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sexta-feira, junho 13, 2014

"Com o 'Gigante' fora da jogada, time do sistema marcou mais um gol"








As manifestações contrárias à realização da Copa do Mundo no Brasil não estão somente nas ruas. Alguns artistas já expressaram por meio de suas músicas a insatisfação com o megaevento. O cantor BNegão, por exemplo, lançou uma canção de protesto junto com o grupo britânico Pop Will Eat Itself, fazendo uma crítica direta à Fifa, entidade organizadora da Copa. Agora é a vez do funkeiro Lucas Rocha, o MC Garden, da zona sul de São Paulo. Nesta quinta-feira (12), dia da abertura do Mundial, ele lançou a música ‘Gol do Adversário’, que já ultrapassa 20 mil visualizações no Youtube.

Ao Brasil de Fato, Garden faz uma crítica à ‘memória curta do povo brasileiro’ e diz que a música já estava pronta, mas preferiu aguardar o início da Copa para fazer o lançamento.

“A intenção é cutucar o povo. Mostrar que a culpa não é só das autoridades. O povo, além de ter a memória curta, se sente orgulhoso de ser rotulado como o país do futebol”, explica.

Com várias críticas ao país, a música de Garden também relembra as mortes de operários em obras, o aumento da prostituição e que a povo - o tal Gigante - que acordou durante as manifestações de junho passado, saiu da jogada em 2014.

"Operário morre por nada/Construindo arquibancada/Que nem o seu próprio filho vai poder sentar /A sua grana foi usada/Nas obras dessa parada/Mais se quiser assistir tu vai ter que pagar/E o que volta lá pra sua casa/Depois de ter feito o que quis o Brasil/Mais uma infância foi assassinada/Com ele a prostituição infantil/A euforia defende o povo/Que ta sem memória e acha legal (...) Com o gigante fora da jogada/O time do sistema marcou mais um gol", diz trecho da letra.

Imagens do clipe destacam ainda a violência policial contra manifestantes nos protestos de rua. Também como forma de protesto, Garden aparece no vídeo clipe com a camisa da seleção brasileira, mas com o escudo da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) borrado.

Ao abordar na música os gastos excessivos com a realização da Copa, Garden explica que o legado positivo que o megaevento deixará será somente para as grandes empresas.

“Na minha opinião, nada de positivo. Não para nós, trabalhadores, mas para as grandes empresas com certeza vai deixar muita coisa boa, mas pra gente, nada.”

Com letras politizadas que destacam os mais variados problemas do país, Garden classifica seu funk como de protesto, e revela que muita gente passou a aceitar o estilo musical que se tornou alvo de críticas por setores da sociedade.


“Em cada comentário que a gente vê, o pessoal fala que minha música abriu a mente. Sinto pela recepção do público a aceitação. Muita gente falava que odiava o funk, mas que gosta das minhas letras porque falam a verdade e que a música tem conteúdo”, esclarece.

FONTE: BRASIL DE FATO - José Francisco Neto


Gol do Adversário

Mc Garden



Foi mais um gol do adversário

Novamente somos tirados de otário
Foi mais um gol do adversário
Novamente somos tirados de otário

A nossa copa é a mais cara da historia

Isso todo mundo já ta ligado
Quando dinheiro foi mal investido
E quanto dinheiro que foi desviado
Quantos hospitais poderiam ser feitos
Ou arrumar pra funcionar direito
Diminuiria as mortes no leito
Com a grana da copa daria um jeito
Ou melhorar nosso transporte público
E investir mais na educação
Pois quando faltava em nossas escolas
Cadeia terar superlotação
Mais olha bem nossa situação
A população sempre toma uma queda
Pois com copa ou sem a copa
O brasil é a mesma merda
E o problema é que a gente não muda
E além da copa a culpa é nossa
Que só cobra na ultima hora
Quando percebe que o país ta na foça
E depois que acabar a copa
Qual será a sua atitude
Vai votar em qualquer um novamente
E torcer pra que de repente o país mude?

Foi mais um gol do adversário

Novamente somos tirados de otário
Foi mais um gol do adversário
Novamente somos tirados de otário

Operário morre por nada

Construindo arquibancada
Que nem o seu próprio filho vai poder sentar
A sua grana foi usada
Nas obras dessa parada
Mais se quiser assistir tu vai ter que pagar
E o que volta lá pra sua casa
Depois de ter feito o que quis o brasil
Mais uma infância foi assassinada
Com ele a prostituição infantil
A euforia defende o povo
Que ta sem memoria e acha legal
Que visto como o pais do carnaval do fut e do turismo sexual
Do lado do campo esta o sistema
Jogando contra o time do povo

Que tem um atacante chamado gigante
Que já se cansou e foi pro banco de novo
O adversário não cochilou
Comprou o juiz e assim avançou
Com o gigante fora da jogada
O time do sistema marcou mais um gol

Foi mais um gol do adversário

Novamente somos tirados de otário
Foi mais um gol do adversário
Novamente somos tirados de otário


ASSISTA O VÍDEO

quarta-feira, junho 11, 2014

Às vésperas da Copa: Fifa rompe trégua e ataca o Brasil





O alvo, claro, é governo e Estado brasileiros. Antes, aliados de sangue. Agora, um inevitável parceiro indesejado.

Às vésperas da Copa, e tentando se descolar das questões mais espinhosas que cercam a infra-estrutura e a organização do evento, a Fifa foi ao ataque durante esta semana. Com a inevitável nova onda de protestos e uma avalanche de críticas de todos os lados, a entidade tenta, no conjunto da obra, salvar a própria pele.

A estratégia, captada em todas as declarações da semana, é reforçar, e separar, o que seria de  responsabilidade da Fifa e do governo. Mas vai além: começa a lavar roupa suja e a dar nome aos bois. O alvo, claro, é governo e Estado brasileiros. Antes, aliados de sangue. Agora, um inevitável parceiro indesejado.

Vamos aos fatos, ou melhor, às aspas de Jérôme Valcke, secretário-geral da Fifa, todas fornecidas bem longe das fronteiras do Brasil. ...

Em evento na segunda, dia 7, em Lausanne, Suíca, ao lado de Gilbert Felli, o interventor do COI para os Jogos do Rio de 2016:

Vivemos um inferno
“Quanto à crítica sobre as despesas, é verdade que nós (Fifa) temos uma responsabilidade moral. Dou um exemplo: num dado momento havia um certo número de pessoas, no Brasil, entre eles, políticos, que se opunham à Copa do Mundo. Vivemos um inferno, sobretudo porque no Brasil há três níveis políticos, houve mudanças, uma eleição (de Dilma Rousseff), mudanças, e não discutíamos mais necessariamente com as mesmas pessoas. Foi complicado, porque a cada vez tínhamos de repetir a mensagem.”

 Não simplesmente um governo
“Talvez (no futuro) tenha de ser a mais alta autoridade representante do povo que seja associada a uma decisão de uma candidatura e não simplesmente um governo, um chefe de Estado e seus ministros que passam com o tempo. Que seja uma representação global do País”

Como você pode duvidar do Brasil?
“Lembro que me diziam: como você pode duvidar do Brasil? Nós organizamos o Carnaval do Rio todos os anos com 3 milhões de pessoas. Mas no carnaval são pessoas do Rio e que tem seus apartamentos lá. Estão na praia e ficam por lá. As pessoas achavam que era fácil organizar uma Copa. Mas é um trabalho de verdade. É uma responsabilidade real”

Em entrevista ao jornal suíco Le Matin, na terça-feira, dia 8:

Os brasileiros se manifestam contra a corrupção, não contra Fifa
“Eles (brasileiros) se manifestam contra a corrupção, contra a decisão de aumentar o preço do ônibus, pela saúde e pela educação”, rejeitando a tese de que a manifestação ocorra contra a Fifa. Valcke afirmou ainda que é errado fazer a ligação entre os gastos públicos com a Copa e o que poderia ser gasto em outros setores

Em entrevista às agências internacionais esta semana em Zurique, na Suíça:

Brasil não é Alemanha
“Não apareçam no Brasil pensando que é a Alemanha, que é fácil se mover pelo país. Na Alemanha, você poderia dormir no carro. No Brasil não. O maior desafio será para eles (torcedores). Não será para a imprensa, não será para os times e nem dirigentes. Será para os torcedores”

Tiveram 5 anos para entregar
“Sabíamos disso (dos limites do Brasil em relação à infra-estrutura de aeroportos). Mas isso era em 2009 e podemos esperar que você tem cinco anos para um país garantir que as estruturas estejam instaladas para entregar o que havia sido acordado”.

A Fifa só pediu 8 sedes
“É verdade que você multiplica os riscos ao ter mais estádios. Mas tivemos uma situação em que tínhamos um governo e um presidente, que naquele momento era Lula, que te explicam que a Copa deve ser para todo o Brasil, e não apenas para poucas cidades” (Segundo ele, foi o governo brasileiro, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Ricardo Teixeira que fizeram questão de insistir com a Fifa de que a Copa teria de ocorrer em 12 cidades e que as seleções não poderiam ficar em apenas uma região do País. A Fifa pede apenas oito sedes)

 Não foi fácil sair de Lula para Dilma
“Encaramos uma eleição geral no Brasil e não foi fácil sair de Luiz Inácio Lula da Silva para uma nova presidente. Sempre leva algum tempo para um novo governo entrar nos assuntos e tivemos também um número elevado de mudanças de ministros”.

Falta de apoio nacional
“Não pode ser apenas a decisão do presidente ou de um ministro. Mas deve ser apoiado pelo senado, congresso ou assembleia nacional (a decisão de escolha de um país para ser sede de um Mundial) . Isso evitaria “potenciais conflitos”.

FONTE: TERRA

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A pena perpétua de Barbosa











Vítima em 1950 de uma das maiores injustiças do futebol, o goleiro passou seus últimos anos no litoral de São Paulo tentando exorcizar o maracanazo


Final da Copa do Mundo. Trinta e quatro minutos do segundo tempo. O empate dá o primeiro título ao Brasil. O ponta Gigghia entra pela direita e, quase sem ângulo, não cruza, chuta para o gol. A bola entra rasteira no canto esquerdo, apesar do esforço do goleiro brasileiro Barbosa. Uruguai 2 a 1, de virada. Silêncio e choro no recém-inaugurado Maracanã com quase 200 mil torcedores. Luto em todo o país. E o início de uma das maiores injustiças do futebol, que marca o destino de Barbosa, apontado como o maior culpado pela derrota.

“No Brasil, a pena máxima (de prisão) é de 30 anos, mas pago há 40 por um crime que não cometi”, costumava dizer décadas depois do incidente o ídolo do Vasco da Gama, do Rio de Janeiro, e que, até a fatídica data de 16 de julho de 1950, havia sofrido quatro gols em cinco jogos no Mundial. A seleção brasileira chegava à final com grande entusiasmo popular e um favoritismo quase inabalável, após ter marcado 21 gols e acumulado goleadas como a de 6 a 1 ante a Espanha e a de 7 a 1 contra a Suécia.

Não foram poucas as vezes em que o ex-goleiro teve de enfrentar cobranças na rua após o episódio que entrou para a história como “Maracanazo”. Sobre uma delas, contou que uma mãe o apontou para o filho em um comércio e o identificou como “o homem que fez o Brasil chorar”. Em outra, disse ter sido interpelado de forma ríspida em um bar. “Aqui no Brasil ser vice-campeão do mundo não tem valor, não vale nada”, dizia, em meio a hábitos de vida simples e muito distante das fortunas proporcionadas atualmente pelo futebol.

Barbosa, inclusive, chegou até a passar pelo constrangimento de ser impedido de visitar os jogadores na concentração da seleção brasileira, em 1993. A situação gera alguma controvérsia até hoje, com pessoas próximas ao ex-goleiro desmentindo o ocorrido e atribuindo a polêmica ao sensacionalismo da imprensa da época. O Brasil decidiria sua sorte dias depois nas eliminatórias para a Copa dos Estados Unidos contra o mesmo Uruguai, no mesmo Maracanã. Acabaria carimbando o passaporte ao vencer por 2 a 0, com gols de Romário. O ex-goleiro acabou sendo recebido por Zagallo, então coordenador técnico da equipe.

Nelson Rodrigues (1912-1980), um dos maiores dramaturgos brasileiros, escreveu em 1959: “Quando se fala em 50, ninguém pensa num colapso geral. (...) O sujeito pensa em Barbosa, o sujeito descarrega em Barbosa a responsabilidade maciça, compacta, da derrota. (...) O brasileiro já se esqueceu da febre amarela, da vacina obrigatória, da (gripe) Espanhola, do assassinato de (senador) Pinheiro Machado. Mas o que ele não esquece, nem a tiro, é o chamado frango de Barbosa”.

O drama de Barbosa fez até com que alguns duvidassem no Brasil da capacidade de goleiros negros. Irmão de Nelson Rodrigues, o jornalista Mario Filho (1908-1966), que dá ainda nome ao Maracanã e é autor da obra referencial O Negro no Futebol Brasileiro, disse que, quando o brasileiro acusou, além de Barbosa, os também negros ou mulatos Juvenal e Bigode (pela derrota em 1950), acusou a si mesmo.

Superstição ou não, o fato é que só o goleiro Dida, ex-Milan, foi o titular absoluto da amarelinha em uma Copa do Mundo, em 2006. O Brasil acabou eliminado pela França nas quartas de final. Agora, Jefferson, do Botafogo, do Rio de Janeiro, tem chance de mudar essa história, ao figurar entre os convocados para o Mundial de 2014. Ele vai, no entanto, ocupar a reserva de Júlio César, como na Copa das Confederações do ano passado.

Barbosa nasceu Moacir Barbosa Nascimento, em Campinas, no interior de São Paulo, em 1921. Pela seleção brasileira, conquistou o Sul-Americano de 1949. Defendendo o Vasco da Gama, do Rio de Janeiro, ganhou seis títulos estaduais e um continental precursor da Copa Libertadores da América, em 1948. Esse time é lembrado até hoje como “Expresso da Vitória”. Após deixar os gramados, em 1962, foi funcionário do Maracanã e, anos depois, deixou o Rio para viver em Praia Grande, no litoral de São Paulo.

Hoje, o legado de Barbosa, que não teve filhos, está com Tereza Borba, uma cuidadora de idosos de 53 anos que vive em Praia Grande. Ela conheceu o ex-goleiro quando era uma vendedora em uma barraca de praia na cidade, em 1992. “O Barbosa veio embora porque no Rio cobravam muito dele. Uma irmã dele chamou então ele para vir para cá. E aí ele se apaixonou pela cidade”, diz.

Leilão
Tereza Borba afirma que pretende levar a leilão uma relíquia do Mundial de 1950, um pedaço de uma das traves do Maracanã recebida de um historiador do Estado de Minas Gerais (região Sudeste). A outra, conta, Barbosa recebeu como presente na época em que era funcionário no estádio carioca, por ocasião da troca das traves de madeira por outras mais modernas. “Ele colocou fogo na madeira em Ramos (bairro do subúrbio do Rio de Janeiro onde morava) e fez churrasco com a brasa.”

Com o dinheiro arrecadado com o leilão, ela espera reformar o túmulo do ex-goleiro e ajudar na construção de uma estátua de corpo inteiro, para colocá-la em uma praça que teria o nome dele ou mesmo na entrada do cemitério em que está enterrado próximo à sua esposa, Clotilde, em Praia Grande, “contando a história dele de glórias e honras”.

 “O pior momento foi a perda da mulher dele, Clotilde. Foi pior que 1950. Ele não tinha sentimento de culpa por 1950. O Barbosa viveu momentos de intensa felicidade nos últimos anos. Ele foi um dos melhores seres humanos que conheci na vida”, conta a cuidadora de idosos, que é casada com um vascaíno fanático que acabou sendo o elo para a aproximação inicial entre Tereza Borba e o ex-goleiro.

Em um desses momentos de intensa felicidade, em 2000, Tereza Borba diz ter fechado seu quiosque para comemorar o aniversário de Barbosa. Um bolo do Vasco da Gama foi confeccionado, e ela afirma ter entregado ao ex-goleiro um troféu, para “meu herói de vida”. Ele disse, então, entre os amigos presentes, que se falecesse naquele dia, faleceria feliz.

Barbosa morreria aos 79 anos uma semana depois. Ficavam para trás as injustiças do passado. E, para o futuro, belas memórias.

FONTE: BRASIL / EL PAÍS - FREDERICO ROSAS

Fifa diz que não pediu R$ 1,1 bi em isenções para Copa, governo se esquiva













A entidade diz que dos cerca de US$ 2 bilhões que gasta na organização da Copa, metade é gasto no Brasil, adquirindo serviços e produtos nacionais, e que estudos do governo brasileiro indicam que a Copa irá movimentar cerca de US$ 27 bilhões na economia.

Isenção total na Copa
De acordo com a Lei Geral da Copa, aprovada pelo Congresso Nacional e sancionada pela presidente Dilma Rousseff em 2012, a Fifa, suas empresas parceiras e todas as patrocinadoras da Copa, nacionais e estrangeiras, possuem isenção fiscal total em todas as atividades relacionadas ao Mundial. Uma lei de 2010 já garantia o benefício.

Segundo o último balanço sobre os preparativos para a Copa divulgado pelo próprio governo federal, em setembro de 2013, o total de renúncias fiscais ligadas à Copa chega a R$ 648 milhões, quase metade do valor total nas contas do TCU. Apenas em isenção fiscal para a compra de materiais de construção para os 12 estádios do Mundial, o programa chamado Recopa, foram R$ 520 milhões até setembro do ano passado.

Em "desoneração de tributos" no geral, deixou-se de arrecadar outros R$ 104,1 milhões até setembro de 2013, de acordo com o governo. O total de R$ 1,1 bilhão em renúncias apontado pelo TCU não inclui as isenções fiscais das cidades-sede e dos governos estaduais, apenas as do governo federal. Assim, na realidade o valor que deixa de ser recolhido na realidade é maior.

O governo federal sempre afirmou que a isenção fiscal para a Fifa, patrocinadores e parceiros era uma condição para a realização da Copa no Brasil. Questionada sobre as afirmações da entidade sobre o assunto, a assessoria de imprensa do Ministério do Esporte primeiro questiona a tradução feita pelo UOL Esporte do teor do texto. "Na verdade, a correta tradução do texto publicado pela Fifa revela que a entidade não requereu isenções de forma genérica", desconversa a resposta enviada a reportagem.

Depois, diz que apesar das isenções a Copa irá gerar cerca de R$ 18 bilhões em impostos para os municípios, estados e federação, de acordo com estudo encomendado pelo governo a uma consultoria terceirizada, para então dizer que o Brasil tinha a obrigação de conceder isenções, mas não fala de quais nem sua extensão.

'Compromissos são assumidos por todos'
"Ao se candidatar como país-sede de uma Copa do Mundo, o interessado assume uma série de compromissos perante a Fifa, que abrangem, entre outros, segurança, vistos de entrada de estrangeiros [turistas e trabalho], telecomunicações, centros de mídia, hinos e bandeiras, além de benefícios tributários, tais como isenções e reduções de alíquotas. Esses compromissos são assumidos por todos e variam, em número e extensão, conforme o sistema jurídico vigente em cada um deles. Tanto na Alemanha quanto na África do Sul, houve a assunção do compromisso de conferir benefícios tributários à Fifa", diz o Ministério do Esporte, no entanto sem explicar o porquê de ter concedido mais do que a entidade diz ter exigido.

O governo federal ainda lembra que a isenção não vale para qualquer atividade da Fifa e das empresas da Copa no Brasil. "Por exemplo, a compra de um imóvel em território nacional, seja pela FIFA ou qualquer outro parceiro comercial, consultores etc, pagará os mesmos tributos que qualquer pessoa deverá pagar ao realizar a transação. Da mesma maneira, a aquisição de outros bens ou a realização de transações comerciais, monetárias não relacionadas com a Copa, também serão tributadas normalmente, sem o direito às isenções".

Na carta aberta publicada em seu site, a Fifa rebate ainda que os contribuintes brasileiros pagaram por todo o evento e a Fifa não gastou nada, que o dinheiro investido em estádios foi retirado da Saúde e da Educação (parafraseando o discurso oficial do governo federal), que as entradas são caras demais e que a entidade só quer saber de lucro e não liga para mais nada.

A Fifa reafirma que não mandou construir estádio nenhum, apenas mostrou as condições mínimas que exigia em uma arena da Copa, e que o Mundial podia ser feito em oito sedes. A opção de fazer em 12 foi do governo brasileiro. A entidade também afirma que recebeu por escrito do governo uma garantia que ninguém seria despejado para construir estádios, e que proíbe o comércio ambulante e nos entornos das arenas para assegurar o lucro dos patrocinadores. A Fifa também refuta que não ajude o país-sede da Copa a lidar com seus problemas sociais, econômicos e ecológicos.


FONTE: UOL / Vinícius Konchinski

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Copa de 2014 já é a mais lucrativa da história

quinta-feira, junho 05, 2014

Olimpíadas e Copa do Mundo: O que estão fazendo com o dinheiro dos brasileiros?




Nestas duas entrevistas, os professores Andrew Zimbalist e Robert Baade, respectivamente, falam em detalhe sobre o real impacto econômico das Olimpíadas e da Copa do Mundo no Brasil e os resultados em diversos países que já foram sede destes eventos.

O Professor Andrew Zimbalist trabalha no Departamento de Economia do Smith College, em Massachussets, nos Estados Unidos. Ele é uma autoridade reconhecida mundialmente na área da economia esportiva e um especialista independente que analisa o impacto econômico do turismo esportivo em geral, do sediamento de mega-eventos esportivos e da construção de diversos tipos de infra-estruturas esportivas. O economista tem mais de vinte livros publicados e já contribuiu para inúmeras publicações acadêmicas, com artigos e estudos nas áreas de sistemas econômicos comparativos, desenvolvimento econômico e economia de esportes. O professor Zimbalist faz parte do conselho editorial de diversas publicações científicas dentro da área da economia. Seus artigos e opiniões também já foram publicados em alguns dos meios de comunicação mais importantes, reconhecidos em todo o mundo, incluindo o New York Times, o Washington Post e o jornal USA Today. O economista já testemunhou para várias comissões governamentais sobre diversos temas, tais como o impacto econômico dos subsídios públicos nas construções de infra-estruturas esportivas. Em inúmeras ocasiões, testemunhou para o congresso norte-americano. Nesta entrevista, o Dr. Zimbalist fala em detalhe de muitas destas questões, incluindo o real impacto econômico das Olimpíadas e da Copa do Mundo no Brasil e os resultados em diversos países que já foram sede destes eventos.

O economista Robert Baade é professor de Economia e Finanças na Lake Forest University (estado de Illinois, nos Estados Unidos). Ele é reconhecido internacionalmente na área da economia esportiva. Sua pesquisa tem como foco uma variedade de temas relacionados com as finanças públicas, com as consequências econômicas do sediamento de megaeventos esportivos, bem como a economia referente ao esporte profissional. Seus estudos podem ser encontrados em diversas publicações academicas na área da economia. Baade também já foi citado extensivamente por diversas fontes de notícias de renome, incluindo o New York Times, o Huffington Post  e o canal de notícias NBC. Seu artigo “The Quest for the Cup: Assessing the Economic Impact of the World Cup” vai ser publicado no livro Megaproject Planning and Management: Essential Readings.

Pergunta Blog: Eventos esportivos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas são taxados como chamarizes para milhares de turistas, e se os visitantes têm experiências positivas, a tendência continua no futuro. O que a pesquisa realmente demonstra em relação às cidades que já sediaram esses eventos?

Andrew Zimbalist: O que acontece com frequência durante os Jogos Olímpicos e a Copa do Mundo é que os turistas regulares, que viriam visitar o país num ano em que tais eventos esportivos não estivessem ocorrendo, acabam evitando ir para aquele lugar. Na realidade, os turistas das Olimpíadas e da Copa do Mundo muitas vezes substituem e interrompem os fluxos turísticos habituais de uma localidade. Além disso, em muitas cidades, um número significativo de residentes locais acaba se deslocando para outros lugares, para não lidar com o incômodo ocasionado pelo evento. O número de turistas que saíram da China em 2008, por exemplo, aumentou significativamente. Muitos turistas e muitos moradores locais não querem lidar com o trânsito, com áreas congestionadas, com as questões relacionadas com a segurança e com os preços elevados. Portanto, não é incomum que o montante total do turismo tenda a diminuir durante os Jogos Olímpicos e a Copa do Mundo. Em geral, se observarmos exemplos recentes, é difícil esperar um aumento líquido significativo no número de visitantes em um país durante a Copa do Mundo ou as Olimpíadas. O número de turistas que se encontrava em Londres durante os Jogos Olímpicos em julho e agosto de 2012, por exemplo, foi menor do que o que se encontrava no ano anterior, quando não houve nenhum mega-evento esportivo. E a mesma tendência vem sendo observada em vários outros países e cidades que foram sedes. Existem alguns exemplos de um pequeno aumento de turismo, mas é insignificante. O ponto mais importante é que um aumento significativo do turismo na verdade não ocorre.

Pergunta Blog: Quando Atlanta sediou os Jogos Olímpicos em 1996, a cidade fez algumas mudanças importantes na infraestrutura do seu sistema de transporte regional e também construiu a Vila Olímpica, que eventualmente foi utilizada como dormitório para estudantes de uma universidade local. Durante o mesmo período, o reconhecido Centennial Park, um grande espaço público, também se tornou um legado duradouro para a população daquela cidade. O Brasil tem exemplos de projetos de infraestrutura que poderiam ter um legado duradouro e de importância para os seus cidadãos após o término destes eventos esportivos?

Andrew Zimbalist: Estou seguro de que alguns dos investimentos feitos nas áreas do transporte, do desenvolvimento de estradas e na expansão dos aeroportos terão certa utilidade, mas apenas uma pequena parcela deles! Seria importante lembrar que estamos falando aqui de gastar uma soma que pode rondar uns 15 a 20 bilhões de dólares por cada um desses eventos, e isso é um dispêndio impressionante de recursos. A questão não é realmente se um país consegue 15 bilhões de dólares em melhorias a longo prazo nas diversas infraestruturas que estão sendo construídas, porque eu duvido muito que isso ocorra. Na verdade, a questão mais importante é o quanto se estará desperdiçando ao gastar essa quantia exorbitante. Por que alguém precisa gastar 40 bilhões na Copa do Mundo e nos Jogos Olímpicos, a fim de obter 15 bilhões em melhorias de infraestruturas em um país que é afligido por escassez de recursos, poluição, pobreza e níveis grotescos de desigualdade? Por que estamos desperdiçando cerca de 10 a 15 bilhões de dólares na construção de infraestruturas esportivas para esses eventos que, no final das contas, não serão produtivas ou não terão qualquer utilidade para a maioria da população e para o desenvolvimento do país? Por que um país precisa gastar entre 15 a 20 bilhões em cada um desses eventos para obter um parque público ou um calçadão para as pessoas caminharem no seu dia de lazer? De fato, essas sim são as grandes e verdadeiras questões que devem ser abordadas.

Pergunta Blog: Em sua opinião, quais serão as consequências econômicas para o Brasil ao sediar estes eventos?

Andrew Zimbalist: Em geral, a pesquisa sobre esta questão indica que é muito difícil obter benefícios econômicos com esse tipo de investimentos. A única chance de obter algum retorno financeiro que possa cobrir as despesas ocorre quando o país que sedia tais atividades tem a capacidade de planejar adequadamente. Ao mesmo tempo, isso significa começar com um plano de desenvolvimento que venha de fato a ser implantado, independente da possibilidade de o país sediar o evento ou não. É muito importante que os organizadores tenham esse conceito imbuído desde o começo, e esse deve ser o ponto de partida. Desta forma, o país escolhido deve determinar até que ponto sediar a Copa do Mundo ou as Olimpíadas pode complementar e apoiar o plano de desenvolvimento original que já estava em curso. De fato, a maioria dos países não tem feito isso e, por conseguinte, está condenada a fracassar. Na verdade, muitos destes países não têm um plano de desenvolvimento que tenha sido elaborado antes de serem escolhidos para sediar estas competições. Em contrapartida, meramente almejam promover estes eventos a qualquer custo e estão dispostos a seguir quase todas as diretrizes que são impostas. Em consequência disso, ao serem escolhidos para assumir tais responsabilidades, ficam à mercê do que o COI e a FIFA lhes ditem. Perante tal situação de subserviência, o país acaba gastando bilhões de dólares que são completamente desperdiçados e que, na verdade, poderiam ser de extrema importância para muitos destes  países que têm dificuldades econômicas e problemas sociais. Acredito que o Brasil é mais uma nação que se encontra à mercê deste tipo de relacionamento prejudicial com essas duas entidades muito poderosas.

Pergunta Blog: Você poderia explicar as razões pelas quais você acredita que o Brasil se enquadra nessa categoria?

Andrew Zimbalist: Fico perplexo quando tomo conhecimento de que alguns dos planejamentos de transporte público envolvem, a título de exemplo, uma rota de ônibus rápida percorrendo o trajeto de Ipanema até a Barra. Qual é o propósito dessa rota? Fica claro que essa rota visa meramente o transporte dos turistas da praia de Ipanema para a Vila Olímpica. E com o exemplo descrito, é evidente que a principal prioridade deste projeto é atender os turistas que estarão no país por um tempo muito curto durante este evento esportivo específico. Assim sendo, é um total desperdício de recursos. Qualquer plano a longo prazo que tenha maior importância para o desenvolvimento das necessidades de transporte dos cidadãos brasileiros não é uma prioridade. Eu acredito que o Brasil possui muitos problemas sociais que ainda não receberam a atenção devida. Além disso, os turistas estrangeiros estão cada vez mais conscientes da violência e da repressão que ocorrem em muitas das grandes cidades brasileiras. Os mesmos também ficaram muito mais a par da ineficiência e da corrupção em diversos setores governamentais, e eu não vejo como todos estes elementos possam gerar uma imagem positiva do país perante a comunidade internacional. E ainda, além de todas estas questões, há greves que estão ocorrendo, bem como um movimento forte de protestos populares contra os gastos extravagantes resultantes de o Brasil sediar esses eventos. Portanto, eu tenho uma visão pessimista e não acredito que haja qualquer chance de que o sediamento desses eventos venha a afetar o Brasil de forma positiva. Nenhuma parte do processo de planejamento foi executada de forma eficaz, como se constata com os atrasos dos diversos projetos ainda em construção. Existe a crença entre os países dos BRICS de que, ao sediar estes megaeventos esportivos, o seu status de potência mundial será confirmado. De fato, não temos nenhuma prova de que isso tenha ocorrido com qualquer um dos países que sediaram tais eventos, e a verdade é que esta crença é um pouco ridícula e até mesmo patética.

Pergunta Blog: Muitos dos governos que sediam megaeventos esportivos geralmente contratam instituições específicas, públicas e privadas, para difundir pesquisas que apresentam um quadro favorável em relação aos benefícios econômicos trazidos para o país. Qual é a sua opinião sobre esses estudos e sobre a validade dos trabalhos produzidos por essas entidades?

Andrew Zimbalist: Desde o começo, já se estabelece um acordo problemático quando a agência que sedia os eventos emprega uma empresa de consultoria para fazer um estudo que não possui qualquer fundamento objetivo. Em tais casos, a maior parte desses estudos está sendo financiada para chegar a uma determinada conclusão, que é a promoção do evento. Fica, portanto, muito claro que os países que sediam estes eventos empregam diversas pessoas para realizar estudos que demonstrem seus benefícios econômicos. Na verdade, as conclusões dessas pesquisas são demasiadamente otimistas e irreais. Houve até um caso em Londres onde um conhecido meu, que é economista, recebeu, antes das Olimpíadas, uma proposta da comissão organizadora de Londres para fazer um estudo sobre o impacto econômico do evento. O comitê havia afirmado que antecipava severas críticas da opinião pública aos gastos econômicos que poderiam decorrer dos jogos e que, portanto, queria ter a capacidade de responder a tais críticas com um estudo que mostrasse seus benefícios econômicos. Na verdade, esse exemplo que acabei de dar é muito comum nos diversos locais que sediaram estes eventos esportivos.

Pergunta Blog: Quais são alguns dos problemas da metodologia empregada por parte dos estudos feitos por economistas contratados para apontar quadros econômicos favoráveis decorrentes da responsabilidade de sediar tais eventos?  Você poderia apontar alguns artifícios ou técnicas utilizadas por eles a fim de projetar um quadro econômico favorável?

Andrew Zimbalist: Estes pesquisadores fazem projeções com um número excessivo de turistas frequentando tais eventos esportivos, que estão fora da realidade. Também estimam que os mesmos turistas gastarão muito mais dinheiro do que de fato ocorre, e depois empregam um multiplicador inflado irreal. Desta forma, eles acabam obtendo resultados que apontam para um maior impacto econômico, mas que não são reais.

Pergunta Blog: Quais são os incentivos que estão por trás da pesquisa conduzida por alguns economistas como você?

Andrew Zimbalist: O nosso maior objetivo e incentivo é simplesmente descobrir qual é o impacto econômico de tais eventos, seja ele positivo ou negativo, em vez de tentar incutir um resultado qualquer. Estamos apenas tentando entender a dinâmica da situação. Nós não estamos sendo pagos por nenhum lado para chegar a uma conclusão especifica.

Pergunta Blog: Novos estádios foram construídos em Brasília, Cuiabá e Manaus. Algumas destas cidades não possuem grande tradição futebolística e sequer têm equipes na primeira divisão ou uma base significativa de torcedores. Estes fatos aumentam a preocupação de que algumas dessas construções se tornem elefantes brancos. Você poderia comentar sobre esta questão?

Andrew Zimbalist: Sim. Estou ciente de que algumas dessas cidades não têm sequer uma equipe na primeira ou na segunda divisão. Eu realmente não entendo por que alguém iria construir um estádio com capacidade para 42.000 espectadores em uma cidade onde não há grandes times de futebol e que, para começo de história, ao longo de um determinado ano não irá nem mesmo atrair 1.000 ou 2.000 espectadores por cada jogo. Por que esses estádios ultramodernos estão sendo construídos com cadeiras cativas, camarotes, espaços excessivos para publicidade e vestiários luxuosos? Não há nenhuma justificativa e não faz sentido gastar centenas de milhões de dólares em alguns desses estádios, quando durante a maior parte do tempo ninguém vai fazer uso deles. O contribuinte terá de arcar por vários anos com os custos desses megaprojetos e com os custos operacionais envolvidos em manter esses estádios funcionando no seu dia-a-dia, após o término das Olimpíadas e da Copa do Mundo. E esse dinheiro nunca mais será recuperado. Eu acredito que isso será um problema que muitas cidades, como Cuiabá, Manaus, Brasília, e outras terão de enfrentar. Às vezes, confuso e sem entender, fico tentando compreender o que alguns desses planejadores estavam pensando quando esses projetos começaram a vir à tona.

Pergunta Blog: Muitos jogos acontecerão em localidades distantes e o custo de viajar dentro do Brasil é alto. Qual será o impacto disso para o turismo e para essas cidades?

Andrew Zimbalist: Viajar pelo Brasil é muito caro. Eu suponho que muitos dos turistas vão viajar e se concentrar somente na região sudeste do país, Rio e São Paulo. Eu não acho que eles vão viajar por todo o país. Mesmo que esses turistas visitem outras localidades, não está claro se eles ajudarão o turismo a longo prazo. De certa forma, os turistas de esportes são um grupo peculiar, que realmente não presta muita atenção às atrações arquitetônicas ou culturais, e geralmente se concentra exclusivamente nos seus eventos esportivos preferidos. A construção dos estádios em alguns desses lugares foi uma estratégia mal concebida. Se o país tivesse realmente um plano sólido para a Copa do Mundo e se estivesse interessado em reduzir custos, deveria ter se focado em fazer melhorias em estádios já existentes nos mercados de esportes de maior importância do país. Além disso, se tivessem limitado os jogos da Copa dentro dessa região, o custo de viajar pelo país ficaria muito mais em conta e o clima seria certamente mais favorável para as partidas de futebol.

Pergunta Blog: Quem realmente se beneficia com o sediamento desses megaeventos esportivos?

Andrew Zimbalist: Eu acho que as empresas de construção e seus aliados são os principais beneficiados. Outros elementos que se beneficiam destes megaeventos são alguns bancos de investimento que flutuam os títulos para financiar esses projetos e, é claro, os burocratas que lidam com muitos dos contratos.

Pergunta Blog: E o que você tem a dizer sobre o exemplo dos Estados Unidos e da Alemanha, que sediaram megaeventos esportivos bem-sucedidos?

Andrew Zimbalist: No caso de Los Angeles, as Olimpíadas não foram muito dispendiosas. Eles só tiveram que construir algumas instalações, e o diretor das Olimpíadas de Los Angeles, Peter Ueberroth, obteve das empresas privadas o dinheiro para construir as instalações, e com isso não tiveram que usar dinheiro público. Peter Ueberroth também introduziu um novo modelo para adquirir recursos dos setores privados para patrocínios, que foi considerado muito bem-sucedido, e acho que a combinação desses fatores fez com que eles fossem capazes de gerar um pequeno excedente, algo em torno de 215 milhões de dólares decorrentes dos jogos de 1984. Quanto à Copa do Mundo na Alemanha, pode ter havido um pequeno efeito positivo em determinadas regiões que sediaram as partidas, principalmente no que diz respeito ao emprego, mas não no que diz respeito ao valor da massa salarial. E isso se deu principalmente pelo fato de eles terem feito uso de instalações que já existiam. Assim sendo, não foi necessário fazer quaisquer investimentos significativos em termos de infraestrutura.

Pergunta Blog: Qual é a sua opinião sobre o caso de Barcelona, que é apontado por muitos como um exemplo de sucesso e de como tais eventos podem trazer benefícios econômicos para uma cidade?

Andrew Zimbalist: As Olimpíadas tiveram uma pequena contribuição para o desenvolvimento de Barcelona, porém de nenhuma maneira podemos dizer que a contribuição foi significativa ou que o renascimento da cidade foi ocasionado por ter recebido tal evento. Uma série de outros fatores, tais como a entrada da Espanha no mercado comum da União Europeia e a desregulamentação do setor aéreo, também contribuíram para o progresso da cidade. Também é importante observar que o crescimento econômico de Barcelona foi semelhante ao de outras cidades europeias durante o período posterior às Olimpíadas. Além disso, Barcelona já tinha algumas “cartas na manga” que não haviam sido exploradas pelo turismo, mas que estariam prontas depois de um pouco de trabalho. Devemos também levar em consideração alguns fatos históricos sobre a cidade. Por exemplo, Barcelona, bem como toda a área da Catalunha, havia sido amplamente negligenciada durante a ditadura de Franco, e a região estava pronta para conseguir alguma espécie de desenvolvimento após a sua morte, especialmente a parte da cidade que se encontrava separada do mar por uma área de armazéns, fábricas e ferrovias. De fato, entre muitas iniciativas no grande plano para mudar Barcelona, que teve início no final dos anos 70, havia o projeto de abri-la para o mar. Esse plano já tinha sido traçado antes das Olimpíadas, e quando a cidade ganhou o direito de sediar os Jogos Olímpicos, os planejadores fizeram as necessidades do evento olímpico complementarem as necessidades do plano que já estava em curso. Assim sendo, os Jogos Olímpicos foram feitos para cooperar com esse plano e trazer benefícios para a cidade, e não para a cidade cooperar com as Olimpíadas. Portanto, a dinâmica dessa relação, caracterizada pelo fato de Barcelona já ter um plano de desenvolvimento anos antes de ter sido escolhida para sediar os Jogos Olímpicos, foi de extrema importância para seu progresso. Na verdade, poucas cidades que sediam esses eventos têm um plano de desenvolvimento preexistente, como o que foi exibido lá.

Pergunta Blog: Em um de seus artigos, você mencionou que os organizadores brasileiros haviam desistido da ideia da criação de um novo terminal no aeroporto internacional de São Paulo antes da Copa do Mundo e que, como alternativa, iriam contar com módulos temporários para lidar com um maior número de turistas. Você advertiu que tais ações eram exatamente o que os países que sediam tais eventos precisavam evitar. Você poderia explicar sua opinião sobre esta questão para os nossos leitores?

Andrew Zimbalist: O ponto crucial nesta questão é que quando se estão gastando centenas de milhões ou bilhões de dólares para construir uma infraestrutura para tais eventos, deseja-se que ela seja duradoura e que tenha utilidade após o término dos mesmos. Se forem construídos módulos temporários, então eles não vão ter qualquer utilidade após a conclusão dos eventos e serão removidos. Portanto, tem-se a despesa de montá-los, a despesa do material envolvido na construção dos módulos e o custo para desmontá-los, e no final não se fica com nada. É um exemplo nítido do desperdício dos recursos públicos e um grande exemplo da falta de planejamento adequado. Acredito que deveria haver um planejamento prévio e com prazo suficiente para que as coisas pudessem ser feitas da maneira certa, evitando assim uma situação em que se tenha de arquitetar módulos provisórios que eventualmente não terão qualquer utilidade. Em suma, toda a infraestrutura de transporte que está sendo construída deveria ter utilidade a longo prazo, para as próximas décadas. Módulos temporários economizam recursos a curto prazo, porque não se estão edificando estruturas permanentes, mas o investimento financeiro para construí-los é completamente desperdiçado.

Pergunta Blog: Segundo o Professor Zimbalist, quando Atenas ganhou, em 1997, o direito de sediar os Jogos Olímpicos de 2004, seu orçamento foi estimado em cerca de 1,6 bilhão de dólares e o custo público final foi calculado em torno de 16 bilhões (aproximadamente dez vezes mais do que o número original). Podemos observar esta mesma tendência em relação às projeções orçamentárias em outros locais que já sediaram esses eventos?

Robert Baade: Sim, em todos os lugares. Os jogos de Atenas seguiram a norma, sendo este, de fato, o exemplo mais típico do que acontece com esses eventos. As projeções imprecisas relacionadas ao custo de sediar megaeventos esportivos são endêmicas, e as estimativas dos custos iniciais são lamentavelmente subestimadas na maioria das vezes. Quando eu comecei a estudar as Olimpíadas de Atenas, o orçamento para a segurança estava em torno de 400 milhões de dólares. No momento em que paramos de acompanhar o orçamento, ele chegou a cerca de 1,9 bilhão de dólares, e isso era apenas para a segurança. O Brasil vai enfrentar situação parecida. O país tem trabalhadores em greve, vários atrasos nas construções de infraestruturas, transtornos judiciais, entre outros problemas que irão aumentar significativamente os custos. Parafraseando um famoso filósofo, eu diria que a única coisa imutável dentro deste universo dos megaeventos é a ausência de mudança. Essas mudanças resultam invariavelmente em custos mais elevados do que os estimados pelas previsões iniciais. Se a experiência no Brasil seguir a norma, haverá uma grande probabilidade de que o custo financeiro para sediar estes eventos venha a ser muito maior e mais duradouro do que o que foi inicialmente previsto.

Pergunta Blog: Existe o risco de um país ter sua imagem afetada ou desgastada internacionalmente ao sediar tais eventos?

Robert Baade: Sim. E essa possibilidade é real para qualquer país que decida sediar tais atividades. Um devido país tanto pode ser identificado como eficiente e capaz ou como desorganizado e ineficiente. Tudo depende de como as coisas irão fluir durante os eventos. No entanto, se as coisas não acontecerem como foram planejadas e se ocorrências negativas ou lamentáveis se tornarem frequentes e divulgadas pela imprensa, então a imagem do país poderá realmente ser afetada de forma negativa, em vez de ser fortalecida.

Pergunta Blog: E na sua opinião, isso representa um risco para o Brasil?

Robert Baade: Sim. A situação brasileira, com todos os seus atrasos no acabamento de diversas obras, me faz lembrar do que aconteceu nas Olimpíadas de Atenas.

Pergunta Blog: Foi divulgado pela imprensa internacional que 21 das 22 estruturas construídas para as Olimpíadas de Atenas encontram-se numa situação extremamente precária e não têm qualquer utilidade. Fazendo uma retrospectiva da história, qual é o destino mais provável para as diversas estruturas esportivas  construídas em outras cidades que sediaram megaeventos esportivos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas? Será que o exemplo do que ocorreu em Atenas é o mais comum?

Robert Baade: Sim. De fato, algumas das estruturas esportivas em Atenas se encontram em ruínas, de modo que grande parte das  instalações esportivas são pouco utilizadas após os eventos. Assim sendo, o potencial para se tornarem elefantes brancos é um risco grande e real. Antes de serem escolhidas para sediar as Olimpíadas e a Copa do Mundo, Los Angeles e a Alemanha não tiveram que lidar com esse problema porque já tinham a maior parte destas estruturas prontas para sediar tais eventos. Atenas se encontra na pior situação possível, pois tiveram que construir estádios nos quais os gregos tinham pouco ou nenhum interesse, e os custos para que a Grécia possa manter tais estruturas ainda são significativos. O estádio Birds Nest em Beijing também está perto de se tornar um elefante branco. A construção do estádio Olímpico de Montreal é um exemplo clássico de uma estrutura que não foi utilizada adequadamente após os jogos. Além disso, levou 30 anos para os canadenses pagarem a dívida que acumularam em decorrência de terem sediado as Olimpíadas. Na verdade, uma das maiores consequências desses megaeventos esportivos são os estádios e as arenas que foram construídas com um alto custo e que têm pouca utilidade.

Pergunta Blog: E o problema dos elefantes brancos na África do Sul?

Robert Baade: O sediamento da Copa do Mundo na África do Sul seguiu um caminho já muito conhecido. A liga premier de futebol daquele país tem por média 7,500 espectadores por partida. Assim sendo, não havia nenhuma necessidade de se ter construído estádios com as capacidades que foram determinadas pela FIFA. Os cinco novos estádios construídos para a Copa do Mundo de 2010 na África do Sul custaram cerca de 1 bilhão de dólares. Os estádios Peter Mokaba e Nelson Mandela foram construídos com cerca de 150 e 140 milhões de dólares respectivamente. Eles são utilizados esporadicamente para jogos de futebol e de rúgbi. O estádio Mandela, por exemplo, acolheu 12 partidas em 2013, com uma média de 7,606 espectadores (o que representa 16.5% da capacidade do estádio). Paralelamente, o estádio Mokaba não possui nenhum inquilino ou seja, ninguém se interessou em arrendar tal estádio. Será que faz algum sentido construir um estádio de 150 milhões de dólares num lugar em que não existe sequer um time de futebol para fazer uso de tal infraestrutura após o término da Copa? Exemplos parecidos com estes existem em toda a parte.

Pergunta Blog: Você acredita ser provável que o problema dos elefantes brancos na África do Sul e na Grécia possa vir a acontecer no Brasil?

Robert Baade: Eu acho que o que está acontecendo no Brasil faz lembrar muito a situação da Grécia e da África do Sul, onde a síndrome do elefante branco é clara e real. Chegou ao meu conhecimento que o Brasil construiu estádios de futebol em algumas cidades que não possuem equipes nem na primeira, nem na segunda divisão de futebol do país. Construir estádios novos em Cuiabá, Manaus e Brasília, ou seja, em cidades que possuem um papel insignificante dentro do contexto futebolístico nacional, não faz sentido nenhum. O mais provável é que estes estádios não tenham grande utilidade após o término da Copa e que possivelmente estejam a caminho de se tornarem elefantes brancos após o evento.

Pergunta Blog: Em suma, qual será o legado econômico ou as consequências para o Brasil por sediar estes eventos?

Robert Baade: Estou esperançoso que o povo brasileiro possa se beneficiar ao sediar a Copa do Mundo e as Olimpíadas. No entanto, após fazer uma avaliação cautelosa sobre a situação, não estou muito otimista que haja um legado positivo decorrente destas atividades. Na verdade, existe o risco de haver um balanço negativo no final. De fato, observamos que a coesão social do país tem sido desgastada por fatores econômicos relacionados com os eventos. Além disso, fica claro que existe uma enorme pressão nos jogadores da seleção nacional. Se a equipe não for bem ou não corresponder às expectativas, a chance de um legado negativo ocorrer aumentará. Dificilmente tais eventos acarretarão algum tipo de benefícios econômicos para o Brasil e estou muito preocupado com a forma como o país irá utilizar essas estruturas esportivas construídas para receber esses eventos. Eu creio que a desconfiança dos brasileiros em relação aos seus governantes só irá aumentar ao chegarem à conclusão de que estas atividades beneficiarão apenas uma parcela muito pequeno da população. Este é um risco real e espero que o Brasil possa passar por este momento sem problemas. Portanto, eu torço pelo Brasil e pela seleção nacional.

FONTE: ESTADO DE SÃO PAULO / RICARDO GUERRA