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quarta-feira, janeiro 07, 2015

Lei que define crimes de racismo completa 25 anos

















 Foi criada há exatos 25 anos a Lei 7.716, que define os crimes resultantes de preconceito racial. A legislação determina a pena de reclusão a quem tenha cometidos atos de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. Com a sanção, a lei regulamentou o trecho da Constituição Federal que torna inafiançável e imprescritível o crime de racismo, após dizer que todos são iguais sem discriminação de qualquer natureza.


A lei ficou conhecida como Caó em homenagem ao seu autor, o deputado Carlos Alberto de Oliveira. A partir de 5 de janeiro de 1989, quem impedir o acesso de pessoas devidamente habilitadas para cargos no serviço público ou recusar a contratar trabalhadores em empresas privadas por discriminação deve ficar preso de dois a cinco anos. 

É determinada também a pena de quem, de modo discriminatório, recusa o acesso a estabelecimentos comerciais (um a três anos), impede que crianças se matriculem em escolas (três a cinco anos), e que cidadãos negros entrem em restaurantes, bares ou edifícios públicos ou utilizem transporte público (um a três anos). Os funcionários públicos, tratado na lei, que cometerem racismo, podem perder o cargo. Trabalhadores de empresas privadas estão sujeitos a suspensão de até três meses. As pessoas que incitarem a discriminação e o preconceito também podem ser punidas, de acordo com a lei.
Apesar da mudança no papel, os negros ainda sofrem racismo e frequentemente se veem em situação de discriminação. Para o coordenador nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais e Quilombolas (Contaq), no campo legislativo pouca coisa mudou desde que a escravidão foi abolida, em 1888. “A realidade continua a duras penas. Desde o começo, muitos foram convidados para entrar no Brasil, o negro foi obrigado a trabalhar como escravo”, disse, citando leis como a da Vadiagem, a proibição da capoeira e o impedimento à posse de terras.
De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios, divulgada em setembro de do ano passado, 104,2 milhões de brasileiros são pretos e pardos, o que corresponde a mais da metade da população do país (52,9%). A diferença não é apenas numérica: a possibilidade de um adolescente negro ser vítima de homicídio é 3,7 vezes maior do que a de um branco, de acordo com estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).
De 1989 para cá, outras legislações importantes na luta contra o preconceito racial foram criadas, como o Estatuto da Igualdade Racial (2010) –, e a Lei de Cotas (2012), que determina que o número de negros e indígenas de instituições de ensino seja proporcional ao do estado onde a universidade esta instalada. “Essas são ações muito importantes de reparação. Tem alguns fatores que a gente ainda precisa quebrar para que o negro tenha direitos e oportunidades reais”, acredita Biko.
 
Para denunciar o crime de racismo ou injúria racial, o cidadão ainda não tem à disposição um telefone em todo o Brasil. Mas unidades da Federação têm criado os seus próprios, como o Distrito Federal (156, opção 7) e Rio de Janeiro (21-3399-1300). Segundo Biko, é importante saber quem é de onde são as pessoas que cometem tal crime. “Sem dúvida, quando mais espaço de denúncia a gente tiver, mais reforça a luta conta a esse processo de segregação racial que a gente ainda vive nesse país”, avalia.

FONTE: Agência Brasil 

terça-feira, maio 13, 2014

13 de maio é data boa para se lembrar de outra, 20 de novembro.







A primeira representa a história oficial, a libertação dos escravos como se fosse uma simples canetada da Princesa Isabel, sem mais nem menos.
A história oficial do Brasil é cheia dessas coisas. A independência aconteceu com um mero grito, e assim por diante.
Os lutadores preferem, no caso da libertação dos escravos, ter como data símbolo dessa luta antiescravista, o dia do assassinato de Zumbi, 20 de novembro. É justo.

Ignora-se as lutas que aconteceram para chegar a uma determinada conquista. O Brasil ficou independente em 7 de setembro de 1822, e pronto. Felizmente, essas coisas estão sendo revistas. Na Bahia, não é à toa que 2 de julho aparece com frequência e é comemorado como dia da “Independência da Bahia”. É que nessa data, em 1823, quase um ano depois da data oficial da independência, os portugueses que resistiam à independência brasileira naquele estado, foram definitivamente derrotados.

No Piauí, a derrota dos portugueses foi concluída em 13 de março de 1823, na Batalha do Jenipapo. O Pará “aderiu” ao Brasil definitivamente em 15 de agosto de 1823. No Maranhão também, a independência foi conquista nesse ano.

Mas voltando ao 13 de maio, a data comemorada durante muito tempo como a da “Libertação dos Escravos” já não é bem aceita. Para começar foi uma libertação não tão libertária assim. Até nos Estados Unidos, país que não nos serve de exemplo para muitas coisas, a libertação dos escravos foi mais correta: cada escravo libertado ganhava uma mula e um pedaço de terra para tocar a vida. Aqui, foram simplesmente jogados nas ruas.

Mesmo assim, muitos que lutavam pelo fim da escravidão, como José do Patrocínio, louvaram a Princesa Isabel por isso.

Este ano, com o filme Doze anos de escravidão, que conta a história de um negro livre sequestrado e vendido como escravo no sul dos Estados Unidos, começou-se a lembrar de um lutador exemplar contra o escravismo no Brasil, Luiz Gama, que até recentemente era lembrado por poucos. Ele não foi escravo por doze anos, foram “apenas” oito. Mas sua história é exemplar.

Sua mãe, Luíza Mahin, era uma negra livre, retinta, bonita, lutadora. Pouco se sabe dela, mas participou de todas as revoltas negras das primeiras décadas do século XIX na Bahia. De origem nagô, sabia ler e escrever em árabe, e era quituteira, vendia seus quitutes por toda Salvador. Assim, servia de elo entre revoltosos. Teve um envolvimento com um homem de família fidalga portuguesa e daí nasceu Luiz Gama. Quando ocorreu a Sabinada, revolta liderada pelo médico Francisco Sabino Vieira, em 1837, proclamando a “República Bahiense”, ela teve papel importante. Com a derrota, muitos militantes foram presos e mortos. Para não ser pega, deixou o pequeno Luiz, então com 7 anos de idade, com o pai dele e fugiu para o Rio de Janeiro.

Vendido pelo pai
Até os 10 anos de idade, ele foi bem tratado pelo pai, que aí se revelou um pulha: para pagar dívidas contraídas em jogos, vendeu o filho como escravo, para um negociante paulista. Além de ser um ato extremamente canalha, era totalmente ilegal: não era permitido escravizar pessoas nascidas de pais livres, e além disso era proibido levar escravos da Bahia para outros estados, por causa do espírito revoltoso dos negros baianos. Temiam que eles “contaminassem” escravos de outros estados.

Pois bem, primeiro em Campinas, depois em São Paulo, foi escravo até completar 18 anos. Tinha aprendido a ler com um estudante de Direito que foi morar na casa do seu “senhor” e ensinou os filhos do próprio escravocrata. Aí, reivindicou a liberdade, mas o “senhor” não concedeu. Conseguiu a liberdade, não se sabe como, já que em 1891, o então ministro da Fazenda Rui Barbosa mandou queimar toda a documentação sobre a escravidão no Brasil, alegando que ela havia sido uma mancha na história do Brasil. E foi mesmo. Mas o motivo era que ele queria evitar que antigos donos de escravos reivindicassem indenização com base nesses papéis que valiam como títulos de propriedade. Por isso, perdemos registros históricos importantes.

Para não ser perseguido pelo ex-senhor, ele sentou praça na polícia, mas seu espírito libertário não condizia com a profissão, acabou expulso. Arrumou trabalho como amanuense (copista de documentos oficiais – na época não havia outra forma de fazer cópias de documentos), no gabinete do conselheiro Furtado de Mendonça, que tinha uma vasta biblioteca jurídica. Luiz Gama leu tudo, passou a entender de leis mais do que quase todos advogados, e se tornou rábula, quer dizer, advogado não formado, o que na época era permitido.

E dedicou todo o seu conhecimento à libertação de escravos, pela via jurídica. Conseguiu desta forma libertar mais de quinhentas pessoas. E atuava também como jornalista e poeta, tornou-se um republicano radical, mas descobriu que os republicanos não eram tão republicanos assim: não aceitavam incluir em suas propostas o fim do escravismo.

Era sempre ameaçado de morte, mas não vacilava. Ia para certos locais defender escravos sabendo que podia ser morto, mas ia. Num júri no interior paulista, defendendo um escravo que matou o senhor que o maltratava, disse a sentença que provocou um grande rebuliço: “O escravo que mata o senhor, seja em que circunstância for, mata sempre em legítima defesa”.
Radicalizando a luta

Já perto do fim da vida, começou a reconhecer que sua luta libertando escravos individualmente, enquanto o fim da escravatura não vinha, precisava ser radicalizada. Com uma diabetes que se agravava e limitava seus movimentos, em 1879 passou a achar que seriam necessárias insurreições como as lideradas por Antônio Bento, outro injustiçado, esquecido pela história oficial.

Antônio Bento de Souza e Castro era um negro de família rica, filho de um farmacêutico português. Estudou direito, tornou-se juiz em Atibaia e abandonou tudo para se dedicar à luta pela libertação de escravos. Defendia métodos mais radicais do que os de Luiz Gama e passou a ser chamado de “O fantasma da abolição”. Então, já doente, Luiz Gama fundou o Centro Abolicionista, com a participação ativa de Antônio Bento, e em 1882 lançou o jornal Ça Ira!, que tinha forte participação do escritor Raul Pompeia, autor de um artigo que defendia claramente o direito do escravo matar seu “senhor”.

Depois veio o Partido Abolicionista e o movimento Caifazes, liderado por Antônio Bento. Seus militantes iam a fazendas e estimulavam os escravos a fugirem, com apoio deles. Em alguns casos, raptavam escravos que tinham medo de fugir e, com apoio de ferroviários simpatizantes da causa, os levavam (assim como os que fugiam espontaneamente) para o quilombo do Jabaquara, em Santos, arrumavam documentação falsa para eles e os mandavam para outras regiões, como negros livres.

O nome do movimento teve inspiração bíblica. Caifás, no Evangelho segundo São João, teria dito: “Vós não sabeis, não compreendeis que convém que um homem morra pelo povo, para que o povo não pereça?”, antes de entregar Jesus a Pilatos.

Luiz Gama morreu em agosto de 1882, sem ver o fim do escravismo. Seu enterro foi histórico, o maior ato público visto na capital paulista até aquela época, com participação de negros libertos, escravos, intelectuais, escritores, artistas, o povo todo. Até seus inimigos.

Foi-se o “precursor do abolicionismo”, ficou o “fantasma da abolição”, Antônio Bento, que continuou sua luta até ser assassinado. Ah, se eu fosse historiador… Não vi nada até hoje, a não ser referências vagas, sobre Antônio Bento e os Caifazes. Está aí uma sugestão.

Fonte: Revista Fórum 

domingo, maio 04, 2014

Negra é a mão de quem faz a limpeza: o sentido do 1º de maio para a população negra












“Mesmo depois de abolida a escravidão, negra é a mão de quem faz a limpeza”, diz a letra de Gilberto Gil.

A greve das(os) garis no Rio de Janeiro em março desse ano, teve repercussão na imprensa nacional e internacional e, principalmente nas redes sociais. Em pleno carnaval, toneladas de lixo se acumularam nas ruas da cidade, causando incômodo a todas(os) que sempre ignoraram a importância do trabalho da categoria para a saúde pública e as condições de preservação do meio ambiente. As(os) citadas(os) trabalhadoras(es) não se sentiam representadas(os) pelo Sindicato de Empregados de Empresas de Asseio e Conservação na negociação com a prefeitura. Entre as principais reivindicações, estavam o aumento do salário-base, adicional de insalubridade e pagamento de hora-extra para quem trabalhasse aos domingos e feriados. Após 8 dias de paralisação, inúmeros constrangimentos e ameaças de demissão, as(os) garis tiveram a maioria de suas demandas atendidas.

A referida greve ensinou formidáveis lições sobre a dimensão da divisão racial do trabalho e a consciência de classe, essa última tão esquecida nas análises acadêmicas sobre trabalho na contemporaneidade. Quando cada um mostrava suas mãos negras segurando contracheques minguados, estavam falando como classe (em seus diferentes níveis de consciência) expropriada, que insistia em querer mais, obviamente, dentro dos limites colocados pelo capitalismo. Essa é uma grande lição para o conjunto da classe trabalhadora em tempos duros, em que os movimentos paredistas vêm rareando. A greve mais antipatizada pode surtir efeitos, sim! Desde que bem encaminhada, desde que bem focada na conjuntura política e nas perdas da categoria.

Em termos raciais, a dinâmica de opressão em que trabalhadoras(es) garis se encontra é tão perversa que, a população negra sobrerrepresentada nessa categoria, quando não é invisibilizada, é  confundida com o lixo que recolhe. O (des)valor do que é considerado resto, desprezível e contaminante é transferido para os sujeitos do trabalho de limpeza urbana que são discriminados pela atividade que exercem. No entanto, não é apenas nas ruas que a mão negra faz a limpeza, nas casas das famílias brancas de classe média são as trabalhadoras domésticas as responsáveis por esse serviço imprescindível para a manutenção da força de trabalho, mas de baixo prestígio social. No Brasil, o trabalho doméstico é porta de entrada de um contingente significativo de mulheres negras no mercado de trabalho. E é por isso que a luta ardorosa dos sindicatos das(os) trabalhadoras(es) domésticas(os) pelo reconhecimento dos seus direitos trabalhistas não pode ser esquecida.

Após um ano da entrada em vigor da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) nº 72, conhecida como PEC das Domésticas, a incompletude na regulamentação de benefícios previstos como Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), seguro-desemprego, hora-extra e auxílio-creche, torna o texto da proposta ineficaz. Embora careça de um longo caminho até que os direitos trabalhistas da categoria passem a ser desfrutados plenamente, o amplo debate que se ascendeu em torno da necessidade da divisão democrática das tarefas domésticas entre homens e mulheres e a desnaturalização do trabalho doméstico como a reprodução das relações de trabalho do escravismo colonial, representou uma grande conquista na luta contra a precarização do trabalho das mulheres negras. Articular opressão racial e questões de classe é fundamental para compreender como a ideia de raça, no sentido biológico, produziu a distribuição racista do trabalho no capitalismo.

Segundo Quijano (2005) o sentido moderno de raça não tem história conhecida antes da América, pois foi no processo de sua constituição histórica que as diferenças fenotípicas entre conquistadores e conquistados e as identidades raciais produzidas configuraram um padrão de classificação social das populações do mundo. Na distribuição racista do trabalho, as(os) negras(os) foram reduzidas(os) à escravidão, enquanto a branquitude foi associada ao salário e aos postos de mando da sociedade colonial. Raça e trabalho aparecem como naturalmente associados, de modo que, há uma distribuição de lugares na pirâmide social brasileira que considera as marcas raciais como classificação básica da população. A transição do escravismo colonial para o capitalismo dependente não rompeu com os valores da ordem anterior, consolidando a ideia da superioridade racial branca. É a manutenção dos valores racistas nos dias atuais que faz com que negras(os) não sejam vistas(os) como intelectuais, médicas(os), economistas, historiadoras(es), cientistas, escritoras(os), pois o que é chamado pejorativamente de “serviço de preta(o)” refere-se apenas ao que é malfeito, sujo e desqualificado.

O afastamento do período colonial não minimizou as tensões raciais em nossa sociedade. As desigualdades raciais contemporâneas não podem ser explicadas apenas como resquícios da herança escravista, mas como a “operação contínua de princípios racistas de seleção social” (HASENBALG, 1979, p.198). Portanto, raça tem sido um instrumento eficaz na alocação das pessoas no mercado de trabalho e na distribuição diferenciada das oportunidades de mobilidade social. Para as(os) trabalhadoras(es) negras(os), suas ocupações são caracterizadas pela desigualdade de rendimentos em relação às(aos) trabalhadoras(es) brancas(os); pela precarização das condições de trabalho e; pela concentração em postos de menor prestígio. Ao tomarmos como referência o Distrito Federal, segundo dados do DIEESE (2013), nas atividades braçais da construção, pedreiras(os), serventes, pintoras(es) e caiadoras(es), as(os) negras(os) representam 54,5% das(os) ocupadas(os), para 29,4% entre as(os) não negras(os).

De acordo com o Anuário das Mulheres Brasileiras (2011), no Distrito Federal, as mulheres negras correspondem a 36,7% dos postos de trabalho vulneráveis, para 25,4% de mulheres não negras. Por postos de trabalhos vulneráveis, consideramos as(os) trabalhadoras(es) sem carteira, trabalhadoras(es) familiares não remuneradas(os) e trabalhadoras(es) domésticas(os). Os números somente fazem sentido se formos capazes de apreender os mecanismos pelos quais o racismo opera e que muitas vezes passam despercebidos nas práticas cotidianas. A formação da classe trabalhadora brasileira tem fortes traços das ideias racistas que privilegiaram a força de trabalho imigrante em detrimento da força de trabalho de trabalhadoras(es) nacionais nos núcleos urbanos em processo de industrialização. Os estudos recentes sobre desigualdades raciais apontam que a discriminação racial é um dispositivo imprescindível na competição por posições na estrutura social, pois mantém os privilégios das elites sobre a égide da brancura.

A extensa divulgação de indicadores sobre as desigualdades sociorraciais é apenas uma ferramenta a que a classe trabalhadora negra pode recorrer para a proposição de ações específicas de promoção da igualdade racial junto ao Estado. No entanto, é o potencial de mobilização e luta de trabalhadoras(es) negras(os) a ferramenta capaz de resistir às condições adversas de um mundo do trabalho em que o capitalismo em crise  precisa (e não abre mão) da precarização. Embora ainda sejam necessárias muitas batalhas até que mulheres e homens negros possam usufruir das mesmas oportunidades que mulheres e homens brancos em nossa sociedade, é preciso reconhecer a importância das conquistas das(os) garis do Rio de Janeiro e das trabalhadoras domésticas brasileiras por melhores condições de vida. As conquistas servem de reflexão até para as categorias majoritariamente brancas, muitas vezes, afastadas das lutas por uma crença ingênua no poder de negociação sem manifestação nas ruas.

As populações negras conhecem as ruas. Seja pelo abandono a que foram relegadas no pós-abolição, seja pelo tipo de ocupação que o capitalismo a elas destinou. Que melhor lugar para mostrar a insatisfação? Que o exemplo de trabalhadoras(es) garis e de trabalhadoras domésticas, ambas(os) oprimidas(os) em raça, gênero e classe, possa iluminar todas as outras categorias profissionais mobilizadas. Que a consciência política desses sujeitos históricos apontem que a luta se faz na rua, expondo as contradições a que estão expostos. Essas duas categorias não se fecharam em sua subalternização, não higienizaram a sua usurpação! Ao contrário, expuseram toda a sorte de iniquidades a que, historicamente, foram submetidas. Muitas lutas ainda virão! Que novas lições possam ser compartilhadas entre todas(os) aquelas(es) que vivem da venda da força de trabalho.

Referências:
DIEESE. Anuário das mulheres brasileiras. São Paulo: DIEESE, 2011.
DIEESE. Os negros no trabalho. São Paulo: DIEESE, 2013.
HASENBALG, Carlos Alfredo. Discriminação e desigualdades raciais no Brasil. Rio de Janeiro: Graal, 1979.
QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In: Edgardo Lander (org.). A Colonialidade do Saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latino-americanas. Buenos Aires: Clacso, 2005. p.227-278.
* Agradeço à amiga e companheira de muitas lutas, Anette Maia, pelas preciosas contribuições.

FONTE: GELEDÉS /  Marjorie Chaves

sexta-feira, abril 11, 2014

Lei que define crimes de racismo completa 25 anos








Foi criada há exatos 25 anos a Lei 7.716, que define os crimes resultantes de preconceito racial. A legislação determina a pena de reclusão a quem tenha cometidos atos de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. Com a sanção, a lei regulamentou o trecho da Constituição Federal que torna inafiançável e imprescritível o crime de racismo, após dizer que todos são iguais sem discriminação de qualquer natureza.

A lei ficou conhecida como Caó em homenagem ao seu autor, o deputado Carlos Alberto de Oliveira. A partir de 5 de janeiro de 1989, quem impedir o acesso de pessoas devidamente habilitadas para cargos no serviço público ou recusar a contratar trabalhadores em empresas privadas por discriminação deve ficar preso de dois a cinco anos.

É determinada também a pena de quem, de modo discriminatório, recusa o acesso a estabelecimentos comerciais (um a três anos), impede que crianças se matriculem em escolas (três a cinco anos), e que cidadãos negros entrem em restaurantes, bares ou edifícios públicos ou utilizem transporte público (um a três anos). Os funcionários públicos, tratado na lei, que cometerem racismo, podem perder o cargo. Trabalhadores de empresas privadas estão sujeitos a suspensão de até três meses. As pessoas que incitarem a discriminação e o preconceito também podem ser punidas, de acordo com a lei.

Apesar da mudança no papel, os negros ainda sofrem racismo e frequentemente se veem em situação de discriminação. Para o coordenador nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais e Quilombolas (Contaq), no campo legislativo pouca coisa mudou desde que a escravidão foi abolida, em 1888. “A realidade continua a duras penas. Desde o começo, muitos foram convidados para entrar no Brasil, o negro foi obrigado a trabalhar como escravo”, disse, citando leis como a da Vadiagem, a proibição da capoeira e o impedimento à posse de terras.

De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios, divulgada em setembro de do ano passado, %).104,2 milhões de brasileiros são pretos e pardos, o que corresponde a mais da metade da população do país (52,9 A diferença não é apenas numérica: a possibilidade de um adolescente negro ser vítima de homicídio é 3,7 vezes maior do que a de um branco, de acordo com estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

De 1989 para cá, outras legislações importantes na luta contra o preconceito racial foram criadas, como o Estatuto da Igualdade Racial (2010) –, e a Lei de Cotas (2012), que determina que o número de negros e indígenas de instituições de ensino seja proporcional ao do estado onde a universidade esta instalada. “Essas são ações muito importantes de reparação. Tem alguns fatores que a gente ainda precisa quebrar para que o negro tenha direitos e oportunidades reais”, acredita Biko.

Para denunciar o crime de racismo ou injúria racial, o cidadão ainda não tem à disposição um telefone em todo o Brasil. Mas unidades da Federação têm criado os seus próprios, como o Distrito Federal (156, opção 7) e Rio de Janeiro (21-3399-1300). Segundo Biko, é importante saber quem é de onde são as pessoas que cometem tal crime. “Sem dúvida, quando mais espaço de denúncia a gente tiver, mais reforça a luta conta a esse processo de segregação racial que a gente ainda vive nesse país”, avalia.

FONTE: AGÊNCIA BRASIL / Paulo Victor Chagas

quinta-feira, abril 03, 2014

UNB reduz de 20% para 5% o número de vagas para negros













A Universidade de Brasília (UnB) decidiu hoje (3) manter o sistema de cotas para negros. No próximo vestibular, a UnB reservará 27% das vagas para alunos de escolas públicas (cotas sociais) e 5% para estudantes negros. Até o último vestibular, eram reservadas 20% das vagas para negros. Atualmente, dos 35.785 alunos da universidade, 3.401 ingressaram pela política de cotas raciais. O edital deverá ser divulgado na semana que vem. 
A UnB foi pioneira na política de cota, criada em 2003. O Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (Cepe) da universidade votou pela manutenção do sistema. Foram 7 votos apenas pelas cotas sociais e 32 pela manutenção das cotas raciais.
Posteriormente,  os membros do conselho vão definir o prazo de validade da decisão.

"Evidentemente não estava em discussão o cumprimento da lei. A universidade vai cumprir a lei federal (Lei 12.711/12). Mas a UnB considera que, mais do que a lei, além do que está na lei, é preciso uma cota extra, digamos assim, para alunos negros sem nenhuma restrição social", disse o reitor da UnB, Ivan Camargo. Para ingressar na universidade pelas cotas sociais, o estudante deve ter cursado integralmente o ensino médio em escolas públicas, o que não é pré-requisito para as cotas raciais.

Essa política começou a ser discutida após um caso de racismo na pós-graduação da UnB, no final da década de 90. O episódio foi presenciado pelo professor de antropologia José Jorge de Machado. Ele é um dos membros da comissão que propôs a continuidade das cotas raciais. "Para a UnB, a lei do governo tem retrocessos e tem exclusões. Vários dos estudantes negros que estão hoje na UnB não entrariam mais com a lei do governo", afirmou o professor.
O objetivo das cotas não é uma compensação econômica. "As cotas mudam imagens, possibilidades profissionais, padrões culturais, dinâmica de espaços de poder, criam combinações intelectuais mediante a proximidade de pessoas antes apartadas, podendo inclusive gerar ideias e resoluções inéditas", diz documento coletivo de membros das comunidades negra e indígena, assinado por centenas de pessoas e entidades.
De acordo com dados da UnB, o desempenho de alunos cotistas e não cotistas é semelhante, com diferenças de décimos na média das notas. Em medicina, um aluno cotista tem desempenho de 4,1 e um não cotista, de 4,22. Em estatística, a média é 3,56 para cotistas e 3,7 para não cotistas. Também segundo a universidade, no Campus Darcy Ribeiro, em Brasília, 73% dos alunos negros não conseguiriam ingressar se não fosse pelas cotas. No campus da Ceilândia, no Distrito Federal, esse percentual é 58,3% e, no Gama, também no DF, 70% não ingressariam na UnB.
A cientista social Natália Maria Machado está entre esses estudantes. Ela entrou na universidade no ano de implementação das cotas. "Não teria entrado na universidade se não fosse por cotas, em tempo hábil para as minhas condições de vida. Não teria", lembra Natália. "Pelas cotas, peguei a universidade num clima e atmosfera de discussão que propiciaram, apesar de todos os desafios, que eu entrasse em contato com as agendas políticas nacionais que dizem respeito à sobrevivência do meu povo e da sociedade, em geral, de forma digna, plural e inclusiva".
As cotas serão aplicadas também no Programa de Avaliação Seriada (PAS) e nas vagas do Sistema de Seleção Unificada (Sisu), que classifica os alunos pela nota no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

FONTE: da Agência Brasil / Mariana Tokarnia

segunda-feira, março 24, 2014

1º Encontro Nacional de Negras e Negras da CSP-Conlutas






1º Encontro Nacional de Negras e Negras da CSP-Conlutas é sucesso com a presença de 1.500 pessoas 


Encontro  aprova resoluções sobre campanha contra a violência racista na Copa e sobre a  organização dos Negros e Negras da CSP-Conlutas

 A abertura do 1º Encontro Nacional de Negras e Negros da CSP-Conlutas, que ocorreu neste domingo (23), foi emocionante. As cerca de 1.500 pessoas que lotaram o plenário mostraram sua determinação e disposição e unidade para dizer “Chega racismo, exploração e dinheiro para a Copa”.

O membro do Quilombo Raça e Classe e também do Setorial de Negros e Negras da CSP-Conlutas, Wilson Honório, antes do anúncio da composição da mesa de debates, saudou os presentes. Disse que simbolicamente a mesa era composta também personalidades históricas da luta contra o racismo, machismo, e de luta contra as opressões. Entre os nomes citados, estavam Zumbi dos Palmares, Rosa Park, Solano Trindade. Também lembrou dos que tombaram recentemente e se tornaram símbolo da luta contra o racismo e contra o machismo, como Claudia e Sandra  e tantos outros.

A mesa foi composta pelo representante do Moquibom do Maranhão, Antonio Lambão, pela integrante Luta Popular, Helena Silvestre, pelo dirigente do Andes-SN, Gean Santana, representando a CSP-Conlutas, Julio Condaque, do Quilombo Raça e Classe e Tamiris Rizzo,  o integrante da Frente Nacional em Defesa do Território Quilombola,  Nelson Morale,  a representante da Comissão Organizadora do Encontro  Maristela Farias, e a representante do GT de Negros do Sinasefe, Eugênia Tavares Martins.

Gean foi mediador da mesa e também saudou a todos dizendo que sentia grande emoção em participar dessa atividade, considerada por ele, histórica.

Compartilhou da mesma opinião o membro da Secretaria Executiva da CSP-Conlutas, Julio Condaque. O dirigente resgatou seu histórico de mais de 25 anos de militância. “Para nós que temos mais tempo de luta esse encontro representa um marco. Podem ter certeza que nós incomodamos o governo”, ressaltou.

Lembrou-se de sua militância desde 2001 quando a entidade que fazia parte se desfiliou da CUT, e  da importância da reorganização e seu fortalecimento. “Hoje, essa reorganização sela um desafio que foi o espaço de unidade de ação. De unificar todos os lutadores contra a copa e contra o racismo. Por isso esse encontro vai apontar uma direção”, frisou.

A integrante do Luta Popular, Helena Silvestre, com a voz embargada pela emoção parabenizou a todos pela realização do Encontro. “A emoção é muito forte. Nós não queremos só trabalhadores aqui, mas também que deem espaço para os oprimidos. Somos nós que estamos submetidos a todo o tipo de exploração e opressão. Somos aqueles que são transformados em mercadoria. Temos que disputar nossos espaços. A nossa cultura de resistência para que os negros possam se reconhecer na sua história que é a história da classe trabalhadora”, disse emocionada.

A luta dos povos quilombolas foi salientada pelo integrante do Moquibom do Maranhão, Antonio, que fez a exigência da necessidade da titulação dessas terras. Criticou o governo que em sua avaliação está sucateando o Incra. “Mas estamos lutando e desde 2005, são mais de 100 entidades, para ajudar nossos irmãos. Nosso foco principal é luta pelos territórios livres. Nos unimos a entidades e a povos como a  CSP-Conlutas, Quilombo e  Anel e para lutar por educação, saúde, transporte, mas fundamentalmente também queremos as terras tituladas  para plantar, não queremos bolsa do governo”, completou.

Tamiris também muito emocionada falou em nome do Quilombo Raça e Classe sobre os recentes casos de racismo. “Choramos pela morte de Claudia. Mas estamos aqui resistindo respondendo contra o racismo”, disse. Citou também os outros casos de racismo, como os do pedreiro Amarildo, justiceiros.

A representante do Quilombo Raça e Classe também criticou a Copa  que colocou uma lente de aumento para o racismo que ocorre no país há quatro séculos. Criticou o PT de Dilma e Lula que em dez anos de governo tem uma dívida com negras e negros do país.  “Não foi capaz de acabar com a desigualdade entre negros e não negros. Ainda ganhamos 30% a menos do que os não negros. Mas isso ocorre porque o governo privilegia empresário e banqueiros e não os trabalhadores negros e negras”, destacou. Segundo ela, no país morrem em média 150 negros por dia.

“Vamos organizar os negros a para assumir sua negritude sob a perspectiva de raça e classe. Trabalhadores garis, operários do Comperj e rodoviários deram o exemplo. Nós, negros, que vivemos essa exploração e racismo temos a  tarefa histórica de sermos vanguarda na classe trabalhadora”, reafirmou, também emocionada.

A representante do Sinasefe, Eugênia fez uma saudação a todos os presentes e abordou a importância de se fazer nos sindicatos a discussão sobre o racismo. “Entendemos a importância dessa luta que precisa ser cíclica. A educação é a base. Trabalhar a questão racial e desmascarar o mito da democracia racial, leis que prejudicam os negros, e lidam com as opressões”, pontuou.

Nelsinho da Frente Negra Quilombola também destacou a importância da educação para combater o racismo. “Tivemos um avanço nesse sentido nas comunidades quilombolas. Uma das vertentes é com a questão da educação, fizemos um trabalho para acabar com o analfabetismo”, destacou. Ao final, homenageou sua mãe que tombou e “não pode ver em vida o seu quilombo titulado”, completou: “é em sua memória que vamos fazer a luta. Axé a todos os quilombos”, finalizou.

Logo em seguida, a mesa abriu para as saudações de representações de diversos segmentos. Garis de Niterói, indígenas da Aldeia Maracanã, companheiros do Comperj, e as representações internacionais da África do Sul.

O companheiro Rasta do Comperj informou que sairia fortalecido daquele encontro. “Travamos uma luta contra o sindicato pelego eles podem me matar, mas a luta continua. Amanhã vamos fazer uma paralisação junto com as mulheres que trabalham na cozinha”, disse. Uma trabalhadora da cozinha fez o uso da palavra e disse que vai lutar junto com os operários do Comperj. “Sem a gente o Comperj não vai andar. Nós mulheres decidimos que amanhã nossa luta vai continuar”, disse.

O gari Luiz Fernando também deu sua contribuição “estou nessa luta, pois quero estar junto aos negros e negras e alcançar o que é de cada um de nós”.

As representações da África do Sul do movimento estudantil, Thando Manzi, e o representante da organização sindical dos metalúrgicos NUMSA , Hlokoza também saudaram o plenário.

Thando  disse que estava feliz por estar ali. “Estou feliz em estar participando desse capitulo da historia e levar comigo hoje esse momento. Nós somos parte dessa luta internacional que também tem cor”, disse.

Hlokoza falou que o racismo sobre  o regime democrático é algo que acontece de forma velada. E finalizou, “precisamos acabar com o sistema capitalista, não vamos esperar mais 500 anos para ter o mesmo salários que os brancos”, disse.

As saudações também foram feitas pelos militantes da Anel, do MML, setorial LGBT, da Anel que também fizeram saudações ao plenário.

Além de representantes das organizações  LRS, LER e POR. Todas as falas convergiram na importância do combate ao racismo e na unidade de todos para combatê-la.

Ao final, Julio pediu um minuto de silencio em homenagem a todos os negros  que tombaram. Ao final entoou junto com o plenário:

Todos, presente!
Todos, presente!
Todos, presente!

Em seguida a mesa de abertura saudou os presentes que se reuniram em 13 grupos de trabalho.

Tudo o que for discutido nos grupo, bem como moções, serão enviadas num relatório final do encontro.

Encontro aprova resoluções sobre campanha contra a violência racista na Copa e de organização dos Negros e Negras da CSP-Conlutas

Na volta do almoço foi apresentada duas resoluções, uma  sobre a violência racista e a criminalização dos movimentos sociais e da pobreza, outra resolução é sobre a organização de negras e negros na estrutura da base, para ser votada pelo plenário. Ambas foram aprovadas pelo plenário.

Confira abaixo, as resoluções aprovadas:

Resolução sobre a violência racista e a criminalização dos movimentos sociais e da pobreza

Considerando:

1. Que a violência, nas suas mais diversas manifestações, tem marcado a vida e a história de negros e negras desde que nossos ancestrais foram sequestrados da África, num projeto perverso e cruel que tentou, desde sempre, “coisificá-los” e desumanizá-los para satisfazer os interesses da elite branca capitalista.

2. Que, após quase 400 anos de escravidão, negros e negras ingressaram no mundo do trabalho assalariado predominantemente nos serviços mais pesados e precarizados, quando não no completo desemprego e marginalização, ficando expostos às piores condições de vida e, consequentemente, imersos na violência cotidiana das moradias precárias, do transporte desumano, da falta de acesso à saúde, à educação ou qualquer tipo de direitos ou serviços.

3. Que as políticas compensatórias e reformistas desenvolvidas nos 10 anos de governo da Frente Popular não têm contribuído para reverter esta situação. Pelo contrário, a adoção do projeto neoliberal pelo governo petista, só tem acirrado o racismo e suas consequências, em particular a violência.

4. Que, desde o início, o projeto da Copa construído pelos governos (federal, estaduais e municipais) e a FIFA (em benefício dos empresários e banqueiros) tem significado um acirramento desta violência em relação a todos os trabalhadores, mas particularmente em relação aos mais explorados e oprimidos, através, por exemplo, de despejos, ataques higienistas (remoções forçadas, expulsão de pobres – majoritariamente negros e negras – dos centros das cidades-sede etc.) e a quilombos e comunidades de povos originários.

5. Que, também como reflexo da Copa, negros e negras tem sido ainda mais expostos a trabalhados insalubres e perigosos, sendo a maioria daqueles que fazem os serviços mais pesados na construção civil e nas obras do PAC, nas terceirizadas, bem como nos serviços de limpeza etc. O que, particularmente na construção dos estádios, já resultou na morte de vários operários.

6. Que, na atual situação, a população negra é vítima cotidiana de um processo de genocídio e higienização social que atravessa todas as políticas do governo petistas e seus aliados e cujos efeitos podem ser constatados em dados como os seguintes: a) a possibilidade de um jovem negro ser assassinado no Brasil é 135% maior do que a de um branco (dados do Ministério da Saúde mostram que mais da metade – 53,3% — dos 49.932 mortos por homicídios, no Brasil, em 2010, eram jovens, dos quais 76,6% eram negros; b) segundo o “Mapa da Violência, 2012”, entre 2002 a 2010 foram registrados\ 272.422 assassinatos de negros, sendo 34.893 só em 2010 e que, como exemplo da cumplicidade da Frente Popular, entre 2002 e 2010 houve uma redução de 24,8% nos homicídios de jovens brancos entre 15 e 24 anos, contra um aumento de 36% no assassinato de negros.

7. Que, como também temos presenciado, a imposição do projeto da Copa, bem como a crescente insatisfação popular, particularmente a partir de Junho de 2013, têm sido encarados pelos governos com um grau sem precedentes de repressão aos movimentos sociais e o emprego de forma cada vez mais violenta da Política Militar e dos aparatos de repressão (orientados e amparados pela fascista “Lei de Garantia e da Ordem”), o que já resultou em milhares de presos, centenas de feridos e, inclusive, mortos entre os que saíram às ruas para protestar. Que este projeto tem se combinado com processos anteriores, como, por exemplo, a implementação da UPPS’s no Rio de Janeiro, que já significaram um aumento enorme nos índices de genocídio da juventude negra e repressão da população em geral. Uma situação que tem feito que ganhe cada vez mais força a reivindicação pelo fim das PM e forças de repressão.

8. Que Amarildo, Douglas, Jean e, recentemente, Claudia, dentre tantos outros, são lamentáveis exemplos do processo de genocídio a que nos referimos e do destino que o governo petista e o sistema que ele defende reserva a negros e negras.

9. Que a combinação de todos os fatores da atual conjuntura tem aumentado a polarização racial no país (tanto através do aumento de ataques quanto do maior número de denúncias), algo expresso em lamentáveis exemplos como a de jovens negros acorrentados a postes (e, ainda, atacados pela mídia, como foi o caso da jornalista Sherazade, do SBT); violentos ataques racistas nos campos de futebol etc.

10. Que toda e qualquer forma de violência é particularmente perversa em relação às mulheres negras entre as quais a combinação de racismo e machismo resulta em ataques físicos, assédio moral e sexual, super exploração etc. Algo que, como já temos visto, só tem piorado com a Copa do Mundo, particularmente no que se refere à exposição ao turismo e à exploração sexual (como ficou evidente na asquerosa camiseta comercializada pela Adidas).

11. Que a CSP-Conlutas e as entidades a ela filiadas, desde sua fundação e em seus princípios, defendem a luta contra toda forma de opressão e suas consequências no cotidiano da vida dos trabalhadores e da juventude, através da ação direta e na luta pela reorganização sindical e política dos movimentos, dentro de uma perspectiva classista e de transformação socialista da sociedade.

O I Encontro do Setorial Negros e Negras da CSP-Conlutas resolve:

1. Desenvolver uma ampla campanha, na base da CSP-Conlutas e em aliança com as organizações que se articularam em torno do Espaço Unidade de Ação e do movimento negro combativo em torno do tema“Chega de dinheiro para os patrões, banqueiros e a FIFA: contra violência racista na Copa!”, englobando todos os aspectos da violência (inclusive a provocada pela falta de acesso aos serviços públicos básicos), mas centrada no tema do genocídio negro e do avanço do aumento da repressão e da militarização.

2. Que a Campanha tenha como base o mesmo calendário de lutas que será aprovado no Encontro do Espaço Unidade de Ação, o que significa, por exemplo, a confecção de faixas voltadas para o tema para os atos, a formação de colunas de negros e negras nestas atividades e a inclusão dos temas da Campanha em todos os materiais e debates que promovamos neste período, procurando apoiar-se tanto nos dados gerais quanto naqueles específicos a cada setor ou categoria.

3. Que um dos eixos desta campanha seja a luta pela desmilitarização das polícias, visando o fim de todas as polícias.

4. Que durante a campanha seja dada a devida ênfase e particularidade ao tema do turismo sexual e a luta contra violência à mulher negra e às mulheres trans e conseqüente mercantilização de seus corpos.

5. Que, como parte da campanha, sejam tomadas iniciativas institucionais tanto como forma de denúncia como para apoiar as vítimas (apoio jurídico, denúncia às cortes internacionais) e defender, juridicamente, os companheiros e companheiras que têm sido criminalizados.

6. Fortalecer a luta pela descriminalização das drogas e fim do tráfico, pois são uma das principais justificativas para o extermínio da população negra.

7. Aprofundar a discussão e atuar para fortalecer a autodefesa e resistência do movimento, contra a repressão policial nas manifestações e periferias.

8. Combate a discriminação religiosa, que também se materializa em preconceito e violência contra o povo negro e sua cultura.

9. Combate ao racismo institucional, que respalda a violência racista e promulga o mito da democracia racial por meio de várias instituições (como a escola e a imprensa) e também, na forma de não fazer valer os direitos já conquistados pela população negra, como a aplicação da Lei nº10.639 e o trato do racismo como crime.

Segunda resolução

Resolução sobre a organização de negros e negras na estrutura e base da CSP-Conlutas

Considerando:

1. Que, no interior dos movimentos sociais – sindical, estudantil, de mulheres, LGBT, popular etc. –, um dos principais reflexos do “mito da democracia” é a “invisibilização” da questão racial em todos seus aspectos – da história às reais condições de vida de negros e negras –, o que faz com que a abordagem sobre os temas relacionados ao racismo seja formal, secundarizada ou simplesmente menosprezada.

2. Que reverter esta situação é uma tarefa extremamente difícil, já que esta postura está profundamente enraizada na própria história dos movimentos operário e sociais do Brasil, particularmente pela forte tradição que o populismo (fortemente alicerçado no mito da democracia racial) e o stalinismo (que , na prática, sempre se recusou a fazer um debate de raça e classe) tiveram em nossa história.

3. Que os efeitos sociais, econômicos e ideológicos do racismo têm como uma de suas consequências a maior dificuldade que negros – e muito particularmente as mulheres negras – têm em se organizar e participar do dia a dia das entidades do movimento, o que se reflete na presença “racialmente desproporcional” nas direções e inclusive militância das categorias (o que pode ser facilmente verificado particularmente naquelas em que a base é formada majoritariamente por negros e negras).
 
4. Que a ideologia racista está profundamente enraizada no interior da classe trabalhadora e da juventude (sendo propagandeada cotidianamente pelos instrumentos de “formação” da burguesia, como o sistema educacional, os meios de comunicação etc.), o que faz com que, pela falta de um “contradiscurso” (classista e anti-racista), trabalhadores e jovens reproduzam toda e qualquer forma de preconceitos e discriminação, o que, evidentemente, divide a classe e os lutadores.

5. Que, em consequência de tudo isto, negros e negras têm enormes dificuldades para se identificar com os movimentos (e, consequentemente, suas políticas), exatamente por não “se verem” na estrutura e atuação das entidades, o que é um enorme obstáculo para qualquer projeto de mudança social em um país composto majoritariamente por negros e negras.

6. Que a CSP-Conlutas, desde seu processo de fundação, tem se caracterizado por lutar para romper esta tradição, a começar pelo seu caráter “sindical e popular” e a inclusão, em suas fileiras, dos movimentos de combate ao machismo, ao racismo e à homofobia. Contudo, exatamente pelos motivos apontados acima, este é um processo extremamente difícil que necessita medidas concretas e permanentes que busquem trazer negros e negras para nossas fileiras.

7. Que a realização dos Encontros do Espaço de Unidade de Ação e do Encontro de Negros e Negras da CSP-Conlutas e, principalmente, as mobilizações que ocorreram no próximo período, irão, certamente, colocar milhares de negros e negras em contato com a Central e suas entidades, muitos deles procurando uma alternativa de organização.

O I Encontro do Setorial de Negros e Negras resolve:

1. Que as direções de todas as instâncias da CSP-Conlutas – suas coordenações nacional, estaduais e regionais; as diretorias sindicais; as coordenações dos movimentos popular, estudantil, LGBT e de mulheres e dos grupos do movimento negro combativo; bem como as minorias e oposições – tenham como uma de suas tarefas prioritárias a organização e implementação da Campanha contra a violência racistas na Copa, que deve ser tomada como parte de uma política permanente de incentivo à construção de Secretarias, Setoriais, Coletivos ou qualquer outra forma de estrutura destinada a organizar negros e negras, no interior das entidades, na base das categorias e setores (como os movimentos negros etc.). Essa Campanha deve continuar após a Copa, denunciando o extermínio da juventude e do povo negro da periferia, que já acontecia antes da Copa e que se refletiu nos casos do Amarildo, Douglas, Jean e Claudia.

2. Que a exemplo do que já foi feito em algumas entidades – como a Secretaria de Combate ao Racismo do Sindicato dos Metroviários (SP) – as entidades filiadas a CSP-Conlutas realizem censos e pesquisas que auxiliem a entidade a fazer uma análise mais objetiva e concreta da situação de negros e negras em suas bases, com objetivo de construir políticas concretas que respondam à “realidade racial” da categoria e suas demandas.

4. Que as instâncias da CSP-Conlutas – a começar por suas coordenações – promovam uma política de formação em torno do tema racial, através de cursos e palestras que visem atacar os problemas apontados acima. Neste sentido, estes cursos devem abordar tantos aspectos ideológicos e históricos, como também servir para armar a militância para o cotidiano de suas lutas e atividades, como, por exemplo, atividades de formação em torno de temas como “saúde da população negra”, “aplicação da lei 10.369”, “comunidades quilombolas” etc. Estes cursos devem ser formulados em parceria com o Setorial e aliados da CSP-Conlutas nos projetos de formação, como o Ilaese; como também em propostas formuladas pelos membros do Setorial, como o curso “Globalização e Racismo”, que já vem sendo oferecido pelo Quilombo Raça e Classe.

5. Que além de garantir publicações especiais nas datas simbólicas da luta contra o racismo – Dia Internacional de Combate ao Racismo (21/03), Dia 14 de maio Dia de discussão e de luta pós fim da escravidão; Dia de Protesto Contra a Ocupação do Haiti (01/07), Dia latino americano e caribenho da Mulher Negra (25/07) e Dia Nacional da Consciência Negra (20/11) – as instâncias da CSP-Conlutas adotem a política de publicar regularmente materiais (como cartilhas, boletins especiais etc.) que auxiliem no debate sobre o racismo e na armação da militância. No mesmo sentido, que, em base a dados concretos, se procure sempre dar um “corte” de raça e classe nos materiais publicados regularmente pelas entidades (jornais, boletins etc.).

6. Que nos processos eleitorais, as chapas em que os militantes da CSP-Conlutas participem abordem o tema racial em seus programas e debates.

7. Que, como parte de seus esforços internacionalistas, a CSP-Conlutas – a exemplo do que vem sendo feito, através de viagens a Inglaterra e a África do Sul – estimule a troca de experiência e o desenvolvimento de parcerias e campanhas em relação ao racismo, tema que deve ser levado a todas iniciativas internacionais que a Central tem desenvolvido.

8. Que a CSP-Conlutas discuta nas suas instâncias a realização de encontros de negros e negras com mais freqüência e que reflita nos seus congressos esse debate.

9. Incentivar a construção de espaços de auto-organização de negras e negros para que sejamos protagonistas das construção das lutas.

10. Incentivar a construção de comitês de base que organizem as lutas das negras e negros e nível local, acumulando para futuros encontros nacionais.


11. Campanha contra a impunidade e pelo julgamento dos assassinos de Quilombolas (negros e índios). Contra a violência no campo e pela Reforma Agrária.

FONTE: CSP-CONLUTAS

sábado, março 22, 2014

Abertura do I Encontro de Negras e Negros da CSP-Conlutas se transforma em ato de resistência ao racismo


Com o tradicional lema da África do Sul, “Amandlha, aweto”, ou “o poder é nosso”, encontro emociona




A abertura do I Encontro Nacional de Negras e Negros da CSP-Conlutas, realizada na noite de 21 de março, dia internacional de luta contra o racismo, tornou-se um grande ato de luta e homenagem ao povo negro, contra o racismo e a exploração. Além do combate ao racismo, a abertura do encontro que se estende por todo o domingo próximo, debateu as mobilizações durante a Copa sob o prisma da questão racial.
O ato que reuniu algo como 400 pessoas em seu auge reuniu dirigentes sindicais e do movimento negro, incluindo dois sul-africanos que participaram das mobilizações contra as injustiças da Copa em seus países. O sindicalista Hlokoza Motau e o estudante Thando Manzi compartilharam suas experiências e falaram sobre as diversas similaridades existentes entre a luta do povo sul-africano contra o racismo e o do povo negro no Brasil.
Thando iniciou a sua fala reproduzindo um grito tradicional durante os protestos na África do Sul. Ao grito de "amandlha", que significa "poder", todos respondem "aweto", ou "é nosso". Assim, aos gritos de "amandlha" e "aweto", "o poder é nosso", o estudante sul-africano iniciou sua fala relatando a situação de seu país que, 18 após o fim do apartheid, continua marcado pelo racismo. "Existe uma separação racial e até geográfica, com lugares só para negros e outros só para brancos, escola para brancos, restaurantes", disse. O estudante citou a composição de uma empresa aérea no país, no qual 85% dos pilotos são brancos e apenas 15% negros.
Para Thando, "Brasil e África do Sul tem muito em comum, como a desigualdade social e o racismo". O estudante destaca que o domínio das empresas multinacionais e as políticas neoliberais, tanto no Brasil como em seu país, reforçam o racismo, a exclusão social e o machismo. "Em meu país, as mulheres negras estão perdendo seus empregos, pois os principais locais em que trabalham, as pequenas fábricas, estão fechando porque agora tudo se importa da China", exemplifica. Ele citou ainda os altos índices de estupro e feminicídio, sobretudo de mulheres lésbicas.
Um outro paralelo que o sul-africano traçou entre Brasil e África do Sul, foi o quanto a Fifa ganhou com a Copa, enquanto serviços públicos como a educação sofriam com o descasço. "Enquanto o governo sul-africano encheu os bolsos da Fifa durante a Copa, as nossas escolas tinham um dos piores índices do mundo", relatou.
"Brasil, África, América Central/A luta do povo negro é internacional!"
Hlokoza Motau, sindicalista da NUMSA, começou seu discurso explicando o massacre de Shaperville, em 1969, no qual os negros se revoltaram contra o passaporte obrigatório na época para se ir de um lugar a outro dentro do próprio país. "Eu cresci sob esse sistema, nos faziam acreditar que éramos inferiores aos brancos e a ter medo deles", relata. "Mas Shaperville nos deu coragem para resistir, começamos a nos organizar para resistir á opressão", disse. "Começamos a levar a luta para as fábricas, transformamos as prisões em grandes centros de educação e formação política e os funerais em atos de formação política de massas", contou.

Motau contou ainda como a exploração e a opressão combinavam-se para aumentar os lucros dos grandes donos das minas. "Quem instituía esse passaporte eram os donos das minas, para poderem superexplorar os trabalhadores". Para o sindicalista, "o apartheid acabou, mas o sistema que o gerou continua existindo, se não esmagar o capitalismo, esse sistema opressor seguirá existindo". Hlokoza compartilhou a experiência do NUMSA, que convocou uma frente única contra o neoliberalismo e como se está organizando um "movimento pró-socialismo". "Não temos nenhum desejo de apoiar um partido da burguesia", disse, referindo-se nesse meio o CNA (Congresso Nacional Africano), que está hoje no poder. "Estou muito feliz por hoje, pois percebo que estamos trilhando o mesmo caminho", disse, sendo efusivamente aplaudido.
Racismo e a opressão à mulher
Vera Rosane, do Movimento Mulheres em Luta e do Quilombo Raça e Classe trouxe um depoimento e uma fala emocionantes, relatando a dupla opressão que atinge as mulheres negras. Ela lembrou do caso de Cláudia, morta e arrastada pela polícia do Rio no último dia 17. "Nós, mulheres negras, vivemos um requinte de crueldade do Estado", disse. "No império, existíamos para satisfazer e servir aos senhores, hoje continuamos no mesmo lugar", afirmou, colocando que 99% das empregadas domésticas são negras. No entanto, se há opressão, também há resistência, como demonstrou a greve dos garis, lembrada por Vera. "Quando a senzala se levanta, não fica pedra sobre pedra, como os companheiros garis mostraram", disse.

Wilson Silva, do Quilombo Raça e Classe também trouxe um depoimento emocionante. Ele relatou como a luta dos negros sul-africanos está intimamente relacionada com a dos negros no Brasil. "O primeiro ato público que fui na minha vida foi quando tinha 14 anos e ocorreu o massacre de Shaperville, e fomos na embaixada da África do Sul", relatou. Wilson comparou ainda o atual governo do país africano, encabeçado pelo CNA (o partido de Mandela) e a Cosatu, a principal central sindical, e o Brasil, com o governo do PT. Ambos tiveram suas histórias ligadas à luta da classe trabalhadora mas que hoje aplicam uma política econômica neoliberal.
O representante do Quilombo comparou ainda o massacre de Marikana que ocorreu em 2012 e vitimou 34 trabalhadores, e o massacre diário ocorrido contra os jovens negros da periferia. "Se o capitalismo mata, o neoliberalismo massacra", afirmou. "Mas junho bateu forte em negras e negros, que foram aos milhares às ruas", lembrou, reforçando que "infelizmente eles não estavam organizados e esse é o nosso objetivo aqui: oferecer uma alternativa de luta aos negros e negras desse país", disse, sendo muito aplaudido.
Após a abertura simbólica do I Encontro de Negras e Negros da CSP-Conlutas, o encontro em si continua no próximo domingo, dia 23. Mais de mil pessoas de todo o país já se inscreveram nesse que promete ser um importante momento na organização do movimento negro. Nesse dia 22 ocorre o Encontro “Na Copa Vai ter Luta” cujo objetivo é o de articular mobilizações durante os jogos do Mundial.
FONTE: OPINIÃO SOCIALISTA