘Por que você só falou com uma pessoa?’. Ela respondeu: ‘não, falei com quatro!’. ‘Sim, mas todos falaram a mesma coisa. Deu no mesmo que falar com um’, retruquei”.


Na tradicional e respeitada Cultura, uma emissora pública, a situação não é mais animadora, como relatou Marilu, que trabalhou na rádio por 16 anos. “Tinha governo que era difícil, que pensava que era dono da emissora. Tinha matéria que eu fazia e depois só ficava esperando o telefone tocar, com algum secretário de Estado fazendo pressão”.


Quanto à consciência de classe, nenhuma diferença em relação à imprensa comercial. “Só por ter o mínimo de crítica, quem me conhecia me chamava, brincando, de comunista etc. Mas nunca tomei muita frente em reivindicações de classe, nunca fui representante de nada, e mesmo assim fui eleita por quase todos pra ir lá discutir a nossa pauta quando o João Sayad entrou na emissora”, prosseguiu, para espanto de boa parte dos presentes.


Como se pode presumir, o desfecho das “negociações” foi desalentador, culminando na escandalosa demissão em massa dos profissionais da casa. “Quando falei com ele, disse que o pessoal tinha uma lista de coisas a dizer, que mudanças e melhorias eram necessárias e o Sayad sempre concordava, sempre balançava a cabeça positivamente, falando ‘vamos resolver, vamos resolver’”, contou. Resolveu. Cortando gastos e pessoal.


“E essa é uma tendência geral. No Diário de São Paulo, onde trabalhei por 20 anos, as reformulações, cortes, como queiram, eram cada vez mais freqüentes. Onde ficavam dois, três fotógrafos, agora tem um”, falou Wladimir Aguiar, o terceiro debatedor da mesa. “As editorias também tinham mais gente na responsabilidade, e agora ficam na mão de gente nova, inexperiente. Você vai ver, o subeditor tem um ano de carreira. O editor tem dois...”, completou.


Tal colocação veio acompanhada de distintas observações a respeito do uso atual do estágio. “Hoje em dia o estágio não é mais para melhorar a formação do futuro profissional, mas sim para substituir outros mais preparados, que têm um custo mais alto também. E esse estagiário trabalha 8 horas, faz uma jornada normal”, disse Luka Franca, blogueira e militante feminista, no que foi endossada por todos os jornalistas presentes.


Dessa forma, não é difícil compreender a queda da qualidade literária dos jornais brasileiros nos últimos tempos. Para o observador atento, é possível até notar a maior quantidade de erros gramaticais nos diários. “Depois que o J. Hawilla (ex-jornalista e atual empresário do marketing esportivo) comprou o Diário de São Paulo, já veio com o pé no peito da redação. Enxugou tudo, mudamos de prédio, a redação foi reduzida de dois andares pra um e, claro, teve uma limpa. Depois disso, não à toa, o jornal é um ‘pastelzão’, com notícias escritas de forma rasa e apressada”, exemplificou Felix.


Diante de tudo que foi debatido, reforçou-se a necessidade de promover mudanças profundas na atual direção do sindicato, atualmente ligado à CUT e com fortes laços com o petismo. Talvez esteja aí uma das explicações para a anestesia geral sofrida pela categoria dos jornalistas, cada vez mais precarizados e descartáveis.


O jornalismo brasileiro, ao menos da mídia tradicional, agoniza, crescentemente reduzido à assessoria de imprensa patronal.

FONTE: correio da cidadania / POR GABRIEL BRITO

terça-feira, agosto 24, 2010

TV Cultura diz que "Manos e Minas" será mantido




A TV Cultura informou nesta terça-feira o programa "Manos e Minas" deve continuar na sua grade.

"O Manos e Minas voltará à grade depois de passar por um processo de repaginação, aumentando o interesse em função de novas atrações", diz o comunicado.

O fim do programa foi anunciado pelo novo presidente da Fundação Padre Anchieta, João Sayad, que controla a TV Cultura.

Sayad havia apresentado um plano de gestão para a TV Cultura que previa a retirada do "Manos e Minas" do ar.

Assim, o "Manos e Minas" entra para a lista dos programas que serão reformulados pela emissora, da qual já fazem parte o "Jornal da Cultura", "Vitrine" e "Roda Viva".

O fim do "Manos e Minas" gerou protesto de vários artistas, entre eles, o líder do Racionais Mano Browm e até de conselheiros da TV Cultura. Danilo Santos de Miranda, diretor do Sesc, foi um deles.

Uma manifestação contra o fim da atração estava marcada para hoje em frente à Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Os rappers Max B.O, Emicida e Kamau fariam show durante o evento.

FONTE: FOLHA.COM

quinta-feira, junho 17, 2010

EMPRESA BRASIL DE COMUNICAÇÃO Radiodifusão para o povo negro

O processo para escolha dos novos membros do Conselho Curador da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) intensificou a necessidade de correlação entre as políticas públicas para a população negra e as políticas de comunicação. Setores do movimento negro questionam o presidente da República por escolher um candidato não identificado com a pauta racial, com apenas um voto na consulta pública, em detrimento de duas candidatas oriundas de organizações comprometidas com a pauta e apoiadas por um leque amplo de entidades, ao ponto de juntas somarem 15 votos na mesma consulta.

O caso da EBC ocorreu enquanto preparava a matéria para o Observatório do Direito à Comunicação sobre o capítulo da radiodifusão no informe anual da Relatoria para Liberdade de Expressão da Organização dos Estados Americanos (OEA). O documento indicou que a concentração da propriedade tem efeito similar a censura e aproximou a política regulatória as políticas sociais, em especial dos grupos historicamente discriminados.

A relação entre os dois temas, informe da OEA e questionamento ao Conselho da EBC, é muito tênue, e pode ser mais explorada pelas organizações e militantes comprometidos com a questão racial e a comunicação. Ambas falam de um nível de empoderamento no setor renegado aos afrodescendentes brasileiros, independente se o veículo é privado ou público: o acesso à propriedade da radiodifusão. Por isso vale menção a resolução aprovada no Grupo de Trabalho 15 da I Conferência Nacional de Comunicação: "Incentivo à criação e ao funcionamento de rádios comunitárias em áreas habitadas pela população negra e quilombola como forma de assegurar o direito a informação e cultura dessas comunidades".

O acesso e desenvolvimento da propriedade da radiodifusão precisa ser encarado como crucial a participação da população negra na sociedade de informação. O acesso à internet, a participação em redes sociais e a convergência tecnológica também são fundamentais, mas não significam a anulação dos mecanismos tradicionais de dominação. Da mesma forma que o trabalho escravo continua a existir e é atrelado às grandes propriedades rurais voltadas para exportação, a invisibilidade, estereótipo e até a criminalização do negro continuarão a existir nos meios de comunicação enquanto a radiodifusão pertencer a poucas famílias no país.

Para a OEA a concentração da propriedade da radiodifusão é essencialmente da ordem econômica e afeta diretamente segmentos historicamente discriminados, produzindo um efeito similar a censura: o silêncio. Nesse quesito o Estado tem papel fundamental em reverter este panorama – no qual ele é co-autor – ao incluir esses grupos. Não só na redistribuição das concessões, via atenuação dos mecanismos burocráticos e econômicos, mas também ao prover condições pra o desenvolvimento dessa propriedade, seja por fontes alternativas ou diretamente pela publicidade estatal.

Fica já perceptível uma noção de política reparatória, mais forte ainda quando o documento cita os povos originários do continente americano. Por isso, entre as perguntas que fiz à OEA como repórter do Observatório do Direito à Comunicação estava: "O relatório toca de forma especial nos povos originários, porém as populações afrodescendentes também têm seus direitos violados no continente devido histórico de escravidão (no Brasil até o fim do séc. XIX). A avaliação para os povos originários pode ser transportado para essas populações?"

A resposta – diplomática – da relatora Catalina Botero foi que tal necessidade de inclusão social pode ser estendida a outros grupos desfavorecidos. Neste caso, a relatora fez uma aproximação mais direta entre políticas sociais e políticas de comunicação. Ou seja, o combate à concentração é fundamental para promover a diversidade e pluralidade, não somente no viés cultural, no qual esses termos são popularmente adotados no Brasil, mas sim como política social.

Jacira, Nilza, João Jorge e o campo público

O fortalecimento do sistema público de radiodifusão é uma pauta acolhida por amplos setores dos movimentos sociais no país atualmente e os movimentos negros também embarcaram na defesa desse projeto como alternativa as restrições dos meios comerciais.

A EBC neste conjunto ainda estaria no hall das emissoras estatais, sob gestão controlada pelo Executivo. A recente consulta pública, um marco na abertura das decisões, resultou na escolha de três novos nomes, mas ainda são frágeis os argumentos para o presidente da República não referendar a ida de duas militantes: Jacira Silva, vinculada ao Movimento Negro Unificado (MNU) e à Comissão Nacional de Jornalistas Pela Igualdade Racial (Cojira); e Nilza Iraci Silva, presidente do Geledés, organização não governamental reconhecida internacionalmente por interligar os debates racial e de gênero.

O caso da EBC se configura como racismo institucional: quando condutas e comportamentos nos entes públicos inibem a participação ou acesso de grupos historicamente discriminados, mesmo sem intenção. O fato da EBC ter a presença de João Jorge, do grupo Olodum, no Conselho Curador, não isenta o veículo deste comportamento costumeiro no Estado, nem mesmo o avanço na produção de conteúdos audiovisuais comprometidos com a questão racial, em especial o programaNova África da TV Brasil.

As dificuldades para inserção da comunidade negra na gestão se intensificam nas emissoras filiadas a Associação Brasileira de Emissoras Públicas, Educativas e Culturais (Abepec), na maioria controlados pelo poder Executivo dos governos estaduais. Embora a formação da Rede Pública Nacional de Televisão, que congrega as emissoras da Abepec e a EBC, sinalize para abertura das decisões à sociedade, a organizações vinculadas à questão racial tendem a ser tratadas como secundárias para chegar nos postos de comando.

Neste contexto, as organizações do movimento negro têm dura missão: continuar a participar das mobilizações pelo desenvolvimento e abertura da Rede Pública Nacional e buscar veículos que possam ter autonomia a força estatal. Por isso os veículos comunitários cumprem um papel importante, ainda mais com a sinalização de que a posse da propriedade possa ser encarada diretamente como política social.

Porém, os meios comunitárias são invisibilizados, criminalizados e se encontram sob domínio político, em proporção crescente em relação aos privados. O acesso a essa propriedade é por mecanismos pouco transparentes e permeados de interesses que retiram autonomia das organizações sociais. As tevês comunitárias operam pelo cabo, basicamente nas grandes e médias cidades, mas indisponíveis à maioria da população negra, sem poder aquisitivo. O descrédito nesse meio se intensifica com a transição para a o Sistema Brasileiro de Televisão Digital (SBTVD), onde essas tevês estão excluídas dos canais do operador de rede público.

Já as rádios são fechadas pela Polícia Federal como as milícias do monárquicas destruíam quilombos. Além de operarem em espectro limitado, a população negra foi alijada de tal forma da política tradicional que não conta com organizações dotadas de canais para se credenciar a esses meios. É preciso estar subserviente a um (sinhô) deputado ou senador para ser legitimado as decisões do Congresso Nacional.

Políticas públicas de comunicação para a população negra

A prioridade na destinação de publicidade estatal para veículos, públicos ou privados, nos quais a posse da propriedade esteja relacionada a diversidade e pluralidade é um caminho interessante para alavancar iniciativas da população negra. Para isso, o poder público teria que começar a arcar com o ônus de reorientar a parte que lhe cabe no total das verbas publicitárias as tevês no país, 13,6%, segundo dados de 2007 da Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) e Fundação Getúlio Vargas.

O interessante é que a redistribuição destas verbas é viável nos três níveis da federação: União, estados e municípios. Ou seja, a morosidade do Ministério das Comunicações em revisar a política de financiamento para a radiodifusão comunitária ou estatal de caráter público, não justifica a mesma morosidade pelos prefeitos e governadores.

Ao ser encarado como direito social, o desenvolvimento da propriedade da radiodifusão poder estar atrelado aos programas agrários, educacionais, gênero, saúde e também de igualdade racial. Neste último caso, vale o exemplo recente de um povoado remanescente de quilombo na região do Médio São Francisco na Bahia, na qual a Secretaria de Promoção da Igualdade tem auxiliado a montagem de rádio comunitária no local, em processo acompanhado pela Universidade Estadual da Bahia (Uneb) campus III, na cidade de Juazeiro.

Porém o caso baiano é isolado e precisa ser aproximado da Assessoria Geral de Comunicação (Agecom), responsável pela política de comunicação social do governo; e da Secretaria de Cultura, responsável pelo Instituto de Radiodifusão de Estado da Bahia (Irdeb). O fato é que a questão racial tem legitimidade para revisar a destinação dos R$ 129 milhões reservados para publicidade no último ano do governo estadual baiano.

Lázaro, Netinho e a propriedade comercial

Ao final, cabe colocar os limites do modelo de propriedade comercial da radiodifusão, que opta pelo critério da audiência para agregar receitas oriundas majoritariamente da publicidade. Nessa seara a dinâmica capitalista no Brasil não abandonou o alto teor de desigualdade: uma minoria da população concentra o acesso aos bens e serviços devido o maior poder aquisitivo, por consequência a publicidade é majoritariamente destinada a esse público.

Este quadro tende a ser atenuado com o aumento da capacidade de consumo das classes C e D (onde está a maioria dos afrodescendentes). O que justifica em grande medida o aumento do número de negros na publicidade e com papéis de destaque nas novelas e demais conteúdos audiovisuais. Não há um histórico sólido de cidadania, quanto mais consciência racial, nos grandes empresários nacionais.

O ator Lázaro Ramos é o maior símbolo desse momento. Sua capacidade artística inqüestionável o credencia a ter sua imagem utilizada constantemente, mas não há como negar que o fenômeno também se dá pelo vácuo de atores negros na televisão. Imagino que a consciência racial e social demonstrada por Lázaro o faça refletir sobre isso, sem que amoleça sua moral e trajetória.

A mesma sorte não teve o ex-cantor e pré candidato ao senado de São Paulo pelo PCdoB, José de Paula Neto, o Netinho, ao tentar entrar para o seleto grupo de empresários da radiodifusão, bem sucedidos. A TV da Gente inaugurada no dia da Consciência Negra, 20 de novembro, de 2005, caiu no ostracismo e Netinho de Paula passou a privilegiar a atividade política. Talvez tenha experimentado na "pele" que o setor da radiodifusão tem uma relação estreita com o poder político conservador, que por sua vez não pretende repartir este poderio com personalidades como o ex-cantor de pagode.

Enfim, Netinho de Paula simboliza que para disputar a hegemonia no setor comercial é preciso muito mais do que telespectadores em potencial ou programação atrativa. É preciso que os interesses empresariais estejam relacionados ao apoio político e/ou religioso. Por isso só a Record conseguiu ameaçar a Rede Globo nos últimos trinta anos e dificilmente a população negra será contemplada nos próximos trinta.

FONTE: OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA/Pedro Caribé