Valoriza herói, todo sangue derramado afrotupy!

sábado, março 22, 2014

Abertura do I Encontro de Negras e Negros da CSP-Conlutas se transforma em ato de resistência ao racismo


Com o tradicional lema da África do Sul, “Amandlha, aweto”, ou “o poder é nosso”, encontro emociona




A abertura do I Encontro Nacional de Negras e Negros da CSP-Conlutas, realizada na noite de 21 de março, dia internacional de luta contra o racismo, tornou-se um grande ato de luta e homenagem ao povo negro, contra o racismo e a exploração. Além do combate ao racismo, a abertura do encontro que se estende por todo o domingo próximo, debateu as mobilizações durante a Copa sob o prisma da questão racial.
O ato que reuniu algo como 400 pessoas em seu auge reuniu dirigentes sindicais e do movimento negro, incluindo dois sul-africanos que participaram das mobilizações contra as injustiças da Copa em seus países. O sindicalista Hlokoza Motau e o estudante Thando Manzi compartilharam suas experiências e falaram sobre as diversas similaridades existentes entre a luta do povo sul-africano contra o racismo e o do povo negro no Brasil.
Thando iniciou a sua fala reproduzindo um grito tradicional durante os protestos na África do Sul. Ao grito de "amandlha", que significa "poder", todos respondem "aweto", ou "é nosso". Assim, aos gritos de "amandlha" e "aweto", "o poder é nosso", o estudante sul-africano iniciou sua fala relatando a situação de seu país que, 18 após o fim do apartheid, continua marcado pelo racismo. "Existe uma separação racial e até geográfica, com lugares só para negros e outros só para brancos, escola para brancos, restaurantes", disse. O estudante citou a composição de uma empresa aérea no país, no qual 85% dos pilotos são brancos e apenas 15% negros.
Para Thando, "Brasil e África do Sul tem muito em comum, como a desigualdade social e o racismo". O estudante destaca que o domínio das empresas multinacionais e as políticas neoliberais, tanto no Brasil como em seu país, reforçam o racismo, a exclusão social e o machismo. "Em meu país, as mulheres negras estão perdendo seus empregos, pois os principais locais em que trabalham, as pequenas fábricas, estão fechando porque agora tudo se importa da China", exemplifica. Ele citou ainda os altos índices de estupro e feminicídio, sobretudo de mulheres lésbicas.
Um outro paralelo que o sul-africano traçou entre Brasil e África do Sul, foi o quanto a Fifa ganhou com a Copa, enquanto serviços públicos como a educação sofriam com o descasço. "Enquanto o governo sul-africano encheu os bolsos da Fifa durante a Copa, as nossas escolas tinham um dos piores índices do mundo", relatou.
"Brasil, África, América Central/A luta do povo negro é internacional!"
Hlokoza Motau, sindicalista da NUMSA, começou seu discurso explicando o massacre de Shaperville, em 1969, no qual os negros se revoltaram contra o passaporte obrigatório na época para se ir de um lugar a outro dentro do próprio país. "Eu cresci sob esse sistema, nos faziam acreditar que éramos inferiores aos brancos e a ter medo deles", relata. "Mas Shaperville nos deu coragem para resistir, começamos a nos organizar para resistir á opressão", disse. "Começamos a levar a luta para as fábricas, transformamos as prisões em grandes centros de educação e formação política e os funerais em atos de formação política de massas", contou.

Motau contou ainda como a exploração e a opressão combinavam-se para aumentar os lucros dos grandes donos das minas. "Quem instituía esse passaporte eram os donos das minas, para poderem superexplorar os trabalhadores". Para o sindicalista, "o apartheid acabou, mas o sistema que o gerou continua existindo, se não esmagar o capitalismo, esse sistema opressor seguirá existindo". Hlokoza compartilhou a experiência do NUMSA, que convocou uma frente única contra o neoliberalismo e como se está organizando um "movimento pró-socialismo". "Não temos nenhum desejo de apoiar um partido da burguesia", disse, referindo-se nesse meio o CNA (Congresso Nacional Africano), que está hoje no poder. "Estou muito feliz por hoje, pois percebo que estamos trilhando o mesmo caminho", disse, sendo efusivamente aplaudido.
Racismo e a opressão à mulher
Vera Rosane, do Movimento Mulheres em Luta e do Quilombo Raça e Classe trouxe um depoimento e uma fala emocionantes, relatando a dupla opressão que atinge as mulheres negras. Ela lembrou do caso de Cláudia, morta e arrastada pela polícia do Rio no último dia 17. "Nós, mulheres negras, vivemos um requinte de crueldade do Estado", disse. "No império, existíamos para satisfazer e servir aos senhores, hoje continuamos no mesmo lugar", afirmou, colocando que 99% das empregadas domésticas são negras. No entanto, se há opressão, também há resistência, como demonstrou a greve dos garis, lembrada por Vera. "Quando a senzala se levanta, não fica pedra sobre pedra, como os companheiros garis mostraram", disse.

Wilson Silva, do Quilombo Raça e Classe também trouxe um depoimento emocionante. Ele relatou como a luta dos negros sul-africanos está intimamente relacionada com a dos negros no Brasil. "O primeiro ato público que fui na minha vida foi quando tinha 14 anos e ocorreu o massacre de Shaperville, e fomos na embaixada da África do Sul", relatou. Wilson comparou ainda o atual governo do país africano, encabeçado pelo CNA (o partido de Mandela) e a Cosatu, a principal central sindical, e o Brasil, com o governo do PT. Ambos tiveram suas histórias ligadas à luta da classe trabalhadora mas que hoje aplicam uma política econômica neoliberal.
O representante do Quilombo comparou ainda o massacre de Marikana que ocorreu em 2012 e vitimou 34 trabalhadores, e o massacre diário ocorrido contra os jovens negros da periferia. "Se o capitalismo mata, o neoliberalismo massacra", afirmou. "Mas junho bateu forte em negras e negros, que foram aos milhares às ruas", lembrou, reforçando que "infelizmente eles não estavam organizados e esse é o nosso objetivo aqui: oferecer uma alternativa de luta aos negros e negras desse país", disse, sendo muito aplaudido.
Após a abertura simbólica do I Encontro de Negras e Negros da CSP-Conlutas, o encontro em si continua no próximo domingo, dia 23. Mais de mil pessoas de todo o país já se inscreveram nesse que promete ser um importante momento na organização do movimento negro. Nesse dia 22 ocorre o Encontro “Na Copa Vai ter Luta” cujo objetivo é o de articular mobilizações durante os jogos do Mundial.
FONTE: OPINIÃO SOCIALISTA

Perseguido, Encontro "Na Copa Vai ter Luta" reúne 2,5 mil em São Paulo

Encontro reúne representantes de entidades sindicais e dos movimentos sociais e populares e estudantis

Bem que tentaram. Nos dias finais de preparação para o Encontro do Espaço Unidade de Ação, "Na Copa Vai ter Luta", que seria originalmente realizado na quadra da Mancha Verde, a polícia civil, a Federação Paulista de Futebol e uma série de autoridades passaram a pressionar a direção da escola para impedir a realização do evento. A revista Veja chegou a publicar uma nota afirmando que "PSTU, Black Blocs e a torcida da Mancha Verde" estariam preparando um encontro para praticar atos de vandalismo durante a Copa. Mas toda essa campanha de estigmatização e criminalização do evento não impediram que o encontro reunisse milhares de pessoas na quadra do Sindicato dos Metroviários de São Paulo.
Mesmo bastante apertados no espaço improvisado, os ativistas vindos de várias partes do país não desanimaram e discutiram as mobilizações que devem sacudir o país durante a realização dos jogos. Além das entidades que compõem o Espaço Unidade de Ação, como a CSP-Conlutas, a maioria da direção da Condsef, Feraesp (Federação dos Trabalhadores Assalariados Rurais do estado de São Paulo), corrente "CUT Pode Mais", o encontro contou com a participação de representantes dos garis do Rio, que protagonizaram uma heroica greve e de operários em greve do Comperj, a refinaria da Petrobrás em Itaboraí (RJ).
"Fizeram de tudo para que esse encontro não acontecesse, mas a nossa unidade superou a criminalização, a burguesia não quer a unidade da classe trabalhadora", afirmou Rejane Alves, da CUT Pode Mais. Gaúcha, Rejane falou sobre o processo de criminalização que atinge os ativistas de Porto Alegre e apontou a necessidade de se aprofundar a unidade e a independência da classe trabalhadora. "Havia antes dois caminhos: a destruição ou a cooptação; mas nós construímos um terceiro caminho, que é o da organização, autonomia e da luta", disse.
Sentimento de unidade que foi reafirmado por Antônio Bispo, da Feraesp. "Estou aqui para construir a unidade e um projeto que realmente liberte a classe", afirmou. Ele denunciou a farsa da reforma agrária do governo Dilma, que chamou de "migalha agrária". Já Sérgio Ronaldo, da Condsef, que reúne os sindicatos dos servidores federais dos estados, deu uma boa notícia à plenária. "A partir de agora não pode mais se referir à 'maioria da Condsef' ao se referir ao Espaço Unidade de Ação, mas à Condsef como um todo, pois aprovamos nossa incorporação no último Congresso".
Numa fala carregada de emoção, um representante dos garis do Rio, Célio, relatou os momentos de tensão durante a dura negociação com a patronal, quando descobriu a solidariedade massiva que cercava o movimento. "Foi ali, no prédio da Justiça do Trabalho, que descobrimos que a nossa luta não era só nossa, dos garis, mas de todos os movimentos sociais, eu não podia 'arregar' naquele momento", disse, denunciando ainda a repressão e o autoritarismo que se abateu contra os trabalhadores em greve. "Vivemos numa democracia disfarçada, que por trás se esconde uma verdadeira ditadura", afirmou. Após a fala dos garis, o plenária entoou "Gari/ Escuta/A sua luta é também a nossa luta".
Representantes da greve do Comperj relataram a verdadeira rebelião de base que tomou os canteiros de obras da refinaria em Itaboraí. "Queimamos o carro da CUT, porque ela não representa mais os trabalhadores, no outro dia mandaram motoqueiros armados que atiraram contra nós e atingiram dois companheiros", relatou um dos operários. "Essa greve não é só por 15% de aumento, mas para mostrar para Dilma que quem manda é a classe operária", afirmou.
A dirigente do PSOL, Luciana Genro, do Movimento de Esquerda Socialista (MES) tornou público ao plenário a decisão da corrente de se integrar à CSP-Conlutas e falou sobre o processo de reorganização e o impacto de junho. "As jornadas de junho, com seu levante popular e estudantil não foi qualquer coisa, foi a primeira vez na história que uma direção política não teve controle sobre um movimento social tão importante", contou. "Cabe a nós construir uma alternativa", defendeu.
José Maria de Almeida, o Zé Maria, presidente nacional do PSTU, falou sobre a perseguição que atingiu a organização do encontro. "Muitos vieram perguntar se o que aconteceu não foi um exagero deles, e eu digo não, companheiros", afirmou, relatando o crescente processo de criminalização das lutas e do aumento da exploração capitalista como forma de dar uma solução à crise aberta em 2008. Pré-candidato do PSTU à presidência, Zé Maria falou sobre o debate eleitoral e como toda a imprensa reduz as questões nesse debate, reforçando que "aqui estamos construindo um outro caminho, porque sabemos que a solução não está nas eleições, mas nas ruas". Zé Maria defendeu "a construção de um outro junho, se possível igual ou maior ao do ano passado.





Após o debate que contou também com a participação das entidades estudantis ANEL e o Juntos!, os participantes do encontro realizaram breve ato público que parou a Radial Leste por cerca de meia hora, reafirmando que "na Copa vai ter luta!".
FONTE: OPINIÃO SOCIALISTA

Filho de aposentado da Petrobras declarou renda de R$ 450 para burlar sistema de cotas na Uerj










·         Estudante de Medicina foi expulso, mas conseguiu na Justiça manter os créditos e terminar curso em outra instituição

·         MP investiga mais de 60 denúncias sobre sistema de cotas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, pioneira nessa política


Primeira universidade do estado e uma das pioneiras no país a instituir um sistema de cotas — no vestibular de 2003 —, a Uerj vê os desdobramentos de suspeitas de fraudes na concessão do benefício extrapolarem os muros da instituição. O capítulo mais recente está no Tribunal de Justiça do Rio: após ser expulso no ano passado, acusado de burlar a reserva de vagas no vestibular de 2009, Bruno de Barros Marques, de 29 anos, conseguiu em fevereiro um mandado de segurança determinando que a Uerj entregue toda a documentação relativa aos créditos já feitos. Quando foi expulso o ex-aluno se preparava para iniciar o 10º período de Medicina. Com a decisão, Bruno poderá cursar só os três períodos restantes em outra faculdade e exercer a profissão.

Além disso, o Ministério Público (MP) estadual investiga mais de 60 denúncias sobre o tema desde 2007, concentradas em um inquérito civil. Só no ano passado, o órgão pediu informações sobre 41 aprovados no concurso de 2013, para apurar eventual falsidade em autodeclarações, como de negros ou indígenas

No texto da decisão que beneficia Bruno, publicada em 27 de fevereiro, o relator, desembargador Pedro Saraiva de Andrade Lemos, da 10ª Câmara Cível do TJ, negou o pedido da defesa do aluno para que a universidade anulasse o processo administrativo que culminou com o seu jubilamento, mas considerou válida a apelação para que ele tenha direito aos créditos de todas as matérias já cursadas. A advogada do estudante Géssica Mendes Mendonça ainda tenta um novo recurso ao colegiado para que seu cliente possa voltar às salas de aula da Uerj. Géssica informou que nem ela nem Bruno dariam entrevista por enquanto, mas encaminhou os documentos da defesa que têm como base a lentidão da instituição em punir o rapaz: “Ora, se houve falha no procedimento de cotas isso deveria ter sido apurado tão logo o aluno tivesse ingressado na faculdade, não fazendo qualquer sentido, depois de quatro anos e meio de ensino, simplesmente jogar no lixo todo o esforço dispendido” (sic).

Mas a polêmica em torno do caso de Bruno começou em agosto de 2009, com o envio à reitoria da Uerj de um e-mail de um ex-colega do rapaz, que cursara Veterinária com ele em 2006 na Universidade Federal Rural do Rio (UFRRJ): “Queria entender como o candidato marca ser negro na inscrição se só em olhar para ele já se constata que isso não é verdade. Sem falar que uma investigação a fundo pode revelar outras coisas, como residência e renda mensal. 

Se o Brasil fosse um país sério, casos assim no mínimo teriam suas inscrições anuladas”.

A partir daí, uma comissão de sindicância começou a analisar o caso. O principal problema detectado foi o fato de Bruno ter declarado uma renda mensal de R$ 450, desprezando, por exemplo, os ganhos do pai, funcionário aposentado da Petrobras, dono de uma loja de material hidráulico e elétrico na Tijuca. O limite à época para estar apto a cotas era de R$ 960 per capita. Curiosamente, os R$ 450 declarados eram do salário que o estudante informou receber como funcionário do estabelecimento do pai, onde dizia trabalhar nos fins de semana. Ao se inscrever no vestibular, o rapaz declarou morar numa república em Seropédica, pagando aluguel de R$ 120 mensais. Mas, já cursando Medicina, ao preencher o formulário da bolsa de apoio a alunos carentes, ele forneceu um endereço na Tijuca.

Após visita à loja dos pais e depoimentos do próprio Bruno e do ex-colega que denunciou o caso, a comissão concluiu que o estudante teria praticado a fraude da carência econômica fundamentalmente por não declarar a renda de seus genitores. Outro ponto levantado foi sua autodeclaração como negro, sem aparentar a raça. Segundo relatório feito pela equipe da Uerj que analisou o caso, ele alegou que “a avó paterna era morena escura ou negra clara”. Então, desde o fim de 2010, o estudante vem lutando na Justiça contra a Uerj, alegando não ter tido direito à ampla defesa na investigação interna. Num primeiro processo, perdeu em diversas instâncias. Mas em outro, conseguiu o mandado de segurança que, ao menos até agora, dá a ele o direito dos créditos já cursados.

“Dizer a um paciente que um médico não poderá atendê-lo porque, apesar de ter sido aceito no vestibular e ter cursado a faculdade com notas altas, foi constatado que o mesmo não era tão pobre quanto supostamente alegou parece uma situação dotada de irrazoabilidade”, disse a defesa de Bruno à Justiça.

Enquanto a Uerj ainda decidia pela exclusão do estudante, recebeu por e-mail uma nova denúncia, no início de 2011: “É um absurdo ele ter tirado a vaga de uma pessoa que realmente precisa. E o pior é ter que ouvir que utiliza a bolsa para botar gasolina no carro. Foi da minha turma no Curso pH e de carente não tem nada”. Na sindicância, Bruno relatou ter se formado no ensino médio no Colégio Palas, na Tijuca, em 2002, e afirmou ter usado apostilas do pH para se preparar para os vestibulares. Também negou ter automóvel próprio.

A decisão que determina a concessão dos créditos ao aluno excluído divide opiniões. Para a presidente da Comissão de Ensino Jurídico da OAB-RJ, Ana Luísa Palmisciano, punir o estudante com a perda do que já cursou seria aplicar uma dupla penalidade:

— Na doutrina e na jurisprudência, a teoria do fato consumado é aceita. E acho que o argumento vem sendo aceito porque seria um desperdício com a sociedade. E poderia violar o princípio da razoabilidade, que deve ser seguido pela administração pública. Não vejo como apagar o que já existiu.

Educafro critica decisão
Já o diretor-presidente da ONG Educafro, frei David dos Santos, que luta pela inclusão de afrodescendentes, considera absurda a decisão da Justiça:

— Quer dizer que se a pessoa rouba nove de 12 sacos de feijão, ela pode levar os nove para casa e fica tudo certo? Se preciso, vamos entrar com uma representação contra o desembargador que deu essa decisão.

As suspeitas de fraudes na Uerj foram noticiadas com exclusividade pelo GLOBO em janeiro. À época, o reitor Ricardo Vieiralves afirmou que havia um caso de expulsão: o de um jovem da Zona Sul, aluno do primeiro ano de Medicina, que teria usado a renda da doméstica para se enquadrar no critério de carência econômica. Depois disso, Vieiralves foi insistentemente procurado, mas não falou mais sobre o assunto, deixando em dúvida se, além do caso de Bruno, há outra expulsão, já que as características são completamente diferentes.

Apesar do grande volume de denúncias que vem chegando ao MP, constam nos autos do inquérito que concentra os casos que a Uerj instaurou apenas sete sindicâncias para investigar 16 alunos ou candidatos, todos de Medicina. Dessas, somente duas não foram arquivadas. Além da de Bruno, há outro processo, da filha de um delegado da Polícia Civil. Este inquérito corre em segredo de Justiça.

Ainda segundo o inquérito do MP, uma das linhas de investigação é verificar se houve eventual ato de improbidade de servidores públicos que integram os setores de recepção e avaliação de documentos e de apuração de fraudes. O MP recebeu relatório das atividades desenvolvidas pela Comissão de Análise Socioeconômica da Uerj, ali constando, por exemplo, “o pífio número de 17 visitas domiciliares ao longo dos anos de 2010 e 2011”.

Reserva é de 45% das vagas
A lei mais recente em vigor a respeito de cotas na Uerj, de 2008, estabelece três tipos de reserva na universidade: 20% para os estudantes negros e indígenas; 20% para os oriundos da rede pública de ensino; e 5% para pessoas com deficiência e para filhos de policiais civis, militares, bombeiros militares e de inspetores de segurança e administração penitenciária, mortos ou incapacitados em razão do serviço. Em todos os casos o estudante precisa provar carência econômica: atualmente, renda mensal per capita de até R$ 1.017.

Há duas comissões no vestibular da Uerj responsáveis pela análise dos candidatos aptos: a de Análise Socioeconômica e a de Análise de Opção de Cotas. A primeira, por exemplo, é composta por três pessoas, mas na época de vestibular são contratadas 28 assistentes sociais para análise dos documentos, segundo depoimentos que constam no MP. Para a comprovação de carência, é preciso encaminhar documentos como cópia do Imposto de Renda e de comprovantes de residência. Alunos de escola pública precisam encaminhar os documentos do colégio. Para quem quer se declarar indígena ou negro, basta preencher e assinar uma autodeclaração atestando ciência das punições previstas em Código Penal caso haja falsidade.

Caso as comissões indefiram o pedido, cabe recurso ao Departamento de Seleção Acadêmica (Dsea). Em 2010 e 2011, por exemplo, relatórios do Dsea apontaram 9.724 indeferimentos de cotas depois de análise das documentações (4.414 em 2010 e 5.310 em 2011). Após os recursos apresentados por candidatos neste biênio, o número caiu para 9.211 (4.066 em 2010 e 5.145 em 2011).

FONTE: O GLOBO

Atentos e fortes










Ex-craque e sempre militante, Afonsinho pede vigor e intensidade contra preconceito em campo e declara:'Não dá mais para pôr panos quentes'


"Um momento, que doutor Afonso vai atender." Doutor Afonso não atendeu de prima. Foi só na quarta ligação que ele se despiu do clínico geral para retomar o Afonsinho, engajado ex-craque do time do Botafogo. Ainda assim, demorou um pouco para entrar no jogo. "Aqui é fogo na roupa", disse, expirando longamente ao telefone.
Afonsinho está com 66 anos. Aposentou-se no ano passado, mas dá expediente três vezes por semana na Unidade de Saúde Manoel Arthur Villaboim, em Paquetá, RJ. Diagnostica gripe, hipertensão, diabete, erisipela e tem fôlego para outras mazelas da vida. O racismo, por exemplo, entrou em seu protocolo depois que três episódios praticamente seguidos enfeiaram os gramados do Brasil. Os insultos aos jogadores Tinga e Arouca e ao árbitro Márcio Chagas da Silva o levaram a concluir o seguinte: "Não dá para pôr panos quentes".
Afonsinho se injuriou na quinta-feira com a pena branda dada ao Esportivo, que não perderá pontos nem será expulso do Campeonato Gaúcho, mesmo depois de o juiz anotar na súmula o que ouviu da arquibancada: "Volta para a selva, seu negro macaco, ladrão, safado, imundo. Temos que matar todos, seus negros sujos". O clube terá de desembolsar R$ 30 mil. Para esse crítico contumaz do neoliberalismo, dinheiro não compra tudo. "Tem que punir o preconceito com o maior vigor possível e com muita intensidade."
Quando jogador, Afonso Celso Garcia Reis conseguiu sua liberdade na Justiça. Foi um dos pioneiros do passe livre, e por esse motivo sentiu olhos tortos na sua direção, inclusive dos colegas de campo. A barba de matusalém também lhe fechou espaços entre as quatro linhas. Acabou por ser exilado no time do Olaria, período durante o qual terminou a faculdade de medicina. O meia-direita ainda atuaria no Flamengo, Santos, Vasco, América-MG e Fluminense. Sempre gostou de fazer política, mas se sentiu aliviado quando perdeu para deputado, na época da Constituinte. Acha que a bandeira do racismo pode ser uma para o Bom Senso Futebol Clube, "porque tem de lutar no profissional e no social". Por isso ele participa de projetos no único campo de Paquetá, no qual reúne a garotada e os veteranos em torno do esporte que nasceu para agregar, não para discriminar.
A seguir, a entrevista desse pai de cinco filhos e avô de cinco netos. "Mas vai desempatar daqui a um mês", avisa. Com filho ou com neto? "Poxa, agora você me deu uma moral legal." 

Você ficou surpreso com os últimos casos de racismo nos campos de futebol do País?
Afonsinho - O que chama a atenção é a frequência. Ela se acelerou. Mais que isso, ela se associou a outras manifestações de raiz semelhante. Aqui no Rio, outro dia, amarraram um camarada, um ladrão, no Aterro. Eu não sou de sofrer de véspera, mas acho que essas manifestações têm uma ligação e isso é muito preocupante, sim.

O brasileiro estaria perdendo o pudor de se mostrar racista?
Afonsinho - Não acho que esteja perdendo o pudor. Acho que isso faz parte de um conjunto de expressões. A gente também pode juntar a isso as brigas entre torcidas. Veja que o ano terminou de uma maneira horrorosa. E tudo é diretamente proporcional à baixa qualidade técnica do futebol. Quando o espetáculo é bom, isso não acontece. Eu me lembro dos melhores tempos do Flamengo, quando o time ganhou em Tóquio. A gente brincava que o chefe da torcida do Flamengo e todos os outros torcedores do time tinham ido estudar em Londres. Era um cavalheirismo, uma tranquilidade…

Diante do que aconteceu com o juiz Márcio Chagas da Silva, em Bento Gonçalves, o jogador Luís Fabiano teria questionado se era racismo de verdade ou se aquilo ‘era mera provocação’.
Afonsinho - Isso aí não procede. Existem resíduos, é racismo, sim. Não dá para pôr panos quentes. O esporte é um ambiente de lazer, de recreação, mas isso não permite que você o desassocie da questão social. É um espaço de expressão. Eu acho muito ruim a postura do Luís Fabiano. Procurar escapar, ficar fora… Acho muito ruim para ele mesmo como negro. E uma autonegação. Como disse o Tinga, "a gente fica fingindo que todos são iguais".

O racismo em campo já foi muito pior?
Afonsinho - Não faz tanto tempo assim, existiam clubes só de negros e só de brancos no Brasil. Então eu acho que já foi pior, mesmo porque os recursos dos tempos modernos trazem mais informação e numa velocidade maior. E isso é um problema de esclarecimento, de conhecimento.

Como se pune o racismo?
Afonsinho - Com o maior vigor possível e com muita intensidade.

Você aprova que se fechem estádios, que os clubes percam pontos, que sejam expulsos de campeonatos?
Afonsinho - Sem dúvida, sem dúvida, é isso que chamo de ação vigorosa, que ainda não acontece, mas um dia pode acontecer. É rigor intenso, mas com zero ódio. Me preocupa a extensão. Propagar muito isso, e de qualquer maneira, estimula um exibicionismo. Acho que é mais correto como fez o juiz: ele fotografou a agressão, reagiu, se defendeu, aprofundou da melhor maneira, sem ficar com lamentação. Tem essas duas dimensões: tratar vigorosamente e não dar corda.

Acredita que o Bom Senso Futebol Clube poderia incorporar essa bandeira?
Afonsinho - Vi uma declaração do Alex a propósito de outra questão e achei interessante a resposta. Ele disse que o Bom Senso precisa ter firmeza nas bandeiras já propostas. Não querem perder a direção, não querem deixar diluir, enfraquecer. Eles estão atuando de perto e precisam ver que propostas têm condições de sustentar. Mas acho que o racismo é uma bandeira do mais alto significado, ainda mais no esporte, que consegue misturar a sociedade e é um ambiente de liberação.

O que é ter bom senso no futebol hoje?
Afonsinho - Eu acho que bom senso no futebol é mostrar como se situar nas questões não só profissionais, mas sociais. Bom senso também é o grupo encabeçado pela Ana Moser, a ONG Atletas pela Cidadania, que lutou pela limitação dos mandatos de presidentes e dirigentes a, no máximo, quatro anos. Conseguiu até mudança de estatuto no Comitê Olímpico Brasileiro. Penso que este é o caminho: juntar forças para conquistar direitos. Bom senso é praticar política de todas as formas.

Continua praticando política?
Afonsinho - Sim, embora eu não seja um político formal. Sempre procuro discutir, participar, dentro do meu perfil. Cheguei até a ser candidato na Constituinte por causa do movimento que a gente fez entre os esportistas. Mas, das encrencas em que eu me meti, essa foi uma das que mais me desgastaram pessoalmente.

Quando jogava, você foi vítima de preconceito por causa da barba e do cabelo compridos.
Afonsinho - Em relação ao cabelo e à barba, tive um confronto direto com os dirigentes, que alegaram isso para me proibir de treinar num primeiro momento e depois até de pegar material para o treino. No entanto, tive mais problemas com as reações dos próprios colegas por começar a jogar com passe livre. Na África, havia negros que vendiam negros. À medida que a gente vai abrindo os olhos, é uma coisa semelhante. Essa coisa do passe tem um paralelo muito forte com a escravidão, com o respeito.

Hoje o jogador tem de fato o passe livre?
Afonsinho - Tem uma porção de vínculos dissimulados. O jogador hoje é escravo do empresário? Pode ser, mas a comparação é impossível com a época do passe preso. Quando atinge um determinado nível, o atleta pode se libertar. O Romário largou o empresário pra lá, o Ronaldão fez o mesmo depois. Agora, esse negócio de um grupo de empresários ser mais forte que um clube é uma falta de vergonha na cara dos dirigentes. Pelo menos parece que chegamos ao fundo do poço, quer dizer, os clubes estão começando a deixar de ser reféns.

Você acha que os técnicos têm se preocupado com o lado social do futebol?
Afonsinho - Um ou outro pode ter essa preocupação, mas não é prioridade dele. O técnico é uma figura destacada na estrutura, mas o que ele significa nos clubes hoje é uma grande mentira. Parece que é um gênio, um superpoderoso. Dá palpite, fala das finanças do clube, do mercado. É uma piada. Técnico não é isso. Técnico é para cuidar do time, e olhe lá.

Romário disse durante a semana que podemos até ganhar a Copa dentro de campo, mas a Copa fora do campo a gente já perdeu. Ele se referia ao alto custo das obras e a suposto enriquecimento ilícito. Concorda?
Afonsinho - As notícias dos últimos dias não são boas. Aeroporto não sei de onde não vai ficar pronto, tal obra também não... O futebol é algo que o brasileiro adora, o envolvimento é muito grande. É um sonho receber amigos na sua casa para uma festa, esse é o sentido maior. Mas estamos promovendo uma Copa num dos períodos mais vergonhosos da sociedade humana. As premissas do neoliberalismo submetendo todas as inter-relações são vergonhosas. É o lucro acima de qualquer coisa. Em nome do quê marcar uma partida de futebol num horário criminoso? Em nome do quê você vai submeter as pessoas a isso?

Faremos uma Copa pela Paz e uma Copa contra o Racismo, como reafirmou a presidente Dilma na quinta-feira, no evento em solidariedade às vítimas de atos racistas?
Afonsinho - Não sei bem, não consigo avaliar essa extensão. Vivemos um momento de descontentamento. Quanto mais formos justos, melhor. A liberdade é filha da justiça.

Você já foi chamado por Pelé, quando ele saía do Santos, de o único homem livre do Brasil. Sente-se assim, totalmente liberto?
Afonsinho - Totalmente livre, eu não me sinto, não. O jovem pensa assim e taí fazendo manifestação, indo pra rua. Mas, à medida que a gente envelhece… Outro dia eu estava vendo uma entrevista do presidente do Uruguai e me identifiquei um pouco quando o repórter mencionou que ele foi um tupamaro, um radical, e tal e tal. Aí o Mujica falou com toda a sinceridade: "Sim, eu fui, mas, quando você vai ampliando seus horizontes, vê que as coisas são muito mais complexas". Eu busco a liberdade e o equilíbrio o tempo todo, mas vivo em sociedade, com todos esses problemas que a gente está discutindo. De qualquer forma, em qualquer tempo, e o tempo todo, é preciso estar atento e forte, como diz o verso da canção.


FONTE: Mônica Manir - O Estado de S. Paulo

quarta-feira, março 19, 2014

Os negros levantam a voz















Vítimas de racismo se encorajam a denunciar atitudes de discriminação. A última sentença condenou um supermercado a pagar 20.000 reais a um cliente que foi chamado de “negrinho ladrão”

Cauã era apenas um bebê quando seu tio Robson deu uma passada no supermercado, na frente do seu trabalho, para aproveitar a oferta de um litro de leite longa vida a um real. Comprou duas caixas, ajeitou o avental da lanchonete onde trabalhava e atravessou a rua para voltar à cozinha. Mas os gritos que se ouviram às suas costas o detiveram. Entre a gritaria, três palavras se repetiram: “negrinho”, “ladrão” e “safado”.

Duas funcionárias seguraram Robson pelo braço e o acusaram de roubar o leite. Ele mostrou o comprovante de compra e elas se desculparam. Mas a supervisora do estabelecimento, uma loja da rede Walmart, em Carapicuíba, na Grande São Paulo, colocou a cereja do bolo nesse tumulto: “Desculpa, te confundimos com um outro negrinho ladrão”. Robson tremia no meio do estacionamento, quase às lágrimas.

Acostumado a ser seguido pelos corredores das lojas que frequenta, o jovem negro decidiu não apresentar boletim de ocorrência sobre o assunto. Mas, um veterano advogado da região que o conhecia de vista o convenceu a entrar na Justiça.

Passados cinco anos, quando Cauã já é capaz de segurar nos braços sua irmã mais nova - e com Robson, aos 26 anos, se acostumando ao apelido de “negrinho do leite”, dado pelos vizinhos -, um juiz condenou a multinacional americana a pagar 20.000 reais ao seu cliente. A sentença considera os danos morais sofridos pela atitude ilícita e discriminatória das funcionárias. Robson, segundo o Tribunal de Justiça de São Paulo, “sofreu humilhação pública” e foi “motivo de escárnio” pela cor da sua pele.

Com o dinheiro que reste depois de bancar as despesas do processo, Robson quer terminar de construir o barraco de tijolo que levantou no que era um campo de futebol enlameado.

O caso do Walmart, que já tinha sido condenada em 2009 por um outro caso de racismo contra uma cliente negra acusada de ladra, foi o último a se tornar publico. Mas, uma sequência de episódios parecidos marcaram os últimos meses, num país onde quase 51% da população se declara negra ou parda.

“Há uma crescente demanda de ações trabalhistas, embora ainda tímida, com pedidos de indenização por danos morais. Há trabalhadores demitidos ou que foram obrigados a se demitir diante do racismo no ambiente de trabalho”, diz Maria Aparecida Vargas, diretora de Secretaria da 64 Vara do Trabalho de São Paulo, que acompanhou o caso de Robson. “Algumas vezes os empregados sofrem apelidos pejorativos por parte de colegas ou do próprio superior, como também são preteridos nas promoções em detrimento de um colega não mais competente que ele, mas de cor branca”, completa

Polícia despreparada
Quando Robson estava mais calmo, depois de ser abordado no supermercado e acusado de ladrão, ligou para a polícia. “Demoraram mais de uma hora em chegar, quando a loja estava quase fechando”, explica Robson. “Ao invés de falar comigo, forma direto falar com a supervisora e depois pediram meu RG, mas para ver meus antecedentes!”, reclama.

As pessoas envolvidas nos processos contra racismo ouvidas por este jornal concordam com o despreparo da polícia na hora de lidar com uma ocorrência sobre a discriminação de um cidadão. “As autoridades policiais não estão devidamente qualificadas para receber este tipo de denúncia, o que já intimida o agredido a comparecer perante uma delegacia de polícia”, lamenta Maria Aparecida Vargas a Diretora de Secretaria da 64 Vara do Trabalho de São Paulo, que levou o caso de Robson.

“Você vê que desde a polícia, passando pelo próprio negro agredido até o segurança estão despreparados. Um dos maiores Estados do país não está preparado para a questão racial”, critica Karina Chiaretti. “Ao chegar na delegacia me convidaram a ir embora porque a senhora já tinha quatro processos e não tinham dado em nada. O policial não sabe que isso é racismo. Eles não sabem lidar com a situação. O agente que tinha que levar a senhora para a delegacia acabou levando ela para casa”.

Carmen Dora, presidente da Comissão Racial da Ordem de Advogados do Brasil em São Paulo, também acredita que as denúncias estão aumentando. “Tentamos fazer uma estatística porque recebemos muitas reclamações, mas não há dados oficiais e ainda não conseguimos concluí-la. Parece que é um assunto que não interessa. Todos, inclusive a imprensa, temos que ser mais incisivos para acabar com o falso discurso de que o Brasil não é um país racista”, disse.

Em fevereiro, a condenação de uma idosa a pagar 28.000 reais por chamar três clientes de um shopping de “negros imundos” e “macacos” marcou um precedente porque a juíza ordenou o ingresso imediato da réu à prisão. A legislação prevê punição severa contra este tipo de crime, qualificando-o como hediondo e inafiançável, e o agressor preso em flagrante não tem direito ao pagamento de fiança. Mas o fato da acusada ter 72 anos poderia ter atenuado a pena. O advogado da idosa finalmente conseguiu o habeas corpus para sua cliente, mas uma das vítimas, a corretora Karina Chiaretti, afirma que não vai parar até ver a mulher atrás das grades. “Eu só acredito que este episódio vai servir para alguma coisa quando essa pessoa for presa. Enquanto não tiver ninguém que pare essas atitudes, elas vão continuar acontecendo”, disse Chiaretti.

A mesma perseverança demonstrou o casal branco, Priscila Celeste e Ronald Munk, ao denunciarem, no ano passado, o funcionário de uma concessionária da BMW no Rio de Janeiro, que mandou seu filho negro, de sete anos, sair da loja. O casal, para preservar ao menor, decidiu não apresentar boletim de ocorrência, mas sua história ganhou tal repercussão que a própria Secretaria do Estado de Assistência Social e Direitos Humanos levou o caso à Justiça. Perderam por falta de provas, mas o casal se tornou ativista pelo respeito à diversidade racial.

“Chega uma hora em que você não vai mais a um lugar porque as pessoas não param de olha para seu filho, porque não pode deixá-lo sozinho, porque sabe que vai ser parado pensando que está roubando. Tem que ouvir no clube que ele não é sócio, senão filho de funcionário...”, explicou a mãe, em entrevista por telefone. O pequeno, adotado pela família de classe media alta, é, segundo a mãe, o único negro da escola, da piscina, do clube, das festas de aniversário... “Hoje sei que não ir à delegacia foi um erro. Eu que se não denunciar, estou protegendo o agressor. Mas, na época era ignorante, não conhecia a lei”, conta Celeste.

Para ela, como para os outros protagonistas de discriminação, “a coragem de contar vem da vontade de mudar as coisas” e porque a percepção de seu filho é muito maior do que eles pensavam. O pequeno, lembra a mãe, lhe disse um dia: “Mãe, eu queria tirar essa pele e colocar uma da cor de vocês”.

Esta semana em uma emotiva entrevista, o árbitro Márcio Chagas da Silva contou à TV que foi chamado de “macaco selvagem” durante uma partida entre Esportivo e Veranópolis, times do Rio do Grande do Sul. Ele encontrou a lataria do seu carro amassada e coberta de bananas quando foi buscá-lo no estacionamento. Era a segunda vez que o xingavam em um jogo por ser negro e, por segunda vez, o divulgou. “Tenho que mostrar a meu filho a importância que eu, como pai, tive ao denunciar uma prática que acontece seguidamente no Brasil”, disse Chagas da Silva, à Globo News. O procurador Alberto Franco levará o Esportivo ao Tribunal de Justiça Desportiva por discriminação racista.

FONTE: BRASIL EL PAÍS / MARÍA MARTÍN

Um “saco” com quatro filhos











A morte de uma mulher no Rio, após ser vítima de uma troca de tiros e ser arrastada por uma viatura policial, mostra como a vida continua perdendo valor no Brasil

A morte de Cláudia Silva Ferreira, uma auxiliar de limpeza de 38 anos, vítima de bala perdida e cujo corpo ainda foi arrastado durante 250 metros por uma viatura da Polícia Militar, rebaixou mais um pouco a cotação de uma vida no Brasil.

Seria mais uma morte por um projétil sem rumo, cotidianas trajetórias fatais nas quais a responsabilidade do Estado ainda não foi definida, mas o episódio não acabou no alto do morro da Congonha, em Madureira, no norte do Rio de Janeiro.

Três policiais do 9º BPM (Rocha Miranda), que participaram de uma troca de tiros com supostos criminosos na favela, pegaram a mulher, ferida à bala no pescoço e nas costas, e a jogaram no porta-malas –e não no banco traseiro– de uma viatura. A intenção seria a de socorrê-la, pois o relatório da polícia afirma que a vítima ainda estava viva. Porém, essa prática tem sido questionada infinitas vezes pela quantidade de irregularidades e imprudências que podem ser cometidas dentro de um camburão –o Estado de São Paulo já proibiu em janeiro do ano passado que policiais socorram feridos a tiros.

Desta vez, não deu certo. Um motorista, que com aparente temor de ser surpreendido escondia o celular entre as pernas toda vez que podia ser visto pelos agentes, gravou parte do percurso de Cláudia até o Hospital Carlos Chagas. A gravação, publicada pelo site do jornal Extra, mostra o porta-malas da viatura aberto e o corpo de Cláudia pendurado pelas roupas, enquanto era arrastado ao ritmo da ultrapassagem apressada do veículo policial.

As primeiras informações indicam que vários pedestres e motoristas alertaram aos policiais que arrastavam o corpo de uma mulher, mas foi só em um semáforo que os agentes desceram e carregaram de novo no carro um corpo, agora, em carne viva.

Cláudia Silva, mãe de quarto filhos e responsável pelos cuidados de outros quatros sobrinhos, chegou morta no hospital. Sua filha Thaís Silva, de 18 anos, foi a primeira a encontrá-la sem vida. “Eles arrastaram minha mãe como se fosse um saco e a jogaram para dentro do camburão como um animal”, gritou aos choros a jovem à imprensa. Alexandre Fernandes da Silva, de 41 anos, marido de Cláudia há 20 anos, também disse abalado que arrastaram o corpo da sua mulher como se ela fosse um saco. “A perna dela ficou toda em carne viva. Não podiam ter feito isso com ela”.

A irmã de Cláudia, Jussara Silva Ferreira, de 39 anos, ficou revoltada ao ver o vídeo do traslado da irmã. “Acham que quem mora na comunidade é bandido. Tratam a gente como se fôssemos uma carne descartável. Isso não vai ficar impune. Esses PMs precisam responder pelo que fizeram”, afirmou ao jornal Extra.

Três policias foram detidos pelo episódio. “Eles estão presos em flagrante criminalmente e vão responder por causa da condução do corpo, que não é para ser feita daquele jeito. Vi irregularidades, sim”, afirmou ao Extra o comandante do 9º BPM, tenente-coronel Wagner Moretzsohn.

Em nota, a PM justificou que este tipo de conduta não condiz com um dos “principais valores da corporação, que é a preservação da vida e dignidade humana”.

O corpo de Cláudia, velado por mais de duzentas pessoas, foi sepultado, na tarde desta segunda-feira. O enterro foi seguido de um protesto dos moradores da comunidade contra a violência policial. A polícia não deu informações sobre a origem da bala que matou Cláudia quando ia comprar pão.

FONTE: Brasil El País

MARIDO DE MULHER MORTA PELA PM VAI PROCESSAR ESTADO












Alexandre Fernandes da Silva disse que a esposa, a auxiliar de serviços gerais Cláudia Ferreira da Silva, foi atingida quando saiu para comprar pão, e não em troca de tiros, como disse a polícia do Rio; "Vivemos à mercê dos fora da lei e da polícia, que deveria nos proteger", disse, durante o velório; depois de atingir Cláudia com três tiros, PMs tentaram prestar socorro colocando-a no porta-malas da viatura, mas ela caiu no caminho e chegou morta no hospital

Durante o velório da auxiliar de serviços gerais Cláudia Ferreira da Silva, hoje (17), no Cemitério de Irajá, na zona norte do Rio, o marido dela informou que pretende processar o Estado e negou que ela tenha sido morta em troca de tiros, como justificou a polícia. Alexandre Fernandes da Silva disse que a esposa foi atingida quando saiu para comprar pão. Ela foi baleada ontem (16), em operação da Polícia Militar (PM) no Morro da Congonha, em Madureira, zona norte do Rio, e teve o corpo arrastado durante o socorro prestado em uma viatura policial, chegando morta ao hospital, segundo a Secretaria Estadual da Saúde.

Cláudia foi atingida por dois tiros durante a operação e foi colocada pelos policiais no porta-malas de um carro do 9º Batalhão da PM, em Rocha Miranda, para ser socorrida, segundo alegaram. No transporte, a porta traseira abriu e a auxiliar de serviços gerais ficou presa do lado de fora do veículo, sendo arrastada. Os policiais disseram que estavam levando a vítima para o Hospital Carlos Chagas. A mulher tinha quatro filhos e ainda cuidava de quatro sobrinhos. Ela completaria 20 anos de casamento no dia 18 de setembro.
"Chegaram atirando nela. De frente para ela. Não foi troca de tiro. Eles deram um tiro nela, no peito e outro no pescoço. Eles passaram no meio do tumulto, viram alguma coisa e chegaram atirando", revelou Alexandre, acrescentando que a mulher saiu de casa para comprar pão e mortadela e tinha na mão apenas três notas de R$ 2 e um copo de café. "Vivemos à mercê dos fora da lei e da polícia, que deveria nos proteger. A polícia entra [na comunidade] e não quer saber quem é trabalhador", completou.
Revoltado pela mulher ter sido classificada no boletim de ocorrência policial como traficante, o marido apontava a quantidade de colegas presentes no velório trazendo solidariedade à família. "Está chegando mais um ônibus da Nova Rio [empresa em que a esposa trabalhava] para a traficante, que saía todo dia 5h30 da manhã quando pegava [o serviço] às 7h. Depois saía às 4h20, quando passou a pegar às 6h. A traficante que eles botaram quatro revólveres em cima e arrastaram que nem um bicho", contou.
Alexandre disse que, se a polícia tivesse deixado Cláudia no local para esperar o trabalho da perícia, a revolta seria menor. Ele não viu o vídeo em que o corpo da mulher aparece sendo arrastado pelo carro da PM. "Eu prefiro não ver e vou pedir os meus filhos para não ver, porque vai ser revoltante", explicou.
A cunhada da vítima, Valéria Rodrigues, disse que toda a família está sofrendo, e defendeu a apuração do que ocorreu. "Uma coisa muito triste que fizeram com ela, e a gente tem que correr atrás e pedir justiça para provar que ela era trabalhadora, com carteira assinada e contracheque, tudo direitinho", contou.
Os colegas de trabalho também estavam indignados. "Ela é mãe de família e trabalhava com a gente. Eles botaram ela dentro do carro dizendo que era bandida. A gente não tem nem palavra [para explicar como era Cláudia]. Muito maneira, maneira mesmo. A gente tem que botar o caso para frente e ajudar a família dela", disse a auxiliar de serviços gerais Lúcia Helena Sacramento. Outro colega, Rodney Conceição de Oliveira, criticou a polícia. "Eu trabalhava diretamente com ela. Revolta [a todos] porque a polícia está para proteger as pessoas e acontece isso", desabafou.
Após o enterro, moradores do Morro da Congonha voltaram protestar na principal via do bairro, interrompendo as duas pistas da Avenida Edgard Romero portando uma faixa preta e pedindo justiça pela morte da auxiliar de serviços gerais. Com pouco mais de meia hora, uma das vias foi liberada e um reboque retirou a carcaça de um ônibus incendiado em manifestação que os moradores fizeram ontem.
Duas horas depois, a polícia interditou o trânsito nas duas pistas. Em outro acesso do Morro da Congonha, os manifestantes atearam fogo a pedaços de madeira e lixeiras. A fumaça pôde ser vista à distância. Moradores da localidade querem a apuração do caso que provocou a prisão dos três policiais militares que conduziam a mulher e a abertura de um inquérito policial militar.
FONTE: Brasil247 / colaborou Lígia Souto, repórter das Rádios EBC

terça-feira, março 18, 2014

Escolas federais são a solução para a educação no Brasil








É do conhecimento de todos que a educação no Brasil está entre aquelas com pior qualidade no mundo e, provavelmente, é a mais desigual entre todas. Avaliação feita pela Unesco coloca o Brasil em 88º lugar entre 127 países, atrás do Chile, e até mesmo do Equador e da Bolívia.
Na avaliação Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), feita pela OCDE (Organização de Cooperação para o Desenvolvimento Econômico), entre 65 nações o Brasil está em 58º lugar, atrás de Cazaquistão, México e Costa Rica.
Esses indicadores mostram a média de cada país e incluem tanto os alunos das escolas pobres quanto os das escolas caras. Se houvesse uma avaliação de como a educação se distribui entre filhos de ricos e filhos de pobres, o Brasil seria, sem dúvida, o campeão mundial de desigualdade.

DEFASAGEM

Na avaliação Pisa, entre 65 nações o Brasil está em 58º lugar, atrás de Cazaquistão, México e Costa Rica
O desafio brasileiro é elevar a qualidade média da educação, permitindo ao filho da mais pobre família brasileira estudar em escola tão boa quanto a dos filhos dos mais ricos. Isso não será possível com a educação sob a responsabilidade das prefeituras.
Nenhum Estado ou município poderá oferecer educação de qualidade em todas as suas escolas. Só a federalização da educação básica será capaz de espalhar essa escola e a carreira profissional por todo o território brasileiro.
No livro, "Educação é a Solução: É possível?", defendo a revolução na educação em virtude do compromisso com as crianças e o futuro do país. Basta o governo federal espalhar escolas federais por todo o território nacional e assegurar escola com a máxima qualidade para as nossas crianças - independentemente da renda da família e da cidade onde mora -, por meio de seis medidas concretas:
  1.  Ampliação das atuais 451 escolas públicas federais para 156.164 no país, seguindo o modelo das melhores escolas, tais como Colégio Pedro II, Escolas Técnicas, Colégios Militares e Institutos de Aplicação, todas em horário integral e contando com edificações de qualidade e equipamentos modernos;
  2. Transformação das atuais 5.601 carreiras de professores municipais e estaduais em uma única carreira nacional de Estado, consolidando a carreira nacional do magistério;
  3. Pagamento de salário mínimo de R$ 9 mil por mês para os professores do novo sistema de educação;
  4. Criação de um ministério da Educação de Base;
  5. Implantação de um novo sistema por cidade que deseje federalizar todas as suas escolas.
  6. Definição de prazo de, no máximo, 20 anos para substituir as atuais escolas por escolas decentes, bem equipadas e em prédios novos, compatíveis com as novas demandas
Operacionalização
No livro, mostro que é possível implantar o novo sistema de educação federal, a cada ano, em 300 pequenas cidades médias, atendendo cerca de 3 milhões de alunos, em 9.500 escolas, com 100 mil novos professores. Em 20 anos, a federalização estaria completa.
Talvez antes, em decorrência da pressão popular. Todos vão querer uma educação de qualidade, com escolas atraentes, pois a educação de qualidade não deve ficar limitada apenas aos 257 mil alunos das atuais escolas federais da educação de base, mas deve chegar a todas as crianças e jovens em idade escolar.
FEDERALIZAÇÃO DO ENSINO
Nenhum Estado ou município poderá oferecer educação de qualidade em todas as suas escolas

A federalização da educação de base é uma medida atrativa também para prefeitos e governadores e, no livro, mostro que ela traz economia de R$ 200 bilhões para prefeituras e Estados.
A federalização da educação de base traz também uma economia de cerca R$ 57 bilhões de reais para as famílias de classe média com filhos em escolas particulares.
Quando todas as escolas da educação de base públicas forem federais, o custo total do novo sistema será da ordem de R$ 463 bilhões por ano, apenas 6,4% do PIB brasileiro, previsto para 20 anos. Bem menos do que os 10% que o PNE (Plano Nacional de Educação) determinará depois de aprovado.
FONTE: Cristovam Buarque / Especial para o UOL