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terça-feira, outubro 05, 2010

Eleição não altera representação negra no Congresso






A bancada de parlamentares negros e antirracistas no Congresso e nas Assembléias Legislativas dos Estados permanecerá do mesmo tamanho, segundo as primeiras análises dos resultados das eleições, após o encerramento das apurações na madrugada de domingo para segunda (04/10), ao contrário do que indicavam pesquisas de intenção de voto.

A surpresa da eleição foi a derrota do empresário, cantor, apresentador e vereador paulistano, Netinho de Paula, que concorreu ao Senado pelo PC do B e liderava a disputa para uma das vagas até a véspera da eleição. Embora tenha tido mais de 7 milhões de votos ( 7.773.327, o equivalente a 21,14%) Netinho foi batido pelo tucano, Aloysio Nunes Ferreira, e pela ex-prefeita
Marta Suplicy, do PT, e ficará de fora.

Netinho tinha como segunda suplente, a ex-ministra Matilde Ribeiro, destacada pela Executiva do PT para compor a chapa.

Ao contrário da trajetória de Netinho na campanha, no Rio Grande do Sul, o senador Paulo Paim, do PT, começou atrás nas pesquisas, teve a permanência no Senado ameaçada durante quase toda a campanha, mas conseguiu a reeleição com 3.895.822 (33,83%) e ficará mais oito anos no Senado.

Reeleição

Ainda em S. Paulo, o deputado Vicente Cândido, do PT, coordenador da Frente Parlamentar pela Igualdade Racial na Assembléia, se elegeu para a Câmara Federal com 160.242 votos. Também conseguiram a reeleição, a deputada Janete Pietá, que tem base em Guarulhos, e Vicente Paulo da Silva, o Vicentinho, ex-presidente nacional da CUT e oriundo do movimento sindical do ABC. Pietá, cujo marido, Elói Pietá, já foi prefeito da cidade, teve 144.529 votos, enquanto Vicentinho ficou com 141.068 votos.

Luiz Carlos Prates, o Mancha, do PSTU, o único negro entre os nove candidatos que concorreram ao Governo de S. Paulo, teve 16.441 votos.

Segundo a Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio do IBGE (PNAD), 51,3% de população brasileira é negra. Nas eleições de 2006, a representação negra era de apenas 9% dos 513 parlamentares eleitos, de acordo com o Relatório Anual das Desigualdades Raciais no Brasil (2007/2008), elaborado pelo professor Marcelo Paixão, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Regresso

No Rio, a eleição deste ano marcou a volta da ex-ministra Benedita da Silva, que saiu candidata a deputada federal, depois de perder as prévias no PT carioca para o ex-prefeito de Nova Iguaçu, Lindenberg Farias, eleito senador pelo Rio. Benê se elegeu com 71.036 votos.

Também volta à Brasília, o ex-ministro da SEPPIR, Edson Santos, reeleito para a Câmara Federal, com 52.123 votos – menos da metade dos votos que o elegeram em 2006, quando obteve 105 mil votos.

Enquanto a ex-ministra Benedita da Silva, volta à Brasília, Carlos Santana, o ex-presidente da Frente Parlamentar pela Igualdade Racial na Câmara dos Deputados volta prá casa. Santana obteve apenas 42.327 e não se reelegeu.

Na Bahia, o deputado Luiz Alberto, do PT, manteve a votação que tem garantido sua permanência em Brasília e se reelegeu com 63.686 votos. A Bahia também elegeu Valmir Assumpção que obteve 132.999 votos.

Assembléias

A cantora Leci Brandão, também do PC do B, teve melhor sorte e foi eleita para Deputada Estadual com 86.298 votos. Leci será a segunda mulher negra a ocupar um lugar na Assembléia Legislativa de S. Paulo desde 1.934 quando as mulheres brasileiras conquistaram o direito de voto. A primeira foi a ex-deputada Theodosina Ribeiro.

O único parlamentar negro na Assembléia paulista – o deputado José Cândido – também continuará. Cândido, do PT, se reelegeu com 68.202 votos.

O jornalista Dojival Vieira, que concorreu a Deputado Estadual também pelo PC do B, teve 1.271 votos.

Bahia

Concorrendo a uma vaga na Assembléia Legislativa baiana, a vereadora Olívia Santana e o advogado Sérgio São Bernardo, não tiveram a mesma sorte. Olívia teve 30.466 votos e S. Bernardo 3.468.

Já o deputado Bira Corôa, que tem sido um aliado do Movimento Negro baiano, se reelegeu com 39.254 votos.

Em Sergipe, a ex-secretária de Inclusão Social, Conceição Vieira, se reelegeu com 27.378

DF

No Distrito Federal, a jornalista Jacira da Silva, do Movimento Negro Unificado (MNU), teve 681 votos e não conseguiu se eleger para a Câmara Distrital.

Em Minas, o jornalista José Amaral Neto, que foi candidato pelo PT do B, obteve 721 votos e também não se elegeu.
FONTE: AFROPRESS

quarta-feira, abril 07, 2010

Benedita e o modelo de inclusão subalterna



A derrota da ex-governadora Benedita da Silva, nas prévias do PT carioca no último domingo (28/03), nas quais o prefeito de Nova Iguaçu e ex-presidente da UNE, Lindenberg Farias, foi escolhido candidato ao Senado, não tem a dimensão que se procurou dar em certos círculos do movimento negro carioca e brasileiro.




Faz tempo que a ex-governadora, ex-senadora, ex-ministra e atual secretária de Assistência Social e Direitos Humanos do Governo do Rio faz tudo o que seu Partido manda e determina, mesmo em detrimento da sua própria história e biografia e ao que possa ter representado alhures.

Benedita tornou-se uma representação simbólica de si mesmo. Símbolos, como se sabe, tem papel e função. Foi assim, quando - sob as ordens do seu Partido e do chefe do seu grupo político, o ex-ministro José Dirceu - negociou ser vice do ex-governador Anthony Garotinho, o mesmo que disse que o PT era o "partido da boquinha", para barrar a candidatura do ex-líder estudantil Wladimir Palmeira, a quem Dirceu combate desde a longínqua passeata dos 100 mil, em 1.968.

Como prêmio, tornou-se governadora tampão.

O ministério da Assistência Social, no primeiro governo Lula, da qual seria defenestrada rapidamente, sem qualquer cerimônia, por ter ido, como evangélica, a um culto de sua denominação em Buenos Aires, com dinheiro público, foi outro prêmio de consolação.

Saiu da Esplanada como entrou: sem ser notada. Também não se tem notícia de qualquer ato, qualquer ação, qualquer gesto seu, em favor de quem, em tese, deveria representar, e em nome de quem - igualmente, em tese - deveria falar: os homens e mulheres negras, desvalidos e desamparados pelo Estado brasileiro.

O prêmio de consolação pelo excesso de subalternidade foi a Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos, do Rio, onde exerce função decorativa e simbólica porque, a não ser para fotos, nunca ninguém a viu ter uma atitude em favor e em defesa de negros vítimas de abusos e violência sem conta, como no caso dos meninos entregues por soldados do Exército para serem mortos sob tortura pelo tráfico.

O episódio, que fez com que o ministro da Defesa, Nelson Jobim, viajasse ao Rio para fazer marketing, numa mea culpa falaciosa e forçada, não teve da ex-governadora um posicionamento que fosse, uma declaração a favor das vítimas e das famílias. Enquanto Jobim subia morros para “solidarizar-se” farisaicamente com mães com corações e almas em frangalhos por verem seus filhos brutalmente assassinados, de Benedita, não se ouviu - mais uma vez - um gesto que fosse.

A derrota da ex-governadora, portanto, é dela mesma e do que passou a representar: o modelo de inclusão subalterna que reserva aos negros, “puxadinhos”, em troca de migalhas.

Nem a ex-governadora, nem os expoentes desse modelo são ingênuos ou inocentes. Seu papel é este mesmo: posar para fotos, participar de eventos e cerimônias, entregar congratulações regularmente, em troca de cargos simbólicos, honrarias precárias, carros oficiais que lhes dão acesso a Palácios e aos círculos do Poder.

A contrapartida que as elites dominantes exigem para quem se presta ao papel é que virem as costas às suas origens e histórias. É como se dissessem: “só você entra e o seu papel é sinalizar para os demais que, como você já entrou, todos já estão representados e não nos importunarão mais com políticas de ação afirmativa, cotas e reivindicações do tipo“.

Como se vê, não há inocência; há acordo com vantagens e contrapartidas para ambas as partes.

Não há sutilezas, nem disfarces. Todos sabem que papel terão quando aceitam, e o aceitam de bom grado, a contrapartida: as migalhas que chegam ao "puxadinho"; os restos da mesa farta à qual não tem acesso. A derrota da ex-governadora é - em tudo e por tudo - a derrota desse tipo de modelo.

Depois de domingo, muito provavelmente Benedita terá outro prêmio de consolação, que aceitará de bom grado, como sempre fez e continuará fazendo. Mascararão a submissão costumeira com marketing: será convidada, por certo, para algum cargo honorífico - simbólico, sempre.

O que chama a atenção no caso, nem é tanto a farsa de um modelo de inclusão que reserva aos negros o espaço do simbólico e escolhe seus representantes dóceis, a quem premia com cargos e sinecuras, em um país em que estes representam 50,6% da população brasileira.

É a forma com que lideranças honestas e bem intencionadas reagem ao óbvio, com declarações carregadas de um tom vitimizado na linha do: “vejam:mais uma vez, o Partido, mais uma vez, os racistas fizeram nós de bobos, nos usaram...”.

Na tentativa de buscar culpados não se dão conta de que os responsáveis pelo logro e pela farsa não estão do lado de lá - mas, provavelmente, bem aqui ao nosso lado.

Dariam uma bela contribuição ao futuro e às novas gerações se entendessem que o fato de Benedita da Silva ser negra, da mesma forma que tantos outros negras e negros notáveis, mas que se prestam a esse papel, não significa que se tornem, automaticamente, representantes de coisa alguma, apenas por conta da notoriedade, ou porque sejam negras.

Essa forma despolitizada e conservadora apenas esconde a incapacidade de perceber e entender que freqüentemente tais personagens são apenas o que aparentam: representam a si mesmos, e são o modelo de inclusão subalterna com o qual desde a Abolição as elites dominantes brasileiras acenam com mudanças “apenas para que tudo continue como sempre“.
FONTE: AFROPRESS