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terça-feira, março 04, 2014

'12 anos de escravidão' se consagra no Oscar 2014













 Filme é o primeiro longa dirigido por um negro premiado pela Academia na categoria principal

Em uma cerimônia histórica (mas sem surpresas nas categorias principais), a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood deu pela primeira vez o Oscar de melhor filme a um longa-metragem de um cineasta negro: o britânico Steve McQueen, diretor de “12 anos de escravidão”. O longa-metragem, adaptação das memórias de Solomon Northup, negro livre da Nova York de meados do século XIX, sequestrado e vendido como escravo para fazendeiros do Sul, ainda ganhou os prêmios de melhor roteiro adaptado e atriz coadjuvante, de um total de nove indicações.

— Quero dedicar a todos que merecem não só sobreviver, mas viver. Esse é o grande legado de Solomon (autor do livro que inspirou o livro). E a todos que sofreram com a escravidão e ainda sofrem hoje. — disse McQueen.

O filme derrotou os dois outros favoritos, “Gravidade”, do mexicano Alfonso Cuarón, e “Trapaça”, de David O. Russell, que concorriam em dez categorias. A ficção científica de Cuarón venceu sete estatuetas, incluindo a de direção, dada pela primeira vez a um latino-americano, e outros seis prêmios técnicos. Apesar do lobby que impulsionou a candidatura do filme de O. Russell, a equipe de “Trapaça” saiu de mãos abanando, e nem a queridinha Jennifer Lawrence, que novamente levou um tombo num Oscar (desta vez no tapete vermelho), foi suficiente.

A festa, realizada no Dolby Theatre, em Los Angeles, teve como apresentadora a comediante Ellen DeGeneres, que jogou muito para a plateia: serviu pizza aos convidados, tirou fotos com eles (uma delas, postada em seu Twitter, bateu o recorde de compartilhamentos na ferramenta) e vivia interagindo fora do palco. Nas piadas, porém, deixou a desejar. Mesmo assim, o tom da noite apontou para uma cerimônia bem família. Vários atores levaram as mães como acompanhantes, caso de Jared Leto, Michael Fassbender e Charlize Theron, enquanto muitos dos premiados, muitos mesmo, agradeceram aos progenitores (ou mesmo aos filhos).

Na categoria melhor ator e melhor atriz, nada de novidades: como era de se esperar, Matthew McConaughey levou a estatueta por "Clube de compras Dallas", enquanto Cate Blanchett se consagrou por "Blue Jasmine", de Woody Allen.

— Sentem-se, vocês estão todos muito velhos para ficar de pé — brincou a atriz ao subir ao palco, para depois agradecer o prêmio, afirmando que ele "significa muito num ano de performances tão extraordinárias". — Filmes com mulheres são filmes que o público quer assistir e que dão dinheiro — completou a atriz.

Entre as atuações coadjuvantes, Jared Leto foi premiado por seu desempenho como a travesti Rayon de “Clube de Compras Dallas”, de Jean-Marc Vallée, que totalizou três vitórias, incluindo a de maquiagem. O ator, que também é conhecido no mundo musical como vocalista da banda 30 Seconds to Mars, dedicou o troféu às vítimas da Aids, doença que dizimou a vida de milhares nos anos 1980, período em que se passa o filme. E também à sua mãe, é claro.

— Ela me ensinou a sonhar — explicou Leto, durante os agradecimentos, no discurso mais emocionante da noite, que ainda teve espaço para a política. — Para todos os sonhadores ao redor do mundo, assistindo a esta noite em lugares como a Ucrânia e Venezuela, nós estamos aqui e enquanto vocês lutam para que seus sonhos aconteçam, para vencer o impossível, nós estamos pensando em vocês esta noite.

Lupita dá show de elegância
Entre as performances femininas coadjuvantes, sagrou-se vitoriosa a mexicana (criada no Quênia) Lupita Nyong’o, de “12 anos de escravidão”. A jovem estrela, que completou 31 anos no último sábado, uma das mais elegantes da noite, agradeceu o prêmio ao diretor Steve McQueen.

— Você foi o meu esteio, o meu guia — disse Lupita, emocionada. — Quando eu olho para esse troféu dourado, espero que isso lembre a todas as crianças pequenas que, não importa de onde você seja, seus sonhos são válidos.

Lançado no Festival de Cannes do ano passado, “A grande beleza”, de Paolo Sorrentino, protagonizado por Toni Servillo, rendeu à Itália o Oscar de melhor filme estrangeiro. Elogiada crítica à decadência moral da sociedade italiana contemporânea, o filme de Sorrentino, que já havia ganhado o Globo de Ouro da categoria, confirmou o favoritismo. Em seu discurso, Sorrentino dedicou a vitória a Fellini, Scorsese e Diego Maradona. O último filme italiano a faturar o prêmio da Academia foi “A vida é bela” (1997), de Roberto Benigni.

A maior surpresa da noite foi a vitória de “A um passo do estrelato”, sobre cantoras de apoio de grandes artistas, na categoria documentário em longa-metragem. O filme de Morgan Neville bateu favoritos, que tinham temas polêmicos, como “Ato de matar”, de Joshua Oppenheimer e Christine Cynn, sobre carrascos do governo da Indonésia que reencenam torturas e execuções para a câmera.

Dentro do segmento animação, a vitória de “Frozen — Uma aventura congelante”, dos estúdios Disney, o favorito da categoria de melhor longa, foi tranquila. O filme dirigido por Chris Buck e Jennifer Lee derrotou “Os Croods”, da Fox, “Meu malvado favorito 2”, da Universal, e o francês “Ernest e Célestine”, e o japonês “Vidas ao vento”, do mestre japonês Hayao Miyazaki, as duas últimas produções de prestígio, porém de público limitado nos Estados Unidos. Entre os curtas, venceu a produção francesa “Mr. Hublot”, de Laurent Witz e Alexandre Espigares.

Homenagem a Eduardo Coutinho
No tradicional clipe em homenagem aos mortos do mercado cinematográfico, o documentarista brasileiro Eduardo Coutinho, membro da Academia, foi justamente lembrado. O diretor francês Alain Resnais, morto no sábado, acabou não entrando na edição final do vídeo, que lembrou ainda de James Gandolfini, mais conhecido por "Família Soprano", Philip Seymour Hoffman e Shirley Temple, entre outros.

O prêmio de melhor figurino foi para a australiana Catherine Martin, autora do guarda-roupa do filme “O grande Gatsby”, drama de época ambientado nos anos 1920, e dirigido por Baz Luhrmann, seu marido. Catherine já havia ganhado o prêmio da Academia com o musical “Moulin Rouge” (2002), também de Luhrmann. O filme também levou o prêmio de direção de arte. O Oscar de maquiagem foi para a dupla Adruitha Lee e Robin Mathews, pelo drama “Clube de Compras Dallas”.

A categoria de curta-metragem de ficção foi vencida por “Helium”, de Anders Walter e Kim Magnusson. Entre os documentários em curta-metragem, o troféu foi parar nas mãos dos produtores de “The lady in number 6”, de Malcolm Clarke, sobre a pianista Alice Herz, de 109 anos, uma das mais antigas sobreviventes do Holocausto.

FONTE: O GLOBO

sábado, março 02, 2013

Israel elege a primeira miss negra desde a criação do estado













Ytayesh Ayanao, de 21 anos, é uma bela israelense, negra, e que acaba de entrar para a história. 

Ela foi eleita a primeira miss negra desde a criação do Estado, em 1948, na 63ª edição do concurso.


Oriunda da cidade costeira de Natanya, ela é chamada de “Titi” pelas amigas, ela era a única concorrente da minoria etíope em Israel. Ela entrou no concurso por influência de uma amiga e nunca havia tido experiência anterior como modelo. 

Durante a competição, antes de receber o título, ela chegou a comentar: “adoraria ganhar o concurso para mudar atitudes em relação às modelos negras. Eu adoraria ser a primeira negra miss de Israel. A Tyra Banks de Israel”. 

Há cerca de 25 anos, com o começo da imigração em massa de 1,2 milhão de russos para Israel, o modelo de beleza do país passou por uma transformação. Moças com traços mediterrâneos e cabelos escuros passaram a concorrer ao trono de miss e, muitas vezes, venceram jovens loiras e mais pálidas, estereótipo típico do país.
 
Agora, o modelo de beleza nacional passa por uma nova transformação com o amadurecimento de milhares de jovens etíopes que também migraram ainda crianças para Israel desde os anos 80.

A nova Miss Israel, por exemplo, chegou ao Estado há uma década, aos 12 anos de idade. Ela faz parte da comunidade de judeus etíopes em Israel, que hoje, conta com 120 mil pessoas ou 1,5% da população.

FONTE: REVISTA AFRO

terça-feira, janeiro 29, 2013

‘Django livre’ e ‘Lincoln’, sobre igualdade e protagonismo











Flávia Oliveira comenta a questão que envolve

os dois filmes


Sete anos separam o western fictício de Quentin Tarantino da realista trama política de Steven Spielberg. “Django livre”, assinado pelo primeiro, se passa em 1858; “Lincoln”, obra do segundo, em 1865, quando a Guerra Civil Americana já completara quatro anos. Assistir a esses dois candidatos ao Oscar de melhor filme, neste 2013 de Barack Obama reeleito para o segundo mandato presidencial nos EUA, é oportunidade bem-vinda de reflexão sobre a construção da igualdade para negros de qualquer nacionalidade.

São cinco horas e quinze minutos de reflexões sobre escravidão. E liberdade. De um lado, o humor sádico e o realismo fantástico de Tarantino, em mais uma película sobre vingança. De outro, o enredo entre quatro paredes, que trata da determinação do 16º presidente americano, na pele de um Daniel Day-Lewis impecável, em aprovar, a qualquer preço, a emenda constitucional abolicionista. Num extremo, o justiçamento; noutro, a Justiça.

Nos dois terços iniciais, “Django” empurra o espectador para a indagação que Calvin Candie, em interpretação segura de Leonardo DiCaprio, leva à mesa de jantar, junto ao crânio de Ben, um negro que serviu à família. “Por que não nos matam?” Como resposta, o personagem menciona um improvável determinismo fisiológico à submissão.

No filme de Tarantino, a liberdade é pavimentada sobre a vingança. É nela que o personagem-título, vivido por Jamie Foxx, ancora sua fileira de homicídios de (muitos) homens e (umas poucas) mulheres, todos brancos.

“Django”, não “Lincoln”, mostra as crueldades e as contradições do sistema escravocrata. A mão pesada de Tarantino expõe, além do suportável para os olhos, a tortura imposta pelos senhores a negros fugidios. Perde-se a conta do número de vezes em que a palavra nigger, criolo em tradução livre para o português, é dita como ofensa.

Pela lei ou pela barbárie
Há os escravos obedientes e, por isso, protegidos. Há as negras exploradas sexualmente, chamadas comfort girls. Há os privilégios concedidos aos mulatos. Há o desprezo pelos negros que assumem o trabalho sujo dos brancos. Há a indignação de uma comunidade que se depara com um não branco montado num cavalo. São fragmentos de realidade na ficção inverossímil de Tarantino.

Já “Lincoln” traz a libertação pela lei, ainda que construída com práticas políticas heterodoxas. Igualdade é conceito que se repete no belo e denso roteiro de Tony Kushner, não por acaso candidato ao Oscar, tal como o diretor, o protagonista e Tommy Lee Jones, que dá vida a Thaddeus Stevens, deputado dividido entre idealismo e pragmatismo políticos.

Assistir ao filme de Spielberg depois de ver o de Tarantino dá certeza de que na Justiça estão os alicerces da igualdade. No justiçamento mora a barbárie, que iguala algozes e vingadores. Não se faz democracia assim. Entendido, sr. Candie?

Martin Luther King Jr. ensinou aos EUA, nos anos 1960, que a essência do movimento pelos direitos civis estava na construção da igualdade. Foi ela que emergiu do arcabouço legal que nasceu com a 13ª Emenda, a da abolição, e culminou com a eleição, em 2008, do primeiro negro à Presidência da República.

A preferência pela civilidade de “Lincoln” ao revanchismo de “Django” é quase óbvia. Mas os dois trazem, ao menos, uma reflexão adicional e relevante. É o protagonismo negro.

“Lincoln” apresenta em suas duas horas e meia a liberdade concedida por um grupo de brancos empenhados em inserir a América independente no círculo das grandes nações. A incômoda passividade dos negros no processo está evidente logo na primeira cena, quando o cabo Ira Clark fala ao presidente do sonho de, em meio século, ver coronel um dos seus; em cem anos, votar. Naqueles anos de guerra civil, os escravos recém-emancipados tinham conquistado só o direito de combater por salário igual ao dos brancos. Nos EUA do negro Obama, Spielberg sublinhou o papel dos brancos na abolição.

No filme de Tarantino, o protagonismo do personagem-título também se constrói pelas mãos do caçador de recompensas de origem europeia Dr. King, vivido brilhantemente por Christoph Waltz. Django é um negro que tenta se libertar pela fuga. É capturado, vendido e, então, apresentado ao novo senhor, que lhe propõe a alforria em troca de ajuda na execução dos que lhe açoitaram no passado. É, de novo, a liberdade concedida. Somente no terço final do filme, quando o parceiro morre, o personagem de Foxx assume as rédeas de seu plano.

O par de filmes abre alas para outros tantos, que podem revisitar sob outra ótica, ficcional ou documental, a luta pela abolição. Fará bem aos Estados Unidos. E a negros de todo o mundo.

FONTE:O GLOBO / FLÁVIA OLIVEIRA

domingo, janeiro 27, 2013

Lincoln de Spielberg, Karl Marx e a Segunda Revolução Americana


"Lincoln" de Steven Spielberg transcorre em único mas crucial mês da Guerra Civil dos EUA, um conflito equivalente a uma segunda revolução americana. Em janeiro de 1865, quando faltavam poucos meses para a vitória da União sobre a Confederação, o presidente Abraham Lincoln decidiu fazer aprovar a Decima Terceira Emenda à Constituição dos EUA, para a abolição da escravatura sem condições e sem indenização aos proprietários de escravos. 

Por Kevin Anderson

 "Lincoln" de Steven Spielberg transcorre em único, mas crucial mês da Guerra Civil dos EUA, um conflito equivalente a uma segunda revolução americana. Em janeiro de 1865, quando faltavam poucos meses para a vitória da União sobre a Confederação, o presidente Abraham Lincoln decidiu fazer aprovar a Decima Terceira Emenda à Constituição dos EUA, para a abolição da escravatura sem condições e sem indenização aos proprietários de escravos. Por Kevin Anderson.

É um Lincoln muito diferente do candidato de 1860, que se negou a fazer campanha como abolicionista, ou do presidente que adiou a Proclamação da Emancipação quase até o terceiro ano da Guerra Civil, em 1863. Se trata de um Lincoln que cresceu com os tempos, cujo exército agora inclui 200.000 soldados negros, e cujos discursos começam a insinuar direitos de what is a aaa credit rating cidadania e voto para os antigos escravos.

América revolucionária
Com um roteiro escrito pelo destacado roteirista de esquerda Tony Kushner (Angels in America, Homebody / Kabul), o filme de Spielberg está centrado não apenas no próprio Lincoln, mas também na figura sem dúvida revolucionária, do abolicionista radical Thaddeus Stevens, com quem Lincoln se aliou naqueles fatídicos dias de janeiro de 1865. Algumas das cenas mais dramáticas retratam os debates cruzados de Stevens com o congressista de Nova York e racista doentio Fernando Wood, líder da ala anti-abolicionista do Congresso.

Em outra cena, Stevens apresenta um cético Lincoln e o programa republicano radical de uma prolongada ocupação militar do sul, durante a qual os antigos escravos alcançariam plenos direitos políticos, incluindo o de serem eleitos aos mais altos cargos públicos, e as fazendas dos antigos proprietários de escravos seriam confiscadas e divididas entre os antigos escravos (os famosos "40 acres e uma mula"). Tudo nisso narrado cinematograficamente graças à excelente interpretação de Daniel Day Lewis (Lincoln) y, mais ainda, de Tommie Lee Jones (Stevens), com uma contribuição também importante de Sally Field (Mary Todd Lincoln).

Ao mesmo tempo, está presente o lado sórdido da democracia dos EUA, em meio destas mudanças revolucionárias, mediante a corrupta política de clientelismo usada para obter os últimos votos para aprovar a emenda e envia-la aos estados para sua ratificação final.

Em seu conjunto, "Lincoln", oferece uma perspectiva antiescravista e antirracista da Guerra Civil dos EUA mais consequente que a habitual nos filmes de Hollywood. Evita o típico retrato de Hollywood do Sul como moralmente equivalente, se não superior, ao Norte. Por outro lado, o filme se centra na escravidão e no racismo como o tema central da Guerra Civil, ao mostrar favoravelmente um líder revolucionário como Stevens, o que não é usual. Mais ainda, o fraudulento argumento do Sul sobre os "direitos dos estados" é desmascarado, mostrando seu verdadeiro conteúdo: o “direito” dos brancos a escravizar milhões de seus semelhantes.

Dimensões econômicas e de classe da abolição
Alguns setores da esquerda criticaram o filme por não por de auto in insurance online quote relevo a luta pela auto-emancipação dos afroamericanos, como por exemplo no filme "Glória" (1989), que narra a história dos soldados afro-americanos do 54º regimento de Massachusetts.

Embora essas críticas sejam válidas e importantes, gostaria de centrar-me em outros dois temas que o filme não aborda: a importância econômica da escravidão e sua abolição, e a troca de correspondência entre Karl Marx e Abraham Lincoln, que se deu durante o mesmo mês de janeiro de 1865, no qual se desenvolve o filme. Ambos os temas poderiam facilmente ter sido incorporados ao roteiro sem alterar o ângulo a partir do qual o filme narra estes acontecimentos históricos transcendentais, e o do confronto entre elites políticas em lugar das massas mobilizadas. Certamente as primeiras influem nas segundas, e vice-versa, mas tento fazer uma crítica imanente, que aborde o filme em seus próprios termos e examine algumas das contradições que surgem.

A Proclamação de Emancipação de 1863 e a décima terceira emenda de 1865, que tornou permanente a guerra de 1863, eram diferentes das leis de emancipação promulgadas em outros estados. Por exemplo, a política de emancipação dos EUA proibia qualquer compensação econômica aos antigos proprietários de escravos. Diferenciava-se assim inclusive da pioneira Lei de abolição da escravatura britânica de 1833, que previu grandes somas de indenização. Neste sentido, foi mais parecida com a abolição jacobina de 1794 na França, anulada por Napoleão uma década depois, mas que ajudou a desencadear a revolução haitiana.

Por outro lado, a escravatura era mais importante para a economia dos EUA do que para a Grã Bretanha ou a França. Os quase quatro milhões de escravos que existiam nos EUA em 1860 constituíam ao redor de 13% da população e sofriam uma forma totalmente desumanizada de capitalismo que permitia comprar e vender seres humanos como escravos. A um preço médio 500 dólares cada, a “propriedade” humana dos escravistas nos EUA tinha um valor aproximado de dois bilhões de dólares, uma soma astronômica na década de 1860. Portanto, a abolição da escravatura sem indenização nos EUA constituiu a maior expropriação de propriedade privada capitalista até a revolução russa de 1917. Com uma penada se pôs fim a toda uma classe social, os donos dos latifúndios do Sul, que há séculos ergueram uma imensa acumulação de riqueza derivada da produção de açúcar, tabaco, algodão e outras matérias primas, além da compra e venda de outra mercadoria, os próprios escravos.

A abolição também incorporou milhões de trabalhadores formalmente livres à classe operária nos EUA, aumentando a possibilidade de uma unidade de classe que ultrapassasse as divisões raciais e étnicas, muito mais fácil depois que o trabalho escravo deixou de coexistir com o trabalho formalmente livre. Embora apenas uma pequena parte dessa unidade inter-racial tenha sido alcançada no pós-guerra, e apenas brevemente, sua necessidade segue ainda na agenda, na medida em que, hoje, a classe operária dos EUA está cada vez mais integrada por pessoas de cor, sobretudo afroamericanos e latinos.

Embora o filme passe por alto estas realidades econômicas e de classe, a favor da dimensão política, elas não escaparam a Karl Marx. Em uma carta de 29 de novembro de 1864, poucas semanas depois da fundação da Primeira Internacional (Associação Internacional de Trabalhadores), escreveu, "faz três anos e meio, no momento da eleição de Lincoln, a questão era não fazer mais concessões aos proprietários de escravos, mas agora a abolição da escravidão é o objetivo declarado e em parte já realizado”, e acrescentou que "nunca uma convulsão tão gigantesca teve lugar tão rapidamente. Terá um efeito benéfico no mundo inteiro" (Saul Padover, ed, Karl Marx sobre América e a Guerra Civil, Nova York: McGraw-Hill, 1972).

A carta aberta de Marx a Lincoln
Como foi mencionado atrás, no mês de janeiro de 1865, quando Lincoln virou para a esquerda, aliando-se com Stevens, foi também o mês em que Marx e Lincoln tiveram seu intercâmbio público de correspondência. Depois da publicação do "Discurso Inaugural" da Primeira Internacional (escrito por Marx) e suas “Regras gerais” de filiação, ambos em novembro de 1864, sua declaração pública seguinte foi uma carta aberta de parabéns a Lincoln por sua vitória aplastante na eleição de novembro de 1864. A carta a Lincoln foi redigida por Marx e também assinada por um grande grupo de ativistas operários e south yarmouth payday loan socialistas que incluía "Karl Marx, secretário de correspondência para Alemanha".

Nesse momento, a embaixada dos EUA em Londres estava encabeçada por Charles Francis Adams, um abolicionista de Massachusetts, membro de uma das mais ilustres famílias políticas de Estados Unidos. Adams conhecia sem dúvida alguns dos envolvidos com a Internacional, porque havia enviado seu filho Henry para observar e informa-lo sobre as reuniões que os trabalhadores britânicos organizavam desde 1862 para contrapor-se aos chamados dos políticos britânicos dos principais meios de comunicação a favor da intervenção em favor do Sul. Nessas reuniões intervinham muitos dos futuros líderes da Internacional. A presença do endinheirado jovem Henry Adams nessas reuniões seguramente se fez visível entre os trabalhadores que participavam delas. Além de recolher informações, a presença do filho do embaixador também pode ter o objetivo de fazer um chamamento direto à classe operária britânica, sem contar com seu governo.

Em dezembro de 1864, a Internacional propôs que uma delegação operária de 40 membros entregasse a carta e fosse recebida pela Embaixada. Embora o embaixador Adams tenha declinado da proposta, a carta da Internacional "Dirigida ao presidente Lincoln" foi entregue na Embaixada, e publicada em vários jornais ligados ao movimento operário britânico. Dizia em parte:
"Felicitamos ao povo americano por sua eleição por uma ampla maioria. Se a resistência ao poder escravista foi a principal consigna de sua primeira eleição, o triunfante grito de guerra de sua reeleição é: ¡morte à escravatura!". (Esta carta, a resposta de Lincoln, e outros textos relacionados foram recolhidos em Robin Blackburn, Uma revolução inconclusa: Karl Marx e Abraham Lincoln, Londres: Verso, 2011). E continuava: "Desde o começo da titânica luta americana, os operários da Europa sentiram instintivamente que a bandeira das faixas e estrelas é portadora do destino de sua classe".

Esta frase se referia não só aos profundos sentimentos antiescravistas das classes trabalhadoras britânicas da época, e as reuniões de massas que haviam organizado em apoio ao Norte, inclusive quando os principais políticos e publicações defendiam o apoio a uma intervenção britânica para romper o bloqueio de Lincoln aos portos do Sul, o algodão voltar a fluir através dos mares, pondo um fim ao desemprego em massa causado pelo bloqueio. A frase sobre o vínculo entre o destino dos EUA e o das classes trabalhadoras da Europa se baseava também em um fato indiscutível. A classe operária da Grã Bretanha (e mais ainda no Continente) não tinha direito de voto, que era censitário e limitado aos proprietários, e via nos EUA a única experiência importante de democracia política da época. O resultado foi um dos melhores exemplos jamais vistos de internacionalismo proletario.

Como Marx observou durante estas mobilizações dos trabalhadores britânicos no começo da guerra: "o verdadeiro povo da Inglaterra, França, Alemanha, da Europa, considera a causa dos Estados Unidos como sua própria causa, a causa da liberdade, e, apesar de todos os sofismas pagos, consideram a terra dos Estados Unidos como terra livre a disposição dos milhões de camponeses sem terra da Europa, sua terra prometida, que é preciso defender agora de espada na mão contra as sórdidas garras escravistas ... Os povos da Europa sabem que a escravocracia do Sul começou a guerra com a declaração de que a continuidade da escravocracia já não era compatível com a continuidade da União. Portanto, os povos da Europa sabem que a luta pela sobrevivência da União é uma luta contra a continuação da escravidão - que nesse contexto, a mais alta forma de autogoverno popular conseguida até hoje está lutando contra a mais desprezível e mais desavergonhada forma de escravidão do homem nos anais da história (Marx, “El Times de Londres y lord Palmerston”, New York Tribune, 21 de outubro de 1861).

A carta de Marx a Lincoln em nome da Internacional também afirmava: "Enquanto os trabalhadores, o verdadeiro poder político do Norte, permitiram que a escravidão profanasse sua própria república, enquanto ante o negro dominado e vendido sem seu consentimento, presumiram que a maior prerrogativa do trabalhador de pele branca era vender-se e escolher seu próprio dono que la , não foram capazes de alcançar a verdadeira liberdade do trabalho, nem de apoiar a seus irmãos europeus em sua luta pela emancipação, mas esta barreira ao progresso foi varrida pelo mar vermelho da guerra civil ".

A resposta pública de Lincoln a Marx
Em 28 de janeiro de 1865, para surpresa e deleite de Marx e de outros membros da Internacional, a Embaixada dos EUA emitiu uma resposta pública do Embaixador Adams para a Internacional. Em uma carta a Engels, em 10 de fevereiro, um satisfeito Marx nota que Lincoln havia escolhido dirigir sua importante resposta não aos liberais britânicos que o adulavam, mas à classe operária e aos socialistas: "O fato de que Lincoln nos respondesse com tanta cortesia e que à "Sociedade pela Emancipação Burguesa” tenha feito de maneira brusca e puramente formal indignou ao The Daily News de tal maneira que não publicou a que nos havia... La diferença entre as resposta de Lincoln para nós e para a burguesia provocou tal sensação aqui que os “clubs” de West End movem incrédulos a cabeça.

Pode compreender o gratificante que isso foi para nossa gente".

Embora a resposta para a Internacional tenha sido assinada pelo embaixador Adams, deixou muito claro que Lincoln havia lido sua carta e que Adams falava no nome do presidente, e não no seu apenas.: "Fui instruído para informar-lhe que o Discurso inaugural do Conselho Central da Associação foi devidamente transmitido através desta Legação ao Presidente dos Estados Unidos, e este o recebeu".

Tendo em conta os acontecimentos de janeiro de 1865 narrados no filme, quando Lincoln estava em meio à coleta de votos para Decima Terceira Emenda, é ainda mais notável que tivesse tempo para redigir semelhante resposta. E por uma confluência estranha e comovedora de acontecimentos, a resposta de Lincoln para a Internacional fosse feita publica apenas três dias antes da superação, pela Camara de Representantes dos EUA, dos obstáculos de numerosos políticos racistas e votasse, em 31 de janeiro, a ratificação da Emenda, e a enviasse aos Estados para sua ratificação final.

A resposta de Lincoln também se refere a nível geral aos "amigos da humanidade e ao progresso em todo o mundo" com quem os EUA contavam, uma alusão à forma pela qual as assembleias dos trabalhadores britânicos, que não tinham direito de voto devido aos requisitos de propriedade, haviam sido cruciais na hora de impedir as manobras britânicas para intervir a favor do Sul durante os primeiros anos da guerra. Esta sugestão é mais evidente na última frase, onde afirma que o governo dos EUA foi capaz de tirar “novos ânimos para perseverar graças ao testemunho dos operários da Europa, de que essa atitude nacional se viu favorecida com sua aprovação ilustrada e suas ardentes simpatias".

É difícil recordar outro momento em que o governo dos EUA tenha agradecido publicamente à classe operária internacional seu apoio, e muito menos a uma organização de trabalhdores dirigida por socialistas.

As revoluções inconclusas: 1860 e 1960
Este intercâmbio entre Marx e Lincoln ilustra de forma dramática o fato de que a Guerra Civil foi uma segunda revolução americana, muito mais radical que a primeira, em 1776. Foi sem dúvida uma revolução burguesa e não socialista, mas a defesa por sua ala esquerda - que acabou não tendo êxito - da necessidade de uma transformação fundamental na propriedade da terra, no Sul, apontava a algo ainda mais radical. Este caráter inconcluso da revolução, que se deteve na emancipação politica dos antigos escravos, e que logo, depois 1876, inclusive em grande parte ficou sem validez, é algo que ainda pesa sobre os Estados Unidos da América até nossos dias.

Em um inquietante paralelismo, a revolução pelos direitos civis nas décadas de 1950 e 1960, que finalmente conseguiram sobre uma base mais permanente o que havia sido estabelecido muito brevemente através das leis e das emendas constitucionais nas décadas de 1860 e 1870, também se viu obrigada pelas circunstâncias a parar antes da emancipação política.

Isso nos deixa hoje com o resultado paradoxo de que os EUA têm seu primeiro presidente afro-americano e, ao mesmo tempo, têm também mais homens e mulheres afroamericanos do que nunca em sua historia que se consomem quase esquecidos no mundo desumanizado das prisões e cárceres nos Estados Unidos.

O filme "Lincoln", que também não trata destes temas, está em muitos aspectos também sem terminar. Inclusive em seus próprios termos, vendo a história a partir de um ângulo que destaca os acontecimentos protagonizados pela elite política em vez de pelas massas que as pressionavam, não leva até o final suas próprias implicações mais radicais, como por exemplo em seu retrato do programa republicano radical de Stevens. Mas é um sinal dos tempos, das transformações profundas da sociedade e da cultura dos EUA, que um filme comercial de Hollywood revele inclusive uma parte desta página da história revolucionária, que, como assinalou Marx, teve efeitos "em todo o mundo".

(*) Professor de sociologia e ciências políticas na Universidade da Califórnia, e autor de nw washington payday loan Marx at the Margins: On Nationalism, Ethnicity, and Non-Western Societies (University of Chicago Press, 2010). Tradução: José Carlos Ruy

Fonte:DIÁRIO LIBERDADE

LEIA TAMBÉM:

Django Livre: além do didatismo

http://guebala.blogspot.com.br/2013/01/django-livre-alem-do-didatismo.html

quarta-feira, janeiro 23, 2013

Django Livre: além do didatismo

Quentin Tarantino usa polêmica, 
humor e violência extrema
 para retratar escravidão. 
Até onde vai a liberdade artística?

Mais um filme de Quentin Tarantino chega às telas, e mais uma vez a polêmica se instaura sobre a glorificação da violência, o espetáculo divertido da morte. Desta vez, ao invés de reescrever a morte de Hitler, como fez em Bastardos Inglórios, o cineasta e roteirista propõe nada menos do que reescrever a história da escravidão nos Estados Unidos. Em uma entrevista à televisão, quando perguntado pela enésima vez sobre a violência em sua filmografia, o diretor explodiu. Não aguentava mais a mesma questão.


Em Django Livre, de fato, ele retrata muito, muito sangue, além de corpos cortados, pedaços de vísceras voando, pessoas chicoteadas e comidas por cachorros. Como se trata de uma vingança (Django, um escravo liberto, quer matar aqueles que o mantiveram em cativeiro e o separaram de sua esposa), o espectador é convidado a torcer pelo herói, a vibrar com ele. Na sala de cinema em que assisti ao filme, algumas pessoas aplaudiam com satisfação cada morte provocada por Django (Jamie Foxx).

Recentemente, o público também vibrou com a vingança de Grace (Nicole Kidman) em Dogville, de Lars Von Trier, ou mesmo com a vingança das mocinhas das telenovelas globais contra as carismáticas vilãs. Ora, embora Grace tenha recorrido a métodos cruéis contra seus opressores, e embora as mais recentes vilãs de novelas tenham chegado inclusive a enterrar as adversárias vivas – algo muito tarantiniano, por sinal –, nenhuma delas foi acusada de explorar a violência, ou torná-la leve, agradável. A acusação contra Tarantino encontra no humor seu principal alvo: tolera-se a vingança, contanto que não seja engraçada. Com a morte não se brinca.

Um motivo para tal crença seria o medo das consequências (morais) nefastas na sociedade. O fato é que dificilmente alguém se tornará mais insensível à violência real por ter assistido aos banhos de sangue em Django Livre. Pode-se culpar, com razão, a grande exposição do público jovem a imagens violentas, mas aí seria necessário abrir uma ampla discussão, incluindo as imagens na internet e na TV, a relação do país com guerras, a paixão pelas armas, a cultura do individualismo, o espírito de competitividade, a situação econômica etc.
Por isso, as vozes dos espectadores que exigem a moralização das imagens encontram pouca repercussão neste caso. Mais interessantes e mais complexas são aquelas que questionam o direito de se divertir a partir de qualquer tema, inclusive a morte, a exploração dos negros e a crueldade de modo geral. Além disso, atalhos como “videogames foram responsáveis pelo massacre de crianças nas escolas americanas” sempre foram uma maneira rápida e pouco convincente de o governo se isentar de responsabilidade nestes casos, dissociando-se da tradicional cultura belicista norte-americana.


Talvez Django Livre seja “politicamente incorreto” (curioso, esse termo), mas ao menos ele toma uma precaução, típica da linguagem pop e autorreferencial, que é de explicitar sua paródia, suas referências. Em outras palavras, afastar-se do real. Ninguém confundiria esta obra com uma leitura história precisa sobre os fatos, já que Tarantino coloca elementos suficientes para estabelecer um distanciamento entre a História e sua representação.
                                                                                                         
O cineasta realiza com este filme uma espécie de vingança simbólica, pessoal, um acerto de contas com episódios que ele não considera terem ganho um desfecho satisfatório. Não é por acaso, aliás, que nas várias cerimônias em que Tarantino recebeu prêmios por este filme, ele aproveitou para repudiar as formas modernas de escravidão. Estas releituras históricas propostas pelo cineasta lembram a diversão de uma criança com seus brinquedos, seus bonecos simbolizando policiais, xerifes e mocinhos. A partir de personagens e contextos reais, imagina-se a História como se deseja.

Por acaso, Tarantino acredita em um acerto de contas de homem a homem, como se a escravidão fosse uma questão de indivíduos, e não de sociedade – este sendo um elemento típico dos faroestes que ele homenageia em Django Livre. Aliás, a política governamental é um elemento praticamente ausente de suas obras, aparecendo apenas como questão fantasmática, marginal. Para ver uma conclusão constitucional e biográfica da escravidão, é melhor assistir a Lincoln.

Django reserva ao espectador a possibilidade de reimaginar a História, de torcer por novos heróis abolicionistas e de criar um fim sem limites. Ao longo de sua história, Tarantino confere plenos poderes ao personagem, que consegue fazer tudo o que quiser, como quiser, com quem quiser. Este divertido desejo de onipotência faz da História um elemento dinâmico novamente, capaz de atualizar os mitos e encontrar novos símbolos com os quais a geração jovem possa se reconhecer.

Tarantino foge do didatismo e da obrigação documental para se ater apenas à obrigação moral: dar um “direito de resposta”, simbólico, à comunidade negra. Ele o faz com prazer, de modo magistral, em um imenso e épico espetáculo de luzes, corpos e sons. Django Livre é um filme que assume seu caráter de ficção, de espetáculo, mas também de obra provocadora, complexa, e – por que não – política.

FONTE: OUTRAS PALAVRAS / *Bruno Carmelo é editor do blog Discurso-imagem **Texto publicado, originalmente, no site Outras Palavras

LEIA TAMBÉM:

Lincoln de Spielberg, Karl Marx e a Segunda Revolução Americana

http://guebala.blogspot.com.br/2013/01/lincoln-de-spielberg-karl-marx-e.html

terça-feira, março 20, 2012

‘O negro’


Estamos no restaurante estudantil de uma universidade alemã. Uma aluna loura pega sua bandeja e senta-se em uma mesa. Então, percebe que esqueceu os talheres; levanta-se para pegá-los. Ao regressar, descobre com espanto que um rapaz negro, provavelmente subsaariano devido ao seu aspecto, sentou-se em seu lugar e está comendo de sua bandeja.

Sua reação imediata é de desconcerto; sente-se agredida. Porém, em seguida, corrige seu pensamento e supõe que o africano não está acostumado ao sentido da propriedade privada e da intimidade do europeu; ou, inclusive, quem sabe não tenha dinheiro suficiente para pagar a comida, mesmo sendo tão barata para o elevado padrão de vida de nossos ricos países. 

De modo que a garota decide sentar-se frente ao rapaz e lhe sorri, amistosamente. O rapaz responde com outro sorriso branco. Em seguida, a alemã começa a comer da bandeja, tentando aparentar a maior naturalidade e partilhando-a com rara generosidade e cortesia com o rapaz negro. E assim, ele come a salada; ela prova a sopa; ambos comem alternadamente da mesma porção de carne refogada até acabá-la; ele saboreia o iogurte e ela a fruta...

Tudo isso entre múltiplos sorrisos educados, tímidos por parte do rapaz, suavemente alentadoras e compreensivas por parte dela. Acabado o almoço, a alemã se levanta em busca de um café. E, então, descobre na mesa vizinha por detrás dela, seu próprio casaco colocado sobre o espaldar de uma cadeira e uma bandeja de comida intocada.

Dedico essa história deliciosa, que, além de tudo é autêntica, a todos aqueles espanhois que, no fundo, têm receio e/ou suspeitam dos migrantes e os consideram indivíduos inferiores. A todas essas pessoas que, mesmo bem intencionadas, os observam com condescendência e paternalismo. Será melhor que nos livremos dos preconceitos..., ou corremos o risco de passar o mesmo ridículo que a pobre alemã, que acredita ser o cúmulo da civilização, enquanto o africano, ele, sim, imensamente educado, deixou-a comer em sua bandeja enquanto, talvez, pensava: "Que loucos estão os europeus!”.
[Original em espanhol, publicado em El País].
FONTE: ADITAL / Rosa Montero - Escritora espanhola

quarta-feira, setembro 21, 2011

Morgan Freeman lamenta que racismo ainda exista nos EUA




Ator americano falou sobre assunto ao promover filme em balneário na Flórida









O ator americano Morgan Freeman, reconhecido ativista contra a discriminação racial, afirmou que o preconceito "continua vivo" nos Estados Unidos, apesar de acreditar que seja uma questão de tempo para que isso "passe". Morgan, 74 anos, escolheu viver no Mississippi – um dos estados mais violentos durante a época da segregação racial americana –, apesar de suas cinco indicações ao Oscar e de a admiração de cineastas permitissem a ele viver em um palacete nas colinas de Beverly Hills.


Em Clearwater, balneário próximo a Tampa (Flórida, sudeste), onde promove o filme "O Golfinho", Freeman acredita que, como na maioria dos estados do sudeste, no Mississippi ainda há discriminação racial e que isso o faz manter os pés no chão.


Em 26 de junho, o adolescente branco Deryl Dedmon e um grupo de amigos saíram de uma festa com a decisão de matar algum afroamericano nos bairros do oeste da capital do estado, Jackson. A vítima foi James Anderson Craig, de 49 anos. "O racismo continua vivo neste país, não apenas no sudeste", disse o vencedor do Oscar em 2005 por "Menina de Ouro".

E lembra que na cidade onde vive, Charleston, "ainda agora, as crianças brancas e negras não estão autorizadas a se juntar". Segundo ele, até poucos anos atrás os estudantes secundários não podiam fazer uma mesma festa de formatura interracial. E completou: "já não é assim agora, mas isso não quer dizer que as crianças estejam autorizadas a se misturar, a brincar, a sair juntas entre elas".

História inspirou documentário

Em 2008, Freeman ofereceu pagar a festa de formatura dos alunos de uma escola secundária de Charleston, caso aceitassem se integrar. A maioria aceitou a condição, pela primeira vez na história desse colégio. Mas um pequeno grupo de crianças brancas, na maioria pressionadas pelos pais, decidiu fazer uma festa privada sem colegas afroamericanos.

A história inspirou o documentário "Prom Night in Mississippi", de 2009. "Talvez sejamos o único país que foi à guerra por isso. Não pelo território, mas sim pelo direito a manter os negros na escravidão. É algo econômico", sustentou o ator. "Para manter qualquer humano em uma situação assim, você precisa reduzi-lo a algo menor que um humano. E isso leva muitas gerações para apagar essa ideia", completou o chofer de "Conduzindo Miss Daisy" (1989).

Movimento ultraconservador

No momento em que os Estados Unidos vivem a interrupção do movimento republicano ultra conservador Tea Party, um estudo recente do centro de análises Brookings revelou que 46% dos americanos acreditam que os brancos sofrem tanta descriminação quanto negros e outras minorias, frente a 51% dos que não acreditam nisso.

"É uma ideia de gerações", afirmou Morgan, esfregando a mão direita, imóvel após um acidente em 2009. Mas o racismo "vai passar", completou. "Cada geração é cada vez menos propensa a participar desse tipo de descriminação. Todos são discriminados, em um nível ou outro. Vamos encontrar diferenças, mas nossa discriminação contra os negros é assunto no mundo inteiro."

Otimismo

O homem que encarnou o líder sul-africano Nelson Mandela em 2009 no filme "Invictus", dirigido por seu amigo Clint Eastwood, é otimista em relação ao fim do racismo, apesar de não deixar de ver o quão complicado é o presente político do país.

No Mississippi, um prefeito negro, Johnny DuPree, ganhou pela primeira vez as primárias de seu Partido Democrata para concorrer pelo governo em novembro. Mas, segundo Morgan, existem poucas chances de ganhar o posto frente ao opositor republicano. "Temos um presidente negro e olhe pelo que ele está passando", comentou.

"Não estou desapontado" com o presidente Barack Obama, completou. "Estou 110% com ele", disse. Mas "os republicanos estão fazendo de tudo para garantir que ele não consiga um segundo mandato".Para Morgan, movimentos como o Tea Party são um claro obstáculo para unir o país.

"Agora é ainda pior (que há poucos anos), porque temos esse grupo Tea Party demolindo todo o Partido Republicano, sussurrando: 'você se deu conta de que temos um negro na Casa Branca? Isso não pode acontecer', mas estão empenhados".
FONTE: CORREIO DO POVO

segunda-feira, julho 18, 2011

Música, trabalho voluntário e movimento no Facebook marcam 93 anos de Mandela

Milhões de sul-africanos celebram nesta segunda-feira o aniversário de 93 anos do ex-presidente Nelson Mandela.


A fundação que leva seu nome pediu que os sul-africanos cumprissem 67 minutos de trabalho voluntário para marcar a data - número que representa os anos que Mandela dedicou à luta política na África do Sul.


Em várias escolas do país, milhões de crianças cantaram a canção "Feliz Aniversário Tata Madiba" antes do começo das aulas, mas não ficou claro se conseguiram quebrar o recorde mundial de 12,4 milhões de pessoas cantando ao mesmo tempo.

O ícone da luta contra o apartheid passou o dia com a família na sua casa, na cidade de Qunu, onde ele recebeu a visita do presidente do país, Jacob Zuma.


O presidente Zuma homenageou o Prêmio Nobel da Paz, dizendo que Mandela havia mudado o rumo da História.


"No momento em que Nelson Rolihahla Mandela saiu da prisão, no dia 11 de fevereiro de 1990, soubemos que a África do Sul seria um lugar diferente. Ele nos mostrou que apesar da opressão racial divisiva e das dificuldades que essa nação enfrentou, não apenas é possível, mas necessário abraçar uns aos outros e reconciliar o povo da África do Sul", disse o presidente em nota.


A Liga Jovem do Congresso Nacional Africano (CNA, partido de Mandela), pediu que jovens mudassem as fotos de seus perfis no Facebook por uma foto de Mandela, em um "sinal de celebração por seu papel na luta política, social e econômica do país".


Herói para muitos sul-africanos por sua longa luta contra o domínio da minoria branca, Mandela vem parecendo cada vez mais frágil desde que deixou a vida pública, em 2004.


Ele vem recebendo cuidados médicos 24 horas em casa, após sua saída do hospital em janeiro, onde recebeu tratamento para infecção respiratória aguda. Ele não aparece em público desde a cerimônia de encerramento da Copa do Mundo, em julho de 2010.


Uma foto divulgada no dia de seu aniversário mostra Mandela sorrindo, cercado de membros da família.

FONTE: BBC-BRASIL

terça-feira, abril 27, 2010

Assassino de ativista Malcolm X ganha liberdade condicional







O assassino do ativista dos direitos dos negros Malcolm X ganhou liberdade condicional nesta terça-feira depois de passar mais de quatro décadas na prisão. Thomas Hagan "foi libertado hoje", disse Linda Foglia, porta-voz do departamento de serviços penitenciários de Nova York.

Hagan, que confessou ter disparado em Malcolm X em 1965, ainda deverá passar duas noites por semana numa prisão comum, em Manhattan. Malcolm X, um dos mais carismáticos líderes negros dos Estados Unidos, foi morto a tiros em Nova York durante um discurso, no dia 21 de fevereiro de 1965, quando discursava no Harlem. Recebeu 13 tiros, na frente da mulher Betty, que estava grávida, e de suas quatro filhas.

As idéias de Malcolm X foram muito divulgadas principalmente nos anos 70, por movimentos como "Black Power" e "Panteras Negras". Ganhou documentários e filmes, sendo 'Malcolm X', dirigido por Spike Lee, em 1992, o mais famoso. Enquanto Martin Luther King apostava em uma resistência pacífica como arma para enfrentar o racismo, Malcolm X defendia a separação das raças, a independência econômica e a criação de um Estado autônomo para os negros. Viajava pelos principais Estados americanos para pregar suas ideias.

Em 1964 fundou a organização "Muslim Mosque Inc" e, mais tarde, a "Afro-American Unity". Um ano antes, após uma viagem para Meca, cidade sagrada dos muçulmanos, mudou o seu nome para Al Hajj Malik Al-Habazz. A partir daí, passou a defender uma posição conciliatória em relação aos brancos, fato que o deixou isolado, sobretudo em relação ao islamismo.

FONTE: TERRA