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quarta-feira, junho 18, 2014

Chomsky, Galeano e Žižek associam-se ao manifesto “Apoio Internacional ao Podemos”








Noam Chomsky, Eduardo Galeano, Naomi Klein, Antonio Negri e Slavoj Žižek figuram entre os 36 intelectuais que subscrevem o manifesto “Apoio Internacional ao Podemos”. Os subscritores do documento frisam que “ante a paisagem desoladora que as políticas de austeridade desenharam para o sul da Europa, é acalentador que surjam novas alternativas dispostas a batalhar pela democracia, direitos sociais e soberania popular”.

No manifesto “Apoio Internacional ao Podemos”, datado de 12 de junho, os 36 intelectuais celebram “a irrupção em Espanha da iniciativa política 'Podemos', que obteve em escassos meses de existência um impressionante apoio popular ao conseguir 8% dos votos, convertendo-se na terceira força política em 23 das 40 cidades principais do país”.

“Ante a paisagem desoladora que as políticas de austeridade desenharam para o sul da Europa, é acalentador que surjam novas alternativas dispostas a batalhar pela democracia, direitos sociais e soberania popular”, avançam, sublinhando que “estas alternativas tentam, ao mesmo tempo, fazer política de uma forma nova, para além da chantagem que condena estes países a dependerem das políticas ditadas pelas elites políticas e financeiras da União Europeia”.

Segundo os subscritores do documento, o Podemos “soube recolher a herança do ciclo de mobilizações populares” que, desde 2011, surgiu para “reivindicar uma democracia realmente digna desse nome”. “Fê-lo ao fomentar a participação política da cidadania através de umas eleições primárias abertas e a redação de um programa colaborativo, graças à constituição de círculos de apoio e assembleias populares e, por outro lado, fá-lo renunciando financiar-se mediante empréstimos bancários, publicando no site (podemos.info) a sua contabilidade completa, e adotando um compromisso firme com a revogabilidade dos cargos e a limitação de mandatos, privilégios e salários”, referem.

No manifesto é também enfatizado que “o programa político de Podemos, elaborado de maneira participativa por milhares de cidadãos, foi capaz de materializar o anseio compartilhado por milhões de pessoas de todo mundo num projeto político concreto: uma rutura com a lógica neoliberal do austericídio e a ditadura da dívida; uma partilha equitativa do trabalho e da riqueza; uma democratização de todas as instâncias da vida pública; a defesa dos direitos sociais e os serviços públicos, e o fim da corrupção e da impunidade com as quais o sonho europeu de igualdade, liberdade e fraternidade degenerou no pesadelo de uma sociedade injusta, desigual, oligárquica e cínica”.

Perante o avanço da xenofobia e do fascismo, os intelectuais esperam que “a esperança que germinou com o Podemos se estenda a todos os países.

Perante o avanço da xenofobia e do fascismo, os intelectuais esperam que “a esperança que germinou com o Podemos se estenda a todos os países: a resistência de um povo que se nega a aceitar a sua submissão passiva e reclama para si esse poder que, em essência, é somente seu: a democracia, a capacidade de decidir tudo sobre o que é de todos”.

O documento é subscrito por Gilbert Achcar; Jorge Alemán; Cinzia Arruzza; Étienne Balibar; Brenna Bhandar; Paula Biglieri; Bruno Bosteels; Wendy Brown; Hisham Bustani; Judith Butler; Fathi Chamkhi; Noam Chomsky; Giuseppe Cocco; Mike Davis; Erri De Luca; Pierre Dardot; Costas Douzinas; Eduardo Galeano; Michael Hardt; Srećko Horvat; Robert Hullot-Kentor; Sadri Khiari; Naomi Klein; Christian Laval; Chantal Mouffe; Aristeidis Mpaltas; Yasser Munif; Antonio Negri; Simon Pinet; Jacques Rancière; Leticia Sabsay; Mixalis Spourdalakis; Nicos Theotocas; Alberto Toscano; Raul Zelik; Slavoj Žižek.

FONTE: ESQUERDA NET

sexta-feira, maio 03, 2013

Islândia, Itália, Portugal e o suicídio da esquerda possibilista
















Os resultados da Islândia podem surpreender muita gente. Mas não surpreendem pelo menos quem avisou contra a imprudência da austeridade como mal menor, dos discursos sobre austeridade inteligente ou de outras trapaças. E são uma lição para todos. Uma lição dura.

O partido social-democrata e o dos verdes formavam um governo de coligação. Ambos os partidos foram varridos do mapa por uma punição eleitoral que só tem precedentes na derrota dos partidos das direitas que tinham conduzido ao escândalo bancário – e que agora voltam ao poder. A direita recupera assim graças à conjugação de dois efeitos: os governantes insistiam numa adesão à União Europeia que foi vista pela população como uma ameaça e um risco insuportável e a austeridade desacreditou os que prometeram um governo para as pessoas. Estes dois efeitos dão que pensar. São uma lição dura.
Em primeiro lugar, são uma lição para o europeísmo obediente. A União Europeia assusta e repele, porque é a agência da austeridade e do desemprego. O caso de Chipre provou, como antes os da Grécia,Irlanda, Portugal, Espanha e Itália, que a direção europeia é perigosa e reincidente. Os islandeses tiveram medo desta gente e preferiram a demagogia dos nacionalistas, mesmo que fossem os nacionalistas da trafulhice financeira de que todos ainda se lembram.
Em segundo lugar, são uma lição para os que achavam que, na emergência, o mal menor leva a algum lado. Leva, de facto: leva à recuperação da direita. Os que há um par de anos, em enfática pose de sentido de Estado, aconselhavam as esquerdas a seguir o caminho moderado dos social-democratas e dos verdes, a apoiarem a coligação porque não havia outra,a juntarem as suas preces para que a austeridade desse certo, não se enganaram só a si próprios, enganar-se-ão sempre enquanto defenderem que a austeridade é a melhor solução contra a austeridade.
Ainda me lembro dos artigos pomposos contra o crime de lesa-majestade do Luís Fazenda, que tinha reunido com o ministro das finanças da Islândia e concluído sem dificuldade que o governo ia destroçar-se: pois não é que ele é um sectário, não compreende a dificuldade, não está disposto ao belo sacrifício, escreveram os conversos da austeridade. Mais ainda, aquela prometedora aliança devia ser um exemplo para todos, é assim que se conjugam vontades, escreviam os conversos, hoje remetidos a um prudente silêncio. Aqui temos a dura lição: a política de direita abre sempre o caminho à direita.
Mas, em terceiro lugar, o fracasso deste governo suscita uma questão mais vasta de estratégia. Para a colocar com simplicidade: porque é que a esquerda possibilista é tão estúpida que acha que repetir sempre o que falha sempre vai permitir alguma vez um resultado diferente? Falhou na Itália. Havia um governo de coligação que era o melhor que se conseguia, diziam. Temos que o apoiar mesmo sabendo que pode ser o nosso suicídio, acrescentava um teórico. Foi mesmo. Não sobrou nada da esquerda e Berlusconi ganhou a seguir. Na Islândia era a nova oportunidade e o mesmo argumento: o governo de coligação era o melhor que se conseguia. Resultou: a direita ganhou. A lição dura é esta: nunca se ganha quando se faz tudo para perder. Aceitar a austeridade contra o trabalho é merecer perder sempre.
Por isso, a lição de todas as lições serve para Portugal. O problema de Portugal não é imitar a Itália ou a Islândia e as suas coligações que são sempre apresentadas como o menor dos males e a única alternativa. António José Seguro, que assegura que cumprirá os “compromissos” porque “a austeridade é diferente da política de austeridade”, assume uma posição que é o seguro de vida da direita, pois qualquer governo que prossiga este programa só pode devolver o poder à direita – se é que não é logo uma coligação com a direita.
Por isso, aos que cultivam a beleza do suicídio literário como uma afirmação de política, aos que acham que o irrealismo de apoiar a austeridade é um dever de consciência justificado pela falta de vontade de lutar por alternativas, respondo simplesmente: aprendamos com a Islândia.
O que determina a força e a coerência de um governo não é a cor de quem pode vir a estar nele, é simplesmente o que vai fazer, o compromisso que tem com o seu povo, a sua capacidade de rejeitar o memorando e a austeridade e de impor uma economia para os bens comuns da democracia. O que faz a política é a política. Uma coligação miserável de cedências financeiras e de políticas de desemprego nunca será um governo de esquerda. Será, como na Islândia, uma antecâmara da direita. Mas, para isso, não se atrevam a falar-nos de esquerda e de caminhos realistas quando é preciso esquerda e caminhos realistas.

FONTE: ESQUERDA NET

quarta-feira, fevereiro 13, 2013

“Che foi absorvido pela sociedade de consumo que ele morreu tentando combater”

“Ainda que alguns setores tenham-no visto como criminoso, outros fizeram dele o emblema do mártir na luta contra ditaduras. Dando a vida por suas idéias, consagrou a imagem do herói idealista, romântico, aventureiro e desinteressado, disposto a todos os sacrifícios – virtudes que compõem o mito Guevara”, afirma a publicitária Luciana Ferreira de Matos, ao falar sobre Ernesto Che Guevara, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line.

Luciana Ferreira de Matos conclui que “Che Guevara, de alguma forma, manteve uma posição de força na imaginação popular, sobretudo entre os jovens de diferentes gerações. Tudo o que ele significou e expressou, sua força e utopia, canalizada em movimentos sociais, talvez não tenha sido (totalmente) destruído”. Luciana, que é bacharel em Publicidade e Propaganda pela ESPM, é autora de um artigo, publicado em agosto de 2007, na Revista Think, como uma versão do seu trabalho de conclusão, intitulado “Che Guevara: o consumo do mito – capitalismo, sociedade de consumo e cultura da mídia”, orientado pela professora Adriana Kurtz, dos cursos de Publicidade e Propaganda e Design da ESPM.

IHU On-Line - Como se deu o processo de transformação do ícone revolucionário Che Guevara em uma imagem de consumo?


Luciana Ferreira de Matos - Hoje em dia, Che é mais uma vez tão controvertido e tão reconhecido universalmente como era nos dias em que se transformara num símbolo da revolta estudantil. Depois de cair no esquecimento nos anos 1970 e 1980, ele teve um ressurgimento popular nos anos 1990 como símbolo imorredouro do desafio apaixonado contra um status quo arraigado. Imagens de Che Guevara eram carregadas como ícones por manifestantes estudantis em Paris e Tóquio, e seu rosto barbudo, inquestionavelmente másculo e de boina, fez bater corações mesmo não políticos na contracultura. Fosse na França, contra o conservador Charles De Gaulle ; nos Estados Unidos, contra a participação norte-americana na Guerra do Vietnã; no México, quando aconteceram as primeiras manifestações contra o Partido Institucional Revolucionário; ou na África, continente que viu eclodir a guerra de guerrilha em quase todos os países nos vintes anos seguintes à sua morte, a lembrança e a imagem de Che Guevara esteve presente em bandeiras, faixas, camisetas mas, principalmente, nas mentes e corações dos revolucionários. Houve forte identificação da juventude com a figura de Che. Entre seus admiradores, havia muitos universitários de classe média do continente americano e europeu. Para esses jovens de esquerda, Che personificava o idealismo igualitário. Portanto, a morte de Che Guevara aumentaria ainda mais o mito do guerrilheiro heróico e generoso. A boina e a estrela compõem até hoje a personificação do revolucionário rebelde, um símbolo que resiste ao tempo. Ainda que alguns setores tenham-no visto como criminoso, outros fizeram dele o emblema do mártir na luta contra ditaduras. Dando a vida por suas idéias, consagrou a imagem do herói idealista, romântico, aventureiro e desinteressado, disposto a todos os sacrifícios – virtudes que compõem o mito Guevara. A conhecida fotografia de Che Guevara, de autoria de Alberto Korda , foi captada em março de 1960 em um serviço funerário cubano, sendo publicada sete anos após a morte de Che. A imagem mais famosa é o desenho do seu busto em alto contraste. Esta imagem foi reproduzida em uma grande variedade de mídias, tornando-se cada vez mais usual no contexto da cultura de massa e das imagens publicitárias. Incorporado pela publicidade, seu nome e sua imagem revelam-se hoje, como marca de cerveja, modelo de relógio, capas de discos, estampas de camisetas, entre outros milhares de artigos de consumo.


IHU On-Line - Quais são as análises de peças que você realizou sobre o tema e as conclusões que chegou?


Luciana Ferreira de Matos - A seleção das peças foi organizada de modo a dar conta de quatro categorias que abarcam a cultura da mídia e a publicidade, e que tiveram circulação massiva, utilizando a imagem de Che Guevara. Foram analisadas as seguintes peças: o filme do Casseta & Planeta A taça do mundo é nossa (2003), incorporação do personagem Che Guevara; VT Publicitário Bombril; Peça Gráfica Bombril; uma camiseta que nos anos 1970 circulou unindo a marca americana da Coca-Cola com o nome de Che; outra camiseta com sua imagem estampada da loja on-line norte-americana especializada em produtos com estampas de Che Guevara; logotipo do vinho chileno Chevere, produzido no Vale Central; logotipo do refrigerante Revolution Soda; perfume francês “Che Guevara” da marca Max Gordon; e o cigarro chileno “El Che”. Após a análise das nove peças conclui que Che Guevara, de alguma forma, manteve uma posição de força na imaginação popular, sobretudo entre os jovens de diferentes gerações. Tudo o que ele significou e expressou, sua força e utopia, canalizada em movimentos sociais, talvez não tenha sido (totalmente) destruído. Porém, através das análises feitas, no contexto da cultura capitalista pós-moderna, sua imagem foi despolitizada (para dizer o mínimo). De fato, há que se lembrar que, tanto nos produtos de consumo como na mídia, em campanhas publicitárias e até em filmes comerciais de humor massivo, podemos detectar a utilização da imagem de Che Guevara.  

                                      
IHU On-Line - Como essas apreensões da imagem de Che deturpam seus ideais, sua ideologia guerrilheira?


Luciana Ferreira de Matos - Sua imagem é usada para divulgar ações com objetivos meramente comerciais, o que é o oposto de tudo o que Che, de fato, simboliza. A figura de Che Guevara – e seu significado - sofreu uma implacável ação de despolitização: o ídolo revolucionário, que começou sendo um símbolo de lutas sociais, torna-se uma mera imagem de consumo, retirado do seu contexto histórico.


IHU On-Line - Como explica a relação da figura de Che se tornar um ícone de consumo se ele lutava justamente pelo oposto, em favor de uma contracultura?


Luciana Ferreira de Matos - Enquanto exemplo de um homem que lutou e combateu o sistema, e pontualmente, o imperialismo norte-americano, Che Guevara foi também um símbolo importante da contracultura. Em sua luta contra o imperialismo, Guevara morreu, mas deixou para sempre personificado o seu idealismo igualitário. Sob a cultura de massa, entretanto, seu nome iniciou uma trajetória para o universo dos bens de consumo. Resulta disso que, hoje, quem consome produtos variados com a imagem dele provavelmente não está exercitando nenhuma forma de contracultura: pelo contrário, corre o risco de estar se inserindo no mais tradicional modelo de cultura de massa capitalista. A cultura pop internacional usa e abusa da imagem de Che Guevara, tirando o seu valor crítico, político e social. Che foi absorvido pela sociedade de consumo que ele morreu tentando combater. A ironia é como a representação de um revolucionário de esquerda, do comunismo, tem sido utilizada indiscriminadamente no sistema capitalista, e como foi inserida no imaginário popular de uma sociedade de consumo.


IHU On-Line - Até que ponto a publicidade é responsável por essa apreensão e disseminação de Che como um “mito consumível”?


Luciana Ferreira de Matos - Há uma cultura veiculada pela mídia e pela publicidade, cujas imagens influenciam os comportamentos sociais contemporâneos, forjando, assim, a identidade das pessoas. Através da publicidade e do consumo, o sistema capitalista se apoderou dos movimentos libertários juvenis nascidos nos anos 1960 e de seus diversos símbolos, transformando os sonhos em mercadorias. São exemplos que vão desde os pôsteres de bandas de rock, passando por bonés de beisebol até a lingerie feminina. A Swatch já usou a imagem de Che Guevara num relógio de pulso, assim como a Vodka Smirnoff usou sua imagem na campanha para vender o produto; a modelo Gisele Bündchen desfilou com um biquíni da marca Cia. Marítima com o rosto de Che estampado. Isso para não falar de outros produtos como camisetas, bonés, broches, mochilas, carteiras, casacos, bolsas, que são vendidos no mundo todo. No México, a figura do Che está presente em preservativos, enquanto nos Estados Unidos aparece estampada em caixas de lenços descartáveis, garrafas de vinho na França e maços de cigarro na Espanha. Uma empresa australiana chegou a lançar o sabor de sorvete inspirado no nome do líder guerrilheiro, “Cherry Guevara”. Uma fabricante de cremes para lábios foi além: lançou um creme sabor goiaba com a imagem do revolucionário na marca, cujo anúncio, patético, dizia “Rebele-se contra a secura dos lábios”. O estilista francês Jean Paul Gaultier usou a imagem de Che para vender óculos de sol e Madonna vestiu a boina do guerrilheiro heróico para divulgar seu álbum American Life.


IHU On-Line - Há algum possível sentido revolucionário ou utópico latente nos produtos que utilizam a imagem de Che, ou não há uma junção neste aspecto?


Luciana Ferreira de Matos - Em que pese esta constatação, ainda podemos reafirmar e resgatar o idealismo de Che Guevara, através de pesquisas históricas. Porém, em relação ao consumo dos produtos que utilizam a imagem do revolucionário não podemos falar o mesmo. Sua imagem iniciou uma trajetória melancólica apontando para os bens de consumo na sociedade capitalista. Essa trajetória conduz a imagem de um ídolo revolucionário, que começou sendo um símbolo das lutas políticas e sociais, para uma situação contrária, na qual perde-se a matriz ideológica original (contestatória) e resta apenas uma (entre tantas) imagem de consumo.

FONTE: IHU Online