Valoriza herói, todo sangue derramado afrotupy!
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terça-feira, maio 07, 2013

Igreja e movimentos unificam luta na Transamazônica















Áreas da Prelazia do Xingu (de Anapu, Brasil Novo, Medicilândia, Uruará e Placas) e representantes do CIMI, MAB, CPT e CJP se reuniram nos dias 3 e 4 de maio, em Placas, para buscar o fortalecimento da luta na Transamazônica, numa extensão de aproximadamente 500 quilômetros, entre Anapu e Rurópolis.

Essa área sofre os reflexos negativos de Belo Monte e de outros projetos de expansão do capital na Amazônia, como é o caso do agronegócio, das madeireiras e mineradoras e carecem de políticas públicas elementares apesar de estar do eixo do chamado “desenvolvimento” e “progresso”.

O Conselho Indigenista Missionário (CIMI) denunciou que o INCRA assentou famílias em área indígena da Cachoeira Seca, e isso deixou os indígenas em situação extremamente vulnerável, motivando a invasão de fazendeiros e de madeireiros. A organização ainda relatou ainda a situação dramática dos indígenas na região de Belo Monte: “as migalhas da Norte Energia e do Governo Federal são desastrosas. Antes eles (indígenas) se organizavam e lutavam pela demarcação de suas terras e defesa da floresta, agora disputam as migalhas, brigam e se dividem. Em nossa região, passaram de 19 para 37 aldeias”, disse Nilda, agente do CIMI.

Padre Patrício, também do CIMI, afirmou que “é triste ver cacique carregando cesta básica em carrinho de mão na aldeia”. Em Altamira, casa alugada pela Norte Energia para os indígenas é uma calamidade, quente e superlotada. Segundo Nilda, isso motiva os indígenas a ficarem pelas ruas, aumentando o preconceito da população contra eles.

Trabalhadores rurais disseram que o IBAMA é ágil para liberar “grandes” projetos (hidrelétricas, mineradoras) e multar trabalhadores, mas lerdo e sem estrutura para fiscalizar os verdadeiros degradadores da floresta. Reclamaram da falta de políticas públicas. Citaram como exemplo a falta de energia para algumas dezenas de milhares de famílias e os péssimos serviços da Celpa (distribuidora privada de energia no Pará), com quedas constantes e apagões por dias seguidos. Vilas com mais de 500 famílias, como é o caso de Carlos Pena Filho (Km 40) e vale Piauense (Km 23) têm energia monofásica até hoje.

Eles relataram também a concentração e especulação da terra após a chegada de Belo Monte. Pioneira, uma comunidade com 75 famílias, já tem 37 famílias sem terra, e um lote de 100 hectares, que valia trezentos mil reais há pouco tempo, hoje é vendido a um milhão e duzentos mil reais.

As organizações estão dispostas a unir suas experiências nas diversas lutas. A Comissão Pastoral da Terra (CPT) traz suas lutas e conquistas de Anapu. Após 8 anos do assassinato de Irmã Dorothy, a Pastoral trabalha em defesa da terra e dos povos da floresta.

O Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) contribui com sua experiência desenvolvida nas áreas alagadas de Altamira. A Norte Energia quer impor indenização em dinheiro e casa de concreto para as quase 30 mil pessoas residentes nessas áreas. O Movimento defende reassentamento coletivo. Traz também sua luta pela definição do nível do lago em Assurini, implantação do Programa Luz Para Todos para as 6 mil famílias dessa área e luta pela moradia urbana em Brasil Novo, onde 173 famílias estão acampadas desde janeiro.
 
Todos estão dispostos a somar esforços para uma luta unitária. “Alguns instrumentos de luta construídos no passado, com grandes conquistas, não respondem mais a nossas expectativas, e, por isso, precisamos valorizar e juntar novos instrumentos. O povo organizado fará a luta, sem intermediários”, disseram.

O encontro de Placas contou ainda com a presença de padre Ton, deputado federal pelo PT de Rondônia. Ele falou do “perfil reacionário” do Congresso Nacional, criticou suas investidas contra a Constituição Federal para favorecer a expansão do capital em áreas de preservação e de povos tradicionais e classificou de “covardia” o descaso do governo com os indígenas. Disse ainda que o modelo energético atual no Brasil é centralizado e ditatorial.

FONTE: Correio da Cidadania

sábado, abril 06, 2013

Vende-se energia feita em casa

Como lucrar com a eletricidade extra

 gerada pelos painéis solares domésticos


No ano passado, o arquiteto José Ripper Kos participou de uma competição internacional para construir a casa que consumisse a menor quantidade de energia possível. Depois do concurso, decidiu aplicar na sua própria residência, em Florianópolis, alguns elementos de sustentabilidade, entre eles a geração de energia solar. Ele instalou painéis fotovoltaicos no telhado e vai procurar a distribuidora de energia para pedir compensação pelo que está gerando. Kos deve conseguir economizar cerca de R$150 por mês, graças a uma nova regra da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), que regula da área de energia.
A resolução, aprovada em dezembro, permite que os consumidores possam fornecer a energia que sobra de seus painéis solares e obter créditos na conta de luz. Os equipamentos geram energia apenas de dia, sob o sol. E sai muito caro usar baterias para armazená-la para a noite, quando o consumo residencial é maior. Por isso, parte da energia é perdida. A nova regra acaba com esse problema. Quando o consumidor sai de casa, basta ligar o painel solar na rede elétrica, passando a gerar energia para a distribuidora. No final do mês, ele recebe o desconto correspondente na conta. "Se você consome 100 quilowatts-hora por mês, mas gera 90 quilowatts-hora, vai pagar apenas 10 quilowatts-hora. Se gerar mais do que consome, ganha créditos para usar depois. É como se fosse um plano acúmulo de milhas", diz o coordenador de energia do Greenpeace, Ricardo Baitelo. Os créditos podem ser repassados para outro imóvel, registrado com o mesmo CPF ou CNPJ.
O custo para a instalação dos painéis ainda é alto, mas está caindo. Um sistema residencial simples, de dois quilowatts de potência instalada sai por volta de R$ 14 mil (o preço varia de acordo com o tamanho do telhado e a região do Brasil), segundo o engenheiro Eduardo Bomeisel, da EBES, uma empresa que faz instalação de painéis solares. Essa estrutura pode gerar cerca de 230 quilowatts-hora por mês em uma casa em São Paulo, possibilitando economia de cerca de R$ 100 por mês. O investimento na placa solar seria pago em sete a dez anos. Parece muito, mas se levarmos em consideração que um aparelho desses, se bem cuidado, tem vida útil de 40 anos, são praticamente três décadas de lucro.
O primeiro passo para implantar o sistema é verificar se seu telhado recebe luz solar o suficiente. Prédios vizinhos à casa podem atrapalhar os planos. Para essa avaliação, o cliente encaminha uma conta de luz e uma imagem do telhado - pode ser pelo Google Earth – à empresa de instalação da placa. A região do país também entra na conta. "Quanto mais sol, e quanto mais cara a tarifa de energia, mais viável o sistema. No Nordeste, por exemplo, tem muito sol e a tarifa é muito cara, então vale a pena", diz Bomeisel.
A instalação dos painéis leva até dez dias. Para começar a receber a compensação pela energia, o consumidor precisa entrar em contato com a distribuidora da sua região e apresentar o projeto do sistema de geração de energia. Paulo Bombassaro, diretor de engenharia da CPFL, distribuidora do interior de São Paulo, diz que o projeto pode ser enviado pela internet, e a empresa vai analisar o estado da estrutura elétrica da região. "Fazemos uma análise se há a necessidade de obras na rede - trocar cabo de rede ou transformador, por exemplo. Em geral, não haverá necessidade", afirma. Se houver obras, o custo será da distribuidora, mas o consumidor precisa comprar um aparelho que mede o quanto ele consome e o quanto ele exporta para a rede. Esse aparelho é fundamental para calcular o valor da compensação, e custa cerca de R$ 1.500.
Especialistas em energia solar estão otimistas. Segundo Mauro Passos, presidente do Instituto Ideal, voltado para a promoção da energia solar, a condição natural do país - com sol acima da média de países que investem forte em solar, como a Alemanha e China - e a existência de silício em grandes quantidades criam um cenário que pode colocar o Brasil na vanguarda das energias renováveis. Além disso, os benefícios para o meio ambiente são muitos: a energia solar reduz a emissão de poluição, as perdas de energia nas linhas de transmissão e o uso de água. "O povo brasileiro tem uma ligação muito forte com o sol. Está na hora de criar uma identidade com o sol também para a geração de energia. O sol é a energia do futuro", diz Passos. É ecológico e econômico.
FONTE: REVISTA ÉPOCA / BRUNO CALIXTO / (Gráfico: Otávio Burin)

terça-feira, abril 02, 2013

Pampa: um espaço de transição








 Entrevista especial 
com Marcelo Dutra



“Precisamos reinventar a política ambiental do Rio Grande do Sul, que precisa ser menos pessoal ou menos baseada nas relações pessoais. O mérito por conhecimento precisa ter mais espaço na política ambiental dos estados, sem prejulgamento de partidos ou regulações impostas por interesses”, diz o ecologista. 



As paisagens distintas do Pampa gaúcho estão sendo “gradualmente alteradas ou simplesmente perdidas”, alerta Marcelo Dutra em entrevista concedida à IHU On-Line por e-mail. Apesar do predomínio da silvicultura na região, atualmente é a cultura da soja que tem preocupado os ambientalistas. Segundo ele, muitos produtores estão aproveitando a supervalorização desta commodity no mercado, e “o que se vê é soja plantada por toda parte. A soja é uma cultura antiga no Pampa, muito comum na região norte do Estado. Entretanto, nunca se viu tamanha produção. Chega a impressionar o volume de áreas convertidas”.

Na entrevista a seguir, Duarte também propõe uma nova compreensão acerca do Pampa, a partir da constatação de que este é um espaço heterogêneo e complexo. “A importância maior desse trabalho, para além do novo olhar que estaremos imprimindo sobre esse sistema, é que estaremos dizendo que o IBGE e muita gente se equivocou em definir essa grande área como um bioma, sem na verdade ser exatamente isso. Não vejo nenhum problema em considerarmos essa região um espaço de transição, pois é o que realmente parece ser, um ‘Espaço de Transição’”. E dispara: “Podemos chamar de ‘Zona de Tensão’, ou de ‘Grande Ecótono’, ou de ‘Complexo Vegetacional’, ou, ou, ou... Mas o que não dá para chamar é de bioma”.

Marcelo Dutra é graduado em Ecologia, mestre e doutor em Ciências pelo Programa de Pós-Graduação em Agronomia, da Universidade Federal de Pelotas. É professor da Universidade Federal do Rio Grande - FURG.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como descreve as macrofisionomias e paisagens que compõem o bioma Pampa?

Marcelo Dutra da Silva – A Região dos Pampas compreende um complexo de fisionomias, com paisagens distintas, que vêm sendo gradualmente alteradas ou simplesmente perdidas frente aos usos e formas de uso da terra, as quais variam e avançam sobre os espaços naturais remanescentes. O Pampa apresenta valores significativos de áreas naturais perdidas, compondo um mosaico que mistura diferentes tipologias de uso rural em meio a um vasto espaço natural.

Inúmeras áreas desse bioma foram reconhecidas pelo Ministério do Meio Ambiente como prioritárias à conservação, com base na riqueza de espécies, endemismos e fatores abióticos específicos. No entanto, extensas áreas de campo natural vêm sendo convertidas em culturas anuais, como soja, trigo e arroz, além dos cultivos florestais que surgem como mais um elemento potencialmente transformador da paisagem. Marcam os aspectos fisionômicos desse bioma as feições físicas dos terrenos, as quais repercutem compondo paisagens e organizações complexas. A paisagem do Pampa apresenta quatro macrofisionomias, cada uma delas, grosso modo, ajustadas ao tipo físico dos terrenos. A fisionomia que melhor caracteriza o Pampa corresponde aos campos da campanha, na fronteira oeste, onde predomina a cobertura vegetal do tipo estepe. Composta de campos relativamente uniformes, sobre relevos suaves ou de coxilhas, nessa paisagem a pecuária se apresenta como o uso dominante e como o tipo de uso que parece melhor se ajustar, sem comprometer esse tipo fisionômico.

Na Serra do Sudeste, no centro do Pampa, predomina o mosaico campo e floresta, associado aos terrenos dobrados e rochosos, de solos rasos e pouco férteis. Essa é a fisionomia com melhor índice de conservação dentro do Pampa, talvez por conta das limitações impostas ao uso e manejo dos terrenos. Na encosta da Serra do Sudeste, em terrenos rochosos, porém bem mais dobrados, o ambiente de floresta assume a cobertura dominante, ainda que bastante fragmentada e reduzida, num processo que começou no final do século XIV, quando do estabelecimento das primeiras colônias alemã e italiana no sul do estado. No litoral, sobre os terrenos planos e arenosos da Planície Costeira, volta a predominar o campo, incluindo áreas úmidas de banhado, dunas e matas de restinga. Sobre essas fisionomias predomina o cultivo do arroz associado à pecuária. Em menor extensão também está presente o cultivo do pinus, que tem despertado preocupações, uma vez que apresenta grande poder de dispersão e vem se alastrando, contaminando o espaço aberto do litoral.

IHU On-Line – Quais são as principais transformações que vêm ocorrendo no bioma?

Marcelo Dutra da Silva – O Pampa continua sofrendo forte pressão pela agricultura, que avança sem controle sobre os remanescentes naturais, formando novas áreas de cultivo. A pecuária ainda não se reestabeleceu e não vejo sinais de que consiga num prazo curto. O desmatamento ainda é uma realidade, mas o percentual de áreas cobertas com floresta é pequeno e está associado às pressões da pequena propriedade, que tenta sobreviver do cultivo de subsistência e na exploração imposta pela produção de fumo. O plantio comercial de eucalipto continua sendo uma ameaça importante, mas a dispersão do pinus, no litoral, compreende uma das transformações espaciais mais severas do momento, que está decompondo a paisagem costeira, de forma silenciosa e quase sem ser percebida. Também no litoral, as áreas úmidas vêm sendo rapidamente suprimidas, particularmente nos centros de maior urbanização, por exemplo: na cidade de Pelotas, no extremo sul gaúcho. E para além das pressões impostas pelo uso, as espécies invasoras permanecem avançando sobre os terrenos, fragmentando habitats e expulsando espécies por competição.

IHU On-Line – O senhor menciona que além da produção de eucalipto há, no bioma, uma explosão da safra de soja. Desde quando a cultura vem sendo introduzida no bioma e quais as implicações?

Marcelo Dutra da Silva – O cultivo florestal ainda representa a maior ameaça para o sistema campestre do Pampa, formando barreiras, dividindo ou fragmentando o espaço aberto natural. Mas esse está sendo o momento especial da soja, que está supervalorizada no mercado. Muitos produtores estão tentando aproveitar esse momento e o que se vê é soja plantada por toda parte. A soja é uma cultura antiga no Pampa, muito comum na região norte do estado. Entretanto, nunca se viu tamanha produção. Chega a impressionar o volume de áreas convertidas. Lugares em que até então só se viam pastagens cultivadas ou outros tipos de cultura, agora estão cobertos por um único e contínuo tipo cultural, formando um espaço homogêneo. Sem dúvida essa simplificação da paisagem não é uma coisa boa, mesmo em áreas cultivadas. O bom da história é que não é uma conversão permanente: em seguida a soja será colhida e outras atividades começam a preencher o mosaico. Enquanto esse grão continuar valorizado, vamos ver a atividade se expandindo ano após ano. Um aspecto negativo dessas supervalorizações é que elas conduzem o investimento na direção da cultura valorizada, em detrimento das outras atividades econômicas, que enfraquecem ou perdem força, numa perigosa tendência de tudo passar a depender do sucesso de uma única cultura. Além disso, explosões de cultivos podem levar ao frenesi da ocupação de novas fronteiras agrícolas, não importando os riscos que a perda de novos espaços naturais representa para a conservação da biodiversidade.

IHU On-Line – Em que consistiria uma política de planejamento e gestão do território para definir estratégias de controle do uso dos recursos e preservação dos sistemas e da biodiversidade?

Marcelo Dutra da Silva – Pergunta difícil! O planejamento do ambiente é um ato administrativo que visa conhecer os fenômenos espaciais em todas as suas faces e que deve partir da investigação e do uso de ferramentas e métodos compatíveis com a prática. Não existe uma receita pronta para a elaboração de propostas de planejamento. Não existe o método melhor ou pior, e geralmente o processo envolve muitas pessoas da comunidade, todas com igual direito de opinar sobre as demandas, numa verdadeira explosão de ideias. Mas esse momento tem um limite, uma vez que sua construção exige conhecimento técnico e o máximo de rigor científico. Então, não há espaço para “achismos” e a qualidade de sua construção depende do emprego de fundamentos teóricos e a participação de técnicos preparados, experientes e que saibam o que estão fazendo. De boas intenções o inferno está cheio! De outra parte, o planejamento ambiental não se prende apenas aos aspectos naturais do espaço, mas também àqueles aspectos históricos, culturais, sociais e econômicos.

No fundo, o planejamento é um belo exercício de compreensão das relações homem/natureza e de como elas ocupam e transformam (e são transformadas pelo) espaço. No momento, a Secretaria Estadual de Meio Ambiente – SEMA do Rio Grande do Sul trabalha na construção do termo de referência que deverá balizar a construção do Zoneamento Ecológico Econômico do Estado – ZEE. Esse é um documento fundamental, que está fazendo muita falta. Deve ser construído o mais rapidamente possível para servir de orientação às decisões, que hoje não seguem um plano estratégico. Sem dúvida, quando o ZEE estiver pronto ele será o maior avanço na política de planejamento e controle do território gaúcho já feito. A partir dele será possível fazer gestão, será possível construir cenários e definir previsões. É preciso que se entenda que os terrenos do sul são heterogêneos, com diferentes potenciais ou capacidades de uso. Não dá para submeter todos os espaços ao mesmo tipo de uso ou à mesma intensidade de uso, pois respondem às intervenções de forma diferente. Então é preciso considerar, além das diferenças, os efeitos que essas mesmas diferenças produzem. Só espero que o RS (por meio da SEMA) envolva as pessoas certas no processo de construção do ZEE.

IHU On-Line – O senhor pode nos explicar essa suspeita de que o Pampa gaúcho talvez não passe de uma zona de transição ou um grande ecótono, entre dois grandes sistemas ou biomas (campos da campanha ou sulinos ao Sul e Mata Atlântica ao Norte)? Quais são as evidências dessa reinterpretação?

Marcelo Dutra da Silva – Essa imagem do Pampa, de um espaço heterogêneo e complexo, que reúne e mistura, pelo menos, duas grandes “coisas”, em forte competição, não me sai da cabeça, me perturba e tira o sono. O Pampa vai além do espaço brasileiro, mas olhando apenas para essa porção territorial, do centro ao sul do Rio Grande do Sul, percebe-se uma enorme heterogeneidade, tanto na sua composição litológica quanto nos sistemas que sobre essas se estabeleceram e evoluíram, incluindo as paisagens formadas no processo de ocupação e uso humano. Assim, estou vendo, de um lado (ao norte), o bioma Mata Atlântica, de florestas densas e muito verdes e, de outro, já no Uruguai e na Argentina (ao sul e a oeste), uma extensa área campestre, que ainda se mantém e continua sendo fortemente influenciada pelo clima. E, se estou vendo assim, sobra entre elas um espaço que, a meu ver, é uma grande zona de competição entre sistemas e/ou fisionomias. Podemos chamar de “Zona de Tensão”, ou de “Grande Ecótono”, ou de “Complexo Vegetacional”, ou, ou, ou... Mas o que não dá para chamar é de bioma.

Tenho refletido bastante sobre esse limite. A importância maior desse trabalho, para além do novo olhar que imprimiríamos sobre esse sistema, é que estaremos dizendo que o IBGE e muita gente se equivocou em definir essa grande área como um bioma, sem na verdade ser exatamente isso. Na verdade, não vejo nenhum problema em considerarmos essa região um espaço de transição, pois é o que realmente parece ser: um “Espaço de Transição”.

De qualquer forma, é preciso investigar melhor e ir a fundo nos conceitos. Será preciso um grande trabalho de reunião de evidência e talvez essa hipótese leve um tempo razoável, até que seja aceita e comprovada, quebrando o paradigma vigente. Vale lembrar que esse exercício que estou tentando fazer só está sendo possível porque não estou preso na escala dos organismos e sim num plano mais geográfico, atribuindo atenção para os padrões de heterogeneidade que compõem as grandezas do espaço.

Ao mesmo tempo, com igual importância na consideração, as paisagens formadas nesse espaço parecem fazer parte desse processo de competição entre as fisionomias. Alguns trabalhos mostram que o campo resiste “aí” e ainda não foi superado pelo “mato” porque o nosso esforço sobre áreas abertas permanece vivo e muito forte na identidade do gaúcho, com cultivos e a presença de grandes pastadores no nosso tempo, representados pelo gado.

IHU On-Line – Como o senhor avalia a atuação do governo gaúcho frente às questões ambientais nos ecossistemas regionais?

Marcelo Dutra da Silva – Fraca. Temos boas leis, mas carecemos de controle e fiscalização. O estado não tem o aparelho técnico necessário para conter o avanço da degradação. A nossa política de ação ainda é muito modesta, as informações estão soltas e pouca coisa se encontra sistematizada. Também o estado e os municípios fazem pouco uso das universidades, que por outro lado são pouco estimuladas a desenvolver soluções frente aos problemas.

Precisamos reinventar a política ambiental do Rio Grande do Sul, que precisa ser menos pessoal ou menos baseada nas relações pessoais. O mérito por conhecimento precisa ter mais espaço na política ambiental dos estados, sem prejulgamento de partidos ou regulações impostas por interesses às vezes escusos. Afinal, o ambiente é de todos e a coisa pública deve ser tratada com respeito.

FONTE: IHU / ONLINE

LEIA TAMBÉM: O Pampa é o segundo menor e mais alterado bioma do Brasil

http://guebala.blogspot.com.br/2012/05/o-pampa-e-o-segundo-menor-e-mais.html


Bioma Pampa já perdeu mais da metade da vegetação original


http://guebala.blogspot.com.br/2010/07/bioma-pampa-ja-perdeu-mais-da-metade-da.html

terça-feira, março 26, 2013

Biodiversidade do Pampa está ameaçada por florestas artificiais











Biodiversidade do Pampa está ameaçada por florestas artificiais




Em estados como Mato Grosso e Pará, a Floresta Amazônica está sendo transformada em pasto. No Rio Grande do Sul ocorre o problema inverso: a vegetação campestre dos pampas – que há séculos convive em harmonia com a pecuária – está sendo dizimada para dar lugar a florestas plantadas pelo homem.
O impacto visual da destruição pode ser maior na Amazônia, mas se engana quem pensa que a perda biológica no Bioma Pampa é menor. Segundo levantamento coordenado pela professora Ilsi Boldrini, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), os campos sulinos concentram uma diversidade vegetal três vezes maior que a da floresta, quando se leva em conta a proporção da área ocupada por cada bioma.
Os dados foram apresentados no segundo evento do Ciclo de Conferências 2013 do BIOTA Educação, organizado pelo Programa BIOTA-FAPESP, que teve como tema o Pampa.
Com 176 mil km², o bioma era considerado parte da Mata Atlântica até 2004. Originalmente, ocupava 63% do território gaúcho. Hoje, apenas 36% dessa área ainda está coberta pela vegetação original.
“A paisagem campestre poder parecer homogênea e pobre para quem não conhece, mas nesse pequeno remanescente do bioma mapeamos 2.169 táxons – a maioria espécies diferentes, pertencentes a 502 gêneros e 89 famílias. Desses, 990 táxons são exclusivos do Pampa. É um número muito grande para uma área tão pequena. No Cerrado, por exemplo, são 7 mil espécies em 3 milhões de km2”, afirmou Boldrini.
Segundo a pesquisadora, aproximadamente 1 milhão de hectares – ou 25% do Bioma Pampa – foi ocupado nos últimos cinco anos por florestas de eucalipto e de pinus, que visam a abastecer a indústria de papel e celulose.
Poucas plantas nativas sobrevivem debaixo das árvores, pois há pouca luz disponível e as espécies de campo aberto precisam de muito sol. “Quando as árvores forem cortadas, restarão apenas os tocos e um solo descoberto – ambiente propício para espécies invasoras como o capim-annoni ou a grama-paulista, que são muito fibrosas e não servem para pasto”, disse.
Mas, segundo Boldrini, o mais antigo e ainda hoje o principal fator de destruição do Pampa é a agricultura. “As plantações de soja e trigo nas terras mais secas e as plantações de arroz nas áreas úmidas, próximas a rios. O cultivo começou no planalto e está se espalhando para todo o Pampa, embora a vocação da região seja para a pecuária”, argumentou.
Mesmo a criação de gado para corte, introduzida no Rio Grande do Sul pelos jesuítas ainda no século XVI, tem se tornado uma ameaça por falta de manejo adequado.
“Os produtores usam uma carga animal muito alta. Como consequência, o campo fica baixo e falta pasto no inverno. Eles então aplicam herbicidas para eliminar a vegetação nativa e abrir espaço para plantar espécies hibernais exóticas, como azevém, trevo branco e cornichão”, alertou Boldrini.
A prática não só ameaça a biodiversidade local, como contamina o solo e a água e ainda diminui a produtividade dos pecuaristas. O ideal, segundo Boldrini, seria ter uma oferta de forragem de três a quatro vezes maior do que o gado é capaz de consumir. Dessa forma, o animal escolhe as espécies mais adequadas para sua alimentação, desenvolve-se mais rápido e se reproduz de forma mais eficiente.
“A produtividade média do estado hoje é de 70 kg de carne por hectare ao ano. Com o manejo correto, pode passar para 200 kg a 230 kg por hectare ao ano. Além disso, a qualidade da carne também melhora. Basta cuidar para o animal não liquidar com a vegetação”, disse.
SOS Pampa
Segundo dados do Ministério do Meio Ambiente, o Pampa é hoje o segundo bioma mais devastado do país – atrás apenas da Mata Atlântica. Entre as espécies vegetais endêmicas da região já descritas, 151 estão ameaçadas de extinção.
“Algumas plantas, como a Pavonia secreta, existem apenas em uma pequena região do Pampa. No momento em que aquele lugar for devastado, elas vão se extinguir”, disse Boldrini.
O desaparecimento da flora local ameaça não apenas a fauna a ela associada como também os mananciais da região, alertou a pesquisadora.
“As nascentes de todos os afluentes e subafluentes dos grandes rios do estado, como Jacuí, Ibicuí e Uruguai, estão completamente interligadas à vegetação de campo. Se não cuidarmos da periferia dessas nascentes, não adianta plantar pinus (pinehiros) depois”, afirmou a professora.
Desconhecimento
Ainda durante o evento, Márcio Borges Martins, da UFRGS, afirmou que um dos principais obstáculos à preservação do Pampa é o desconhecimento da biodiversidade local. “Há muitas pesquisas sendo feitas, mas quase nada publicado. Isso dificulta a definição de áreas prioritárias para a conservação”, disse.
A falta de informações sobre as espécies de animais da região também foi destacada por Eduardo Eizirik, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), que apresentou a palestra “Origem, evolução e diversidade da fauna de vertebrados do Bioma Pampa”.
Organizado pelo Programa BIOTA-FAPESP, o Ciclo de Conferências 2013 tem o objetivo de contribuir para o aperfeiçoamento do ensino de ciência. A terceira etapa será no dia 18 de abril, quando estará em destaque o “Bioma Pantanal”.
Em 16 de maio, o tema será “Bioma Cerrado”. Em 20 de junho, será abordado o “Bioma Caatinga”. Em 22 de agosto, será a vez do “Bioma Mata Atlântica”. Em 19 de setembro, “Bioma Amazônia”. Em 24 de outubro, o tema será “Ambientes Marinhos e Costeiros”. Finalizando o ciclo, em 21 de novembro, o tema será “Biodiversidade em Ambientes Antrópicos – Urbanos e Rurais”.

FONTE: por Karina Toledo/ Agência FAPESP

sábado, março 16, 2013

Carta Aberta dos povos do Tapajós ameaçados pelo Complexo Hidroelétrico do Tapajós










Nós, lideranças Munduruku e colaboradores não indígenas participantes do Seminário de Formação de Militantes do Movimento Tapajós Vivo, realizado na cidade de Jacareacanga, nos dias 30 de novembro, 1 e 2 de dezembro de 2012, com apoio do Movimento Tapajós Vivo, Fórum da Amazônia Oriental, Ação Mundo Solidário, Congregação das Irmãs Passionistas de São Paulo da Cruz e Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição vimos a público, através desta Carta Aberta dizer que:

- Essas barragens não servem para nós, povos e populações do Tapajós, por isso entendemos que não tem porque branco mexer na nossa água. Lembramos que pela Constituição Federal, o governo não é dono de tudo. A terra e a água tem dono. É o índio. E não vamos deixar nenhum branco destruí-la.

- Deixamos bem claro que aqui, não aceitamos trocar nossa vida, nosso rio por dinheiro nenhum. Aqui no Tapajós ninguém quer morrer e vamos lutar para que nada de mal nos aconteça

- Avisamos a todos os brancos que não vamos deixar brancos entrarem em nossas aldeias para fazerem pesquisa. Se algo acontecer a estas pessoas, será de total responsabilidade do governo federal e das empresas.

- Queremos saber por que o governo fala que se as barragens forem construídas, vai ter dinheiro para a saúde e a educação dos indígenas. Por que as populações indígenas não podem ter saúde e educação sem a construção das barragens? Nós não temos direito a isso?

- Sabemos que se as barragens forem construídas, tudo o que nós temos vai sumir. Vamos ter que sair de nossas terras. Como vamos criar nossos filhos?

- A partir de agora, vamos reunir com os caciques e vamos fortalecer ainda mais a  resistência. Vamos nos unir a ribeirinhos e pescadores, quilombolas e formaremos um grande grupo para agir no impedimento da construção das barragens;

Reafirmamos nossa solidariedade aos povos atingidos por barragens no Brasil e na Panamazônia e nosso compromisso com a Aliança dos 4 Rios.

Esperamos que esta conversa não fique aqui, apenas em Jacareacanga (PA). Queremos que o Brasil e o mundo saibam que somos contra as barragens e que lutaremos até o fim para proteger nossas terras, nossos rios e nossas famílias.

NÃO ÀS HIDROELÉTRICAS NO RIO TAPAJÓS!
NÃO ÀS HIDROELÉTRICAS NOS RIOS AMAZÔNICOS!
VIVA NOSSOS RIOS, VIVOS E SEM BARRAGENS!
VIVA OS NOSSOS RIOS, VIVOS PARA SEMPRE!

Jacareacanga (PA), 02 de dezembro de 2012.

quarta-feira, janeiro 09, 2013

O pampa gaúcho é alvo de biopirataria, denuncia ambientalista







O avanço da agricultura e da silvicultura, a cada ano, destrói cerca de 140 mil hectares do pampa gaúcho. Se não bastasse ter 40% de sua área de 15 milhões de hectares degradada, a região também é alvo de biopirataria. Essa atividade ilegal gera bilhões de dólares para outros países, que encontram no território gaúcho, espécies nativas bastante rentáveis. Das 2,5 mil espécies de flora presente no pampa, “10% estão ameaçadas e outros 10% são recolhidas e levadas para o mundo inteiro”, denuncia o professor Paulo Brack, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em entrevista feita por telefone e complementada por e-mail à IHU On-Line. Segundo o pesquisador,as empresas estrangeiras vêm ao pampa em busca de petúnias, cactáceas raras e a conhecida jararaca. “Um dos casos que mais chama a atenção é que a empresa norte-americana Bristol Myers-Squibb registrou princípio ativo contra pressão alta com base no veneno da jararaca, uma espécie que também ocorre no pampa, gerando um mercado de US$ 2,5 bilhões, o que equivale ao investimento de algumas destas empresas papeleiras que está se instalando no estado”, compara.


Brack é doutor em Ecologia e Recursos Naturais, pela Fundação Universidade Federal de São Carlos. Atualmente, é docente da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). 


Confira mais detalhes na entrevista a seguir, concedida com exclusividade à IHU On-Line.

IHU On-Line - Como o senhor define a situação atual do pampa gaúcho? Quais são os principais atores envolvidos na questão dos impactos ambientais que o bioma vem sofrendo? Quem mais sai prejudicado com as alterações no bioma? 


Paulo Brack – Uma das questões que ainda não foi levantada em relação à imensa silvicultura que está sendo implantada no Rio Grande do Sul se refere à capacidade de suporte do bioma pampa. Quem pode comprovar a capacidade do bioma para suportar 1 milhão de hectares de silvicultura, considerando que a área, de acordo com dados que nós temos na universidade, já perdeu 40% de espaço preservado? O bioma, originalmente, abrangia cerca de 15 milhões de hectares. Hoje, ele está reduzido a oito ou nove milhões, considerando que parte desse valor, já estaria, em alguma parte, descaracterizado. A cada ano, no mínimo, 140 mil hectares estão se perdendo devido o avanço da fronteira agrícola e também da silvicultura. Segundo a professora Ilsi Boldrin, do Departamento de Botânica da UFRGS, esta taxa chegou a cerca de 400 hectares/ano, como atestam estudos recentes do realizados pela universidade. 

Hoje, ocorre o emagrecimento do bioma pampa, e o governo do estado do Rio Grande do Sul não está atento a essa questão. Atualmente, nós temos apenas 0,36% de áreas protegidas por unidades de conservação. Esse valor é muito pequeno, pois cada bioma deveria ter pelo menos 10% dele preservado, segundo recomenda a IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos naturais). O Brasil, hoje, tem entre 7 a 8% de áreas protegidas. Assim, o bioma pampa, tendo em vista outros biomas do país, é o menos representado por áreas preservadas.


Espécies ameaçadas

No pampa gaúcho, há, no mínimo, 2,5 mil espécies da flora e de trezentas a quatrocentas espécies de aves. Dessas 2,5 mil espécies da flora, 10% estão em situação de ameaça. O Decreto 42.099, de dezembro de 2002, estabelece a lista da flora ameaçada do Rio Grande do Sul, e há 607 espécies em extinção, sendo que 250 delas estão na região do pampa. O estado, após a publicação deste decreto, não fez nada. Nesse período de cinco anos, já tivemos seis secretários do meio ambiente, e o único discurso deles estava vinculado à idéia de facilitar novos empreendimentos. No entanto, antes de liberar qualquer licenciamento, o governo deveria analisar o que deve ser preservado, antes da implantação desses empreendimentos.

Papeleiras patrocinam campanhas eleitorais

As empresas de celulose doaram cerca de R$ 500 mil à campanha da governadora Yeda Crusius. Outros 75 candidatos receberam dinheiro, também. Eu vejo essa questão como algo muito grave, pois estamos perdendo a nossa biodiversidade dentro de uma visão imediatista e de interesses pouco confessáveis.

Proteção à fauna e à flora

Outro aspecto que pouco se fala é que a perda de espécies do pampa está em curso. E, mais uma vez, se desconsidera que o processo evolutivo que fez com que estas espécies estivessem neste bioma no pampa levou muitos milhões de anos. Esse processo pode ser interrompido por algum interesse imediatista? Qual é o direito que nós temos de colocar essas espécies em extinção? A Constituição diz que a fauna e a flora são patrimônios nossos, e assim, biomas devem ser mantidos e preservados. Eu creio que esses plantios devem ser feitos em áreas nas quais já existe uma degradação. O estudo do Zoneamento da Silvicultura estabeleceu essas áreas, só que infelizmente foi desconsiderado. Esse estudo tinha critérios fantásticos, porque ele considerava as espécies ameaçadas. Nenhum outro critério contemplaria com a amplitude e profundidade que o zoneamento estava estabelecendo. Hoje, a justiça ainda não se deu conta do que representa essa depreciação da nossa biodiversidade.


IHU On-Line – Qual é a sua avaliação da academia e das pesquisas na área da ecologia relacionadas ao bioma pampa?


Paulo Brack – Eu creio que o bioma tem trabalhos fantásticos de flora, ecologia e na área de pastagem. Neste caso, estudos realizados por pesquisadores demonstram que poderíamos aumentar em pelo menos quatro vezes mais a produção de carne se tivesse um manejo mínimo, com orientação dos proprietários para que a pressão de pastagem seja adequada. Existem dados do ponto de vista da sustentabilidade da pecuária. Ela é, secularmente, a atividade menos impactante, mas até agora ela conviveu muito melhor com a biodiversidade do pampa, do que essas imensas cortinas de monoculturas de eucalipto.


IHU On-Line - Quais são as bases do trabalho da ONG Ingá? Pode falar sobre a ação encabeçada pela ONG envolvendo o pampa?


Paulo Brack – Através da Inga , nós temos algumas campanhas que se estendem não só a questões ligadas ao Pampa, mas também às hidrelétricas. Esse outro tema nos preocupa muito, porque a bacia do Rio Uruguai, segundo previsões, será ocupada por dezenas de hidrelétricas.

Existe uma hidrelétrica do PAC, a de Pai Querê. Se construída, ela poderá destruir quatro mil hectares de floresta com araucária. Esse espaço equivale a quatro mil campos de futebol. Das últimas matas que sobraram, essa é uma área considerada prioritária para conservação. Porém, nós percebemos que as campanhas, hoje, estão batendo de frente com esse modelo de crescimento imediatista. A cegueira imediatista é o nosso grande inimigo. Nós temos que pensar na sustentabilidade de uma forma mais profunda, e o Inga, hoje, vai focar menos em questões isoladas, e tentar questionar esse modelo de desenvolvimento, que está trazendo uma insustentabilidade nunca vista para o planeta. Os dados do IPCC  revelam que, em 2030, nós teremos a floresta Amazônica reduzida a menos de 50%. Através do Inga, nós estamos percebendo as conseqüências dessas políticas de desenvolvimento, que são resgatadas nos moldes da década de 1970. Esse modelo de desenvolvimento é antigo e não tem nenhum critério de sustentabilidade. 


No caso das silviculturas, as áreas de enormes monoculturas servem apenas ao mercado global, que depende dos commodities. E, no momento em que esses empreendimentos não derem mais lucros para as empresas, como as pessoas vão ficar? Nós não vamos diversificar nossa agricultura? Por que nós estamos na contramão da sustentabilidade? Porque os governantes estão reféns de uma lógica insana de mercado, de crescimento de consumo. Nós poderíamos e deveríamos diminuir também o consumo de papel. Mas isso não interessa ao modelo atual, e isso significa que nós vamos querer continuar crescendo ilimitadamente. O mercado precisa fazer esse questionamento: até que ponto essa hipertrofia dos capitais internacionais não irá colocar a sustentabilidade do planeta em xeque?


IHU On-Line - O senhor, como ambientalista, como analisa a preocupação da sociedade civil em relação à preservação do pampa? Quais são os maiores desafios para internalizar nas pessoas a preocupação ambiental relacionada ao bioma pampa?  


Paulo Brack – A população, aos poucos, está percebendo que esse modelo de monocultura considera a biodiversidade como um empecilho, e considera a diversidade como um empecilho também. Qualquer atividade econômica, hoje, que vier a criar barreiras para a monocultura, será combatida. A população está começando a perceber que não serão gerados tantos empregos assim, e, mais cedo ou mais tarde, as pessoas vão perceber que o Brasil está se tornando um país exportador de produtos com baixo valor agregado, que é o caso da pasta de celulose. O Primeiro Mundo, utilizando-se desse produto, vai criar o papel. E quem irá ganhar mais dinheiro com isso é ele. Nós vamos ficar aqui com desertos verdes, com a poluição e menos trabalhos. Atualmente, talvez, algumas pessoas devem achar que nós, ambientalistas, somos malucos. Mas há 30 anos, já se falava das mudanças climáticas. E hoje ela está acontecendo. A grande mídia nos rotula, tentando nos desqualificar nas nossas intervenções, mas nós temos conhecimentos. Eu atuo há 30 anos na universidade, viajo muito pelo interior e vejo que a situação do meio ambiente no estado está pior do que há 20 anos. Nós estamos retrocedendo. É absurdo ver que, em 2007, ao invés de avançarmos nas políticas de meio ambiente, nós estamos retrocedendo.

Políticos são dominados pelas papeleiras?  

Tanto a direita como a esquerda atual estão recebendo dinheiro das empresas favoráveis à monocultura. No governo federal, a situação é grave, pois até o PT recebeu bilhões de reais das empreiteiras, as quais também querem construir hidrelétricas. Os setores da esquerda, que deveriam se aliar com a população que está questionando isso, se esqueceram de todas as lutas. Saber que grande parte das pessoas críticas da esquerda, que estavam alinhadas aos movimentos sociais, estão de cabeça baixa diante desse modelo insano de crescimento, me deixa atordoado. Está acontecendo uma grande traição das lideranças sociais que foram para o governo. Eles esqueceram das bandeiras levantadas na época do Fórum Social Mundial, que também foi esquecido. Restamos apenas nós, náufragos nesse modelo insano de insustentabilidade.


IHU On-Line – Qual é a responsabilidade da mídia e dos órgãos governamentais em relação às ações das grandes indústrias de celulose?


Paulo Brack – A mídia está cada vez pior. Chargistas do Jornal do Comércio, nessa semana, foram despedidos, por questões ideológicas. Eles faziam desenhos irônicos das papeleiras e do papel submisso deste governo. A pressão econômica se dá na Mídia e também no governo. A secretária e o diretor da Fepam foram derrubados pelos interesses das empresas. Nós estamos vivendo quase que um estado de guerra. A legislação está sendo derrubada, e nós estamos entrando num tipo de “estado de exceção”. A mídia não nos dá espaço e os políticos estão alinhados ao capital que os financia. A democracia no Brasil, hoje, com o financiamento privado de campanha, está refém desse modelo. Assim, nós estamos vivendo o pior lado da globalização.  


IHU On-Line - O senhor pode falar sobre os principais casos de biopirataria no pampa, obtidos no estudo que o senhor tem feito com seus alunos?


Paulo Brack – O pampa gaúcho é alvo de biopirataria há décadas, e está gerando bilhões de dólares e ganhos para outros países. Das 2,5 mil espécies presentes no pampa gaúcho, 10% estão ameaçadas e outros 10% são recolhidas e levadas para o mundo inteiro. Nós temos 47 espécies de cactos que ocorrem no Rio Grande do Sul, criticamente ameaçados. 


Qual valor damos a nossas espécies nativas do pampa? Aqui não, mas lá fora sim. Empresas estrangeiras vêm para o pampa em busca de muitas espécies, consagrando uma região de maior biopirataria no mundo, há décadas. Os japoneses e norte-americanos buscam petúnias. Estes últimos já patentearam princípios ativos de nossa espinheira-santa, por meio da empresa Nippon Mektron Japan. Os alemães levam cactáceas raras e ornamentais. Os neozelandeses buscam sementes da feijoa , ou goiaba serrana. Por sinal, a Nova Zelândia é a maior produtora mundial do fruto desta espécie que é nativa do sul do Brasil. Um dos casos que mais chama a atenção é que a empresa norte-americana Bristol Myers-Squibb registrou princípio ativo contra pressão alta com base no veneno da jararaca, uma espécie que também ocorre no pampa, gerando um mercado de US$ 2,5 bilhões, o que equivale ao investimento de algumas destas empresas papeleiras que estão se instalando aqui, neste momento. O governo, do estado quando fala em investimentos, sabe disso?


IHU On-Line - Quais são as principais conseqüências da monocultura de eucalipto para a biodiversidade do pampa? O faturamento das grandes multinacionais da celulose equivale ao valor da biodiversidade brasileira?


Paulo Brack – Esta é a grande questão. Segundo o IBGE, se fosse estimado o valor econômico da biodiversidade brasileira, esta valeria o equivalente a, no mínimo, quatro trilhões de dólares. Outro dado que chama a atenção é que, segundo o Ibama, perdemos por ano mais de 5,5 bilhões de dólares pelo patenteamento estrangeiro dos produtos de nossa biodiversidade. Onde estão os estudos que a Fepam (Fundação Estadual de Meio Ambiente) e a FEE (Fundação de Economia e Estatística) deveriam realizar sobre estes aspectos? O valor dos bens e funções, tradicionalmente chamados de serviços, do patrimônio natural do pampa, deve ser uma obrigação primeira do governo e também da universidade. Se o governo não providenciar esta valoração, nós iremos fazê-la. Queremos demonstrar que os investimentos destas empresas, que colocam em risco nossa biodiversidade, representam uma fração menor do que 10% do que vale a biodiversidade do pampa. Outra coisa pouco falada é se não haverá mais falta de leite e falta de carne no prato do gaúcho com estes empreendimentos. Até que ponto os pecuaristas não trocarão seus bois por eucalipto? Qual é o valor econômico da manutenção da pecuária, com manejo sustentável, fornecimento de carne, que hoje falta ao gaúcho, e convivência secular com o pampa? 

FONTE: IHU ONLINE

terça-feira, dezembro 18, 2012

As cinco hidrelétricas no Rio Tapajós

   Entrevista Especial com Telma Monteiro
“Nenhum rio, no Brasil e no mundo, pode suportar a construção de cinco hidrelétricas, ou até menos, em sequência. Hidrelétricas causam prejuízos imensuráveis à biodiversidade”, desabafa Telma Monteiro no início da entrevista por telefone. Ela critica o projeto de construção do complexo de hidrelétricas do rio Tapajós, onde estão previstas cinco hidrelétricas em sequência. “O governo e seus aliados conseguiram passar as usinas do rio Madeira pela sociedade. Eles estão conseguindo passar com um trator por Belo Monte, embora estejamos resistindo bravamente. E se passarem Belo Monte, não vão ter qualquer dificuldade para aprovarem as hidrelétricas do Tapajós e todas as outras que forem planejadas para suprir a necessidade de obras para as grandes empreiteiras e de energia para as grandes eletro-intensivas”, disse ela.

Confira a entrevista.

O rio Tapajós suportará a construção das cinco hidrelétricas?

Telma Monteiro – Nenhum rio, no Brasil e no mundo, pode suportar a construção de cinco hidrelétricas, ou até menos, em sequência. Hidrelétricas causam prejuízos imensuráveis à biodiversidade, imagine cinco e em sequência. Neste caso se criariam cinco grandes lagos na região da bacia do Rio Tapajós em sequência. Isto transformaria esses rios em uma espécie de sistema lacustre.

Quais são as principais falhas no projeto do Complexo de Tapajós?

Telma Monteiro – Além daqueles que apontamos para todas as outras hidrelétricas, como foi a falha do processo de licenciamento do Rio Madeira, e estão sendo as falhas do processo de licenciamento de Belo Monte no Rio Xingu, no caso das hidrelétricas do Tapajós, os impactos seriam muito grandes. Inclusive na questão de atingir terras indígenas, que afetaria o povo Munduruku. Os munduruku estão na região do Tapajós e serão diretamente afetados. A relação desses índios com o ambiente natural é muito estreita, e, no próprio inventário hidrelétrico do Rio Tapajós, isto está muito claro.

A preservação e o desenvolvimento dessas culturas irão depender fundamentalmente da manuntenção desses grupos indígenas e de seus territórios. A continuidade de suas relações com o meio ambiente é muito importante. Quando você agride toda essa biodiversidade que irá servir aos povos indígenas, está fazendo com que morra a alma antes do corpo, que é a forma mais rápida de destruição das identidades étnicas. Acho que isso reflete muito bem o que esses grandes projetos de infraestrutura podem causar à Amazônia, em especial, nesses povos que já estão sendo afetados.

O projeto ainda nem começou, mas, pela simples menção de sua construção, esses povos já estão sendo afetados. Quando se tem uma ocupação, como no caso do Rio Madeira, esse precedente já é transferido para um novo local quando se anunciam a construção de novas hidrelétricas. Começam a fluir pessoas para esses locais, que passam a ocupar essa região de forma desordenada, e os municípios não estão preparados para esse processo migratório para a região. Na hora em que se tem a divulgação da questão das hidrelétricas nos rios Madeira, Xingu e Tapajós, é possível perceber que as pessoas já se mobilizam para chegarem a esses lugares e começarem a ocupar o espaço em busca de oportunidades de trabalho. Aí começa o caos na infraestrutura da região.

Já se sabe qual será a potência total de geração de energia do Complexo de Tapajós?

Telma Monteiro – Os estudos de viabilidade já estão prontos e estão sendo analisados. Esses estudos indicam que o potencial previsto é de 14.245 megawatts, isso para um conjunto de aproveitamento em cascata nos rios Tapajós e Jamanchim. Lógico que estão neste projeto os mesmos que estão nos outros projetos. Foi a CNEC engenharia, uma empresa da Camargo Correa, que fez os estudos. Inclusive a própria empresa Camargo Correa não objetiva gerar energia, mas construir obras. A Camargo Correa é que vai construir Jirau, está pretendendo participar do leilão de Belo Monte e também já está envolvida nos estudos do Rio Tapajós.

Na questão do Complexo de Tapajós, temos outro precedente. Lá estão as mesmas empreiteiras, cujo fim é apenas fazer obras, e não gerar energia. Na verdade, na falta de grandes obras de infraestrutura no Brasil durante algum tempo, estamos vendo agora uma verdadeira indústria de construção de barragens nos rios, em especial, na Amazônia.

As empresas começam a buscar uma forma original de apresentar as hidrelétricas para a sociedade. No caso do Complexo do Tapajós, é muito interessante: eles criaram uma nova figura, e isso foi um exercício da Eletrobrás, a da usina-plataforma.

A quem se destina toda a energia que será produzida nessas cinco hidrelétricas?

Telma Monteiro – Temos as grandes usinas eletrointensivas, que são aquelas cujo produto final requer um insumo maior de energia. Temos o beneficiamento do alumínio, primeiro com a extração da bauxita, que beneficia o alumínio. Antigamente, o Brasil exportava toneladas de material mineirado. Hoje, o país exporta quilos de alumínio. O que essas grandes empresas eletrointensivas como a Vale precisam? Precisam extrair a bauxita e beneficiar o alumínio, e isso acontece usando a energia hidrelétrica. O custo menor para elas é manter essas indústrias que beneficiam o minério perto de usinas hidrelétricas. Onde estão essas explorações? Estão justamente na Amazônia, a região com a maior riqueza mineral do planeta. E o que essas grandes empresas eletro-intensivas querem? Querem explorar toda essa riqueza. Veja que algumas já têm uma planta pronta para uma indústria em Altamira para beneficiar a indústria de alumínio.

O que está por trás da contratação das empresas Camargo Correa e Odebrecht?

Telma Monteiro – O que é a Odebrecht? Antes de mais nada, ela é uma grande empreiteira. Embora elas sejam empresas que detenham outras em diferentes setores, sua atividade principal são obras de grande porte. O que é uma grande barragem? É um conjunto imenso que utiliza concreto, é uma construção pesada, que necessita de muitas escavações em rochas e tudo isso não se consegue fiscalizar. Isso custa muito dinheiro! Quando você faz um conjunto de cinco hidrelétricas numa região como a do rio Tapajós e com uma tecnologia nova, como é que essas empreiteiras vão ser fiscalizadas, se aquele custo que elas apresentaram para a construção não pode ser fiscalizado? Por isso, grandes obras dão muito dinheiro para esse tipo de empresa. Essas empresas vivem disso, e não de gerar energia.

Belo Monte vive outro grande problema seríssimo, porque a energia que pretendem gerar lá é de 4500 megawatts médios. Isso é mentira. Há um estudo de 2006 que diz que é impossível gerar esse nível de energia, a não ser que se construam mais três energias hidrelétricas.

Querem construir no Rio Tapajós usina-plataforma. O que é isso?

Telma Monteiro – É um novo conceito revolucionário em hidrelétricas, como diz a Eletrobrás. A ideia é que a hidrelétrica será construída sem que se faça desmatamento. É isso que eles estão planejando. A Petrobrás até lançou uma cartilha com um material especial feito para que as comunidades se apropriem dessa nova “técnica” de usina-plataforma, que tem relação com plataformas de exploração de petróleo no mar. Nós não sabemos como isso pode ser transferido para o meio da floresta. Se diz que a usina-plataforma será feita sem que haja necessidade de canteiros de obras para os trabalhadores fazerem a usina, e esses trabalhadores serão levados e trazidos através de helicópteros no meio da mata. Segundo declarações do presidente Lula e do ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, essas usinas-plataformas não ampliariam o desmatamento. Esta é uma coisa muito interessante, pois não se imagina como se pode fazer um reservatório de uma grande usina hidrelétrica, no meio da Amazônia, sem desmatamento. Temos duas opções: Ou o reservatório é virtual, ou ele paira.

O que significa a construção de dois projetos considerados “mega” como o do rio Tapajós e o de Belo Monte?

Telma Monteiro – Significa que, na esteira desses dois projetos, que vão afetar terras indígenas, a biodiversidade, a vida dos ribeirinhos, o custo-benefício-social não foi divulgado. Na realidade, não sabemos qual é o custo para a sociedade dos peixes que deixarão de fazer a migração para a reprodução. Essas externalidades não estão sendo consideradas e, se estão sendo consideradas, os números não estão aparecendo. Significa, portanto, que na esteira desses projeto há outros tantos, como bem disse nosso Ministro Edison Lobão, numa reunião em Brasília, que temos um potencial de desenvolvimento para gerar energia hidrelétrica inclusive em áreas preservadas e que até esses lugares estão no plano do governo de exploração.

O governo e seus aliados conseguiram passar as usinas do rio Madeira pela sociedade. Eles estão conseguindo passar com um trator por Belo Monte, embora estejamos resistindo bravamente. E se passarem Belo Monte, não vão ter qualquer dificuldade para aprovarem as hidrelétricas do Tapajós e todas as outras que forem planejadas para suprir a necessidade de obras para as grandes empreiteiras e de energia para as grandes eletro-intensivas.

Com tantos alertas e demonstrações que provam os riscos desses empreendimentos, por que, em sua opinião, os projetos continuam avançando? Quem pode impedir que essas barragens sejam construídas?

Telma Monteiro 
– Temos que repensar o planejamento energético brasileiro. Estão esquecendo de uma série de medidas que deveriam ser tomadas antes de se pensar em contruir megahidrelétricas no Brasil. Primeiro: quais são as perdas efetivas? Onde estão as contas que demostram quais as perdas que existem no sistema de transmissão do país? Ninguém fala disso. O próprio professor Célio Berman demonstrou, através de um estudo com a WWF, a necessidade de detectar quais as usinas que precisam de repotenciação. Porque você acha que a energia eólica não “pegou” ainda no Brasil? Porque não interessa às empreiteiras deixar que a eólica seja uma fatia substancial de geração de energia no país. Eólica não precisa de concreto, não tem barragem, não tem escavações. Então, enquanto tiver o lobby das grandes empreiteiras querendo fazer megabarragens, nós não teremos a necessidade de desenvolver hábitos de economia de consumo, por exemplo.

Telma Monteiro é coordenadora de Energia e Infra-Estrutura Amazônia da Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé.
Fonte:Envolverde / IHU-OnLine.

terça-feira, julho 10, 2012

Belo Monte agrava desarticulação indígena


Entrevista especial com Rodolfo Salm
“Trata-se da velha estratégia utilizada no Brasil há mais de 500 anos. Quando os portugueses chegaram aqui, não tinham poder de fogo para combater os índios, então, colocaram índio contra índio”, constata o biólogo.

Confira a entrevista.


Diferente da articulação dos povos indígenas na Cúpula dos Povos, em Altamira, Pará, onde está sendo construída a hidrelétrica de Belo Monte, as “comunidades indígenas estão muito desarticuladas”, diz Rodolfo Salm à IHU On-Line. Em entrevista concedida por telefone, ele esclarece que a desarticulação das comunidades indígenas é consequência, além dos seus conflitos internos, da “ação dos construtores e idealizadores de Belo Monte, que dividiram os índios. Eles se aproveitaram de antigas divisões entre os Xikrins, da região de Altamira, e os Caiapós, que estão mais perto do Mato Grosso, e estabeleceram um conflito entre eles. Por isso alguns índios aceitam, de certa forma, a barragem, e outros são radicalmente contra. Esse conflito entre as etnias favoreceu a construção da barragem”.

Salm comenta também o acampamento dos índios Xikrins no canteiro de obras de Belo Monte e é enfático: “Existem alguns índios que não querem saber das condicionantes, que são totalmente contra a barragem, mas tenho a impressão de serem minoria. A minha esperança é que esse movimento se torne numa ‘bola de neve’; gostaria que viessem mais e mais índios. Seria ótimo se viessem os indígenas do Mato Grosso, e a mobilização  aumentasse e até, quem sabe, inviabilizasse a obra. Isso parece um sonho impossível, mas é a nossa esperança, porque sempre esperamos que, de alguma forma, essa obra não aconteça”.

Rodolfo Salm é Ph.D em Ciências Ambientais pela Universidade de East Anglia, Inglaterra, e formou-se em Biologia pelo Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. É professor da Universidade Federal do Pará, onde desenvolve o projeto Ecologia e Aproveitamento Econômico de Palmeiras.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como foi realizado o encontro Xingu+23? Foi uma resposta a Rio+20? 

Rodolfo Salm
 – O encontro “pegou carona” na ocorrência daRio+20, como uma oportunidade de chamar a atenção para o problema ambiental da região do Xingu. Não foi exatamente uma resposta. Foi mais um evento paralelo a Rio+20.

IHU On-Line – Como avalia a articulação dos povos indígenas durante esses 23 anos? Que semelhanças e diferenças aponta hoje em relação ao 1º Encontro dos Povos Indígenas do Xingu, que aconteceu em 1989? Percebe que hoje há mais articulação?

Rodolfo Salm
 – Os povos indígenas estão mais articulados, de certo modo. Mas em Altamira, por exemplo, há um nível de desagregação muito grande, e as comunidades indígenas estão muito desarticuladas. Isso é consequência da ação dos construtores e idealizadores de Belo Monte que dividiram os índios. Eles se aproveitaram de antigas divisões entre os Xikrins, da região de Altamira, e os Caiapós, que estão mais perto do Mato Grosso, e estabeleceram um conflito entre eles. Por isso alguns índios aceitam, de certa forma, a barragem, e outros são radicalmente contra. Esse conflito entre as etnias favoreceu a construção da barragem. Trata-se da velha estratégia utilizada no Brasil há mais de 500 anos. Quando os portugueses chegaram aqui, não tinham poder de fogo para combater os índios. Então colocaram índio contra índio.

Atualmente alguns índios estão ocupando parte do canteiro de obras de Belo Monte, mas nem todos estão lutando contra a barragem. Alguns são contra, mas as lideranças estão exigindo o cumprimento das condicionantes. Por outro lado, osCaiapós do Mato Grosso, liderados por Raoni, não querem nem saber de condicionantes. Eles são radicalmente contraBelo Monte. Então, não há uma união. Os índios Mundurucus, por exemplo, da região do alto Tapajós, vieram para oencontro do Xingu + 23,porque estão preocupados com a perspectiva da construção de barragens na região de Teles Pires. Mas eles já estão engajados na luta contra esse processo de degradação do rio Xingu, que tende a se espalhar por toda a região amazônica.

Então, é muito difícil a articulação, porque eles têm um histórico de conflitos internos, e isso dificulta muito o diálogo. É só ver o exemplo de como os Xikrins têm dificuldade de se articular com os Caiapós na luta contra Belo Monte. Agora, em algum nível a articulação isso deve acontecer, especialmente na Cúpula dos Povos, em que deve ter acontecido algum tipo de união.

IHU On-Line – Qual a importância do Xingu para os povos indígenas, e que relação eles estabelecem com o rio?

Rodolfo Salm
 – O rio é tudo para eles. Ele é fundamental não só por causa do sustento, mas também devido a aspectos culturais e existenciais. O discurso do governo federal diz que nenhuma terra indígena será alagada. É verdade que algumas não serão, mas outras terras indígenas perderão o rio que passa na frente da aldeia. Atualmente o rio Xingu passa na frente da aldeia e é um rio extremamente fértil, cheio de recursos. Depois da construção, será um rio morto, sem peixes, porque a água ficará quente, sem oxigênio.

No leito do Xingu também tem uma grande quantidade de ouro, e isso vai atrair garimpeiros para a região. Imagina um monte de garimpeiros entrando numa terra indígena? Será catastrófico. Esses são impactos nas comunidades da região de Volta Grande. Ainda é preciso considerar os impactos indiretos, que estão sobre todos os povos indígenas da região do Xingu. Esses impactos indiretos serão decorrentes da imigração em massa de imenso contingente populacional, em consequência da construção da barragem. A previsão é que cerca de cem mil pessoas venham para a região. Com isso aumentará a probabilidade de invasão de terra, e todos os problemas sociais relativos ao contato tendem a se aprofundar.

IHU On-Line – Por quais motivos os índios estão acampados em Belo Monte?

Rodolfo Salm 
– Os índios Xikrins estão reivindicando o cumprimento das condicionantes. Existem alguns índios que não querem saber das condicionantes, que são totalmente contra a barragem, mas tenho a impressão de serem minoria. A minha esperança é que esse movimento se torne numa “bola de neve”; gostaria que viessem mais e mais índios. Seria ótimo se viessem os indígenas do Mato Grosso, e a mobilização aumentasse e até, quem sabe, inviabilizasse a obra. Isso parece um sonho impossível, mas é a nossa esperança, porque sempre esperamos que, de alguma forma, essa obra não aconteça.

IHU On-Line – No início deste mês, a presidente Dilma anunciou a homologação de sete terras indígenas, cinco no Amazonas, uma no Pará e outra no Acre. O que essa medida significa ou sinaliza num contexto de Rio+20?

Rodolfo Salm
 – Toda a homologação de terras indígenas é uma boa notícia. Isso fez parte daquele pacotão para o governo ficar “bem”, durante a Conferência da Rio+20. É importante demarcar as terras indígenas, porque elas são essenciais para a concentração da biodiversidade. Mesmo nas áreas mais impactadas, se compararmos o estado de preservação das terras indígenas com as áreas em torno, veremos que as áreas indígenas são sempre melhores para a conservação.

Recentemente, a revista Veja publicou uma matéria criticando os índios e a demarcação de terras indígenas. Eles mostram uma paisagem em que, de um lado da estrada tem uma fazenda de soja e, do outro, uma terra indígena recém-demarcada, e questionam: “Qual dos dois lados é o preservado?” De um lado teria a produção e, de outro, uma terra abandonada, degradada, cheia de lixo. Mas quando você olha a foto, quem entende de natureza, de biodiversidade e de conservação, percebe claramente que a área indígena é a que preserva pequenos mamíferos, aves, a biodiversidade de insetos etc.

IHU On-Line – E como você analisa a posição da sociedade civil em relação a todas essas questões que dizem respeito aos povos indígenas, ao modelo do desenvolvimento do governo que impacta diretamente nas comunidades? 

Rodolfo Salm 
– Quando falo com as pessoas, elas se sensibilizam para essa questão. Penso que a maior parte do povo brasileiro se preocupa com os povos indígenas e não gostaria de ver isso acontecendo, mas o sistema político impõe essa condição. A questão indígena não foi debatida na campanha presidencial. Quando a Dilma se candidatou a presidente, ela nem falava de Belo Monte, porque sabia que iria “queimar seu filme”. As grandes empreiteiras que financiaram a campanha dela, essas sim estão interessadas na construção da barragem. Agora, o povo, de forma geral, é simpático à preservação da floresta, à conservação dos povos.

IHU On-Line – Como o modo de vida dos indígenas contribui para pensarmos um planeta sustentável?

Rodolfo Salm
 – Fiz meu doutorado na aldeia indígena Caiapós, morei dois anos com eles e vi que têm uma vida simples, de contato com a natureza, não consomem muitos bens materiais, cuidam dos animais e das plantas. Isso tudo que está no imaginário popular tem um grande teor de verdade. Você vê que eles não são incorruptíveis, é claro que eles querem um rádio, uma televisão. Mas o que eles têm para mostrar é que é possível ser feliz usufruindo da natureza preservada.

IHU On-Line – Gostaria de acrescentar algo?

Rodolfo Salm
 – Gostaria de ressaltar que Belo Monte não irá gerar uma energia limpa. É uma energia muito suja por causa do metano produzido pelas barragens. Outra coisa importante é que não é uma energia para o desenvolvimento do Brasil, não é uma energia para a nossa industrialização, mas sim para exportar minérios. O Brasil está exportando energia barata na forma de minérios processados. Não se trata de uma energia para 60 milhões de habitantes, como aparece na propaganda da televisão.

Muitas pessoas estão colocando em dúvida o aquecimento global, o que é uma bobagem. Infelizmente, esse é um problema real e que se agrava a cada dia. Então, Belo Monte é suja e contribui muito para o aquecimento global e para a degradação do clima geral do planeta, sem contribuir em nada para o desenvolvimento da nossa sociedade. É possível fornecer energia para todos reduzindo o desperdício nas linhas de transmissão, atualizando as barragens já feitas, além de investir em fontes alternativas para a produção de energia.

FONTE: IHU ON-LINE