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sexta-feira, abril 11, 2014

Racismo se alastra: futebol brasileiro tem ao menos uma denúncia por mês


Estádios do país têm 14 casos que se tornaram públicos desde fevereiro de 2013. Lei é dúbia, árbitro relata medo de represálias e clube é punido com rebaixamento

No dia 13 de março, a presidente do Brasil, Dilma Rousseff, abriu as portas do Palácio do Planalto para receber Paulo César Tinga, meia do Cruzeiro, e o árbitro gaúcho Márcio Chagas da Silva, ambos vítimas recentes de manifestações racistas em estádios de futebol. Não participaram do encontro, e tampouco são conhecidos nacionalmente, personagens como Pantico, Zambi, Dudu e Dida. Todos eles são jogadores. E fazem parte de uma já longa lista de profissionais do futebol que denunciaram supostos casos de racismo dentro do país no último ano. E que pouco foram notados.

Contabilizados apenas episódios que se tornaram públicos, ocorreram ao menos 14 acusações de racismo em estádios brasileiros desde fevereiro do ano passado - a última nessa quinta-feira, quando Marino, do São Bernardo, foi a uma delegacia prestar queixa contra um torcedor do Paraná. É como se uma vez por mês alguém saísse de campo, do Norte ao Sul do Brasil, se sentindo vítima de preconceito por causa da cor de sua pele. Há atletas de clubes grandes, casos de Inter e Santos, mas também de equipes menores: Uberlândia, Pimentense, Sapucaiense. Juntos, famosos e anônimos formam um panorama assustador: o país que vai receber a Copa do Mundo dentro de dois meses é palco de repetidas manifestações racistas.

O cenário abre espaço para dois pontos polêmicos - quem punir e como punir. A legislação esportiva dá margem para punições rígidas, mas o texto é dúbio em uma questão central: até onde penalizar os clubes aos quais estão ligados os agentes das manifestações racistas. Geralmente, as penas englobam multas e perdas de mando de campo. Mas houve uma revolução nesta quinta-feira: o Esportivo teve nove pontos retirados na tabela e acabou rebaixado no Campeonato Gaúcho pelo episódio envolvendo Márcio Chagas. Cabe recurso no STJD.

Paralela à discussão sobre as penas, existe um ambiente que dificulta a exposição desses gestos: o temor de represálias em casos de denúncias, a timidez dos clubes no combate ao preconceito e a permissividade do meio esportivo a gestos que em outras esferas são mais condenados - como se chamar alguém de macaco em um campo de futebol fosse diferente de fazê-lo em um restaurante, por exemplo.

QUEM PUNIR E COMO PUNIR

O parágrafo primeiro do artigo 243-G do Código Brasileiro de Justiça Desportiva abre a possibilidade de um clube perder pontos ou até ser excluído de uma competição em casos de racismo. Mas tem uma ressalva: se a discriminação for "praticada simultaneamente por considerável número de pessoas". É aí que mora a primeira questão: quantas pessoas são necessárias para se definir a ideia de "considerável número"?

Ninguém sabe. O que o texto implica é que manifestações individuais e manifestações coletivas de racismo devem ter punições diferentes. O extremo da lei, com perda de pontos e exclusão, costumava ficar longe da pauta. Mas a pena aplicada ao Esportivo nesta quinta-feira muda esse panorama.

O clube gaúcho inicialmente havia perdido cinco mandos de campo e levado multa de R$ 30 mil depois de o árbitro Márcio Chagas da Silva sofrer ofensas racistas durante jogo contra o Veranópolis e encontrar bananas em seu carro após a partida. Ele recorreu. Em novo julgamento, a punição foi muito diferente: perda de nove pontos e seis mandos de campo, mais multa de R$ 30 mil. Com isso, o clube foi rebaixado para a Segunda Divisão do Campeonato Gaúcho.

O tamanho da penalização à equipe de Bento Gonçalves resulta da ideia de manifestação coletiva presente no CBJD. Segundo Márcio Chagas, os gritos durante o jogo partiram de um grupo de 15 a 20 pessoas. E seu carro, onde foram colocadas bananas, estava nas dependências do clube.

Aí pode estar a diferença para a pena que sofreu o Mogi Mirim, que inicialmente teve seu estádio, o Romildão, interditado e foi condenado a pagar R$ 50 mil de multa por um torcedor ter chamado o volante Arouca, do Santos, de macaco. O Mogi entrou com recurso e conseguiu efeito suspensivo da pena. O novo julgamento, na última quarta, reduziu o valor pela metade. O estádio está liberado.

A discussão sobre como punir um clube em situações assim divide opiniões - e o tamanho da pena, mais ainda. Afinal, a entidade tem culpa de ter um torcedor racista? O procurador-geral do STJD, Paulo Schmitt, entende que as agremiações sempre devem ser julgadas em casos da racismo, seja quem for o agente da manifestação - torcedor, dirigente, jogador.

- Clubes já respondem por violência dentro dos estádios, seja por meio de tumultos, desordens, arremesso de objetos, invasões etc, e devem ser também responsabilizados por essa forma de atraso social. Nesse aspecto, nossas normas disciplinares são até mais abrangentes do que as da Fifa e não se restringem apenas a atos de racismo, mas qualquer forma de preconceito vedado pela Carta Constitucional. E todos que praticarem esse grave desvio de comportamento devem ser processados e julgados pelos tribunais desportivos, do torcedor ao atleta, do árbitro ao dirigente, e os clubes em qualquer hipótese - comentou.

O mais complicado, mesmo para os integrantes do STJD, é a matemática da pena. O presidente do órgão, Flávio Zveiter, diz que é uma questão de "dosimetria" - ou seja, devem ser levados em conta agravantes e atenuantes de cada caso. Na visão do jurista, o clube é responsável por gestos racistas inclusive de seus torcedores, mas é preciso ter cuidado na hora de punir.

- O clube é responsável pela atitude do torcedor. Mas tem que haver uma dosimetria. Foi um torcedor? Foram vários torcedores? Um marginal que vai chamar alguém de macaco tem que ser preso, mas o clube não pode ser punido por perda de pontos, porque assim vai prejudicar os demais torcedores. Por outro lado, sem dúvida alguma, o clube é responsável.

Zveiter levou um susto quando soube que a reportagem contabilizou 14 casos de acusações de racismo apenas em estádios brasileiros em um intervalo de um ano - fora aqueles que eventualmente não se tornaram públicos ou foram silenciados pelas vítimas. Muitos episódios ficam restritos a tribunais regionais, longe dos holofotes da mídia nacional, e acabam não tendo ressonância. Diante da reincidência dos casos, Zveiter pretende criar um mecanismo para que situações assim sempre caiam na esfera nacional - ou seja, no STJD.

Quem também se surpreendeu com o número foi o ex-jogador e técnico Alfredo Sampaio, vice-presidente da Federação Nacional dos Atletas Profissionais de Futebol e presidente do braço do órgão no Rio de Janeiro. Diante do fato, ele disse que pretende acionar o Ministério do Esporte e a CBF para que sejam tomadas medidas em conjunto.

- As medidas necessárias são uma campanha forte do governo e uma cobrança nossa com entidades esportivas. Esse número é preocupante - opinou.

A reportagem procurou o ministro do Esporte, Aldo Rebello, para comentar a reincidência de casos de racismo no futebol brasileiro. Por meio de sua assessoria, deu uma resposta que se limita a listar o que diz a Constituição e o código esportivo. Antes, em nota publicada no site da pasta, o ministro pedira punição exemplar aos responsáveis por manifestações racistas, a quem classificou como "criminosos".

MEDO DE REPRESÁLIAS

Em 6 de março, Márcio Chagas da Silva começou a ser chamado de macaco antes mesmo de começar o jogo entre Esportivo e Veranópolis, na Montanha dos Vinhedos, em Bento Gonçalves. Seguiu sendo chamado de macaco durante a partida. E encontrou bananas em seu carro, inclusive no cano de descarga, ao deixar o estádio. Ele não pensou duas vezes: colocou tudo na súmula.

Mas o próprio árbitro faz um alerta. Segundo ele, colegas deixam de denunciar casos de preconceito por medo de represálias. O raciocínio é simples: em uma denúncia, um clube é prejudicado, e presidentes de clubes costumam ser próximos a presidentes de federações, que podem acabar perseguindo o árbitro em questão.

- Muitos têm medo e se omitem. É medo de represália, de levar o assunto à tona. O pessoal meio que mascara, fica com medo de represálias em geral, de dirigente, de levar o assunto à tona e não ser escalado. A arbitragem não é profissional. Somos prestadores de serviço. E um dirigente pode ter relação mais forte com alguma equipe envolvida na história. Eu corri sério risco de sofrer alguma represália muito forte, mas valeu muito mais a pena (denunciar do que se omitir). O grande problema é que não temos respaldo. Daqui a pouco, não estão escalando determinado árbitro e vão dizer que é por deficiência técnica.

Flávio Zveiter entende que a denúncia feita por Márcio Chagas efetivamente ainda possa fazer parte da realidade brasileira, mas diz que cabe aos árbitros procurar a Justiça desportiva se sentirem que podem ser perseguidos por terem colocado algum caso de racismo na súmula.

- Certamente, em alguns locais, pode haver algum constrangimento. O Tribunal está aberto a receber isso. Não pode uma pessoa ficar constrangida de denunciar racismo por medo de não ser escalada no próximo jogo.

AS AGRESSÕES

A imagem das bananas sobre o carro de Márcio Chagas da Silva é forte - e ajudou a história a se espalhar nacionalmente, a ponto de ele ser recebido pela presidente da República. Mas há outras denúncias de conteúdo tão agressivo quanto a do juiz - mas desconhecidas do grande público.

Lucio, goleiro reserva do São Paulo de Rio Grande no ano passado, disse que ouviu as seguintes palavras de um torcedor do Pelotas: "Preto vagabundo, macaco, teu lugar é no circo". O árbitro da partida era justamente Márcio Chagas da Silva, que citou o caso na súmula.

Assis, lateral-esquerdo do Uberlândia, disse no mês passado que foi chamado de "macaco, negro, safado e fedorento" por um torcedor do Mamoré, um homem de 45 anos que foi detido pela polícia e alegou ter ofendido o atleta "apenas" como "safado, vagabundo e pilantra".

Márcio Chagas, nos dias posteriores à agressão que sofreu em Bento Gonçalves, se emocionou muito ao falar do caso (veja no vídeo ao lado). Sempre que comenta o assunto, ele cita seu filho de 11 meses e o temor de que ele sofra preconceito parecido.

- Eu me senti violentado. Fiquei inerte, chocado com tudo aquilo. Às vezes, somos agredidos e temos a possibilidade de responder, mas nisso fiquei inerte, sem ação. Fui xingado e depois me deparei com meu veículo da forma como estava. Agir de forma sorrateira, como aconteceu, com o ato de colocar bananas, foi sorrateiro, foi covarde. Sou adulto, sei reagir, sei me defender. Mas tenho um filho de 11 meses. Será que ele vai conseguir ter esse discernimento? Não vou aliená-lo de dizer que não vai acontecer. Vai. Vai acontecer. E ele vai ter que ter sabedoria para lidar com isso, para não se machucar de forma muito grave.

A constituição federal avisa que "a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão, nos termos da lei".

EM DISCUSSÃO

Em 2011, o atacante Diego Maurício, defendendo a camisa da seleção brasileira sub-20, foi vítima de manifestações racistas no Peru, durante disputa do Sul-Americano da categoria. Três anos depois, no mesmo país, Tinga sofreu agressão parecida da torcida do Real Garcilaso, em jogo pela Libertadores. É curioso comparar os comunicados da CBF nos dois casos. No primeiro, ela diz que "a manifestação não passou de um fato isolado"; no segundo, pede "punição exemplar" ao Garcilaso e lembra que até a possibilidade de exclusão do clube está inclusa no regulamento - o que não ocorreu.

Acontece que vem aumentando a atenção despertada pelo tema. Nos últimos anos, o Grêmio se viu envolvido em três acusações de racismo: uma de Elicarlos, do Cruzeiro, em 2009, contra o atacante Maxi López; e outras duas de colorados, Zé Roberto em 2011 e Paulão no Gre-Nal do último dia 30, ambas contra torcedores. Ainda no ano passado, o clube tricolor divulgou um vídeo com uma campanha, protagonizada por atletas, contra o racismo. Agora, com o caso envolvendo Paulão, voltou a se pronunciar oficialmente. Em nota, manifestou seu "repúdio a qualquer ato de racismo e discriminação, entendendo tratar-se de um caso particular e que em nada representa o pensamento da torcida gremista" e rejeitou "qualquer mácula a sua conduta institucional neste sentido". O clube foi multado em R$ 80 mil pelo episódio do Gre-Nal.

Enquanto isso, um grupo de torcedores do site Grêmio Libertador iniciou uma discussão para que a torcida pare de se referir aos colorados como "macacos" ou "macacada". Um dos cantos mais presentes em jogos do clube tem a seguinte letra: "Somos campeões do mundo/ da Libertadores também/ Chora, macaco imundo/ Tu nunca ganhou de ninguém". O argumento de muitos gremistas é de que o termo "macaco", neste caso, não contém conotação racista, de que na verdade eles estão chamando os colorados de primatas, de seres irracionais. O Inter até adotou o animal como mascote de seus projetos sociais - e o apelidou de Escurinho. Mas o debate pode reverberar no Gre-Nal do próximo domingo, em Caxias do Sul. O árbitro será justamente Márcio Chagas da Silva, que já avisou que vai parar a partida se escutar alguma referência que considere racista.

É uma discussão que entra em outro aspecto do debate sobre racismo: de que as manifestações em um estádio ganham o calor do jogo e a rivalidade como atenuantes. Há quem não veja em xingamentos de torcedores um ato necessariamente racista. No caso do Rio Grande do Sul, mesmo um ídolo dos colorados, o técnico Abel Braga, amenizou a polêmica sobre a música dos gremistas e disse que não vê conotação racista nela.

Na Europa, onde brasileiros são vítimas habituais de racismo em campo, as campanhas são fortes. Na Inglaterra, a Federação pede que os próprios torcedores denunciem quem se manifestar de forma preconceituosa em estádios. No Brasil, quando um clube ajuda a identificar o torcedor de quem partiu determinada agressão, abre o caminho para evitar uma punição forte - ou até conseguir a absolvição.

No dia 13 de março, a presidente do Brasil, Dilma Rousseff, abriu as portas do Palácio do Planalto para receber Paulo César Tinga, meia do Cruzeiro, e o árbitro gaúcho Márcio Chagas da Silva, ambos vítimas recentes de manifestações racistas em estádios de futebol. Não participaram do encontro, e tampouco são conhecidos nacionalmente, personagens como Pantico, Zambi, Dudu e Dida. Todos eles são jogadores. E fazem parte de uma já longa lista de profissionais do futebol que denunciaram supostos casos de racismo dentro do país no último ano. E que pouco foram notados.

Contabilizados apenas episódios que se tornaram públicos, ocorreram ao menos 14 acusações de racismo em estádios brasileiros desde fevereiro do ano passado - a última nessa quinta-feira, quando Marino, do São Bernardo, foi a uma delegacia prestar queixa contra um torcedor do Paraná. É como se uma vez por mês alguém saísse de campo, do Norte ao Sul do Brasil, se sentindo vítima de preconceito por causa da cor de sua pele. Há atletas de clubes grandes, casos de Inter e Santos, mas também de equipes menores: Uberlândia, Pimentense, Sapucaiense. Juntos, famosos e anônimos formam um panorama assustador: o país que vai receber a Copa do Mundo dentro de dois meses é palco de repetidas manifestações racistas.

O cenário abre espaço para dois pontos polêmicos - quem punir e como punir. A legislação esportiva dá margem para punições rígidas, mas o texto é dúbio em uma questão central: até onde penalizar os clubes aos quais estão ligados os agentes das manifestações racistas. Geralmente, as penas englobam multas e perdas de mando de campo. Mas houve uma revolução nesta quinta-feira: o Esportivo teve nove pontos retirados na tabela e acabou rebaixado no Campeonato Gaúcho pelo episódio envolvendo Márcio Chagas. Cabe recurso no STJD.

Paralela à discussão sobre as penas, existe um ambiente que dificulta a exposição desses gestos: o temor de represálias em casos de denúncias, a timidez dos clubes no combate ao preconceito e a permissividade do meio esportivo a gestos que em outras esferas são mais condenados - como se chamar alguém de macaco em um campo de futebol fosse diferente de fazê-lo em um restaurante, por exemplo.

QUEM PUNIR E COMO PUNIR

O parágrafo primeiro do artigo 243-G do Código Brasileiro de Justiça Desportiva abre a possibilidade de um clube perder pontos ou até ser excluído de uma competição em casos de racismo. Mas tem uma ressalva: se a discriminação for "praticada simultaneamente por considerável número de pessoas". É aí que mora a primeira questão: quantas pessoas são necessárias para se definir a ideia de "considerável número"?

Ninguém sabe. O que o texto implica é que manifestações individuais e manifestações coletivas de racismo devem ter punições diferentes. O extremo da lei, com perda de pontos e exclusão, costumava ficar longe da pauta. Mas a pena aplicada ao Esportivo nesta quinta-feira muda esse panorama.

O clube gaúcho inicialmente havia perdido cinco mandos de campo e levado multa de R$ 30 mil depois de o árbitro Márcio Chagas da Silva sofrer ofensas racistas durante jogo contra o Veranópolis e encontrar bananas em seu carro após a partida. Ele recorreu. Em novo julgamento, a punição foi muito diferente: perda de nove pontos e seis mandos de campo, mais multa de R$ 30 mil. Com isso, o clube foi rebaixado para a Segunda Divisão do Campeonato Gaúcho.

O tamanho da penalização à equipe de Bento Gonçalves resulta da ideia de manifestação coletiva presente no CBJD. Segundo Márcio Chagas, os gritos durante o jogo partiram de um grupo de 15 a 20 pessoas. E seu carro, onde foram colocadas bananas, estava nas dependências do clube.

Aí pode estar a diferença para a pena que sofreu o Mogi Mirim, que inicialmente teve seu estádio, o Romildão, interditado e foi condenado a pagar R$ 50 mil de multa por um torcedor ter chamado o volante Arouca, do Santos, de macaco. O Mogi entrou com recurso e conseguiu efeito suspensivo da pena. O novo julgamento, na última quarta, reduziu o valor pela metade. O estádio está liberado.

A discussão sobre como punir um clube em situações assim divide opiniões - e o tamanho da pena, mais ainda. Afinal, a entidade tem culpa de ter um torcedor racista? O procurador-geral do STJD, Paulo Schmitt, entende que as agremiações sempre devem ser julgadas em casos da racismo, seja quem for o agente da manifestação - torcedor, dirigente, jogador.

- Clubes já respondem por violência dentro dos estádios, seja por meio de tumultos, desordens, arremesso de objetos, invasões etc, e devem ser também responsabilizados por essa forma de atraso social. Nesse aspecto, nossas normas disciplinares são até mais abrangentes do que as da Fifa e não se restringem apenas a atos de racismo, mas qualquer forma de preconceito vedado pela Carta Constitucional. E todos que praticarem esse grave desvio de comportamento devem ser processados e julgados pelos tribunais desportivos, do torcedor ao atleta, do árbitro ao dirigente, e os clubes em qualquer hipótese - comentou.

O mais complicado, mesmo para os integrantes do STJD, é a matemática da pena. O presidente do órgão, Flávio Zveiter, diz que é uma questão de "dosimetria" - ou seja, devem ser levados em conta agravantes e atenuantes de cada caso. Na visão do jurista, o clube é responsável por gestos racistas inclusive de seus torcedores, mas é preciso ter cuidado na hora de punir.

- O clube é responsável pela atitude do torcedor. Mas tem que haver uma dosimetria. Foi um torcedor? Foram vários torcedores? Um marginal que vai chamar alguém de macaco tem que ser preso, mas o clube não pode ser punido por perda de pontos, porque assim vai prejudicar os demais torcedores. Por outro lado, sem dúvida alguma, o clube é responsável.

Zveiter levou um susto quando soube que a reportagem contabilizou 14 casos de acusações de racismo apenas em estádios brasileiros em um intervalo de um ano - fora aqueles que eventualmente não se tornaram públicos ou foram silenciados pelas vítimas. Muitos episódios ficam restritos a tribunais regionais, longe dos holofotes da mídia nacional, e acabam não tendo ressonância. Diante da reincidência dos casos, Zveiter pretende criar um mecanismo para que situações assim sempre caiam na esfera nacional - ou seja, no STJD.

Quem também se surpreendeu com o número foi o ex-jogador e técnico Alfredo Sampaio, vice-presidente da Federação Nacional dos Atletas Profissionais de Futebol e presidente do braço do órgão no Rio de Janeiro. Diante do fato, ele disse que pretende acionar o Ministério do Esporte e a CBF para que sejam tomadas medidas em conjunto.

- As medidas necessárias são uma campanha forte do governo e uma cobrança nossa com entidades esportivas. Esse número é preocupante - opinou.

A reportagem procurou o ministro do Esporte, Aldo Rebello, para comentar a reincidência de casos de racismo no futebol brasileiro. Por meio de sua assessoria, deu uma resposta que se limita a listar o que diz a Constituição e o código esportivo. Antes, em nota publicada no site da pasta, o ministro pedira punição exemplar aos responsáveis por manifestações racistas, a quem classificou como "criminosos".

MEDO DE REPRESÁLIAS
Em 6 de março, Márcio Chagas da Silva começou a ser chamado de macaco antes mesmo de começar o jogo entre Esportivo e Veranópolis, na Montanha dos Vinhedos, em Bento Gonçalves. Seguiu sendo chamado de macaco durante a partida. E encontrou bananas em seu carro, inclusive no cano de descarga, ao deixar o estádio. Ele não pensou duas vezes: colocou tudo na súmula.

Mas o próprio árbitro faz um alerta. Segundo ele, colegas deixam de denunciar casos de preconceito por medo de represálias. O raciocínio é simples: em uma denúncia, um clube é prejudicado, e presidentes de clubes costumam ser próximos a presidentes de federações, que podem acabar perseguindo o árbitro em questão.

- Muitos têm medo e se omitem. É medo de represália, de levar o assunto à tona. O pessoal meio que mascara, fica com medo de represálias em geral, de dirigente, de levar o assunto à tona e não ser escalado. A arbitragem não é profissional. Somos prestadores de serviço. E um dirigente pode ter relação mais forte com alguma equipe envolvida na história. Eu corri sério risco de sofrer alguma represália muito forte, mas valeu muito mais a pena (denunciar do que se omitir). O grande problema é que não temos respaldo. Daqui a pouco, não estão escalando determinado árbitro e vão dizer que é por deficiência técnica.

Flávio Zveiter entende que a denúncia feita por Márcio Chagas efetivamente ainda possa fazer parte da realidade brasileira, mas diz que cabe aos árbitros procurar a Justiça desportiva se sentirem que podem ser perseguidos por terem colocado algum caso de racismo na súmula.

- Certamente, em alguns locais, pode haver algum constrangimento. O Tribunal está aberto a receber isso. Não pode uma pessoa ficar constrangida de denunciar racismo por medo de não ser escalada no próximo jogo.

AS AGRESSÕES
A imagem das bananas sobre o carro de Márcio Chagas da Silva é forte - e ajudou a história a se espalhar nacionalmente, a ponto de ele ser recebido pela presidente da República. Mas há outras denúncias de conteúdo tão agressivo quanto a do juiz - mas desconhecidas do grande público.

Lucio, goleiro reserva do São Paulo de Rio Grande no ano passado, disse que ouviu as seguintes palavras de um torcedor do Pelotas: "Preto vagabundo, macaco, teu lugar é no circo". O árbitro da partida era justamente Márcio Chagas da Silva, que citou o caso na súmula.

Assis, lateral-esquerdo do Uberlândia, disse no mês passado que foi chamado de "macaco, negro, safado e fedorento" por um torcedor do Mamoré, um homem de 45 anos que foi detido pela polícia e alegou ter ofendido o atleta "apenas" como "safado, vagabundo e pilantra".

Márcio Chagas, nos dias posteriores à agressão que sofreu em Bento Gonçalves, se emocionou muito ao falar do caso (veja no vídeo ao lado). Sempre que comenta o assunto, ele cita seu filho de 11 meses e o temor de que ele sofra preconceito parecido.

- Eu me senti violentado. Fiquei inerte, chocado com tudo aquilo. Às vezes, somos agredidos e temos a possibilidade de responder, mas nisso fiquei inerte, sem ação. Fui xingado e depois me deparei com meu veículo da forma como estava. Agir de forma sorrateira, como aconteceu, com o ato de colocar bananas, foi sorrateiro, foi covarde. Sou adulto, sei reagir, sei me defender. Mas tenho um filho de 11 meses. Será que ele vai conseguir ter esse discernimento? Não vou aliená-lo de dizer que não vai acontecer. Vai. Vai acontecer. E ele vai ter que ter sabedoria para lidar com isso, para não se machucar de forma muito grave.

A constituição federal avisa que "a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão, nos termos da lei".

EM DISCUSSÃO

Em 2011, o atacante Diego Maurício, defendendo a camisa da seleção brasileira sub-20, foi vítima de manifestações racistas no Peru, durante disputa do Sul-Americano da categoria. Três anos depois, no mesmo país, Tinga sofreu agressão parecida da torcida do Real Garcilaso, em jogo pela Libertadores. É curioso comparar os comunicados da CBF nos dois casos. No primeiro, ela diz que "a manifestação não passou de um fato isolado"; no segundo, pede "punição exemplar" ao Garcilaso e lembra que até a possibilidade de exclusão do clube está inclusa no regulamento - o que não ocorreu.

Acontece que vem aumentando a atenção despertada pelo tema. Nos últimos anos, o Grêmio se viu envolvido em três acusações de racismo: uma de Elicarlos, do Cruzeiro, em 2009, contra o atacante Maxi López; e outras duas de colorados, Zé Roberto em 2011 e Paulão no Gre-Nal do último dia 30, ambas contra torcedores. Ainda no ano passado, o clube tricolor divulgou um vídeo com uma campanha, protagonizada por atletas, contra o racismo. Agora, com o caso envolvendo Paulão, voltou a se pronunciar oficialmente. Em nota, manifestou seu "repúdio a qualquer ato de racismo e discriminação, entendendo tratar-se de um caso particular e que em nada representa o pensamento da torcida gremista" e rejeitou "qualquer mácula a sua conduta institucional neste sentido". O clube foi multado em R$ 80 mil pelo episódio do Gre-Nal.

Enquanto isso, um grupo de torcedores do site Grêmio Libertador iniciou uma discussão para que a torcida pare de se referir aos colorados como "macacos" ou "macacada". Um dos cantos mais presentes em jogos do clube tem a seguinte letra: "Somos campeões do mundo/ da Libertadores também/ Chora, macaco imundo/ Tu nunca ganhou de ninguém". O argumento de muitos gremistas é de que o termo "macaco", neste caso, não contém conotação racista, de que na verdade eles estão chamando os colorados de primatas, de seres irracionais. O Inter até adotou o animal como mascote de seus projetos sociais - e o apelidou de Escurinho. Mas o debate pode reverberar no Gre-Nal do próximo domingo, em Caxias do Sul. O árbitro será justamente Márcio Chagas da Silva, que já avisou que vai parar a partida se escutar alguma referência que considere racista.

É uma discussão que entra em outro aspecto do debate sobre racismo: de que as manifestações em um estádio ganham o calor do jogo e a rivalidade como atenuantes. Há quem não veja em xingamentos de torcedores um ato necessariamente racista. No caso do Rio Grande do Sul, mesmo um ídolo dos colorados, o técnico Abel Braga, amenizou a polêmica sobre a música dos gremistas e disse que não vê conotação racista nela.


Na Europa, onde brasileiros são vítimas habituais de racismo em campo, as campanhas são fortes. Na Inglaterra, a Federação pede que os próprios torcedores denunciem quem se manifestar de forma preconceituosa em estádios (veja no vídeo acima). No Brasil, quando um clube ajuda a identificar o torcedor de quem partiu determinada agressão, abre o caminho para evitar uma punição forte - ou até conseguir a absolvição.

FONTE: GLOBO.COM / Por Rio de Janeiro

quinta-feira, abril 10, 2014

Paulo C. Caju diz que Pelé também tem culpa por racismo no futebol


"Isso é coisa muito séria, não vou falar por telefone. Esse assunto precisa ser debatido, conversado". Foi assim que o ex-jogador Paulo Cezar Caju respondeu ao primeiro contato da reportagem do UOL Esporte ao ser questionado sobre a polêmica do racismo no futebol nos últimos meses. E, de fato, o tricampeão do mundo pela seleção brasileira falou bastante sobre o tema que ganhou ainda mais repercussão no Brasil após os casos do árbitro Márcio Chagas, no Rio Grande do Sul, do meia Tinga, no Peru, e do volante Arouca, em Mogi Mirim.
Relaxado nas areias da praia do Leblon, no Rio de Janeiro, Caju analisou com calma o assunto e não poupou ataques àqueles que ele considera os grandes culpados pelo preconceito ainda marcar presença nos campos e estádios. E as críticas mais duras foram para um ex-companheiro bastante conhecido: Pelé.
Segundo o ex-jogador com passagens marcantes por Botafogo, Fluminense, Flamengo, Grêmio e Olympique de Marselha, Pelé não se comporta da melhor maneira em relação ao racismo, se omitindo de uma luta que poderia ser vencida com a participação do maior atleta do século.
"As grandes entidades precisam se posicionar e não fazem. E o que dizer do maior jogador do mundo? Ele é lamentável neste caso, não se posiciona. É um absurdo. O cara é o atleta do século, a figura mais popular do mundo e não usa isso para brigar por causas justas. E sempre que abre a boca para se pronunciar não fala nada correto", atacou Caju.
"A declaração do Pelé nos últimos dias foi patética, dizendo que mortes em obras de estádios são normais. Pelo amor de Deus, como é ridículo. E fica dizendo que devemos nos preocupar com a Copa. Ele só pode estar brincando. Copa é o car... Cheio de problemas no país, o povo protestando contra corrupção, desordem, brigando por condições melhores e ele só preocupado com Copa. Isso já diz muito sobre a postura dele", analisou.
Paulo Cezar relembrou até grandes líderes mundiais negros para criticar Pelé, aquele que, segundo Caju, "não fez nada de bom fora de campo".
"Se o Pelé tivesse um pouco de noção ou sensibilidade, faria uma revolução neste caso [racismo]. Ele tem mais repercussão que líderes políticos e religiosos. Mas não, prefere ficar falando besteira. E, na boa, nem quero mais falar dele. Não vale. Temos que falar de Muhammad Ali, Martin Luther King, Nelson Mandela... Estes, sim, foram grandes líderes que aproveitaram o espaço que tinham para brigar pelos negros. Abdicaram de suas vidas e compraram brigas sérias, coisa que o Pelé deveria fazer e nunca fez. É brincadeira".
Com vasta experiência no futebol brasileiro e internacional, inúmeros jogos pela seleção ao redor do mundo e passagens marcante pela Europa (futebol francês), Caju diz que a questão do racismo assusta nos dias atuais, visto que em sua época de atleta era uma coisa mais contida.
"Isso choca muito, principalmente porque eu não estava acostumado com isso quando joguei. Nunca ouvi um tom de discriminação, nem na seleção, nem na França. Passei por um caso isolado em 1968, mas não lembro dessas agressões que acompanhamos hoje.  Fiz uma excursão com o Botafogo para Bagé, no interior do Rio Grande do Sul, que era a cidade de um dirigente do clube. Fomos lá no Country Clube da cidade, jogamos, vencemos e depois teria um jantar. Quando chegamos lá à noite, paramos em uma outra porta do clube e tinha a placa 'proibido a entrada de negros'. Voltamos para o hotel na mesma hora, pegamos o ônibus até a Porto Alegre e depois embarcamos para o Rio. Nunca mais voltei lá", recordou.
Por fim, Paulo Cezar Caju disse que as entidades precisam aplicar punições mais severas do que simples multas aos autores para que que o preconceito não se faça presente.
"Esse racismo está se tornando uma coisa banal. As punições da Fifa não existem, são uma m... Tudo isso contribui. As pessoas responsáveis seguem sem punir como deveria. Numa boa, tem que tirar do campeonato imediatamente, prender o cara. Se não der o exemplo, não acaba. A Federação Gaúcha não fez m... nenhuma no caso do árbitro. Não dá. No dia seguinte, vão fazer de novo. No caso do Cruzeiro, uma punição ridícula da Conmebol [multa de 12 mil dólares]. Em São Paulo, idem. Assim não dá. Tem que existir uma punição severa. O que mais me preocupa é isso. Daqui a pouco, se não controlarem, a briga tomar uma proporção incontrolável. E imagina se os negros resolvem começar a reagir. Não dá. Tem que haver um grito de basta nisso, não dá para aceitar essa guerra de raças"
A reportagem entrou em contato com a assessoria de Pelé para que o ex-jogador comentasse as declarações de Paulo Cezar Caju, mas não obteve uma resposta até o fechamento da reportagem.
FONTE: Pedro Ivo Almeida / Do UOL, no Rio de Janeiro

terça-feira, março 05, 2013

"Basta de racismo"






O vice-presidente da FIFA, Jeffrey Webb, falou após o fim da Assembleia Geral Anual da IFAB sobre sua nova função como diretor da Força-Tarefa Antirracismo da FIFA, definida na recente reunião do Comitê Estratégico da entidade que dirige o futebol mundial.
FIFA.com: Quais são a função e a esfera de ação dessa nova força-tarefa?
Jeffrey Webb: 
Existem dois elementos principais em meu ponto de vista. Primeiro, revisaremos as atuais punições por discriminação. Em segundo lugar está um processo educativo, no qual quero envolver os jogadores, a comunidade futebolística em geral e as ONGs.
Você acredita que o mundo do futebol já fez o suficiente para combater o racismo em particular?O presidente Blatter disse no Comitê Estratégico que já estamos falando desses problemas há muito tempo, mas que agora precisamos olhar para isso novamente. Visivelmente os jogadores não receberam apoio suficiente e isso é chocante. Eles trabalham duro e este esporte é a vida deles, sua profissão. Precisamos fazer mais para apoiá-los.
Você mencionou as multas. Elas deveriam ser mais altas?As multas claramente não serviram como medida dissuasiva e não estão funcionando. Precisamos mobilizar os clubes, as federações afiliadas, algumas ONGs e grupos que realizam campanhas. Se houver infrações sucessivas, então será preciso aplicar punições. Não posso dizer o que faria se fosse um jogador insultado dentro de campo. Mas o que aconteceria se um jogador recebesse insultos na final da Copa do Mundo? Precisamos encontrar alguma solução.
Por que você acredita que o racismo venha ressurgindo no esporte em todo o planeta?Não sei. Mas não é por que o racismo existe na sociedade que devamos tolerá-lo. Como a família do futebol, precisamos sentar e nos olhar no espelho. Pessoas de cor de fato têm a chance ou a mesma oportunidade de se tornar treinadores ou assumir cargos administrativos no futebol? Quero ter a chance de conversar com os jogadores, pessoas que foram vítimas, e escutar suas experiências.
Quais são os próximos passos de sua força-tarefa?O plano é que propostas mais concretas sejam debatidas e formalizadas na reunião do Comitê Executivo entre 20 e 21 de março. Espero que a força-tarefa seja composta por representantes das seis confederações da FIFA e que também inclua alguns grupos que vêm fazendo campanhas para lutar pela erradicação da discriminação há muitos e muitos anos.
Tenho relações muito boas com a Federação Inglesa e em breve encontrarei seu presidente e o grupo de igualdade da instituição.
O clima no Comitê Estratégico era de que já basta. Temos de tentar chegar à raiz da existência de um comportamento como este. Conversando com diversas pessoas envolvidas neste esporte, espero que possamos possibilitar uma mudança, transformar esse comportamento e garantir que todo mundo tenha igualdade de oportunidades para participar do futebol em qualquer nível.

FONTE: FIFA.COM

                         Zambi comenta sobre o ato de racismo em Ijuí no jogo entre 

São Luiz e Caxias


São Luiz e Caxias protagonizaram um grande jogo, sábado, em Ijuí, com bela vitória dos donos da casa por 2 a 1 na semifinal da Taça Piratini. Só que ficou uma mancha na classificação inédita do São Luiz à final. Não do clube ou da cidade, mas de um torcedor. Assim como já ocorreu nos estádios de Caxias do Sul e Porto Alegre em outros Gauchões, agora o ato de racismo surgiu no 19 de Outubro. A vítima foi o atacante Zambi, um dos destaques do primeiro turno do Estadual.

— Me chamaram de macaco mais de uma vez. Eu olhei para a torcida e disse que não precisava disso porque no time deles também tinha jogadores negros. Eu tenho orgulho de ser negro. Foi um fato lamentável  em meio a uma festa bonita e de um jogo bem jogado — discursou Zambi, chateado pela situação. 

O fato ocorreu no segundo tempo, nas arquibancadas que ficam do lado oposto das sociais, e coincidiu com a queda de produtividade do atacante. Natural de Itaperuna (RJ), Zambi fez questão de dizer que nunca ouviu coisa parecida no Rio de Janeiro nos tempos de Nova Iguaçu, Volta Redonda, Americano, Friburguense e Macaé:

— Joguei em vários lugares e nunca aconteceu isso comigo. Nós somos todos iguais, independentemente de cor ou religião. Isso tem de servir de aprendizado para eles porque outros times vão jogar aqui com pessoas da minha cor. No time deles tem pessoas negras. O que eles são diferentes de mim? 

Como não foi possível identificar o torcedor racista, o jogador de 25 anos não prestou queixas na polícia. O árbitro Jean Pierre Gonçalves Lima chegou a paralisar o jogo por uns dois ou três minutos.

— O Jean Pierre veio falar comigo, me apoiou, foi na mesa da Federação. Mas ele falou que não poderia fazer nada porque foi um ato isolado e que iria relatar na súmula. Ele foi atencioso e coerente, quero até dar os parabéns para ele —elogiou o atacante. 

Após a partida, o árbitro falou sobre o caso, explicou como tudo aconteceu e disse que já passou por essa situação em outro jogo:

— O Zambi veio até mim e relatou o fato, disse que estavam ofendendo ele. Perguntei pelo rádio se alguém da arbitragem tinha escutado alguma coisa, principalmente o assistente que estava daquele lado. Mas o assistente não pôde me confirmar nada. Não consegui identificar o torcedor, só pedi para uma pessoa do clube que tomasse alguma providência. Em outro fato ocorrido no passado, eu consegui identificar o torcedor e relatei tudo. Se eu tivesse visto agora, faria a mesma coisa. 

Na súmula, Jean Pierre revelou que não vai ignorar o fato.

— Vou colocar que foi uma conduta regular da torcida, mas que em determinado momento ela ofendeu o atleta, tudo de acordo com a informação que ele próprio passou para mim.

FONTE: O PIONEIRO

TJD-RS decide denunciar São Luiz por racismo
e clube pode ser suspenso



O procurador-geral do Tribunal de Justiça Desportiva do Rio Grande do Sul, Alberto Lopes Franco, irá denunciar na próxima quarta-feira o São Luiz, de Ijuí, pelo ato racista praticado pela torcida do clube contra o atacante Zambi, do Caxias, no último sábado. A decisão leva em conta o depoimento do árbitro Jean Pierre Gonçalves Lima na súmula da partida válida pela semifinal do primeiro turno do Gauchão.

“Em determinado momento do segundo tempo, o atleta da SER Caxias Sr. Zambi dos Santos Oliveira, nº 11, informou-me que alguns torcedores o estavam ofendendo com a palavra “macaco”. Neste momento, informei ao 4º árbitro e ao delegado do jogo que verificassem essa informação e que se observassem algo deste tipo eu paralisaria a partida até identificar os supostos ofensores. A partir desse momento, a partida seguiu normalmente sem maiores problemas”, relatou Lima.

O procurador irá convocar Zambi e um repórter de uma rádio de Porto Alegre que acompanhou o episódio para depor no julgamento, que deve ocorrer após a final do primeiro turno no próximo domingo. O São Luiz será indiciado e julgado de acordo com o artigo 243-G, do CBJD, praticar ato discriminatório, desdenhoso ou ultrajante, relacionado a preconceito em razão de origem étnica, raça, sexo, cor, idade, condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência.

Como o responsável pelo ato racista não foi identificado, o clube será responsabilizado. Neste caso, corre o risco de ser punido com multa entre R$ 100 e R$ 100.000, suspensão de 120 a 360 dias ou de cinco a 10 dias, dependendo do julgamento dos auditores do TJD/RS.

“[A pena] Isso quem tem considerar são os auditores. O que não vale é fazer a identificação de um ‘laranja’. Isso não serve. A identificação tem que ser feita no momento do fato e isso não consta na súmula”, declarou o procurador. 

O presidente do São Luiz, Ricardo Miron, lamentou o fato ocorrido no último domingo e garantiu que pretende denunciar o torcedor que praticou o ato assim que ele for identificado.

“Essa é uma situação muito chata. Todo e qualquer clube, inclusivo o São Luiz-RS, abomina esse tipo de atitude. Quando nós tomamos conhecimento através da arbitragem que havia ocorrido esse caso de racismo contra o atacante do Caxias, nós tomamos providência e tentamos identificar, mas no meio da multidão ficou difícil. No momento que o clube identificar essa pessoa, certamente, será conduzido a uma delegacia de polícia para responder por uma injúria qualificada. Essa é a atitude que vamos tomar”, declarou Miron. 

No dia 9 de fevereiro, o Juventude analisou as imagens do jogo contra o Grêmio quando um suposto torcedor do time da Capital teria ofendido o atacante Zulu utilizando a expressão “macaco”. Porém, após uma análise do departamento jurídico, o time de Caxias do Sul desistiu da ação.

FONTE: BOL/UOL