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terça-feira, maio 06, 2014

Ney Matogrosso: no Brasil “não há padrão FIFA, é padrão favela. Os negros estão no porão ainda”











Ney Matogrosso está de volta aos palcos portugueses com Atento aos Sinais, um trabalho que celebra novos compositores, misturando exuberância e lucidez. Nos coliseus, hoje e amanhã em Lisboa, e dia 10 no Porto

Depois do afirmativo recolhimento de Beijo Bandido, Ney Matogrosso volta à exuberância visual e sonora com Atento aos Sinais, quarta e quinta-feira no Coliseu de Lisboa e sábado 10 no Coliseu do Porto, sempre às 22h. Prestes a completar 73 anos, a 1 de Agosto, prova que continua mesmo atento aos sinais, do Brasil e do mundo. E as revoltas populares por causa do Mundial ressoam, de algum modo, na sua voz.

Este seu trabalho é um dos casos, raros, em que o espectáculo nasce antes do disco…
É. Primeiro eu tive o repertório todo, depois fiz o show durante uns quatro, cinco meses e no fim seleccionei das dezanove do show catorze para o disco.

Quando imaginou o espectáculo, o que diz dizer às pessoas com ele?
Eu estou apresentando cinco artistas brasileiros novos, cinco bandas novas, cantando composições deles. Isso, para mim, acabou por ser o foco do trabalho. No disco, eu privilegiei os novos compositores. No show eu canto, por exemplo, Caetano Veloso, que não está aí, e tenho outras músicas.

Como é que descobriu esses novos compositores?
De várias formas. Quando viajo pelo Brasil, eles vão-me dando gravações. O Vítor Pirralho, por exemplo, descobri-o em Maceió, Alagoas. O hotel deixou-me um jornal no quarto e eu vi que tinha uma página inteira sobre um rapper alagoano. Aí, eu fiquei muito interessado, liguei para a produtora local e disse que gostaria ter o disco. Para minha surpresa, duas horas depois estava ele e a mulher dele no meu apartamento (eu ia embora duas horas depois) e eu gostei muito da música dele. Essa música que eu gravei [Tupi Fusão] faz parte de um disco específico, onde o tema é a chegada do português ao Brasil. E é a visão do índio. Quando falo em “sardinha no cardápio”, é o bispo Sardinha.

O refrão é um apelo e uma declaração: “Nobres no convés e os negros no porão/ Conte de um até dez e prenda a respiração/ Quem controla o passado/ tem o futuro à mão/ Conheça sua história, não durma, irmão”. O Brasil olha para o passado?
Não, ninguém olha para o passado, ninguém está interessado. No Brasil os políticos, com raras excepções, só estão interessados em dinheiro, em encher os seus bolsos.

Neste seu trabalho sente-se muito o Brasil de hoje, os choques, as contradições…
Em Rua da passagem [tema que abre o disco, de Arnaldo Antunes e Lenine] isso é intencional. Começa a falar do trânsito e acaba falando em muitas outras coisas. Agora em Incêndio [segundo tema, de Pedro Luís] eu estava me referindo ao mundo, à Primavera Árabe, e de repente… Eu comecei a cantar esse repertório em Fevereiro de 2013 e os acontecimentos no Brasil foram em Junho. Então ele é muito contemporâneo.

Como é que você olhou para esses sinais de revolta no Brasil?
Achei que tinham razão. O Brasil está gastando bilhões para fazer essa Copa [o Mundial de Futebol], todos os estádios dobraram e triplicaram de preço, mas a saúde é uma vergonha, está lastimável, cada vez pior; a educação é zero, nessas coisas internacionais que medem a educação no mundo o Brasil vem em cento e tal, no rabo da história; a polícia cada vez mais assassina, mais violenta… Então eu tenho que falar disso!

Na altura, quando se fez campanha pela Copa, você foi contra?
Não, eu não sou contra. Sou é contra a maneira como estão fazendo. Porque tudo é padrão FIFA. Ora para nós, brasileiros, o padrão é zero, não tem padrão FIFA, é padrão favela. Mais: diariamente a polícia assassina pessoas – pretas e pobres. Continuamos então… “conte de um e até dez e prenda a respiração” [cita parte do refrão da canção de Vítor Pirralho], porque os negros estão no porão ainda.

Neste espectáculo você voltou à exuberância e ao rock. Achou que eram as linguagens visuais e musicais certas para o que pretendia dizer?
Claro, eu queria isso. Eu tinha acabado de fazer durante três anos o Beijo Bandido, muito p’ra dentro, e agora queria uma coisa p’ra fora.

É curioso que desde o ano 2000 você tem intercalado, sem excepção, espectáculos de maior recolhimento com outros de assumida exuberância. Tornou-se regra…
É, porque quando fico muito tempo fazendo uma coisa eu tenho necessidade da outra.

Como é que Atento aos Sinais foi recebido na estreia?
Estreei a 28 de Fevereiro de 2013 em Juiz de Fora [Minas Gerais], em seguida em São Paulo e Rio de Janeiro. Foram totalmente abertos e receptivos para um repertório 80 por cento inédito. Não houve nenhum estranhamento, nenhuma reclamação.

Desde essa altura sentiu alguma necessidade de mexer no alinhamento?Andei mexendo e agora voltou todinho como ele era. Porque tinha uma troca de roupa no final que eu achei excessiva, mas acontece que as músicas são tão boas que recoloquei tudo como estava. Porque acho que vale a pena, pelas músicas.

FONTE: PÚBLICO / PORTUGAL

sexta-feira, abril 11, 2014

O laboratório artístico e sonoro de Emicida













Rapper lança trilha sonora, esboça roteiro e quer escrever para crianças




Ao lado de Criolo, Emicida é um dos artistas independentes de maior projeção na música brasileira. Suas criações não estão apenas na boca dos jovens das periferias, estão no corpo. Com o seu selo Laboratório Fantasma, que acaba de completar cinco anos, vende bonés, camisetas e moletons. A marca tem dado tão certo que outros artistas, como Caetano Veloso, têm vendido produtos com fabricação pelo selo de Emicida.
Aos 28 anos, ele tem sido presença constante em festivais internacionais. Depois de se apresentar no Coachella, em 2011, acaba de retornar de Austin, no Texas, onde participou pela segunda vez do South by Souhtwest, e foi confirmado no Roskilde, na Dinamarca.
Emicida pensa em atuar em outros campos da música. Autor da trilha da premiada animação O Menino e o Mundo, o MC esboça um roteiro de um filme de ficção e anuncia um documentário sobre o Laboratório Fantasma. O compositor, que fez duas músicas para o próximo disco do Skank, quer também escrever livros infantis.
Ao Estado, Emicida fala do combate ao racismo nas escolas, da música que fez em homenagem ao antropólogo Darcy Ribeiro, dos protestos contra a Copa do Mundo, dos casos recentes de violência policial e do show que faz nesta quarta em São Paulo com Thiago França e Rodrigo Campos. Leia abaixo.
Como surgiu a ideia do show com Thiago França e Rodrigo Campos e como será o repertório?
Tinha o desejo de fazer algo com o Thiago e com o Rodrigo. A gente acabou não tendo agenda pra se encontrar antes. Estou num momento em que tenho pesquisado muito o samba. E acho que desconstruir músicas minhas e reler com outra textura vai me fazer crescer como artista. Vai ser um aprendizado, a gente tem ali dois caras magníficos, e sou muito emocional, não sou um músico técnico, não toco nada. A única coisa que consigo fazer é rima, no máximo tocar uma caixinha de fósforo.
E do repertório de samba, o que você tem ouvido?
Sempre volto no Adoniran. Talvez ele seja um dos únicos artistas que conseguiram chegar tão longe, ser tão popular, com uma voz fora do comum. Tem uma música dele, que provavelmente vai estar no show, que é Despejo na Favela, é muito emocional.
O que mais você ouve?
Tenho escutado muito Moacir Santos. Na época de O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui (disco de Emicida lançado em 2013), a gente pensou em samplear Coisas. Chegamos a levar o disco para o estúdio, mas falei: não, não dá pra mexer num negócio desses às pressas. E acabei de ler Zicartola, que conta a história do bar (de Cartola e Dona Zica). Ficava lendo e mandando mensagem pro Fióti (Evandro Fióti, irmão de Emicida), fazendo uns comparativos com as coisas que a gente vive. De certa maneira, nós fazemos a mesma coisa: uns caras da música que abriram um negócio.
E que balanço você faz desses cinco anos do seu selo, o Laboratório Fantasma?
Estou cansado (risos). Vou em Macapá e tem o "A Rua é Noiz" (frase de Emicida que estampa produtos de sua marca), e pirata. Pirata só vende o que tá vendendo, você nunca vê o disco do Artic Monkeys pirata na favela, tá ligado? (risos) É louco, toda vez que vejo a pessoa com o boné do "A Rua é Noiz", acho que ela vai me reconhecer, mas não. Ganhou essa projeção, acabou virando uma marca independente, era o sonho também, fazer com que a Laboratório caminhasse sem ter que depender do show do Emicida.
Como enxerga o fato de letras suas com crítica social, feitas há cinco anos, continuarem atuais?
A gente vive essa crise de bater na mesma tecla, lutar para uma situação se reverter. Mas a quantidade de moleque que me manda e-mail falando que entrou numa faculdade, você não acredita. Odiei a escola na minha época, repetia de ano por falta. Hoje é preciso redefinir o ensino, a forma com que ele se comunica com o jovem. Tenho tristeza de escutar O Meu Guri, do Chico Buarque, e dizer que essa música poderia ter sido escrita hoje. Não só ela, Como Nossos Pais, do Belchior, as músicas da ditadura ainda são muito atuais. A ditadura ainda é muito dos dias de hoje, está todo mundo na rua, os assassinos estão todos soltos. Tirando nós, está todo mundo livre. Não quero que os moleques da favela tenham que ser um Emicida, cantando rap para poder se emancipar, eu sou uma exceção à regra. Quando começar a ter gente nossa nas faculdades de medicina, engenharia, direito, aí a gente vai inserir outra perspectiva dentro da universidade e das empresas, e vai desenhar um Brasil para todo mundo.
Como você vê os protestos contra a Copa?
Cresci pintando a rua, chegava a época da Copa, a gente juntava dinheiro para comprar tinta verde e amarela para torcer. E, simultaneamente, éramos o hip-hop, estávamos lutando contra tudo isso para que a rapaziada despertou agora. São dois problemas bizarros: a desigualdade social e o racismo. A gente teve três casos pesados. O Amarildo, o Douglas (Rodrigues), que tomou um tiro no peito, sentado, desarmado, e a moça (Claudia Silva Ferreira) que foi arrastada na rua. Rolou a euforia, muita gente falou? Falou, mas quando os moleques de classe média tomaram tiro de borracha na Paulista foi capa de todos os jornais. E essa polícia que está matando na favela desde sempre? A gente tem que rever isso há muito tempo. É bem sério, são bandeiras que para a gente não são novidades, não somos do gigante que acordou, porque nós não dormimos: de fome e de medo.
Compositores têm buscado referências não só musicais. Thiago França fez Malagueta, Perus e Bacanaço, inspirado no conto do João Antonio, Racionais fizeram inspirados no Marighella, e você fez uma música em homenagem ao Darcy Ribeiro. Como surgiu essa música?
São caras muito importantes para a nossa formação, só que você não vê nos livros de história, na televisão. Tinha o lance de desenhar o país fora do clichê. Achei que a música tinha que ir mais pelo viés da esperança, da reflexão sobre o Brasil, do que falar de água de coco, Cristo Redentor, bateria da Mangueira. Quando, em Obrigado, Darcy, falo "um povo que tem como seu maior bem gritar gol", não estou fazendo uma crítica às pessoas serem apaixonadas pelo futebol, estou fascinado pelo modo como, no meio de tantas mazelas, as pessoas conseguem achar força para isso.
Não só os nomes que você citou, mas a própria história da África aprece muito pouco dentro das escolas...
Ano passado fez dez anos da lei 10.639, que obriga a história da África a fazer parte da grade curricular. Mas é muito delicado, o racismo come solto na infância. É lá que a gente precisava trabalhar. É muito difícil você inserir a história da África num lugar onde as pessoas veem o cabelo crespo como um crime. Tenho dois trabalhos: acompanhar o que a escola ensina para a minha filha e tenho que ensinar para ela que o cabelo dela é bonito do jeito que é, que a cor da pele dela não é um defeito. Comprei até uns tutoriais de como escrever livro infantil, quero conversar com as crianças.
FONTE: Lucas Nobile - Especial para O Estado de S. Paulo

segunda-feira, novembro 18, 2013

Mano Brown: Eminência Parda











Mano Brown se diz mudado, apesar de também afirmar que continua o mesmo. Entre a família, o rap, os amigos e os negócios, um dos artistas mais importantes dos nossos dias quer deixar de ser um refém da imagem que ele mesmo ajudou a disseminar


"Ô zica, a fita é a seguinte: entra na praça à direita, depois pega a primeira à esquerda e, por último, à direita de novo. Tem de fazer um 'Z'. Vamos decidir a parada hoje. Qualquer coisa, me liga." O roteiro chega pelo celular. É noite abafada, começo de novembro, quando deixo a porta da Escola de Samba Pérola Negra, na Vila Madalena, em São Paulo, reduto contemporâneo da boemia paulistana, rumo a um bairro vizinho. Da outra ponta da linha chega mais uma senha: "É pique rua de periferia, tem casinhas humildes". Nos quase dez minutos para percorrer as ruas da área oeste de São Paulo, um flashback: a conversa cara a cara prestes a começar, na verdade, era o desfecho de um debate iniciado três anos antes.

Ao apontar na "rua estilo periferia", encravada no bairro classe média, ninguém à espera. Chamo ao telefone e, em segundos, percebo pelo retrovisor surgir alguém vestido com uma camisa Adidas vermelha da seleção da Turquia, nº 17 às costas, calça jeans e tênis Nike. Sorrisão na cara, cabelo raspado, com um risco à la Mike Tyson, o homem pardo à porta é Pedro Paulo Soares Pereira, um dos mais intrigantes e importantes artistas da música brasileira ao longo das últimas duas décadas, dono de versos cujos ecos estão impregnados em todo o Brasil. O aperto de mãos é acompanhado do cumprimento com origem no candomblé, ombro a ombro. Pedro Paulo convida para entrar na casa dos seus amigos, onde ouve um som.

A voz de Jorge, então somente Ben, domina o ambiente. Vem de um computador. Ele canta "Lorraine" acompanhado de Tim Maia na gravação de um show em 1981. Pedro Paulo vibra, mas os acompanha discretamente. "Os dois são referências pra mim", reverencia. Ele teve o sonho, mas não conseguiu gravar com Tim. Nem com Wilson Simonal, outro ídolo. Mas tem orgulho de já ter dividido o palco com Jorge. Quando a música para, rompo o breve silêncio para perguntar se ele está mesmo decidido a falar e a finalmente aparecer sozinho na capa da Rolling Stone. "É a hora! Tenho coisas para falar. Querem me ouvir, vou falar."

Pedro Paulo se tornará quarentão em abril próximo. "Estou virando um tiozinho, mano." Antes de bater nos quatro ponto zero, ele surpreenderá novamente quem o escuta desde 1988, quando tinha 18 anos e entrou nos ouvidos de muitos brasileiros - por amor ou por ódio - com suas rimas. Pedro Paulo é Mano Brown, a mais importante, influente e respeitada personalidade do rap brasileiro, o piloto dos Racionais MC's, uma das vozes das periferias do país - posição rejeitada por ele, mesmo depois de ter guiado o único grupo nacional de rap capaz de vender 1,5 milhão de discos oficialmente no Brasil até hoje (sem contar outros cerca de quatro milhões na conta da pirataria). Mas aquele Mano Brown conhecido pelo Brasil "estava condenado a virar estátua, sem utilidade", como ele mesmo diz, na sua autodefinição.

"O Racionais parece ter uma cartilha a seguir e não fomos nós que a escrevemos. Foi a opinião pública. Somos reféns das palavras, mas não posso ser refém de nada, nem do rap. Vamos quebrar. Aquele Mano Brown virou sistema viciado, uma estátua óbvia demais. Pergunta tal coisa que ele vai responder tal coisa. Eu estava mapeado e rastreado", constata. Para registrar parte desta nova fase, foram quatro encontros e cerca de 15 horas de conversas mantidas ao longo de 11 dias do mês de novembro último, incluindo uma sessão de fotos - colada em uma outra sessão para ouvir algumas das novas músicas, ainda inéditas. Neste bonde estão o músico com formação clássica e compositor William Magalhães, filho do lendário Oberdan Magalhães, alma da fábrica de samba-soul-funk Banda Black Rio, e o rapper Marcos Dias Carneiro, o Dom Pixote, a quem Brown vez ou outra chama de Fiote. Antes de ter sido assassinado em alguma rua da Babilônia paulistana, o irmão mais velho de Dom Pixote o ensinou a ouvir Racionais. Para Brown, o talento de Pixote no rap é a vingança do irmão de sangue.

Cinco dias após o encontro no lado oeste, Mano Brown chega à casa da veterana fotógrafa inglesa naturalizada brasileira Maureen Bisilliat, no coração dos Jardins, bairro elitizado paulistano. Está a bordo de um Audi A3 preto. No bolso, uma onipresente escova de dentes.

Ele e a dona da casa se admiram. "Ela tem uma mente mil grau", diz. Sempre quando atraca por lá, faz questão de já saltar do carro e ir direto apertar as mãos dos trabalhadores da rua, os manobristas, os seguranças, os porteiros. "Gente que serve os bacanas" e gosta de sua música e de seu jeito.

Na cadeira de balanço da sala repleta de fotografias e peças de arte do Xingu, o rapper tenta organizar os pensamentos, milhares e difusos. "Tenho tanta coisa para falar, meu Deus do céu." Está de regata branca, tatuagens à mostra. Do antebraço esquerdo salta um mapa do continente africano. Do braço direito, uma cruz onde se lê "Provérbios 15-16-17". Ele já foi do candomblé e frequentou igrejas evangélicas. Hoje, diz não ter mais credo. Levanta, vai até o cinzeiro, apaga o cigarro. "Sou contra a religião. Porque virou empresa. Deus está nas pequenas coisas." A cruz na pele é a mesma estampada na capa do disco Sobrevivendo no Inferno, marco de 1998.

Tento uma pequena provocação, invertendo uma ordem jornalística, e peço para Brown começar a falar. Ele retruca sutilmente: "Não, cara. Você tem que perguntar. Sair falando assim é foda. Posso até sair falando, mas tem que ser interessante, né?" E emenda que, em 80% do tempo, não há separação entre o cidadão, o ídolo Mano Brown e o pai de família Pedro Paulo, marido de Eliane e pai de Jorge, 14 anos, e de Domênica, 10 anos, batizados em homenagem declarada a Ben (ele já teve um time de futebol chamado Charles 45). "Mas, em 20% do tempo, separo. Senão fica todo mundo louco, nem eu aguento. É uma situação em que tenho de usar a inteligência. Não dá para ser politizado sempre, músico sempre, engajado sempre. Também tenho meu momento de ser simplesmente um ser humano, gostar do que todo mundo gosta, fazer parte. Tento ser companheiro e ter companhias mesmo sendo o Brown. É difícil ser companhia de um cara que nem eu, deste nome, 'Mano Brown'."

Antes de explicar a tal dificuldade, Brown já está com outro cigarro entre os dedos, tragadas fortes, fumaça para o alto, testa franzida, sobrancelhas em itálico. "Porque gera expectativa de várias coisas. Nem todo mundo que está comigo tem que estar engajado nessas minhas ideias, nessa vida que tenho. As pessoas também são livres. Daí eu prefiro andar com pessoas comuns, que pensam o que eu penso, mas não vivem diretamente das coisas que eu falo e canto. Pessoas comuns, que entendem e têm uma forma mais equilibrada de enxergar a vida. Há predisposição do rapper em ser contestador e nem sempre as pessoas que estão ao meu redor são assim, e eu preciso delas ao meu lado para me dar essa noção do que é o povo e do que eu queria que fosse o povo também."

Ao lado - e não à frente - é onde ele muitas vezes gostaria de estar. Há dias em que Brown deseja ser simplesmente um vagão qualquer do trem que não a locomotiva. "Eu queria ser mais um. Mais uma roda, não o propormaquinista. Não dá para nascer Bob Marley todo dia, não dá para nascer Tupac ou Lula todo dia."

Por isso, hoje, diz que seu rap não tem mais de ser conselheiro de ninguém, e sim companheiro. Os anos de guerrilha - e já se vão 21 desde a estreia em disco, Holocausto Urbano - forjaram o guerreiro de versos duros que hoje busca outras formas de cantar a mesma realidade dos bairros pobres das grandes cidades.

"Não vou mais traçar retrato de lugar nenhum para ninguém. Muito menos para os ricos. Eu não vou mais mapear minha quebrada para os caras. Não vou lavar roupa suja para eles ouvirem."

O tempo passou e o Mano Brown de hoje é bem diferente daquele que ainda habita o imaginário brasileiro. "Eu ouvia pouco. Falava muito e ouvia pouco.Hoje, eu continuo falando muito, mas eu ouço muito também. Isso interfere nas músicas, não tem como negar", constata.

Para ouvir, Brown teve de se aproximar das pessoas ao seu redor, e não no sentido físico. "Antes, os caras faziam festa, todo mundo feliz, só cerveja, e eu na água, caretão, trouxão no meio dos caras. Todo mundo lá e eu só sentado, vendo os problemas sociais da festa. Meus amigos felizes pra caramba e eu: 'É, mano, o segurança lá... [fecha a cara para simular estar nervoso]'. Vi que estava isolado, vivia numa bolha social."

Sem querer passar fórmulas de como fazer rap ou lições de vida, diz: "A gente é o que a gente come, bebe, respira e convive, irmão. Você vai se ilhar em uma filosofia que só pertence a você? Inteligência é estar no convívio, participando, interagindo. Não é se isolar. Essa empáfi a de achar que sabe tudo e os outros não sabem nada passou a me irritar. No rap, isso me irrita".

Ele reconhece a evolução que ainda busca para o seu rap no funk feito ao estilo carioca, com suas batidas cruas e definidoras de uma identidade tribal. Sabe que funk e rap podem formar grande parceria. "Gosto [do funk] porque sou contra esses preconceitos furados de achar que música arrasta [corrompe] alguém. Arrasta quem já é predisposto a ser arrastado."

Para escrever o próximo capítulo da história da sua música, nestes sete anos sem disco inédito dos Racionais, Brown esteve na França, na Inglaterra, em Portugal e, no seu rasante mais importante, na "república dos loucos", como define Christiania, bairro dinamarquês hippie de Copenhague. O lugar mereceu versos para um rap ainda inédito apresentado na nossa conversa e que acabou perdido no computador de algum amigo. A batida, "num estilo mais Los Angeles" - que é onde Brown quer chegar quando produz suas novas bases - foi feita numa espécie de oficina de rap, ao lado de franceses, norte-americanos e colombianos. "Quero que minha música tenha a mesma pegada da música feita pelo George Clinton."

Outros setores da vida de Mano Brown andam na velocidade da luz. Hoje, além da música, sempre o tema que mais o atrai e o deixa solto ("Me perguntam pouco sobre música", diz durante o ensaio fotográfico, enquanto dança um ou outro sucesso do rap norte-americano, uma inusitada exceção já que gosta mesmo é de música antiga), Brown divide seu tempo entre muitas reuniões. É raro o dia em que não rasga as ruas de São Paulo no A3 para sentar à mesa e ouvir propostas de parceria em algum negócio - situação inexistente no passado. Ele afirma sempre fazê-lo pensando no rap, em progresso para a música. "Precisamos evoluir nesse nosso movimento de música."

Mas ele não quer pouco. Não se diz simplesmente aberto para negócios. "Aberto não é o termo", explica, rindo forte. Ainda é jogo duro. "Vamos colocar uma explicação para isso: tudo que for para um benefício coletivo, um progresso autossustentável, estou aí para ouvir. Nada que seja escravagista, nada que seja paternalista do rico para o pobre. Quero que o barato venha, que a gente consiga organizar e que funcione por muito tempo. Esse é o termo do momento, mundial: sustentabilidade", diz, com um sorriso ainda mais forte, para depois contar o desejo de uma indústria de música negra forte no Brasil. "Tenho o sonho de ter tipo uma Motown [hoje os Racionais são donos da gravadora Cosa Nostra]." E, se a Globo voltar a convidá-los para um programa de TV, como já fez no passado, diz, haverá votação instantânea entre os integrantes do que ele chama de "família" - músicos, produtores e amigos que acompanham as ideias de Brown.

Por essas e outras, Brown é chamado de "presidente" pelos parceiros de som que o acompanham no que ele chama de movimento que, com a devida propor novo CD da Banda Black Rio com lançamento previsto
ainda para este ano, ele investiu dinheiro do próprio bolso. Ao lado de William Magalhães, a quem chama de Monstro e que considera outra referência musical, ele colocará nas ruas o álbum Supernova Funk Samba, um caldeirão sonoro negroide. Será duplo, com 33 faixas e participações que incluem Gilberto Gil, Chico César, Seu Jorge, Elza Soares, César Camargo Mariano, Márcio Local e Mariana de Moraes, neta de Vinicius de Moraes, todos convidados de acordo com o gosto musical de William. Também estarão no disco o próprio Brown, Ice Blue (parceiro na vida e nos Racionais), Dom Pixote, o rapper Dubronk's e também o produtor Devasto. "Jovens muito talentosos no rap", avaliza o presidente.

Algumas das músicas do disco já têm causado divergências entre os ouvintes de Brown e até entre seus parentes. "Mulher Elétrica", há tempos disponível na internet, é o saco de pancadas da vez. Nasceu quando ele ouvia discos antigos no bar de um amigo e se deparou com a versão de "Electric Lady", da banda Con Funk Shun. Como não fala inglês, muitas das músicas que cria nascem depois de ele pegar uma versão original no idioma estrangeiro e encaixar rimas em português.

Ao consultar o filho, Jorginho, por entender que o gosto musical do menino reflete o dos jovens de hoje, Brown foi voto vencido ao dizer que estava na dúvida entre gravar um videoclipe de "Mulher Elétrica", sua primeira opção, ou "Mente do Vilão", outra das suas no novo CD da Black Rio, que sairá pela Cosa Nostra. O filho ainda prefere o estilo mais gangsta de o pai cantar. "Fiz um som diferente hoje, mas ainda é o gueto, nunca deixará de ser", argumenta. Mas ele não está desamparado dentro de casa. Dodô (Domênica) apóia a ode às mulheres. Brown também gosta de mostrar seus novos sons para os jovens dos becos da Zona Sulantes de lançá-los. Ele respeita a opinião deles e, não raramente, ouve muitas críticas às músicas.

Para ele, trabalhar com William Magalhães foi como estar ao lado de um de seus ídolos internacionais, Barry White, cujo som "Just the Way You Are" o faz tremer: "É muito antiga. Quando toca, vejo lá no fundo do baú da vida, eu estava lá não sei onde, sinto saudade das pessoas. É por isso que gosto dessas músicas. Sinto até o cheiro do café da época, mano, o cheiro da comida''.

O rapper Tupac Amaru Shakur, morto a tiros em setembro de 1996 em Las Vegas, ainda é a referência maior. "Thugz Mansion", do próprio, é o melhor rap internacional para Brown, que na maior parte do tempo ouve "muita música velha", como diz. "Pra Mãe", de Nill no álbum Longa Estrada Caminhada, foi o rap em português que mais o marcou até hoje. Ao ver a mãe, dona Ana, enquanto estava hospedado em Salvador, à espera de mais uma apresentação, Brown conta que chorou durante meia hora refl etindo os versos de Nill. "Comecei a pensar coisas muito profundas e que não dizem respeito à maioria."

Quando não está com os Racionais nem fazendo música nova, Brown dedica tempo a outra ação para chacoalhar o rap: o coletivo Big Ben Bang Johnson. "É uma explosão musical bem louca, tem a ver com o Ben Jor e também com o ex-corredor Ben Johnson", explica.

O Big Ben, um nome que Brown sonhou soar como o de uma banda funk dos anos 70, é a soma de vários nomes do rap paulistano que, a princípio, foram reunidos por Brown para cantar apenas músicas inéditas. Mas ele foi voto vencido. Não tem integrantes fixos nem repertório definidos. É mutante. Muda como um time de futebol e reúne principalmente os rappers que têm o respeito do próprio público dos Racionais, entre eles Helião, Sandrão, DJ Cia (RZO), DJ Lá, Cobra e Cachorrão (Conexão do Morro), Aplik e Wdee (Consciência Humana), Ice Blue, Dom Pixote e Du Bronks.

Nesse período de gestação do novo disco dos Racionais, assim como Brown e Blue levam à frente o Big Bang, KL Jay e Edy Rock também fazem apresentações com outros artistas do rap nacional, principalmente com o grupo A Família, de Campinas, e com rappers da nova geração, como Thig e Sombra.

Muitas das músicas do novo disco dos Racionais, provavelmente metade delas compostas por Brown e a outra metade por Edy Rock, mas sempre com várias participações, são mostradas entre os quatro integrantes do grupo quando eles estão em quartos de hotéis, entre um show e outro, segundo o DJ KL Jay. "Queremos que as músicas deste nosso novo disco fiquem pelo menos uns dez anos na cabeça das pessoas. Por isso estamos nos preparando bastante para quando entrarmos no estúdio no começo de 2010", projeta o DJ. Das novas, "Se Tá na Chuva" é conhecida desde outubro de 2006. Quando há álbum novo na rua, os Racionais fazem de quatro a seis apresentações por final de semana em todo o país.

Segundo Rosemeire de Jesus, empresária do grupo, com disco novo ela recebe em média 50 ligações por dia para possíveis apresentações e, não raramente, de pedidos inimagináveis para outros artistas da música brasileira. "Tem muita gente que liga até mesmo para pedir ajuda financeira", ela conta. No time de maiores de todos os tempos escalado por Brown estão, além de Barry White e Tupac, Marvin Gaye (cujo álbum Here, My Dear, de 1978, um presente de Zegon, a metade brasileira do grupo N.A.S.A., não sai do som do seu carro), The Bar- Kays, Earth, Wind & Fire, George Clinton e, com a camisa 10, James Brown. "Quando tiver uma casa grande lá no Jardim Apurá [bairro na Zona Sul de São Paulo, meio mato, meio urbanizado], quero ter caixas de som em todos os lugares para quando for receber meus amigos. Caixas embutidas até nos muros. Quando acordar, quero só apertar o play e viajar", diz. E qual será a primeira música nesse empreendimento? Sugiro "Make It Funky", de James Brown. "Essa é bruta!", devolve.

As novas ideias de Brown têm bastante influência do primo, Paulo Eduardo Salvador, também 39 anos, o Ice Blue, o mais empresarial dos quatro Racionais. Foi com Blue que Brown começou. Eram a dupla B.B.Boys (Black Bad Boys). Inspirados nos norte-americanos do Run DMC, mudaram para começar os Racionais MC's, com Kléber Geraldo Lélis Simões, o DJ KL Jay, "o mais sério dos quatro", nas palavras de Brown, e Edvaldo Pereira Nunes, o Edy Rock, "Coquinho" para Brown, "maloqueirão que nem eu". Foi Milton Sales, o primeiro produtor e empresário dos Racionais, um segundo pai de Brown, segundo o próprio rapper, quem os juntou.

"Sempre digo ao Brown: 'Temos de parar para ouvir quem quer que seja, mesmo que amanhã a gente vá falar não. Foi assim quando assinamos contrato com a Sony para distribuir um disco nosso. Não deu certo, já era. Cada um para o seu canto", conta Ice Blue. Ele afirma que o mais difícil sempre é conseguir transitar entre os extremos sociais, atravessar a ponte e sempre ser da mesma maneira, sem mudar a identidade, ser o mesmo homem.

A ponte, no caso, é ao mesmo tempo, símbolo de uma segregação socioeconômica tão criticada pelos Racionais desde 1988 - e que só depois de muitos anos passou a ser enxergada por Blue pelos dois lados - e elo entre esses mesmos opostos da cidade, os mais e os menos abastados.

Ele diz que, agora, a primeira intenção é não falar do monstro sem conhecê-lo. "A gente tem que dar oportunidade para um novo momento. Somos gravadora independente. O jeito de distribuir a música agora é diferente, é por meio do marketing. E vai ser por de um telefone se uma marca pagar. Hoje, a pirataria e a internet são incontroláveis. Sou a favor de colocar o novo disco dos Racionais de graça na internet e o fã paga quanto quiser", diz Ice Blue, enquanto se prepara para ir ao QG de William Magalhães, onde ouviríamos algumas músicas novas de Brown e seus aliados.

Esse novo momento dentro dos Racionais teve, claro, espaço para polêmica. No ano passado, Mano Brown e Ice Blue aceitaram uma encomenda da Nike e encabeçaram a produção de um disco disponibilizado para download gratuito no site da empresa. "Eles querem que eu faça uma ponte com a juventude para aliar esporte, música e a marca", conta Brown.

O disco O Jogo É Hoje, com 11 faixas cantadas por duplas de novos talentos do rap nacional selecionadas por Brown, rendeu o que ele diz ser, sem revelar quanto, "um bom dinheiro para os padrões do rap". E faz questão de afirmar ter investido boa parte na indústria do rap.

A porção dos "novos tempos" que mais interessa aos ouvintes - a música - deve chegar no primeiro semestre de 2010. Se depender de Brown, o trabalho inédito dos Racionais sai antes da Copa do Mundo na África do Sul. Ele gosta de imaginar que o público dos Racionais e até alguns dos jogadores da seleção brasileira possam se inspirar no seu som ainda antes da disputa do mundial de futebol. E não é um mero devaneio do fanático torcedor do Santos. "O Bob Marley também era santista, mano", gosta de lembrar.

Muitos jogadores de futebol, a maior parte originária de famílias humildes, gostam dos Racionais. Kleber, lateral esquerdo do Internacional e que disputa vaga na seleção para ir à Copa, contou recentemente para Brown (os dois se conhecem desde os tempos em que ele jogou no Santos) que a faixa-título do álbum promocional (cantada por Dom Pixote e Ice Blue) deixou os jogadores do time gaúcho extasiados momentos antes de um clássico contra o rival, Grêmio. "Os caras do Inter ficaram em choque com o som. Eles entraram com tudo, cheios de garra", diz o artista, orgulhoso.

Em março deste ano, Ronaldinho Gaúcho contratou os Racionais para um show na sua festa de aniversário em uma fazenda na região de Porto Alegre. "Ele viu a gente e falou: 'Não acredito!' E nós também: 'Não acredito!' Maior barato. Ele curte mesmo. Ele sabe que o tempo [aqui no Brasil] é curto. Então, curte intensamente porque sabe que vai ficar lá [fora do país] um ano sem ver ninguém. É louco você ver o cara empolgadão com a sua pessoa ali, sem nem saber o que fazer para agradar", conta Brown. "Negro Drama" (do disco Nada Como um Dia Após o Outro Dia, de 2002) está na tracklist do site oficial do jogador do Milan e também foi a música escolhida por Ronaldo Fenômeno para comemorar três gols marcados em 8 de julho deste ano. Teria sido uma jogada mercadológica do patrocinador e seu atleta símbolo? "Será? Pode ser", desdenha Brown.

O atacante Robinho, hoje no inglês Manchester City, "melhor nos últimos tempos", nas palavras de Brown, também o respeita. "O Robinho me ligou no Natal", conta. Brown foi um dos convidados para a festa de casamento do atacante da seleção.

Enquanto devora, entre goles de refrigerante, dois ou três lanches preparados pela nossa anfitriã, Brown diz gostar de jogar videogame com o filho, "sempre com o Santos", e também que o menino, um ótimo dançarino de hip-hop, nas palavras do pai coruja, aprende muito sobre músicas antigas quando joga Grand Theft Auto e sintoniza a rádio virtual "Los Santos". Ele folheia brevemente o novo livro da dona da casa, onde vê retratos de Cartola e fica impressionado ao vê-lo sem óculos escuros.

Mano Brown é um profundo conhecedor do soul, do funk e da disco music dos anos 60 e 70. "Eu o comparo com um Obelix, mas ele caiu num caldeirão de sabedoria musical", diz William Magalhães. E, nessa, até o Rei foi captado pelo radar criativo do artista do gueto. Roberto Carlos tem o inspirado em uma das músicas inéditas. Sim, Brown ouve todo tipo de música - incluindo Guilherme Arantes, um cara "gente boa pra caramba" para quem ele já cantou "Marina no Ar" quando o viu em um aeroporto.

"Aonde quero chegar ouvindo Roberto Carlos? Essa é uma boa pergunta. A música começou quando assisti ao enterro de Michael Jackson pela televisão e vi um monte de gente cantando, aquela comoção. Fui embora pensando no tema 'quanto vale o show'? Tem uma música do Roberto que fala [Brown imita o Rei]: 'o show já terminou'. Fui prestar atenção no som do Roberto Carlos, na letra, na ideia... Que letrão! O cara está falando para a mina que, para ser feliz, tem que separar agora. Acabou, vamos tirar a maquiagem e pá, umas ideias muito profundas. Quando você vê uma cena parecida assim no dia adia, você fala: 'Tem a ver, né, mano?'. E o cara já falava isso em 1973. Louco, hein?" Mas Brown ainda está com dificuldade para finalizar a música, intitulada "Quanto Vale o Show" em tempo de colocá-la no próximo disco dos Racionais. Não encontrou nenhum produtor que goste especificamente dessa sua viagem sonora com o Rei. Ele já tem a base da música em mente e, sem encontrar quem a execute, prevê produzi-la sozinho. Quer fazer o som em cima de trechos "não muito famosos, uns metais loucos", do tema da série cinematográfica Rocky, "Gonna Fly Now". Empolgadão, ele eleva a voz para explicar sua criação. "Show, show, show! Mas ninguém viajava na ideia, malandro. Tem aquela parte 'Califóóóórnia' (sic) [tenta imitar os vocais da música], tem uns trechos na sequência ali que são pá, mano, é o auge do barato, o barato arrepia. Eu fui tentar explicar na ideia e os caras [os produtores com quem tem trabalhado] não têm muita paciência para fazer. Eles não gostam do som em si, por causa do rock. Os caras são conservadores, mas eu vou fazer. Essa tem de vir no disco novo, senão passa o tempo."

Outra criação já batizada é "Cores e Valores", um som descrito como bastante próximo de "1 por Amor, 2 por Dinheiro", faixa do disco Nada como um Dia... A música terá várias participações de artistas do rap nacional. Brown sempre quer trazer as pessoas a seus projetos, abrir portas. Edgar Vida Loka, um parceiro de Brown, já fez sua parte da letra e surpreendeu o amigo. "Cores e valores é a noção de cada um, certo? O Edgar escreveu a parte dele falando assim: 'Stilo Schumacher, amarelo ou vermelho'; olha as noções de cores dele, 'um preto no piloto, uma rosa do lado'. Olha onde ele foi nessa ideia das cores, eu achei louco [Brown canta um pedaço da letra de Edgar]. São cores. Cores para ele é isso aí. Eu já vou falar de outras coisas, falar de torcida organizada, escola de samba, time de várzea. Mas já entendi a mente do Edgar e achei louco também. Ele fala de preto no piloto, mas não precisou falar do racismo, já deu para entender."

Neste momento, analisando a letra de Edgar, Brown conclui: "É aqui que o rap mudou. Às vezes, o subentendido é mais forte do que a letra em si, direta. Um preto no piloto num [Fiat] Stilo Schumacher amarelo é enquadro, malandro. O segundo raciocínio é melhor do que o primeiro. É nesse estágio que a gente tem que melhorar".

Brown diz que um exemplo de letrista a ser seguido é Chico Buarque, com quem gostaria de fazer músicas. "Ele tira surfe em cima dessas ideias aí, por isso que ele é o cara. Faz você pensar na primeira parte, na segunda ideia, na terceira ideia, na quarta, ele faz você pensar em todas ao mesmo tempo." E cita a estrutura da obra-prima "Construção": "Ele troca as palavras e você pensa em 300 mil coisas quando ele muda uma palavra para o lugar da outra. Vamos nos inspirar nos bons".

E com Caetano Veloso, assim como com Chico Buarque, um artista respeitado pela intelectualidade do Brasil, ele pensa em fazer um som? "Tenho o maior respeito pelo Caetano, mas que tipo de som a gente faria? Alguém ia ficar esquisito nessa. Não que eu não goste dele. Acho o Caetano do caralho. Ele é inteligente, está à frente do tempo o tempo todo." Brown também afirma ter vontade de gravar um dia com "gente do contexto" na música brasileira, como Zeca Pagodinho, Leci Brandão ou Djavan. Já gravou com o pagodeiro Belo e o com partideiro alto Almir Guineto, mas quer repetir essas parcerias. Entre elas, a mais desejada é a com o cantor e compositor Cassiano, que hoje praticamente vive recluso. "Já tentei, mandei recado, mas ele não quer, porque já foi muito enganado. Ele não está a fi m de começar do zero uma nova relação de amizade. Queria ouvir da boca dele. Por que você não quer, Cassiano?"

Nessa mesma toada, reconhece sempre ter usado suas letras para denunciar abusos por parte da polícia, mas hoje prefere fazer isso com mais sagacidade, ironizando, sem tratar os policiais com tanta seriedade. Ele canta um trechinho de uma de suas novas músicas, "Mente do Vilão": "Pé de porco é pé frio, vocês são meia de lã, rã, rã, rã". Pé de porco é polícia. Ele não quer mais dar nomes aos bois por acreditar que, quando aponta o dedo para um, deixa um rebanho de inimigos passar despercebido. "Atrás da farda tem um trabalhador mal remunerado. Chapéu atolado, a mente dele foi feita lá dentro [da corporação]. Ele não é a peça principal, ele é uma das peças. Agora, é claro, na rua, é com ele que a gente vai bater de frente, não é com o sargento, com o coronel. Um policial nunca é igual à gente."

Na maneira de Brown enxergar a sempre tensa relação entre a maior parte dos jovens das periferias e a polícia, principalmente a militar, ele diz ter percebido que o policial negro tende a ser mais agressivo do que o branco. "Na hora do enquadro, ele pensa que é íntimo seu. É a falha do policial negro. Ele quer ser íntimo. Ele não aceita ser confrontado. E a tendência do policial negro é ser mais agressivo do que o policial branco. Ele quer se impor."

O último grande incidente envolvendo o grupo e a PM aconteceu durante uma apresentação do evento Virada Cultural, na Praça da Sé, em maio de 2007, quando um show foi interrompido após parte do público que assistia os Racionais ter entrado em conflito com os policiais. A confusão, nunca antes comentada publicamente por Brown, foi causada, segundo ele, porque um PM caiu no chão quando tentava deter um jovem. "Vi a cena, foi do lado esquerdo [do palco]. Falei uma frase: 'A polícia foi feita para seqüestrar escravo fujão e é isso até hoje'." Depois, segundo ele, o PM agrediu o jovem que o driblara. "Os moleques viram e todo mundo se revoltou. Eles [PMs] estavam ali dispostos a arrumar treta. O barato era o Racionais e eles já vão com medo. Já são incumbidos de fazer uma função com medo. E um cara com medo... A primeira atitude violenta foi deles."

Mas foi em janeiro de 2005 que Mano Brown enfrentou um dos dias mais tristes de sua carreira. Quando os Racionais cantavam para 1.200 pessoas em Bauru, interior de São Paulo, o estudante Luís Fernando da Silva Santana, de 19 anos, foi morto a tiros por José Roberto Lourenço de Moura Júnior, de 21. Ainda com vida, Luís foi arrastado ao palco, sangrando muito. Brown se perdeu no "Pai Nosso" que rezara. "Invadiram o palco para tirar foto, pedir autógrafo, por cima do corpo. Fiquei nervoso, empurrei uns fãs. Na volta do show, deu aquele vazio, aquela incerteza de você estar ou não no caminho certo, de você ter culpa ou não, se podia interferir. Em Brasília, na saída de outro show, vi dois .mortos com a camisa dos Racionais. Nunca quisemos, mas também sei que a gente canta para a rapaziada que é fio desencapado." Brown também planeja fazer um filme. Na sua cabeça, o roteiro já começou a ser escrito e a história começa com uma narração ao estilo de Gil Gomes, radialista famoso por roteirizar dentro da cabeça de seus ouvintes, com voz inconfundível, a violência em São Paulo.

A inspiração cinematográfica de Brown passa pelo documentário Wilsinho Galiléia, feito em 1978 pelo diretor João Batista de Andrade e que era para ser exibido no Globo Repórter, mas foi embarreirado pela ditadura. A produção mostra a vida de um jovem ladrão, famoso na crônica policial paulistana no fi m dos anos 70 e morto pela polícia. Em 2007, Brown assistiu a fita ao lado do diretor na sala da veterana fotógrafa. "Ao ver aquelas imagens de favela dos anos 70, lembro-me da minha época, de quando eu era moleque. Chapei." Fez inúmeras perguntas a Andrade e soltou: "Quem sabe um dia a gente ainda não faz um trampo junto?"

No meio deste ano, quando falava com Rappin' Hood sobre Wilsinho Galiléia, Brown ficou abalado. Perguntara a Hood se ele conhecia em sua área da cidade um lugar chamado Cinco Esquinas, na divisa entre o bairro paulistano do Sacomã e a cidade de São Caetano do Sul, no ABC paulista. Antes da resposta afirmativa, Hood quis saber o motivo da pergunta. Assim que ouviu de Brown sobre o documentário, o amigo disse que, no dia anterior, estivera com Biscuí, ladrão que perdera um olho durante um roubo ao lado de Wilsinho e um dos personagens do filme. O agora "tiozão com olho de vidro" havia mandado um abraço para Brown. "Eu não acreditei, mano." Imaginava que todos os personagens retratados por João Batista estavam mortos, pela vida criminosa que levavam. "Até a mãe do Wilsinho está viva. Mora num barraco cheio de cachorros."

Menino nascido no hospital da liberdade, no Centro de São Paulo, Pedro Paulo foi criado em bairros humildes da Zona Sul com o suor escorrido exclusivamente do rosto da mãe. Dona Ana, 80 anos completados dia 9 de dezembro, foi durante muito tempo a única pessoa da família que conhecia. Do pai, de origem italiana, nada ou quase nada se sabe. Mágoa, tristeza? "Não dá para ter mágoa de uma pessoa que você nunca viu." Não ter tido o pai ao lado ajudou a moldar o caráter de Pedro Paulo. O pai faltou, mas ele e a mãe tiveram ajuda de Isac Santa Rita, pai-de-santo, filho de nigerianos, pai de 20 filhos legítimos, e que, vez ou outra, não cobrava o aluguel de dona Ana na casa em que ela era inquilina com o filho. "Ele nos ajudou demais. Como não tinha o pai presente, seu Isac era o homem de barba que beijávamos no rosto. Ele tem 90 anos e é o pai-de-santo mais zica que já existiu", conta Brown, que puxa na memória o ano de 1994. Depois de conseguir juntar R$ 7 mil embaixo do colchão, tudo ganho com o rap, deu entrada em uma partamento de um conjunto habitacional e deixou o aluguel.

Com Pedro Paulo ainda criança, dona Ana, vez ou outra, era chamada ao colégio interno (metade pago pela mãe e metade pelo patrão dela à época) onde o filho ficou por dois anos e meio para conversar com a professora dele, que queria saber por que o menino, sempre calado e pensativo, só usava roxo, marrom e preto nos seus desenhos. "Eu não gostava de amarelo, verde, azul-clarinho." Estudou até a antiga 8ª série por porque, diz, não conseguia aprender biologia, química nem física. Mas aprendeu uma tática de guerrilha - ou das cavernas - para conquistar o sexo oposto. Na época em que ganhara a maioridade, estava numa festa e simplesmente carregou a mulher que hoje é sua esposa. "Foi do jeito mais absurdo. Eu joguei ela no ombro e subi as escadas. Estou com ela até hoje." Aos 19 anos, já com os Racionais despontando com sucessos como "Hey Boy" e "Pânico na Zona Sul", Brown foi lapidado por Milton Sales, que sempre disse ao rapper ter ajudado a criar o Partido dos Trabalhadores. Muito do Mano Brown conhecido pelo grande público teve influência de Milton. "Ele até hoje me dá puxões de orelha, sempre com razão e autoridade", diz o rapper. Até por essa influência Brown admira tanto o presidente Lula e diz ter vontade de que a ministra Dilma Roussef seja a escolhida nas próximas eleições presidenciais. "Mas, para isso, ela tem de falar com a alma." Por apoio a Lula, Brown admite votar em Dilma, mas não descarta escolher a ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva em 2010.

Outros parentes Brown só foi conhecer quando já estava no auge da fama, em 1999, durante um dos shows de lançamento do épico e já clássico Sobrevivendo no Inferno, dos Racionais. Tinha 29 anos e, antes de cantar em Salvador, resolveu partir de carro com dona Ana e o amigo Black Blue (um dos produtores dos shows dos Racionais) para Riachão do Jacuípe, perto de Feira de Santana. Havia 55 anos que aquela senhora, até um pouco dura com o filho e derretida com os netos, não pisava na cidade. Ao chegar, ela foi reconhecida pelo padre. Em poucos minutos, alguns parentes se aproximaram.

Um deles viu o filho de Ana e, depois de cumprimentá-lo, perguntou: "Essa sua tatuagem aí no braço direito é igual àquela da capa desse novo disco dos Racionais, não é?" Surpreso, Black Blue entrou na conversa: "Ô truta, você não conhece, não? Seu primo é o Mano Brown!" Foi uma festa só e, em pouco tempo, "uns 500 parentes cercaram a praça", narra Brown, que ficou nervoso por Black Blue ter falado sobre sua identidade. "A atenção do momento tinha de ser a minha mãe." Pedro Paulo sabe que dona Ana tem orgulho do filho, mas não costuma ouvir isso dela. "Ela fala mais para as amigas." E até hoje, se dona Ana vê o filho com um cigarro nas mãos, dá sermão. "Ela bate na mão e derruba o cigarro."

Naquele mar de parentes recém-descobertos, o artista percebeu, porém, que ainda havia muito a descobrir. "Nunca tive família de sangue. Queria ver se alguém parecia comigo, se o meu nariz era de lá. Mas eu descobri que não. A minha raiz tem muito a vê com meu pai. Meus primos são diferentes de mim, são mais escuros. Não tem influência branca no meio deles - talvez muito pouco, bem menos do que eu. E eles são humildes mesmo. Povo do Nordeste, do Norte, sofredor, guerreirão mesmo. Indo lá, eu descobri que tinha muito parente meu em São Paulo que morreu. Durante a minha infância, eles estavam em São Paulo e eu não sabia."

Então com 29 anos, Brown embarcou numa ideia de que precisaria ganhar muito dinheiro, pois achava que tinha de ajudar todo aquele povo de Riachão, coincidentemente também chamado de Fundão, assim como o pedaço da Zona Sul de São Paulo onde ele costuma se esticar no divã madrugada ou outra. "Gosto de ir na Fundão para escutar as filosofias dos mais loucos, daqueles perdidos na madrugada. Às vezes, antes de voltar para casa, vou lá ouvir." Para Brown, aquela família de Riachão era sua responsabilidade. "Eu estava com a oportunidade e eles não tinham. Mas descobri que eles têm uma dignidade que é muito maior até do que uma ajuda minha. Eles não dependem da minha ajuda para ser nada. Se tentasse ajudar, eu atrapalharia."

Também aos 29, no auge das conquistas com Sobrevivendo no Inferno e a música mais reconhecida do disco, "Diário de um Detento", Brown "chapou o coco", como diz. Perdeu o rumo. Por vontade dele, que só queria ficar o dia todo na favela da Vila Fundão, os Racionais pararam de fazer shows naquele período. Foi a época em que o rapper conviveu muito com Emerson, um amigo de 25 anos de idade que o contestava bastante, e por isso ganhou sua admiração. Neguinho Emerson era envolvido com o crime e, como Brown acreditava fazer músicas para pessoas como o amigo, essa relação de amizade o fez questionar o alcance de sua música. Decidiu, então, remodelar os Racionais. Principalmente depois de não ter conseguido resgatar Emerson, que foi inspiração para algumas músicas e morreu num acidente de moto, do mundo do crime. Reza a lenda que Neguinho Emerson cansou da vida e se jogou de moto numa contramão.

De cor parda ("e raça negra"), Brown diz que os iguais a ele, mestiços, sofrem mais com o racismo do que os negros atualmente. Na visão dele, os pardos não usufruem do recente fortalecimento da autoestima do povo negro, que acontece há mais de uma década e engloba desde o sucesso dos Racionais até a eleição de Barack Obama. "No Brasil, você não vê gente da minha cor fazendo comercial, fazendo nada. Se eu não fosse o Mano Brown, seria invisível na rua." Há uma música sobre o tema pronta para o novo disco dos Racionais, não por acaso intitulada "O Homem Invisível".

Nas conversas com o negro Ice Blue, o assunto também surge. "Sou até muito mais discriminado do que o Blue. E os caras da minha cor, desse meu tom de pele, também. Você vê nas cadeias, na Febem. O cara tem medo hoje de discriminar um cara como o Blue, tem medo de falar um 'a' para um preto. Agora, um cara como eu, é toda hora, irmão. É pobre, tem cara de pobre, tem cor de pobre. Se quiser, fala que é 'moreninho'. Tenho um biótipo de ladrão. É um lance do brasileiro. Quando a escravidão estava para ser abolida, tinha muitos filhos de branco com preto nas ruas, abandonados, que não eram nem um nem outro, e foram virar ladrão mesmo. A primeira classe de gente abandonada foi a dos filhos de branco com negro, o filho rejeitado do patrão. Foram os primeiros vagabundos, que não serviam nem para um nem para outro, nem para escravo nem para senhor. É uma teoria pequena minha, não é a regra."

Invertendo o jogo, admite que ele mesmo, por mais evolução que persiga, ainda tem suas questões de preconceito para resolver. "Eu era pobre e louco, não conseguia ver um playboy como um ser humano. Hoje consigo, mas não significa que goste dele. Sei que ele deve ter filho, mãe, tudo, mas isso não quer dizer que eu queira fazer parte da família dele." Com olhar firme, um cigarro entre os dedos e ciente de aonde quer chegar com sua música, Brown finaliza: "Se existe algum tipo de radicalismo, estou exercendo mais ele hoje".


FONTE:ROLLING STONE / ANDRÉ CARAMANTE - Edição 39 - Dezembro de 2009

Racionais MC’s estão na capa da edição de aniversário da Rolling Stone Brasil









Sem lançar disco há 11 anos, com opiniões contraditórias e quebrando as regras do jogo, o quarteto permanece como a única voz da música a mobilizar um exército de brasileiros




O olhar de Pedro Paulo Soares Pereira está fixado no horizonte do Capão Redondo, periferia sul de São Paulo. Apesar de ser primavera, o céu cinza-chumbo dá o tom àquela tarde fria de outubro. Sentado em uma cadeira plástica, com um caderno surrado apoiado na perna e contra o qual desliza o lápis mal apontado, ele está na varanda da Casa Azul, o porto seguro dele na Favela da Godoy. Ali, uma rede de proteção – invisível para quem não é da área –, formada por moradores e amigos, faz a triagem de quem, quando e como pode ter acesso a Pedro Paulo, chamado pela maioria de Brown e, pelas crianças, de “tio Brau”. Mano Brown e o grupo de rap do qual ele faz parte, o Racionais MC’s, estão na capa edição de aniversário da Rolling Stone Brasil, que chega às bancas na próxima quinta, 14. Avessos a entrevistas, os quatro integrantes – ao lado de Brown, Ice Blue, KL Jay e Edi Rock – falaram com exclusividade ao repórter especial André Caramante, relembrando o duro início de carreira e falando sobre diversas polêmicas (ou críticas) que envolvem o nome do grupo.

Uma delas foi um show duas semanas depois do encontro acima, em uma casa noturna “de playboys”, a Royal – com Kleber Geraldo Lelis Simões, 44, Paulo Eduardo Salvador, 43, e Adivaldo Pereira Alves, 43, respectivamente DJ KL Jay, Ice Blue e Edi Rock –, cantando músicas que protestam contra tudo o que se via ali. Eles, “os quatro pretos mais perigosos do Brasil”, como sempre se autodenominam.

A justificativa veio no curto discurso antes de “1 por Amor 2 por Dinheiro”. “Vamos aos fatos. O que leva um homem a estar na rua domingo à noite? Você devia estar descansando, cara. Só há um motivo que me traz para a rua e um deles é esse aqui, ó”, declarou Brown, antes de KL Jay soltar o ruído de uma caixa registradora. Quando questionado mais tarde sobre o show, Brown foi sucinto: “Ele [Marcus Buaiz, dono da boate] não pagou pau pra mim e eu não paguei pau pra ele. Estávamos ali para fazer negócio”.

O fato é que o camisa 10 do Racionais MC’s defende hoje o trabalho do quarteto como um “produto” – para quase qualquer plateia, em quase qualquer lugar. E eles lidam com os riscos disso. “Tem de ter cuidado para não chapar. A Billie Holiday chapou. Fazia show com os brancos a venerando e sabia dos pretos enforcados por aquela plateia que a aplaudia”, divaga KL Jay, para quem o discurso ideológico continua ali, apesar da eficácia duvidosa junto àquele público. “Acho que os convencemos de que estamos certos, mas eles não assumem que estão errados [risos].”

O “show Robin Hood” (“quem tem mais paga um pouco mais para nos ver cantar; que tem menos paga menos ou nada”, diz Brown) passou longe de ter sido um momento tenso na carreira do grupo. Em 25 anos, eles pegaram em armas por ideologia, disseram não a uma indústria pré-estabelecida e deram um nó no modelo de sucesso. Há duas décadas, já haviam despertado discussões por terem angariado fãs bem-nascidos com Raio X Brasil (1993), que trazia “Fim de Semana no Parque” e “Homem na Estrada”. Parecem, portanto, suportar tranquilamente uma nova geração de admiradores abastados, um Lobão vociferante ou críticas por Edi Rock ter ido à Globo divulgar o trabalho solo dele.

“O rap fez mudar muita coisa – ensinou o cara a não ter vergonha de onde mora, do cabelo, da cor, a poder falar da sua quebrada”, avalia, a certa altura, Blue. “Hoje, você vê qualquer moleque falando que mora na favela de peito aberto, mesmo que não more.” E também disse ao negro que é preciso estudar e se cuidar, completa KL Jay. “Racionais é utilidade pública”, diz o DJ, o mais passional e radical da família.

Durante a entrevista, Brown também revela ter cometido pequenos furtos na juventude. “Não tem por que mentir agora. Era uma época em que você roubava ou passava fome. Não era para ostentar. Todos os meus amigos, da mesma geração, começaram a roubar ao mesmo tempo.”

“Posso dizer que o rap me salvou. E o casamento foi minha segunda salvação. Me casei com 18 anos, em um momento em que eu estava com um pé no crime e outro fora. Minha mulher me deu um rumo”, Brown diz sobre Eliane Dias, hoje na linha de frente dos negócios do grupo, com a produtora Boogie Naipe.

Outro assunto que não ficou de fora foi o aguardado novo disco do grupo. Quando dizemos que os fãs estão ansiosos e parecem não se contentar mais com as músicas “soltas” lançadas nos últimos anos (“Cores e Valores”, “Mente do Vilão”, “Mulher Elétrica”, “Dance, Dance”, “Mil Faces de um Homem Leal (Marighella)”, “Gangsta Boogie” e “Homem Invisível”), Brown afirma que ainda não há data para um álbum completo, mas que preparam um EP para ser lançado “em breve”.

“Pode ter até seis faixas inéditas e será para comemorar os 25 anos. Será para download. É para criar um fluxo no nosso canal e um grande tumulto na internet”, diz Blue, o mais negociador do grupo e aquele que diz “não” para quem propõe negócios vistos como pouco rentáveis aos quatro. “Ficamos 20 anos resistindo a não ser uma banda grande, correndo. Éramos a banda do ‘não tem’: não tem site, assessoria, porra nenhuma. Agora tem. Saímos dos problemas. Nós somos chatos pra caralho.”

A expressão “em breve” parece vaga, e de fato é. Na edição de dezembro de 2009 da Rolling Stone Brasil, Brown afirmou que um novo disco do quarteto seria lançado até a Copa de 2010. Mas Edi Rock, o Cocão (ou Coquinho, como é chamado pelos amigos) é mais preciso – ou menos impreciso. “Vamos entrar em estúdio em 2014. O disco levará de seis meses a um ano para ficar pronto.”

FONTE: ROLLING STONE / REDAÇÃO

domingo, novembro 10, 2013

‘Vou enfrentar o racismo até morrer’, diz o rapper Emicida



Cantor fala sobre preconceito, a morte do pai e a vida em família afetada pela carreira, temas das músicas ‘Crisântemo’ e ‘Hoje cedo’
Artista recebe Tulipa Ruiz e Wilson das Neves no Circo Voador, este sábado, durante primeiro show no Rio após lançamento de disco novo




Os óculos escuros não tiravam o cansaço do rosto. Músico e empresário de si mesmo, dono de um selo e responsável pela produção de tudo na sua turnê, Emicida chegou à sede do GLOBO com cara de escritório, num dia dedicado a entrevistas para divulgar seu show deste sábado no Circo Voador.

Vai ser a primeira apresentação no Rio depois do lançamento de “O glorioso retorno de quem nunca esteve aqui”, primeiro disco de estúdio do rapper que há anos é o protagonista do seu gênero no Brasil. Extremamente confessional, o álbum exigiu do artista coragem pra abordar de forma direta assuntos pessoais como a morte do pai, tema de “Crisântemo”; e os danos que a carreira causou no convívio com suas próprias mulher e filha, enredo de “Hoje cedo”.

Em 40 minutos de entrevista, Leandro Roque de Oliveira, de 28 anos, falou abertamente sobre esses e outros temas, como preconceito racial, as acusações de machismo por causa da faixa "Trepadeira" e o sonho de publicar uma HQ.

Leia, abaixo, a entrevista.

Depois de toda a projeção que você já conquistou, qual a importância desse primeiro disco de estúdio?
Só conseguimos estrutura pra gravar o disco agora, e esse processo também foi de amadurecimento musical. As minhas mixtapes foram feitas de forma rápida, barata e solitária. O beatmaker mandava o instrumental pela web e eu gravava a voz. Ele na solidao dele e eu na minha. Mas música tem que gerar uma historia, o convívio no estudio faz a música evoluir, e a energia dessa vivência também vai para o álbum. Conversei muito com o Felipe Vassão (produtor) sobre o Norte do CD, que é a musica brasileira dos últimos 100 anos com a pegada contemporânea do rap.

As participações de Tulipa Ruiz, Wilson das Neves, MC Guimê, Pitty e vários outros mostram influências de diferentes gêneros no disco...
Foi natural, tem a ver com São Paulo. Minha música é um espelho de São Paulo, caótica, com informação bombardeando a gente o tempo todo. Às vezes, parece desconexo. Queria que os convidados contribuíssem com as verdades deles. Quando terminei “Hoje cedo”, percebi que a Pitty era a garota que poderia imprimir aquela verdade, que sentiria a importância de se contar essa historia.

“Crisântemo” tem participação da sua mãe e fala sobre o alcoolismo do seu pai, que morreu numa briga de bar. Como foi pra você lidar com o tema?
Rap fala muito de vencedor, o cantor dizendo “olha como sou foda”. “Crisântemo” fala sobre uma derrota. Uma derrota que não diminui uma pessoa, mas é a derrota de uma familia para um mundo violento. Se aproxima muito de “Iracema”, do Adoniran Barbosa, que fala de morte, solidão e lembrança. “Crisântemo” fala disso também, da perspectiva de uma criança que virou adulto e de uma mulher que ficou sozinha com quatro filhos, segurando esse BO. No final das contas, sou um contador de histórias.

Qual a história por trás desse rap?
É a minha história e da minha mãe. Perdi meu pai com 6 anos, em 1991, e nunca mais tocamos nesse assunto. A morte nunca foi um tema. Muita gente da minha família morreu, a gente foi nos velórios, mas nunca falou disso. Pulei de cabeça nesse assunto e quis muito trazer a perspectiva da minha mãe. O disco todo tem muita participação feminina mas, no caso dessa música, com a minha mãe, isso ganha tom visceral. A presença dela também expõe a perspectiva da mulher preta da favela, pra falar de ausência do estado, da periferia, da violência, do candomblé...
Sua história também é uma história de racismo?
Sim. Sofri mais na infância. O racismo é muito mais cruel com as crianças, porque ele destrói a autoestima num momento em que a gente não faz idéia do que seja racismo. Falei disso na música “Cê lá faz ideia” (da mixtape “Emicidio”, de 2010), que diz “Cê sabe o quanto é comum dizer que preto é ladrao, antes mesmo de saber o que é um”. Mas enfrento o racismo até hoje e não vou deixar de enfrentar até eu morrer. Talvez o filho da minha filha seja livre. Minha geração ainda colhe os frutos ruins das anteriores, que ouviram dizer que a escravidão tinha acabado e que a miséria era culpa deles. Nossas cotas raciais estão 127 anos atrasadas.

“Hoje Cedo” aborda um tema também pessoal, sobre como a sua carreira afetou a vida com sua família...
“Hoje cedo” fala sobre algo que vivi desde o barraco na favela até hoje. Sobre a ilusão das pessoas de achar que a vida do artista é uma festa. Não, sou um guerrilheiro de rua. “Hoje cedo” fala de eu sentir minha ausência com minha filha. Abri mão de estar com ela pra fazer o que mais amo, mas o que mais amo hoje é estar com ela. É como se as duas coisas conflitassem.

Quando você percebeu isso?
Não vi a gravidez da minha mulher nem os primeiros anos da minha filha. Me tornei pai no momento em que minha carreira ascendeu. Estava rodando o país, programando mixtape, me tornando um artista internacional. Mas, como a minha mãe diz, de nada adianta conquistar o mundo, olhar pra trás e dizer “vou dividir isso com quem?”. Me desconectei da vida pessoal para abraçar as responsabilidades de representante do rap nacional. Tenho orgulho desse papel, mas aprendi que, hoje, posso abdicar de certas coisas, adiar uma entrevista ou até um show, para ficar mais tempo com a minha filha. Hoje, entendo que tudo tem seu tempo e que a gente tem todo o tempo que precisa.

A música “Trepadeira” gerou críticas de grupos feministas, que acharam a letra machista e ofensiva a mulheres
Adoro trepadeira (risos). Na vida real e na musica... Acho importante não desqualificar o tema, precisamos debater o machismo, mas, nesse caso, foi um equívoco da parte das feministas. A música fala do fim de um relacionamento, de um homem traído. É um flerte com a ficção, inspirado em Moreira da Silva, Dicró e outros que me influenciaram muito. Além de tudo, é horrivel ter que explicar uma piada.

Mas como você recebeu as críticas? Se sentiu patrulhado?
Eu nunca tinha sido vidraça na mídia. Aprendi que as pessoas são bem crueis quando querem. Mas as pessoas que cruscificaram o Emicida por trepadeira não têm ideia do que estou fazendo. Minha musica é uma viagem. Se você chegar lá e não entender, não é culpa do motorista. Eu só proponho o tema. Cheguei a pedir desculpas no Facebook, dizendo que não queria ofender ninguém com a música. Mas, quando vi as pessoas ironizando minhas desculpas, percebi que a intenção não era o diálogo. As pessoas perdem o tema de vista pra atacar uns aos outros. Na rede social todo mundo é policia. Se você coçar a cabeça, vão dizer que tem piolho.

Você acha suas letras difíceis?
Minha musica é chata, cara. É dificil, não é o lugar comum que as pessoas esperam do rap. Algumas têm flerte mais simples, como “Zoião” (incluída na trilha sonora da novela “Sangue bom”). Mas minhas referências são lugares esquisitos pra muita gente. Quando vejo que tem muito jovem no meu público, penso que é porque não perderam a curiosidade. Muitos sentem mas não entendem. Se for perguntar o que achou, o cara pode falar de outra coisa. Pior coisa é as pessoas saberem o que você vai dizer no palco. Digo coisas às vezes desconexas, mas que fazem sentido no contexto, são o entender e o sentir. Não busque ordem no que faço.

Fala um pouco desse primeiro show no Rio com o CD novo...
O show vai ser foda, pela primeira vez na vida tenho o disco que eu queria e o show que eu queria. Montamos um formato sem bateria, com percussão monstra e DJ dando o Norte. Tem baixo, guitarra, cavaco... É a sintese do poder da rítmica brasileira, mas com algo da música internacional, que é a maneira como as bases soam. Essa mistura cria uma identidade até com as pessoas que não estão muito acostumadas com o rap. Vamos ter também participações de Tulipa Ruiz, Wilson das Neves, Quinteto em Branco e Preto e uma surpresa. O show vai ter toda a nossa estrutura de luz e som. Sempre quis fazer algo especial assim no Rio.

Para terminar, quais são seus próximos planos?
Quero escrever meus quadrinhos. Voltei a desenhar, estou estudando, quero contar historia de outro jeito. Não tem obrigação de ficar só no rap. Eu dirigi um clipe este ano. Sou teimoso... Gostaria de reverberar na literatura como na música, fazer a mesma galera que vai ao show discutir de literatura. Preciso fazer isso.

FONTE: O GLOBO