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segunda-feira, dezembro 09, 2013

O verdadeiro bom combate





Mandela entendeu ser mais difícil navegar nos labirintos da liberdade que travar a luta sem matizes entre o bem e o mal


Não me lembro quando soube pela primeira vez da existência de Nelson Mandela. Talvez tenha sido em 1962, ano em que o futuro presidente da África do Sul foi condenado à prisão perpétua entre os rochedos de Robben Island. Poderia ter sido naquela época, mas não foi.

Eu era então um jovem de 20 anos e, como tantos outros de minha geração no Chile, pregava a revolução. Ao menor pretexto, nacional ou internacional, saía com outros estudantes às ruas de Santiago para exigir justiça, contra uma maré de policiais armados. Entretanto, nessa multiplicação de protestos não houve nenhum, que eu lembre, voltado para exigir a liberdade de Mandela. Nós entendíamos, com uma clareza meio borrada, que o apartheid sul-africano era uma mácula racista, o sistema mais desumano e cruel do mundo; mas a luta de Mandela era um mero clarão distante frente às urgências de uma América Latina empobrecida e abrasada. Nem mesmo nos três anos da presidência de Salvador Allende - cujo programa de libertação nacional poderia ter sido calcado na Freedom Charter do Congresso Nacional Africano - a figura de Mandela chamou minha atenção.

Foi somente em 1973, quando o golpe militar contra Allende me mandou para o exílio, deixando-me desnorteado e sem país, que o nome de Mandela foi se tornando uma espécie de lar e refúgio, uma chama de esperança que foi meu alento nos dias de desterro com um indômito e terno exemplo de lealdade. Seu significado cresceu mais ainda por causa do distorcido conluio dos dois regimes proscritos, o de Augusto Pinochet e o de Balthazar Vorster e Pieter Botha, que trocavam medalhas, embaixadores e exportações (inclusive de armas e gás lacrimogêneo). Essas ditaduras irmanadas em sua obsessão por eliminar toda rebeldia, toda dissidência, fizeram crescer ainda mais minha identificação com o destino de Mandela. Fizeram com que eu sentisse, como tantos que buscavam um mundo mais decente e insubornável, que sua luta era a minha, era a nossa.

Mesmo assim, o Chile precisou recuperar sua democracia em 1990 - mesmo ano em que Mandela enfim saiu triunfalmente do cárcere - para eu começar a compreender que aquele ex-preso político era muito mais que um símbolo ou um eco. Num momento em que a África do Sul, o Chile e muitos outros países enfrentavam os dilemas turbulentos de uma transição para a democracia, em que nos perguntávamos como fazer frente aos horrores do passado sem sermos reféns do ódio que este passado continuava gerando, Mandela foi nosso modelo e guia. Ao conseguir que sua pátria eliminasse pacificamente o apartheid, ao negociar com o inimigo, mantendo, contudo, sua dignidade inquebrantável, ele ofereceu a todos que tínhamos lutado durante décadas contra a injustiça uma lição fundamental. Tivemos de aprender que pode ser eticamente mais complicado navegar entre as tentações e os matizes da liberdade do que manter a cabeça erguida e o coração batendo forte em meio a uma opressão que separa, sem ambiguidades, o bem do mal.

Admirável esse homem que, embora tendo passado quase 30 anos no cárcere, talvez por ter coexistido tanto tempo com os adversários mais aguerridos compreendeu que a reconciliação é sempre possível. E nos advertiu a não trair a memória sempre que se exija o arrependimento alheio. Mais que admirável. Porque justamente quando pensamos que não poderia ser mais venerado ainda, exatamente então ele decidiu não eternizar-se na presidência. Preferiu dar um exemplo de probidade e confiança na democracia. Um dos homens mais populares do planeta e ídolo em seu país, escolheu não acumular todo o poder em sua pessoa, optando por preparar a pátria para o momento inevitável de seu desaparecimento.

Esse momento chegou.

Agora o mundo, e em especial a África do Sul, terão de encontrar um rumo no futuro incerto sem sua prodigiosa presença, o que me atrevo a chamar de sua luz em nossa escuridão.

E é agora, evidentemente, que Mandela irá se tornar cada vez mais perigosamente lendário. Se não pôde defender-se em vida da santificação insensata, como conseguirá depois da morte ser tratado simplesmente como um ser humano de carne e osso, alguém que, como todos os seres do nossos universo, nasce e come, come e ama, ama e morre?

Gostaria então neste instante doloroso em que Mandela começa a nos escapar entre os discursos e os panegíricos, os elogios, os monumentos e as estátuas, gostaria de resgatar esse homem real, tangível, corpóreo.

Tive a sorte de estar com Madiba (seu nome de clã) no dia 28 de julho de 2010, quando visitei a África do Sul para proferir a Mandela Lecture, conferência que cada ano é dada em sua honra. Quando me mandaram o convite - o primeiro a um latino-americano e a um escritor -, meus anfitriões me disseram que Mandela receberia a mim e a minha mulher, Angélica, em sua casa para almoçar - desde que, evidentemente, não estivesse doente. Sua saúde não permitiu nosso almoço, mas pudemos conversar durante uma hora na sede da fundação que tem seu nome.

Seria um dos últimos encontros de Mandela com um visitante estrangeiro, alguém que não pertencia a seu círculo imediato.

Chamou-me atenção sua fragilidade, a lenta precariedade de seus movimentos, a firmeza de sua mão quando apertou a minha, a forma como seu rosto se transformava, como um sol ao amanhecer, quando sorria. E seus maiores sorrisos eram para Graça Machel, sua terceira mulher, que cuidou dele na velhice, a quem devemos que um homem tão maltratado no cárcere tenha sobrevivido até os 94 anos.

Do que falamos naquela oportunidade? De Allende, evidentemente. E dos ataques xenofóbicos aos forasteiros e aos estrangeiros, que, segundo Mandela, são uma vergonha nacional. E de suas esperanças para a África do Sul.

Tudo isso era previsível.

O mais impressionante é quando ele fala do pai e da mãe. Como todos os homens em idade avançada, Mandela vive uma grande parte de cada dia no passado remoto e, na ocasião, como conversamos sobre seu aniversário, mencionou um incidente no qual o pai bateu na mãe, uma degradação que não está em nenhuma de suas biografias.

Imediatamente, apareceu outro Mandela. Alguém que adora o pai, mas o critica. Alguém que ama a mãe, mas se envergonhava por sua desonra. Alguém que, muito antes de ser o grande protagonista que salvou sua pátria e ofereceu um exemplo moral inigualável a nossa espécie desgarrada, foi uma criança, pequenina e indefesa, que percebia que a injustiça sempre começa pelos menores atos, os mais aparentemente desprovidos de importância. Uma criança que presencia esse ataque contra a mãe - ou talvez o relato do fato, que pode mesmo ter ocorrido antes de seu nascimento, não fica evidente em sua rememoração - e que se pergunta, ante a imensidão desolada do continente africano, por que existe a dor, se pergunta sobre um mundo autoritário que parece imutável e, no entanto, precisa ser corrigido, precisa ser melhorado.

Esse é o Mandela que quero lembrar.

O que viveu dia após dia seu século terrível e não saiu destroçado do cativeiro.
O que cultivou um jardim na prisão.

Ele gostava de plantar e colher debaixo de chuva e sol, sabendo que, assim como exercia um mínimo controle sobre um pedacinho de terra, também podia controlar sua dignidade e suas memórias e a fidelidade com os companheiros.

O que compartilhava frutas e verduras com os outros presos, mas também com os carcereiros, prefigurando o tipo de nação que desejava e com o qual sonhava.

É assim que quero lembrar de Mandela.
Como um jardim que cresce, assim como cresce a memória. Como um jardim que cresce como deveria crescer a justiça. Como um jardim que nos reconcilia com a existência e a morte e as perdas irreparáveis. Como um jardim que cresce como cresce Mandela dentro de todos nós, dentro do mundo que ele ajudou a criar e terá de encontrar, tateando, uma maneira de ser fiel a ele.


FONTE:Ariel Dorfman - O Estado de S. Paulo / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

quinta-feira, dezembro 13, 2012

O filho mais famoso de Exu












A figura de Luiz Gonzaga, que completaria cem anos em 2012, permanece viva em sua cidade natal, no sertão pernambucano


Desde 1º de fevereiro deste ano, todos os dias, um pouco antes das seis da tarde, lá está o menino Henrique Alencar, 12 anos, em frente à torre da Capela de São João Batista, na Fazenda Araripe, em Exu, a 630 quilômetros do Recife. Pontualmente nesse horário, Henrique puxa a cordinha e, por seis vezes, o som do sino de bronze, de mais de 150 anos, ecoa nos céus da caatinga, atravessa o riacho da Brígida e se espraia por essas terras baixas, no sopé da serra do Araripe, onde em 13 de dezembro de 1912 nasceu o cantador e sanfoneiro Luiz Gonzaga. Todas as tardes até 13 de dezembro, data em que Gonzagão completaria 100 anos, Henrique fará soar a homenagem a um dos maiores sertanejos de todos os tempos.
O soar do sino a Luiz Gonzaga, na Fazenda Araripe, no ano de seu centenário, tem um significado que o pequeno Henrique talvez nem imagine. Sua família Alencar, juntamente com os Sampaio e os Saraiva, protagonizaram a mais sangrenta guerra entre famílias da história de Exu. Dezenas de pessoas perderam a vida no conflito que começou em 10 de abril de 1949 e se prolongou por mais de 30 anos, mas cujas origens estão fincadas na época da colonização e envolvem desavenças políticas e familiares por divisão de terras. Cansado de ver tanto sangue derramado, em 1979, Gonzagão apelou ao presidente da República em exercício, Aureliano Chaves: “Doutor Aureliano, faça um esforço para levar a paz à minha terra.”
Gonzaga buscou a paz em Exu como um obstinado. Insistiu nessa empreitada, chegou a cantar, juntamente com o filho Gonzaguinha, músicas pedindo por reconciliação. “Que os poderosos se matem/problema é do poder/mas sempre sobra pros pobres/e isso eu não posso entender”, dizem os versos de “Prece por Exu Novo”, de Gonzaguinha. Em 1981, o governo de Pernambuco chegou a decretar intervenção no município. Em julho daquele ano, ocorreu o último crime relacionado ao conflito. Depois disso, o “Rei do Baião” agregou outro título ao nome, o de pacificador de Exu.
“Nada mais justo do que prestarmos essa homenagem, aqui no local onde ele nasceu”, resume Maria do Amparo Aires de Alencar, 60 anos, tia de Henrique. “Também queremos rezar novenas bem bonitas na capela, acender fogueiras para Luiz Gonzaga durante sete noites na época de São João, festejar, chamar o povo pra se divertir. Mas, para isso, precisamos do apoio do governo do estado de Pernambuco”, acrescenta. Bem que o filho dela, Clóvis Jaime, vem tentando contatos no Recife, especialmente com a Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe). “Até agora, ninguém se manifestou, está difícil para concretizarmos o projeto”, lamenta Maria do Amparo.
A paz não é o único e talvez nem o principal legado de Gonzaga a Exu. As pedras do calçamento antigo e irregular da ruazinha mais conhecida como “dos Saraiva”, no centro da cidade, são testemunhas de outra herança do sanfoneiro. Nessa rua, numa casa perto da esquina, funciona o Projeto Asa Branca. E são justamente os acordes da lendária canção, vindos do número 131, sede do projeto, que logo chamam a atenção. Quem toca numa velha sanfona de 120 baixos é Vinícius Felipe da Silva, de 9 anos. Logo, juntam-se a ele Taís Bezerra, de 20 anos, na zabumba, e Stanley Tomaz Bezerra, de 13 anos, no triângulo. Sanfona, zabumba e triângulo, a santíssima trindade do forró ungida por Luiz Gonzaga em suas andanças por este País.
Vinícius, Taís e Stanley são alunos do Projeto Asa Branca, juntamente com um punhado de crianças e adolescentes que, aos poucos, vão chegando ao local. O projeto se originou na Fundação Asa Branca, também conhecida como Fundação Gonzagão, entidade criada em 2 de março de 2000 pelo então promotor de Justiça local, Francisco Dirceu Barros, e alguns exuenses importantes. “O doutor Francisco era um apaixonado pela cultura gonzagueana, e foi dele a ideia da Fundação. O objetivo é prestar atendimento a crianças e adolescentes, especialmente as carentes, utilizando a arte e a poesia de Luiz Gonzaga para sua promoção social”, explica a professora aposentada Marina Santana Moreira. Mulher de personalidade forte, Marina esteve junto com o promotor Francisco Dirceu desde o lançamento do Projeto Asa Branca.
“Do ano 2000 até agora, mais de 800 crianças passaram pelo projeto, que inicialmente, além de música, oferecia oficinas de artesanato, dança e poesia. Atualmente, atendemos uma média de 350 crianças, inclusive à noite”, conta Marina. Algumas delas se destacaram, tocando acordeão e se apresentando em grupos regionais, mas isso, para a professora, não é o essencial. “O importante é incentivar as crianças a resgatar a cultura gonzagueana e a promover o município de Exu”, enfatiza.
Assim que se chega ao projeto, a primeira coisa que chama a atenção é o entusiasmo das crianças. Só depois é que o visitante percebe a precariedade dos instrumentos encostados na parede. “Muitos acordeões foram comprados em feiras de cidades vizinhas. Alguns estavam caindo aos pedaços”, explica Marina. Não fossem os cuidados de Pedro José Sampaio, 55 anos, o destino dessas velhas gaitas de fole seria o lixo. Remenda dali, conserta daqui, e aos poucos Pedro José vai devolvendo a sonoridade às sanfonas. “Claro, não é como uma nova, mas dá para o gasto”, brinca Sampaio, que também atua como monitor de alunos no projeto, enquanto mostra uma velha sanfona de 120 baixos que ele consertou. “Deve ter uns 80 anos, a bichinha”, calcula.
Parque “Aza” Branca
Quem chega a Exu, depois de sacolejar por uma estradinha estreita e esburacada – se bem que, em alguns trechos, o asfalto é até razoável –, logo à direita é saudado por uma placa onde se lê: “Bem-vindo ao Museu do Gonzagão-Exu-PE”. O museu faz parte do Parque Aza Branca (assim mesmo, com “z”, conforme a grafia antiga da palavra), espaço localizado em um terreno que pertencia a Luiz Gonzaga e que abriga também a casa de seus pais.
Foi ali que ele viveu seus últimos dias e é onde seus restos mortais descansam, em um mausoléu, ao lado dos pais, Januário e dona Santana; da mulher, Helena, e do irmão Severino. As mais fortes lembranças de Luiz Gonzaga estão no museu: partituras de música, sanfonas, gibão, chapéu de couro, discos, troféus, fotografias, livros, jornais e condecorações. O museu foi construído pelo próprio músico, e sua intenção era reunir todo o seu acervo em um único local para, assim, facilitar o trabalho de jornalistas, pesquisadores e de quem quer que se interesse por sua obra.
O parque conta com os serviços de apenas dez funcionários e se mantém graças ao dinheiro arrecadado nos ingressos e à colaboração de admiradores e empresários. Apesar da importância cultural e histórica do local, a infraestrutura necessita de alguns cuidados. De acordo com o diretor de Equipamentos da Secretaria de Cultura do Estado de Pernambuco, Célio Pontes, uma reforma está em andamento. “A reestruturação do parque deve ser concluída até o final de novembro, assim deveremos comemorar o centenário de Gonzaga, em dezembro, já nas novas instalações”, prevê Célio.
Atualmente, o parque abriga uma ONG. A vice-presidenta da entidade, Maria Parente, avalia que, apesar dos trabalhos de recuperação feitos pelo governo estadual, há a necessidade de uma reforma mais ampla. “O governo recuperou o prédio do museu, o mausoléu e a casa do ‘Rei do Baião’, mas a cozinha da casa de Luiz Gonzaga está quase no chão, bem como a casa de Januário, pai do artista, que também precisa de reparos”, destaca Maria Parente.
Indiferentes aos problemas existentes à sua volta, os 20 alunos, entre 8 e 15 anos, que participam do curso de formação de sanfoneiros desenvolvido no Parque Aza Branca, só querem aprender os segredos do instrumento e manter viva a tradição do mestre Luiz Gonzaga. Não é cobrada nenhuma taxa no curso, e as lições são divididas em três módulos. Mas não há data certa para a conclusão da atividade: até março, a manutenção do projeto ainda dependia da liberação de verbas do Ministério da Cultura.
Porém, há um lado obscuro em Exu, do qual certamente Luiz Gonzaga não se orgulharia. As drogas, a evasão escolar e o alcoolismo atingem níveis preocupantes entre jovens abaixo de 20 anos, o que corresponde a 40% da população de 31 mil habitantes, segundo o Censo de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Para enfrentar o problema, a administração municipal conta, como trunfo principal, com a criação do Parque da Juventude. Previsto para ser entregue em breve, o complexo multiesportivo tem o aval do Ministério do Esporte e está orçado em R$ 1.708.540,48.
Dos oito baixos de Januário aos 120 de Luiz
Teatro Tereza Rachel, Rio de Janeiro, anos 1970, época em que os militares impunham as regras do jogo. Num espetáculo intitulado “Luiz Gonzaga volta pra curtir”, depois transformado em disco, o sanfoneiro se derrama em elogios ao então ministro da Justiça Armando Falcão, que estava na plateia. O ministro passou à história como o artífice da “Lei Falcão”, aquela que limitou drasticamente a aparição de políticos no rádio e na televisão, para tentar evitar a vitória oposicionista. Já na música “Rio Brígida”, Gonzaga é pródigo em louvações aos ex-governadores pernambucanos José de Moura Cavalcanti, Marco Maciel e Nilo Coelho, todos indicados pelos generais da ditadura.
Para o pesquisador e jornalista paraibano Assis Ângelo, autor do Dicionário Gonzagueano – um ABC sobre vida e obra de Luiz Gonzaga, esses “deslizes” não comprometem a biografia do “Rei do Baião”. “Politicamente, Luiz Gonzaga era um ser muito conservador. Isso está claro em algumas de suas letras. Para ele, só havia um partido político: o do governo. O fato de ele se relacionar com o advogado, ex-deputado e ex-ministro Armando Falcão, e com o general João Baptista Figueiredo, não pesou nada na sua visão de Nordeste, do nordestino e do Brasil. É bom que não se esqueça: Gonzaga sempre foi um homem do povo”, argumenta o jornalista.
Na visão de Assis Ângelo, Luiz Gonzaga permanecerá no imaginário brasileiro como o cantador cuja vida foi andar por esse País, cantando xote, baião, toada, xaxado, e por aí vai, sempre com a esperança de um ano “chovedor” no sertão, por mais que a terra queime tal qual fogueira de São João. Para o pesquisador, o imenso legado musical de Gonzaga pode ser medido pelo acervo de músicas que compôs, sozinho ou junto com parceiros, como o médico cearense Humberto Teixeira. Foram 625 títulos no total, nos mais diversos gêneros. “A obra musical de Luiz Gonzaga ultrapassou fronteiras e foi gravada em várias línguas, entre as quais a japonesa, a inglesa, a francesa, a espanhola e até em rapano, idioma falado em uma das ilhas da Polinésia. Ele colocou o Nordeste brasileiro no mundo, e isso não é pouco”, enfatiza.
No Brasil, são raros os artistas de destaque que não incluem músicas dele no seu repertório. Nem o papa da bossa nova, João Gilberto, ficou indiferente ao fascínio gonzagueano e compôs “Bim Bom”, falando de “baiãozinho” e coisas tais. Artistas do Cone Sul, incluindo a Argentina, gravaram Gonzaga. “Por sinal, na Argentina, uma lei foi feita para impedir a ‘influência’ da música estrangeira. O motivo era Gonzaga”, conta Assis Ângelo.
Por causa do artista, a sanfona, um instrumento de origem europeia, virou símbolo da cultura nordestina. “Luiz Gonzaga tinha um virtuosismo na sanfona e qualidades fora do comum como cantor e compositor. Ele adotou o fole de 120 baixos, atualizou o instrumento e criou uma linguagem muito avançada, dentro do gênero do baião”, aponta Carlos Ernest Dias, professor de Música Popular da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Antes de virar mito, Luiz Gonzaga do Nascimento, filho do sanfoneiro Januário José dos Santos e da cabrocha de indescritíveis olhos verdes Ana Batista de Jesus, já dava sinais de que iria longe. Desde pequeno, se destacou na sanfona, animando bailes e festejos juninos no sertão do Araripe. Após passar nove anos no Exército como cabo corneteiro, começou a carreira artística tocando nos cabarés da Lapa, no Rio. Chegou a apresentar-se na rua, passando o pires para recolher alguns trocados. A partir de 1945, com o início da parceria com Humberto Teixeira, espocaram sucessos populares, tendo como inspiração principal o ritmo nordestino.
Gonzaga apresentou-se diante de presidentes como Eurico Gaspar Dutra e José Sarney, e para o papa João Paulo II. Mas o verdadeiro reconhecimento do valor de sua obra só veio à tona em 1984. Naquele ano, Luiz Gonzaga foi o grande homenageado na noite de entrega do Prêmio Shell para os melhores da Música Popular Brasileira. Prêmio considerado justo e merecido pela crítica, entregue a quem, em muitos anos de carreira artística, somente recebeu dois Discos de Ouro. Foi o terceiro artista mundial a receber o Nipper de Ouro da gravadora RCA, pelo conjunto da obra, prêmio entregue anteriormente apenas a Elvis Presley e Nelson Gonçalves.
O cantador teve muitas quedas e renascimentos ao longo da carreira. Volta e meia, após um perío­do de lua minguante, seu nome aportava na mídia. Gilberto Gil foi responsável por um dos momentos de lua cheia quando, no auge do Tropicalismo, declarou que uma de suas principais influências era Luiz Gonzaga. Caetano Veloso também exaltou o sanfoneiro e chegou a gravar algumas de suas canções. Em outra oportunidade, o produtor Carlos Imperial espalhou a notícia de que os Beatles iriam gravar “Asa Branca”. Era mentira, mas o boato ajudou o artista a voltar às manchetes. Na década de 1980, foi a vez de Gonzaguinha, já famoso por seu próprio talento, levantar o velho Lua. Pai e filho fizeram shows memoráveis pelo País, superando a conturbada relação que tinham até então.
A última aparição de Gonzaga foi num show realizado em 6 de junho de 1989, no Teatro Guararapes do Centro de Convenções de Recife. Cansado e com progressiva perda de memória, já não lembrava sequer de “Asa Branca”, um dos primeiros sucessos. Nada disso importava: ovacionado, recebeu homenagens de vários artistas do País. Ao final, emocionado, declarou: “Quero ser lembrado como o sanfoneiro que amou e cantou muito seu povo, o sertão; que cantou as aves, os animais, os padres, os cangaceiros, os retirantes, os valentes, os covardes, o amor. Gostaria que lembrassem que sou filho de Januário e dona Santana.”
O Rei do Baião morreu em 2 de agosto de 1989, às 5h15 da manhã, no Hospital Santa Joana, no Recife, vitimado por complicações causadas por um carcinoma de próstata. Antes, na UTI, desculpou-se: “Vocês não me levem a mal, sinto muitas dores. Gosto de aboiar (dirigir ao gado o canto para reuni-lo), quando deveria gemer.” F
FONTE: REVISTA FÓRUM / José Paulo Borges

terça-feira, novembro 27, 2012

Lenda da guitarra, Jimi Hendrix faria 70 anos









Todo guitarrista, querendo ou não, tem um pouco de Jimi Hendrix. Seja nas caretas, no jeito de pressionar os pedais ou na hora de se ajoelhar durante um emocionante solo, James Marshall Hendrix, conhecido como Jimi Hendrix, semeou em todos os guitarristas um pouco do seu estilo inventivo.

Nascido em Seattle, em 27 de novembro de 1942, Jimi Hendrix completaria 70 anos de de idade nesta terça-feira (27) se estivesse vivo. Jimi morreu no dia 18 de setembro de 1970, aos 27 anos, em Londres. Embora as circunstâncias não tenham sido plenamente esclarecidas, é sabido que o guitarrista morreu asfixiado em seu próprio vômito após ingerir uma grande quantidade de vinho e remédios para dormir.

Jimi Hendrix nasceu em Seattle, nos Estados Unidos, e teve sua infância profundamente afetada por problemas familiares que culminaram no divórcio de seus pais, em 1951. Seu primeiro contato com um instrumento de cordas veio em 1958, quando ganhou um ukulele no mesmo ano da morte de sua mãe. Seu primeiro violão veio pouco tempo depois. Mais velho, Hendrix se alistou no exército como paraquedista no Tennessee. Após uma fratura no tornozelo recebeu dispensa médica.

Seguindo sua grande paixão pela música, o guitarrista tocou com diversas bandas locais até entrar definitivamente no mercado, em 1965. Uma das suas primeiras bandas foi Jimmy James and the Blue Flames, que tocava frequentemente em um café em Nova York. E foi lá que Hendrix foi descoberto por Chas Chandler, baixista da banda britânica The Animals, que o levou até a Inglaterra para conhecer mais pessoas do meio musical e finalmente montar o The Jimi Hendrix Experience ao lado do baixista Noel Redding e do baterista Mitch Mitchell.

Suas primeiras apresentações em Londres logo colocaram a cena musical de pernas para o ar. Guitarristas célebres locais, como Eric Clapton, Jeff Beck e Pete Townsend falavam sobre o "forasteiro" de técnica invejável. Clapton, que detém o nada modesto título de “deus da guitarra”, chegou a pensar em desistir quando viu aquele negro esguio forçando ao máximo os limites daquelas seis cordas. “Se eu sou Deus, ele é o quê?”, disse o inglês na época.

Já Townshend, da banda britânica The Who, um dos mais bem acabados produtos da época, travou uma guerra em busca do posto de maior guitarrista do mundo. Sua banda até conseguiu um lugar de destaque na enciclopédia do Rock, mas, na guitarra, sinto muito. A concorrência era cruel. Até mesmo o exibido e pavoneado Little Richard tirou Jimi da sua banda quando percebeu que o guitarrista chamava mais atenção no fundo palco do que ele bem à frente.

Em 1967 foi lançado o álbum Are You Experienced?. Foxy Lady, Manic Depression, Red House, Fire, Purple Haze, Hey Joe e outras músicas viraram referências instântaneas para os novos grupos britânicos e invadiram as rádios. No mesmo ano lançaram Axis: Bold as Love, que geralmente fica na "sombra" de seus outros álbuns, mas possui destaques como a bela Little Wing e If 6 Was 9. “É fácil tocar blues. Mas é difícil senti-lo”, dizia Hendrix.

No ano seguinte, a rotina de shows pela Europa em combinação com brigas com Noel Redding e abuso de drogas e álcool fizeram com que o trio começasse a desabar. Hendrix chegou a ser preso pela polícia de Estocolmo, na Suécia, após um ataque de fúria que desencadeou na destruição completa de um quarto de hotel. Em 1968 saiu Electric Ladyland, um álbum duplo, com mais experimentalismos e peças como Voodoo Child e uma versão para All Alogn the Watchtower, de Bob Dylan.
 
O perfeccionismo de Hendrix no estúdio - há quem diga que a música Gypsy Eyes teve 43 tomadas - e seu temperamento explosivo influenciado pelas drogas abalou sua relação com Chas Chandler, que pediu demissão e vendeu sua parte para Michael Jeffery. Biógrafos apontam que a influência de Jeffery pode ter sido ruim para o guitarrista e que ele pode ter desviado grandes quantias de dinheiro do guitarrista para contas no exterior.

Enquanto Jimi avançava musicalmente para uma vanguarda jamais explorada, seu relacionamento com a banda se desfez. Em 1969 a banda Experiene terminava. Em maio daquele ano, Hendrix foi preso novamente após uma grande quantia de heroína ter sido descoberta em sua bagagem no aeroporto de Toronto, no Canadá.

Em agosto, o guitarrista montou uma nova banda, Gypsy Suns and Rainbows, para fazer parte do festival de Woodstock. O grupo ficou formado com Jimi Hendrix na guitarra, Billy Cox no baixo, Mitch Mitchel na bateria, Larry Lee na guitarra de apoio e Jerry Velez e Juma Sultan na bateria e percussão.

O show, que se tornou um dos mais famosos de sua história, mostra Hendrix extremamente inspirado ao tocar uma versão instrumental de The Star Spangled Banner, o hino nacional dos Estados Unidos. Sua versão do hino se tornou uma declaração pela inquietude e insatisfação da juventude contra a sociedade norte-americana. O embolado de distorções que simulavam os sons da Guerra do Vietnã correu o mundo e se tornou um dos pontos altos do evento, cristalizando para sempre a imagem heroica de um músico inesquecível.

O Gypsy Suns teve vida curta, e Jimi logo formou o trio Band of Gypsys,Billy Cox no baixo e Buddy Miles na bateria .Em 1970 veio o lendário show do festival de Isle of Wight, onde tocou com Mitchell e Cox. A sua reputação incendiária como performer ao vivo e a extensa obra póstuma ajudam a contar o resto da lenda.

FONTE: DIÁRIO LIBERDADE

quarta-feira, outubro 31, 2012

Carlos Drummond de Andrade - TRECHOS DA ÚLTIMA ENTREVISTA




O suplemento Idéias, do Jornal do Brasil, de 22 de agosto de 1987 (cinco dias após a morte de Drummond), apresentou em suas páginas centrais trechos da última e exclusiva entrevista do poeta mineiro ao jornalista Geneton Moares Neto. O material segue logo abaixo na íntegra.

“Dezessete dias antes de dar adeus ao mundo, Carlos Drummond de Andrade confessava que tinha um único e prosaico medo: o de escorregar, levar uma queda boba e quebrar o fêmur. A confissão é exemplar do temperamento do maior poeta brasileiro. Quem batesse à porta do apartamento 701 do prédio de número 60 da Rua Conselheiro Lafayette, em Copacabana, à procura de declarações grandiloqüentes sobre a vida, a arte e a eternidade iria se deparar com um homem teimosamente prosaico, despido de todo e qualquer traço de vaidade e orgulho diante de uma obra que começou a brotar em Itabira para o mundo em 1918, ano da publicação de um poema chamado Prosa, num jornalzinho que só saiu uma vez.

“O Drummond que se revela de corpo inteiro na longa entrevista que nos concedeu em duas sessões - nos dias 20 e 30 de julho - é um homem desiludido com o mundo. Agnóstico. Confessadamente solitário. Cético diante da posteridade. Injustamente rigoroso no julgamento da obra que produziu. Para todos os efeitos, Drummond considerava-se apenas o pacífico mineiro de Itabira portador da carteira de identidade no 803.412. E só. Tinha uma íntima esperança: queria ver a filha única, a escritora Maria Julieta, recuperada da doença. Tanto é que tentou adiar a entrevista para ‘quando as coisas melhorassem’. Não melhoraram. Os azares de agosto desabaram sobre os ombros frágeis do poeta. O câncer ósseo levou Maria Julieta. E tirou do poeta a vontade de viver. A imagem do Drummond cambaleante nas alamedas do cemitério no enterro da filha única era um mau presságio.

“Menos de uma semana antes da morte da filha, Drummond, enfim, cedera à nossa insistência em obter um longo depoimento - não sem, antes, brindar-nos com o dúbio qualitativo de ‘implacável’. A entrevista fazia parte do projeto de publicação de um livro de depoimentos sobre os 60 anos do célebre poema No meio do caminho, no próximo ano. Drummond, naturalmente, não concordava nem de longe com a idéia de homenagear a data. ‘Não vale a pena; a data não merece consideração alguma’. Mas, provocado, falou como em poucas vezes: o depoimento, transcrito, rendeu cerca de mil linhas datilografadas. Um trecho - que antecipava a decisão do poeta de deixar de escrever - foi publicado no Idéias há duas semanas. Depois da morte da filha, Drummond tentou sustar a publicação da entrevista porque a considerava ‘muito festiva’. Acabou permitindo, sob a condição de que o editor avisasse que ela tinha sido concedida antes da morte de Maria Julieta. Em poucos dias, a entrevista transformou-se na cerimônia de adeus do maior poeta brasileiro. Mais do que nunca, neste depoimento, Drummond insiste que será esquecido em pouco tempo. Não será. E não terá sido por acaso que o clima no seu enterro não era propriamente de comoção. Porque todo mundo ali sabia que, nos versos, Drummond vive. E, na morte, encontrou o que tanto queria: a paz”.

O MEDO

 “A maior chateação da velhice é você ficar privado do uso completo de suas faculdades. A pessoa velha tem de moderar o ritmo do andar, porque, do contrário, o coração começa a pular. Não pode fazer grandes excessos. Não tomar um pileque de vez em quando porque isso provocará consequências maléficas. Ela tem de ser moderada até nos amores.
 “O medo que tenho é levar uma queda, me machucar, quebrar a cabeça, coisas assim, porque, na idade em que estou, a primeira coisa que acontece numa queda é a fratura do fêmur. Isso eu receio”.

“...Cantaremos o medo da morte/ depois morreremos de medo/ e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas” (Congresso Internacional do Medo - trecho)

A QUEIXA

 “Antes, as pessoas que sabiam escrever a língua se destacavam na literatura e nas artes em geral. Mas hoje há escritores premiados que não conhecem a língua natal...

“Quem hoje não sabe a língua e se manifesta mal é que aprendeu de maus professores. A decadência do ensino no Brasil é uma coisa que tem pelo menos trinta a quarenta anos - e talvez mais”.

“Precisamos educar o Brasil/ Compraremos professores e livros/ assimilaremos finas culturas/ abriremos dancings e subvencionaremos as elites/ Cada brasileiro terá sua casa/ com fogão e aquecedor elétrico, piscina/ salão para conferências científicas./ E cuidaremos do Estado Técnico” (Hino Nacional - trecho)

A VIDA

“Minha vida? Acho que foi pouco interessante. O que é que eu fui? Fui um burocrata, um jornalista burocratizado. Não tive nenhum lance importante na minha vida. Nunca exerci um cargo que me permitisse tomar uma grande decisão política ou social ou econômica. Nunca nenhum destino ficou dependendo da minha vida ou do meu comportamento ou da minha atitude.

“Eu me considero - e sou realmente - um homem comum. Não dirijo nenhuma empresa pública ou privada. A sorte dos trabalhadores não depende de mim”.

“Sou apenas um homem/ Um homem pequenino à beira de um rio/ Vejo as águas que passam e não as compreendo/ ...Sou apenas o sorriso na face de um homem calado” (América - trecho)

O PAÍS

“Eu lamento que haja pouco consumo de livro no Brasil. Mas aí é um problema muito mais grave. É o problema da deseducação, o problema da pobreza - e, portanto, o da falta de nutrição e da falta de saúde. Antes de um escritor se lamentar por que não é lido como são lidos os escritores americanos ou europeus, ele deve se lamentar de pertencer a um país em que há tanta miséria e tanta injustiça social”.

“Precisamos descobrir o Brasil/ Escondido atrás das florestas/ com a água dos rios no meio/ o Brasil está dormindo, coitado” (Hino Nacional - trecho)

O VOTO

“Acho o Partido Verde muito limitado. Por que somente verde? Eu seria partidário de todas as cores do arco-íris - do vermelho vivo do sangue que palpita nas artérias ao azul do céu. O Partido que gostaria de ver implantado no Brasil, com condições de assumir o poder ou de partilhar o poder com partidos mais burgueses seria o Partido Socialista.

“Quando há eleição, não voto mais. Deixei de votar, porque me desinteressei. Deixei de votar porque a lei me faculta deixar de votar aos setenta anos. Ainda votei, até os oitenta e poucos. Depois, verifiquei que o quadro político não agradava nem me seduzia. As opções não eram agradáveis para mim”.

“Eu também já fui brasileiro/ moreno como vocês/ Ponteei viola, guiei forde/ e aprendi na mesa dos bares/ que o nacionalismo é uma virtude/ Mas há uma hora em que os bares se fecham/ e todas as virtudes se negam” (Também já fui brasileiro - trecho)

A BELEZA

“A beleza ainda me emociona muito. Não só a beleza física, mas a beleza natural. Hoje, com quase oitenta e cinco anos, tenho uma visão da natureza muito mais rica do que eu tinha quando era jovem. Eu reparava mais em certas formas de beleza. Mas, hoje, a natureza, para mim, é um repertório surpreendente de coisas magníficas e coisas belas. Contemplar o vôo do pássaro, contemplar uma pomba ou uma rolinha que pousa na minha janela... Fico estático vendo a maravilha que é aquele bichinho que voou para cima de mim, à procura de comida ou de nem sei o quê. A inter-relação dos seres vivos e a integração dos seres vivos no meio natural, para mim, é uma coisa que considero sublime”.

“Amar um passarinho é uma coisa louca/ Gira livre na longa azul gaiola/ que o peito me constrange/ enquanto a pouca liberdade de amar logo se evola... O passarinho baixa a nosso alcance/ e na queda submissa o vôo segue/ e prossegue sem asas, pura ausência” (Sonetos do pássaro - trecho)

A SOLIDÃO

“Se eu me sinto solitário? Em parte, sim, porque perdi meus pais e meus irmãos todos. Nós éramos seis irmãos. E, em parte, porque perdi também amigos da minha mocidade, como Pedro Nava, Mílton Campos, Emílio Moura, Rodrigo Melo Franco de Andrade, Gustavo Capanema e outros que faziam parte da minha vida anterior, a mais profunda. Isso me dá um sentimento de solidão. Por outro lado, a solidão em si é muito relativa. Uma pessoa que tem hábitos intelectuais ou artísticos, uma pessoa que gosta de música, uma pessoa que gosta de ler nunca está sozinha. Ela terá sempre uma companhia: a companhia imensa de todos os artistas, todos os escritores que ela ama, ao longo dos séculos”.

“Precisava de um amigo/ desses calados, distantes,/ que lêem verso de Horácio/ mas secretamente influem/ na vida, no amor, na carne/ Estou só, não tenho amigo/ E a essa hora tardia/ como procurar um amigo?” (A bruxa - trecho)

A POESIA

“Não lamento, na minha carreira intelectual, nada que tenha deixado de fazer. Não fiz muita coisa. Não fiz nada organizado. Não tive um projeto de vida literária. As coisas foram acontecendo ao sabor da inspiração e do acaso. Não houve nenhuma programação. Não tendo tido nenhuma ambição literária, fui mais poeta pelo desejo e pela necessidade de exprimir sensações e emoções que me perturbavam o espírito e me causavam angústia. Fiz da minha poesia um sofá de analista. É esta a minha definição do meu fazer poético. Não tive a pretensão de ganhar prêmios ou de brilhar pela poesia ou de me comparar com meus colegas poetas. Pelo contrário. Sempre admirei muito os poetas que se afinavam comigo. Mas jamais tive a tentação de me incluir entre eles como um dos tais famosos. Não tive nada a me lamentar. Também não tenho nada do que me gabar. De maneira nenhuma. Minha poesia é cheia de imperfeições. Se eu fosse crítico, apontaria muitos defeitos. Não vou apontar. Deixo para os outros. Minha obra é pública.

“Mas eu acho que chega. Não quero inundar o mundo com minha poesia. Seria uma pretensão exagerada”.

“Não serei o poeta de um mundo caduco/ Também não cantarei o mundo futuro/ Estou preso à vida e olho meus companheiros/ Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças” (Mãos dadas - trecho)

A CRIAÇÃO

“Pelo menos na minha experiência pessoal, há uma emoção grande e uma alegria no momento de escrever o poema. Uma vez feito, é como o ato amoroso. Você sente o orgasmo, sai a poluição e depois aquilo acabou. Fica a lembrança agradável, mas você não pode dizer que aquele orgasmo foi melhor do que o outro! O mecanismo não é o mesmo, a reação não é a mesma”.

“É sempre no passado aquele orgasmo/ é sempre no presente aquele duplo/ é sempre no futuro aquele pânico/ É sempre no meu peito aquela garra/ É sempre no meu tédio aquele aceno/ É sempre no meu sono aquela guerra” (O enterrado vivo - trecho)

A NOVA REPÚBLICA

“Não teria cabimento eu escrever uma Constituição (ri). Não tenho a menor intenção e esta idéia nunca me passou pela cabeça. A Constituição de que eu mais gostaria é esta - ‘Artigo primeiro: Não há artigo primeiro. Artigo segundo: também não há artigo segundo. Parágrafo. Revogam-se as disposições em contrário’. Nem sei quem é o autor desta idéia.

“O Brasil está vivendo um fase de profunda inquietação e transformação de valores. É cedo para julgar um político, um presidente, um ministro. Nós estamos - ao mesmo tempo - participando da ação e querendo ser juízes. O observador, o participante, nunca é o juiz. A gente pode julgar o marechal Deodoro da Fonseca porque nós já sabemos no que deu a República com quase cem anos. Então, é uma figura histórica. Mas julgar historicamente e moralmente um nosso contemporâneo me parece uma das coisas mais difíceis de fazer. Não tenho opinião a respeito.

“O poeta não se situa em nenhuma república. O poeta se situa como poeta”.

“O que desejei é tudo/ Retomai minhas palavras/ meus bens, minha inquietação/ fazei o canto ardoroso/ cheio de antigo mistério/ mas límpido e resplendente” (Cidade prevista - trecho)

O ESTADO NOVO

“A minha relação com o poder foi uma relação amistosa com o ministro Gustavo Capanema, pelo fato de nós sermos companheiros antigos. Nunca participei do poder. Nunca desejei. Nunca teria vocação. Eu era da estrita confiança do ministro. Esculhambavam-me e acusavam-me de fazer favoritismo político e de arranjar nomeação de pessoas para falarem bem de mim nos jornais, o que é absolutamente falso. Eu não tinha poder! E eu não trairia a confiança de Gustavo Capanema (ministro da Educação do primeiro governo de Getúlio Vargas) fazendo coisas assim. Nunca tive a oportunidade de conversar com Getúlio, embora fosse acusado de poeta ligado ao estado Novo. Eu não tinha nada com o Estado Novo. Nunca participei de homenagens ao governo. E saí de lá com as mãos abanando”.

“Tenho apenas duas mãos/ e o sentimento do mundo/ mas estou cheio de escravos” (Sentimento do mundo - trecho)

A ACADEMIA

“A Academia nunca me inspirou desprezo. Não posso desprezá-la porque não acho que é uma instituição digna de desprezo. O que há é o seguinte: não tenho espírito acadêmico, não tenho a tendência para ser acadêmico. A Academia, então, não me produz uma sensação de desprezo nem de desgosto. Apenas relativo distanciamento. Mas devo assinalar que, dentro da Academia, estão alguns dos meus melhores amigos. São companheiros de juventude, como Afonso Arinos, Abgar Renaut, Ciro dos Anjos - que não é só meu amigo: é meu compadre. Não tenho nada individualmente contra os acadêmicos. Acredito que - sendo uma instituição composta por quarenta pessoas - dificilmente, em qualquer lugar do mundo, essas quarenta pessoas serão bons escritores. Haverá, sempre, uma parcela de escritores menores e, até, de maus escritores”.

“Ah, não me tragam originais/ para ler, para corrigir, para louvar/ sobretudo, para louvar/ Não sou leitor nem espelho/ de figuras que amam refletir-se no outro/ à falta de retrato interior” (Apelo aos meus dessemelhantes em favor da paz - trecho)

O JORNALISMO

“Trabalhei na imprensa durante a minha vida toda, com um ligeiro intervalo em que me dediquei só à burocracia do Ministério da Educação. Sempre tive muita consideração dos meus companheiros. E muita liberdade. Mas me recordo que, há tempos atrás, num momento de molecagem, para testar a resistência do copy-desk, no Jornal do Brasil, escrevi a palavra bunda. Cortaram e botaram a palavra traseiro. Hoje, a palavra bunda circula até em fotografia, em desenho, por toda parte. Uma das coisas mais celebradas pela grande imprensa é a bunda. A televisão está lá - mostrando bunda de homem, o que, a nós, não interessa...

 “Não participei da elaboração do grande jornal diário e intenso. Como cronista, escrevia em casa. O jornal, gentilmente, mandava apanhar a minha matéria. Como jornalista, não tive a emoção da grande reportagem e dos grandes acontecimentos que eu teria de enfrentar numa fração de segundo para que a matéria saísse no dia seguinte”.

“O fato ainda não acabou de acontecer/ E já a mão nervosa do repórter o transforma em notícia/ O marido está matando a mulher/ A mulher ensanguentada grita/ Ladrões arrombam o cofre/ A polícia dissolve o meeting/ A pena escreve/ Vem da sala de linotipos a doce música mecânica” (Poema do jornal)

A VOCAÇÃO

“Eu acredito que a poesia tenha sido uma vocação, embora não tenha sido uma vocação desenvolvida conscientemente ou intencionalmente. Minha motivação foi esta: tentar resolver, através de versos, problemas existenciais internos. São problemas de angústia, incompreensão e inadaptação ao mundo”.

“Quando nasci, um anjo torto/ desses que vivem na sombra/ disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida” (Poema de Sete Faces - trecho)

ADEUS

“Quem é que fala hoje em Humberto de Campos? Quem é que fala em Emílio de Menezes? Quem é que fala em Goulart de Andrade? Quem é que fala em Luís Edmundo? Ninguém se recorda deles! Não fica nada! É engraçado. Mas não fica, não. Não tenho a menor ilusão. E não me aborreço: acho muito natural. É assim mesmo que é a vida.

“Não vou dizer como o Figueiredo: ‘Quero que me esqueçam!’ Podem falar. Não me interessa, porque não acredito na vida eterna. Para mim, é indiferente.

“Nenhum poema meu entrou para a História do Brasil. O que aconteceu foi o seguinte: ficaram como modismos e como frases feitas: ‘tinha uma pedra no meio do caminho’ e ‘e agora, José?’. Que eu saiba, só. Mais nada.

“Não tenho a menor pretensão de ser eterno. Pelo contrário: tenho a impressão de que daqui a vinte anos eu já estarei no Cemitério de São João Baptista. Ninguém vai falar de mim, graças a Deus. O que eu quero é paz”.

“Quero a paz das estepes/ a paz dos descampados/ a paz do Pico de Itabira/ quando havia Pico de Itabira/ A paz de cima das Agulhas Negras/ A paz de muito abaixo da mina mais funda e esboroada de Morro Velho/ A paz da paz” (Apelo a meus dessemelhantes em favor da paz - trecho)

FONTE: JORNAL DO BRASIL

sexta-feira, outubro 12, 2012

Cartola. Compositor, cantor, instrumentista.










Cartola (Angenor de Oliveira).
 Compositor, cantor, instrumentista. 

Cartola nasceu no bairro do Catete, no Rio de Janeiro. Tinha oito anos quando sua família se mudou para Laranjeiras e 11 quando passou a viver no morro da Mangueira, de onde não mais se afastaria. Desde menino participou das festas de rua, tocando cavaquinho – que aprendera com o pai – no rancho Arrepiados (de Laranjeiras) e nos desfiles do Dia de Reis, em que suas irmãs saíam em grupos de “pastorinhas”. Passando por diversas escolas, conseguiu terminar o curso primário, mas aos 15 anos, depois da morte da mãe, deixou a família e a escola, iniciando sua vida de boêmio.



Após trabalhar em várias tipografias, empregou-se como pedreiro, e dessa época veio seu apelido, pois usava sempre um chapéu para impedir que o cimento lhe sujasse a cabeça, o qual chamava de cartola. Em 1925, com seu amigo Carlos Cachaça, que seria seu mais constante parceiro, foi um dos fundadores do Bloco dos Arengueiros. Da ampliação e fusão desse bloco com outros existentes no morro, surgiu, em 1928, a segunda escola de samba carioca. Fundada a 28 de abril de 1928, o G.R.E.S Estação Primeira de Mangueira teve seu nome e as cores verde e rosa escolhidos por ele. Foram também fundadores, entre outros, Saturnino Gonçalves, Marcelino José Claudino, Francisco Ribeiro e Pedro Caymmi. Para o primeiro desfile foi escolhido o samba Chega de Demanda, o primeiro que fez, composto em 1928 e só gravado pelo compositor em 1974, no LP História das escolas de samba: Mangueira, pela Marcus Pereira. Em 1931, Cartola tornou-se conhecido fora da Mangueira, quando Mário Reis, que subira o morro para comprar uma música, comprou dele os direitos de gravação do samba Que infeliz sorte, que acabou sendo lançado por Francisco Alves, pois não se adaptava à voz de Mário Reis. Vendeu outros sambas a Francisco Alves, cedendo apenas os direitos sobre a vendagem de discos e conservando a autoria: assim foi com Não faz, amor (com Noel Rosa), Qual foi o mal que eu te fiz? e Divina Dama, todos gravados pela Odeon, os dois primeiros em 1932 e o último em janeiro de 1933. Ainda em 1932, o samba Tenho um novo amor foi gravado por Carmen Miranda. Do mesmo ano é a gravação do samba Na floresta, em parceria com Sílvio Caldas, lançado por este último, e a primeira composição em parceria com Carlos Cachaça, o samba Pudesse meu ideal, com o qual a Mangueira foi campeã do desfile promovido pelo jornal “O Mundo Esportivo”.

Em 1936, a Mangueira teve premiado no desfile seu samba Não quero mais (com Carlos Cachaça e Zé da Zilda), gravado por Araci de Almeida, na Victor, em 1937, e em 1973 por Paulinho da Viola, na Odeon, com o título mudado para Não quero mais amar a ninguém. Em 1940, participou, ao lado de Donga, Pixinguinha, João da Baiana e outros, de gravações de música popular brasileira para o maestro Leopoldo Stokowski (1882 – 1976), que visitava o Brasil. Realizadas a bordo do navio Uruguai, ancorado no pier da Praça Mauá, essas gravações deram origem a dois álbuns de quatro discos de 78 rpm, lançados nos EUA pela gravadora Columbia. No rádio, atuou como cantor, apresentando músicas suas e de outros compositores. Na Rádio Cruzeiro do Sul, ainda em 1940, criou, com Paulo da Portela, o programa A Voz do Morro, no qual apresentavam sambas inéditos, cujos títulos deviam ser dados pelos ouvintes, sendo premiado o nome escolhido.

Em 1941, formou com Paulo da Portela e Heitor dos Prazeres o Conjunto Carioca, que durante um mês realizou apresentações em São Paulo, em um programa da Rádio Cosmos. A partir dessa época, o sambista desapareceu do ambiente musical. Muitos pensavam até que tivesse morrido. Chegou-se a compor sambas em sua homenagem. Em 1948, a Mangueira sagrou-se campeã com seu samba-enredo Vale do São Francisco (com Carlos Cachaça).

Cartola só foi redescoberto em 1956, quando o cronista Sérgio Porto o encontrou lavando carros em uma garagem de Ipanema e trabalhando à noite como vigia de edifícios. Sérgio levou-o para cantar na Rádio Mayrinck Veiga e, logo depois, Jota Efegê arranjou-lhe um emprego no jornal “Diário Carioca”.

A partir de 1961, já vivendo com Eusébia Silva do Nascimento, a Zica, com quem se casou mais tarde, sua casa tornou-se ponto de encontro de sambistas. Em 1964, resolveu abrir um restaurante, o Zicartola, na Rua da Carioca, que oferecia, além da boa cozinha administrada por Zica, a presença constante de alguns dos melhores representantes do samba de morro. Freqüentado também por jovens compositores da geração pós bossa-nova (alertados para a sua existência desde o show “Opinião”, no qual Nara Leão incluíra o samba O sol nascerá, de Cartola e Elton Medeiros, que mais tarde gravaria), o Zicartola tornou-se moda na época. Durou pouco essa confraternização morro-cidade: o restaurante fechou as portas, reabrindo em 1974 no bairro paulistano de Vila Formosa.

Contínuo do Ministério da Indústria e Comércio, vivendo na casa verde e rosa que construiu no morro da Mangueira, em terreno doado pelo então Estado da Guanabara, somente em 1974, alguns meses antes de completar 66 anos, o compositor gravou seu primeiro LP, Cartola, na etiqueta Marcus Pereira. O disco recebeu vários prêmios. Logo depois, em 1976, veio o segundo LP, também intitulado Cartola, que continha uma de suas mais famosas criações, As rosas não falam, e o seu primeiro show individual, no Teatro da Galeria, no bairro do Catete, acompanhado pelo Conjunto Galo Preto. O show foi um sucesso de público e se estendeu por 4 meses.

Em julho de 1977, a Rede Globo apresentou com enorme sucesso o programa “Brasil Especial” número 19, dedicado exclusivamente a Cartola. Em setembro do mesmo ano, Cartola participou, acompanhado por João Nogueira, do Projeto Pixinguinha, no Rio. O sucesso do espetáculo levou-os a excursionar por São Paulo, Curitiba e Porto Alegre. Ainda em 1977, em outubro, lançou seu terceiro disco-solo: Cartola – Verde que te quero rosa (RCA Victor), com igual sucesso de crítica.

Em 1978, quase aos 70 anos, mudou-se para o bairro de Jacarepaguá, buscando um pouco mais de tranqüilidade, na tentativa de continuar compondo. Neste mesmo ano estreou seu segundo show individual: Acontece, outro sucesso. Em 1979, lançou seu quarto LP: Cartola – 70 anos. Nesta época, descobriu que estava com câncer, doença que causaria sua morte, em 30 de novembro de 1980.

Em 1983, foi lançado, pela Funarte, o livro Cartola, os tempos idos, de Marília T. Barboza da Silva e Arthur Oliveira Filho. Em 1984, a Funarte lançou o LP Cartola, entre amigos. Em 1997, a Editora Globo lançou o CD e o fascículo Cartola, na coleção “MPB Compositores” (n°12).



Fonte: Enciclopédia da Música Popular Brasileira, editada pelo Itaú Cultural / Rio de Janeiro RJ 11/10/1908-id. 30/11/1980.