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terça-feira, dezembro 30, 2014

Paulo Sant'Ana: o céu de Punta











Punta del Este é um paraíso encravado no inferno do Uruguai.

Punta del Este foi erguida pelos argentinos para gozar as delícias da praia, a delicadeza do trânsito e, principalmente, a vantagem enorme de não conviver com os uruguaios. Há gente de todo o mundo em Punta, menos uruguaios. Por isso, os argentinos se refugiaram lá.

Mas, aos poucos, os argentinos estão cedendo terreno em Punta del Este para os brasileiros, em breve haverá mais brasileiros em Punta do que argentinos.

É que as sucessivas crises financeiras que assolaram a Argentina pós-Perón foram empobrecendo os portenhos e eles passaram a vender suas casas e apartamentos em Punta del Este.

***

Não vou a Punta del Este por sua beleza natural e arquitetônica, que é indiscutível. Vou por dois motivos: os cassinos e os pêssegos.

São os pêssegos mais deliciosos do mundo, os de Punta, mais doces que as tâmaras do Líbano e mais suculentos que as laranjas de Taquari.

Pena que os pêssegos de Punta não dão nas quatro estações. Mas na única estação que vicejam já me bastam para comer centenas deles em apenas 60 dias.

Não é preciso dizer que tanto o Oceano Atlântico quanto o Rio da Prata, que banham as duas margens da península em Punta, têm águas geladas, nem sei como alguns turistas se atrevem a mergulhar nelas.

Se Punta del Este tivesse as águas das suas praias quentes como as de Jurerê, seria a cidade mais frequentada do mundo.

Mas a água é gelada, nem pinguim conviveria com ela.

Mas as ruas e avenidas de Punta são limpíssimas, arejadas por árvores inúmeras e têm um trânsito pacífico e convidativo como não há igual em nenhuma cidade do planeta.

Eu nunca vi um acidente de trânsito em Punta del Este. Dizem que já houve, mas eu nunca vi. É de admirar isso, afinal é estreita a península, mas acontece que o trânsito só é intenso no verão. No inverno, parece trânsito destinado exclusivamente aos pedestres, tão suavemente se comportam os motoristas em Punta.

***

Finalmente, é incrível, mas não há sequer um negro em Punta del Este. A 150 quilômetros de Punta, em Montevidéu, há milhares de negros.

Mas em Punta nenhum empregado, nenhuma empregada doméstica negra, nem camareiras de HOTEL.

Foi feita em Punta uma segregação racial pacífica e não violenta.

Há mais negros na Dinamarca e na Noruega do que em Punta del Este.

Ou melhor, não há sequer um só negro ou uma só negra em Punta.

FONTE: ZERO HORA

domingo, outubro 19, 2014

Vítimas de preconceito, antropólogos, artistas respondem: o Brasil é racista?







Caso do goleiro Aranha reacende a discussão sobre o preconceito no país.

Novos casos reacendem a discussão sobre o peso do preconceito racial no Brasil. Ofensas diárias contra negros e indígenas, principalmente, e episódios de discriminação de notoriedade questionam a ideia de harmonia racial no país. O goleiro Aranha, do Santos, foi chamado de “macaco” pela gremista Patrícia Moreira e por outros torcedores do clube durante um jogo e se voltou contra os gritos da arquibancada em um caso que ainda é debatido nas ruas.

O G1 fez a pergunta "o Brasil é racista?" a vítimas de injúria racial, artistas e antropólogos. 

Veja as respostas abaixo:

VINÍCIUS ROMÃO DE SOUZA, ator e psicólogo
Foi considerado injustamente suspeito de assaltar uma mulher no Rio, em fevereiro deste ano, e passou 16 dias em uma prisão. Leia sobre o caso.
“O Brasil é um país racista, sim. Pelos fatos que estão acontecendo e sempre aconteceram, e têm tomado maiores proporções. As pessoas têm mais informações, o que seria uma forma de combater o racismo. Eu não tinha vivido preconceito, não sei se por ser ingênuo ou se eu nunca reparei. Meus amigos, as pessoas com quem eu convivo, nunca me puseram apelido pejorativo, nunca liguei pra essa questão, porque eu sempre fui muito respeitado pelas pessoas do meu círculo social. Na verdade, o racismo dela [mulher que o acusou de tê-la assaltado] foi de generalizar os negros, mas acredito que fui preso porque a autoridade não fez o caminho certo. Vejo que o racismo mudou, não aparece na forma de agressão como antigamente, agora é mais emocional. É mais psicológico. Prende a mente das pessoas para que elas se sintam inferiores e não se achem dignas de um lugar de destaque.”
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JAIR OLIVEIRA, cantor
“Não tem como dizer que o Brasil não é racista. O Brasil abraça o racismo de uma forma muito cruel e maldosa. É de uma forma velada, enfim, todo tipo de racismo, velado ou não, é muito prejudicial. Aqui no Brasil o preconceito racial está muito ligado ao preconceito social. Eu já nasci em um contexto em que meu pai negro [o cantor Jair Rodrigues] tinha um status diferente. Ele era conhecido. Então, pra gente, isso já mudou muito. Mas eu, como qualquer outro negro, tenho histórias de preconceito. Já fui parado pela polícia por acharem que eu estava em uma situação fora da lei - simplesmente, por eu ter a cor mais escura. Também já aconteceu de estar em shopping com a Tânia [Kallil, esposa] e entramos em uma loja e o segurança ficar me acompanhando. São situações horrorosas, mas costumo não me deixar abater, até porque não sofro isso diariamente. São casos mais raros e eu sei que isso tem ligação com o fato de ser conhecido, de não ser um negro desconhecido, porque essa variável da equação faz uma diferença gigantesca.”
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ROBERTO DA MATTA, antropólogo
"No mundo ocidental, partindo de determinados pensamentos filosóficos, intelectuais e históricos, a gente tem essa ideia de que as coisas têm uma essência, elas não mudam. Então, existe essa ideia de que se misturar um negro puro e um branco puro dá merda. Não é verdade. E o Brasil é prova de que não é verdade. A lei é importante porque ela alerta. Minha visão do Brasil neste momento é pessimista. O racismo, na maioria dos casos, é inocente, acontece no dia a dia, em casa, com os filhos, com os amigos. Mas tem de punir, sou favorável à punição. O preconceito não acaba e ele se torna incontrolável. Já fui vítima de preconceito no sul dos EUA por ser latino, em 1963.
O Pelé ao lado de um negro pobre é branco."
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BRUNO VERON, cantor de banda indígena de rap Brô
Em 2012, uma usuária do Facebook chamou os integrantes do grupo de "fedorentos" e o Ministério Público Federal em Dourados, MS, abriu uma investigação. 

"O Brasil, do 100% da população, metade é racista. Aqui em Dourados (MS) é por causa da disputa de terra, de fazendeiro, por isso que aqui há o preconceito. Por questões de terra e luta.  E nós sempre somos barrados quando vamos em alguma loja, porque somos indígenas. Isso acontece muito aqui. Eu acredito que o racismo diminuiu um pouco, acredito que ele existe ainda, mas que diminuiu. Agora as pessoas reconhecem mais os indígenas, o Brô ter aparecido na Xuxa, ter representado os indígenas,  fez com que as pessoas tenham mais respeito. E o sucesso ajudou a diminuir o preconceito, abriu portas. Tem mais pessoas a favor da gente [em relação ao caso], as pessoas aqui da minha aldeia querem ser igual ao Brô, eles estão vendo que nós indígenas estamos evoluindo junto com os brancos. Nós não vamos ficar só no cocarzinho, a gente também está evoluindo."
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EGOR VASCO BORGES, moçambicano, faz doutorado no Brasil em ciências sociais
Ele era aluno da Unesp de Araraquara (SP), quando paredes foram pichadas com mensagens racistas como “sem cotas para os animais africanos”, em abril de 2012. 

“O Brasil tem características de preconceito e de racismo. Quando a gente chega ao aeroporto já nota isso, muda alguma coisa, o policial já lhe trata diferente dos demais passageiros. Você fica travado, todos vão embora e sua bagagem fica correndo sozinha na esteira. Na faculdade [Unesp] escreveram na parede mensagens racistas. Em Moçambique, de onde eu venho, o preconceito é entre diferentes etnias, diferente do que acontece no Brasil. O racismo dói demais. O mais peculiar é que aqui no Brasil o racismo é oculto, disfarçado, dissimulado. Até o negro brasileiro é racista. Ele se acha melhor que o negro africano. Isso é complexo, pois o negro daqui acha que é superior que o africano, que vem de outro lugar.”
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YVONNE MAGGIE, antropóloga
"O Brasil tinha uma visão de si mesmo, até pouco tempo atrás, de que a nação reprimia o racismo. O racismo é uma praga, é uma violência de uns contra os outros. O Brasil tinha essa característica de reprimir esse sentimento, e deve mesmo. Tudo que é nefasto deve ser reprimido. A nossa legislação não dividiu o país em raças. O estado não pode atuar a não ser reprimindo. No caso do goleiro Aranha, ele justamente ficou ofendido, mas me impressionou o julgamento ter sido tão rápido e racial. Outros clubes não foram punidos, aí eu acho que houve uma certa esperteza, porque o Grêmio estava praticamente eliminado [O Santos ganhou o jogou em questão por 2 x 0]. O Brasil reprime o racismo. Para o brasileiro é mais ofensivo o crime de racismo do que a morte. O racismo provoca mais dor do que um homicídio. Não aceitamos que alguém seja desrespeitado, muito embora não indique que o racismo não exista. Existe."
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TONY TORNADO, ator e cantor
“Já estou velho, tenho 83 anos e venho falando isso há tempos. O preconceito existe contra gordo, magro, baixinho, mas o racismo é mais pesado. A cor da pele não determina o caráter. Estamos correndo o risco de voltarmos ao tempo da escravatura. O que falta para o brasileiro é educação. Se não cuidarmos dela, o Brasil vai estar bem encaminhado para ser um país racista. Os EUA é um país educado, mas lá a coisa é heavy metal, barra pesada. Felizmente não temos essa violência aqui, mas estamos perto de ter. Já sofri, sofro e vou sofrer com racismo. Não é porque sou famoso que escapo disso. Fui casado com a Arlete Sales, que é branca, e enfrentamos muito preconceito por isso. Temos de chacoalhar o país para acabar com o racismo.”
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KARINA CHIARETTI, corretora de imóveis
Em um shopping de São Paulo, ela foi chamada de "macaca" pela aposentada Davina Apparecida Castelli, que foi condenada a pena de quatro anos e 39 dias de prisão em regime semiaberto e multa de R$ 28.960 de indenização por danos morais. 

"O Brasil e o brasileiro são racistas. Eu posso afirmar, porque eu fui vítima. Eu fui a primeira pessoa da minha família a sofrer com o racismo. Racismo é crime e a lei deveria ser cumprida. Mas no Brasil as pessoas acham que só bandido deve ir pra cadeia. É como se o agressor não merecesse ir para a cadeia. A Polícia do Estado de SP não tem pessoas aptas a lidar com esse tipo de coisa, eles não tem preparo. Eles ficam na dúvida se prendem ou não. O racismo é considerado crime em qualquer lugar, parece que em todo lugar funciona menos aqui. Eu fui educada numa família de valores claros. Minha filha tem 11 anos, estava comigo no caso da agressão, na época tinha 9 anos, E meu filho, tem  14 anos, e desde pequenos sempre souberam disso [que racismo é crime], que é passível de prisão, se alguém ofendê-los de macaco, ou do que for, essa pessoa pode ser presa."
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CLAUDINEIA GOMES, cobradora de ônibus
Foi chamada de “preta safada” e “negra ordinária” por uma passageira do ônibus em que trabalhava em Taguatinga, no Distrito Federal, em fevereiro deste ano.

“O tempo passa e isso não muda, ainda existe o pensamento hipócrita de racismo. Trabalho com pessoas e esse preconceito mudou minha cabeça. Depois que sofri preconceito passei a dar mais atenção aos idosos, aos deficientes e mulheres grávidas. O ônibus não sai se eles não estiverem acomodados. Eu pensava que cada um devia buscar os seus direitos, mas hoje penso diferente, temos de ajudar uns aos outros.”
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MARCIANO DUARTE
Pai de uma criança que diz ter sido chamado de "sujo e fedido" em uma escola de Mato Grosso do Sul por ser de origem indígena. 

“Eu acho que as pessoas não respeitam mais as outras. Mas somos todos iguais. O Brasil é de todo mundo. Nós que moramos no Brasil, a única coisa que é diferente é que nós, os índios, falamos diferente, só que somos todos do Brasil. Quando a gente vota, votamos para presidente, vereador, governador, tudo para ajudar a gente. É tudo igual. Eu respeito todo mundo. Eles têm que respeitar a gente também. Meu filho não foi respeitado na escola. Vieram falar pra mim que deram risada do meu filho e falaram do meu filho. Para nós, o homem branco é igual ao índio, é a mesma coisa. Não moram todos no Brasil? Só agora que o índio está começando a ser respeitado. Deus vai nos ajudar e vai trabalhar pela gente. Essa gurizada precisa estudar.”

FONTE: G1 SP Glauco Araújo - Colaboraram Gabriela Gonçalves, estagiária, sob supervisão de Shin Oliva Suzuki, e Isabella Formiga, do G1 DF

sexta-feira, setembro 19, 2014

Vaias a Aranha são a vitória do racismo na Arena do Grêmio








O racismo brasileiro, que contesta a existência do preconceito e nega ao negro até mesmo o direito de se sentir ofendido, obteve uma vitória expressiva na Arena do Grêmio, na noite desta quinta-feira 18 em Porto Alegre. Três semanas depois de Aranha ser chamado de “macaco” e “preto fedido”, o goleiro do Santos foi xingado de “viado” e “branca de neve”, vaiado durante o aquecimento e também a cada vez que encostava na bola durante nova partida entre os dois clubes, desta vez pelo Campeonato Brasileiro. Foi uma clara demonstração por parte de muitos torcedores gremistas da “indignação” provocada pelo simples fato, vejamos só o tamanho do buraco, de ter denunciado o ato de racismo do qual foi vítima em 28 de agosto.

Como de costume, houve uma tentativa cínica de negar que as vaias a Aranha fossem uma crítica ao goleiro e, consequentemente, apoio ao ato de racismo anterior. Durante o jogo, vicejava nas redes sociais o argumento de “vaia ser normal no futebol”. Após a partida, essa tese foi encampada por dois repórteres ligados às Organizações Globo, um do SporTV e outro da RBS.

SporTV: Aranha, mas você não acha normal as vaias (sic), o que aconteceu de anormal além das vaias?

Aranha: Eu não ligo com vaia, com manifestação de torcedor, desde que seja do esporte. E a gente, sem ser hipócrita… Porque às vezes também a gente fala as coisas, todo mundo começa a achar o que quer. Todo mundo sabe que a vaia hoje foi diferente.

SporTV e RBS: Diferente por quê?

Aranha (olhando para a repórter da RBS): Você sabe por quê? Por que foi diferente?

RBS: É a pergunta que a gente quer saber.

Aranha: Por tudo o que aconteceu no outro jogo, ou não foi? Ou você concorda com o que aconteceu? Você concorda?

RBS: Eu não tenho que concordar com nada.

Aranha: Ah, você não tem… (que concordar ou discordar)? Por quê? Então você não tá nem aí, é isso?

A conversa é perturbadora e chocante em dois níveis. Em primeiro lugar, pelo fato de os jornalistas partirem do princípio de as vaias não terem relação com o episódio de racismo, uma conclusão que desconsidera todo o contexto e, portanto, configura uma clamorosa e patética mentira. Em segundo lugar, pela busca cega da “isenção” por parte da repórter da RBS diante do claro ato racista do jogo anterior, postura resultante, por óbvio, das regras da emissora e cujo resultado é a dissociação entre o jornalismo e sua causa primária, a defesa da verdade.

Por trás das vaias a Aranha e das perguntas feitas ao goleiro após o jogo está também a construção de uma falsa verdade, a de que o goleiro não foi vítima de um ato racista, mas culpado por fazer torcedores gremistas “perderem a cabeça” ao fazer cera durante o jogo entre Grêmio e Santos pela Copa do Brasil. Defenderam essa tese, para ficar em dois exemplos, diretores do Grêmio, e Eduardo Bueno, também da SporTV. O último a fazê-lo foi Luiz Felipe Scolari, o artífice do 7 a 1, que comparou as denúncias de Aranha a uma esparrela.


O caso envolvendo o goleiro do Santos e a torcida do Grêmio é mais um na lista da moralidade alternativa que vigora no futebol, mas é também emblemático como ferramenta de análise da sociedade brasileira. Quem acusa Aranha, e quem silencia diante da pressão sofrida pelo goleiro, de uma forma ou de outra fortalece a reação à busca pela igualdade, contribuindo de forma perversa para a tentativa de “colocar o negro em seu devido lugar”, invisível e subalterno, onde não incomode com suas reclamações insolentes sobre o “suposto” racismo. É uma postura simplesmente abjeta, que ignora décadas de luta e, como disse o próprio Aranha, a dor de muitas pessoas cujo sofrimento está na base das leis contra o racismo.

FONTE: José Antonio Lima / esportefino.cartacapital


VEJA O VÍDEO




terça-feira, setembro 16, 2014

BASTA de racismo e machismo!








Lugar de Negros e Negras
 é dentro das Universidades!


Na última quinta-feira (10/09/2014), Sônia Regina Abreu, estudante da UFPA – Campus Altamira, foi vítima de racismo, machismo e ameaça à sua integridade física através da rede social facebook e pelo seu e-mail. Foram utilizadas palavras extremamente racistas e machistas, assim divulgadas. Sônia está entre os inúmeros negras/negros no Brasil que sofrem casos de racismo e machismo em pleno século XXI.

O papel do negro na sociedade ainda é um cenário de discriminação e segregação. As maiores partes dos pobres do país são negros, isso por si só, já faz com que a maioria da população negra não tenha acesso aos direitos básicos, como a educação.

Desde cedo, o jovem negro não pode pagar por uma educação privada, só restando a ele as instituições públicas, as quais, por descaso dos diversos governos, seja federal, estadual ou municipal, se encontram em péssima qualidade: com falta de merendas e salas de aula, bebedouros quebrados e falta de professores.

Dessa maneira, diversos espaços como a Universidade ainda não são assegurados como direito. O vestibular é um verdadeiro crivo que só permite passar a quem pagou por uma boa educação. Para o pobre e negro, fica apenas as faculdades privadas com o auxílio dos Prouni e Fies (que funcionam como forma de entregar dinheiro público para a iniciativa privada). E dos poucos negros que conseguem entrar numa Universidade pública, encontram lá novas dificuldades de se manter, como a falta de bolsas, fruto da falta de investimento na assistência estudantil.

Portanto, a atual política de cotas sociais é totalmente mesmo insuficiente como medida de reparação histórica, nós da ANEL defendemos cotas raciais para que os negros finalmente tenham acesso à educação.

A defesa intransigente da ANEL contra as diversas opressões, como a racismo e machismo, são travadas no cotidiano das lutas e reivindicações. Exigimos uma resposta imediata da reitoria da UFPA sobre o caso.

Solidarizamos-nos e apoiamos a estudante Sônia nessa luta no sentido de punir este neonazista e desconstruir este tipo de opressão enraizado na sociedade brasileira, dentro e fora das Universidades!

#SomosTodas(os)Sônia
#Negras/Negros nas Universidades é um DIREITO! Cotas raciais já!
#BASTA de machismo e racismo!

Clara Rodrigues - estudante de Serviço Social - UFPA

Alessandra Cristina - estudante de Serviço Social - UFPA, 
Executiva Estadual de Comunicação da ANEL Pará

Luiz Arias - estudante de Engenharia Civil - UFPA, Executivo Nacional da ANEL

Aranha! Aranha! por Tony Bellotto








Todos nós conhecemos direitinho como funciona nosso racismo, não somos inocentes.

Estive recentemente no Rio Grande do Sul e me surpreendi com comentários de parte da imprensa gaúcha, que, de certa forma, tentavam minimizar a gravidade das ofensas racistas da torcedora gremista Patrícia Moreira ao goleiro Aranha, do Santos. Após a torcedora, em prantos, ter declarado à imprensa que chamar o goleiro de macaco não foi uma ofensa racista, e de ter publicamente invocado seu perdão, vários jornalistas em solidariedade começaram a sugerir que Aranha tivesse a “grandeza” de perdoar Patrícia pelas injúrias.

Se chamar um homem negro de macaco não é uma ofensa racista, é o quê?

Uma demonstração carinhosa de admiração e respeito?

É admissível que alguém numa conversa declare: “Realmente aquele macaco do Joaquim Barbosa fez um trabalho excelente no STF”?

Ou: “O macaco do Obama é de fato um orador notável”?

“Mas como é veloz esse macaco do Usain Bolt!”

“A macaca da minha cozinheira prepara uma feijoada inigualável!”

Façam-me o favor!

Chamar um negro de macaco é das piores ofensas racistas que há, ponto final. Entendo que Patrícia esteja morrendo de medo de ser presa e tope qualquer negócio para evitar uma descida às masmorras medievais brasileiras, que, aliás, estão cheias de negros e negras. Compreendo também que Patrícia sinceramente não se considere racista. Muita gente no Brasil acha que chamar um negro de macaco não é racismo. Assim como, para muitos, ofender um homossexual não constitui preconceito ou homofobia. Homens que espancam mulheres também não se consideram misóginos. Isso prova, claro, que além de racistas, preconceituosas e estúpidas, essas pessoas são ignorantes. E não é porque são ignorantes que não devem responder por seus atos.

Sabemos muito bem como funciona o dissimulado racismo brasileiro. Quantas vezes não somos obrigados a ouvir contra a vontade as constrangedoras piadas sobre negros, as abjetas expressões como “preto quando não caga na entrada caga na saída” e as deploráveis insinuações de que a ineficiência de algum servidor negro se explica pela cor de sua pele: “também… olha a cor… esperava o quê?”.

E tudo isso dito por pessoas comuns, gente de “bem” que não se considera racista. Até mesmo negros às vezes se referem a outros de forma preconceituosa, demonstrando uma subserviência patológica e deprimente.

Todos nós conhecemos direitinho como funciona nosso racismo, não somos inocentes.

Há os que dizem que não somos racistas, que nosso preconceito é social, que o que existe é o preconceito do rico contra o pobre, que o preconceito racial não tem como subsistir num país como o Brasil, o “caldeirão de raças” em que todos se misturam com sensualidade, amor, alegria, respeito mútuo, muito samba e muita ginga. Ôlelê!

Será?

Isso me soa como mais uma dessas balelas ufanistas com as quais gostamos de nos iludir, como aquela que diz que somos um povo pacífico.

Negros ofendidos, homossexuais agredidos e mulheres espancadas estão aí para provar que as coisas não são bem assim.

Alguns jornalistas chegaram a citar o fato de Mandela ter perdoado seus carcereiros ao sair da prisão para reforçar a necessidade de Aranha perdoar a torcedora que o chamou de “macaco”. Além de despropositada e ridícula, a comparação é capciosa. Parecem estar querendo culpar o Aranha por insensibilidade e acabam reforçando a ideia racista de que, se ele é negro, com certeza deve ter alguma culpa nessa história.

Muitos alegam que é injusto que Patrícia Moreira responda sozinha por um crime que foi cometido também por outros torcedores no estádio do Grêmio e que não puderam ser identificados pelas câmeras de TV. Discordam de que a moça seja a única responsabilizada por um crime que é praticado diariamente por milhares de pessoas em nossas cidades. Nada disso justifica que Patrícia não seja julgada pela Justiça, e que seu ato, e os dos outros torcedores que ofenderam Aranha, seja repudiado com veemência e que isso sirva de alerta e desestímulo às odiosas manifestações de racismo em estádios de futebol e em toda a sociedade.

Mário Lúcio Duarte da Costa, o Aranha — que aliás ganhou o apelido por suas defesas remeterem às de Lev Yashin, o mítico goleiro russo conhecido como Aranha Negra —, tem demonstrado muita personalidade nesse episódio todo. Expresso aqui minha solidariedade ao goleiro do Santos, que foi enfático e corajoso ao interromper o jogo no momento em que era ofendido pelos torcedores e demonstrou depois magnanimidade nas entrevistas que se seguiram ao evento, afirmando que como cristão ele perdoa Patrícia, mas mantém a convicção de que ela deve responder à Justiça por suas ofensas.

Mais que pedir perdão, os torcedores gremistas dariam um grande exemplo de cidadania se, na próxima vez em que o Grêmio enfrentasse o Santos, eles recepcionassem o goleiro adversário não com gritos de “macaco”, mas de “Aranha! Aranha!”

FONTE: O GLOBO

sexta-feira, junho 13, 2014

Marcelo sofre racismo após gol contra: “tinha que ser preto”











O termo foi utilizado por usuários do Twitter para criticar o lateral pela jogada que definiu o único gol da Croácia no primeiro jogo da Copa do Mundo de 2014

Apesar da vitória por 3 a 1, a estreia da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 2014 gerou uma repercussão negativa nas redes sociais. Na jogada que definiu o único gol da Croácia no duelo, a bola desviada pelo croata Jelavic tocou o pé do lateral Marcelo e foi direto para o fundo das redes do goleiro Júlio César. Após o lance, internautas usaram o Twitter para atacar o atleta com comentários racistas contendo o termo "tinha que ser preto".

Internautas fizeram comentários racistas para criticar o lateral
"Tira esse Marcelo de campo. Depois vai dizer que sou racista, mas tinha que ser preto", afirmou um usuário. "Tinha que ser preto para manchar o nome do Brasil", reforçou outro. "Tinha que ser preto. Depois reclama de racismo, mas só faz merda", disse um dos internautas. "Se fosse branco não faria uma merda dessas", comentou outro.

Alguns dos tuiteiros reproduziram comentários feitos por familiares após o lance. "Foi ele que fez o gol contra? Tinha que ser preto! (gente, alguém segura a minha mãe?)", publicou um deles.

Apesar da maioria racista, houve usuários que citaram o termo para defender Marcelo e condenar o preconceito. "Então os torcedores falaram 'tinha que ser preto' no gol do Marcelo, mas não falaram 'tinha que ser preto' nos dois gols do Neymar?", questionou uma internauta.

"Nojo desse pessoal que falou 'tinha que ser preto' porque o cara fez gol contra", lamentou outra. "A meia desse 'preto' vale mais do que a tua casa, relaxada", atacou um tuiteiro. "Branco também erra", afirmou outro.

FONTE: TERRA

sexta-feira, junho 06, 2014

“Fifa nunca tomou medidas drásticas contra o racismo”





O historiador Joel Rufino conta suas impressões sobre os recentes crimes raciais no futebol

No ano em que o Brasil recebe a Copa do Mundo da Fifa, novos casos de racismo no futebol continuam surgindo. Episódios que muitas vezes não recebem a atenção necessária por parte de governos e entidades esportivas. O Brasil de Fato entrevistou o professor e escritor Joel Rufino, um dos maiores especialistas no debate sobre os direitos da população negra. Confira suas análises sobre o racismo no mundo da bola.
Brasil de Fato - Como o senhor avalia o racismo no futebol?
Joel Rufino - O futebol se tornou um dos negócios mais rentáveis do mundo. Os clubes europeus disputam aqueles campeonatos a ferro e fogo, como se fossem batalhas, e nesses momentos de grande competição o racismo aparece, é colocado pra fora. Em épocas de paz, sem competitividade, o racismo existe, mas está escondido, a pessoa tem vergonha de ser racista. Quando a competição se acirra como nesse futebol de hoje, a pessoa perde a vergonha de ser racista, de maltratar o outro.
Brasil de Fato - A CBF lançou em 2014 a campanha “Somos Iguais”. O senhor acredita nas ações da Fifa e de suas confederações no combate ao racismo?
Eu acho muito difícil a Fifa ser sincera em alguma coisa. Não acredito. Pode ser que ela seja também, temos que dar o benefício da dúvida. Mas uma instituição com a riqueza da Fifa, com o poder de entrar nos países e fazer o que quiser, de distribuir dinheiro, como é que pode uma instituição dessa combater o racismo? Não sei como. Por exemplo, faz tempo que podiam tomar medidas drásticas contra a demonstração de racismo. Nunca tomaram. Aqui mesmo na América do Sul, houve o caso do Perú, que xingaram um jogador brasileiro num jogo em Lima. Esse time continua na liga, não puseram pra fora. Os juízes levam o jogo até o fim por instrução das federações, embora a regra seja clara. Em caso de demonstração de racismo os juízes podem parar o jogo, mas eles não param. Levam o jogo até o fim, mandam a polícia atrás do cara, às vezes nem isso. Na prática eles não fazem nada. (Joel se refere ao jogo entre Cruzeiro e Real Garcilaso em fevereiro de 2014. Na partida, quando o jogador do time mineiro Tinga pegava na bola, a torcida adversária imitava sons de macaco).
Brasil de Fato - E durante o mundial de futebol?
Nessa Copa que vai ter aqui no Brasil, se houver demonstração de racismo por parte dos torcedores ou dos jogadores em campo, você acredita que a CBF e o governo brasileiro, vão tomar alguma medida? Você acredita? Não, eles não vão porque eles vão querer continuar a Copa. O importante para eles é a Copa.
Brasil de Fato - Em uma partida contra o Villareal em abril deste ano, o lateral do Barcelona Daniel Alves comeu uma banana arremessada no gramado. Para o senhor, o que representa esta atitude?
Pode ser um plano de marketing, mas até que provem o contrário foi um gesto espontâneo e antirracista. A banana que é símbolo do macaco, portanto é um símbolo racista, foi comida por ele e aquilo vai se transformar em merda. Tudo o que você come se transforma em merda. Eu achei muito bonito, eu gostei disso. Acho que foi um anti-gesto, um anti-símbolo. Comeu a ofensa e transformou ela em merda.
Brasil de Fato - Como devemos enfrentar o racismo?
Eu acho que tem que reagir, essa é a primeira coisa. Qualquer ato de racismo contra uma pessoa tem que ter uma reação, ou da própria pessoa ou de quem tiver ao lado. Isso de alguma maneira é pedagógico. Não é pela punição em si, mas ensina que o racismo é um crime. A segunda é apoiar as ações afirmativas do governo, seja qual for. Vê se muda esse quadro de ausência de profissionais negros. O problema é estrutural. Se é preconceito, eu posso citar aqui número de medidas que se pode tomar. Se é o racismo, que é estrutural, é muito mais sério, demanda muito mais esforço de todos, das organizações, dos sindicatos. É preciso organização para fazer reformas de base. Pressão, luta, ir para as ruas.
FONTE: BRASIL DE FATO

quarta-feira, maio 07, 2014

Evangélicos pedem boicote à novela da Globo por promover umbanda








Internauta afirma que os principais personagens de “Meu Pedacinho de Chão” têm nomes ligados à religião

Mais de 85 mil pessoas já compartilharam a postagem da evangélica Dayhendyra Alves que publicou uma informação que tem dado o que falar no Facebook: A novela “Meu Pedacinho de Chão”, da Globo tem promovido a umbanda.
Para chegar à essa conclusão a jovem, que é cantora e compositora, precisou pesquisar sobre os nomes dos principais personagens e também sobre a cidade fictícia da novela.
Em seu relato, Dayhendyra diz que ficou incomodada quando viu a novela pela primeira vez. “Achei as roupas estranhas então decidi pesquisar”, escreveu.
A pesquisa resultou em algumas informações que a emissora carioca nega ter usado como base para construir a história que é assinada por Benedito Ruy Barbosa.
“Descobri que a Vila de Santa Fé é um terreiro e que os nomes dos personagens são de umbanda”, diz ela citando alguns exemplos que conseguiu encontrar.
Entre eles Epaminondas (Osmar Prado), chamado na novela de Epa, uma saudação ao Orixá Oxalá (Êpa Babá). Outro personagem que Dayhendya conseguiu ligar à umbanda foi Serelepe (Tomás Sampaio). “SERELEPE: Seus sinônimos são Gay, excitado, inquieto, danado, caxinguelê, conhecido na umbanda como Joãozinho, Saci Pererê, Negrinho do Pastoreio e Serelepe da Umbanda (sapeca adora balas e doces)”, diz a jovem mineira que mora em Belém do Pará.
Dayhendya lista diversos nomes de personagens e encerra o alerta fazendo um clamor: “Que o Senhor Jesus nos lave com seu poderoso sangue e abra nossos olhos!”. Por conta da postagem, diversos evangélicos se comprometerem em fazer um boicote à novela que já vem apresentando uma grande rejeição do público.
De acordo com o site Notícias da TV “Meu Pedacinho de Chão” tem marcado os índices mais baixos de todas as novelas das 18h que a Rede Globo já exibiu. O site especializado em notícias sobre o mundo da televisão entrou em contato com a emissora que garantiu que a trama não foi inspirada na umbanda e nem faz referências à essa religião.
Confira a postagem:
Um alerta sobre a novela meu pedacinho de chão!!!
Quem tem ouvidos, ouça o que o espírito diz às igrejas. O que você tem deixado entrar na sua casa? Me senti incomodada com a novela das 18:00hs (meu pedacinho de chão), achei as roupas estranhas então decidi pesquisar, não achei nada tenebroso rs…
Mas Deus me tocou para pesquisar nome por nome, descobri que a vila de Santa Fé é um “terreiro” e que o nomes dos personagens são de “umbanda”. Veja: Epaminondas chamado de êpa significa: saudação ao orixá oxalá (êpa babá). Serelepe: seus sinônimos são gay, excitado, inquieto, danado, caxinguelê, conhecido na umbanda como Joãozinho, Saci Pererê, negrinho do pastoreio e serelepe da umbanda (sapeca adora balas e doces).
Pituca: boneca pituca, esoterismo e ocultismo, famosa mãe de santo, e filha de orixá Viramundo/giramundo. Exú Gina: famosa mãe de santo, a voz de oyá, yansã e Ruy de Ogum, está representando o lesbianismo. Amância: filha de Oxum. Dona Tereza: cigana, Oxum panda, cabloca, no grego significa seifera e caçadora. Tuim: santo, saudação de umbanda.
Mãe benta: mãe de santo Catarina: mãe de santo rodapé: pé que gira. Pedro Falcão: falcão povo das águas, oxum tem um senhor que vive de chapéu fumando cachimbo com bengala na mão esse vocês já sabem. Estes são apenas alguns… Que o Senhor Jesus nos lave com seu poderoso sangue e abra nossos olhos!
FONTE:Noticias Gospel Prime

domingo, maio 04, 2014

Neymar e o racismo: uma tragédia em quatro atos









O racismo é um problema inerente aos seres humanos: foi assim ao longo da história — a Escravidão, durante centenas de anos, e regimes espúrios como o Nazismo e o Apartheid ou a segregação racial nos transportes públicos dos EUA, durante o século 20, causaram danos irreversíveis.

Hoje em dia (embora sem o respaldo da lei, como no passado) a etnofobia continua a existir e a afetar diretamente negros e migrantes. Com pouca chance de externar seu preconceito em situações do cotidiano, certos de repressão e punições, muitos optaram por usar o futebol como meio de veiculação de atos discriminatórios.
Recentemente, Paulo César Caju deu uma declaração bastante forte a respeito de Pelé: “Ele contribuiu para o racismo”, disse. “O cara é o atleta do século, a figura mais popular do mundo e não usa isso para brigar por causas justas. (…) Se ele tivesse um pouco de noção ou sensibilidade, faria uma revolução neste caso [racismo]. Ele tem mais repercussão que líderes políticos e religiosos”, argumentou o ex-jogador.
A crítica de Caju (que integrou a seleção da Copa de 1970 na qual Pelé brilhou intensamente) foi feita especificamente a Edson Arantes do Nascimento, mas de certa forma caberia em muitos outros casos — o próprio Michael Jordan, no auge de sua fabulosa carreira, foi criticado por, supostamente, “se importar mais com a venda de seus tênis do que com a causa dos negros”.
Falo da grandeza, importância e repercussão que ídolos têm. Uma coisa é questionar suas opções políticas (ou a falta delas); outra, muito diferente, as causas que defendem — ou ignoram.
Atualmente, goste-se ou não, Neymar é o maior ídolo do futebol nacional. Discutir sua qualidade como jogador é estupidez: ele tem um tremendo talento, e já o provou em diferentes contextos. Por outro lado, discutir sua imagem pública e como ele a utiliza é algo que merece muitas reflexões. A principal delas é com relação às suas atitudes perante a questão racial
Eis uma história patética que pode ser resumida em quatro episódios.

Ato 1:  Preto, eu?

Neymar despontou no futebol em 2009, com apenas 17 anos, e logo de cara conseguiu levar o Santos à final do Campeonato Paulista. Ao longo do ano, o craque foi crescendo física e tecnicamente, e começou a balançar as redes por todo o país. No início da temporada seguinte, foi indicado ao prêmio Puskas — o mesmo que venceria em 2012 — pelo golaço diante do Santo André.
Ascendia de vez à condição de estrela. Era capa de revistas, e começava a aparecer com certa frequência nos programas esportivos do país.
Em abril daquele ano, o jovem jogador — que se tornara maior de idade — concedeu uma extensa entrevista à jornalista Sonia Racy, do jornal “Estado de S. Paulo”. Os temas foram variados: sua base familiar, sua religião, seus sonhos de consumo, e o sucesso: “Não tem parte chata [em ser famoso]”, disse o garoto.
Num determinado momento da conversa, surge a inevitável pergunta: “Já foi vítima de racismo?”, questionou Racy. A resposta de Neymar: “Nunca. Nem dentro e nem fora de campo. Até porque eu não sou preto, né?”.

Ato 2: Banana à inglesa

Pouco menos de um ano depois, em março de 2011, a seleção brasileira enfrentou a Escócia em amistoso em Londres. Neymar jogou muito bem, marcando os dois gols da equipe canarinho.
Apesar de sua boa performance, o jogo do brasileiro ficou marcado por um ato externo: o atleta disputava uma bola próximo à linha de fundo quando foi atirada uma banana em sua direção. O jogo foi paralisado, a banana retirada, e o autor do lançamento identificado e punido, horas depois.
Logo após a partida, Neymar foi perguntado sobre o ocorrido e respondeu dizendo que “ficamos totalmente tristes. É melhor nem tocar no assunto”.

Ato 3: É no pelo do macaco que o bicho vai pegar

Em janeiro de 2012, Neymar já tinha status de herói nacional: havia se firmado como líder da seleção e passara a figurar na lista de indicados à Bola de Ouro.
No dia 30 daquele mês, foi ao ar o clipe da música Kong. No vídeo, homens vestidos de gorila dançavam em meio a mulheres trajando biquíni. As estrelas principais da produção: Alexandre Pires, autor e intérprete da canção, e Neymar, que atuou como uma espécie de mestre de cerimônias no roteiro.
O refrão era muito claro: “É no pelo do macaco que o bicho vai pegar”. Em seguida, repetia-se a exaustão o título da faixa (“Kong, kong, kong…”).
Pires chegou a “prestar esclarecimentos” ao MP diante de um suposto racismo presente na letra e, principalmente, no clipe. Deu entrevista ao “Fantástico”, rechaçando as acusações.
A Neymar, ninguém contestou.

Ato 4: #SomosTodosMacacos

Em abril de 2014, após mais uma derrota do Barcelona, a torcida do time catalão foi até o centro de treinamentos da equipe e insultou os jogadores, dizendo que eles “só pensam na Copa do Mundo” e não se comprometem com a equipe. Quando passou Neymar, os torcedores imitaram o som emitido por macacos — como fizeram com Tinga, no Peru.
O ídolo da seleção brasileira não falou nada sobre o assunto, se limitando a postar mensagens enigmáticas (“tem horas que a caminhada é difícil”) em seu Instagram. Nesse meio tempo, sofreu uma lesão e ficou fora das partidas restantes da temporada.
Duas semanas depois, o Barça enfrentava o Villarreal e um torcedor do adversário atirou uma banana sobre Daniel Alves. O lateral-direito apanhou-a do chão e comeu-a. Seu ato foi tão simples quanto significativo: o que era pra ser ofensa, acabou sendo extinto no mesmo momento, e ainda contribuiu para que o jogador repusesse suas energias com aquela fonte de potássio gratuita.
O ato de Alves foi genial, em resumo.
Poucas horas depois, Neymar mandou um “Força Daniel” seguido pela hashtag #SomosTodosMacacos em seu perfil nas redes sociais. Na foto, o craque segurava uma banana ao lado do filho, que carregava um plátano de brinquedo.
Ao ler uma notícia sobre o gesto de Neymar, minha primeira reação foi a de pensar que, finalmente, ele despertava para uma realidade que sempre quis esconder ou com a qual nunca se importou de verdade.
Em seguida, celebridades — que iam de Sérgio Mallandro a Luana Piovanni, passando por Ivete Sangalo e Michel Teló — e seus milhões de seguidores também reproduziram imagens semelhantes com os mesmos dizeres.
A ação repercutiu tanto que até mesmo Carlos Miguel Aidar, presidente do São Paulo Futebol Clube, deu uma entrevista coletiva com cachos de banana à sua frente, ingerindo-as entre uma pergunta e outra. Aidar, aquele que disse querer Kaká no elenco do SPFC pois o atleta “é alfabetizado, tem todos os dentes…”, também se unia ao combate ao racismo!
Então, quando eu já estava me sentindo paranoico e envergonhado, fiquei sabendo que a grande mensagem de apoio/protesto de Neymar era, na verdade, parte de uma campanha criada pela agência Loducca. Menos de um dia depois tinha até camiseta (da marca de Luciano Huck, um dos famosos que postou foto com bananas) com a estampa “Somos Todos Macacos” à venda. O preço? 69 reais.
Neymar sonha em igualar Pelé nos gramados, de preferência conquistando a Copa do Mundo que acontece em pouco mais de um mês. Se ele conseguirá, ainda não sabemos.
Fora dos campos, no entanto, ele já o igualou.
FONTE: REVISTA BULA