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terça-feira, maio 13, 2014

Escravidão nas plantações: o obscuro negócio do chá na Índia











As mulheres cortam as folhas para colocá-las nos cestos. Todos os dias, precisam de juntar uma cota de, pelo menos, 24 quilos. Magras e sorridentes, as suas mãos são as primeiras a dar vida a esse chá saboreado por milhões de pessoas todos os dias em Londres ou em Nova York. Por Luis A. Gómez, Opera Mundi.

O seu trabalho, como o dos seus maridos e filhos, é mal pago. Recebem 12 centavos de dólar por quilo ou 17, se conseguirem mais de 25 quilos. Se não cumprirem uma cota diária, não são pagas. E essa história, que acontece todos os dias nas fazendas ou “jardins” de chá, como são chamados na Índia, repete-se há pelo menos 150 anos, todos os dias, em cada jardim.
Em Assam, no noroeste do país, é colhida quase a metade do chá que é exportado – preto ou verde, orgânico ou com fertilizantes. As grandes marcas, como Lipton, são clientes habituais dessas paisagens onduladas, nas quais o verde parece infinito. Uma delas, de propriedade da empresa hindu Tata, foi recentemente denunciada por três ONGs locais por abusos laborais.
As pobres condições de vida e de trabalho nos jardins de chá controlados pela Tata Beverages através da Amalgamated Plantations Private Ltd (APPL) — uma empresa financiada parcialmente pelo Banco Mundial – permitem à empresa explorar comunidades inteiras de trabalhadores. Eles vivem dentro dos seus territórios com salários menores do que dois dólares diários por pessoa, sem qualquer segurança social, com poucas oportunidades de estudo e, muitas vezes, escravizados por dívidas com agiotas e comerciantes.
“Não há muita diferença em relação aos demais jardins”, explica Wilson Hansda, da People’s Action for Development (PAD, Ação Popular para o Desenvolvimento). Entre as 850 fazendas e jardins em Assam, há alguns em que “as condições são piores e, inclusive, há registos de mortes por inanição de tempos em tempos”, relata Hansda.
Nada de novo, nem para os patrões e nem para o governo da Índia, como mostra um relatório do Instituto de Direitos Humanos da Columbia Law School apresentado a 16 de abril em Nova Délhi. O relatório, intitulado “Quanto mais as coisas mudam...” revela os motivos da ação contra a APPL (e, portanto, Tata) diante do Compliance Advisor Ombudsman, órgão autónomo de fiscalização do Banco Mundial.
Tudo começou há um século e meio, quando os britânicos obrigaram os indígenas a migrar para regiões produtoras de chá como servos do império e dos agiotas e donos de terras. Então, nasceram fortunas como a da família Tata, surgida do comércio colonial e da exploração de recursos naturais.
As tribos do chá
Tendo conquistado o sul da Ásia, os funcionários britânicos encarregues dos negócios começaram, no século XIX, a produzir as duas ervas mais importantes para a economia do seu império: o chá e o ópio. Para isso, disponibilizaram aos seus empresários as terras e mão de obra barata, quase gratuita.
Começaram as expropriações de terras em 1830, com agiotas, comerciantes e agentes da polícia a assediar as pequenas economias locais e a adquirir territórios indígenas (quase sempre, por meio da força). Naqueles que hoje são os estados de West Bengal, Biar, Jharkhand, Orissa e Chhattisgarh, milhares de famílias adivasis (indígenas), dedicadas à agricultura local e a atividades florestais, perderam a sua casa e o seu sustento. “Comercialização forçada” de terras, foi como chamaram em Londres.
Não era uma política casual. Vários documentos daquele tempo, como a Tecnologia da Índia, de George Campbell, afirmavam que os povos indígenas dessa região (santal, ho, oraon, munda) eram ideais para o trabalho nos campos de chá. De modo que, logo que ficaram na miséria, muitos se transformaram em coolies, ou carregadores, nos jardins de Assam e na região vizinha de Darjeeling.
Os santal, hoje uma das maiores comunidades indígenas do país, rebelaram-se contra essas políticas em 1855. Liderados por Sido e Kanu Murmu, milhares de homens, mulheres e crianças combateram o exército colonial durante dois anos. Cerca de 20 mil santals morreram na revolta. Como elas fracassaram, a coroa britânica mudou as suas políticas e ditou leis para proteger os direitos dos indígenas.
Mas isso não mudou a sua realidade económica e social. Nem acabou com as expropriações. Milhares de trabalhadores indígenas sem-terra mal conseguiram continuar a colher chá enquanto ocupavam barracas insalubres pelas quais pagavam um aluguer aos patrões. Assim nasceram as ainda chamadas “tribos do chá”, uma alcunha que serviu para os britânicos se esquecerem delas e de cuja vigência se vale o Estado hindu para negar os seus direitos.
O tempo parou
As duas fotos em sépia que acompanham essa reportagem foram tiradas por volta de 1870. As fotos em colorido são recentes. O que mudou durante esse tempo em Assam? Rejina Marandi, jovem escritora e académica santal nascida em Assam, diz que nas fotos antigas parece que apenas adultos trabalham nos jardins; “hoje trabalham lá meninas e meninos”. Wilson Hansda concorda com ela: “Nada mudou muito, está quase a mesma coisa, excepto que hoje você vê crianças muito pequenas a trabalhar nos jardins, o que é verdadeiramente alarmante”.
Três milhões de indígenas trabalham na produção de chá em Assam. Muitos são crianças a trabalhar com os seus pais; apenas nos três jardins da APPL e Tata há 3 mil. Não existem escolas nem casas de banho para as mulheres, que sofrem profundos níveis de discriminação, conforme relata Marandi, já que as famílias privilegiam os homens para receber educação e melhores alimentos.
Por isso, as jovens indígenas que querem algo a mais da vida do que colher chá procuram trabalho fora dali. “Vítimas do tráfico, são enviadas para diferentes partes do país e submetidas a diversas atividades, como o trabalho doméstico, e inclusive a prostituição. São retidas sob ameaças e não recebem salários nem podem contactar os seus pais”, conclui Marandi. Segundo a polícia, apenas em Assam, durante os últimos dois anos, já “se perderam” cerca de 14 mil jovens mulheres. Segundo as ONGs, poderia ser o dobro.
Nesses jardins de chá, onde o tempo parou, e as palavras e relações continuam a ser as mesmas há gerações, segundo Wilson Hansda, foi uma surpresa para a Ação Popular para o Desenvolvimento (PAD: People’s Action for Development) saber que os trabalhadores da APPL, em teoria acionistas da empresa, não melhoraram o seu nível de vida com uma reestruturação financiada com quase oito milhões de dólares pela International Finance Corporation (Cooperação Financeira Internacional), braço financeiro do Banco Mundial.
“Isso deu-nos a base para iniciar o nosso envolvimento com os temas de alguns dos jardins da APPL”, disse Hansda. PAD, PAJHRA (Promoção, Avanço, Justiça e Direitos Humanos para os Adivasi) e o Diretório Diocesano para o Serviço Social da Igreja do Norte da Índia apresentaram a denúncia em fevereiro de 2013 ao Banco Mundial. Assim começou outra história.
FONTE: ESQUERDA NET

quarta-feira, maio 02, 2012

O feriado que os norte-americanos decidiram esquecer


por Heloisa Villela, de Washington


Era uma terça-feira de primavera em Chicago. Não sei se ventava muito. Provavelmente sim. Essa é a marca registrada da cidade. Naquela terça-feira, o ar estava carregado. O movimento sindical estava nas ruas com a luta pela jornada de oito horas. Hoje, é até difícil imaginar… Mas ninguém trabalhava menos de 10 horas por dia. Folga uma vez por semana, férias remuneradas, aposentadoria? Só rindo! Pois a turma andava entusiasmada com os novos ventos, que sopravam possibilidades de mudança.

Uma greve geral na cidade, que teve início no dia 1 de Maio, mobilizava os trabalhadores. No dia 3 de Maio, quando eles iam de uma empresa a outra para convencer colegas a sairem às ruas e aderirem ao movimento, houve um embate com a polícia, que deixou ao menos seis civis mortos. Em sinal de protesto, novo encontro foi marcado para o dia seguinte no chamado Haymarket, um cruzamento onde as ruas se alargam. Os discursos foram feitos de cima de um vagão de carroça.

Dizem que quase duas mil pessoas apareceram. Mas a chuva se encarregou de esvaziar o protesto. Quando algo entre duzentas ou seiscentas pessoas (depende de quem conta) ainda estavam reunidas, a polícia partiu para cima. Mandou a turma se dispersar. De algum lugar, não se sabe até hoje de onde, exatamente, uma bomba de dinamite foi lançada na direção dos policiais e atingiu em cheio o grupo. A resposta foi um salve-se quem puder. 

Tiros para todos os lados. Sete policiais mortos e muitos civis também. Quantos? Não se sabe. O número de mortos do lado dos grevistas nunca foi contabilizado. A identidade da pessoa que lançou a bomba também é, até hoje, uma incógnita. Os jornais da época foram rápidos na hora de incriminar. O New York Times, por exemplo, fala dos discursos explosivos dos anarquistas. Dos grevistas bêbados, e daí por diante. As autoridades da época rapidamente prenderam, julgaram e condenaram um grupo de suspeitos.

A polícia levou para a cadeia os líderes do movimento: anarquistas, comunistas e socialistas. Eram oito ao todo. Sete foram condenados à morte, um a quinze anos de cadeia. Mas dois tiveram a pena reduzida para prisão perpétua. Ou seja, cinco tinham data marcada com a forca. Mas um deles se suicidou na cadeia. Os outros quatro foram enforcados. O julgamento foi tão fajuto, sem provas e cheio de acusações vazias, que seis anos depois o então governador de Illinois perdoou os três sobreviventes que ainda estavam presos.

Tudo isso aconteceu em 1886. No ano seguinte, contrariando todas as expectativas das autoridades, o movimento sindical norte-americano continuava firme e forte. E manteve a briga pela jornada de oito horas. Em 1889, quando o Congresso Socialista estava reunido em Paris, a Federação do Trabalho Americana (central sindical da época) sugeriu ao Congresso que adotasse uma luta mundial pela jornada de trabalho de oito horas. A ideia foi prontamente aceita e os socialistas decidiram, também, decretar o Primeiro de Maio como o Dia do Trabalho. E já no ano seguinte a data ganhou fama e foi celebrada, em vários países, com grandes manifestações populares.

A tradição se manteve e, hoje, mais de 80 países comemoram o primeiro dia de Maio. Por mais irônico que possa parecer, quem não celebra a data são os norte-americanos. O governo dos Estados Unidos temia que o 1 de Maio se tornasse motivo de passeatas, mobilizações, etc. Por isso, rapidamente, criou o Labor Day, em setembro. E a luta pela jornada de oito horas continuou até a vitória, cinquenta e dois anos depois!

Fuçando a internet em busca dos detalhes de toda essa história encontrei o depoimento de um rapaz que, na época, tinha apenas 20 anos, mas ocupou um lugar privilegiado no movimento. Foi encarregado de acompanhar o julgamento dos acusados pela morte dos policiais para fazer os desenhos que seriam publicados em um dos jornais de Chicago. Cinquenta e três anos mais tarde, ele escreveu um artigo que faz a ponte com o passado, com as paixões do momento, as distorções da imprensa e as manipulações das autoridades.

Art Youg trabalhava para o Daily News. E contou como se falava, com frequência, nas provas contra os acusados. Que provas eram essas, ele nunca entendeu. Mas percebeu com clareza como eles foram rapidamente condenados, como mostra este trecho do relato:
Editores de jornais e homens públicos em geral clamaram por um rápido julgamento dos acusados e uma execução sumária dos culpados, e havia toda razão para acreditar, de acordo com as notícias publicadas, que os acusados mereciam ser enforcados. A opinião pública era formada quase que exclusivamente pela imprensa diária, e em suas colunas as provas se empilhavam contra estes agitadores dos trabalhadores. Parsons (Albert Parsons) tinha desaparecido na noite da bomba – a polícia do país inteiro estava procurando por ele; sua fuga não era confissão de culpa? Rudolph Schnaubelt também tinha sumido; ele foi detido duas vezes e interrogado brevemente, mas fora solto – e o Capitão Schaak estava furioso com a “estupidez” dos detetives que o soltaram.
Schnaubelt fugiu do país. Mas Parsons, ativista conhecido e um dos que fizeram discurso no dia do massacre de Haymarket, entrou no tribunal durante o julgamento para se juntar aos acusados. Ele foi um dos quatro enforcados, em novembro de 1886. Art Young ficou impressionado:
Mas quando o julgamento começou, no dia 21 de junho, Albert Parsons entrou no tribunal e anunciou que queria ser julgado com seus companheiros, minha empatia balançou um pouco na outra direção. Ele estava escondido em Waukesha, Wisconsin, trabalhando como carpinteiro e vivendo na casa de Daniel Hoan, atual e por muitos anos ex-prefeito de Milwaukee. Se Parsons fosse culpado, pensei, ele não teria voltado; ele não precisava voltar; a polícia não conseguira encontrar pista alguma dele.
Art Young, já com mais de setenta anos ao escrever o artigo, terminou o relato se referindo à condenação e execução dos ativistas:
Eu era jovem e fui enganado pelo clamor de tantas vozes que se ergueram para justificar um feito obscuro.
Segundo testemunhas, antes do enforcamento August Spies, um dos ativistas condenados, ainda gritou: “Virá o tempo em que nosso silêncio será mais poderoso do que as vozes que vocês estão estrangulando hoje!”

Bem, a estátua erguida em homenagem aos policias mortos no dia do Massacre de Haymarket não sobreviveu em praça pública. Depois de vandalizada e explodida mais de uma vez, foi recolhida ao Departamento de Polícia.

Mas a estátua que representa o vagão de onde os ativistas fizeram seus discursos naquele dia está lá, na mesma esquina onde tudo aconteceu.

PS do Viomundo: Heloisa Villela informa que, em Nova York, os jovens do Occupy Wall Street resgataram o primeiro de maio, com uma série de manifestações.

FONTE: VIOMUNDO

segunda-feira, junho 28, 2010

Lutas e greves gerais se estendem contra pacotes de arrocho e redução de direitos









Trabalhadores de importantes países europeus estão em pé de guerra. É a luta para resistir aos ataques dos governos da União Européia, apoiados pelo Fundo Monetário Internacional.

A meta imposta pela União Europeia para impedir que o déficit dos países-membros supere 3% do PIB causa revoltas generalizadas dos trabalhadores. Justamente porque este déficit orçamentário não foi criado por eles e sim pelos governos de todo o mundo, quando na crise de 2008 deram bilhões de euros para salvar bancos e multinacionais e agora querem que os trabalhadores paguem essa conta.

Esta terça-feira 29 está marcada para ser um dia nacional de lutas e de greve geral em diversos países. Entretanto, o anúncio dos pacotes de arrocho e de redução de direitos como na Itália, na França e na Grécia fez com que as mobilizações se estendessem em diversas categorias e se antecipassem ao 29.

De acordo com informações do dirigente da Federação dos Servidores Públicos da Grécia Sotiris Martalis, que esteve presente nos congressos da Conlutas e da Classe Trabalhadora, as circunstâncias econômicas e políticas na Europa e principalmente na Grécia são alarmantes. Os títulos gregos, bem como de Portugal e da Espanha, são descritos como “lixo”. A zona do Euro está muito perto de se dividir e a Comissão Europeia denuncia as mobilizações como “agitações sociais”.

“Eles estão com medo que a nova greve geral na Grécia possa “contagiar” outros países, principalmente depois das grandes manifestações na Espanha, Bélgica e Portugal”, diz Martalis. Acrescenta ainda: “a luta está a nossa frente e nós podemos fazer seus medos tornarem-se reais”, reforçando a necessidade das mobilizações na Europa.

Leias as informações sobre as mobilizações

Grécia – Somente neste ano de 2010, os trabalhadores já realizaram quatro greves gerais e se preparam para a quinta, na próxima terça-feira (29).

O governo fez as mudanças no sistema de previdência social na sexta-feira. As principais foram a redução dos benefícios de 80% do salário (que são pagos hoje) para 50%. Até hoje era possível conseguir aposentadoria com benefício integral com 35 anos de trabalho ou com 65 anos de idade. Agora a idade limite foi aumentada para 67 anos e também é obrigatório trabalhar por 40 anos. Eles também ajustaram a idade limite em função da expectativa de vida. Em caso de aposentadoria antecipada, o benefício será reduzido em 6% a cada ano reduzido.

Segundo Martales, o governo tem muitas dificuldades para aprovar estas mudanças e há muita controvérsia entre os deputados no Parlamento. “Chegou a ameaçar seus membros com a antecipação das eleições se eles continuarem a discordar”, denuncia o dirigente.

No dia seguinte ao anúncio das medidas, o movimento dos trabalhadores realizou diversos protestos e paralisações como greve de 24 horas em escritórios de contabilidade, manutenção de navios, consultórios dentários, gráficos e funcionários de um grande hospital em Atenas.

Os trabalhadores do Metrô realizaram greve por três dias. Na última quinta-feira (dia 24 de junho) todos os trabalhadores de transportes públicos entraram em greve. Os professores de escolas secundaristas ausentaram-se de seus trabalhos por 10 dias.

A Federação dos Correios já anunciou uma greve de 48 horas contra a privatização das agências. Muitos trabalhadores e médicos de vários hospitais estão confinados.

A importância de todas estas greves é possibilitar a greve geral de 29 de junho. Haverá outra de 24 ou 48 horas em julho, no dia em que o governo levar o projeto de reforma da previdência à votação.

País Basco (Espanha) - Centrais sindicais do País Basco estão convocando uma greve geral para esta terça-feira (29), mesma data da Grécia, contra as medidas que atentam aos direitos trabalhistas e sociais da classe trabalhadora basca.

De acordo com o secretário de Relações Internacionais da central sindical LAB, Igor Urrutikoetxea, o poder econômico e financeiro com a desculpa da crise, “criada por eles mesmo”, diz, continua sua ofensiva para acumular riqueza sem nenhum objetivo econômico. “O verdadeiro objetivo é acabar com o Estado de bem estar social”.

“São as mesmas medidas adotadas pelo governo espanhol”, diz a nota enviada pelo dirigente. Entre elas a redução dos salários no setor público e deterioração desses serviços e congelamento de aposentadorias.

As medidas, apoiadas por partidos e pela mídia, além do governo, empobrecem a maioria da sociedade e alargam a crise econômica, segundo a posição da LAB. “Diante desses cortes aos direitos, é necessária uma resposta contundente dos trabalhadores e que exija o fim imediato das reformas neoliberais na Espanha em troca de mudanças necessárias para a classe trabalhadora basca”, ressalta nota.

Espanha - As centrais governistas UGT e CCOO têm participado de negociações dessas reformas com a patronal e o governo, buscando recuperar um modelo de “diálogo social”.

No entanto, essa iniciativa contribui para retardar a mobilização da classe trabalhadora espanhola, mas é questionada por outras entidades que estão organizando a luta naquele país. Já tem calendário marcado de lutas até a terça-feira (29) e por meio desta ação obrigam as centrais a participarem das mobilizações também.

Desde o último dia 24, eles já vêm realizando protestos e assembléias contra o corte de 5% nos salários como servidores públicos, metroviários e trabalhadores de telecomunicações. Além de denunciar as reformas trabalhistas e ataques às aposentadorias. No dia 29 devem fazer um grande ato unificado em um dos pontos mais populares de Madri, a estação de trem Atocha.

França – Os franceses se anteciparam ao dia 29 e já na quinta-feira (22) realizaram uma greve nacional contra reforma previdenciária do presidente Nicolas Sarkozi, que entre outras medidas, eleva a idade mínima de aposentadoria para 62 anos em 2018.

Segundo notícia da Agência Reuters, o governo divulgou na semana passada o seu projeto de reforma previdenciária, alegando que sem ela o sistema terá déficits anuais de 100 bilhões de euros (134,2 bilhões de dólares) até 2050.

O anúncio revoltou os trabalhadores. “Milhares de empregados do setor de transportes abandonaram seu trabalho, o que afetou trens, aviões, metrô e ônibus. Professores, membros da administração pública e alguns funcionários do setor privado também aderiram”, afirma a notícia.

Manifestações ocorreram em diversas cidades francesas, pela segunda vez desde maio passado. Houve o apoio de seis das sete centrais sindicais francesas. Novas mobilizações já vêm sendo preparadas para setembro, quando o projeto deve ser submetido ao Parlamento.

Itália – Os trabalhadores da Itália cruzaram os braços na sexta-feira (25) contra o pacote de arrocho do governo de direita de Silvio Berlusconi. Serviços públicos, transporte aéreo e terrestre, tiveram suas operações suspensas. A paralisação convocada pelo maior sindicato da Itália, CGIL, contou ainda com manifestações por todo país. Em Roma, vôos foram cancelados, em Milão, o transporte ferroviário ficou parado por cerca de quatro horas.

Dia de luta em setembro - A Confederação Sindical Européia está convocando um dia de luta em toda a Europa para 29 de setembro. Para os países do Sul da Europa a proposta é de Greve Geral de 24 horas (Grécia, Itália, Espanha e Portugal).

A Secretaria Executiva Nacional Provisória eleita no Conclat apóia a luta dos trabalhadores europeus e tem enviado notas de solidariedade a essas lutas. Defende que os trabalhadores brasileiros sigam o mesmo exemplo. Assim como já vê fazendo diversos segmentos dos servidores públicos federal e estaduais, unificando suas greves.

Mais que isso, devemos propor uma campanha nacional para que o Congresso Nacional derrube o veto do presidente Lula ao fim do fator previdenciário.

FONTE: CONLUTAS

sábado, maio 01, 2010

Primeiro de maio: dia de luta em defesa da dignidade do trabalhador










A luta dos trabalhadores, que foi consagrada com a escolha do dia 1º de maio como data internacional do trabalho, é incansável. Passados 124 anos desde que 250 mil trabalhadores de Chicago estiveram envolvidos em protestos contra as péssimas condições de trabalho como jornada de 16 horas, ausência de descanso semanal, de férias e sem direito a aposentadoria e teve como resultado a repressão da polícia com prisões, feridos e mortos, a defesa por condições dignas de trabalho permanecem no mundo inteiro.

Os anos que se seguiram ao episódio só tornaram a data mais marcante. A bandeira levantada pela Segunda Internacional Socialista ,em 1889, foi proclamar o dia 1º de Maio como o Dia Internacional do Trabalhador. Além de fazer uma homenagem aos manifestantes de Chicago, defendia a luta pela jornada de oito horas. Protestos surgiam em diversas nações. Em 1891, a França assistiu a repressão aos trabalhadores no norte do país no dia 1° de maio. No ano anterior, os Estados Unidos pressionados pelas forças dos trabalhadores decidiu estabelecer a jornada de horas. Foi seguido pela França, 19 anos depois, ao instituir a mesma quantidade de horas. Em 1920, em plena Rússia pós-revolução, os trabalhadores do país tiveram reservado uma data no calendário que virou feriado nacional. Aos poucos, o dia 1° de maio foi adotado em inúmeros países como o dia da reflexão e luta dos trabalhadores.

Mais uma vez, sindicatos preparam atos públicos em defesa do trabalho digno e de uma sociedade mais justa. Diversos setores do movimento popular, estudantil, sindical que organizam o Congresso Nacional da Classe Trabalhadora se mobilizam neste dia emblemático para propor a redução da jornada de trabalho para 36 horas sem redução dos salários e dos direitos e a luta contra projetos que tentam acabar com os serviços e servidores públicos federais como a tentativa de congelar o salário desta categoria por 10 anos.

Vamos às ruas em cada município, região ou estado para fazer valer nossas vozes e destacar às medidas e ações realizadas por cada entidade envolvida na defesa dos trabalhadores. Acompanhe a programação da sua localidade e participe!

sexta-feira, abril 30, 2010

O Operário Em Construção

E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo:
– Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu.
E Jesus, respondendo, disse-lhe:
– Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.
Lucas, cap. V, vs. 5-8.

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia

Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.

Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
– Garrafa, prato, facão –
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
– Exercer a profissão –
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.

E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:

Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.

Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
– "Convençam-no" do contrário –
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
– Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

– Loucura! – gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
– Mentira! – disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.

Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.
FONTE:Vinicius de Moraes