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terça-feira, setembro 11, 2012

Marikana e o entulho autoritário




O assassinato de 34 mineiros na África do Sul pela polícia chocou ativistas e militantes sociais do Brasil. Quais as semelhanças entre este processo e a derrubada da ditadura brasileira e a redemocratização?

A greve dos 28 mil operários mineiros de Marikana e o massacre de 34 deles na África do Sul, pela polícia fortemente armada, juntamente com a reação das autoridades políticas e policiais daquele país, chocaram a todos os ativistas e militantes sociais do Brasil. Particularmente porque sabemos que a população negra daquele país levou a cabo uma revolução que derrubou o sistema de apartheid, regime racista imposto pela minoria branca sul-africana até 1994.

Atualmente, 270 mineiros grevistas correm o risco de serem processados, pois, fiquem impressionados, estão sendo acusados de assassinato pelo massacre dos seus companheiros com base numa lei do apartheid, que responsabiliza todos os participantes num protesto pelas mortes que nele ocorrerem.

Estes mineiros que trabalham com o corpo parcialmente coberto pela água e britadeiras de 25 quilos, sob o risco de desabamentos e esmagamento por rochas, ganham salários de 4.000 rands (US$ 500 ou R$ 1.000). Vale muito a pena ver as semelhanças deste processo com o da derrubada da ditadura brasileira e da redemocratização.

Em primeiro lugar, há uma identidade entre as condições de vida dos trabalhadores do Brasil e da África do Sul. Todos vivem em condições de vida e trabalho subumanas. Lá, vivem em barracos miseráveis nas comunidades ao redor das minas sem condições de saneamento. Estão sempre sujeitos às doenças profissionais características da profissão: tuberculose e silicose que, aliadas aos acidentes, reduzem sua perspectiva de vida.

Aqui, muitos setores operários vivem em condições parecidas, como, por exemplo, os trabalhadores da construção pesada que, muitas vezes, dormem em galpões perto das obras. Os trabalhadores mais pobres, nas grandes cidades, moram em favelas e ocupações. O ritmo de trabalho das empresas brasileiras está gerando uma verdadeira epidemia de doenças ocupacionais.

A diferença salarial entre negros e brancos na África do Sul é estimulada pelas subcontratação, método igual aos das terceiras brasileiras, que se aproveitam para superexplorar os trabalhadores. No ramo petroleiro brasileiro, os trabalhadores terceirizados chegam a 80%, com uma diferença descomunal de salários entre os operários da Petrobras, das petroleiras privadas e, pior ainda, os das terceirizadas. Diga-se de passagem, nos setores terceirizados se concentra a maioria dos operários negros do ramo.

Por outro lado, na África do Sul, o sindicato mais importante da mineração, o NUM (National Union of Mineworkers), fundado em 1982, peça central na luta contra o apartheid e eixo para a construção da central sindical COSATU, desde o fim do apartheid, vem estabelecendo crescentes relações com as empresas mineradoras. Em 2012, abandonou a luta pela nacionalização das minas, bandeira histórica do movimento na África do Sul.

A COSATU chegou a criar uma empresa, em 1995, a Mineworkers’ Investment Trust, que, em 2011, possuía ativos de 2,8 bilhões de rands e que possui investimentos, inclusive, nas empresas de mineração como a Lonmin. Seus dirigentes ficaram milionários, como Cyril Ramaphosa, ex-dirigente máximo do NUM, acionista minoritário da própria Lonmin. Seus dirigentes máximos ganham altos salários pagos pelo sindicato. Seu dirigente máximo Frans Baleni, ganha vinte e cinco vezes mais o que ganha um britador. [1]

Enfim, passam a ser totalmente governistas por suas ligações com o CNA e, consequentemente, totalmente patronais. Qualquer semelhança com a realidade brasileira não é simples coincidência. Por isso, o NUM e a COSATU não apoiam a greve dos mineiros e sua luta nem rompem com o governo que enviou a polícia para massacrar os operários.

A violência policial é outro elemento de contato entre a realidade na África do Sul pós-apartheid e o Brasil pós-ditadura. Lá, a polícia mudou a cor de seus agentes, mas não a sua prática. No Brasil, recordemos do Pinheirinho. A ação policial, mais do que cumprir uma legislação ultrapassada, busca esmagar o movimento social. Lá como aqui, encurralaram os mais despossuídos e os massacraram covardemente.

Os aparatos de repressão mantiveram a mesma lógica de combate à população pobre que existia na época do apartheid. No Brasil, a atividade policial ainda é baseada na ideologia da “segurança nacional”, em que o principal é combater o inimigo interno. Hoje, esse inimigo está representado nos negros, pobres e despossuídos.

Isso ocorre porque a transição negociada por Mandela e o Conselho Nacional Africano (CNA) permitiu que as estruturas de poder econômico ficassem nas mãos das grandes empresas. O CNA aderiu aos preceitos neoliberais favoráveis ao mercado e liderou uma onda privatista que vendeu, por preços rebaixados, as principais empresas do país, demitiu centenas de milhares de empregados públicos, autorizou as grandes empresas sul-africanas a transferirem suas matrizes deslocadas para Londres, ficando ao abrigo da lei do país. [2]

No Brasil, as grandes empresas que financiaram a repressão e a ditadura continuam ganhando muito dinheiro, recebendo subsídios do governo, isenções de imposto e explorando violentamente a classe trabalhadora. A força econômica e política atual desses grupos também é resultante da forma como se procedeu a transição política no Brasil do regime ditatorial para o regime democrático. Com a consolidação destes grandes grupos monopolistas-bancário-financeiros se gabaritaram para manter suas projeções nos governos que seguiram ao fim do regime de exceção, ainda que hoje seu envolvimento em escândalos de corrupção ganhe mais visibilidade.

Mas quando os trabalhadores se insurgem nos canteiros de obras, dentro das fábricas e nas estações metroferroviárias, a cara da ditadura, que sempre defenderam reaparece assim como as práticas impostas naquele tempo. No Brasil como na África do Sul, os regimes ditatoriais, cheios de ódio contra a população mais carente e a classe operária, caíram, mas a estrutura policial e legal continuou a mesma.

Na África do Sul como no Brasil, a retirada do entulho ditatorial é fundamental para que novos massacres não voltem a ocorrer. Lá e aqui.

NOTAS:
1. 
O massacre de Marikana: um divisor de águas na época pós-apartheid, escrito por Waldo Mermelstein, publicado no Correio Internacional. Dados compilados de Sakhela Buhlungu, acessado em 29/8/2012
2. Idem




FONTE: OPINIÃO SOCIALISTA / Américo Gomes

sábado, março 17, 2012

Há 20 anos, sul-africanos brancos ratificavam nas urnas o fim do regime racista


“Você apoia o processo de reformas que o presidente começou no dia 2 de fevereiro de 1990, cujo objetivo é uma nova Constituição por meio de negociação?”. No dia 17 de março de 1992 – há exatos 20 anos, portanto — 2,8 milhões de sul-africanos brancos foram às urnas para responder a questão acima. Mais de 68% marcaram “sim” e referendaram as ações do presidente Frederik De Klerk rumo a uma nova Constituição, negociada com lideranças negras, que poria fim ao regime racista do Apartheid.
Entre os primeiros passos dados por De Klerk em 1990 estavam o fim da clandestinidade de partidos como o Congresso Nacional Africano e a liberdade de seu principal líder, Nelson Mandela. O presidente também revogou várias leis do arcabouço jurídico que sustentava o regime de segregação racial. Mas a decisão dos brancos no referendo de 1992 não partiu de uma tomada de consciência, mas falta de opção. Apenas uma minoria branca apoiava nas ruas a liberdade aos negros, e o próprio De Klerk antes de se tornar presidente não defendia o fim do Apartheid.
“Não foi uma mera concessão dos brancos aos negros. Os brancos ficaram encurralados”, conta Analúcia Danilivicz, professora de Relações Internacionais da UFRGS e pesquisadora do Cebrafrica – Centro Brasileiro de Estudos Africanos da universidade. Danilivcz, que vai publicar em breve o livro “A Revolução Sul-Africana: Revolução Social ou Libertação nacional?”, explica que a tensão na África do Sul beirava a guerra civil. “Passou a ser impossível controlar as leis de contenção dos negros. Na medida em que a crise ia aumentando, os negros levavam o caos às cidades e como resultado disto vem a repressão. Ou os brancos davam os direitos a essa maioria para que a instabilidade fosse contida, ou acabariam sucumbindo”.
Quando De Klerk assumiu o poder, em 1989, mesmo ano da queda do Muro de Berlim, a situação já era diferente. “O governo do Apartheid tinha o papel de bastião anti-comunista na região. Quando a União Soviética deixa de existir, não tem a menor relevância ter aquele grupo no poder na África do Sul. Se torna melhor para o Ocidente um governo de maioria que abra a economia do país, se adequando ao neoliberalismo. Aí o discurso dos direitos humanos vem à tona como crítica internacional ao regime”, explica Danilivcz.
O regime criado em 1948 se tornou insustentável com o aumento da tensão interna, mas também por fatores econômicos e de relações internacionais. A crise econômica que atingiu o mundo inteiro na década de 1980 não poupou a África do Sul. 
A instabilidade se agravou porque o país passou a sentir cada vez mais as sanções impostas pela comunidade internacional. Durante a Guerra Fria, ter um regime branco e capitalista encravado no sul da África fora estratégico para as potências ocidentais, na medida em que grupos de esquerda apoiados pela União Soviética tomavam o poder em países vizinhos, como Angola e Moçambique. O regime racista era fortemente militarizado, com apoio velado de potências bélicas da Europa, Estados Unidos e Israel. Assim, o regime conseguia sufocar, inclusive, grupos guerrilheiros que existiam desde os anos 1960.
O pensamento da pesquisadora da UFRGS converge com o de Pio Penna Filho, professor de Relações Internacionais da UnB. “Quando houve o referendo, os brancos sabiam que o regime já tinha acabado”, afirma o especialista em África contemporânea. Entre os antecedentes que levaram à derrocada do Apartheid, Penna cita também a conjuntura internacional com o fim da Guerra Fria e a crise econômica dos anos 1980. Ele também relata que as manifestações dos negros eram cada vez mais radicais a partir do final dos anos 1970 e durante os 80. “Os jovens negros perderam a paciência com líderes que tentavam uma conciliação”, afirma.
De fato, durante a década de 1980, atentados à bomba, por exemplo, se tornavam comuns. Ainda assim, o fim do Apartheid deu lugar à conciliação. De um lado, o Partido Nacional se deu conta de que era preciso abrir o regime para não ser engolido. De outro, líderes como Mandela aceitaram negociar. “Conta aí a sabedoria política de um grupo do Partido Nacional, liderado por De Klerk, de fazer uma transição negociada. Do outro lado, havia um grupo disposto a negociar, o CNA, e Mandela foi o fiel da balança, ele era adorado pelos negros e respeitado pelos brancos”, afirma Penna.
Para o professor da UnB, a presença de Mandela foi determinante para que o fim do regime de exclusão racial não terminasse de maneira sangrenta. “Foi um golpe de sorte terem mantido este homem vivo, um homem de sua altivez. Se não, acho que o Apartheid terminaria de outra maneira”, diz.
Analúcia Danilivicz explica que o CNA é uma organização com uma história bastante peculiar. O partido completa cem anos em 2012 e surgiu tentando negociar com os brancos. A partir de 1960, há uma inflexão rumo a guerrilha, motivada pelo Massacre de Shaperville, em que a polícia reprimiu 20 mil negros que protestavam contra a Lei do Passe, que os obrigava a portar cartões de identificação, onde estavam escritos os locais de Johanesburgo onde poderiam transitar. Sessenta e nove pessoas foram mortas a tiros e 186 ficaram feridas, entre elas mulheres e crianças. “Ali o CNA se deu conta que não ia adiantar tentar estabelecer um diálogo com o Partido Nacional”, conta a professora da UFRGS.
Ainda assim, quando seu principal líder é solto em 1990, o partido volta às origens, capitaneando a negociação para um governo em que a maioria negra fosse livre. Em 1993, enquanto tratavam da nova Constituição, Mandela e De Klerk ganharam conjuntamente o Nobel da Paz “por seu trabalho pelo fim pacífico do Apartheid e por criarem as bases de uma nova e democrática África do Sul”.
Em 1994, ocorre a primeira eleição com participação dos negros. O CNA vence com 62% dos votos, mas governa junto com o Partido Nacional, que teve 20%, em um governo de “unidade nacional”, conforme já fora estabelecido pela Constituição “interina”, de 1993 – em 1996, entra em vigor a Constituição definitiva da África do Sul pós-Apartheid. Mandela foi alçado presidente e, desde aquela eleição, o CNA sempre foi o partido mais votado, tendo atualmente Jacob Zuma à frente do governo sul-africano.
Apesar da primazia do partido que lutou pela liberdade dos negros, a exclusão social permanece, bem como o racismo. Na questão social, pesa o fato de que tudo o que era dos brancos continuou com eles. “As propriedades foram mantidas na mão dos brancos. Comenta-se que isto fez parte do acordo entre as altas lideranças”, conta Pio Penna Filho. “Foi uma conversão de eixos que levou o Partido Nacional a procurar o principais lideres do CNA e negociar uma transição para que os negros chegassem ao poder, mas os brancos não perderam sua inserção na economia. Hoje, 80% da economia está nas mãos dos brancos. A minoria branca influencia na capacidade de gestão nos três governos negros que tivemos pós-Apartheid”, afirma Analúcia Danilivicz.
“O Apartheid deixa um legado terrível de racismo e de exclusão social. Enquanto havia este regime, a renda só era distribuída entre os brancos”, explica Penna Filho. O professor da UnB pondera que, embora a desigualdade persista, muitos negros conseguiram ascender socialmente após o fim do regime racista. “Houve mudanças com a promoção de políticas públicas. Hoje já há classe média negra e negros ricos”, diz.
As relações entre brancos e negros também permanecem sendo problemáticas. Em 1995, foi estabelecida a Comissão da Verdade e da Reconciliação, que estabeleceu anistia para todos os que confessassem crimes relacionados ao Apartheid e aceitassem depor. A comissão é tida como um dos exemplos internacionais de justiça de transição, mas não há ainda uma real reconciliação no país.
“Durante 350 anos o sistema econômico sul-africano foi dominado pelos brancos. Temos 17 anos de governo de maioria negra. Em apenas duas décadas é impossível transformar totalmente um sistema fundado na exploração, na segregação e na discriminação que vigorou esse tempo todo”, opina Analúcia Danilivcz.
“Resta um racismo em grandes proporções, entre as gerações que viveram o Apartheid. A África do Sul deve superar isto em dez, vinte anos. De 1994 para cá é que crianças negras e brancas passaram a brincar juntas”, afirma Penna. “Esse regime, que vigorou durante praticamente toda a segunda metade do século XX, pode ter sido aniquilado juridicamente, mas não foi aniquilado no entendimento e nos valores das pessoas”, diz Danilivcz.
ENTENDA O APARTHEID
A África do Sul possui uma peculiaridade em relação aos demais países africanos. O país foi colonizado durante desde o século XVII por europeus de diversas nacionalidades, como alemães, holandeses e franceses. “Durante os processos de descolonização, as elites brancas na África regressaram a seus países de origem, Na África do Sul eles ficaram e constituíram uma comunidade branca permanente. Logo, eles vão se entender como brancos africanos”, explica Analúcia Danilivcz.
Arraigados ao continente africano, estes colonos, conhecidos como afrikâners ou bôeres, chegam a entrar em conflito com os ingleses pela posse da região, no final do século XIX. Ainda assim, os europeus sempre foram franca minoria populacional na África do Sul, por isto a preocupação em ter um controle estrito sobre a população negra. “Essa minoria branca, para que pudesse se manter no poder, tinha que ter um controle absoluto sobre a maioria negra e o controle chegou ao extremo quando o Apartheid foi constituído e sendo aprimorado”, relata a professora de Relações Internacionais da UFRGS.
As primeiras leis racistas são criadas no século XIX nos territórios bôeres no interior da África do Sul, onde estes sul-africanos de origem europeia se refugiaram da Coroa inglesa. A legislação dispõe que negros só têm direito a, no máximo, 7,5% das terras, e os bôeres a 92,5%.
Entre 1910 e 1961, a África do Sul possui autonomia, apesar de ainda ser subjugada aos britânicos. Já durante este período, em 1948, é criado o regime do Apartheid pelo Partido Nacional, que dá um contorno definitivo a uma série de leis de segregação que àquela altura já existiam. Os cidadãos são classificados em quatro categorias “brancos”, “nativos”, “mestiços” e “asiáticos”. Os negros (“nativos”) são obrigados a viver nos “bantustões”, territórios onde moram e só saem para trabalhar para os brancos. Os bantustões são considerados países independentes. Uma farsa para que os sul-africanos negros não tivessem qualquer direito nas leis da África do Sul branca, uma vez que não eram nem considerados cidadãos do país.
“As leis de segregação racial vêm do final do século XIX, de controle sobre a terra, sobre o trabalho. O que acontece em 1948 é uma sofisticação dessa legislação e o controle expresso sobre a população. Vêm como decorrência disso a impossibilidade do negro ser proprietário de bens, de ele transitar no país livremente. São criados os bantustões. As antigas reservas negras são transformadas em áreas independentes, isso tudo muito relativizado, claro, porque, na verdade, eles foram jogados nessas áreas. Os negros perdem a cidadania sul-africana, que na verdade nunca tiveram”, conta Analúcia Danilivcz.
Segundo a pesquisadora do Cebrafrica, o objetivo de tudo isto era, mesmo em minoria, conseguir ter o controle sobre o trabalho dos negros. “Os brancos precisavam controlar exclusivamente a força de trabalho. Os negros necessários ao trabalho iam ser incorporados aos setores de produção sem nenhum direito, tinham um salário inferior aos dos brancos que tinham a mesma atividade. E quando terminasse a jornada tinham que ir para as áreas exclusivas dos negros”.
FONTE: sul21.com / Felipe Prestes e Samir Oliveira

segunda-feira, abril 26, 2010

Estádios da África do Sul custaram o dobro do previsto, anuncia portal

Greves, desastres naturais e desvalorização da moeda local são apontados como fatores para o aumento dos custos






O portal Copa 2014 (www.copa2014.org.br) publicou nesta segunda-feira números inéditos sobre o custo dos estádios da África do Sul. De acordo com a reportagem do site, o orçamento divulgado pelo governo sul-africano de 8,4 bilhões de rands (cerca de R$ 2,15 bilhões) pulou para cerca de 16 bilhões de rands (R$ 4,15 bilhões), segundo números oficiais das províncias que sediarão a Copa. Os cinco estádios construídos especialmente para o Mundial foram os principais atores do estouro, responsáveis por 75% do total investido nas arenas.

Para efeito de comparação, na Alemanha, a proposta do Mundial de 2006 previa gastos de 940 milhões de euros (R$ 2,215 bilhões) para os 12 estádios na ocasião. Mas, ao final das obras, as despesas aumentaram 50% e totalizaram 1,41 bilhão de euros (R$ 3,32 bilhões). Para 2014, o governo brasileiro formalizou o orçamento dos 12 palcos da Copa: a conta começa em R$ 5,342 bilhões.


Maiores variações de custos




O líder de custo dos estádios sulafricanos foi o Green Point, da Cidade do Cabo. Com orçamento inicial de 1,2 bilhão de rands (R$ 307 milhões), o palco de oito jogos do Mundial foi finalizado com 4,5 bilhões de rands (R$ 1,15 bilhão), quase quatro vezes mais caro que o previsto.

O membro do conselho técnico municipal das obras do Mundial, Dave Hugo, revelou que os números começaram a crescer quando moradores do bairro de Green Point reclamaram dos possíveis impactos ambientais da construção. Assim, materiais para atenuar o barulho durante jogos, além de medidas para assegurar a proteção sísmica local, contribuíram sozinhos para aumentar os gastos em 1 bilhão de rands (R$ 250 milhões) logo no começo. "Isso sem contar as flutuações cambiais do rand, a inflação em alta e a escassez de materiais. Fomos afetados por um inesperado e extraordinário aumento de preços com a crise mundial", acrescentou Hugo.

Em Porto Elizabeth, o estádio Nelson Mandela Bay, inicialmente orçado em 890 milhões de rands (R$ 228 milhões), terminou custando 2,1 bilhões de rands (R$ 538 milhões) na conta final. Com capacidade para 46.082 torcedores, as obras no complexo esportivo sofreram principalmente com a desvalorização do rand durante a crise financeira global, o que aumentou o preço da importação de materiais, como as 36 vigas de sustentação produzidas no Kuwait e a membrana do telhado feita no Japão. "A maioria dos preços teve acréscimo de 28% em relação ao esperado", explicou o diretor do projeto, Errol Heynes.



O suntuoso Moses Mabhida, em Durban, foi construído com 3,1 bilhões de rands (R$ 795 milhões), quase 65% a mais que 1,9 bilhão de rands (R$ 487 milhões) previstos. A construção, que abrigará 69.957 espectadores, teve problemas principalmente com a alta do preço do aço, uma vez que foram utilizadas 10 mil toneladas desse material. "A chuva e o vento causaram muitos atrasos, além das duas greves que nos prejudicaram bastante. A desvalorização do rand e a escalada astronômica nos preços do aço foram cruéis", disse o coordenador do projeto, Julie-May Ellingson, em entrevista na inauguração do estádio, em dezembro passado. De acordo com Ellingson, o governo nacional desembolsou 76% dos custos, enquanto o governo da província de KwaZulu-Natal (13%) e a prefeitura (10%) financiaram o restante.

Os outros dois estádios construídos especialmente para a Copa do Mundo não apresentaram variação de custo tão alta. O Peter Mokaba, em Polokwane, custou cerca de 200 milhões de rands a mais que o previsto. Foi finalizado com 1,5 bilhão de rands (R$ 385 milhões). O Mbombela, em Nelspruit, alcançou 1,05 bilhão de rands (R$ 269 milhões), após orçamento inicial de 870 milhões de rands (R$ 223 milhões).


Soccer City




Entre os palcos do Mundial que passaram por reformas, poucas mudanças foram feitas. Exceção ao Soccer City, que apresentou a maior variação de custos. Local da partida de abertura e da final do torneio, com capacidade para 88.460 torcedores, o principal estádio da África do Sul começou com um orçamento de 1,9 bilhão de rands (R$ 487 milhões) e terminou com 3,3 bilhões de rands (R$ 846 milhões), aumento de quase 75%.

Erguido em 1987 próximo ao bairro Soweto, o antigo estádio com capacidade de 80 mil torcedores foi praticamente reconstruído. Depois de 80 mil m³ de concreto e 11 milhões de tijolos, o novo Soccer City ganhou um design inspirado no vaso de cabaça, um dos símbolos da cultura do continente africano.

Assim como nas outras obras da Copa, o arquiteto responsável pela obra, Bob van Bebber, atribui a diferença de custos ao aumento do preço dos materiais diante da crise econômica mundial. "O grande desafio foi alongar o orçamento na medida do possível. Apesar disso, acho que demos valor para todo o dinheiro investido", afirmou Bebber.

segunda-feira, abril 12, 2010

Servidores públicos iniciam greve na África do Sul: ‘Sem dinheiro, sem Copa’








Mais de 100 mil trabalhadores pararam por tempo indeterminado pleiteando um aumento de 15%. Próxima passeata está marcada para quinta




Cerca de oito mil servidores públicos se reuniram na manhã desta segunda-feira, no centro de Joanesburgo, para iniciar uma greve geral por melhores salários. A previsão é que 130 mil trabalhadores em todo o país só voltem à ativa após receberem 15% de aumento. Na Cidade do Cabo e em Durban também aconteceram manifestações pacíficas, mas em East London houve tiros em confronto com a polícia. Um grevista de 60 anos foi atingido, mas sem gravidade, segundo a polícia. Outras sete pessoas foram presas.


A paralisação afeta, entre outros setores, hospitais públicos, coleta de lixo e linhas de ônibus (embora o transporte mais popular no país sejam as vans privadas). Os trabalhadores fizeram várias referências à Copa do Mundo, que começa exatamente daqui a 60 dias. "Sem dinheiro, sem Copa do Mundo", gritavam eles. "Enquanto nós recebemos amendoins para trabalhar, eles querem organizar uma Copa do Mundo", ironizava um cartaz.

Os grevistas marcaram o próximo protesto para quinta-feira, justamente no dia em que a Fifa abrirá a última fase da venda de ingressos para a Copa, com guichês espalhados por vários pontos do país. A paralisação, no entanto, deve comprometer a procura, já que fechará algumas ruas e dificultará o trânsito das pessoas, como aconteceu nesta segunda.

O sindicato que organizou a manifestação espera que a proximidade da Copa o ajude nas reivindicações.

- Acredito que os empregadores vão nos atender para não prejudicarmos a Copa. É hora de eles acordarem e negociarem conosco - disse o diretor do sindicato, Steve Falconer.

Sibongile Mazibuko, diretora executiva do Comitê Organizador da Copa em Joanesburgo, disse que o direito à greve deve ser respeitado mas garantiu que ela não afetará os preparativos para o Mundial.

- Este é um país democrático e as pessoas têm espaço para reivindicar o que acham justo, com ou sem Copa do Mundo pela frente. Não vamos reprimi-las, apenas esperar que esta questão se resolva rapidamente - afirmou.
FONTE: G1

domingo, abril 11, 2010

Crise no campo recria apartheid na África do Sul

Desde 1994, cerca de 3 mil pessoas morreram em ataques em zonas rurais do país








Frans Gaoganediwe acorda todos os dias às 6 horas para supervisionar os 50 mil frangos de sua fazenda. Andre Bartelman levanta-se no mesmo horário para alimentar cabeças de gado. A rotina massacrante do campo afeta os dois de uma forma parecida: fala mansa, mão calejada, pele estorricada de sol. A única diferença entre os dois é a cor da pele, o que na várzea sul-africana diz muita coisa.


Frans é negro. Andre, branco. Frans tem 87 hectares em Ventersdorp, norte do país. Louis é dono de 600 hectares na região de Bloemfontein, no centro. O maior pesadelo dos dois é reflexo do mais básico de todos os instintos: o medo de morrer.


"Procuro ter uma boa relação com os fazendeiros brancos, mas a gente nunca sabe o dia de amanhã", diz Frans. "Tento conviver em harmonia com os negros, mas a situação piora a cada dia", afirma Louis.


Desde 1994, cerca de 3 mil pessoas, a maioria fazendeiros brancos e seus familiares, morreram em mais de 10 mil ataques registrados em regiões rurais da África do Sul. De acordo com o Instituto de Estudos Raciais Sul-Africanos, o mais importante centro de pesquisas no assunto do país, 90% dos crimes são tentativas de assalto corriqueiras, 8% acertos de contas trabalhistas e apenas 2% têm motivações raciais.


Mesmo assim, as violentas reações após o assassinato do líder extremista Eugene Terreblanche serviram para lembrar que existe uma parte da África do Sul que dificilmente aceitará viver algum dia em uma democracia racial.


De acordo com analistas, se os sul-africanos quiserem superar as marcas deixadas pelo apartheid terão de resolver a questão fundiária, porque é no campo que vivem os fazendeiros brancos. Conservadores, eles continuam misturando política e religião, exatamente como seus ancestrais no século 19.


Terra para todos

"A reforma agrária é um dos maiores fracassos do governo pós-apartheid", disse ao Estado Anthony Butler, chefe do Departamento de Estudos Políticos da Universidade de Witwatersrand, de Johannesburgo. O programa de reforma agrária foi lançado na presidência de Nelson Mandela, em 1994, e pretendia redistribuir 30% das terras dos bôeres para os negros mais pobres. Até hoje, apenas 5% foi feito.


Diferentemente do vizinho Zimbábue, onde o governo toma a propriedade rural dos brancos, os sul-africanos decidiram pagar pelas terras seguindo o preço de mercado. Mas o dinheiro acabou. Seriam necessários mais US$ 9,4 bilhões para completar a meta - mais de duas vezes o investimento feito na Copa do Mundo de 2010.


Depois de admitir que o modelo de reforma agrária fracassou, o presidente sul-africano, Jacob Zuma começou a falar em "estratégias práticas" para adquirir mais terras de "maneira mais rápida e barata".


A linguagem usada por Zuma tem assustado os 40 mil fazendeiros brancos que vivem no país e aumentado a tensão no campo.


Se os brancos estão apreensivos, os negros estão cada vez mais frustrados com a lentidão do processo e com a falta de assistência do governo. Metade das terras distribuídas a fazendeiros negros não vinga por falta de financiamento ou de intimidade com o agribusiness.


Em um país de desigualdades, a questão agrária é uma bomba-relógio. Um aforismo sul-africano diz que os bôeres conquistaram o país com um fuzil em uma mão e a Bíblia na outra. O arcebispo Desmond Tutu, ganhador do Prêmio Nobel da Paz em 1984, foi mais longe e sintetizou de maneira ainda mais precisa a questão. "Quando os brancos chegaram aqui, nós tínhamos as terras e eles, a Bíblia", disse Tutu certa vez. "Nós piscamos os olhos por alguns segundos e, quando abrimos, os brancos ficaram com as terras e nós, com a Bíblia."

FONTE: ESTADO DE SÃO PAULO

sexta-feira, abril 09, 2010

Funeral de líder racista reúne centenas de radicais na África do Sul





Centenas de ultradireitistas, muitos com uniformes paramilitares, e vários jornalistas se reuniram hoje na pequena cidade de Ventersdorp, no noroeste da África do Sul, para o funeral de Eugene Terreblanche, defensor da supremacia branca.

A Polícia estabeleceu fortes medidas de segurança dentro e fora da igreja onde ocorre o funeral, que começou ao meio-dia (7h, Brasília).

Antes do funeral, os dirigentes do Movimento de Resistência Afrikáner (AWB), grupo de ideologia e simbolismo similar ao Nazismo fundado por Terreblanche em 1973, asseguraram que não farão ações violentas após a morte do líder.

Andre Visage, secretário-geral do AWB e que no domingo passado ameaçou vingar a morte de Terreblanche, disse à imprensa que seu grupo negociará pacificamente com o Governo proteção.

"Se não nos sentirmos satisfeitos com as negociações, retornaremos a nossa nação e veremos o que devemos fazer, mas a violência é um o último recurso", acrescentou.

Ele também advertiu aos torcedores que forem à África do Sul para a Copa do Mundo, marcada para junho e julho, que cuidem de sua segurança.

"Podem vir, mas que tenham cuidado com sua segurança, pois o Governo sul-africano não pode proteger nem a si mesmo e deixará só as pessoas de outros países", disse.

FONTE:Agencia EFE

Debate em TV sul-africana termina em confusão

Um debate ao vivo na TV sul-africana acabou em confusão nesta semana.

Andre Visagie, líder de um grupo de extrema direita, se irritou ao ser questionado pela ativista Lebohang Pheko e levantou-se no meio do programa.

O âncora Chris Maroleng interveio para tentar conter Visagie, e os dois discutiram até a intervenção de seguranças e produtores.

As tensões raciais na África do Sul se elevaram na última semana, após o assassinato do líder supremacista branco Eugene Terreblanche.

FONTE: BBC

segunda-feira, abril 05, 2010

Líderes sul-aficanos advertem para perigo de vingança





Líderes sul-africanos advertiram para as consequências de qualquer tentativa de defensores da supremacia branca de vingar a morte do seu líder, Eugene Terreblanche.




O ministro do Interior, Nathi Mthethwa, disse que tal atitute não ajuda a presente situação no país, enquanto que o Presidente Jacob Zuma apelou para a unidade nacional.


No domingo, os seguidores de Terreblanche do partido AWB de ultra-ditreita prometeram vingança. Eles acusam Julius Malema, o líder da Liga da Juventude do ANC, de acções inflamatórias.


Malema que no mês passado, entou uma canção cujo refrão é 'matem farmeiros brancos', num encontro de estudantes, deverá regressar do Zimbabwe, esta segunda-feira. A sua resposta está a ser ansiosamente esperada.


O Presidente sul-africano, Jacob Zuma, disse que ninguém deve usar esta situação para incitar ódio racial.


"Aqueles mais próximos de Terreblanche estão num momento de dor. Mas, esta é a altura em que devemos testar a nossa liderança responsável, de forma a manter este país unido para estancar a violência…o crime violento deve ser vencido por todos nós."


"Condeno este acto, cobarde de assassinato de Terreblanche. É inaceitável na nossa sociedade democrática." - disse o presidente Jacob Zuma.


De acordo com correspondentes, o assassinato de Terreblanche no sábado, foi resultado de uma disputa de dinheiro e salários não pagos com dois dos seus empregados.


O seu corpo foi encontrado em cima da cama, na sua fazenda nos arredores de Johanesburgo. Perto do corpo estavam a catana e os paus usados para o matar. Dois jovens que trabalhavam na fazenda foram detidos para investigação.

FONTE: BBC ÁFRICA

domingo, abril 04, 2010

Zuma condena assassinato de Terre'Blanche

O presidente sul-africano, Jacob Zuma, fez um apelo à calma na sequência do assassinato do líder da extrema-direita Eugène Terre'Blanche.


Segundo a agência sul-africana Sapa, Terre'Blanche foi espancado até à morte na sua fazenda por dois trabalhadores negros que exigiam salários atrasados.

Comentando o caso, o presidente Zuma disse que 'ninguém tem o direito de exercer justiça pelas suas próprias mãos' e que 'ninguém tem o direito de se aproveitar do caso para incitar ao ódio racial'.

Presentemente debate-se na África do Sul a liguagem considerada racialmente provocativa do dirigente da juventude do ANC Julius Malema.

Na semana passada um tribunal de alta instância proibiu Malema de entoar a canção 'Matem o Boer, matem o fazendeiro' (kill the Boer, kill the farmer).

O grupo político de Terre'Blanche's political (AWB) responsabilizou Malema pela sua morte.

Ainda não houve qualquer reacção por parte de Julius Malema e entretanto a polícia disse ter detido dois homens que se supõe serem os presumíveis homicidas.

FONTE: BBC

quinta-feira, fevereiro 11, 2010

LIBERDADE À ÁFRICA DO SUL






















Hino nacional da África do Sul


Nkosi sikelel' iAfrika
Maluphakanyisw' uphondo lwayo,
AYizwa imithandazo yethu,
Nkosi sikelela, thina lusapho lwayo.

Deus abençoe a África

Que suas glórias sejam exaltadas

Ouça nossas preçes

Deus nos abençoe, porque somos seus filhos

(xhosa e zulu)

Morena boloka setjhaba sa heso,
O fedise dintwa le matshwenyeho,
O se boloke, O se boloke setjhaba sa heso,
Setjhaba sa South Afrika - South Afrika.

Deus, cuide de nossa nação

Acabe com nossos conflitos

Nos proteja, e proteja nossa nação

À África do Sul, nação África do Sul

(sesotho)

Uit die blou van onse hemel,
Uit die diepte van ons see,
Oor ons ewige gebergtes,
Waar die kranse antwoord gee,

Dos nossos céus azuis

Das profundezas dos nossos mares

Sobre as grandes montanhas

Onde os sons se ecoem

(africâner)

Sounds the call to come together,
And united we shall stand,
Let us live and strive for freedom,
In South Africa our land.

Soa o chamado para nos unirmos

e juntos nos fortalecermos

Vamos viver e lutar por liberdade

Na África da Sul a nossa terra.


Desde 1997 que o hino nacional da África do Sul é uma canção híbrida, combinando versos do hino nacional do governo do apartheid, "Die Stem van Suid-Afrika" e o hino popular do Congresso Nacional Africano e outras organizações negras: o "Nkosi Sikelel' iAfrika". Isto torna, talvez, o hino nacional sul-africano o único hino nacional com duas partes cantadas em tons diferentes. A sua letra inclui cinco das onze línguas oficiais da África do Sul.

G'BALA

(inglês)