Valoriza herói, todo sangue derramado afrotupy!
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domingo, outubro 13, 2013

Use sua desilusão







Acreditei que às vésperas de 2014 o Galeão seria um aeroporto moderno, e não um labirinto com canos e fios aparentes como o cenário de um filme de terror


O país do futuro
O Brasil é um país pródigo em desilusões. No entanto, nós, brasileiros, nunca somos vistos — nem por nós mesmos — como um povo desiludido. O que é uma pena. Temos a aprender com a desilusão.
Ilusão
Os Guns N’ Roses lançaram na década de 1990 dois discos de muito sucesso e inspiração chamados “Use your illusion I e II”. O título, “Use sua ilusão”, remete à ideia de que a ilusão — erro de percepção ou de entendimento; engano dos sentidos ou da mente; interpretação errônea — pode ser usada de forma criativa e construtiva, já que a percepção “errada” de um fato pode revelar novos e surpreendentes ângulos desse mesmo fato. Quando nos divertimos e nos emocionamos com filmes como “Toy story” ou com livros como “A metamorfose”, estamos usando nossa ilusão.
A semântica não mente
Paradoxalmente, a desilusão nunca é compreendida como o avesso da ilusão, ou seja, uma maneira correta de entendimento. Desilusão expressa sempre descrença e perda de esperança. E isso não é mera semântica. Resistimos a nos desiludir e, mesmo quando nos desiludimos, demoramos a admitir. Por que temos vergonha de aceitar que estamos desiludidos? Por que encaramos a desilusão como uma derrota?
Use sua desilusão
Em 1968 James Brown lançou uma música que fez muito sucesso no mundo todo. Sua estrofe principal, um grito de guerra que é também o refrão e o nome da canção, diz assim:
“Say it loud
I’m black and I’m proud”
(“Diga com um grito
Sou preto e me orgulho disso”, numa tradução livre e descuidada).
O funk exuberante do Rei do Soul exorta negros oprimidos à insubmissão e à valorização de seu orgulho próprio. Não à toa tornou-se uma espécie de hino informal do movimento Black Power. Inspirado por James Brown e Guns N’ Roses, orgulhoso de minha desilusão, lanço um outro grito de guerra, destinado aos desiludidos anônimos do Brasil: Use sua desilusão!
O caminho da ilusão leva ao palácio da desilusão
Faço uma breve lista de algumas de minhas recentes ilusões. Sou um daqueles ingênuos — se preferir chamar de otário fique à vontade — que acreditaram, entre outras coisas, que a realização da Copa do Mundo no Brasil e das Olimpíadas no Rio trariam investimentos para o país e para a cidade, e que eles seriam revertidos em melhorias nos transportes, aeroportos, hotéis e infraestrutura em geral.

1- Acreditei que às vésperas de 2014 o Galeão seria um aeroporto moderno, e não um labirinto com canos e fios aparentes como o cenário de um filme de terror de baixo orçamento.
2- Acreditei que em 2014 eu iria até São Paulo num trem-bala contemplando pela janela as comunidades pacificadas.
3- Acreditei que o Santos poderia até, quem sabe, empatar com o Barcelona.
4- Acreditei que o Supremo Tribunal Federal tinha mudado os paradigmas e dado uma lição de democracia ao condenar os mensaleiros e que no dia de hoje eles estariam lendo O GLOBO na cadeia e não comendo pizza na casa do… como é mesmo o nome dele?
5- Acreditei que os policiais das UPPs eram diferenciados e que o Amarildo não desapareceria.
6- Acreditei que as manifestações de junho tinham despertado o povo brasileiro e nos ejetado da letargia bovina em que chafurdamos há séculos.
7- Acreditei que os black blocs eram apenas um grupo de manifestantes mais exaltados e que, com a ajuda deles — que são muito mais eficientes em meter medo nos políticos do que os manifestantes pacíficos — caminharíamos juntos “hasta la victoria”.
8- Acreditei que depois da ditadura militar nunca mais eu veria policiais descendo o cacete em professores.
9- Acreditei, acreditei, acreditei.
Bananão
Ivan Lessa, o grande cronista desterrado, chamava o Brasil de Bananão. Embora seja possível denotar algum carinho na definição, o sarcasmo agudo do apelido é inegável. Bananão, além de lembrar que nunca deixamos realmente de ser uma república das bananas em escala continental, alude também à acepção de “banana” como o sujeito covarde e sem iniciativa, o popular bundão. Ivan Lessa foi um dos muitos brasileiros que optaram pelo autoexílio mesmo depois de restaurada a democracia no país. Num de seus textos, revela um dos motivos que o levaram a deixar o Brasil: “Achava que, de uma maneira ou de outra, estava embromando ou sendo embromado por alguém.”
Não é assim que todos nos sentimos por aqui?

FONTE:O GLOBO / TONY BELLOTTO

sábado, julho 06, 2013

Bip Bip, o recanto encantado

No bar do Alfredinho ouve-se ótima música, 
afina-se a cultura e apura-se o debate político


Bip bip, no Rio de Janeiro, é sinônimo de boa música e solidariedade. Barzinho frequentado por gente que entende de cultura e política, bem como por turistas inteligentes, não é tão conhecido quanto merece. Sua fundação remonta ao 13 de dezembro de 68, data funesta para a história brasileira: naquele dia foi decretado pela ditadura o Ato Institucional nº 5. Mas a ironia da sorte não podia ser mais bizarra: no coração de Copacabana, junto ao terror, surgia então uma experiência de paz, cultura e fraternidade.
Chegando ali durante o dia, na Rua Almirante Gonçalves (que, na verdade, é uma pequena praça), é quase impossível reconhecer o minúsculo boteco: abre mais ou menos às 19h30 e, antes não passa de uma porta de ferro anônima, no bairro-kasba que foi tão badalado tempos atrás. Mais tarde, a transformação. Chega primeiro o dono, Alfredo Jacinto Melo (o Alfredinho), e depois segue a procissão de amigos, músicos e fregueses, em crescente participação, até noite alta. Nas paredes, antigas fotos e desenhos, caricaturas, artigos de revistas para atualização dos clientes.
As guias turísticas sem exceção confirmam que a música, prato forte do lugar, é excelente. A atmosfera é ainda melhor. Os músicos, de todos os gêneros – da bossa nova ao choro –, sejam eles amadores ou profissionais, tocam de graça. Não existem garçons, porque o gerente único, chefe carismático ou patrão que seja, é ele, Alfredinho. Sentado à porta, à frente de sua mesinha, levanta-se de vez em quando noite adentro para encher seu copo e controlar fregueses pouco silenciosos. Cada cliente se serve sozinho: abre a geladeira e recolhe o que mais gosta, passa na porta e deixa nome e consumação no livro-caixa remendado de Alfredinho. Na hora de sair, o cliente paga, por iniciativa própria, os preços honestíssimos. O latão para as doações está sempre à vista e frequentemente incrementado. Quer dizer, trata-se de uma experiência bem-sucedida de autogestão.
“Nós do Bip, nunca eu”, gosta de dizer o mestre, “porque nem Pelé fazia gol sozinho.” Mas é fato que o grande mérito desse pequeno milagre é dele. Comprou o ponto em 84 e, de maneira singular, imprimiu sua alma no lugar. Genius loci, diziam os latinos. Carioca de carteirinha, 70 anos, aspecto carrancudo e voz rouca, a sair com certo esforço, poderíamos defini-lo, de todos os pontos de vista, acentuadamente lulista. A realização do Bip Bip, como hoje conhecemos o boteco, foi o resgate de uma vida. “Tive infância e adolescência sacrificadas, muito pobre”, lembra Alfredinho, falando baixo: “... chorava quando passava na frente do Colégio Pedro II, porque não podia estudar. Quando comecei a fazê-lo, de noite,  dormia três horas e, ao levantar, tomava chuveiro com água de poço. O que me animou foi a vontade de ficar menos ignorante a cada dia que passava”.
“Fui burro a adolescência inteira: só pensava em futebol, futebol, futebol! Dali a pouco, comecei a ler nossos escritores. Iniciei com Jorge Amado, e me deu uma aflição muito grande pelo tempo que eu perdi. Estudei até a universidade, enquanto trabalhava, porque queria ser advogado dos pobres. Mas depois fui convencido pelo meu professor de que não teria tido espaço, que o Direito era coisa muito séria e eu, que não tinha condições, desisti.”
A paixão pelo futebol continua (ele é torcedor do Botafogo), mas praticada com certa frieza, por causa “dos escândalos de dirigentes corruptos” e da inaceitável decadência comercial do esporte. Além dos estudos, das leituras e do menor apego ao futebol, foi a recusa à corrupção que, para Alfredinho, abriu as portas de uma vida diferente. Ele trabalhava como “corretor de fundos públicos” e, quando o jogo se fez pesado, “tinha duas opções: ficar e virar milionário ou fugir da corrupção”. optou pelo Bip Bip.
Essa história pessoal reflete a identidade do barzinho, reconhece Alfredinho: é compromisso com os pobres, através da arte, da cultura e da solidariedade. É opção pela qualidade de vida, com relativa indiferença pelo dinheiro. “Vários personagens, até chineses, já me propuseram um bom dinheiro para transformar isso tudo em algo mais comercial, mas eu fico na minha. Não dá para abandonar tudo o que construímos.”
“Além dos amadores, passaram por aqui os maiores músicos brasileiros, mas, por elegância, não quero citá-los, não quero correr o risco de esquecer ninguém”, diz Alfredinho. Além disso, o bar, que foi comprado para ser só ponto de encontro entre amigos, hoje cuida de lançamento de livros, CDs, exposições de arte e projetos sociais.  A partir de julho, o sábado, em que não há música, será dedicado a organizar palestras de intelectuais amigos, “para difundir pensamento. Aqui a garotada discute cultura e política... e, depois da conversa, cineclube”.
O lado social do Bip Bip começou com a parceria de Betinho e hoje compreende  assistência e capacitação para crianças de Vila Isabel, distribuição de 40 cestas básicas mensais e dezenas de projetos contra a pobreza, financiados com doações de amigos/clientes e venda de mercadoria solidária. Comovedor é o almoço de Natal, com 700 refeições para qualquer pobre que passa. Hoje em dia, o barzinho pode ser definido, sem temor de desmentido, o único exercício comercial sem fins lucrativos.
O estranho nome Bip Bip foi dado em 68 pelos fundadores, que admiravam os primeiros foguetes russos daquela época, mas sem querer atribuir conotação política alguma, como algum malicioso poderia suspeitar. Era só o fascínio pela conquista do espaço, a velocidade: daí o onomatopaico Bip Bip, nome que contradiz o estilo e os ritmos da casa de hoje, lentos e serenos.
FONTE: CARTA CAPITAL / Claudio Bernabucci
TAGS: MÚSICA CULTURA BOTAFOGO BARZINHO RIO DE JANEIRO BIP BIP 

quarta-feira, dezembro 05, 2012

Em fase final de tramitação, projeto de lei da meia-entrada agrada, mas pode causar polêmica


Nova lei prevê cota de 40% dos ingressos para estudantes e idosos e regulamenta expedição de carteirinhas, mas pode ser embarreirada por iniciativas locais

Apontada como a grande culpada pelo encarecimento de shows, espetáculos teatrais e ingressos de cinema pelo Brasil afora, a meia-entrada pode ter suas regras definidas pela primeira vez em âmbito nacional nos próximos meses. Na última semana, chegou à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados — a última instância de tramitação da casa — o projeto de lei que nasceu no Senado em 2007 e que pretende regulamentar de uma vez por todas o desconto de 50% dado a idosos e estudantes em eventos culturais e esportivos. Devido ao consenso entre os envolvidos, parlamentares dizem que a lei nacional será sancionada já no primeiro semestre de 2013.

— Foi muito difícil convencer os políticos e as entidades estudantis de que se deve regulamentar a meia-entrada, uma atitude que não é lá muito popular. Na proposta inicial, pedíamos que o desconto fosse restrito a até 30% da capacidade dos espaços, mas, após um acordo com a União Nacional dos Estudantes (UNE), a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes) e outras entidades estudantis, aceitamos a contraproposta de 40% — conta Eduardo Barata, presidente da Associação dos Produtores de Teatro do Rio de Janeiro (APTR), que participou da elaboração do projeto. 


Pela primeira vez, produtores culturais, entidades estudantis e parlamentares se dizem satisfeitos com o texto em análise e mobilizados para que o projeto de lei 4.571, dos então senadores Eduardo Azeredo (PSDB-MG) e Flavio Arns (PSDB-PR), seja aprovado o quanto antes. O motivo é claro: ao fixar uma cota de pelo menos 40% dos ingressos para atender a idosos e estudantes, a futura lei daria aos produtores a possibilidade de saber exatamente o total de meias-entradas à venda. Aos beneficiados, a certeza de que seu direito de desconto seria respeitado. E há quem aposte que, com a regulamentação, haverá queda de preços no setor.

— A criação de uma cota é um passo na direção certa — comemora Leo Ganem, presidente da produtora GEO Eventos, responsável pela edição brasileira do festival Lollapalooza. — A lei estabelece um limite que nos permite calcular os valores dos ingressos em cima de uma base mais sólida. Hoje, qualquer espetáculo de grande porte pode ter de 60% a 95% de ingressos vendidos com meia-entrada, e, como esse espectro é bem amplo, a gente fica perdido na hora de definir o preço. Chuta os valores para cima e acaba punindo quem não tem o benefício.

Em 11 anos, o dobro de carteirinhas

Segundo Ganem, há hoje duas associações de produtores de shows preocupadas com a discussão. A primeira, criada há mais de 15 anos, reúne representantes de empresas como GEO, XYZ, Artplan e T4F. A segunda é composta por empresas que vendem ingressos. Ambas acompanham de perto o andamento da lei.

Além da cota de 40%, o projeto, que tramita em caráter de urgência, traz outras duas novidades. Devolve às entidades estudantis — UNE, Ubes e DCEs, entre outras — a exclusividade na emissão das carteirinhas e estabelece que elas sejam fabricadas pela Casa da Moeda, com uma tecnologia que visa a reduzir falsificações.

Daniel Iliescu, presidente da UNE, reconhece que a cota consiste numa restrição ao que existe hoje em dia na maior parte do país, mas conta que a entidade resolveu aceitá-la para que o direito de desconto volte a ser aplicado de forma real — e não mais com a chamada falsa meia-entrada (quando o mercado dobra o preço dos ingressos para arrecadar o valor real com a venda de meias-entradas).

— Nas reuniões que fizemos com a indústria, eles nos mostraram que até 2001, quando o então presidente Fernando Henrique Cardoso tirou das entidades estudantis a exclusividade na emissão das carteirinhas, o uso da meia-entrada rondava 28% das bilheterias. Depois disso, passou para 78%. Os 40% fixados pelo projeto devem dar conta da necessidade real. Então decidimos reefetivar primeiro o desconto, que hoje não funciona de verdade, para depois, se necessário, lutar por um aumento dessa porcentagem.

Queda de preços à vista?

O objetivo da UNE é conseguir baratear o preço dos ingressos. Alguns produtores culturais, que nos últimos meses penaram para lotar espetáculos por conta dos ingressos caros, já concordam que é necessário rever valores.

— Hoje, estipulo o preço de maneira simples: calculo de quanto vou precisar e multiplico por dois. Com a cota (de 40% para meia-entrada), vou multiplicar por 1,4, ou algo do tipo — antecipa Ganem.

— Para os produtores, é interessante ter preço menor. As pessoas não estão mais pagando por ingressos caros. Vide Lady Gaga e Madonna.

— Ninguém quer dar um tiro no pé — ecoa Barata. — Temos que baixar os preços para renovar as plateias. Tenho certeza de que a regulamentação vai se refletir nos valores dos ingressos.

No setor cinematográfico, o projeto de lei também encontra apoio.

— Ainda que não atenda totalmente às demandas da Federação Nacional das Empresas Exibidoras Cinematográficas (Feneec), o projeto ao menos oferece soluções para questões imediatas, como a regularização na emissão das carteiras — destaca Paulo Celso Lui, presidente da federação. — O projeto é positivo. Tende a colocar ordem no atual panorama.

Devido ao acordo entre os envolvidos, a deputada federal Jandira Feghali (PCdoB-RJ), presidente da Frente Parlamentar de Cultura, acredita que a lei nacional estará pronta já em meados do ano que vem:

— O projeto ainda retornará ao Senado porque foi modificado na Câmara. Mas, como há consenso e as mudanças foram pequenas, passará rápido tanto na CCJ quanto no Senado. A lei deve ser sancionada no primeiro semestre de 2013.

No que diz respeito à fiscalização do benefício, o projeto entra em terreno arenoso. Estabelece que a tarefa “caberá aos órgãos públicos competentes federais, estaduais e municipais” e que eles poderão aplicar sanções administrativas e penais.

— O Estatuto da Juventude já obriga bilheterias a mostrar quantas meias-entradas foram postas à venda e quantas foram vendidas. Queremos levar isso para à nova lei nacional — diz Iliescu, da UNE.

Uma vez aprovada, a lei terá valor em todo o Brasil, até onde já há regulamentações locais sobre o assunto, caso de Rio, São Paulo, Porto Alegre e Fortaleza. Diante da convivência de duas leis, especialistas preveem um acalorado debate. Caberá ao Judiciário decidir qual lei prevalecerá.

Coexistência de leis pode gerar polêmica

Juristas que acompanham o debate sobre o projeto de lei 4.571 alertam para um futuro de polêmica no que diz respeito à meia-entrada. Em estados e municípios que já têm regulamentação, o Judiciário deverá dizer qual lei prevalecerá: a local ou a federal.

No Rio de Janeiro e em São Paulo, por exemplo, todos os estudantes têm direito ao benefício, independentemente do número de ingressos postos à venda. Se o projeto for aprovado como está, a lei nacional restringirá esse direito a 40% das entradas. Logo, seria possível que um estudante quisesse, mas não conseguisse efetivar o direito que lhe é garantido no âmbito estadual.

Segundo a consultora jurídica do Procon-RJ Maria Rachel Coelho, a coexistência de leis deve gerar uma “confusão jurídica nacional”, abrindo precedentes para uma possível disputa de liminares. No Rio, portanto, a lei nacional favoreceria os produtores. E a lei estadual, os idosos e estudantes.

— Na questão da meia-entrada, a competência para legislar é concorrente, ou seja, cabe à União a edição de normas gerais e aos estados e ao Distrito Federal a elaboração de normas suplementares — explica a consultora jurídica. — A lei federal teria valor em todo o território, mas há uma jurisprudência no Supremo Tribunal Federal (STF) que data de 2006 e que entende como legítimo e constitucional o benefício da meia-entrada concedido por leis locais.

Para Guilherme Peres, subprocurador-geral da OAB-RJ, até que o Judiciário decida qual lei é efetiva num local onde duas coexistam, é possível que haja um “momento de incerteza”.

— No conflito entre duas leis relativas a um mesmo assunto, deve prevalecer a divisão de competências legislativas estabelecida pela Constituição em seu artigo 24. No caso da meia-entrada, eu entendo que deveria prevalecer no Rio a lei estadual, por ser mais benéfica aos estudantes. Mas só o Judiciário poderá dirimir sobre isso.

Leo Ganem, da GEO Eventos, teme que essa incerteza possa jogar por terra o projeto costurado nos últimos anos.

— Se ocorrer esse tipo de conflito legislativo, nós (produtores de shows) teremos que atuar em outras esferas para equalizar a lei. Nos preocupam os fatos que podem vir a tornar essa lei inócua.

Caso a futura lei nacional não seja aplicada no Rio, Roberto Medina, do Rock in Rio, já estuda uma solução para coibir a venda excessiva de meias-entradas.

— Em 2011, pedimos que os compradores de meia-entrada nos dessem cópias das carteiras — conta Medina, que apoia o projeto de lei 4.571.

Em 2013, o festival cruzará dados dos compradores com informações fornecidas pelas entidades estudantis.

— Uma equipe vai checar os dados — explica Juliana Ribeiro, gerente de ticketing do festival. — Se houver irregularidade, poderemos cancelar os ingressos, conforme estabelecido nos termos de serviço do nosso sistema de compras.

FONTE: GLOBO.COM

quarta-feira, outubro 31, 2012

É Coisa do SACI PERERÊ!













Saci-pererê: um dos mais populares personagens do folclore brasileiro
    
Quem é o saci

O Saci-Pererê é um dos personagens mais conhecidos do folclore brasileiro. Possuí até um dia em sua homenagem: 31 de outubro. Provavelmente, surgiu entre povos indígenas da região Sul do Brasil, ainda durante o período colonial (possivelmente no final do século XVIII). Nesta época, era representado por um menino indígena de cor morena e com um rabo, que vivia aprontando travessuras na floresta.

Porém, ao migrar para o norte do país, o mito e o personagem sofreram modificações ao receberem influências da cultura africana. O Saci transformou-se num  jovem negro com apenas uma perna, pois, de acordo com o mito, havia perdido a outra numa luta de capoeira. Passou a ser representado usando um gorro vermelho e um cachimbo, típico da cultura africana. Até os dias atuais ele é representado desta forma.

O comportamento é a marca registrada deste personagem folclórico. Muito divertido e brincalhão, o saci passa todo tempo aprontando travessuras na matas e nas casas. Assusta viajantes, esconde objetos domésticos, emite ruídos, assusta cavalos e bois no pasto etc. Apesar das brincadeiras, não pratica atitudes com o objetivo de prejudicar alguém ou fazer o mal.


Diz o mito que ele se desloca dentro de redemoinhos de vento, e para captura-lo é necessário jogar uma peneira sobre ele. Após o feito, deve-se tirar o gorro e prender o saci dentro de uma garrafa. Somente desta forma ele irá obedecer seu “proprietário”.

Mas, de acordo com o mito, o saci não é voltado apenas para brincadeiras. Ele é um importante conhecedor das ervas da floresta, da fabricação de chás e medicamentos feitos com plantas. Ele controla e guarda os segredos e todos estes conhecimentos. Aqueles que penetram nas florestas em busca destas ervas, devem, de acordo com a mitologia, pedir sua autorização. Caso contrário, se transformará em mais uma vítima de suas travessuras.

A crença neste personagem ainda é muito forte na região interior do Brasil. Em volta das fogueiras, os mais velhos contam suas experiências com o saci aos mais novos. Através da cultura oral, o mito vai se perpetuando. Porém, o personagem chegou aos grandes centros urbanos através da literatura, da televisão e das histórias em quadrinhos. 

Quem primeiro retratou o personagem, de forma brilhante na literatura infantil, foi o escritor Monteiro Lobato. Nas histórias do Sítio do Pica-Pau Amarelo, o saci aparece constantemente. Ele vive aprontando com os personagens do sítio. A lenda se espalhou por todo o Brasil quando as histórias de Monteiro Lobato ganharam as telas da televisão, transformando-se em seriado, transmitido no começo da década de 1950. O saci também aparece em várias momentos das histórias em quadrinhos do personagem Chico Bento, de Maurício de Souza.

Dia do Saci
Com o objetivo de diminuir a importância da comemoração do Halloween no Brasil, foi criado em caráter nacional, em 2005, o Dia do Saci ( 31 de outubro). Uma forma de valorizar mais o folclore nacional, diminuíndo a influência do cultura norte-americana em nosso país.


Curiosidade:
- O Saci-Pererê é o mascote do time de futebol Sport Club Internacional de Porto Alegre.

Bibliografia indicada:
- A Lenda do Saci-pererê em Cordel - Coleção Mistura Brasileira
  Autor: Marco Haurélio
  Editora: Paulus
 Temas: Folclore, Cultura Popular, Lendas Brasileiras
- O Saci-pererê - Resultado de um Inquérito
   Autor: Monteiro Lobato
   Editora: Editora Globo
   Temas: Folclore brasileiro, Cultura Popular, Lendas

Filme sobre o Saci-Pererê: 
- O Saci
Direção: Rodolfo Nanni
Ano: 1951
Gênero: infantil, folclore nacional, cultura popular
Resumo do filme: adaptado da obra de Monteiro Lobato, o filme mostra as aventuras de Pedrinho, Narizinho e Emília que tentam capturar o Saci e colocá-lo dentro de uma garrafa.

Documentário:
- “Somos todos Sacys”
   Direção: Rudá K. Andrade e Sylvio do Amaral Rocha
   Ano: 2005
   Resumo: entrevistas com pessoas que dizem ter visto o Saci na região rural do Vale do Ribeira (interior do estado de São Paulo).

FONTE: S/P

terça-feira, maio 22, 2012

Onda do passinho ameniza preconceito contra funk carioca


Três moleques de chinelo e bermuda improvisam uma dancinha num churrasco. O som é um funk, mas a dança é diferente. Remexem os quadris, fazem passos de frevo, ficam na ponta do pé, rodopiam e balançam a bundinha com trejeitos femininos. Um amigo espertinho filma a cena e coloca no YouTube com o título: "Passinho Foda". Postado em 2008, o vídeo vira o marco inicial de um movimento e hoje tem quase 4 milhões de acessos.

Centenas de meninos do Rio entraram na onda e uma nova moda apareceu, a dança do passinho do menor, passinho da favela, ou simplesmente passinho, para os mais chegados.

Novo fenômeno pop, os "passistas" vão ser estrelas da Virada Cultural do Rio, em maio, e de um documentário, vivem aparecendo em programas da Globo, disputam acirradas Batalhas do Passinho com centenas de concorrentes, começam a exportar suas danças para outros Estados e têm uma grande pretensão: reinventar o funk e acabar com a ligação quase automática que se faz entre o ritmo e a apologia ao tráfico de drogas e à banalização do sexo. Eles só pensam em dançar.

É difícil explicar com palavras, mas o passinho é uma colagem bem livre de passos de funk, frevo, break, samba e kuduro com toques de Michael Jackson.

Um grupo de 17 garotos dançarinos recebe a Serafina no Rio, depois de um ensaio. 

Doidos para "mandar" passinhos (ao som de um celular) e contar histórias, eles explicam que tudo na nova onda gira em torno da rede: os meninos gravam as danças, vão até a lan house para publicar no YouTube, trocam comentários e vídeos e combinam onde vão dançar à noite em uma comunidade com mais de 10 mil membros no Orkut. Aos poucos, estão chegando ao Facebook.

"Todo mundo tem câmera. Se não tem, vai filmar na casa do colega. Tem sempre um que não sabe dançar. Aí, ele faz o vídeo e edita", explica Marcos Paulo Torres, 19, o Kinho. 

"Criança da comunidade não tem dinheiro pra fazer escolinha de hip hop nem nada. Tem que fazer tudo sozinho", diz.

"O passinho é a representação de uma época, de um momento da economia, em que esses meninos têm fácil acesso às câmeras, à internet", diz o escritor Julio Ludemir, organizador da Batalha do Passinho e espécie de embaixador dos meninos fora da periferia. "Eles gostam de aparecer na mídia e estão vendo no passinho uma possibilidade de ganhar dinheiro, mas não precisam disso para ficar famosos. Eles viralizam [espalham suas criações pela internet] por conta própria, viram celebridades nos bailes e já dão autógrafos."

Uma das novas celebridades dos bailes, João Pedro Murga, 14, vencedor da última Batalha do Passinho, registrada pela Serafina, diz que começou a dançar vendo vídeos e observando a própria sombra na parede. Loirinho de olhos verdes, teve que vencer também o preconceito. "No começo, eu me sentia diferente de todo mundo. Mas aí eu danço e todo mundo se apaixona", diz. "Já me disseram que sou um branco de alma preta." 


Leandro dos Santos, 19, o Bolinho, é outro que quebrou paradigmas. Vindo de Recife aos 14 anos, reuniu um grupo "só com os melhores dançarinos" e ajudou a "profissionalizar" a dança ao criar um dos "bondes" (grupo de dançarinos) de passinho mais famosos, o Bonde dos Fantásticos. "Ia pra Rocinha ensinar os meninos a dançar e fui fazendo discípulos. Hoje, muita gente me perturba pedindo pra entrar no grupo, pelo Facebook, Orkut, MSN. Eu digo que não. Só entram os melhores."

Para o diretor Emilio Domingos, que prepara um documentário sobre essa coisa "frenética e antropofágica" que é o passinho, Bolinho impressiona não só pelo destaque que conseguiu sendo um migrante, mas pela seriedade. "No Rio, um lugar onde o que importa é ser amigo das pessoas certas, o critério dele é o mérito."

NOVO MACHO DA PERIFERIA

No documentário, "Batalha do Passinho - Os Muleque São Sinistro" (assim mesmo, deixando de lado a concordância e copiando o jeito como os garotos falam), que deve ser lançado até o fim do ano, Emilio vai mostrar essa "cena efervescente, como quando o punk surgiu em Londres", e destacar a "estética metrossexual" dos garotos. "Os muleque" cuidam do cabelo, tiram a sobrancelha, usam roupas de grifes como Nike e Adidas.

Julio reforça a tese e me avisa: "Todos passaram no barbeiro antes de vir encontrar com você". "Eles representam uma nova expressão estética do macho da periferia. Estão criando um novo visual, reinventando a masculinidade", diz Julio. "Eles não só não têm preconceito em se arrumar, como também dançam como se estivessem brincando de serem gays. É um jeito de baixar a guarda e chamar a atenção das mulheres. E funciona."

Criador, junto com o músico Rafael Nike, da primeira Batalha do Passinho no ano passado, Julio agora organiza um campeonato virtual. Os mais votados pela internet participaram de uma disputa real no dia 1º de maio, e os vencedores vão abrir dois palcos no Viradão Cultural carioca, na Quinta da Boa Vista e em Bangu, no dia 4.

Em junho, a batalha ganha uma versão ampliada, com eliminatórias em todas as 19 UPPs (Unidade de Polícia Pacificadora) do Rio. "É um jeito de levar o funk de volta a algumas comunidades, já que a primeira coisa que a polícia faz quando pacifica uma área é acabar com o baile funk", explica.

Enquanto isso, o passinho vai caminhando pelo país. Kinho conta que já viu vídeos de garotos de São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo, Acre e Pará se empenhando no movimento. "Já vi até um menino no meio do mato dançando passinho." E diz que "até os playboyzinho" já entraram na dança.

"O passinho vai chegar na classe média", garante Julio. "Com uma pegada mais lúdica e sem a ênfase nas drogas e na sexualidade, essa é a primeira possibilidade real de desestigmatizar o funk e acabar com a esquizofrenia do carioca, que ao mesmo tempo ama e rejeita o funk."


FONTE: FOLHA.UOL

quarta-feira, março 28, 2012

O humor nos tempos da rebelião


Não tem graça















Recebi, tempos atrás, uma dica para assistir a um antigo episódio da “TV Pirata” chamado “Piada em Debate”. No esquete, uma mulher passava mal durante um voo e era atendida pela comissária de bordo. “Foi comida?”, pergunta a funcionária, ao que a mãe da menina responde: “Foi, mas casa amanhã”.
Corta a cena e aparecem numa mesa-redonda atores como Ney Latorraca, interpretando um economista da FGV, e Regina Casé, uma feminista da Unicamp, para debater o conteúdo da piada. Completavam o grupo de especialistas convidados um torcedor do Botafogo (Guilherme Karan) e um papagaio, representando a associação de personagens de piadas de papagaio. Todos tentavam ver em que pontos a piada era ofensiva, sexista ou estatal. Era um pega pra capar. Engraçadíssimo.
A história não poderia acabar bem: um tecladista (que não assinou o termo) foi chamado de macaco, chamou a polícia, o barraco se armou e a piada entrou em debate.  Quando a história ainda esfriava, chega a notícia da morte de Chico Anysio, o grande comediante que o País já viu nascer. Não demora e uma turma, ao comentar a morte do ídolo, se ressente: bons eram os tempos em que ele fazia suas piadas e ninguém patrulhava, ninguém se ofendia. E lembravam dos Trapalhões, contemporâneos de Chico, para citar outro exemplo de humor inteligente e não-patrulhado, ingênuo até.Pois nas duas últimas semanas, jornais, revistas, sites de entretenimento e pensadores contemporâneos em 140 caracteres fizeram mais ou menos o mesmo que a TV Pirata nos anos 1980. 
Colocaram a piada em debate. Primeiro, por causa do tal humor “proibidão”, evento promovido por uma casa de shows em São Paulo que obrigava o espectador a pagar 60 reais na entrada mais a assinatura de um termo se comprometendo, de antemão, a não se ofender com piadas sobre negros, gays e deficientes. Os tempos são outros: tempos em que se desconfia até mesmo do bom humor da plateia.
Nada que não pudesse piorar. Nos anos 2000, o que ficou de pé foi o esculacho pelo esculacho, com uma ou outra piada udenista travestida de politização. Assim, na terça-feira 27, o mesmo Renato Russo descansava no caixão quando recebeu uma patada póstuma. Era um oferecimento de Danilo Gentilli, espécie de cavaleiro das Cruzadas em defesa da livre ofensa: “Hoje Renato Russo completaria 52 anos. Se usasse camisinha”.Os tempos eram outros e o que era aceito socialmente aceito estava – pouco por má-fé, muito por ignorância. Poucos vinham a público dizer “chega”. Mas havia. 
Numa entrevista antiga, Renato Russo, líder da Legião Urbana, se queixava justamente do teor de piadas que pipocavam naquela época na televisão e que reforçava, segundo ele, o estereótipo da “bichinha louca” – indiscreta, pervertida, tarada. Era um atraso, dizia. Não foi ouvido, e a inteligência que restava em programas como “TV Pirata” se dissolvia ano a ano por meio das velhas brincadeiras batidas sobre “viadagem”, cornice e tamanho do pênis de que sobravam em “Casseta & Planeta” nos anos seguintes.
E a piada, de novo, entrava em debate: quais os limites (do humor e da patrulha)? E tome chiadeira geral, parte dela em defesa do rapaz que diz não se importar em ser chamado de “girafa” – o que o autorizaria a chamar os negros de macaco sem grandes constrangimentos.
Mal descansou e Chico Anysio vinha à tona, citado por saudosos em defesa dos bons e dos maus, seja lá de que lado cada qual estivesse: no tempo dele podia, e era aceito.
Hoje o mundo anda chato, diz a patrulha do anti-politicamente correto. Talvez. Mas uma coisa é certa: se começasse a fazer carreira hoje, Chico Anysio não seria menos genial. Seria lembrado daqui a 80 anos como o homem que mudou o humor justamente por saber onde pisava, e por saber tirar do próprio tempo (de desigualdades e absurdos) suas lições. Sabia que seu País não era feito para os pobres, de quem se dizia um advogado – é o que ele mesmo disse em entrevista  a Rosane Pavam, editora de Cultura de Carta Capital, no final de 2010, quando já estava doente. (sobre o assunto, vale a pena ler o artigo impecável de Rosane sobre o humor “coronelista” de Rafinha Bastos e companhia).
Ainda hoje a plateia bronca, macha e em condições de pagar 60 reais por um ingresso pode não se importar ao ver alguém no palco (ou na tevê) chutando pobres, mulheres, deficientes, homossexuais…porque é bem provável não haja pobres, mulheres, deficientes e homossexuais na plateia. Mas, para azar do comediante, a piada hoje não se restringe a seu público: ela vaza para outros meios e causam indignação. É parte do jogo. Por que o mundo ficou mais chato?  Não: porque o mundo mudou. Duvido que alguma mulher visse graça, nos anos 80 e 90, ao ser retratada como a “loraburra”, ingênua, interesseira, manhosa. 
Hoje, basta ligar a tevê para ver que esse retrato não evoluiu. Mas as mulheres sim: elas deixaram a submissão do lar, ganharam espaço no mercado, na patota dos formadores de opinião e também nos espaços públicos e políticos. Tornaram-se lideranças, e se elegeram para prefeituras, governos de estado e Presidência da República. Por isso não só não veem graça nas brincadeiras sexistas como reagem à altura: “mulherzinha o escambau”. A indignação é a mesma, mas a reação, não: hoje elas são ouvida, gostem-se ou não os comediantes. Os tempos são outros.Com algumas exceções, como a do bravo Marcelo Adnet, a galera levada ao trono do humor atual não parece ter entendido alguns sinais dos novos tempos – e que, justamente por isso, há hoje tanta rejeição a piadas sexistas e racistas. O humor do passado, embora mais elaborado do que o simples escracho, era também imperfeito: não estava imune aos preconceitos ainda comuns de sua época.
Da mesma forma, negros e gays ganharam espaço, reafirmaram orgulhos, foram à luta. Saem de cena os subalternos retirados da escravidão ou das condenações morais (e medievais), que chamavam o coronel de doutor, e entram os líderes de uma batalha constante, árdua, sofrida e ainda incompleta. Pedem respeito, conquistado na marra, e avançam: chegam às ruas, repartições e universidades sem vergonha do vácuo entre o que são e o que querem que sejam. Só não chegaram às plateias de humor rançoso e moderninho. Ninguém gosta de pagar para ser esculhambado.

Poder pode. Mas experimenta fazer piada de português à brasileira em Portugal. (E ficamos por aqui, para não ter de explicar que as figuras do português colonizador e do escravo colonizado não têm o mesmo peso numa História de ferida aberta).“Ah, então fazer piada com português pode e com negro, não?”, gritam comediantes e plateias ofendidos com as ofensas.

De toda forma, parece muito fácil fazer piada chutando quem imaginamos estar longe da roda – e não pode reagir. O que leva a pensar que o humor “proibidão” não é nada mais do que covarde. E o humor covarde só existe porque existe covardia na plateia – ela toda saudosa dos tempos em que podia dizer o que quisesse sobre negros e gays: eles estavam longe, amarrados ou calados. E maltratar, a sério ou nas piadas, todas as minorias que mal ensaiavam gritos de rebeliões. Hoje essas vozes reagem e colocam não só a piada em debate, mas a própria condição. Difícil fazer graça num país de melindrados, não? Pois se acostumem. Essas vozes vão ser ouvidas cada vez mais fortes.

FONTE: CARTA CAPITAL / Matheus Pichonelli

sábado, março 24, 2012

As dissonâncias da língua

Oposição ao acordo ortográfico volta à tona em Portugal e cria temores de que a adoção das novas regras não seja unificada 

O escritor português Vasco Graça Moura avisa, em entrevista por e-mail, que a publicação de suas respostas está condicionada ao “respeito da ortografia portuguesa sem as modificações do Acordo Ortográfico”. Moura tornou essa condição questão de honra desde que, no mês passado, proibiu o seguimento das novas regras de ortografia no Centro Cultural de Belém, importante instituição de Portugal da qual é presidente. Poderia ser um mero capricho do ferrenho opositor do acordo, porém o caso ganhou relevância política quando o Secretário de Estado da Cultura de Portugal, Francisco José Viegas, saiu em defesa do escritor, afirmando que as regras deveriam ser aperfeiçoadas e que “Vasco Graça Moura escreverá como quiser”. O acordo está oficialmente vigente no país desde o início de 2012, e o período de transição vai até o fim de 2014. 

A política, nesse caso, tem relevância internacional porque envolve outros cinco países que já ratificaram o acordo assinado em 1990, incluindo o Brasil. As novas regras estão vigentes por aqui desde 2009, e o prazo de transição da antiga para a nova ortografia termina no fim deste ano. Por essa razão, as declarações de Viegas — que ocupa o cargo equivalente ao nosso ministro da Cultura — levantaram temores de que, depois de mais de duas décadas de idas e vindas, o acordo acabasse por ser implementado apenas no Brasil. O temor é reforçado diante da resistência de diversos setores da sociedade portuguesa, que vem levantando acalorados debates nos últimos anos. 

No Brasil, o Ministério da Educação (MEC) informou que está ciente das resistências à entrada em vigor do acordo em Portugal, mas aposta que é possível contorná-las por meio do diálogo. O MEC entende que um eventual recuo português em relação ao acordo seria um fato inédito e um incidente diplomático de razoável proporção, uma vez que Portugal aderiu ao acordo negociado no âmbito da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), formada por oito Estados. 

Em entrevista ao GLOBO por e-mail, Viegas sugeriu que suas declarações foram mal interpretadas. Ele afirmou ter se referido à liberdade de Vasco Graça Moura como escritor, como a de qualquer cidadão. E disse que não sugeriu alterações no Acordo Ortográfico, e sim no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp) — um compêndio das palavras da língua segundo o novo acordo. Segundo Viegas, a versão de um Volp comum aos oito países signatários do acordo será apresentada numa reunião interministerial da CPLP, ainda este ano. Nessa reunião, os especialistas de cada país definiriam os passos seguintes na elaboração desse Vocabulário unificado, até 2014. 

— Não devemos confundir o Acordo com o Volp. O Acordo está assinado e em curso, e não há nem poderia haver do nosso lado qualquer revisão ou retrocesso. Portugal já investiu bastante na sua adopção pelas escolas — afirma Viegas, mantendo a antiga ortografia portuguesa. — Quanto ao Volp, as modificações serão definidas de forma multilateral entre os especialistas e acadêmicos dos vários países, nos casos que venham a entendê-lo. No caso português, cabe principalmente ao Iltec, o nosso instituto de linguística.

Presidente da Comissão de Língua Portuguesa no Ministério da Educação do Brasil desde 2006, Godofredo Oliveira Neto é cético quanto à elaboração de um Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp) comum aos oito países até 2014. Ele afirma, no entanto, que não há qualquer risco de que as regras sejam modificadas no Brasil, pois a Academia Brasileira de Letras (ABL) já publicou, em 2009, um Volp seguindo o acordo. 

— A implantação do acordo no Brasil é página virada. As regras foram discutidas pela ABL em nível internacional, aprovadas pelo Congresso durante o governo Fernando Henrique e regulamentadas dez anos depois, como exigiu a lei, já no governo Lula — diz o escritor e professor, que de 2007 a 2011 foi presidente do Instituto Internacional de Língua Portuguesa, órgão da Comunidade de Países da Língua Portuguesa (CPLP). — O acordo está oficialmente aprovado em Portugal e no Brasil. Recebi uma cópia de documento do Ministério da Educação de Portugal a seus professores informando sobre as novas regras. 

O escritor Vasco Graça Moura cita o artigo 2 do texto de 1990 para argumentar que, como esse vocabulário comum não existe, a adoção do acordo seria ilegal (leia a entrevista ao lado). Responsável pelo Volp editado pela ABL, o filólogo Evanildo Bechara sustenta que não há qualquer conflito legal. O artigo 2, ressalta ele, refere-se a “terminologias científicas e técnicas”. Isso significa que não é necessário um compêndio das palavras cotidianas comum aos países, e sim que os termos técnicos sejam unificados — uma determinação que caberá a instituições científicas específicas. 

Graça Moura também sustenta que o acordo é ilegal porque não foi ratificado por Angola e Moçambique. Entretanto, um protocolo modificativo determinou que o acordo poderia entrar em vigor com a ratificação de no mínimo três países. Em 2007, essa condição estava cumprida, por Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Por isso, em 2008, o governo brasileiro definiu um calendário para sua efetiva aplicação. No mesmo ano, o Conselho de Ministros e o Parlamento de Portugal aprovaram a aplicação das novas regras, mas definiram um prazo de transição de seis anos, e não de quatro como no Brasil.

Editores não preveem mudanças no mercado 

De lá para cá, a oposição mais forte ocorreu em Portugal, onde o acordo ainda não é adotado por alguns jornais, como o “Público”, mas já é seguido pelo “Expresso” e pelo “Diário de Notícias”. Como ressalta Bechara, as novas regras são muito mais numerosas para a grafia brasileira do português. Apesar disso, calcula-se que 1,6% do vocabulário será afetado em Portugal, contra cerca de 0,5% no Brasil. O argumento que os portugueses mais usam para criticar o acordo diz respeito à extinção das consoantes que não são pronunciadas, mas indicam a pronúncia da vogal que antecedem, em palavras como “adopção”. 

— A língua portuguesa tem numerosas palavras com diferença de timbre, mas nem por isso os portugueses têm um artifício gráfico para mostrar essa diferença. É um argumento furado — diz Bechara. — O brasileiro tem muito mais mudanças a enfrentar. Pessoas como o Vasco Graça Moura escrevem artigos de 600 palavras, e não se veem alterações. Na realidade, há má vontade de abrir mão do procedimento ortográfico absurdo de escrever uma consoante que não se pronuncia. Uma criança que está se alfabetizando e ouve a palavra Egito jamais pensará em escrever Egipto. 

Nos bastidores, o MEC avalia que o pano de fundo da oposição portuguesa ao acordo seria político e econômico, uma vez que Portugal temeria que a indústria editorial brasileira passe a ser hegemônica nos países lusófonos, graças à padronização do idioma. Editores brasileiros e portugueses, no entanto, não veem grandes reviravoltas no mercado em função do acordo ortográfico, já que a sintaxe e o vocabulário se mantêm distintos. 

— No início se imaginou que haveria uma contrapartida entre os editores de cada país, mas a língua não vai ficar uniforme, porque a questão vai além da ortografia. Além disso, os contratos das editoras são territoriais, por isso é um erro pensar que as edições serão únicas — diz Sônia Jardim, presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros no Brasil. 

Editora da Tinta-da-china, a portuguesa Bárbara Bulhosa começa este mês a lançar seus livros no mercado brasileiro, seguindo por aqui as novas regras, pois elas já são obrigatórias para nossas editoras. Bárbara diz que o acordo não teve qualquer peso em sua decisão de publicar no Brasil. 

— Tenho muitas dúvidas em relação ao acordo, não acho tão necessário. Mas esse comportamento de oposição dos portugueses parece disparatado e um pouco xenófobo. O componente ex-colonizador me incomoda. O que o Graça Moura fez não se pode fazer. A postura de Viegas também é dúbia. As escolas estão a aprender com o acordo, e o governante diz que cada um escreve como quer. O governo tem que dar diretrizes, e se fizeram o acordo temos que respeitá-lo — diz Bárbara, que em Portugal cumpre a vontade de seus autores quando se trata de seguir ou não o acordo. 

Bárbara se espanta com o fato de a ortografia ter tomado tamanha relevância nacional, quando a aproximação cultural entre os dois países precisaria de outros incentivos. O escritor angolano José Eduardo Agualusa concorda. Apesar de favorável ao acordo, ele vê a questão como irrelevante diante de entraves maiores, como a taxa de importação de livros entre os países de língua portuguesa. Agualusa participou de diversos debates sobre o acordo em Portugal com Vasco Graça Moura, nos quais presenciou espectadores revoltados, gritando frases como “a língua é nossa”. 

— Muitos portugueses ainda têm uma visão imperial da língua, e o acordo deu voz aos reacionários. São nacionalistas que desconhecem a língua, não sabem que o português nasceu na Galícia e desde o início teve contribuição africana, pelos árabes — diz Agualusa. 

O angolano defende o acordo sobretudo por razões pedagógicas, já que países como Angola, onde há pouca produção editorial, poderiam importar livros didáticos de Brasil e Portugal mais facilmente. Sônia Jardim diz que, por enquanto, ainda não houve mudanças no comércio de livros entre os países. Nem é surpresa, já que o acordo anda a passos lentos em Portugal, cuja ortografia tem maior influência sobre os países de língua portuguesa, e Angola e Moçambique — em que o português é uma entre mais de 20 línguas — nem ratificaram o acordo. 

Apesar de opositor ao acordo, o escritor moçambicano Mia Couto também vê, como Agualusa e Bárbara, questões mais relevantes a serem discutidas pelos países da CPLP: 

— Em Moçambique, sabemos que a língua portuguesa representa um pilar de construção nacional e estamos apostados em generalizar e popularizar o português. O acordo surge no contexto de um país muito pobre que ainda briga para ter manuais escolares e escolas suficientes para a maioria da população rural. Para quem tem que construir esse imenso edifício, a notícia de uma nova norma ortográfica não pode ser vista como uma boa nova. A primeira pergunta é: quem paga? As razões do nosso distanciamento são outras e têm a ver com questões de ordem política e de estratégia. Essas são as questões que devíamos discutir. 

FONTE:PROSA ONLINE / O GLOBO.COM