Valoriza herói, todo sangue derramado afrotupy!

domingo, março 06, 2011

Esquenta briga no Congresso Nacional a favor dos direitos dos gays





Eternos adversários no Congresso, os defensores dos direitos da comunidade LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais) e a bancada evangélica se preparam para duros embates com a chegada de Jean Wyllys (PSOL) e a volta da ex-deputada e agora senadora Marta Suplicy (PT-SP).

No último dia 24, Jean foi à tribuna da Câmara, apresentou-se como primeiro deputado representante legítimo da comunidade e avisou que coletará assinaturas para a proposta de emenda constitucional (PEC) que garante o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo.

No contra-ataque, a frente parlamentar evangélica fez sua primeira reunião na quinta-feira (3), quando traçou a estratégia de ação conjunta dos 75 parlamentares que compõem o colegiado (72 deputados e três senadores). Em relação à última legislatura, quando foram eleitos 36 parlamentares evangélicos, a bancada recuperou a capacidade de articulação no Congresso. Na pauta da primeira reunião, foi discutido o acompanhamento de projetos que tramitam no Congresso e contrariam princípios que a bancada defende.

Entre os alvos da bancada evangélica está o projeto que criminaliza a homofobia, já aprovado na Câmara e pendente de decisão no Senado. A proposta tem como relatora a senadora Marta Suplicy, que desarquivou o projeto. De acordo com o presidente da frente, deputado João Campos (PSDB-GO), o projeto tem que ser modificado porque fere a liberdade de expressão. Segundo o parlamentar, não é possível aceitar que os pastores e evangélicos não possam dizer que homossexualismo é pecado, porque esse é um dos princípios que defendem e está na Bíblia.

Jean Wyllys tem conversado com colegas de plenário para tentar reativar a frente mista em defesa da cidadania, além do apoio à PEC do casamento civil entre homossexuais.

- Não quero os integrantes da bancada evangélica como meus inimigos. Quando há um conflito de ideias, temos opositores, e uma parte vence a outra com argumentos - disse o parlamentar.

A adesão à frente vem crescendo, e mais de 70 parlamentares já assinaram o documento para a sua criação. O maior problema será o apoio à PEC do casamento civil. Evangélica, a deputada Benedita da Silva (PT-RJ) foi procurada por Wyllys, mas preferiu não assinar.

A senadora Marta Suplicy, que desarquivou a proposta legalizando a união estável, admite que a iniciativa do casamento civil, sugerida por Wyllys, é mais ampla:

- Decidi desarquivar o projeto de união estável. Acho que tem mais possibilidade no Senado, não é PEC. Mas é importante caminharmos juntos. Se passar o casamento civil, a união cai. O casamento é o objetivo dos homossexuais. A iniciativa do Jean é ousada e corajosa, provoca a discussão necessária.

FONTE: O GLOBO

sábado, março 05, 2011

Morre Alberto Granado, companheiro de Che em sua viagem de motocicleta



Alberto Granado, amigo e companheiro de Ernesto Che Guevara em sua viagem de motocicleta pela América do Sul, morreu neste sábado (05/03) em Havana, aos 88 anos, confirmaram fontes familiares.

Granado, nascido em 8 de agosto de 1922 em Córdoba (Argentina) e estabelecido em Cuba desde 1961, morreu de causas naturais, explicou seu filho, também chamado Alberto.

A televisão estatal cubana definiu neste sábado Granado como um "fiel amigo de Cuba" e detalhou que, segundo sua vontade, será cremado neste sábado em Havana e suas cinzas serão espalhadas por Cuba, Argentina e Venezuela.

Amigo de infância de Che Guevara, foi seu acompanhante na viagem que realizaram de motocicleta em 1952 pela América do Sul, um percurso que despertou a consciência política do guerrilheiro argentino.

Sobre "La Poderosa", o moto de Granado, os dois percorreram juntos boa parte do Cone Sul até que, nove meses depois, se separaram na Venezuela.

A viagem foi levada ao cinema em 2004 pelo filme "Diários de Motocicleta", dirigido pelo diretor brasileiro Walter Salles e protagonizado pelo mexicano Gael García Bernal, no papel de Che, e pelo argentino Rodrigo de la Serna, como Alberto Granado.

Após essa viagem, Granado retornou à Argentina para trabalhar como bioquímico, mas, após o triunfo da revolução cubana, Che o convidou para ir a Havana e, um ano depois, decidiu ficar na ilha com sua esposa e seus filhos.

Em 2008, Alberto Granado viajou à Argentina para participar das comemorações do 80º aniversário de nascimento de Che Guevara na cidade de Rosário.

Sua última viagem ao exterior foi ao Equador há alguns meses, disse seu filho, que destacou que Granado foi um "grande revolucionário" e um homem que amava muito a vida.

FONTE: Opera Mundi

Crescimento do carnaval de rua no Rio é consequência da redescoberta dos blocos, diz historiador

O crescimento do carnaval de rua do Rio de Janeiro nos últimos anos é um fenômeno natural de uma festa que está em constante transformação, mas tem a contribuição de um certo esgotamento das escolas de samba e de uma redescoberta dos blocos pela mídia, principalmente no centro e na zona sul da cidade. A afirmação é do historiador Felipe Ferreira, ao analisar o impacto representado pelo grande número de blocos de rua no carnaval carioca – 424 este ano, se forem contados apenas os oficialmente cadastrados na prefeitura e autorizados a desfilar.

“Com o tempo, ficou cada vez mais difícil e caro desfilar numa escola de samba. Ou você paga caro por uma fantasia ou entra para uma ala em que é preciso ensaiar o ano inteiro”, diz Ferreira, professor do Instituto de Artes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e autor das obras Livro de Ouro do Carnaval Brasileiro e Inventando carnavais: O Surgimento do Carnaval Carioca no Século 19 e Outras Questões Carnavalescas. Para ele, isso é resultado do próprio crescimento das escolas, sobretudo as do Grupo Especial, hoje internacionalmente famosas, disputadas por gente de todo o mundo. Aliado aos altos preços dos ingressos no Sambódromo, este fato tem levado um número crescente de foliões aos blocos de rua, que estavam relegados a um segundo plano na festa.

Os blocos passaram – ou voltaram – a ser a opção daquelas pessoas que querem brincar o carnaval, mas de uma forma mais descompromissada. Para isto, no entanto, houve uma grande contribuição dos meios de comunicação. “Os blocos, na verdade, nunca deixaram de existir. Eles estavam é meio fora do foco da mídia. Em Madureira e outros bairros da zona norte, sempre foram fortes. O que houve é que com esse esgotamento das escolas de samba o número deles cresceu muito na zona sul e no centro, onde tudo o que acontece tem mais repercussão na mídia”, diz o historiador.

A divulgação maior acaba atraindo mais foliões aos blocos e propiciando o surgimento de outros, num processo de que Ferreira define como de realimentação. “O crescimento vem se dando em progressão geométrica: a cada ano aumenta mais o número de blocos e o de pessoas participando deles”, constata.

O historiador vê também semelhanças entre o atual estágio do carnaval carioca e o do período que vai do final do século 19 ao início do século 20. “Foi quando o carnaval do Rio se modelou, a partir da brincadeira das ruas, com os corsos e as grandes sociedades, diversão mais ligada à elite, e os zés-pereiras, blocos de sujo, os cordões e os ranchos, que eram as diversões mais populares”. Segundo Felipe Ferreira, o que hoje é chamado de carnaval de blocos de rua na época era considerado o “pequeno carnaval”, em oposição ao “grande carnaval”, o dos bailes e dos corsos.

Ele destaca ainda uma outra característica desta nova fase do carnaval de rua, que é a retomada do gosto pela fantasia, até há cerca de dez anos praticamente restritas aos desfiles oficiais das escolas de samba e blocos de enredo. “No carnaval de rua as pessoas brincavam vestidas com pouca roupa, saindo da praia, de sunga, biquini ou maiô, mas sem fantasia. Nos últimos anos, a gente percebe um retorno ao gosto pela brincadeira, por essa coisa maliciosa de virar um personagem e de fazer uma crítica social, ou simplesmente se enfeitar para ficar mais bonito”, observa.

A crítica irreverente sempre foi uma marca dos blocos de rua e, por esse motivo, o historiador vê de forma positiva a polêmica que ganhou espaço neste carnaval, envolvendo o bloco Que Merda É Essa, que desfila no domingo (6) no bairro de Ipanema, zona sul do Rio. Um grupo ligado ao movimento negro protestou contra o irreverente enredo do bloco, que satiriza a tentativa de censura à obra do escritor Monteiro Lobato por um suposto racismo. A camiseta do bloco, desenhada pelo cartunista Ziraldo, mostra Monteiro Lobato abraçado a uma mulata. “O carnaval é um momento de crítica, da sociedade se comentar e se ver refletida, mas tanto pode criticar como ser criticado”, diz. Para Ferreira, no entanto, os que protestam contra o bloco poderiam ser menos sisudos e levar a questão de forma mais lúdica, no espírito da festa. “Seria mais bacana eles fazerem um outro bloco criticando a crítica”.

Felipe Ferreira lembra que o espírito do carnaval está muito presente no jeito brasileiro de se relacionar com a vida e a sociedade. “Não é à toa que somos chamados de o país do carnaval”. Para ele, a festa se beneficia do atual momento vivido pelo país, de democracia e ampla liberdade de expressão. “Por outro lado, durante a época da ditadura, o carnaval sempre foi um espaço de resistência. Foi quando surgiu, por exemplo, a Banda de Ipanema”.

FONTE: Agência Brasil

quinta-feira, março 03, 2011

O veneno é a cara do agronegócio






Mais um 8 de março, mais um momento de dizer em alto e bom som: somos militantes, somos lutadoras, queremos Reforma Agrária e igualdade. O acúmulo de tantas lutas já deixa claro: o foco das ações é o enfrentamento ao agronegócio.

Neste 2011, os agrotóxicos ganham destaque. Um dos pilares do modelo de exploração capitalista da agricultura, os venenos são utilizados em larga escala em nosso país. Larguíssima: o Brasil tem o triste título de “campeão” no consumo desse tóxico.

As mulheres querem denunciar essa realidade, assim como denunciar a violência, que também pode ficar escondida por trás de belas fotografias ilusórias.

Confira a entrevista com Marisa de Fátima da Luz, assentada na região do Pontal do Paranapanema (SP), e integrante da Coordenação Nacional do MST.


Qual o tema principal da jornada este ano?

A jornada das companheiras é identificada a partir de alguns temas, vindos dos debates e das lutas. Fundamentalmente é a perspectiva de dar continuidade na luta ao enfrentamento do agronegócio no campo e para este ano com mais visibilidade à temática dos agrotóxicos. E também o debate da continuidade da formação das companheiras e a questão da violência contra a mulher. Esse é um tema que precisamos trabalhar no decorrer das jornadas do 8 de março. Mas fundamentalmente são ações de denúncia do agronegócio, especialmente dos malefícios dos agrotóxicos.

Em relação aos agrotóxicos, quais são os tipos de ações previstas?

Temos construído diferentes formas de lutas e atividades nos estados: desde lutas contra empresas produtoras como ações de denúncia para a sociedade. Faremos debates amplos sobre o tema, que aglutina a opinião do conjunto da sociedade, que pauta a soberania alimentar.

Que tipo de ações serão realizadas?

A partir do levantamento dos estados, a avaliação é que possamos construir a partir de experiências que os estados e o Setor de Gênero vêm acumulando. Então teremos lutas de enfrentamento direto contra as empresas.

A Jornada é construída com outros movimentos?

Sim, temos buscado consolidar o 8 de março como um espaço de construção conjunta. Para nós mulheres do MST é muito importante garantir que as atividades e lutas das mulheres sejam articuladas com a Via Campesina. É uma necessidade política, organizativa. Buscamos não só garantir a participação das companheiras de outros movimentos mas que elas efetivamente participem do planejamento e construção das ações. Essa é uma orientação nossa, garantir a luta de forma unitária.

Qual o recado que as mulheres camponesas têm a dar na questão dos agrotóxicos?

Para nós é uma necessidade fazer a denúncia do avanço do capital no campo. E a temática dos agrotóxicos deixa clara essa realidade. É um tema que dialoga com nossa realidade, e que também precisa ser colocado para o conjunto da sociedade, que afeta a todos. A produção em grande escala com venenos traz conseqüência para a vida das pessoas, seja no campo, seja na cidade. Temos necessidade de consolidar esse debate na cidade, que é um debate para a humanidade.

Dá para colocar a Reforma Agrária e a agricultura familiar como um contraponto à produção em larga escala, à base de venenos?

Esse tema coloca um desafio para nós. Enfrentar um modelo tecnológico e político da agricultura convencional hoje é muito difícil. Precisamos caminhar primeiro na resistência e também colocar a construção de outras alternativas para a agricultura camponesa, que possam avançar na perspectiva de uma produção agroecológica. É um desafio muito grande para toda a sociedade, porque a disputa é em torno do modelo de produção, o modelo da agricultura para o país.

A produção dos assentamentos, tendo condições de chegar até as cidades, poderia ser uma alternativa aos alimentos envenenados?

Temos buscado construir experiências que precisam estar presentes no conjunto da sociedade. Nossa forma de produzir precisa ser visível, precisa servir de exemplo. Não estamos só denunciando, temos propostas para contrapor o modelo de produção capitalista no campo.

O que está colocado em relação à violência contra a mulher?

Na sociedade em que a gente vive, a violência contra a mulher é escondida,
não é posta à vista. Há uma necessidade de trazer essa temática, construir um
debate interno nas organizações camponesas, no MST, e que nós mulheres possamos nos organizar. Há um diagnóstico que hoje, nos acampamentos e assentamentos, muitas mulheres sofrem inúmeras violências. E temos que colocar com muita seriedade esse debate, porque a questão da violência contra a mulher é uma questão de classe. Nesse sentido, precisamos construir espaços e ações para mostrar que precisamos nos ater a certas questões e situações que nos inquietam muito.

Essa situação não está presente só nas áreas de Reforma Agrária, mas no conjunto da classe, na área urbana. Sem debater a violência contra a mulher é difícil pensar uma sociedade nova, um homem e uma mulher nova. Isso não quer dizer que abandonamos a linha política central de enfrentamento ao capital no campo. Essa é nossa orientação geral, mas o tema da violência precisa ser considerado na realidade dos estados, que têm tentado construir suas formas de pautar o tema, seja em espaços de formação internos, seminários.

O que vem sendo feito junto aos companheiros em relação a essa temática?

Estamos buscando construir alguns espaços de debates, por ora mais entre mulheres. Claro que é um tema que precisa ser debatido por todos, e queremos caminhar nesse sentido. Por isso pautar agora, para deixar claro que existe esse problema, e que precisamos aprofundar esse olhar. Os estados têm a orientação de trabalhar essa temática, também junto a outras organizações, da cidade.

O que as mulheres e o MST acumularam com as lutas do 8 de março?

O fato de as mulheres desenvolverem experiências todo ano, na perspectiva de garantir uma unidade e a luta, já é um acúmulo político. Esse processo histórico já um fator positivo. Outro avanço é a percepção da necessidade de as mulheres se organizarem, construírem suas lutas. O que a gente observa nesse último período é que as mulheres têm buscado, a partir de uma análise da realidade e da questão agrária, o enfrentamento do modelo do capital no campo, que é um acúmulo dos 8 de março. Esse é um fator que vem acumular para a luta política do MST. Nós enquanto Movimento temos que nos reposicionar para enfrentar essas lutas.

Houve um avanço na formação política das mulheres, as companheiras estão participando de mais espaços de direção ao longo dos anos?

Esse processo é um acúmulo de experiências organizativas. A ampliação da participação das mulheres dentro do MST é reflexo de um acúmulo de experiências organizativas das mulheres, que foram sendo construídas ao longo de toda a história do Movimento.

Quais os desafios colocados para o Setor de Gênero e para as mulheres do MST?

Consolidar, reforçar, dar um caráter organizativo para as lutas das mulheres no MST. Essa é uma tarefa, e um desafio: construir espaços de participação, envolver as companheiras na efetivação do conjunto das lutas. Precisamos de mais experiências concretas de envolvimento das companheiras, de envolvimento orgânico, na base, nos setores, nas instâncias do Movimento. As companheiras precisam se considerar – e ser – parte do processo de construção. E dar continuidade à perspectiva de trabalhar na questão da formação política.

FONTE: Jornal Sem Terra

Torcedores do Flamengo comemoram aniversário de Zico no twitter

Nesta quinta-feira, o ex-jogador completa 58 anos









Os torcedores do Flamengo estão em festa. Isso por que neste dia 3 de março, Arthur Antunes Coimbra, mais conhecido como Zico comemora 58 anos de idade. Ídolo da torcida, o ex-jogador passou os melhores momentos de sua carreira na Gávea, onde conquistou o título da Libertadores e o Mundial de Clubes de 1981.


Já com a camisa da seleção brasileira, Zico esteve no elenco nas Copas do Mundo de 1982 e 1986.

Como treinador, Zico esteve à frente da seleção japonesa no Mundial da Alemanha de 2006 e depois passou para o Fenerbahçe, da Turquia, CSKA Moscou, da Rússia, Bunyodkor, do Uzbequistão e o Olympiacos, da Grécia.


Vale lembrar que entre junho e outubro de 2010, o ex-jogador esteve no cargo de Diretor Executivo do Flamengo.


No twitter, os torcedores não se esqueceram desta data especial e homenagearam Zico. A tag #parabenszico esteve desde cedo nos TTs do Brasil (assuntos mais comentados no momento) da rede social.


Confira algumas mensagens dos torcedores na internet:

@thaiisbraz Parabéns Zico, melhor jogador de futebol do mundo pra mim, orgulho do Flamego! #parabenszico

@alves_luciene Ao ídolo maior na Nação Rubro Negra... #parabenszico


@matheus_marlon lembrando que hoje é o dia que Messias chegou na terra! 3 de Março, aniversário de ArthurAntunesCoimbra! #parabenszico


@AllanBalardino Parabéns galinho de quintino.Obrigado por tantas glórias que vc ajudou o Mengão conquistar. MITO! #parabenszico

@alexbeatle Aniversário do galinho é Natal na minha casa. #parabenszico

@diogomc Feliz Natal a todos e #parabenszico. O único que pode fazer contratação equivocada na Gávea pq tem crédito infinito

@lucassaints Para mim o @Ziconarede é simplesmente o melhor de todos os tempos... Feliz aniversario! #parabenszico

@lebravo #parabenszico O ídolo que todos os times de futebol gostariam de ter.

@maurovieiralves Feliz Aniversário e muita saúde ao MAIOR DE TODOS OS TEMPOS.#parabenszico

FONTE:fanaticosporfutebol


terça-feira, março 01, 2011

Mais de uma década perdida

O crack começou a matar crianças há 18 anos, mas autoridades não agiram. E o número de dependentes pode chegar a 1,2 milhão



Há 18 anos, o crack começava a se alastrar de forma devastadora nas periferias dos grandes centros urbanos do País. Em 25 de maio de 1992, o jornal Folha de S.Paulo publicava a reportagem “Crack leva crianças e jovens à morte”, na qual mostrava que meninos de rua viciados traficavam, roubavam e acabam morrendo em confrontos com a polícia ou gangues rivais.

À semelhança dos guetos do Bronx – bairro novaiorquino –, São Mateus, área pobre do extremo leste de São Paulo, era naquele momento a face mais visível de um futuro trágico e assustador. Não se falava ainda na “cracolândia”, o hoje conhecido reduto de consumidores do crack no centro velho paulistano, nas proximidades da Estação da Luz, que choca e escandaliza a classe média.

Somente em São Mateus, num período de cinco meses – entre dezembro de 1991 e abril de 1992 -, 15 adolescentes já haviam morrido por causa do crack, segundo levantamento da Prefeitura de São Paulo e do Centro de Defesa da Criança, do bairro. As autoridades demoraram para agir, muito pouco ou quase nada foi feito. Não houve uma política pública capaz de evitar que, hoje, o Brasil alcançasse o posto de maior mercado de crack na América do Sul, com mais de 1,2 milhão de usuários e idade média de 13 anos para início do uso da droga. Esses dados foram apresentados pelo psiquiatra especializado em tratamento de dependentes de crack Pablo Roig, em audiência pública na Câmara dos Deputados, em 2010.

“As autoridades não se mobilizaram diante do crack, tanto do ponto de vista policial no combate ao tráfico quanto nas ações preventivas e no tratamento dos jovens consumidores”, constata o advogado Ariel de Castro Alves, vice-presidente da Comissão Nacional da Criança e do Adolescente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e presidente da Fundação Criança de São Bernardo do Campo. Quase 20 anos se passaram e o cenário parece igual. Nove em cada dez cidades brasileiras não têm nenhum programa municipal de combate ao crack. Oito, em cada dez, não têm sequer um Centro de Assistência Psicossocial (Caps) – serviços de saúde municipais implantados no Sistema Único de Saúde (SUS) e considerados a espinha dorsal da atual política nacional de enfrentamento ao crack.

O quadro desalentador foi explicitado em um recente estudo divulgado pela Confederação Nacional de Municípios (CNM), que abrangeu 3.950 cidades brasileiras (71% do total). A entidade avalia que o crack “tomou proporção de grave problema de saúde pública no país, envolvendo os diversos segmentos da sociedade”, de acordo com o estudo, e já atinge 98% das cidades brasileiras. “O que estava restrito inicialmente a um número reduzido de jovens pobres da periferia e do centro de São Paulo hoje tem efeitos catastróficos e devastadores, envolvendo adolescentes e jovens de áreas carentes e também da classe média”, afirma Ariel Alves.

A Fundação Casa, de São Paulo (antiga Febem), agrupa hoje cerca de sete mil internos, dos quais 37,5% por tráfico de drogas. Esse número representava 14% em 2006. “O que a gente nota hoje em dia é que existem muitos jovens envolvidos com o comércio de entorpecentes. Às vezes, o jovem é apenas um usuário ocasional e vê o tráfico de drogas como um meio de emprego. Isso é o que mais tem nos preocupado”, diz a presidente da entidade, Berenice Gianella.

Para Ariel Alves, as autoridades só passaram a se preocupar com o crack depois que a droga começou a atingir setores da classe média. “Enquanto atingia só as camadas mais pobres, não havia tanto interesse. Só nos últimos dois anos, depois de ouvirmos falar tanto da cracolândia e de jovens de setores mais privilegiados da sociedade também começarem a usá-lo, é que o problema despertou a atenção das autoridades”, denuncia. Na última campanha eleitoral, o crack foi tema de debates entre candidatos à presidência da República e aos governos estaduais. O governo federal anunciou, no ano passado, um pacote de medidas para combater o problema. “Mas isso já deveria ter sido feito na década de 1990. Agora, estamos colhendo os frutos dessa omissão”, sustenta Ariel.

Hoje, a situação é alarmante, principalmente em estados como São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina e Fortaleza, além do Rio de Janeiro, onde os próprios traficantes tentavam a impedir a entrada da droga no início, por avaliar que ela poderia diminuir o lucro obtido com a maconha e a cocaína. “Atualmente, os casos mais crônicos e graves envolvendo adolescentes em situação de criminalidade estão vinculados ao crack. O crescimento do tráfico faz aumentar as causas de internação de jovens infratores”, observa o representante da Comissão Nacional da Criança da OAB. “Os roubos lideravam majoritariamente os casos de internação. Agora, o tráfico, que representava 5%, chega aos 25% e praticamente empata com os roubos. Os adolescentes e jovens roubam para comprar a droga e também são assassinados em maior número por causa de dívidas com traficantes. Ainda por causa do crack, aumentam os casos de ameaças de morte, vindas do tráfico, e de exploração sexual infanto-juvenil. Meninas se prostituem para usar a droga.”

O tratamento de jovens dependentes

É evidente a propagação do crack nos grandes centros urbanos. Mas, hoje, não existem índices sobre apreensões da droga no país. Policiais apreendem diariamente toneladas de maconha e cocaína, mas nada de crack. Não se sabe por que esse não é o foco das autoridades policiais, tanto na atuação repressiva quanto investigativa. Quando são questionados, os responsáveis pela área de segurança não sabem dizer nada sobre o número de apreensões.

Berenice, a presidente da Fundação Casa, lembra que a droga entra de maneira abundante pelas fronteiras brasileiras e vê a necessidade de mudar essa realidade. “Hoje, além de uma atuação grande nas áreas de segurança pública e saúde, seria preciso também pensar em políticas de prevenção. Ou seja, uma política que vá além do tratamento, senão daqui a pouco teremos milhões de jovens envolvidos com drogas e milhões de recursos para a saúde e com uma eficácia pequena”, considera.

Os Centros de Atenção Psicossocial são um exemplo disso. Luciana Sayago França, psicóloga do Caps- AD (Álcool e Drogas) em Diadema, na Grande São Paulo, reconhece que muitas prefeituras correram para abrir esses centros, visando ao repasse de verbas do governo federal, mas com equipamentos sem estrutura adequada e com profissionais pouco qualificados. Somente a partir de 2002 esses centros – surgidos após a reforma psiquiátrica (que substituiu os antigos hospícios ou manicômios) – passaram a receber financiamento do Ministério da Saúde. Em 1990, havia apenas 12 Caps no país. Pularam para 1.541, segundo levantamento feito em junho do ano passado.

Há seis anos e meio no Caps, Luciana acumulou experiências e dificuldades no atendimento a jovens dependentes. Ela já sofreu agressões verbais, foi ameaçada de morte por uma usuária de crack e presa numa sala por um adolescente armado, que achou que ela o tivesse visto fumando maconha. Atuando diretamente no dia a dia dos pacientes, ela diz ser necessário impor a noção de limites. “Muitos reagem mal a isso.” Na avaliação de Luciana, os centros são adequados para alguns casos de dependência e abuso. “Não há um tratamento que sirva para todo o mundo. O melhor é aquele com o qual o paciente se identifica, pois o segredo de um bom resultado no tratamento é a aderência. Não existe tratamento a distancia ou por telepatia”, observa. A psicóloga defende o funcionamento do Caps durante 24 horas. Atualmente, o atendimento é dado das 8 horas às 17 horas. “Ninguém escolhe a hora que entra em crise. Mas é preciso tomar cuidado para não se tornar o atendimento meramente assistencialista. Em vez de oferecer um leito para se criar um vínculo terapêutico e trazer o paciente de fato para o tratamento, tudo pode se resumir apenas a uma relação utilitária.”

Atualmente, muitos pacientes faltam às consultas no Caps. A abstenção é alta. “Muitos pacientes não vêm por vontade própria. Logo, não ‘investem’ afetivamente no tratamento. Existe também aquela ambiguidade inicial de todo dependente. Eles amam e odeiam as drogas. Uns dias querem muito parar, em outros, não”, diz Luciana. As limitações apontadas são endossadas por Ariel de Castro Alves. “As ações nos últimos anos são positivas. Mas os Caps ainda não têm condição de dar uma resposta para aqueles casos mais crônicos de usuários de crack. É dado um bom atendimento para quem está iniciando no uso da droga. Mas tem situações em que não há como não internar”, analisa o advogado. “No máximo, o paciente fica em observação por 48 horas. Também há a necessidade de leitos para esse tipo de caso em todos os hospitais e prontos-socorros, mas isso não existe. As clínicas públicas de atendimento aos usuários são raras. A maioria é particular, e a quase totalidade dos usuários não tem a menor condição de pagar uma clínica dessas, que cobra em torno de R$ 4 mil ao mês”, constata Ariel.

A presidente da Fundação Criança cita exemplos como o de um garoto de 13 anos, de São Bernardo do Campo, que registrou, em um único ano, 25 entradas em um centro de ressocialização. “É uma prova dos efeitos devastadores do crack. O adolescente vai, tem um atendimento, mas depois volta para a droga”, lamenta Ariel. “Quando o jovem está na Fundação Casa, ele é levado para o atendimento no Caps. Quando sai, nós agendamos a primeira consulta. Mas depois, muitas vezes, ele desiste do tratamento por ‘n’ dificuldades. E não há a busca desse adolescente para voltar ao atendimento”, relata a presidente da entidade. “Quer dizer, se o adolescente tem problemas severos de envolvimento com drogas, ele não vai voltar para o Caps e vai se envolver com drogas novamente”, diz Berenice.

Requalificação dos serviços

O enfrentamento ao crack necessita de uma requalificação de todos os serviços na área social e de saúde, além de uma integração de todos esses serviços. Em busca desse objetivo, a Fundação Criança, de São Bernardo, iniciou, no ano passado, uma experiência chamada residência terapêutica – uma clínica de drogadição específica para crianças e adolescentes em situação de rua. Dez adolescentes, apontados como os casos mais graves, estão sendo atendidos. Outros, com menor envolvimento com a droga, são encaminhados para comunidades terapêuticas ou para os Caps.

“É uma experiência interessante e precisa ser ampliada”, acredita Ariel Alves. O advogado e militante da causa da infância busca ideias inovadoras no enfrentamento ao crack. Segundo ele, o discurso dos programas preventivos ainda é baseado nos efeitos e consequências apenas da maconha, heroína e cocaína. Esse repertório, ressalta, não foi atualizado. “Os setores envolvidos não sabem como tratar o crack preventivamente e sequer sabem o discurso a ser utilizado”, critica.

Outro problema apontado pela psicóloga Luciana França é a discriminação enfrentada pelos jovens dependentes. “Ainda hoje, há muito preconceito com relação à dependência, inclusive entre profissionais de saúde. Não é raro ouvirmos relatos de pacientes que sofreram maus-tratos no pronto-socorro quando chegaram lá com um quadro de intoxicação aguda ou crise de abstinência. É relativamente recente a ideia da dependência ser uma doença que requer cuidados médicos. A valoração moral/religiosa ainda se faz presente”, acentua.

O dado positivo é que soluções começam a ser pensadas. Para reverter o trágico quadro atual, a presidente da Fundação Casa propõe uma parceria com as escolas. “A escola pode ajudar muito na prevenção, porque um grande indicador do envolvimento com a criminalidade e com as drogas é a frequência à escola. Mais de 80% dos nossos jovens abandonaram os estudos”, aponta Berenice.

A presidente da República, Dilma Roussef, garante que o crack encabeça a lista de suas preocupações na área da infância e adolescência. Em setembro, durante a campanha eleitoral, a então candidata assumiu o compromisso, em reunião com os dirigentes do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), de não medir esforços no combate ao uso da droga, principalmente entre crianças, adolescentes e jovens. Dilma pediu aos especialistas e aos integrantes do conselho que pensassem em uma maneira de dar retaguarda ao trabalho dos Caps, buscando a internação dos adolescentes e jovens nas fases mais agudas de tratamento. O plano integrado de enfrentamento ao crack e a outras drogas, anunciado pelo governo federal, fala em ampliação dos leitos e clínicas, mas não se sabe se haverá, por exemplo, médicos psiquiatras suficientes para garantir o sucesso do projeto. Essa resposta é esperada pela sociedade, mas não mais em 20 anos.


A infância roubada pelas drogas

Assim que Cristiano (nome fictício) desceu as escadas de uma unidade da Fundação Casa, em São Paulo, logo se viu: em nada lembrava a imagem de um menino de 14 anos. Dentes quebrados pelo uso do crack, manchas numa pele já endurecida e um olhar tão profundo que calava qualquer resto de infância que pudesse haver ali.

Cristiano começou a usar drogas aos 10 anos. Provou a cocaína e depois foi direto para o crack. Chegava a fumar quatro pedras em um dia e, com isso, não demorou em começar a assaltar em busca de dinheiro. No dia em que foi pego pela polícia, estava em seu sexto assalto à mão armada.

Desde os 10 anos, diz, perdeu a conta de quantos assaltou realizou. Afirma que nunca matou, mas fala da morte como se fosse uma companheira íntima. Seu pai, também dependente químico e assaltante, foi morto quando o garoto tinha 6 anos. “Ele morreu na mão dos policial (sic). Eu vi quem matou, mas já mataram esse cara.”

Cristiano não falou nada ao ver seu pai alvejado na rua. “Fiquei quieto. Fui para casa e contei para a minha mãe.” O garoto cansou de ver assassinatos por causa de dívidas de cinco reais ou de roubos malsucedidos, além de pessoas mortas nas ruas pelos efeitos do crack. Perguntado se sentia medo, o menino sequer vacilou na resposta: “não, senhora.”

Cristiano abandou a escola na sexta série, ficou morando com a avó no interior do Rio Grande do Sul, enquanto a sua mãe veio para São Paulo tentar a vida. Desanimada com a dependência química do neto, a avó pediu para que a filha mandasse buscar Cristiano.

A tentativa de estancar as drogas foi em vão. Aos 13 anos, o garoto foi morar com a mãe em uma favela em Guarulhos e não demorou muito para conhecer o “patrão”, como é chamado o homem que comanda o tráfico no local. “Em qualquer lugar você acha droga”, diz.

Cristiano conta que o juiz disse que ele ficaria na Fundação Casa mais para ser afastado das drogas do que propriamente pelas contravenções cometidas. O menino já havia tentado tomar medicação em liberdade, mas parava poucos dias depois e voltava para o crack. “Eu ficava muito na rua, e os amigos chamavam e eu ia. Aqui fico trancado.” Há cinco meses sem fumar, Cristiano diz que, hoje, não tem mais vontade de usar o crack. “É só eu querer”, diz, pensando na liberdade.

O adolescente Vinícius (nome fictício), de 16 anos, também está na Fundação Casa e concorda que é preciso vontade para abandonar as drogas. Mas Vinícius, ao contrário de Cristiano, começou a fumar por curiosidade, como muitos, e resolveu experimentar o crack, tornando-se viciado por seis meses.

Tendo rapidamente percebido os efeitos da droga sobre o seu físico, ele mesmo pediu para ser internado em uma clínica. Sua família não teve recursos para colocá-lo na Fazenda da Esperança, em Guaratinguetá – onde imaginavam ser o local ideal –, e Vinícius foi para uma chácara religiosa em Caraguatatuba, próximo de onde morava com o pai. Foram quatro meses em tratamento.

Vinícius diz que a religião o livrou do crack. O mesmo não ocorreu com a cocaína, que ele voltou a procurar cinco meses após deixar a clínica religiosa. O jovem acabou sendo pego pela polícia, portando quatro papelotes de cocaína de dez gramas. Naquele dia, os traficantes fugiram, cada um para um lado, e Vinícius e mais dois colegas foram levados para uma delegacia, onde ficaram trancafiados como traficantes em um quadrado de um metro por um, durante uma noite. Após nove dias de delegacia, foram levados para a Fundação Casa, onde estão há seis meses.

O adolescente está prestes a sair da internação. Ele diz querer retomar os estudos – interrompidos na quinta série, aos 11 anos – e trabalhar no restaurante do pai, no litoral paulista, de onde algumas vezes pegou dinheiro para comprar drogas. “Meu pai falou que tem um curso de petróleo e gás em São Sebastião, de graça. Eu nunca dei ouvidos ao meu pai, mas agora vou fazer a vontade dele, e não a minha.”

Questionado se está confiante com a decisão, Vinícius diz: “É melhor. Preciso pensar em como será a minha vida lá fora. Aqui dentro é outro mundo. Não é nem mundo aqui. Não dá nem para ver o Sol. Droga não traz felicidade para ninguém. Eu precisei parar aqui para pensar nisso.”


ENTREVISTA

“A recaída é o grande desafio”

O médico psiquiatra Ronaldo Laranjeira, professor titular do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), é um crítico feroz da política antidrogas no País. Ele não acredita no Plano Integrado de Enfrentamento ao Crack e outras Drogas, do governo federal, e diz que os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) não estão preparados para atender os viciados em crack. “A recaída é o grande desafio. Não é um tratamento simples ou para amadores”, afirma. Confira, a seguir, os principais trechos dessa entrevista.

Fórum - O crack surgiu no Brasil no início dos anos 1990. De lá para cá, houve alguma política pública capaz de combater a disseminação da droga?

Ronaldo Laranjeira - Não. O crack virou uma pandemia e não é um fenômeno mundial. É um fenômeno bem brasileiro, porque os governos – especialmente o final do governo Fernando Henrique Cardoso e todo o governo Lula – ficaram só observando a evolução do crack, quer seja no Ministério da Saúde ou na Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad).

Fórum - Mas o senhor acha que as propostas do Plano Integrado de Enfrentamento ao Crack e outras Drogas não vão sair do papel ou elas não têm eficácia para tratar o problema?

Laranjeira - Não vão sair do papel e não atingem o cerne do problema. Recentemente vi um documento do doutor Pedro Gabriel Delgado (coordenador nacional de Saúde Mental do Ministério da Saúde) falando sobre a existência de não sei quantos consultórios de rua e de não sei quantos Caps. A própria Associação Brasileira de Psiquiatria está questionando esses números. Onde é que estão todas essas coisas? Eu não vejo.

Fórum - Por que o senhor discorda das propostas desse Plano Integrado?

Laranjeira - Algumas delas são incongruentes e inconsistentes. Eu absolutamente não acredito em consultórios de rua, um dos pilares desse programa. Se eu não tivesse dinheiro e meu filho estivesse na rua usando crack, gostaria que o Estado me protegesse e, primeiro, oferecesse internação, tirando o garoto da rua mesmo contra a sua vontade. Não se pode esquecer que um terço dos usuários de crack morre nos primeiros quatro ou cinco anos, e o consultório de rua fica oferecendo Band-aid, novalgina e pomadinha para os lábios queimados pelo crack. O cara está precisando de uma Unidade de Tratamento Intensivo (UTI).

Fórum - Que outras iniciativas desse Plano seriam ineficazes?

Laranjeira - Vai falar para o diretor clínico do Hospital Albert Einstein, que é o melhor de São Paulo, que ele vai receber seis ou dez usuários de crack. Ele vai dizer que não tem estrutura para cuidar deles, não tem enfermagem, quartos especiais e nem segurança para o seu pessoal. Se isso é válido para o Einstein, imagina para o Hospital de Itaquera ou para as Santas Casas. Eu não deixaria uma enfermeira minha cuidar de um usuário de crack a noite inteira sem estrutura para lidar com esse problema. Eles não querem aceitar o fato de que é preciso haver enfermarias especializadas para tratar a dependência química.

Fórum - Por que não? Falta entendimento, vontade ou dinheiro?

Laranjeira - O fato é que há mais de dez ou 12 anos as pessoas estão fazendo essa mesma política, e o problema só aumentou. Na área social, o discurso vigente tenta escamotear a realidade crua das ruas e dolorosa das famílias que têm dependentes químicos. Recebo cinco ou seis e-mails todos os dias, de famílias do Brasil inteiro, perguntando o que devem fazer com seus filhos que são dependentes do crack e não querem se tratar.

Fórum - E quantos usuários de crack são tratados nos Caps?

Laranjeira - O Ministério da Saúde não têm esse número, porque eles não sabem. O número é vergonhosamente baixo. Ligue para qualquer Caps de São Paulo e diga que você tem um filho usuário de crack que não quer ir para o tratamento. O Caps vai lhe falar: “Então, não é problema nosso.” E mesmo que o seu filho queira marcar uma consulta, eles marcam para depois de um mês. Um mês na vida de um usuário de crack é muita coisa. A probabilidade é que ele não vá à consulta, tenha uma recaída e continue usando o crack. E, mesmo que o cara vá à consulta, vai avaliar qual é a formação desses profissionais que lidam com o crack nos Caps. A grande maioria não tem formação para lidar com casos complexos. Esses centros não estão preparados para receber essa população, e a recaída no crack é o grande desafio. Não é um tratamento simples ou para amadores.

Fórum - Além das enfermarias especializadas, que outras iniciativas poderiam combater a disseminação do crack?

Laranjeira - A internação dá um período de estabilidade mental e psiquiátrica à pessoa. É o começo do tratamento. Também é importante haver um sistema de pós-internação, como as moradias assistidas, onde a pessoa possa ficar um período maior e reconstruir a vida, voltar a estudar e a trabalhar, não estando necessariamente internada, mas em um ambiente protegido. Isso porque, na maior parte das vezes, a família do usuário de crack está muito desgastada e não tem condições de recebê-lo de volta. Além disso, seria preciso criar uma parceria com os grupos de autoajuda, como os Narcóticos Anônimos. Hoje, quem mais atende os usuários de crack, em números, são os Narcóticos Anônimos e grupos como o Amor-Exigente. Eles atendem cem vezes mais que os Caps, sem nenhum custo, pois é um trabalho voluntário.

Fórum - Hoje, o Brasil é o maior mercado de usuários de cocaína na América do Sul. Como o senhor imagina que serão os próximos dez anos?

Laranjeira - O controle acaba ocorrendo não pelas políticas sociais, mas porque muita gente morre. Porém, acho que o número vai continuar alto e vamos seguir nessa epidemia de crack. Eventualmente, vão surgir outras drogas. Mas temos que dar um crédito para o novo governo, porque agora a Senad foi para o Ministério da Justiça [antes o órgão pertencia ao Gabinete de Segurança Institucional]. Não sei se isso vai mudar algo para melhor.
FONTE: REVISTA FÓRUM/Por Andréa Cordioli e Gilberto Nascimento

GENTILEZA, PRESENTE NO ANIVERSÁRIO DO RIO

Projeto recupera os 56 painéis de Gentileza pintados em pilares de viadutos da cidade



No dia de seu aniversário, em 1º de março, o Rio ganhará um presente que ficará à vista de todos: os 56 murais do Profeta Gentileza totalmente restaurados. A iniciativa é do movimento Rio com Gentileza, que nasceu em 1999, dentro da Universidade Federal Fluminense (UFF), mas acabou ultrapassando os muros da instituição. Uma equipe de dois restauradores e quatro pintores assistentes levou cerca de dez meses para recuperar a obra. A reforma, bancada pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), começou em maio do ano passado e custou R$ 357 mil.

Esta é a segunda restauração dos murais de Gentileza. A primeira foi iniciada em 1999 e concluída em maio de 2000. Segundo Leonardo Guelman, professor do Departamento de Artes da UFF e coordenador do Rio com Gentileza, desta vez os restauradores encontraram as pilastras do viaduto do Caju menos deterioradas. Em 1999, os pilares onde estão os escritos de Gentileza haviam sido cobertas por uma camada de cal.

- Desta vez, os painéis estavam deteriorados, mas quase não havia pichação. Os pichadores respeitam o trabalho do Gentileza. Os problemas eram o desgaste, a poluição, a corrosão. Então o nosso trabalho foi reavivar este livro urbano do Gentileza - diz Leonardo.

A restauração dos murais será entregue à cidade, com festa, no dia 1. A partir das 10h30m, haverá desfile dos blocos Céu na Terra e Mamãe Gentil. A recuperação dos escritos, feita através da Lei do ISS, da Secretaria municipal de Cultura, teve o apoio do consórcio Novo Rio/Socicam, que administra a rodoviária do Rio, vizinha aos murais, e da Subsecretaria de Patrimônio do município.

- É importante lembrar que o livro urbano do Gentileza está no limite da área portuária do Rio de Janeiro, onde acontecerá a maior transformação da cidade. Então a recuperação dessa obra do Gentileza se conjuga com esse movimento de valorização do Rio - diz Leonardo.

Gentileza, ou José Datrino, nasceu em Cafelândia, São Paulo, em 11 de abril de 1917, e morreu em Mirandópolis (SP), em 28 de maio de 1996. Trabalhava como pequeno empresário de transporte de cargas, mas depois do incêndio no Gran-Circus Norte Americano, em dezembro de 1961 - tragédia que matou cerca de 500 pessoas - decidiu abandonar o mundo material para se dedicar ao espiritual. Datrino, que mais tarde passaria a ser conhecido como Profeta Gentileza, passou a peregrinar pelas ruas do Rio com uma bata branca.

Os 56 murais do viaduto do Caju, que consagraram a frase "Gentileza gera gentileza", foram pintados na década de 80, ao longo de 1,5 quilômetro. Nos anos 90, Chegaram a ser apagados, fato que originou a canção "Gentileza", de Marisa Monte. Hoje, a obra é tombada pela prefeitura.

FONTE: O GLOBO

Entrevista com professor Oswaldo Coggiola sobre processo revucionário no mundo árabe

“Processos revolucionários no mundo árabe questionam regimes políticos e abalam conjunto das relações internacionais”, diz Coggiola


Leia abaixo entrevista concedida por Oswaldo Coggiola, professor do departamento de História da Universidade de São Paulo (USP) e 3º vice-presidente do ANDES-SN.

Primeiro foi a Tunísia. Depois, o Egito. Nós podemos dizer que há uma revolução em curso no mundo árabe?

Sim, e são processos revolucionários no sentido amplo da palavra, porque questionam os regimes políticos internos e porque abalam o conjunto das relações internacionais. Tunísia e Egito eram duas verdadeiras cleptocracias. No caso de Ben Ali, a fortuna de sua família, obviamente toda ela depositada no exterior, está calculada em U$S 18 bilhões, que é quase exatamente o valor da dívida externa do país. No caso do Egito é pior ainda. A fortuna da família Mubarak está calculada em US$ 70 bilhões. Essas fortunas são o preço que esses governantes cobraram para sustentar por tanto tempo esses regimes que agradavam ao ocidente. E, neste momento, há um esforço concentrado para preservar os regimes políticos, a despeito da saída dos governantes, para preservar, principalmente, a aliança entre o Egito e o Estado de Israel, porque assim se preserva o papel de polícia que Israel exerce na região, já que é o único país que possui arsenal atômico nesta região do planeta. O próprio exército que assumiu o Egito já declarou que a aliança com Israel será mantida. O principal líder da oposição, o prêmio Nobel da Paz, Muhammad Al-Baradai, também declarou, e com isso fundamentou sua candidatura, que estaria disposto a preservar o acordo com Israel.

Mas a população que tomou as ruas da Tunísia e do Egito queria apenas tirar os dirigentes ou queria também uma mudança de regime?

O que unificava a população era a luta pela saída de Ben Ali e Mubarak. Agora que eles caíram, começam a aparecer as contradições do momento. Alguns querem parar a revolução aí, e por enquanto esses são majoritários, e há setores em crescimento que pretendem ir mais longe, que querem não apenas tirar os ditadores do seus postos, mas também julgá-los e reaver o que eles roubaram. E também julgar seus regimes políticos. Este processo está bem mais adiantado na Tunísia, porque o governo que sucedeu Ben Ali conta com membros do seu próprio governo. Isso já provocou algumas reviravoltas políticas. Por exemplo, a central sindical tunisiana, a UGTT, havia designado três ministros para o governo de transição, mas a pressão das bases foi tamanha que eles tiveram que retirar esses ministros do governo, que era denunciado pelas bases como continuidade. Isso significa que se abriu uma luta política interna na revolução. É como o que ocorreu na Rússia de 1917. No primeiro momento, todos estavam unidos para derrubar o czar. Mas depois apareceu uma divisão no interior do movimento e houve uma luta política que todos sabem como acabou. E a comparação também para por aqui, porque na Rússia de 1917 se tinha, em primeiro lugar, uma guerra mundial.

E existe o risco de que as revoluções no mundo árabe acabem provocando uma nova guerra mundial?

Sim, porque a região é o centro nevrálgico do problema das relações internacionais. Israel detém armas atômicas e já declarou que pode usar essas armas contra o Irã. Israel pode, por exemplo, usar estas armas contra o Irã para condicionar o fim das revoluções nos países árabes. O Irã não é um país árabe, mas é um país muçulmano. Nos países árabes prevalece o islamismo sunita. Na Rússia de 1917 havia os chamados Sovietes, havia um grau elevado de organização popular, de organização operária, com independência. E no Egito e na Tunísia não está claro que isso está acontecendo. Nós sabemos que há organizações estudantis e operárias mas, daqui, de longe, é difícil avaliar o grau de desenvolvimento. Então, é uma situação que abala todas as relações internacionais e que vai se decidir através da luta política interna dentro desse processo revolucionário. Esse é o fator essencial, sendo que existem dois fatores que condicionam todo o processo de mobilização dos povos árabes: de um lado, a luta pela causa palestina contra o Estado de Israel, porque, se Israel mantiver seu papel de polícia com a ameaça atômica que ele representa, isso vai condicionar todos esses processos. Quer dizer, a pressão de Israel pode limitar esses processos. O segundo fator, diretamente vinculado ao primeiro, é a ameaça de Israel, e também dos Estados Unidos, contra o Irã, que é hoje o principal foco de tensão que pode vir a resultar em um conflito militar. Essas questões já existiam, claro, mas se colocam atualmente em um patamar diferente, porque elas se condicionavam à neutralidade dos países árabes e esta neutralidade pode deixar de ocorrer em função das mobilizações e dos processos revolucionários.

Nos processos revolucionários em curso, qual é o peso da questão econômica e também das lutas pelas liberdades individuais, questão de gênero, e questão religiosa?

Todo processo revolucionário abala todas as esferas da vida. Em primeiro lugar, esse processo revolucionário se enquadra dentro da crise capitalista mundial, que já tinha provocado algumas manifestações pelo mundo, em especial na Grécia, na Irlanda, na Espanha, e até greves na China. Mas sem desmerecer essas manifestações, o que está acontecendo nos países árabes é qualitativamente mais importante, porque não se trata apenas de mobilizações de resistência, mas de uma situação em que o povo tomou uma ofensiva contra os governos. O que ocorreu no Egito, na Tunísia, e que deverá ocorrer como efeito dominó na Argélia, significa uma ameaça a própria existência dos governos. O estopim das mobilizações foi a crise econômica mundial. Afinal, foi a necessidade que provocou a imolação por fogo de um jovem na Tunísia. Há desemprego em massa nesses países. Nos países árabes (Argélia, Tunísia, Mauritânia, Marrocos etc), a grande saída para o desemprego foi sempre a migração para a Europa. Só que, atualmente, na Europa não há mais emprego nenhum. Nem na economia informal, nem no mercado negro. Isso resultou na revolução. A questão econômica foi o estopim. Mas a partir do estopim, revelou-se as outras situações de opressão política, com as ditaduras, de corrupção, de todas as ordens, da discussão sobre o papel do exército na sociedade. Depois do de Israel, o exercito Egípcio é o que recebe mais subsídios dos Estados Unidos, US$ 1,5 bilhão. E também são questionadas as relações de gênero em países que historicamente destinam à mulher um papel secundário, a obrigam a usar determinado tipo de roupa, e o próprio papel da religião na sociedade, porque essa opressão sobre as mulheres, por exemplo, está prescrita na fundamentação religiosa. Nas imagens da revolução tunisiana, nós vemos mulheres vestidas à maneira islâmica, mas também com camisas, calças etc.. com véus, com roupas islâmicas, embora na Tunísia esse comportamento já fosse normal antes da revolução.

Agora, temos o representante dos EUA que quer que a Irmandade Muçulmana entre no governo, no processo de transição. Curiosamente, os EUA, depois de ter ameaçado o mundo com o fantasma do terrorismo islâmico, agora talvez se veja obrigado a entrar em acordo com os islâmicos para que eles próprios exerçam o papel de opressores na região. Não é apenas a religião islâmica, mas todas as religiões exercem o papel de freio nos processos revolucionários. Mas também temos em todos esses países, assim como temos uma Teologia da Libertação na América Latina, uma interpretação revolucionária do islamismo. Ou seja, o próprio islamismo, que já tem a vantagem de não ter um papa, uma autoridade superior reconhecida, e por isso, ser uma religião bem mais democrática do que a católica. Mas o próprio islamismo exercerá papel importante no campo de batalha. A Irmandade Muçulmana exerce papel bem moderado, mas há outras, e há também partidos de esquerda, porque esses países não entraram agora na história. Tem uma longa historia nas costas. Curiosamente, os partidos que estavam no poder na Tunísia e no Egito eram filiados à Internacional Socialista. E apenas no dia 18 de janeiro, quando a revolução já estava em andamento, quando Ben Ali já havia sido posto para fora do poder, é que a Internacional Socialista tomou a medida elementar de colocar o partido dele para fora. Somente quatro dias depois da queda do governo. E está acontecendo a mesma coisa com o partido democrático do Egito. E não há apenas um partido comunista nessa região, são vários. São países que não têm apenas tradição islâmica, como se costuma pensar, mas têm tradição laica, cultural, intelectual... no Egito temos Prêmio Nobel de Literatura...

Quais as relações entre essas revoluções e as lutas que os trabalhadores brasileiros irão enfrentar no período?

Em primeiro lugar é preciso chamar a atenção dos trabalhadores brasileiros sobre o que está acontecendo nos países árabes, porque a tradição internacionalista não é forte nesses países. É preciso chamar a atenção de que esses trabalhadores árabes estão lutando contra os mesmos opressores da América Latina: os EUA. Em segundo lugar, há dois elementos que devem ser levados em conta: o que está caindo nos países árabes não são simplesmente ditaduras, não são ditaduras militares como as que já ocorreram na América Latina. Mubarak e Ben Ali foram eleitos democraticamente com altos índices de aprovação popular. São regimes de forte teor nacionalista. No Egito, o nacionalismo nasce com Nasser que era muito mais radical, por exemplo, do que Chávez. Nasser nacionalizou toda a economia do Egito. Perto dele, Chávez é um amador, porque não nacionalizou grande coisa. E quando nacionalizou, pagou por isso. Nasser fez guerra. Chávez só ameaçou os EUA.

Então, os regimes nacionalistas de cunho personalista podem até começar muito radicalizados, como aconteceu também aqui na América Latina, mas quando derivam para uma ditadura caudilhista e não baseada na organização autônoma dos trabalhadores, mas no papel de um caudilho, acabam como o que aconteceu nos países árabes: ditaduras personalistas e corruptas. Aqui no Brasil, isso não chega a se repetir de maneira exata, mas é preciso estarmos atentos porque Lula tem o papel de uma figura carismática, embora não se perpetue no poder como os demais.

Em segundo lugar, é preciso perceber que a popularidade de um governo não é fator inabalável, contra o qual não se pode fazer nada. Dilma não é um fator inabalável. Na Tunísia também havia partidos de oposição. Entretanto, nas últimas eleições, Ben Ali ganhou com percentual superior ao de Lula, com mais de 95% dos votos. Mesmo que a população tenha votado em Ben Ali por falta de opção, por apatia, por medo... o que importa é que o quadro mudou. Isso significa que esses índices são muito relativos e podem mudar. As lições que tiramos de tudo para a América Latina, ressalvadas as devidas diferenças, são enormes, porque elas abalam todas as relações internacionais, das quais Brasil e América Latina estão inseridos. As características políticas são diferentes, mas não totalmente diferentes. Outro fator importante é que, apesar do processo de mobilização inicial da população, o que quebrou a espinha dorsal desses governos foram as greves. Primeiro, você tinha praças ocupadas. Mas depois, você tinha a economia inteira paralisada. Nesse momento, mesmo os setores do exercito e do EUA que continuavam apoiando os governos desistiram de apoiá-los. As greves abrangeram todas as categorias profissionais. Até médicos, engenheiros, todos pararam. O papel da greve foi decisivo e foi o que derrubou Mubarak. Na Tunísia também. Houve 40 dias de mobilização, mas no momento em que as greves se generalizaram, o próprio exército.

Fonte Andes-SN