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domingo, maio 06, 2012

Maio francês


Novamente, a exceção do francês

França votou contra a Constituição Europeia em Maio de 2005 eo projecto de Constituição Europeia entrou em colapso, sete anos depois, em outro mês de maio, a eleição presidencial na França termina com uma curva à esquerda, que envia uma austeridade mensagem contra extrema estabelecido pelas potências conservadoras sobre a UE. Já havia um ministro social-democrata principal na Dinamarca, e também um chefe de governo socialista na Bélgica, tanto em coligação, mas a vitória deFrançois Hollande é uma exceção de um calibre muito maior, um fato político de primeira ordem.
       Este resultado é o resultado de uma "coalizão" que é nomeado, mas na verdade representa a convergência de centristas, socialistas e esquerdistas contra o atual presidente, Nicolas Sarkozy . O apoio inequívoco dos comunistas ea extrema-esquerda, liderada por Jean-Luc Mélenchon , Hollande pode condicionar as suas exigências de um forte impulso político para gastar e aumentar os custos salariais. No entanto, no último minuto manobra realizada pelo centrista François Bayrou , que anunciou seu apoio Hollande quatro dias antes da votação, permite que o presidente eleito um conjunto mais amplo de contrapesos. Hollande , que aprendeu a usar o terno do presidente imitando seu "mestre", François Mitterrand , já havia testado suas habilidades em precisamente o caminho para funcionar entre as figuras do seu partido e nas suas relações com outros grupos de esquerda. Esse lado terá problemas, mas não intransponíveis.
      Complicações para o novo presidente francês virá sim da relação com o mundo do dinheiro. Colocando finanças "no lugar" é uma das mensagens mais fortes de Hollande ao longo da campanha. Em vez de arrogância para Sarkozy , que jogou com os ventos da retórica da "refundação do capitalismo" na eclosão da crise financeira, Hollande escolheu um gesto muito específico: a promessa de transportar até 75% taxa marginal imposto sobre a renda pessoal superior a um milhão de euros por ano. O impacto tem sido considerável entre as grandes empresas francesas e das multinacionais no país e, em geral no mundo dos negócios, que visa aumentar as contribuições sociais. Sem dúvida, muitas pessoas nesses setores compartilham a capa do semanário britânico The Economist de 28 de abril, dedicado ao "Sr. Hollande muito perigoso." Já para não falar dos 60.000 novos postos de trabalho prometidos no Nacional de Educação em cinco anos, o que dá outra medida da exceção francesa em uma Europa dominada pela idéia de afinamento do Estado. Mas o presidente eleito não é um esquerdista perigoso. 
     O triunfo de Hollande penaliza o fracasso da campanha extremamente direitista de Sarkozy , que tentou mobilizar o voto em seu favor com a extrema-direita para preservar, em desespero, o palácio do Eliseu. Não foi possível escapar da lei de ferro dos líderes políticos, surpreendidas na crise económica e financeira que se abateu sobre a Europa. Como vai estender a Frente Nacional de Marine Le Pen , direito à custa de derrotado nas urnas em 6 de maio? A direita radical e não alargada, sob o comando e as idéias do líder extremista, tanto uma exceção francesa, como um farol cuja intermitência pode mobilizar ação populista em muitos países da União Europeia. A tarefa do poder esquerdo encarnado por François Hollande tem para ajudar a extrema-direita não continuar a seduzir mais e mais pessoas na França e, por extensão, toda a Europa.
FONTE: el Pais / Por: 

sábado, abril 21, 2012

Jean-Luc Mélenchon, Discurso da Place du Capitole, Toulouse-2012


Discurso da Place du Capitole, Toulouse[1]
Vídeo 28’22, discurso transcrito e traduzido
Traduzido pela Vila Vudu
[Apresentadora]


Nosso encontro hoje em Toulouse é multilocal. A Place du Capitole está lotada, completamente lotada. A Place Wilson, com dois telões, está lotada. As ruas adjacentes estão lotadas. Essa noite, somos 70 mil pessoas, para acolher Jean-Luc Mélenchon, candidato da Frente de Esquerda, à presidência da França.



[Mélenchon.]


Boa noite, saúdo vocês, todos e todas que vieram, acorrendo ao apelo que lançamos. Saludo también a vosotros de España que han venido. Con respecto también a la gloriosa bandera de la Republica! [em espanhol]. Aí está, a força que se reúne, que se estende, que se afirma. E convoco-os a fazê-la crescer ainda mais, até o encontro na noite das eleições, fim da primeira etapa de nossa insurreição cidadã.

Peço-lhes que continuem a construir adiante, essa grande força, coerente politicamente, educada, disciplinada pelo livre consentimento, de adesão a um programa, não a uma pessoa. Porque é o que propomos ao país. Para superar o desafio que teremos de superar contra todos que se reunirão contra o movimento que o povo francês empreenderá, será preciso que cada um, cada uma, saiba o seu lugar, o seu posto de combate, o trabalho que lhe caberá fazer, para levar pela mão, pelo espírito, pelo coração, o vizinho, a vizinha, todos percorrendo o caminho necessário para fazer o que tem de ser feito.

Meus amigos, estamos no mês Germinal[2]. Os botões já se abrem e já há promessas de frutos. Assim também a nossa palavra, saindo já do inverno gelado da política, volta voando, para dar a cada um, a cada uma, novas razões para viver e ter esperanças. Essa palavra é “partilha”. Partilha, partilha. Partilhar. Partilha da riqueza, do planejamento ecológico, cidadania, fraternidade, amor, interesse pelo que tombou, para que se levante, pelo que nada tem, que seja ajudado.

Essa palavra, partilha, é como a chave que abre as cadeias nas quais está presa a própria razão de viver. Ela não se confunde com as abjetas contabilidades a que somos obrigados todos os dias, para decidir se nos alimentamos, ou se moramos, ou se pagamos a conta de energia elétrica. 

Aqui está, Sr. Sarkozy, nossa resposta. O senhor disse que não compartilha nenhum dos meus entusiasmos ou engajamentos. É verdade. Não somos do mesmo clã. Não somos a mesma França. 

O senhor diz, falando afinal a um Mélenchon que faz cada dia mais pressão, que bastam dois dias, para pôr por terra cinco anos de esforços. Não são cinco anos de esforços. São cinco anos de fracassos, cinco anos de recuo. Cinco anos de grosseria, de vulgaridade. De rebaixamento da pátria. Ao senhor que, todos os dias, vem pedir-nos contas, e que novamente nos pede agora, calculando ‘por alto’ o que “custaria” nosso programa, que quer dar a cada um os meios para viver a vida com dignidade e tranquilidade. 

Agora, sou eu que lhe pede contas: qual é o custo da infelicidade que se dissemina, e o custo da ignorância que o senhor disseminou a mancheias, cortando empregos de professores? Qual é o custo da saúde perdida, quando os pobres não encontram meios para se tratar? Qual é o custo 564 pessoas que todos os anos morrem no trabalho? Qual o custo dos 43 mil mutilados para sempre no trabalho? Qual o custo da a primeira infância esquecida? O maior tempo de trabalho, antes da aposentadoria? A prisão de menores. Peço-lhe contas, eu, por essa sociedade absurda. Peço-lhe contas, por ter feito com que a expectativa de vida já diminua, nos países desenvolvidos, depois de anos de aumento constante. 

Peço-lhe contas, eu, por ter posto em risco o primeiro direito, que a gloriosa revolução de 1789 consagrou, acima de todos os outros direitos: o direito à existência. Ah, não! Viver não é passar a vida sobrevivendo.

Não se pode viver feliz num oceano de infelicidade. Não se pode viver feliz, se há um milhão de pobres, um milhão sem moradia digna, na 5ª potência do mundo. Não se pode viver com medo do amanhã, como é o caso de dez milhões de trabalhadores precários. 

Aí está, e confesso: nosso programa não é realista, mesmo, para os seus padrões contábeis, Sr. Sarkozy! Mas é realista, para os nossos padrões. E nosso padrão chama-se O Direito de Viver!

Vejam aí, todos os que nos perguntam, o que é esse fenômeno que enche essa praça e outras praças e as ruas em torno: essa é a nossa revolução cidadã, que começou. [Resistência! Resistência!] 

Convocamos, nós, essa mobilização, aqui, como na Bastilha, e como faremos também em Marselha, em alguns dias. É uma mesma marcha. E vemos aqui, lá, que vocês respondem ao nosso apelo. Sabemos que vocês responderão, porque já terão passado por esse ‘ensaio geral’, aqui. E amanhã, se eu for eleito, e outra vez os convocar, vocês responderão. Mas, seja quem for o eleito, nada e ninguém, nunca mais, conseguirá meter outra vez no velho leito, o rio que já transbordou.

Convocamos esse 2º Rassemblement para refundar nossa República. Vocês sabem, numa nação política como a nossa – que não se define por uma cor de pele, nem uma religião, sequer por uma única língua –, a República é o fundamento da nação, não o contrário. Refundar a República é refundar o próprio povo, repô-lo, lá, como fundamento. É refundar a pátria comum, hoje desfigurada pela desigualdade e os saqueios de todos os tipos. 

Queremos que se convoque uma Assembleia Constituinte, cujo primeiro papel será definir a regra de vida comum. 

Já não se pode aceitar que, para enfrentar o desafio gigantesco da catástrofe capitalista que devasta o mundo inteiro e a catástrofe produtivista que ameaça o .... humano. E os poderosos, incapazes de pensar em outro mundo e em outra organização, abandonam os movimentos a eles mesmos e não reconhecem outra lei que não seja a do interesse deles. 

Não se pode mais aceitar que a hierarquia das normas, no nosso país ou na Europa, seja dominada pela liberdade de empreender, a concorrência sem regras e a competição de um contra todos. 

Exigimos que, na base da hierarquia das leis de nossa sociedade sejam postas a solidariedade e a cooperação.

Não podemos mais aceitar que a liberdade de empreender e o direito de propriedade sejam tornados equivalentes a direitos fundamentais, e que tudo seja subordinado àquela liberdade. 

Acreditamos, ao contrário, que é hora de estabelecer a cidadania em tudo, não só na cidade, mas também nas empresas. E, portanto, é hora de reconhecer como direito constitucional odireito de preempção, que garantirá que os trabalhadores, desde que o desejem, possam constituir cooperativas operárias e tornem-se proprietários dos meios de produção. 

Queremos que o interesse geral seja mais forte que os interesses particulares e que, desde que a situação o imponha –, porque um interesse fundamental econômico da nação seja afirmado e verificado numa ou outra circunstância –, haja para o governo, quer dizer, para a nação ela própria, um direito de requisição, que impeça que escândalo como o..... nunca mais seja possível, em nosso país.

E que se estabeleça um direito de veto dos assalariados, nas questões relativas ao futuro estratégico de sua empresa empregadora e ao impacto ambiental do que a empresa produza.

Aqui, retomamos o fio que o grande Jaurès teceu para nós, nessa região. A democracia política, nos ensinou ele, expressa-se numa ideia central, ou melhor, numa ideia única: a soberania política do povo. 

“Soberania do povo” significa: só obedecer à lei para a qual nós mesmos, cada um, pessoalmente, tenhamos contribuído, pelo nosso voto. Só temos de obedecer a lei, porque ela reconhece e assegura a norma comum, porque ela foi decidida por nós, todos juntos. Eis o que significa “soberania do povo”. Portanto, “soberania popular” é outro nome da liberdade. Vocês não são livres, quando não são soberanos, porque são obrigados a obedecer a leis que lhes são impingidas, porque são decisões decididas longe de vocês e sem vocês.

Relembro aqui o caso de um crime[3] cometido pelo presidente da República [Chirac], que, depois de o povo ter votado “Não” à Constituição [da Europa] em 2005[4], por 55% dos votos, o presidente mesmo assim negociou outra proposta de tratado de aprovação da Constituição Europeia, em tudo idêntica à primeira, que fez aprovar no Congresso de Versailles [vaias, vaias], com a cumplicidade dos que se abstiveram ou votaram a favor, no referendum

Peço-lhes contas, eu, e pergunto: onde está nossa liberdade? 

E ainda mais: qual é o sentido dessa próxima eleição, se vocês escondem dos franceses que, se votarem num dos partidos do Tratado de Lisboa, que se preparem para aprovar o próximo tratado Merkel-Sarkozy, seja votando a favor, seja abstendo-se, como já fizeram, pelo Mecanismo Europeu de Estabilidade? 

Onde está nossa liberdade, qual o sentido dessa eleição, se nos anunciam que, seja qual for o resultado, aconteça o que acontecer, em todos os casos, seremos obrigados por acordos internacionais a submeter o orçamento da França à aprovação prévia da Comissão Europeia? Se teremos de submeter todos os nossos empréstimos àquela aprovação prévia?

Por isso digo que, se não há mais liberdade, se não há mais soberania do povo, a insurreição cidadã é dever sagrado da República.

Onde está nossa liberdade, nossa soberania, ante a catilinária, sempre a mesma, mas sem que eles jamais digam, em nenhuma assembleia, em nenhum comício, que, votem como votarem, façam o que façam, todos eles preparam, com seus votos cúmplices, uns com os outros, o que eles mesmos chamam de Grande Mercado Transatlântico 2015, porque o candidato deles, seja qual for, nos unirá para sempre, sem barreiras alfandegárias, sem barreiras jurídicas, aos EUA?

Onde está nossa liberdade, se, dessa vez, elejamos quem for, dos candidatos deles, teremos de admitir que continue o que não queremos que continue – mas nem temos como dizer que não queremos – que continue a privatização dos serviços públicos? Que não queremos que continue a demissão de trabalhadores pobres de outros países europeus, que eles põem a trabalhar aqui a preço vil, desgraça à qual se soma também a deslocalização interna.

Onde está nossa liberdade? Está na urna eleitoral, que, dando o poder à Frente de Esquerda, abolirá todas essas medidas, porque a França não mais as subscreverá.

Onde está nossa liberdade, quando nossa soberania confiscada por nossa implicação num comando militar integrado no interior da OTAN, nos amarra a todas as expedições militares dos EUA que detonam um choque de civilização, que não desejamos?

Por isso, trate-se do Tratado Europeu, ou dessa participação da França que os franceses não desejam, na OTAN, declaramos aqui que esses dois ‘engajamentos’ serão submetidos areferendum popular.

Que os franceses se manifestem: a França deve deixar o Comando Integrado e a própria Aliança Atlântica. 

A França, como é de sua tradição e de sua história, deve propor ao mundo uma outra aliança, altermundista, independente dos EUA. 

A França deve engajar-se na renovação de organizações internacionais que sejam legítimas aos nossos olhos, não essas que resultam dos G-8, G-20 e de todas essas sinecuras onde os poderosos ordenam ao resto do mundo o que devem sofrer e padecer. Mas, ao contrário, os organismos da ONU renovados pela ação da própria França. 

Uma França que não mais praticará essa defesa, de geometria variável, dos direitos do homem, utilizada para ingerências mais que duvidosas. 

Uma França que afinal defenderá em todos os cenários e frente a todos, sem jamais ter de baixar os olhos, as causas que nos animam e que fizeram com que nossas revoluções nunca fossem revoluções só para os franceses, mas para a humanidade universal e defenderam os direitos universais do mundo. 

Falo aqui, notadamente, da defesa, aqui e na esfera internacional, para que seja reconhecido, na França e em todo o mundo, o direito universal ao aborto, base do direito humano essencial de dispor de si mesmo, para metade da humanidade.

Falo aqui de lutar contra a pena de morte, não só na China, mas também nos EUA.

Lutar ante o mundo inteiro, dizendo, eis aqui os franceses, e propomos o que já propôs o presidente Evo Morales, presidente de esquerda, da Bolívia. A França propõe, como o presidente Morales já propôs, que se crie um Tribunal Internacional que julgue e puna os crimes ecológicos cometidos contra a humanidade.

Não, senhor presidente Sarkozy, diferente do que o senhor declarou ao chegar ao poder, o primeiro perigo não é a confrontação entre o ocidente e o Islã. O primeiro perigo é que a França está convertida em rota de socorro do carro imperial, que é a principal causa de perturbação no mundo.

A França da 6ª República que queremos construir não é uma nação ocidental. Não é, nem pelo seu povo mestiço, nem pelo fato de que a França existe em todos os oceanos do mundo, vive e brilha perto dos cinco continentes: Nova Caledônia, Réunion, Polinésia, Maiote, Caraíbas, a Guiana Francesa, que é a mais longa fronteira francesa, 800km de fronteiras com o Brasil. 

Não, a França não é nação ocidental. A França é nação universalista. Somos e queremos ser, porque a história nos legou o primeiro modelo de nação universalista. E vamos em busca de viver à altura desses princípios. 

Vocês são convocados para essa grande missão, não para esse miserável blá-blá-blá dos politiqueiros da UNP. Mais uma vez, teremos de ser esse estandarte ardente do qual brilhará outra vez a chama das revoluções, que por contágio, se torna causa comum de todos os povos da Europa. 

Já abrimos a brecha. Doravante, não precisamos de conselhos ou autorização de ninguém, porque somos uma força adulta, consciente, disciplinada, educada, politizada. 

Abriremos a brecha pela qual passarão nossos irmãos e irmãs da Grécia, para por fim à abjeta ditadura das finanças que saqueou seu país. 

Abriremos a brecha pela qual, em outubro próximo, passará também o povo alemão.

Abriremos a brecha no muro da resignação que, por toda a parte pegou o povo pela garganta. E eles nos dizem que somos a ruína! Quando eles organizaram a ruína e hoje, aplicam sua política podre, por toda a parte.

Estamos no mês Germinal. Logo virão os frutos, França, bela e rebelde, chegam o tempo das cerejas[5] e os dias felizes. Viva a França! Viva a República! Viva a República Social!







quarta-feira, abril 18, 2012

França: da irrelevância à irreverência

No domingo a candidatura de Jean-Luc Mélenchon garante romper com o 
cenário da última década.

Domingo decorrem as presidenciais francesas. A candidatura de Jean-Luc Mélenchon promete romper com o cenário da última década, com uma mobilização popular superior às de Sarkozy e Hollande. O povo de esquerda voltou a acreditar. É uma nova organização social e política que é apresentada a votos. Noutro sentido, os Verdes permaneceram, desde os primeiros minutos, amarrados ao acordo que assinaram com o PS. O acordo passou a ser a sua identidade e a substituir a sua política.
Afirmar uma Europa à esquerda, a luta é alegria
As palavras de ordem da candidatura de Jean-Luc Mélenchon transparecem a radicalidade da proposta e a nova cultura política da campanha: “tomar o poder”, “retomar a Bastilha”, “lugar ao povo”, “revolução cidadã”, “o humano primeiro”. A campanha mergulha na cultura da primavera árabe, dos indignados europeus e do occupy Wall Street e conta com uma verdadeira mobilização popular. Por todo o território organizaram-se assembleias cidadãs. No site é disponibilizado o “kit de insurreição cívica” para que todos os cidadãos realizem “reuniões de apartamento”. Actos de contra-cultura são promovidos e divulgados. Os comícios são os mais concorridos das eleições, juntando mais de 100 mil apoiantes, mas ainda assim são organizadas transmissões em directo em praças e salas de outras cidades.
A proposta passa pela constituição da VI República Francesa, mas não fica apenas entre portas. Rejeição do Tratado de Lisboa e do Pacto Orçamental; um Banco Central Europeu sob controlo democrático que empreste o dinheiro - a juros baixos, ou mesmo sem juros, - aos Estados e não aos bancos como faz atualmente. A criação de um fundo europeu de desenvolvimento social, ecológico e solidário para repartir os financiamentos entre os países do Euro na medida das suas necessidades. A renegociação e anulação parcial da dívida dos Estados. O que se leva a votos é uma outra França e uma nova arquitetura para a Europa, uma nova cultura política. Num momento de recomposição agressiva do capitalismo é também esta solidariedade entre os povos que está a encher as ruas.
“A frente de esquerda está em vias de se tornar a frente do povo”
A má memória relembra que há dez anos Jen-Marie Le Pen passou à segunda volta para a disputar com o outro candidato da direita, Jacques Chirac. Na altura, em 2002, a Luta Operária obteve o melhor resultado à esquerda com 5,7%. Hoje a caricatura da sua campanha pode ver-se no questionário que o Le Monde fez a todos os candidatos sobre políticas ambientes concretas. Nathalie Arthaud foi a única candidata a recusar-se a responder, optando por uma declaração geral onde se lia que “enquanto as grandes empresas não estiverem sob o controlo dos trabalhadores, nada será alcançado”. Desistir do presente nunca foi a solução para conquistar o futuro, como os valores residuais das sondagens demonstram. Nas últimas eleições, em 2007, Olivier Besancenot, da LCR, obteve o melhor resultado com quatro por cento dos votos. Presentemente, vários elementos do NPA declararam apoio ao candidato da Front de Gauche e o candidato oficial do partido, Philippe Pouton, aparece abaixo do ponto percentual.
Muito caminho se percorreu em dez anos e a candidatura de Mélenchon é tanto mais relevante se atentarmos à narrativa e ao contexto. Há apenas cinco anos o PCF ficava-se pelos 1,93%. O juntar forças e a rejeição do social-liberalismo tornaram-se nas tónicas fortes da sua intervenções e a nova plataforma política formada em 2009 – que junta Parti de Gauche, PCF e Gauche Unitaire - pulveriza esses resultados ameaçando ficar acima dos 15%. A esquerda e a transformação social não vivem só de resultados e muito menos de sondagens, mas a adesão popular nas ruas espelha os ventos e a vontade de mudança.
Verdes rosa ou quando os assentos substituem a política
Os Verdes nunca tiveram uma grande tradição nas Presidenciais. Contudo, com a explosão nas últimas europeias as expetativas eram grandes (registaram 16,3% contra os 6,5% da Front de Gauche). Tão grandes que ainda antes da pré-campanha, em Novembro, assinaram um acordo com o PS. O acordo prevê 25 a 30 deputados ecologistas em caso de vitória e 15 em caso de derrota. Logo nos dias seguintes podíamos ler que a candidata Eva Joly não assumia o acordo. O seu diretor de campanha explicava: “este não é um acordo programático. É um acordo relativo à maioria parlamentar. Não para uma eleição presidencial”. Em causa o facto do PS ter acordado um texto, mas posteriormente ter votado nos seus órgãos nacionais uma versão diferente onde as referências ao MOX (um tipo de combustível nuclear) tinham sido apagadas.
O acordo tornou-se irremediavelmente no tema central da campanha verde. A candidata nunca descolou nas sondagens e agora, perante a perspetiva de um desaire eleitoral, prevê-se que o PS quebre o acordo. Neste novo contexto a conversa mudou. A própria Eva Joly desdobra-se em declarações em defesa do mesmo: “seria errado o Presidente da República recém-eleito questionar os acordos assinados”, disse sobre Hollande. Enquanto isto, confrontada com a vontade do candidato socialista em não fechar uma única central nuclear no seu primeiro mandato, a candidata verde apenas mostra “preocupação” mas “conta com a pedagogia e com conversações futuras para o convencer”. O acordo não só condicionou a campanha e o discurso dos Verdes como substituiu a sua proposta política, mesmo naquilo que é a sua centralidade. Não admira que não colha simpatias.
FONTE: ESQUERDA NET
LEIA TAMBÉM: França: a surpreendente maré vermelha
 http://guebala.blogspot.com.br/2012/04/franca-surpreendente-mare-vermelha.html

segunda-feira, abril 16, 2012

França: a surpreendente maré vermelha

Megacomício na Bastilha marca ascensão de Jean-Luc Mélenchon, candidato da Frente de Esquerda

Ao entrar na reta final, a menos de um mês do primeiro turno (em 22 de Abril), a disputa pela presidência da França foi marcada por uma novidade importante. A Frente de Esquerda, que reúne um amplo arco de organizações progressistas, realizou, em 18 de março, o maior dos comícios da campanha, até o momento. Reuniu entre 70 mil e 120 mil na emblemática Praça da Bastilha. O ato marcou o ascenso de seu candidato, Jean-Luc Mélenchon, que já aparece, em algumas das sondagens, como o terceiro colocado, com 13% das intenções de voto. A subida é ainda mais saborosa por coincidir com a queda de Marine Le Pen, a candidata da extrema-direita.
O grande comício conseguiu mobilizar muito mais que os militantes da Frente de Esquerda. Muitos dos presentes diziam terem comparecido ao local simbólico da revolução francesa porque esperam que Mélenchon crie uma dinâmica capaz de levar o candidato do Partido Socialista (PS), François Hollande, mais para a esquerda. De todo modo, sabem que Mélenchon – a grande revelação deste pleito, apesar do desprezo da mídia e analistas políticos – apoiará o socialista no segundo turno.
Há uma probabilidade que o candidato da Frente de Esquerda cresça, em função dos futuros debates, que agora apresentarão os candidatos em condições igualitárias. Mélenchon, que subiu com um discurso direto e combativo, certamente saberá aproveitar-se da fresta de sol que se abriu no final da tarde do domingo chuvoso de Paris — quando defendeu a revolução da cidadania, associando-a a uma nova tomada da Bastilha.
Além de reunir, no comício de lançamento, quatro vezes mais público que o candidato do PS, o representante da Frente de Esquerda conseguiu rara unanimidade midiática. Agora, todos os jornais reconheceram o sucesso do ato em prol de uma 6°. Republica. Seu discurso foi curto – 20 minutos – mas suficiente para inflamar a multidão. Bom tribuno, Jean-Luc Mélechon fez uma fala histórica, relembrando a constituinte de 1789, a insurreição de 1793, a comuna de Paris (18 de março 1871). Pela primeira vez, na França, um candidato usa um espaço publico para organizar um encontro eleitoral.
Jean-Luc Mélenchon é um antigo trotskista da ala “lambertista”. Mais tarde, tornou-se seguidor do ex-presidente (pelo PS) François Mitterrand. É excelente orador, brilhante polemista, o único candidato a molestar os jornalistas parisienses – principalmente os ligados a Sarkozy. É capaz de desconstruir os argumentos do adversário em poucos minutos e de sair das armadilhas preparadas por certos homens da mídia. Tem uma bagagem intelectual superior à de seus adversários. O jeito brigão e irônico não tira o brilho de suas intervenções. Os franceses adoram um bom debate de ideias e gostam de contraditórios. Há um saudosismo ligado à imagem deixada por Miterrand e pelo velho comunista Georges Marchais. Mesmo os opositores de direita reconhecem e relembram sempre os dois grandes animais políticos.
O candidato do Front de Gauche é também um grande articulador. Conseguiu reunir velhos inimigos — comunistas e trotskistas – numa mesma coalizão política para enfrentar Nicolas Sarkozy. Além disso, trouxe para o Front alguns companheiros do PS. Vale aqui um destaque: O Partido Comunista Francês (PCF) encontrava-se extremamente fragilizado politicamente. Na ultima eleição presidencial, sua candidata, Marie George Buffet, não conseguiu chegar a 2% dos votos. Nas eleições legislativas, o partido foi incapaz de formar um grupo político no parlamento, por não ter alcançado 5% dos votos, necessários para ultrapassar a “cláusula de barreira”. Perdeu parte de seus principais quadros políticos – que articularam um movimento reformador em 1989, deixaram a agremiação e criaram, em 2010 a FASE – Federação por uma Alternativa Social e Ecológica. Além disso, endividou-se. O fato de integrarem-se agora à Frente de Esquerda, pode significar, para os comunistas, uma ressurreição política.
A questão que se coloca é: quem serão os novos eleitores de Jean-Luc Mélenchon? De quem ele vai tirar votos? Dos eleitores mais à esquerda do PS? Dos dois partidos trotskistas que não conseguem mais motivar seus eleitores? De operários, de ex-militantes do PC que passaram a votar em Marine Le Pen? Dos anarquistas que sempre boicotaram as urnas? Muitos estavam presentes na passeata da Bastilha.
Nos últimos vinte anos, existe uma tendência de aumento da abstenção nas eleições francesas, provavelmente ligada a uma crise da representação política. Em geral, os eleitores da esquerda são os que mais boicotam as urnas. Quem se favorece desta abstenção é normalmente a direita. Este ano, um dado merece atenção: o número de eleitores inscritos para votar caiu 6%! Muitos usam a abstenção como forma de protesto.
No entanto, os eleitores de esquerda não esquecem o “trauma do dia 21 de abril”, que, em 2002, levou o candidato socialista a ser eliminado pela extrema direita no primeiro turno. Este fato, despertou certa mobilização dos eleitores de esquerda, e o medo de uma repetição do mesmo cenário está sempre presente, o que leva muitos a pregarem o voto útil.
Para a esquerda francesa, a situação é mais complexa. Ela sempre foi diversa, rica no enfrentamento das ideias. Entretanto, raramente consegue traçar uma estratégia de governo que respeite sua próprioa pluralidade. Por exemplo, o EELV-Europe, Ecologie, Les Verts, construiu com o PS um “contrato de mandatos” programático para 2012. Todavia, o acordo terminou gerando polêmicas e os verdes acabaram entrando na lógica perversa de distribuição de cadeiras no parlamento, tendo em vista que o PS é majoritário em todo território nacional. Ou seja, a briga pelo poder terminou sendo mais forte que as proposições alternativas que definem um novo projeto de desenvolvimento e sociedade.
A França tem um sistema eleitoral um tanto ambíguo. Mesmo não sendo bipartidário, dada a existência de vários partidos, somente as duas grandes formações políticas monopolizam o debate eleitoral e se alternam no poder. Na esquerda, o PS; na direita o Partido de União por um Movimento Popular- UMP.
A correlação de forças necessária para fortalecer a democracia e a cidadania política é refém de um sistema eleitoral que termina rejeitando o pluralismo político. PS e UMP já vêm dominando o debate político desde outubro, data em que foram decididas as primárias do PS pelo voto direto aberto (com eleição de François Hollande). Já no partido de direita, o candidato legitimado sem votação interna foi Nicolas Sarkozy.
Entretanto, a campanha eleitoral só agora (19 de março) foi oficializada pelo Conselho Constitucional, que aprovou a lista dos candidatos à eleição presidencial. Serão ao todo dez candidatos. Durante os trinta dias anteriores ao primeiro turno, todos deverão ter, por lei, o mesmo tratamento. O espaço midiático até então controlado pelos dois grandes partidos (PS e UMP) deverá ser equilibrado com os pequenos. Os programas políticos e de generalidades, nas rádios e TVs, são obrigados a contar o tempo de intervenção de cada concorrente. O Conselho Superior Audiovisual é que define as regras para garantir a pluralidade da expressão política, definindo o tempo das intervenções, as análises e reportagens políticas. A imprensa escrita não está submetida a este tipo de regulamentação. Os candidatos são livres para criar acessos à comunicação virtual. Todavia, na véspera das eleições todos os sites montados por eles são fechados.
Apesar destes dispositivos, a bipolaridade é uma realidade. A própria imprensa contribui com esta anomalia democrática: o debate sempre gira em torno dos dois principais candidatos. O discurso sugere que apenas eles têm vocação para governar, o que lhes assegura a maior parte dos votos. O apoio aos candidatos de extrema esquerda é, por exemplo, taxado de mero voto de protesto
Estranha concepção da democracia representativa, tendo em vista que os partidos políticos são, no sistema atual, os vetores da democracia. É neles, hoje, que se elaboram as proposições concretas que devem constituir os programas alternativos de governos. São, igualmente, os meios pelos quais os indivíduos podem pesar sobre os serviços públicos, sobre os rumos da vida política de um país. Neste sentido a defesa do pluralismo é a essência do revigoramento da democracia.
FONTE: OPERA MUNDI
LEIA TAMBÉM: França: da irrelevância à irreverência http://guebala.blogspot.com.br/2012/04/franca-da-irrelevancia-irreverencia.html