Valoriza herói, todo sangue derramado afrotupy!

quinta-feira, fevereiro 14, 2013

Seminário e lançamento da campanha salarial 2013 marcam calendário de luta dos servidores









Os servidores públicos federais já prepararam seu calendário de mobilizações para o próximo período. Entre as principais atividades está o lançamento da campanha salarial e o Seminário sobre Negociação Coletiva e o Direito de Greve.

A campanha salarial será lançada no dia 20 de fevereiro. Os servidores irão realizar um ato político em frente ao MPOG (Ministério de Planejamento, Orçamento e Gestão) cujo objetivo será cobrar uma audiência com os gestores do ministério para exigir o início das negociações sobre a pauta de reivindicações – protocolada em janeiro.

Um dia antes do lançamento da campanha, 19 de fevereiro, haverá o Seminário sobre Negociação Coletiva e Direito de Greve voltado para todas as esferas do funcionalismo.

Pela manhã, o evento contará com apresentação de painel sobre Negociação Coletiva. Os convidados são representantes do DIEESE, DIAP e AGU. À tarde, o seminário discute o Direito de Greve com apresentação de painel das Centrais Sindicais. A CSP-Conlutas comporá a mesa junto com outras entidades. Em ambas as mesas de debates, haverá espaço para o plenário expressar suas opiniões sobre os respectivos temas. O Seminário será realizado no auditório Nereu Ramos na Câmara dos Deputados.

Para o membro da Secretaria Executiva Nacional da CSP-Conlutas Paulo Barela, o seminário servirá para preparar os trabalhadores contra os ataques que o governo Dilma pretende disparar às conquistas dos servidores públicos. “Vamos dar subsídios para que os servidores entendam o que está por vir e de como combater as ameaças de retirar direitos”, disse.

Segundo Barela, o seminário irá também contribuir para que nesta campanha salarial os servidores entendam o que vão defender e quem irão enfrentar. “O governo quer retirar o direito de greve e temos que fazer pressão contra isso. Diferente da CUT, CTB, Força Sindical e outras centrais, a CSP-Conlutas  compreende que não há correlação de forças na conjuntura e no Congresso Nacional para disputar um projeto de regulamentação de greve que favoreça os servidores. Esse é o terreno deles, o nosso é nas ruas, na mobilização e nas greves”, explicou.

Por isso, o dirigente reiterou a importância de se organizar uma campanha forte em defesa do direito de greve. “Precisamos debater o que isso representa, pois só podemos nos defender entendendo a fundo o que representa mais esse ataque. Também vamos mostrar aos governantes, no lançamento da Campanha, a força dos servidores  e de nossa unidade”, salientou.

Para Barela é importante que os trabalhadores dos demais setores também se unam à luta dos servidores contra esse e demais ataques. “A Marcha em Brasília no dia 24 de abril cumprirá esse papel. Somos contra o ACE e queremos a revogação da reforma da previdência de 2003, aprovada com o voto dos mensaleiros.Vamos todos levantar nossas bandeiras em comum e lutar juntos”, finalizou.

Um folder eletrônico com detalhes do Seminário e do lançamento da Campanha Salarial será elaborado e amplamente divulgado nos sites e redes sociais.

FONTE: CSP-CONLUTAS

Atrás do trio elétrico… o trabalho infantil







O carnaval de Salvador mobiliza anualmente 2 milhões de pessoas, sendo 600 mil turistas, segundo dados da Secretaria de Turismo da Bahia (Setur). A demanda por mão de obra é expressiva e as atividades vão de ocupações gerenciais ao trabalho informal. Cerca de 93 mil pessoas trabalham durante os festejos, conforme levantamento realizado em 2010 pela Secretaria de Cultura. Destes, 17% trabalham com comércio ambulante. Há jornalistas, cordeiros, profissionais de saúde e seguranças; e há crianças e adolescentes sendo explorados também.

O trabalho é irregular para cerca de 60% dos trabalhadores dessa época. Uma parcela considerável da mão de obra do carnaval é jovem, sendo 19,4% entre a faixa etária de 10 a 24 anos. A pesquisa mostra ainda que o perfil majoritário é masculino, de cor negra, acima de 25 anos e não migrante.

A preocupação com o trabalho infantil durante a maior festa popular do país motiva ações de diversas entidades desde pelo menos 1995. Uma dessas ações é o projeto Blitz Social, da Secretaria Municipal do Trabalho, Assistência Social e Direitos do Cidadão (Setad) de Salvador. Em 2011, a Blitz cadastrou 312 crianças e adolescentes que estavam trabalhando nos circuitos de carnaval na cidade.

Já em 2012, o número subiu para 521. Isso, entretanto, não significa necessariamente um aumento da incidência de trabalho infantil durante essa época do ano. Como não há uma clara sistematização e acompanhamento desses dados, eles podem ser interpretados como resultado de uma ampliação dos programas, que estariam alcançando mais crianças e adolescentes. 

Combate

“O carnaval é um momento de trabalho”, afirmou a ministra da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH-PR) Maria do Rosário, que participou da cerimônia de lançamento da campanha “Solte a Voz no Carnaval”, em Salvador (BA). Com foco no combate à violência sexual e ao trabalho infantil, a iniciativa é desenvolvida em conjunto com entidades estaduais e municipais da Bahia.


Uma das intenções da mobilização é unir as ações realizadas por diversas organizações e criar um observatório que acompanhe os dados de trabalho infantil e exploração sexual durante a festa. Para a secretária de Desenvolvimento Social e Combate à Pobreza do Estado da Bahia, Mara Moraes de Carvalho, a iniciativa deve integrar autoridades, sociedade e famílias. “A campanha tem dois eixos: o preventivo e protetivo, integrando ações de conscientização e acolhimento para aqueles que precisam trabalhar no carnaval, como os ambulantes, e as crianças encontradas em estado de violação de direitos”, explica.

No caso da Bahia, a campanha enfrenta um desafio maior. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad), em 2011 o estado registrou, na semana do levantamento, 363 mil pessoas na faixa etária dos 5 aos 17 anos exercendo algum tipo de trabalho (clique aqui para verinfográfico sobre a incidência de trabalho infantil nas diferentes regiões do Brasil). “A Bahia ainda é, da região Nordeste, o estado que tem os piores índices de trabalho infantil e registro de crianças em situação de risco. Muitas vezes a criança deixa de estudar para trabalhar e compor a renda familiar. Essa cultura ainda é muito forte aqui no Nordeste”, diz a promotora do Ministério Público do Estado da Bahia, Eliana Bloisi.

A criança como sujeito da festa

Na avenida, dentre os tantos blocos que fazem o carnaval de Salvador, está o tradicional bloco afro Ilê Aiyê, que atua na valorização da cultura afro na cidade e promove atividades de inclusão social. Participam crianças que saíram da situação de trabalho infantil para desenvolver atividades socioculturais no próprio carnaval. “Já trabalhei de vendedor de cerveja e de várias outras coisas com minha mãe, meu pai e minha irmã. Depois que entrei para o Ilê, eu nunca mais trabalhei no carnaval. O trabalho da criança tinha de acabar, elas tinham de ter uma oportunidade valiosa”, diz um dos integrantes, de 11 anos. “Eu achava o trabalho valioso, porque, se não trabalhar, não come”.

FONTE: REPORTER BRASIL / Ana Maria Amorim e Lucas Ribeiro Prado





Adolescente é resgatada de prostíbulo em Belo Monte



Menina de 16 anos foge de boate
onde polícia encontrou  15 mulheres
em situação de cárcere privado e
regime de escravidão. Caso pode
ser caracterizado ainda  como
tráfico de pessoas*
A Polícia Civil de Altamira, no Pará, encontrou 14 mulheres e uma travesti em regime de escravidão e cárcere privado em um prostíbulo localizado em área limítrofe de um dos canteiros de obras da hidrelétrica de Belo Monte. A operação foi realizada na noite desta quarta-feira, 13, após denúncia de uma garota de 16 anos, que conseguiu fugir. A adolescente procurou a conselheira do Conselho Tutelar, Lucenilda Lima, que acionou a polícia.
De acordo com o delegado Rodrigo Spessato, que comandou a operação, as mulheres, de idade entre 18 e 20 anos – além da jovem de 16, todas provenientes dos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul – eram confinadas em pequenos quartos sem janelas e ventilação, com apenas uma cama de casal, e havia cadeados do lado de fora das portas. Em depoimentos ao delegado, as vítimas afirmaram que podiam ir à cidade de Altamira uma vez por semana, por uma hora, mas eram vigiadas pelos funcionários da boate.
Além da situação de cárcere privado, a polícia encontrou no local um caderno onde eram anotadas as dívidas das meninas, como gastos com passagens, alimentos e vestimentas, além de “multas” por motivos diversos.
Ameaça de morte
Após a ação, a policia civil resgatou, além da adolescente, quatro  meninas e uma travesti. Segundo Lucenilda, do Conselho Tutelar, as demais disseram ter muito medo de retaliações, uma vez que o dono da boate teria ameaçado seus familiares que moram no Sul. Em entrevista à reportagem, uma das jovens resgatadas contou que, assim que a adolescente de 16 anos conseguiu fugir, o gerente a seguiu com uma arma.
“Já de cara fizemos uma dívida de R$ 13 mil por conta das passagens [valor cobrado do grupo]. Aí temos que comprar roupas, cada vestido é quase R$ 200, e tudo fica anotado no caderninho pra gente ir pagando a dívida. E tem também a multa, qualquer coisa que a gente faz leva multa, que também fica anotada no caderno. Depois de cada cliente, a gente dava o dinheiro para o dono da boate pra pagar as nossas dívidas, eu nunca ganhei nenhum dinheiro para mim”, explica a garota.“Ele saiu atrás dela armado e disse que não custava matar uma, que ninguém ficaria sabendo”, afirma a garota, que tem 18 anos. Procedente de Joaçaba, no interior de Santa Catarina, ela conta que lá trabalhava em uma boate cuja cafetina era “sócia” do dono da boate no Pará. “Viemos em nove lá de Joaçaba. Falaram para a gente que seria muito bom trabalhar em Belo Monte, que a gente ganharia até R$ 14 mil por mês, mas quando chegamos não era nada disso”, conta.
“De comida, tinha almoço e janta. Se você estava trabalhando na hora do almoço, tinha que esperar a janta. Se desse muita fome, a gente tinha que comprar um lanche. O gerente da boate dizia que a gente só poderia sair depois de pagar todas as dívidas, e que nem adiantava reclamar porque ninguém ia nos ajudar, ele era amigo da justiça e nunca ninguém ia fazer nada contra ele. Mas ele disse que se a gente falasse, eles iam atrás dos nossos filhos e parentes lá no Sul.”Sobre as condições às quais foram submetidas na boate, ela conta que morava com outras três meninas em um pequeno quarto muito quente, e que realmente não tinha permissão de sair do local. “Eles ligavam o ar condicionado só por uma hora. A gente tinha que trabalhar 24 horas por dia; quando tinha cliente, tinha que atender”, afirma.
Belo Monte
Sobre os clientes, ela conta que eram exclusivamente trabalhadores de Belo Monte. “Eram operários, eram gerentes, tinha de tudo. Todo mundo que trabalha na obra vinha na boate”, explicou.
O delegado Rodrigo Spessato diz não saber se o prostíbulo está dentro ou fora dos limites do canteiro de obras. A conselheira Lucenilda Lima relata, no entanto, que para chegar à boate foi preciso atravessar o canteiro de Pimental, um dos principais da usina. “Foi uma burocracia na entrada para a gente conseguir passar. E lá mesmo toda hora passavam os carros e tratores de Belo Monte, então eu considero que a boate está na área da usina”.
Na ação, a polícia civil efetuou a prisão de dois funcionários da boate, mas não encontrou o proprietário. Segundo Spessato, além de exploração sexual de menor, cárcere privado e regime de escravidão, o caso poderá ser caracterizado como tráfico de pessoas, e os responsáveis pelo prostíbulo, processados por estes crimes.
Como o canteiro de Pimental fica no município de Vitória do Xingu, o caso está sendo apurado pela delegacia dessa cidade. O delegado local chegou a Altamira na manhã desta quinta-feira para tomar os depoimentos das vítimas e dos dois funcionários presos, e uma nova ação voltará à boate ainda esta tarde, para fechar o estabelecimento e resgatar 1o mulheres que permaneceram no local.

FONTE:REPÓRTER BRASIL

quarta-feira, fevereiro 13, 2013

“Che foi absorvido pela sociedade de consumo que ele morreu tentando combater”

“Ainda que alguns setores tenham-no visto como criminoso, outros fizeram dele o emblema do mártir na luta contra ditaduras. Dando a vida por suas idéias, consagrou a imagem do herói idealista, romântico, aventureiro e desinteressado, disposto a todos os sacrifícios – virtudes que compõem o mito Guevara”, afirma a publicitária Luciana Ferreira de Matos, ao falar sobre Ernesto Che Guevara, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line.

Luciana Ferreira de Matos conclui que “Che Guevara, de alguma forma, manteve uma posição de força na imaginação popular, sobretudo entre os jovens de diferentes gerações. Tudo o que ele significou e expressou, sua força e utopia, canalizada em movimentos sociais, talvez não tenha sido (totalmente) destruído”. Luciana, que é bacharel em Publicidade e Propaganda pela ESPM, é autora de um artigo, publicado em agosto de 2007, na Revista Think, como uma versão do seu trabalho de conclusão, intitulado “Che Guevara: o consumo do mito – capitalismo, sociedade de consumo e cultura da mídia”, orientado pela professora Adriana Kurtz, dos cursos de Publicidade e Propaganda e Design da ESPM.

IHU On-Line - Como se deu o processo de transformação do ícone revolucionário Che Guevara em uma imagem de consumo?


Luciana Ferreira de Matos - Hoje em dia, Che é mais uma vez tão controvertido e tão reconhecido universalmente como era nos dias em que se transformara num símbolo da revolta estudantil. Depois de cair no esquecimento nos anos 1970 e 1980, ele teve um ressurgimento popular nos anos 1990 como símbolo imorredouro do desafio apaixonado contra um status quo arraigado. Imagens de Che Guevara eram carregadas como ícones por manifestantes estudantis em Paris e Tóquio, e seu rosto barbudo, inquestionavelmente másculo e de boina, fez bater corações mesmo não políticos na contracultura. Fosse na França, contra o conservador Charles De Gaulle ; nos Estados Unidos, contra a participação norte-americana na Guerra do Vietnã; no México, quando aconteceram as primeiras manifestações contra o Partido Institucional Revolucionário; ou na África, continente que viu eclodir a guerra de guerrilha em quase todos os países nos vintes anos seguintes à sua morte, a lembrança e a imagem de Che Guevara esteve presente em bandeiras, faixas, camisetas mas, principalmente, nas mentes e corações dos revolucionários. Houve forte identificação da juventude com a figura de Che. Entre seus admiradores, havia muitos universitários de classe média do continente americano e europeu. Para esses jovens de esquerda, Che personificava o idealismo igualitário. Portanto, a morte de Che Guevara aumentaria ainda mais o mito do guerrilheiro heróico e generoso. A boina e a estrela compõem até hoje a personificação do revolucionário rebelde, um símbolo que resiste ao tempo. Ainda que alguns setores tenham-no visto como criminoso, outros fizeram dele o emblema do mártir na luta contra ditaduras. Dando a vida por suas idéias, consagrou a imagem do herói idealista, romântico, aventureiro e desinteressado, disposto a todos os sacrifícios – virtudes que compõem o mito Guevara. A conhecida fotografia de Che Guevara, de autoria de Alberto Korda , foi captada em março de 1960 em um serviço funerário cubano, sendo publicada sete anos após a morte de Che. A imagem mais famosa é o desenho do seu busto em alto contraste. Esta imagem foi reproduzida em uma grande variedade de mídias, tornando-se cada vez mais usual no contexto da cultura de massa e das imagens publicitárias. Incorporado pela publicidade, seu nome e sua imagem revelam-se hoje, como marca de cerveja, modelo de relógio, capas de discos, estampas de camisetas, entre outros milhares de artigos de consumo.


IHU On-Line - Quais são as análises de peças que você realizou sobre o tema e as conclusões que chegou?


Luciana Ferreira de Matos - A seleção das peças foi organizada de modo a dar conta de quatro categorias que abarcam a cultura da mídia e a publicidade, e que tiveram circulação massiva, utilizando a imagem de Che Guevara. Foram analisadas as seguintes peças: o filme do Casseta & Planeta A taça do mundo é nossa (2003), incorporação do personagem Che Guevara; VT Publicitário Bombril; Peça Gráfica Bombril; uma camiseta que nos anos 1970 circulou unindo a marca americana da Coca-Cola com o nome de Che; outra camiseta com sua imagem estampada da loja on-line norte-americana especializada em produtos com estampas de Che Guevara; logotipo do vinho chileno Chevere, produzido no Vale Central; logotipo do refrigerante Revolution Soda; perfume francês “Che Guevara” da marca Max Gordon; e o cigarro chileno “El Che”. Após a análise das nove peças conclui que Che Guevara, de alguma forma, manteve uma posição de força na imaginação popular, sobretudo entre os jovens de diferentes gerações. Tudo o que ele significou e expressou, sua força e utopia, canalizada em movimentos sociais, talvez não tenha sido (totalmente) destruído. Porém, através das análises feitas, no contexto da cultura capitalista pós-moderna, sua imagem foi despolitizada (para dizer o mínimo). De fato, há que se lembrar que, tanto nos produtos de consumo como na mídia, em campanhas publicitárias e até em filmes comerciais de humor massivo, podemos detectar a utilização da imagem de Che Guevara.  

                                      
IHU On-Line - Como essas apreensões da imagem de Che deturpam seus ideais, sua ideologia guerrilheira?


Luciana Ferreira de Matos - Sua imagem é usada para divulgar ações com objetivos meramente comerciais, o que é o oposto de tudo o que Che, de fato, simboliza. A figura de Che Guevara – e seu significado - sofreu uma implacável ação de despolitização: o ídolo revolucionário, que começou sendo um símbolo de lutas sociais, torna-se uma mera imagem de consumo, retirado do seu contexto histórico.


IHU On-Line - Como explica a relação da figura de Che se tornar um ícone de consumo se ele lutava justamente pelo oposto, em favor de uma contracultura?


Luciana Ferreira de Matos - Enquanto exemplo de um homem que lutou e combateu o sistema, e pontualmente, o imperialismo norte-americano, Che Guevara foi também um símbolo importante da contracultura. Em sua luta contra o imperialismo, Guevara morreu, mas deixou para sempre personificado o seu idealismo igualitário. Sob a cultura de massa, entretanto, seu nome iniciou uma trajetória para o universo dos bens de consumo. Resulta disso que, hoje, quem consome produtos variados com a imagem dele provavelmente não está exercitando nenhuma forma de contracultura: pelo contrário, corre o risco de estar se inserindo no mais tradicional modelo de cultura de massa capitalista. A cultura pop internacional usa e abusa da imagem de Che Guevara, tirando o seu valor crítico, político e social. Che foi absorvido pela sociedade de consumo que ele morreu tentando combater. A ironia é como a representação de um revolucionário de esquerda, do comunismo, tem sido utilizada indiscriminadamente no sistema capitalista, e como foi inserida no imaginário popular de uma sociedade de consumo.


IHU On-Line - Até que ponto a publicidade é responsável por essa apreensão e disseminação de Che como um “mito consumível”?


Luciana Ferreira de Matos - Há uma cultura veiculada pela mídia e pela publicidade, cujas imagens influenciam os comportamentos sociais contemporâneos, forjando, assim, a identidade das pessoas. Através da publicidade e do consumo, o sistema capitalista se apoderou dos movimentos libertários juvenis nascidos nos anos 1960 e de seus diversos símbolos, transformando os sonhos em mercadorias. São exemplos que vão desde os pôsteres de bandas de rock, passando por bonés de beisebol até a lingerie feminina. A Swatch já usou a imagem de Che Guevara num relógio de pulso, assim como a Vodka Smirnoff usou sua imagem na campanha para vender o produto; a modelo Gisele Bündchen desfilou com um biquíni da marca Cia. Marítima com o rosto de Che estampado. Isso para não falar de outros produtos como camisetas, bonés, broches, mochilas, carteiras, casacos, bolsas, que são vendidos no mundo todo. No México, a figura do Che está presente em preservativos, enquanto nos Estados Unidos aparece estampada em caixas de lenços descartáveis, garrafas de vinho na França e maços de cigarro na Espanha. Uma empresa australiana chegou a lançar o sabor de sorvete inspirado no nome do líder guerrilheiro, “Cherry Guevara”. Uma fabricante de cremes para lábios foi além: lançou um creme sabor goiaba com a imagem do revolucionário na marca, cujo anúncio, patético, dizia “Rebele-se contra a secura dos lábios”. O estilista francês Jean Paul Gaultier usou a imagem de Che para vender óculos de sol e Madonna vestiu a boina do guerrilheiro heróico para divulgar seu álbum American Life.


IHU On-Line - Há algum possível sentido revolucionário ou utópico latente nos produtos que utilizam a imagem de Che, ou não há uma junção neste aspecto?


Luciana Ferreira de Matos - Em que pese esta constatação, ainda podemos reafirmar e resgatar o idealismo de Che Guevara, através de pesquisas históricas. Porém, em relação ao consumo dos produtos que utilizam a imagem do revolucionário não podemos falar o mesmo. Sua imagem iniciou uma trajetória melancólica apontando para os bens de consumo na sociedade capitalista. Essa trajetória conduz a imagem de um ídolo revolucionário, que começou sendo um símbolo das lutas políticas e sociais, para uma situação contrária, na qual perde-se a matriz ideológica original (contestatória) e resta apenas uma (entre tantas) imagem de consumo.

FONTE: IHU Online

Os agudás



Assim são chamados no Benin os herdeiros

de antigos escravos brasileiros que,

livres, retornaram à África. 

Com festas, sobrenomes e fé importados da 

Bahia, eles moldaram uma nova identidade 

para superar o estigma do passado

Em janeiro, as tradicionais homenagens a Nosso Senhor do Bonfim em Salvador ecoam do outro lado do Atlântico, deixando ainda mais claros os laços culturais que há séculos aproximam a Bahia da África. No sul do Benin, homens e mulheres vestem uma faixa verde e amarela sobre o peito e seguem rumo a missas para o padroeiro, cerimônias cristãs formais que são acompanhadas por cortejos carnavalescos pelas ruas de cidades como Uidá e Porto-Novo. Identificado como Oxalá (o orixá criador da humanidade) no candomblé baiano, o Senhor do Bonfim é um elo entre dois mundos físicos e espirituais, separados por um oceano e marcados pelo estigma da escravidão. A devoção tem causa nobre: para os escravos que, libertos, puderam regressar à África nos séculos 18 e 19, tal viagem de volta à terra natal significava um “bom fim”, um bom destino.

O culto a um santo católico é um dos traços marcantes dos “brasileiros” que habitam a faixa costeira do Benin, do Togo e da Nigéria. Os agudás, como são conhecidos – a palavra deriva de “ajuda”, nome português da cidade de Uidá, movimentado entreposto negreiro da África Ocidental no passado –, integram famílias que descendem de escravos e de comerciantes baianos lá estabelecidos no auge do tráfico humano entre os dois continentes. Possuem sobrenomes como Souza, Silva, Medeiros, Almeida, Aguiar, Campos, entre outros, dançam a “burrinha”, uma versão arcaica do bumba meu boi, e se reúnem nas festas ao redor de uma feijoadá ou de um kousidou. Não raro, os agudás mais velhos se saúdam com um singelo “Bom dia, como passou?”, e a resposta não demora: “Bem, brigado”.
“O português chegou a ser língua franca no Benin na época da implantação da administração colonial francesa”, observa o antropólogo Milton Guran, pesquisador do Laboratório de História Oral e Imagem da Universidade Federal Fluminense, no Rio de Janeiro, em seu livro Agudás, os Brasileiros do Benin. A escola da Missão Católica de Lyon, que se estabeleceu em Uidá em 1862, ensinava em português aos filhos dos retornados, que levaram para a África negra aspectos da cultura ocidental, como técnicas de arquitetura e engenharia (a alvenaria), festas religiosas, hábitos alimentares (a mandioca, o doce de coco), organização familiar patriarcal e uso de sobrenomes. “A presença brasileira foi tão marcante nesse trecho da costa africana entre os séculos 18 e 19 que poderíamos falar de uma colonização informal”, analisa Guran. “É exemplo único de implantação de uma cultura brasileira – no caso, a baiana – fora de nossas fronteiras.”
para os governantes do reino do Daomé (antigo nome do Benin), o comércio de cativos era um projeto econômico oficial, de desenvolvimento comercial e fortalecimento de um Estado. Esse ambiente foi favorável à chegada de brasileiros dispostos a trabalhar como negreiros, entre os quais o lendário Francisco Félix de Souza. Filho de índia com português, Souza nasceu na Bahia, em 1754, e desembarcou no Daomé, acredita-se, em 1788. Escrivão e contador do Forte São João Batista de Ajuda, em Uidá, logo tornou-se mercador influente – dependia dele a entrada ao reino de produtos como pólvora, fuzis, cachaça – e galgou a aura de mito nos relatos de viagem da época, alardeado por manter 2 mil escravos em seus barracões, ser pai de 80 filhos homens (não houve contabilidade de filhas) e gozar de sua fortuna em festins cercados das mais belas mulheres e de vinhos, iguarias e roupas finas importadas de Paris, Londres e Havana.
A trajetória de Souza ganhou ares de folhetim quando ele foi preso pela petulância de cobrar uma dívida do rei Adandozan (como castigo, consta que o rei ordenou que o prisioneiro fosse mergulhado várias vezes ao dia em um tonel de índigo para que sua pele ficasse escura). Nesse ínterim, porém, o baiano fez um pacto de sangue com o príncipe Gakpé, que cobiçava o trono. O irmão caçula do rei ajudou na fuga do brasileiro em troca de seu apoio em um golpe que, por fim, destituiu Adandozan. Souza entrou para a nobreza: foi consagrado vice-rei de Uidá. Ganhou um título honorário inédito, o de Chachá, e o direito de monopolizar o tráfico de escravos no Daomé.
O mercador deixou uma dinastia no país. Em outubro de 1995, Mitô Honoré Feliciano de Souza foi entronizado como Chachá VIII, em uma cerimônia em Singbomey, a ancestral residência da família em Uidá onde Francisco Félix está enterrado. O sobrenome Souza ainda significa poder social no Benin. “O Chachá arbitra os conflitos que não implicam em crime de sangue e disputa de propriedade. Além disso, ele tem certo peso eleitoral e é a referência maior de uma identidade cultural, os agudás”, diz Milton Guran.
O etnólogo francês Pierre Verger, radicado no Brasil de 1946 até sua morte, em 1996, aos 94 anos, foi pioneiro na documentação dos agudás. Nos anos 1950, disposto a estudar o fluxo e o refluxo de escravos entre os dois continentes, Verger iniciou-se em ritos ancestrais e fotografou pessoas e eventos que expressavam uma ligação cultural viva e recíproca entre a África e o Brasil. Em 1951, suas imagens do Benin ilustraram uma série de reportagens na revista O Cruzeiro, com textos assinados pelo sociólogo Gilberto Freyre. Freyre destacou o fato de a Irmandade do Senhor do Bonfim vestir a faixa verde e amarela. “Os agudás se conservam sociologicamente católicos e brasileiros[...], à sombra do culto da família e da casa organizada em torno da mulher e da monogamia”, escreveu. “A Bahia conseguiu conservar seu estandarte através de homens que se estabeleceram na África livres e, às vezes, ricos.”
Brasileiros do além-mar, os agudás da costa africana são pessoas de identidade peculiar, forjada na experiência de dor e separação da escravatura. Mas que conservaram a alegria por uma razão que, hoje, parece elementar. “Acontece que são baianos”, resumiu Gilberto Freyre.

Fonte: NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL / por Ronaldo Ribeiro

UNIDOS DA TIJUCA / Samba Enredo 2003 - Agudás, Os Que Levaram a África No Coração, e Trouxeram Para o Coração da África, o Brasil


terça-feira, fevereiro 12, 2013

Carnaval: “adeus, carne”, uma metáfora do reino da liberdade


LEONARDO BOFF
O berço do carnaval ocidental se encontra na Igreja, apesar dos antecedentes na cultura greco-latina. O próprio nome carnaval lembra esse fato. A palavra “Carnaval”  é a combinação de duas palavras latinas: “carnis” que é carne e “vale” que é uma saudação, geralmente no final das cartas ou no final de uma conversa. Significa “adeus”. Então antes de começar o tempo da quaresma na quarta-feira de cinzas, que é tempo de jejuns e penitências, se reservaram uns dias anteriores para dizer “adeus” à “carne”. 
Dei uma entrevista à jornalista da Globo, Patrícia Kalil. Ela consultou outros especialistas sobre o tema, especialmente Roberto da Matta. Aproveiou algo do minha contribuição. Fez um bela e extensa matéria  da qual eu mesmo  aprendi muito.Leiam-na que vale a pena. 
Como é carnaval, tomo a liberdade de publicar a minha parte, esperando não magoar a entrevistadora. Uso as perguntas dela. 
1. Li referências do tempo em que o carnaval nasce primeiro como manifestação popular na antiguidade para agradecer a chegada da primavera (ou da vida no hemisfério norte). Depois, durante o período medieval, a festa é assumida pela Igreja, algo que pelo que pesquisei só permanece até o final da idade média. Por que o carnaval deixa de ser da igreja? Em algum lugar ele ainda é vinculado à Igreja?   
R/ O berço do carnaval ocidental se encontra na Igreja, apesar dos antecedentes na cultura greco-latina. O próprio nome carnaval lembra esse fato. A palavra “Carnaval”  é a combinação de duas palavras latinas: “carnis” que é carne e “vale” que é uma saudação, geralmente no final das cartas ou no final de uma conversa. Significa “adeus”. Então antes de começar o tempo da quaresma na quarta-feira de cinzas, que é tempo de jejuns e penitências, se reservaram uns dias anteriores para dizer “adeus” à “carne”. Pois durante todo o tempo da quaresma não se podia comer carne, como ainda hoje em algumas regiões na Baviera alemã. De festa de  cunho religioso passou a ser uma festa meramente profana, na qual tudo podia ocorrer como bebedeiras e até prostituição aberta. Ai a Igreja se afastou mas nunca totalmente. Em muitos lugares, como no convento  franciscano em que vivi em Munique, nos meus tempos de estudo universitário, os frades no carnaval dançavam no convento e chamavam freiras dos conventos vizinhos para dançar com eles. E depois se revezavam: os frades iam dançar no convento das freiras. E se bebia vinho e cerveja e muitas salsichas com mostarda. Mas tudo na maior decência. Não deixava de ser engraçado de ver aqueles hábitos de frades e de freiras esvoaçando em círculos. Eu como brasileiro no início ficava escandalizado, pois no Brasil não havia isso. Mas acabei entendendo o sentido de liberdade antes de começar o tempo do rigor e das penitências que eram sentidas à mesa, mais sóbria e na falta de cerveja e vinho. 
2. Encontrei referência que citam a origem do nome como carnis levare (de retirar a carne) e como carnis valles (retirar o prazer). Qual das duas deram origem ao nome carnaval?
R/ Ficou respondida anteriormente 
3. Calha que essa festa popular pagã usa o calendário cristão para se posicionar. E o carnaval, ao longo do último século, sofreu transformações importantes dentro do seu papel em comunidades e valorização do ritmo negro para hoje ser algo mais ligado ao showbusiness e não necessariamente social. Como o senhor vê o papel do carnaval no Brasil, historicamente, e a relação entre Igreja e essa festa popular. 
R/ O carnaval possuía no passado e possui ainda hoje grande significado sociológico e antropológico. Há a intuição no povo e uma certeza entre os estudiosos de que a sociedade com suas hierarquias e papéis definidos é uma construção humana. Ela é fruto da vontade, geralmente, dos poderosos que estabelecem as leis e as ordens que os beneficiam. É o mundo da ordem estabelecida. A sociedade é assim uma construção que tem algo de arbitrário.O carnaval é a inversão desta ordem. É conduzir a todos ao estado original onde não havia hierarquias e papéis, ordem no qual todos eram iguais. No carnaval cria-se um caos criador. Invertem-se os papéis. O rei deixa de ser rei e cria-se o rei Momo; o rico se veste de pobre; o pobre se veste de rico; a empregada  anônima vira a princesa da ilha encantada; o vendedor de rua se transmuta em príncipe e o príncipe num escravo. Até no carnaval romano os escravos, durante aqueles dias, ficavam libertos. A sociedade precisa tirar as máscaras e voltar ao seu estado “natural”. O carnaval possui uma função socialmente terapêutica: pela inversão dos papéis todos podem se recriar, dar vazão ao que no fundo gostariam de ser. Essa reviravolta, para acontecer, deve vir acompanhada de uma mudança de consciência; dai a importância da bebida e da comida que produz esta alteração:  alteram-se as relações entre todos. Agora não funciona o tempo do trabalho com leis, normas, prescrições e comandos. Funciona o tempo livre, liberto das injunções,o ansiado reino  da liberdade de cada um ser, pelo menos por um momento, aquilo que lhe passar pela cabeça. Pelo fato de no tempo  medieval tudo era regido pela religião e pela Igreja, os carnavais se realizavam dentro do espírito de alegria e de liberdade permitidas por estas instâncias. Era a famosa festa dos foliões. Leigos podiam se vestir de bispos e até de papas. As máscaras eram para esconder as identidades e no fundo para dizer que tudo na sociedade e tambem na Igreja são máscaras. Bobos somos todos que as tomamos a sério e cremos nelas. São os papéis sociais. Mas chega um momento que nos damos conta de que as máscaras são apenas máscaras e que os  papéis sociais são criados e distribuidos conforme a vontade dos que detém o poder. E que no fundo somos todos humanos que tem as mesmas necessidades básicas que são intransferíveis. O presidente da república não pode dizer ao secretário: vá fazer pipi para mim. Ele mesmo tem que ir. Na medida em que a sociedade foi separando o sagrado do profano, o carnaval escapou do controle da Igreja. Ganhou sua identidade própria. Mas o seu significado básico continua o mesmo. O importante é que seja feito pelos populares, por aqueles que socialmente nada contam. No carnaval eles contam. São aplaudidos quando normalmente são eles que devem aplaudir. Especialmente importante é o carnaval para os afro-descendentes: sempre estiveram por baixo, eram os invisíveis. Agora se tornam visíveis, mostram a sua rica humanidade que lhes tinha sido roubada e continua ainda a ser roubada. Dai que no carnaval mostram todo o seu potencial criador. Bem dizia o Betinho: o carnaval carioca é a nossa Mitsubishi.Quer dizer: tudo funciona maravilhosamente como funciona  a fábrica de automóveis japonesa. 
4. Para finalizar e porque o carnaval é uma festa altamente ligada ao prazer e a liberdade, direitos cada vez mais exigidos, por que a condenação do prazer é algo tão marcante na vida religiosa? O vilão é mesmo o prazer ou é o egoísmo, a falta de humanidade, de compaixão, de respeito pelo próximo e pela vida? Por que tanta culpa pelo prazer? Por que, afinal, o homem sente prazer. 
R/ A essência do carnaval é tirar os super-egos castradores e ordenadores da vida social. Eles são responsáveis pela ordem. A ordem sempre impõe limites, cerceia o campo da liberdade, quando esta quer não ter cerca nenhuma para se expressar. Quer espontaneidade e supõe criatividade. É nesse âmbito que o ser humano se sente feliz. Porque há um momento em que os controles caem e os homens da ordem não tem mais poder para impor a ordem. Eles mesmos aproveitam a liberdade e tiram a máscara. Viram gente, gente livre, que brinca, come e bebe sem se impor ordem. O prazer é essencial na vida, também para as religiões, embora tenham sublimado o prazer projetando-o no céu. Mas não existe céu sem terra. O prazer começa no tempo  e culmina na eternidade. Prazer é irradiação da vida, a sensação de estar sem amarras e viver segundo seu ritmo interior. A busca da droga se deve a isso: ela produz prazer. Somente que este prazer é destrutivo. Para curar alguém da droga precisa-se inventar outras fontes de prazer que não sejam destrutivas. Qualquer outro método é condenado à ineficácia. O carnaval resgata os direitos do prazer, do corpo embelezado, ou libertado de adereços e roupas. O carnaval, de forma secular, nos lembra que o céu não é outra coisa que um eterno e infinito carnaval de Deus e com Deus, onde o ser humano pode ser radicalmente humano, por isso totalmente livre, livre para plasmar a sua vida, construir a sua figura e viver de festa em festa. A Igreja antiga, especialmente a oriental, a ortodoxa, elaborou toda uma reflexão do céu como uma dança celeste e Deus como o Grande Dançarino. Criou o universo num momento auge de sua dança: jogou para um lado as galáxias, para outro as estrelas, depois inventou a fauna e a flora e num passe mágico de dança, o ser humano. Tudo é fruto do Deus dançarino. Não há festa sem bebida e sem comida. Elas expressam a vida. Não bebemos nem comemos para matar a fome. Isso é outro momento. Bebemos e comemos para celebrar. E toda festa tem que ter abundância de comida e bebida, senão não é festa. Mesmo nas comunidades em que trabalhei, muito pobres, as festas eram feitas com abundante pipoca e coca-cola, a ponto de sobrar. Tem que sobrar senão a festa não é boa. O carnaval tem sempre excessos. Mas eles não devem ser entendidos moralisticamente. Eles tem uma função humana: violar a ordem, afastar os limites, exorcizar os controles, pois tudo isso foi inventado pelos seres humanos, especialmente, pelos que tem poder de se impor aos outros. No carnaval se volta ao caos originário. Ele nunca é caótico, mas criativo. No carnaval todos tem a sensação: finalmente estamos livres, podemos viver como  gostaríamos, podemos inverter os papéis porque eles não passam de papéis. O carnaval é uma metáfora do que pode ser a  humanidade um dia reconciliada e feliz. 

Mas como tudo o que é sadio pode ficar doente, assim no carnaval há doenças no sentido de alguns extrojetarem seu exibicionismo, se embebedarem em demasia e aproveitarem a liberdade reconquistada  para se vingar dos desafetos. Mas essa é uma patologia, uma doença. E toda doença  remete à saúde. Quer dizer, o carnaval é algo saudável especialmente em sociedades de grande desigualdade. No carnaval as desigualdades caem. Todos estamos juntos para festejar, comer e beber numa ilimitada fraternidade. 
Eu não posso me imaginar o céu senão como um eterno carnaval ou então uma luminosa virada de ano na praia de Copacabana, na qual todos se confraternizam, conhecidos e desconhecidos, chorando de alegria pela beleza dos fogos. Quando alguém chega ao céu, imagino eu, Deus lhe prepara como recepção um carnaval ou uma festa de virada de ano com fogos e luzes sem fim. E a alegria começará e o bom é que será então eterna. Bom carnaval para quem gosta. 
Eu, coitado, fico em casa tirando os atrasos dos textos e livros que estou escrevendo.
FONTE:BRASIL DE FATO / LEONARDO BOFF


A invasão real da África não está nos noticiários


Uma licença para mentir como
 prenda de Hollywood.
Uma invasão da África de grandes proporções está em andamento. Os Estados Unidos estão a instalar tropas em 35 países africanos, a começar pela Líbia, Sudão, Argélia e Níger. Isto foi informado pela Associated Press no Dia de Natal, mas ficou omisso na maior parte dos media anglo-americanos.

A invasão pouco tem a ver com "islamismo" e, quase tudo a ver com a aquisição de recursos, nomeadamente minérios, e com um acelerar da rvalidade com a China. Ao contrário da China, os EUA e seus aliados estão preparados para utilizar um grau de violência já demonstrado no Iraque, Afeganistão, Paquistão, Iémen e Palestina. Tal como na guerra-fria, uma divisão de trabalho exige que o jornalismo ocidental e a cultura popular providenciem a cobertura de uma guerra sagrada contra um "arco ameaçador" de extremismo islâmico, não diferente da falsa "ameaça vermelha" de uma conspiração comunista mundial.

A recordar a Luta pela África no fim do século XIX, o US African Command ( Africom ) construiu uma rede de pedintes entre regimes colaboracionistas africanos ansiosos por subornos e armamentos americanos. No ano passado, o Africom ensaiou a Operação Esforço Africano (Operation African Endeavor),com as forças armadas de 34 países africanos a nela tomarem parte, comandadas por militares estado-unidenses. A doutrina "soldado para soldado" do Africom insere oficiais dos EUA a todo nível de comando, desde o general até o primeiro-sargento.

É como se a orgulhosa história de libertação da África, desde Patrice Lumumba até Nelson Mandela, estivesse destinada ao esquecimento por uma nova elite colonial negra ao serviço do mestre cuja "missão histórica", advertiu Frantz Fanon há meio século, é a promoção de "um capitalismo desenfreado embora camuflado".

Um exemplo gritante é o Congo Oriental, um tesouro de minerais estratégicos, controlado por um grupo rebelde atroz conhecido como M23, o qual por sua vez é dirigido pelo Uganda e o Ruanda, os procuradores de Washington.

Planejada há muito como uma "missão" para a NATO, para não mencionar os franceses sempre zelosos, cujas causas coloniais perdidas continuam em prontidão permanente, a guerra à África tornou-se urgente em 2011 quando o mundo árabe parecia estar a libertar-se dos Mubaraks e outros clientes de Washington e da Europa. A histeria que isto provocou em capitais imperiais não pode ser exagerado. Bombardeiros da NATO foram despachados não para Tunis ou Cairo mas sim para Líbia, onde Muammar Kadafi dominava as maiores reservas petrolíferas da África. Com a cidade líbia de Sirte reduzida a escombros, as SAS britânicas dirigiram as milícias "rebeldes" para o que se revelou como um banho de sangue racista.

O povo nativo do Saara, os tuaregues, cujos combatentes berberes Kadafi havia protegido, fugiu através da Argélia para o Mali, onde os tuaregues desde a década de 1960 reivindicam um estado separado. Como destaca o sempre vigilante Patrick Cockburn, é esta disputa local, não a Al-Qaeda, que o Ocidente mais teme no Noroeste da África... "por pobres que possam ser, muitas vezes os tuaregues vivem em cima de grandes reservas de petróleo, gás, urânio e outros minérios valiosos".

Quase certamente a consequência do ataque francês/estado-unidense ao Mali em 13 de Janeiro, o cerco a um complexo de gás na Argélia que acabou de forma sangrenta, inspirou em David Cameron um momento 11/Set. O antigo relações públicas da Carlton TV enfureceu-se acerca de uma "ameaça global" que exigiria "décadas" de violência ocidental. Ele queria dizer a implementação dos planos de negócios do Ocidente para a África, juntamente com a violação da Síria multi étnica e a conquista do Irão independente.

Cameron agora ordenou o envio de tropas britânicas para o Mali e enviou para lá um drone da RAF, enquanto o seu prolixo chefe militar, general sir David Richards, dirigiu "uma mensagem muito clara a jihadistas de todo o mundo:   não nos provoquem e não nos embaracem. Trataremos disto de forma robusta" – exactamente o que jihadistas querem ouvir. O rastro de sangue de vítimas do terror do exército britânico, todos muçulmanos, seus "sistémicos" casos de torturas actualmente a caminho do tribunal, acrescenta ironia às palavras do general. Certa vez experimentei os meios "robustos" de sir David quando lhe perguntei se lera a descrição da corajosa feminista afegã Malalai Joya do comportamento bárbaro de ocidentais e seus clientes no seu país. "O senhor é um apologista do Taliban" foi a sua resposta (posteriormente desculpou-se).

Estes comediantes lúgubres são extraídos directamente [do escritor] Evelyn Waugh e permitem-nos sentir a estimulante aragem da história e da hipocrisia. O "terrorismo islâmico", que é a sua desculpa para o roubo continuado das riquezas da África, foi praticamente inventado por eles. Já não há qualquer desculpa para engolir a linha da BBC/CNN e não conhecer a verdade. Leiam Secret Affairs: Britain's Collusion with Radical Islam de Mark Curtis (Serpent's Tail) ou Unholy Wars: Afghanistan, America and International Terrorismde John Cooley (Pluto Press) ouThe Grand Chessboard de Zbigniew Brzezinski (HarperCollins) que foi o parteiro do nascimento do moderno terror fundamentalista. Com efeito, os mujahedin da Al-Qaida e os Talibans foram criados pela CIA, o seu equivalente paquistanês, o Inter-Services Intelligence, e o MI6 britânico.

Brzezinski, conselheiro de segurança nacional do presidente Jimmy Carter, descreve uma directiva presidencial secreta em 1979 que principiou aquilo que se tornou a actual "guerra ao terror". Durante 17 anos, os EUA deliberadamente cultivaram, financiaram, armaram e fizeram lavagem cerebral a extremistas da jihad que "saturaram de violência uma geração". Com o nome de código Operation Cyclone, este foi o "grande jogo" para deitar abaixo a União Soviética mas que deitou abaixo as Torres Gémeas.

Desde então, as notícias que pessoas inteligentes e educadas tanto distribuem como ingerem tornou-se uma espécie de jornalismo Disney, fortalecido, como sempre, pela licença de Hollywood para mentir e mentir. Está para ser lançado o filme Dreamworks sobre a WikiLeaks, uma trama inspirada por um livro de tagarelices pérfidas de dois jornalistas do Guardian que se enriqueceram, e há também o Hora negra (Zero Dark Thirty), filme que estimula a tortura e o assassínio, dirigido pela ganhadora do Oscar Kathryn Bigelow, a Leni Riefenstahl do nosso tempo, que promove a voz do seu mestre tal como fez a realizadora de estimação do Fuhrer. Este é o espelho de sentido único através do qual nós mal vislumbramos aquilo que o poder faz em nosso nome.

FONTE: DIÁRIO LIBERDADE 

segunda-feira, fevereiro 11, 2013

Leci Brandão: Há vida fora do sambódromo







O patrocínio ameaça o Carnaval?
SIM

Quando patrocinadores definem o enredo e a dinâmica das escolas de samba na avenida, sim, o patrocínio ameaça o Carnaval em sua legitimidade. Felizmente, esse tipo de situação ainda não é a regra, mas é de conhecimento público que algumas escolas já mudaram seus enredos em função do patrocinador.

Um exemplo disso é a Estação Primeira de Mangueira, que recebeu muitas críticas por não levar para o sambódromo, neste ano, o enredo em homenagem a Jamelão. Por razão de patrocínio, preferiu falar sobre o Estado de Mato Grosso.

No entanto, em 2012, quando fez um desfile memorável, com um enredo legítimo, que celebrava o bloco Cacique de Ramos, nossa escola sequer participou do desfile das campeãs.

Uma análise superficial sobre essas duas situações poderia nos levar a crer que, atualmente, apenas sobrevive no time das campeãs as escolas cujos enredos são patrocinados. Acredito que ainda não vivemos essa realidade, mas, certamente, a legitimidade dos enredos não tem sido suficiente para atender às expectativas dos jurados.

Sim, o patrocínio, aliado aos recursos públicos, tem se tornado cada vez mais essencial para a realização do espetáculo grandioso que estamos acostumados a assistir.

Entretanto, não devemos esquecer que há vida nas escolas fora das arquibancadas dos sambódromos. A maioria dessas agremiações se mantém graças a uma comunidade que as legitima e o desfile é o resultado do trabalho que essas pessoas fizeram ao longo do ano.

Sempre vale a pena lembrar que as escolas de samba foram criadas por comunidades negras e pobres. Eram espaços de ressignificação do mundo, diante da realidade de preconceito, racismo e exclusão vivida no cotidiano.

Durante muito tempo, o Carnaval feito por essas pessoas permaneceu à margem dos espaços de poder. Mas, como tudo que é legítimo, ganhou força e só aí passou a ser pauta da mídia, se tornando interessante para o mercado e para os patrocinadores.

Por fazerem um espetáculo criativo, grandioso e autêntico, as escolas de samba são excelentes vitrines por meio das quais as empresas podem "vender" suas marcas. E isso as escolas não podem perder de vista, para que a relação de troca entre elas e os patrocinadores seja negociada em pé de igualdade, onde todos saiam ganhando.

O patrocínio é sempre um bom negócio para as empresas, mas só é uma boa solução para as escolas quando ele soma. E, para que isso aconteça, as comunidades devem ser empoderadas e se apropriar do resultado de seu trabalho. Aí se faz necessária a adoção de políticas voltadas para essas comunidades.

Afinal, o Carnaval é a festa mais popular e simbólica do nosso país e patrimônio imaterial da cultura brasileira. Além disso, movimenta a economia, gera emprego, trabalho e renda.

Portanto, nada mais justo que o poder público tenha um olhar especial voltado para as pessoas que dedicam suas vidas à realização desse espetáculo.

Sim, o patrocínio ameaça o Carnaval, mas só se o Estado não cumprir o seu papel e se os empresários não tiverem visão suficiente para perceber que o que faz dos desfiles de escola de samba um grande espetáculo é justamente o fato de essas agremiações e seus artistas se sentirem livres para criar e fazer sua arte da forma que sempre fizeram.
FONTE: FOLHA.UOL / LECI BRANDÃO
LEIA TAMBÉM: 

Aperte o cinto, a verba sumiu

http://guebala.blogspot.com.br/2013/02/aperte-o-cinto-verba-sumiu.html

Quem são o Pierrô, o Arlequim e a Colombina?

São personagens de um estilo teatral conhecido como Commedia dell’Arte, nascido na Itália do século XVI. Integrantes de uma trama cheia de sátira social, os três papéis representam serviçais envolvidos em um triângulo amoroso: Pierrô ama Colombina, que ama Arlequim, que, por sua vez, também deseja Colombina. O estilo surgiu como alternativa à chamada Commedia Erudita, de inspiração literária, que apresentava atores falando em latim, naquela época uma língua já inacessível à maioria das pessoas. Assim, a história do trio enamorado sempre foi um autêntico entretenimento popular, de origem influenciada pelas brincadeiras de Carnaval. Apresentadas nas ruas e praças das cidades italianas, as histórias encenadas ironizavam a vida e os costumes dos poderosos de então. Para isso, entravam em cena muitos outros personagens, além dos três mais famosos.
Do lado dos patrões, por exemplo, havia um comerciante extremamente avarento (chamado Pantaleão), um intelectual pomposo (o Doutor) e um oficial covarde, mas metido a valentão (o Capitão). Outros personagens típicos eram o casal Isabella e Orácio (em geral, filhos de patrões) e outros serviçais. Apesar de obedecerem a um enredo predefinido, as peças tinham a improvisação como ingrediente principal, exigindo grande disciplina e talento cômico dos atores, que precisavam responder rapidamente às novas piadas e situações criadas pelo colegas.
"Até hoje, a Commedia dell’Arte é um método de grande riqueza para o aprendizado e o treinamento do ator", afirma a atriz Tiche Vianna, formada pela Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo (USP), com especialização em Commedia dell’Arte pela Universidade de Bolonha e Florença, na Itália. Um detalhe interessante é que sempre havia, no meio do espetáculo, um intervalo chamado lazzo, que podia ter mais comédia, apresentar acrobacias ou sátiras políticas sem qualquer relação com o enredo. Terminado o lazzo, a história continuava do ponto em que havia sido interrompida. Com esse estilo único, a Commedia dell’Arte influenciou a arte dramática de toda a Europa.
Entre tapas e beijos
Intriga amorosa e sátira social eram os pratos principais da antiga comédia italiana
Pierrô
Seu nome original era Pedrolino, mas foi batizado, na França do século XIX, como Pierrot e assim ganhou o mundo. O mais pobre dos personagens serviçais, vestia roupas feitas de sacos de farinha, tinha o rosto pintado de branco e não usava máscara. Vivia sofrendo e suspirando de amor pela Colombina. Por isso, era a vítima preferida das piadas em cena. Não foi à toa que sua atitude, sua vestimenta e sua maquiagem influenciaram todos os palhaços de circo
Pantaleão
O mais conhecido dos personagens patrões, que representavam a elite da sociedade italiana nas histórias da Commedia dell’Arte, Pantaleão (também chamado de "O Velho") era um "mercador de Veneza" (expressão que deu título a uma peça de Shakespeare). Tirano avarento e galanteador desajeitado, era alvo constante das gozações dos servos e de outros personagens da trama
Arlequim
Também servo de Pantaleão, Arlequim era um espertalhão preguiçoso e insolente, que tentava convencer a todos da sua ingenuidade e estupidez. Depois de entrar em cena saltitando, deslocava-se pelo palco com passos de dança e um grande repertório de movimentos acrobáticos. Debochado, adorava pregar peças nos outros personagens e depois usava sua agilidade para escapar das confusões criadas. Outra de suas marcas-registradas era a roupa de losangos
Colombina
Criada de uma filha do patrão Pantaleão, mas tão bela e refinada quanto sua ama, Colombina era também o pivô de um triângulo amoroso que ficaria famoso no mundo todo - de um lado, o apaixonado Pierrô; do outro, o malandro Arlequim. Para despertar o amor desse último, a romântica serviçal cantava e dançava graciosamente nos espetáculos

FONTE: MUNDO ESTRANHO