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sexta-feira, novembro 02, 2012

A doce vida dos mortos


O Dia de Finados é uma tradição antiquíssima e muito popular no México. O motivo é nobre: trazer parentes falecidos para o convívio familiar


Ao contrário do Brasil, onde o carnaval é a maior festa popular, com milhares de pessoas entregues à folia por três dias consecutivos, no México, a maior mobilização festiva e popular ocorre no Dia dos Mortos. Na realidade, geralmente as festividades acontecem em vários dias, entre 31 de outubro e 2 de novembro, e em muitas cidades elas começam já no dia 28 de outubro. Parentes, amigos e convidados festejam o retorno de seus finados com grande variedade de comidas, bebidas, doces e frutas em banquetes espetaculares. De tão importante, o acontecimento foi declarado patrimônio cultural da Humanidade pela Unesco.
A ideia de que a morte é uma continuidade da vida era comum na cultura mesoamericana, do México antigo. A morte era considerada uma transição da vida para outro mundo ou para um espaço, ou mesmo uma nova dimensão, que imaginavam existir para essa finalidade. As origens dessas cerimônias são antigas e remontam a 3.000 anos antes da era cristã. Nas festas rituais, era costume colocarem crânios nos altares erguidos, representando os ancestrais. Desde o século I, os cristãos rezavam pelas almas e visitavam os cemitérios. Já no século V, a Igreja Católica dedicou um dia do ano para rezar por todos os mortos, inclusive os esquecidos pelas famílias. O dia 2 de novembro foi estabelecido no século X, pelo calendário litúrgico cristão, como Dia de Finados.
No México, os povos indígenas realizavam festas e rituais para reverenciar seus mortos. Mas, com a colonização espanhola, novas práticas culturais foram introduzidas e mescladas à cultura nativa para celebrar os antepassados. Rezas e cânticos se misturavam em festas, revestidos de um caráter ao mesmo tempo sagrado e profano.
Antes da chegada dos espanhóis, os indígenas homenageavam seus mortos durante todo o mês de agosto, que corresponde ao nono mês do calendário solar asteca. Na época, as festividades eram presididas pela deusa Mictecacíhuatl, como era chamada a Deusa da Morte dos astecas.
Depois, mesmo com a presença do cristianismo, algumas tradições foram mantidas, como o tempo das festas, que podem durar vários dias. A comemoração do Dia dos Mortos atrai a população tanto das áreas urbanas como das rurais, além de despertar o interesse de grande número de pessoas de vários países.

Nessas festas, as famílias costumam oferecer banquetes com muita fartura para as almas dos mortos, como retribuição por tudo que os antepassados fizeram para eles. Isso é possível porque as festas acontecem em um período de muita prosperidade: no calendário agrícola, outubro e novembro correspondem ao início das colheitas dos produtos semeados na primavera.



Na população de origem indígena – os choles – do estado de Oaxaca, região meridional do México, as festividades começam todos os anos no dia 25 de outubro e se estendem até 5 de novembro. Esse período corresponde à longa jornada realizada pelas almas para se aproximarem de seus familiares. Os choles precisam desse tempo para festejar seus mortos, pois as almas, em geral, estão “muito ocupadas”, já que esta população mescla suas atividades sagradas com as profanas. Por esse motivo, eles sempre estão ocupados com seus afazeres da vida cotidiana, especialmente com as atividades agrícolas.
Já no estado de Veracruz, camponeses e indígenas comemoram o retorno das almas a partir de 18 de outubro, dia de São Lucas, para receber os que sofreram morte violenta, por assassinato ou acidente. Os rituais começam no dia 31 de outubro, quando chegam as almas das crianças, consideradas anjinhos. No dia seguinte, 1º de novembro, é a vez dos espíritos dos adultos. Após festejarem o reencontro com os familiares vivos, as almas regressam ao Reino dos Mortos, para repetir no ano seguinte o mesmo trajeto.
Cada família se preocupa em reproduzir os rituais de acordo com as narrativas feitas pelos mais velhos. Todos os detalhes são observados: arrumação das casas, limpeza dos cemitérios, decoração das igrejas, ruas, praças e outros lugares públicos, variedade de comidas e bebidas, além da compra de roupas e sapatos novos para os mortos. Trabalhando coletivamente, pretendem manter a coesão do grupo e asseguram sua continuidade, evitando que aquelas práticas e representações culturais se percam no esquecimento.
Altares adornados com bandeirinhas de papel de seda são erguidos nas casas, igrejas, praças e edifícios públicos. Os retratos das pessoas mortas são rodeados de flores amarelas chamadas cempasúchitl – espécie conhecida como a flor dos mortos. Os mexicanos acreditam que as cores vivas dessas plantas ajudam os defuntos a encontrar o caminho de volta para casa.

As almas retornam à Terra por um caminho coberto de pétalas que formam um grande tapete amarelo, cercado por velas acesas colocadas em pequenos vasos ou copos, indicando a direção de suas casas. Percorrem a trilha iluminada – os senderos luminosos – e chegam às antigas residências para desfrutar as oferendas com suas famílias e seus amigos. Vivos e mortos se unem para matar as saudades, ficar juntos e aproveitar aquele momento mágico do encontro entre a vida e a morte, onde terminam os limites que separam o mundo dos vivos e o dos mortos. Por isso, é preciso deixar os mortos informados do endereço certo do seu destino. Quando se mudam da comunidade, os integrantes de uma família vão ao cemitério para comunicar a nova residência. Quando se casam, os noivos agem do mesmo modo para informar o novo endereço aos antepassados mortos. As almas não podem errar o caminho do eterno retorno.



Na mesa da sala, no salão dos edifícios e nas igrejas são colocados caixões com esqueletos de plástico, vestidos com os trajes e sapatos novos e adornados com flores amarelas, representando os mortos festejados. Muitas vezes, os esqueletos têm certos objetos que lembram a profissão dos mortos, como guitarras ou outros instrumentos musicais, e também chapéus e ponchos como os que eram usados quando viviam. Ao lado do caixão são dispostas vasilhas com comidas, bebidas, frutas, doces, molhos e cigarros para agradar às almas.
Nos dias que antecedem as festas, homens, mulheres e crianças iniciam os rituais de celebração. Nas matas, cortam troncos de árvore para construir os altares que serão erguidos na entrada das comunidades, das igrejas ou de edifícios públicos. Muitas famílias passam a noite junto aos túmulos dos parentes. Ali, conversam, bebem e comem, brigam e namoram. É o espaço sagrado dos mortos preenchido pelo profano da vida cotidiana. Nas casas, os moradores seguem o mesmo ritual, erguendo altares e enfeitando tudo.
As culturas antigas acreditavam que, após a morte, o corpo e a alma continuavam a viver e que poderiam retornar aos lugares onde tinham vivido. Os mortos eram tratados como se ainda estivessem próximos dos familiares. De modo contraditório, muitas vezes as almas inspiravam medo e, ao mesmo tempo, tranquilidade. Os povos antigos receavam que os mortos sem sepultura, ou os que morreram de modo violento, viessem perturbar, como fantasmas, a sociedade dos vivos. Por isso realizavam rituais, com cânticos e oferendas.
Atualmente, durante os rituais do Dia dos Mortos, percebe-se a forte presença de outras manifestações culturais. Aos rituais tradicionais foram incorporados elementos próprios das festas do Dia das Bruxas – o Halloween, originário dos hatitantes das Gálias e das ilhas da Grã-Bretanha, entre os anos 600 a.C e 800 d.C. –, como fantasias de bruxa, chapéus pontudos, unhas grandes ou garras, máscaras imitando monstros e os doces em forma de caveira. Sem dúvida, essas alterações foram provocadas pelo fenômeno da globalização. No entanto, pesquisas recentes apontam permanências culturais da Espanha antiga, introduzidas pelos celtas na Península Ibérica.
Os novos elementos celtas e ibéricos se mesclam às bandeirinhas de papel de seda, às flores amarelas, às oferendas e aos rituais das festas mexicanas. Em mutação permanente, o processo de apropriação cultural jamais é definitivamente concluído. As almas agradecem. 

Maria Teresa Toribio Brittes Lemos é professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e autora de América Latina: Identidades em Construção – das sociedades tradicionais à globalização (7Letras, 2008).

Saiba Mais

DELUMEAU, Jean. O que sobrou do Paraíso. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

SÁNCHEZ, Jorge Arguello. Dia dos Mortos. México: Aragon, 2007.

SOUSTELLE, Jacques. A vida cotidiana dos astecas às vésperas da conquista. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,1972.

FONTE: REVISTA DE HISTÓRIA

sexta-feira, maio 11, 2012

11 de maio de 1981 - Bob Marley Torna-se Imortal

Bob Marley, 36 anos, o astro jamaicano da música reggae morreu vítima de câncer no cérebro, conforme noticiou o porta-voz do Hospital americano Cedros do Líbano em Miami, na Flórida, onde estava internado.

No dia 6 de abril de 1945, nascia no vilarejo de Nine Mile na Jamaica, de um súbito relacionamento entre um oficial do exército inglês e uma jovem nativa, Robert Nesta Marley, que se tornaria o principal difusor da música reggae e do rastafarianismo: Bob Marley.

Com apenas 21 anos, uniu-se aos amigos Peter Tosh e Bunny Wailer e fez surgir na favela onde moravam, na capital jamaicana o grupo The Wailing Wailers. Em meio à pobreza, criavam música aprimorando o reggae que começava a ganhar contornos. O sucesso veio com sucessivos discos lançados, motivando o rebatizamento do grupo como The Wailers, que ganhou novos integrantes, entre eles a futura mulher de Bob, Rita, com quem se casaria também em 66.

Foi nesta época que Bob conheceu o rastafarianismo e, seguindo a filosofia da doutrina à risca, deixou de cortar os cabelos, passando a cultivar seus famosos dreadlocks. A projeção internacional chegou em 1975, quando Eric Clapton regravou um de seus maiores sucessos, I shot the sheriff. A versão do guitarrista inglês foi um marco na carreira de Bob, que a partir daí passou a excursionar por diversos países. Em 1977, a doença deu os primeiros sinais.

Em respeito à sua religião, o cantor não cumpriu o tratamento médico recomendado. A doença progrediu a uma mestátase que interrompeu precocemente sua carreira quatro anos mais tarde. Passados 27 anos, a genialidade de Bob Marley se mantém influente através da crítica social de suas músicas entoadas como hinos em todo o mundo.

Festa na Urca e pelada de futebol

Embora o sonho de uma apresentação de Bob Marley no Brasil nunca tenha se concretizado, ele passou pelo país em 1980, convidado para uma festa da gravadora alemã Ariola, no Morro da Urca. Em sua breve estadia, participou do famoso evento esportivo do sítio de Chico Buarque: a pelada de futebol. Além do ilustre anfitrião, Marley, vestindo a camisa do Santos Futebol Club, compartilhou da companhia de famosos como os artistas Moraes Moreira e Toquinho, e o jogador Paulo Cesar Caju. 

FONTE: jblog / /hoje na historia



Bob Marley Fragmentos:


"Não tocamos para agradar os críticos. Tocamos o que queremos, quando queremos e o quanto quisermos. E temos motivos para tocar."

"É melhor atirar-se à luta em busca de dias melhores, mesmo correndo o risco de perder tudo, do que permanecer estático, como os pobres de espírito, que não lutam, mas também não vencem, que não conhecem a dor da derrota, nem a glória de ressurgir dos escombros. Esses pobres de espírito, ao final de sua jornada na Terra não agradecem a Deus por terem vivido, mas desculpam-se perante Ele, por terem apenas passado pela vida."

"As Vezes construímos sonhos em cima de grandes pessoas... O tempo passa... e descobrimos que grandes mesmo eram os sonhos e as pessoas pequenas demais para torná-los reais!"

"O reggae não é pra se ouvir é pra se sentir. Quem não o sente não o conhece."




"Um dia vou morrer, afinal todos irão morrer, vão me interrar, um fazendeiro muito louco vai me adubar e me transformar em um lindo pé de maconha. Só assim poderei saber que mesmo depois de morta continuarei fazendo sua cabeça!"



"Meu lar é sempre onde estou, meu lar está na minha mente, meu lar são meus pensamentos, meu lar é pensar as coisas que eu penso. Esse é meu lar. Meu lar não é um lugar material por ai... meu lar está na minha mente."

"Nós nos recusamos a ser o que você queria que nós fôssemos. Somos o que somos, é assim que vai ser. Você não pode me educar"


segunda-feira, abril 23, 2012

Bob Marley era 'o pai mais legal', mas surpreendentemente 'rígido'

Nascida em 1967, Cedella Marley é a filha biológica mais velha do cantor Bob Marley. No momento em que um documentário sobre a vida do artista estreia pelo mundo, ela relembra, em entrevista à BBC, que seu pai era "o mais legal possível", mas surpreendentemente rígido. 

Leia seu depoimento:

Ele era um pai legal, o mais legal possível. Nunca levantava a voz para nós. Acho que, porque passava tanto tempo na estrada, quando não estava viajando era algo como "temos quatro dias, o que vamos fazer? Vamos nos divertir".

Quando estava em casa, era ele quem nos buscava na escola e nos levava à praia. Íamos correr, nadar. Ele era competitivo, fanático por exercícios.

O estilo dos meus pais era: "Se estamos disputando uma corrida, não pense que vamos deixar você ganhar!". Era uma época divertida - assisti-lo enquanto ele nos via perdendo!
Não diria que ele era um pai meloso, mas era divertido. E engraçado - sempre tentava te fazer rir.

Escrevia canções ao nosso redor, e isso também era divertido de ver. Era algo meio casual - ficávamos assistindo TV e ele ali, com seu violão.  (A canção) "Nice Time" era a minha canção de ninar, e ele a escreveu pra mim quando eu nasci.

A música foi algo importante em nossa infância. Não era algo que éramos obrigados a fazer. A atitude do meu pai era: "Se você quiser fazer música, pode, mas daí terá que fazer muito bem".

Ele era um perfeccionista - tudo tinha que ser perfeito. E era muito rígido com a nossa lição de casa. Frequentávamos escolas católicas. Era engraçado porque as pessoas diziam: "Seu pai é tão rastafari". Eu respondia: "Pois é, e ele nos manda a escolas católicas!".

Sendo criado na Jamaica, culturalmente você desenvolve preconceitos religiosos. E, sendo filha de pais rastafaris, as pessoas queriam me fazer sentir "menos do que elas" por causa da religião. Acho que é por isso que, para o papai e mesmo para nós, os filhos, éra importante se superar - sempre estávamos tentando romper barreiras, mudar as coisas e fazer algo diferente com as nossas vidas.

O papai queria que eu fosse uma médica ou advogada. Agora, olhando para trás e, pensando em todos os problemas legais que tivemos, provavelmente eu devesse ter cursado direito!

Meu pai tinha namoradas. Acho que fazia parte da vida - eu nunca me casaria com um músico. Mas sua relação com a minha mãe parecia amorosa. Sempre que eu os via, pareciam amorosos.

Minha mãe criou a maioria dos filhos do meu pai em algum momento. Todos vivemos na mesma casa em alguns momentos. E mesmo agora, na idade adulta, estamos a quarteirões de distância uns dos outros. Minha vida não seria a mesma sem eles.
Não me lembro de nenhuma vez que tenhamos chamado amigos para dormir em casa, porque seus pais não deixariam. Acho que (essas pessoas) tinham uma ideia errada da nossa casa.

Talvez pensassem que você chegaria na nossa casa e haveria maconha pelos cantos, mas era um lugar muito rígido - nossos pais não fumavam dentro de casa.

Meu pai era um pai sexy, musculoso e com dreadlocks. Eu tinha orgulho dele.

Sempre que ele nos buscava na escola, eu andava com o peito estufado e meu nariz para cima. Era como se dissesse: "Este é o meu pai". Ele era o pai mais sexy da escola.
Sua influência duradoura em mim? Ele disse algo com o qual eu não concordo 100 por cento: "Se a minha vida é só para mim, então não quero (viver)".

Mas eu entendo o que ele quis dizer. Se você não é capaz de fazer algo que provoque mudança, então para que está vivendo? Mesmo que o nosso tempo juntos tenha sido curto, ele era uma ótima pessoa para ter como pai.

FONTE: Cedella Marley foi entrevistada pelo programa Outlook, do Serviço Mundial da BBC

sexta-feira, março 16, 2012

Marx, mais vivo e atual do que nunca, 129 anos após sua morte


Em um dia como hoje, há 129 anos, morria placidamente em Londres, aos 65 anos de idade, Karl Marx. Correu a sorte de todos os grandes gênios, sempre incompreendidos pela mediocridade reinante e o pensamento dominado pelo poder e pelas classes dominantes. Como Copérnico, Galileu, Servet, Darwin, Einstein e Freud, para mencionar apenas alguns poucos, foi menosprezado, perseguido, humilhado. Foi ridicularizado por anões intelectuais e burocratas acadêmicos que não chegavam a seus pés, e por políticos complacentes com os poderosos de turno, a quem causavam repugnância suas concepções revolucionárias.

A academia cuidou muito bem de fechar suas portas, e nem ele e nem seu eminente colega, Friedrich Engels, jamais habitaram os claustros universitários. E mais, Engels, que Marx disse ser “o homem mais culto da Europa”, nem sequer estudou em uma universidade. Mesmo assim, Marx e Engels produziram uma autêntica revolução copernicana nas humanidades e nas ciências sociais: depois deles, e ainda que seja difícil separar sua obra, podemos dizer que, depois de Marx, nem as humanidades, nem as ciências sociais voltariam a ser como antes. A amplitude enciclopédica de seus conhecimentos, a profundidade de seu olhar, sua impetuosa busca das evidências que confirmassem suas teorias fizeram de Marx, suas teorias e seu legado filosófico mais atuais do que nunca.

O mundo de hoje, surpreendentemente, se parece ao que ele e seu jovem amigo Engels prognosticaram em um texto assombroso: o Manifesto Comunista. Esse sórdido mundo de oligopólios de rapina, predatórios, de guerras de conquista, degradação da natureza e saque dos bens comuns, de desintegração social, de sociedades polarizadas e nações separadas por abismos de riqueza, poder e tecnologia, de plutocracias travestidas de democracia, de uniformização cultural pautada pelo american way of life, é o mundo que antecipou em todos os seus escritos.

Por isso são muitos que, já nos capitalismos desenvolvidos, se perguntam se o século 21 não será o século de Marx. Respondo a essa pergunta com um sim, sem hesitação, e já estamos vendo: as revoluções em marcha nos países árabes, as mobilizações dos indignados na Europa, a potência plebéia dos islandeses ao enfrentarem e derrotarem os banqueiros, as lutas dos gregos contra os sádicos burocratas da União Européia, do FMI e do Banco Central Europeu, o rastro de pólvora dos movimentos nascidos a partir do Occupy Wall Street, que abarcou mais de cem cidades estadunidenses, as grandes lutas da América Latina que derrotaram a ALCA e a sobrevivência dos governos de esquerda na região, começando pelo heróico exemplo cubano, dentre muitas outras mostras de que o legado do grande mestre está mais vivo do que nunca.

O caráter decisivo da acumulação capitalista, estudada como ninguém mais o fez em O Capital, era negado por todo o pensamento da burguesia e pelos governos dessa classe, que afirmavam que a história era movida pela paixão dos grandes homens, as crenças religiosas, os resultados de heróicas batalhas ou imprevistas contingências da história. Marx tirou a economia das catacumbas e não só assinalou sua centralidade como demonstrou que toda a economia é política, que nenhuma decisão econômica está livre de conotações políticas. E mais, que não há saber mais político e politizado do que a economia, rasgando as teorias dos tecnocratas de ontem e hoje que sustentam que seus planos de ajuste e suas absurdas elucubrações econométricas obedecem a meros cálculos técnicos e são politicamente neutros.

Hoje ninguém acredita seriamente nessas falácias, nem sequer os porta-vozes da direita (ainda que se abstenham de confessar). Poderia se dizer, provocando o sorriso debochado de Marx lá do além, que hoje são todos marxistas, mas à lá Monsieur Jordan, personagem de Le Bourgeois gentilhomme (O gentil homem burguês, O Burguês ridículo, dentre outras traduções já feitas da obra), de Molière, que falava em prosa sem saber. Por isso, quando estourou a nova crise geral do capitalismo, todos correram para comprar O Capital, começando pelos governantes dos capitalismos metropolitanos. É que a coisa era, e é, muito grave pra perderem tempo lendo as bobagens de Milton Friedman, Friedrich Von Hayek ou as monumentais sandices dos economistas do FMI, do Banco Mundial ou do Banco Central Europeu, tão ineptos como corruptos e que, por causa de ambas as coisas, não foram capazes de prever a crise que, tal como tsunami, está arrasando os capitalismos metropolitanos.

Por isso, por méritos próprios e vícios alheios, Marx está mais vivo do que nunca e o faro de seu pensamento ilumina de forma cada vez mais esclarecedora as tenebrosas realidades do mundo atual.

FONTE: Correio da Cidadania / ESCRITO POR ATILIO BORON

quarta-feira, dezembro 21, 2011

História de um muro branco e de uma neve preta – Um conto de natal de José Saramago


Não haveria nada mais fácil no mundo das histórias que escrever um conto de Natal com Menino Jesus ou sem ele, se não fosse dar-se o caso de que uma criança que nasce está sempre nascendo. O nosso grande erro, esquecidos como em geral andamos das infâncias que vivemos, foi pensar que as crianças nascem uma única vez e que depois de nascidas se limitam a ficar à espera de que o tempo passe e as transforme em adultos, os quais, como deveríamos saber, constituem uma espécie diferente de seres humanos. A criança começa por nascer uma vez, que é a de vir ao mundo, e depois continua a nascer para compreendê-lo: não tem outro remédio nem há outra maneira. Como se verá pelas duas breves histórias que se seguem, ambas autênticas, ambas verdadeiras. 
A terra, àquela hora, cobria-se de uma noite tão escura que parecia impossível que dela pudesse nascer o Sol. Não tem chovido, as tempestades andam por longe, o rio descansa da sua primeira cheia de Inverno, os charcos são de mercúrio. O ar está frio, parado, e estala quando respiramos, como se nele se suspendesse uma ténue rede de cristais de gelo. Há uma casa e luz lá dentro. E gente: a Família. Na lareira ardem grossos troncos de lenha de donde se desprendem, lentas, as brasas. Quando à fogueira se lhes juntam gravetos, ramos secos, um punhado de palha, a labareda cresce, divide-se em trémulas línguas, sobe pela chaminé encarvoada de fuligem, ilumina os rostos da família e logo volta a quebrar-se. Ouve-se o ferver das panelas, o frigir do azeite onde bóiam as formas redondas das filhós, entre o fumo espesso e gorduroso que vai entranhar-se nas traves baixas do telhado e nas roupas húmidas. São talvez nove horas, a modesta mesa está posta, o momento é de paz e de conciliação, e a Família anda pela casa, confusamente ocupada em pequenos trabalhos, como um formigueiro.
Não tarda que saiam todos para o quintal. Vai ser lançado ao ar o foguete de três respostas, esse que, cumprindo a tradição, anunciará aos vizinhos que naquela casa já a última filhó saiu do tacho, a escorrer, e foi cair no alguidar profundo onde aguardará o retoque final da canela e da calda de açúcar. Entre portas, a Criança vê a Família a sorrir fazendo e desfazendo grupos em torno do avô, que sopra um tição trazido da lareira e o aproxima do cartucho de pólvora amarrado ao caniço. Tinha pedido que o deixassem ajudar, mas responderam-lhe como das outras vezes: “Ainda és muito pequeno, para o ano que vem”. A Família tem razão: é preciso ter cuidado com as crianças.
A pólvora inflama-se bruscamente, lança um jacto de fagulhas vivíssimas, silva como uma serpente, e logo é um dragão rugindo que sobe para o ar gelado, corta-o como uma espada de fogo, e lá muito no alto, quase tocando as primeiras estrelas, estala, estraleja, cobrindo os ecos de outro foguete distante. O caniço desce com uma luz mortiça que desmaia, e vai cair longe, nos olivais que rodeiam a casa, sobre as ervas cobertas de geada. Com este tempo não há perigo de que pegue fogo às árvores. De súbito, a Família diz que está frio e volta para casa, levando entre os braços, entre os anéis, entre os tentáculos, a Criança a quem não deixaram ajudar a lançar o foguete. Tinham deixado a porta aberta, o interior da cozinha arrefecera. A Avó acode a espalhar na fogueira uma mão-cheia de aparas, desgalha um ramo seco de oliveira, parte-o com as mãos calejadas, mas é com suavidade que depois chega os troços à chama, como se estivesse a alimentá-la. O lume hesita, escolhe o lado mais acessível da lenha, e depois, indiferente, alheado, a pensar noutra coisa, recomeça o seu eterno ofício de fabricante de cinzas.

A Família gira em redor da mesa, arruma-se nas poucas cadeiras que há, trazidas algumas de outras casas, uns quantos escabelos pouco firmes, um caixote velho posto em pé. Os rostos estão sorridentes e corados, e têm nomes e apelidos, mas, para a Criança, são, antes de tudo, os Pais, os Avós, os Tios, os Primos, um enorme e complicado corpo de animal que lhe lembra a história da Bicha-de-Sete-Cabeças ou o Dragão-Que-Não-Dorme. Sobre a mesa trava-se uma gesticulação ruidosa de facas e garfos, de mãos, de dentes, uma contínua mastigação que deforma os rostos e engordura as bocas. Contam-se casos, anedotas, todos riem. O frio está lá fora, e a geada, e a noite impenetrável. A Criança anima-se, já esqueceu a decepção, para o ano talvez a deixem lançar o foguete sozinha. Também tem uma história para contar, só está à espera duma pausa, dum momento mágico em que todos se calem, acaso emudecidos por um anjo que passou deixando apenas a imagem de um dedo imperioso sobre os lábios cerrados. O momento está a chegar por fim, uma a uma calam-se as bocas da Família, é agora ou nunca, a Criança inspira fundo, rompe o silêncio, começa a falar. A Família olha surpreendida, dá alguma atenção, mas não muita nem por muito tempo, não dura, não pode durar, as vozes regressam do silêncio, e é o Pai que lhe corta a narrativa com uma frase que faz rir toda a gente. Uma frase que vai fazer chorar a Criança. Porque o Menino, a Criança é um menino, levanta-se da mesa, abre a porta, separa-se da Família e desce os três degraus de pedra que conduzem ao mundo. Ali adiante há um muro caiado, baixo, com uma varanda dando para terras ignotas. A Criança vai debruçar-se sobre o muro, deixa cair a cabeça sobre os braços cruzados, e o terrível nó das lágrimas desata-se dentro de si. Da casa vêm risos e vozes, alguém fala muito alto, e depois ressoam gargalhadas. Ninguém está pensando na Criança.

Faz muito frio. Visto daqui, o céu parece estar feito de veludo negro. E há as estrelas. Duras, nítidas, implacáveis, quase ferozes. A Criança levanta os olhos. Lá estão elas a brilhar. Olhadas através das lágrimas, as estrelas são diferentes. Mundo estranho, estranho mundo, este. Sob os passos da criança, o chão duro e gelado range, E, em frente, as árvores negras, misteriosas, onde à noite os grandes medos se vão esconder, tomam o ar confidencial de quem conhece todos os segredos futuros, a hora e o lugar onde acontecerá o terceiro nascimento e o quarto, e o quinto, todos os aqueles que ainda esperam a esta Criança, até mesmo quando de havê-lo sido já não lhe restar memória.

As Crianças estão sempre a nascer. Às vezes nascem de explosivas alegrias, de achados incríveis, de deslumbramentos únicos, mas o mais frequente, uma vez após outra, é nascerem de cada tristeza sofrida em silêncio, de cada desgosto padecido, de cada frustração imerecida. Há que ter muito cuidado com as Crianças, nunca me cansarei de o dizer. Um dia uma Professora teve uma ideia de Professora e mandou os seus alunos que fizessem uma composição plástica sobre o Natal. Claro está que não empregou esta linguagem, o que disse foi: “Façam um desenho sobre o Natal. Usem lápis de cores, ou aguarelas, ou papel de lustro, o que quiserem. E tragam na segunda-feira”. Uns com lápis, outros com aguarelas, outros com papel recortado, alguns pintando com os dedos, todos cumpriram o melhor que puderam. Apareceu tudo quanto é costume nestes casos: o presépio, os reis magos, os pastores, São José, a Virgem e, inevitavelmente, o Menino Jesus. Bem feitos uns, mal feitos outros, toscos ou esmerados, os desenhos caíram na segunda-feira em cima da secretária da Professora. Ali mesmo ela os viu e lhes pôs nota. Ia marcando “bom”, “mau”, “suficiente”, como se com esses juízos os marcasse para a eternidade. De repente. Ah, quantas vezes ainda teremos de dizer que é preciso muito cuidado com as crianças! A Professora segura um desenho nas mãos, um desenho que não é melhor nem pior que os outros. Mas ela tem os olhos fixos, está confusa, perturbada: o desenho mostra a invariável manjedoura, a vaca e o burrinho, e toda a restante figuração. Sobre esta cena já sem mistério cai a neve, e esta neve é preta. Porquê?
“Porquê?”, pergunta a Professora à Menina que fez o desenho. A Menina não responde. Talvez mais nervosa do que quereria mostrar, a Professora insiste. Há na sala os risos cruéis e os murmúrios de troça que sempre aparecem em ocasiões destas. A Menina está de pé, muito séria, um pouco trémula. E responde, por fim: “Pintei a neve preta porque foi nesse Natal que a minha mãe morreu”. Fez-se silêncio e a Professora pensou, assim o veio a contar mais tarde: “À Lua já chegámos, mas quando e como conseguiremos chegar ao espírito duma criança que pintou a neve preta porque a mãe lhe morreu?”.
Muitos anos depois destas histórias terem acontecido, contei-as a uma outra Menina, que me perguntou: “E eles ainda estão tristes?”. Nessa altura disse-lhe que sim, que há tristezas que o tempo não consegue apagar, mas hoje conforta-me a ideia de que talvez o Menino do Muro Branco e a Menina da Neve Negra se tenham encontrado na vida, e que talvez por causa deles o mundo já esteja a mudar sem que nós tenhamos dado por isso.
Este conto (se o é) tem a sua origem em duas crónicas, “Um Natal Há Cem Anos” e “A Neve Preta”, publicadas no jornal A Capital no final dos anos 60 e que hoje podem ser lidas mais comodamente no volume Deste Mundo e do Outro. A junção delas (que de certa maneira é também fusão) aconteceu em 1995 e teve como destino uma revista espanhola entretanto desaparecida. Relidas hoje, novamente refeitas, estas velhas crónicas perguntam se o muro branco ainda lá está e se ainda há quem tenha de continuar a pintar a neve com tinta preta. Por mim, acho que sim. Quem dera que sejam muitos os que tenham razões para pensar que não.
(Coord. Vasco Graça Moura, Gloria in Excelsis, Histórias Portuguesas de Natal, col. Mil Folhas, Público)

quarta-feira, setembro 28, 2011

Miles Davis, intenso até o fim

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Em 28/09/08 a música, o jazz em particular, perdeu, um de seus mais consagrados expoentes. O artista americano Miles Davis, 65 anos, não resistiu às complicações decorrentes de apoplexia, pneumonia e insuficiência respiratória, e morreu em Santa Mônica, Califórnia. Ele foi enterrado no Bronx, Nova Iorque.


Sempre consciente de que não era como os outros, Miles nasceu diferente dos tantos outros que habitariam seu mesmo universo. Não teve a infância difícil, nem o início de carreira miserável, tal como outros gênios do trompete.

Foi criado num seio familiar burguês, com o conforto de frequentar boas escolas e a oportunidade de aprimorar com estudos seu talento ao trompete. Esta base, que muito contribuiu com o seu ingresso na prestigiada e seleta Juilliard School of Music de Nova Iorque, também favoreceu ao seu estigma de rebelde. Se por um lado as portas se abriam por sua performance musical, por outro, as regalias a que se acostumou, possibilitaram um comportamento desregrado, que acabaria por levá-lo ao submundo.

Essa complexidade se notabilizaria a partir do final dos anos 40, quando já consagrado como a grande revelação do jazz, sairia de cena pela primeira vez, por quatro anos, em função do consumo de drogas. Neste ritmo, desfilou toda sorte de suas experiências: os músicos geniais que conheceu, os sons que criou, as fusões musicais que promoveu, as mulheres que amou, as violências em que se envolveu, as perdas que sofreu. Uma vida frenética, até o fim.


Um artista atraído pelas experimentações


Indiossincrático. Miles Davis foi um furacão, de pensamento a mil, inquieto e alucinógeno, passional e contraditório, indecifrável. Um dos maiores trompetistas do século XX redefiniu constantemente sua música. Inventivo, permanentemente atraído pelas experimentações, revolucionou o jazz, inserindo outros estilos ao gênero, como o rock, criando o que passou a ser convencionado como 'fusion'. Criticado pelos jazzistas tradicionais, que condenavam seu poder inventivo, Miles manteve-se firme em suas convicções, para a sorte do grande público que sua produção musical arrebatou.

FONTE: JORNAL DO BRASIL

Bye Bye Blackbird '56