Valoriza herói, todo sangue derramado afrotupy!

quarta-feira, janeiro 23, 2013

Django Livre: além do didatismo

Quentin Tarantino usa polêmica, 
humor e violência extrema
 para retratar escravidão. 
Até onde vai a liberdade artística?

Mais um filme de Quentin Tarantino chega às telas, e mais uma vez a polêmica se instaura sobre a glorificação da violência, o espetáculo divertido da morte. Desta vez, ao invés de reescrever a morte de Hitler, como fez em Bastardos Inglórios, o cineasta e roteirista propõe nada menos do que reescrever a história da escravidão nos Estados Unidos. Em uma entrevista à televisão, quando perguntado pela enésima vez sobre a violência em sua filmografia, o diretor explodiu. Não aguentava mais a mesma questão.


Em Django Livre, de fato, ele retrata muito, muito sangue, além de corpos cortados, pedaços de vísceras voando, pessoas chicoteadas e comidas por cachorros. Como se trata de uma vingança (Django, um escravo liberto, quer matar aqueles que o mantiveram em cativeiro e o separaram de sua esposa), o espectador é convidado a torcer pelo herói, a vibrar com ele. Na sala de cinema em que assisti ao filme, algumas pessoas aplaudiam com satisfação cada morte provocada por Django (Jamie Foxx).

Recentemente, o público também vibrou com a vingança de Grace (Nicole Kidman) em Dogville, de Lars Von Trier, ou mesmo com a vingança das mocinhas das telenovelas globais contra as carismáticas vilãs. Ora, embora Grace tenha recorrido a métodos cruéis contra seus opressores, e embora as mais recentes vilãs de novelas tenham chegado inclusive a enterrar as adversárias vivas – algo muito tarantiniano, por sinal –, nenhuma delas foi acusada de explorar a violência, ou torná-la leve, agradável. A acusação contra Tarantino encontra no humor seu principal alvo: tolera-se a vingança, contanto que não seja engraçada. Com a morte não se brinca.

Um motivo para tal crença seria o medo das consequências (morais) nefastas na sociedade. O fato é que dificilmente alguém se tornará mais insensível à violência real por ter assistido aos banhos de sangue em Django Livre. Pode-se culpar, com razão, a grande exposição do público jovem a imagens violentas, mas aí seria necessário abrir uma ampla discussão, incluindo as imagens na internet e na TV, a relação do país com guerras, a paixão pelas armas, a cultura do individualismo, o espírito de competitividade, a situação econômica etc.
Por isso, as vozes dos espectadores que exigem a moralização das imagens encontram pouca repercussão neste caso. Mais interessantes e mais complexas são aquelas que questionam o direito de se divertir a partir de qualquer tema, inclusive a morte, a exploração dos negros e a crueldade de modo geral. Além disso, atalhos como “videogames foram responsáveis pelo massacre de crianças nas escolas americanas” sempre foram uma maneira rápida e pouco convincente de o governo se isentar de responsabilidade nestes casos, dissociando-se da tradicional cultura belicista norte-americana.


Talvez Django Livre seja “politicamente incorreto” (curioso, esse termo), mas ao menos ele toma uma precaução, típica da linguagem pop e autorreferencial, que é de explicitar sua paródia, suas referências. Em outras palavras, afastar-se do real. Ninguém confundiria esta obra com uma leitura história precisa sobre os fatos, já que Tarantino coloca elementos suficientes para estabelecer um distanciamento entre a História e sua representação.
                                                                                                         
O cineasta realiza com este filme uma espécie de vingança simbólica, pessoal, um acerto de contas com episódios que ele não considera terem ganho um desfecho satisfatório. Não é por acaso, aliás, que nas várias cerimônias em que Tarantino recebeu prêmios por este filme, ele aproveitou para repudiar as formas modernas de escravidão. Estas releituras históricas propostas pelo cineasta lembram a diversão de uma criança com seus brinquedos, seus bonecos simbolizando policiais, xerifes e mocinhos. A partir de personagens e contextos reais, imagina-se a História como se deseja.

Por acaso, Tarantino acredita em um acerto de contas de homem a homem, como se a escravidão fosse uma questão de indivíduos, e não de sociedade – este sendo um elemento típico dos faroestes que ele homenageia em Django Livre. Aliás, a política governamental é um elemento praticamente ausente de suas obras, aparecendo apenas como questão fantasmática, marginal. Para ver uma conclusão constitucional e biográfica da escravidão, é melhor assistir a Lincoln.

Django reserva ao espectador a possibilidade de reimaginar a História, de torcer por novos heróis abolicionistas e de criar um fim sem limites. Ao longo de sua história, Tarantino confere plenos poderes ao personagem, que consegue fazer tudo o que quiser, como quiser, com quem quiser. Este divertido desejo de onipotência faz da História um elemento dinâmico novamente, capaz de atualizar os mitos e encontrar novos símbolos com os quais a geração jovem possa se reconhecer.

Tarantino foge do didatismo e da obrigação documental para se ater apenas à obrigação moral: dar um “direito de resposta”, simbólico, à comunidade negra. Ele o faz com prazer, de modo magistral, em um imenso e épico espetáculo de luzes, corpos e sons. Django Livre é um filme que assume seu caráter de ficção, de espetáculo, mas também de obra provocadora, complexa, e – por que não – política.

FONTE: OUTRAS PALAVRAS / *Bruno Carmelo é editor do blog Discurso-imagem **Texto publicado, originalmente, no site Outras Palavras

LEIA TAMBÉM:

Lincoln de Spielberg, Karl Marx e a Segunda Revolução Americana

http://guebala.blogspot.com.br/2013/01/lincoln-de-spielberg-karl-marx-e.html

terça-feira, janeiro 22, 2013

Servidores Públicos Federais dão início à Campanha Unificada 2013






O Fórum das Entidades Nacionais dos Servidores Públicos Federais protocolou nesta terça-feira (22/01)  junto ao Governo Federal a pauta de reivindicações 2013, contendo os eixos da Campanha Unificada dos SPF para este ano. 

No mesmo dia, as entidades do Fórum se reuniram com demais centrais, movimentos sociais e outras entidades sindicais dos setores público e privado no “Espaço de Unidade de Ação”, para planejar a Jornada de Lutas de 2013, com base na plataforma unitária definida em dezembro do ano passado. 

Segundo o diretor do ANDES-SN, Josevaldo Pessoa da Cunha, a ausência de respostas do governo à pauta dos SPF em 2012 faz com que os eixos da campanha do ano passado sejam reforçados em 2013, entre estes a exclusão de dispositivos antidemocráticos da LDO/LOA, como o artigo 76 da LDO/2013, que visam obstruir a negociação com os servidores públicos sobre os seus direitos e a paridade entre ativos, aposentados e pensionistas.

“Vamos continuar a luta pela negociação coletiva e definição da data-base para o funcionalismo, além de cobrar mais uma vez do governo uma política salarial permanente com reposição inflacionária, valorização do salário-base e incorporação das gratificações”, destacou. 

Cunha lembra que além de não atender às reivindicações do movimento, o Governo Federal vem descumprindo a Constituição, que determina a revisão anual dos salários dos servidores públicos. 

“No ano passado, com a força da mobilização, os trabalhadores do serviço público conseguiram fazer com que o governo recuasse de sua política de reajuste zero”, observa.

O lançamento oficial da Campanha dos SPF ocorrerá no dia 20 de fevereiro, no auditório Nereu Ramos, na Câmara dos Deputados, em Brasília (DF). No dia seguinte, representantes das três esferas do serviço público se unem para um seminário no auditório Petrônio Portela, no Senado Federal.

Regulamentação do Direito de Greve

O debate sobre a regulamentação do direito de greve será um dos desafios que os servidores públicos federais deverão enfrentar durante a campanha de 2013. 

A discussão acerca do tema voltou à tona, após a forte mobilização dos servidores, que resultou numa das maiores greves do funcionalismo nos últimos dez anos. 

“Existe um movimento de retirada e flexibilização de direitos dos trabalhadores, como forma de reação à crise que assola o capital. Nesse sentido, o governo continua utilizando instrumentos mais variados para coibir, e até mesmo impedir em alguns casos, a resistência da classe trabalhadora, cerceando o direito de greve”, ressalta Cunha. 

Confira o calendário de ações para o início de 2013

Fórum das Entidades Nacionais dos SPF:
• 22/01/2013: Protocolo dos “Eixos da Campanha Unificada dos SPF”, no MPOG; Esplanada dos Ministérios.

• 27/01/2013: Seminário sobre Negociação Coletiva, Direito de greve, e Acordo Coletivo Especial. Porto Alegre-RS, no Fórum Social Mundial. 

• 20/02/2013: Lançamento oficial da Campanha Unificada dos SPF; às 9 horas, no auditório Nereu Ramos, na Câmara dos Deputados.

• 21/02/2013: Seminário das 03 (três) “esferas do serviço público”, no auditório Petrônio Portela, no Senado Federal. 

Espaço Unidade de Ação

• 22/01/2013: Reunião para definir atividades da Jornada de Lutas 2013

• 17 de abril de 2013: Grande Marcha a Brasília.

FONTE: Andes - Sindicato Nacional

História do Mali é marcada por conflitos separatistas desde o início do século XX


Da colonização francesa até a guerra na Líbia, 
conflitos do passado ajudam a explicar crise atual


O mundo passou a olhar com mais atenção para o Mali desde o dia 11 de janeiro, quando o presidente francês, François Hollande, anunciou a entrada da França no conflito interno do país africano após um apelo de emergência feito pelo presidente Dioncounda Traoré.

No entanto, o conflito tem implicações que datam desde o início da colonização francesa, em 1890. Passa por uma série de rebeliões separatistas provocadas pela população tuaregue no início do século XX, envolve a guerra civil líbia em 2011 e enfim desemboca no atual conflito, iniciado em janeiro de 2012.

Leia abaixo o resumo dos fatos históricos que contribuíram para o quadro atual.

Sudão francês

A colonização francesa sobre o território do atual Mali começou em 1880, tornando-se oficial dez anos depois (1890). Até 1959, foi recortado administrativamente por diversas vezes, passando a receber nomes como “Sudão Francês” (por duas vezes) e “Alto Senegal e Níger”.

Os gritos pela independência ficaram mais fortes a partir do sim da II Guerra Mundial (1945), quando foi iniciado o processo de descolonização do continente. A independência foi finalmente conquistada em janeiro de 1959, com um território federalista chamado Federação do Mali (do qual também faziam parte Senegal, Dahomey (atual Benin) e Alto Volta (atual Burkina Faso). Porém, dois meses depois a iniciativa foi esfacelada, restando apenas Senegal e Mali. Desconfianças militares acabaram por separar os dois definitivamente no ano seguinte. Assim, o Mali passou a adotar o nome, bandeira e território atuais.

Após a independência, sob o comando de Modibo Keita o país teve oito anos de um regime socialista com partido único e fortes laços com a União Soviética. As tentativas de forma agrária do governo socialista geraram revolta nas tribos tuaregues no norte, que não queriam ceder terras para um governo do qual alegavam não terem sido convidados para fazer parte. Após sangrenta repressão, acabaram derrotados em 1964.

Em 1968, Keita caiu após um golpe de Estado militar organizado por Moussa Traoré. Esse período foi marcado por opressão e instabilidade política, sucessivas tentativas de golpe de Estado, uma forte seca (1968-1974), revoltas estudantis em todo o país e crescente insatisfação na região norte do país.

O Mali passou por um processo de abertura política na última década do século XX. Os tuaregues do país e do Níger (onde ainda são mais populosos, cerca de 800 mil) tentaram novamente levantes esporádicos, mas volumosos, pela independência de 1990 a 1995. Uma das reclamações dos insurgente era de que eles não tinham acesso a altos postos no Exército. Por fim, um quarto levante entre 2006 e 2008 acabou após novo tratado de paz. Mas essa rebelião ficou marcada pela interrupção da produção de ouro nas montanhas do Níger. Mali e o vizinho Níger acusaram a Líbia de financiar os insurgentes.

Muitos dos atuais insurgentes do MNLA (Movimento Nacional de Libertação de Azawad – nome do território dado ao norte do Mali) lutaram nos dois lados na guerra civil da Líbia em 2011, que terminou com a queda do regime do coronel Muamar Kadafi (1969-2011). Os rebeldes voltaram ao Mali desempregados mas fortemente armados. Oficialmente, o grupo se formou em 23 de outubro de 2011, três dias após a morte de Kadafi.

O conflito atual

De janeiro a abril de 2012, forças separatistas tuaregues comandadas pelo MNLA começaram a atacar as bases militares no norte do país, principalmente nas regiões de Gao, Kidal e Timbuctu. Eles ganharam muito terreno em março, chegando a conquistar cidades sem enfrentar qualquer oposição do governo, afundado em uma crise política.

No dia 22 de março, um grupo de militares comandados pelo capitão Amadou Haya Sanogo depõe o presidente Amado Tumani Touré, alegando “incapacidade” do chefe de Estado em administrar o conflito que se acentuava. O golpe foi condenado pelo Conselho de Segurança da ONU, a União Africana e a Cedeao (Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental). Em 6 de abril, após negociações com os países vizinhos, foi acordado que o país seria governado interinamente por Diounconda Traoré. 

No dia 1º de abril, o MNLA, com a ajuda dos grupos religiosos do Ansar Dine (Defensores da Fé), AQIM (sigla em inglês da Al Qaeda no Magre islâmico) e Mujao (Movimento pela Unidade e Jihad na África Ocidental), tomam finalmente o controle de todo o norte malinês. O primeiro grupo proclama a independência do estado de Azawad seis dias depois, o que é condenado pelo governo de Bamako e pela UA (União Africana). Nenhum outro país reconhece a separação.

Conflitos na aliança insurgente

Em 6 de junho, na cidade de Gao (leste do Mali), a população se manifesta nas ruas contra a imposição da sharia e é violentamente reprimida pelo Ansar Dine. Dois dias depois, militantes das duas milícias entram em confronto armado na cidade, que resulta em duas mortes. Depois de tentativas fracassadas de fusão, ocorre o rompimento definitivo dos dois grupos.

No dia 20 do mesmo mês, o Ansar Dine afirma ser contra a independência de Azawad, e que o objetivo do grupo é a imposição da sharia em todo o Mali. Os confrontos entre os separatistas e os fundamentalistas só se intensificam: em julho, o MNLA perde controle de Gao, Kidal e Timbuctu. O norte do Mali ficou sob o controle da coalizão islâmica.

Em Timbuctu, documentos medievais e construções consideradas patrimônio da humanidade pelas Nações Unidas foram vandalizados. Nas cidades tomadas, a música regional malinesa também foi interditada.

Em outubro, o MNLA retoma controle da cidade de Ménaka, que sofre um grande afluxo de pessoas fugindo das cidades sob controle da coalizão islâmica.

No dia 12 de outubro, o Conselho de Segurança aprovou, por unanimidade, uma resolução proposta pela França para auxiliar o exército malinês e preparar uma intervenção militar que seria organizada por UA e Cedeao, mas ainda sem o envio de tropas, apenas a apresentação de um plano em 45 dias. No mesmo mês, parte de Ménaka foi tomada pela coalizão islâmica. Em Bamako, manifestantes marcham nas ruas pedindo intervenção internacional.

Já em 8 de janeiro, segunda a Al Jazeera, 12 tropas do governo foram capturadas pelos rebeldes na cidade estratégica de Konna, centro do país (700 quilômetros de Bamako). Dois dias depois, a cidade é tomada, o que poderia significar o primeiro passo para o avanço em direção a Bamako. Um grupo de cerca de 1.200 rebeldes avança em direção ao oeste e se aproxima de Mopti.

Durante esse período, Traouré apela ajuda emergencial a Hollande, que no dia seguinte, anuncia a entrada na França no conflito através da Operação Serval. Nos primeiros dias, a ofensiva se concentrou em ataques aéreos, a maioria deles partindo do Chade, ao leste. A intervenção, inesperada, obteve apoio da ONU, União Europeia, União Africana, Cedeao e MNLA.

A Operação Serval já levou ao menos 800 oficiais franceses ao país. Nas próximas semanas, estima-se que o número de tropas francesas no país deve chegar a 1,7 mil, totalizando 2,5 mil oficiais. Entre os dias 12 e 15 de janeiro e nesta quinta (17/01), jatos franceses bombardearam diversas cidades de controle rebelde entre a região norte e o sudoeste do Mali.

Em um congresso realizado por seus líderes, o MNLA adverte o exército malinês para não ultrapassar as fronteiras do que eles consideram sua pátria, mas afirmam que gostariam de negociar futuramente essa questão de forma diplomática com o Mali e a Cedeao. No entanto, só resta aos separatistas o controle de algumas áreas rurais, próximas às fronteiras com Argélia, Mauritânia e Níger.

Na madrugada do sexto dia de intervenção, as tropas francesas, em conjunto com as malinesas, iniciaram as operações e os combates terrestres. Os oficiais contam com tanques e equipamentos típicos do combate de guerra. As tropas terrestres se concentraram nos primeiros dias em cidades controladas pelo governo e próximas dos postos rebeldes

Em uma semana, a ofensiva obteve progressos significantes. Em 18 de janeiro, após dias de batalhas e informações desencontradas, foi confirmada a retomada de Konna pelas tropas do governo, além de Diabali (400 quilômetros de Bamako), tomada por rebeldes cinco dias antes. Um dia antes, foi registrado, em Londres, o primeiro protesto contra a intervenção francesa: um grupo de 60 pessoas em frente à embaixada exigia a retirada das tropas de intervenção sob cartazes de que “a sharia era a única solução para o Mali”.

Crise humanitária

Com a intensificação do conflito, a crise humanitária no país africano se agravou. Segundo estimativas da ACNUR (Agência de Refugiados das Nações Unidas), a crise no Mali deve provocar a fuga de mais de 400 mil pessoas para os países vizinhos e de, pelo menos, 300 mil internamente.

Em alguns países vizinhos ao Mali, foram instalados campos provisórios para abrigar os refugiados. Ao mesmo tempo, a agência da ONU tenta ajudar os que procuram abrigo fora de seu país, enviando especialistas para a região com o objetivo de apoiar a assistência aos refugiados.

FONTE: OPERA MUNDI

Grupos insurgentes no Mali têm origens e objetivos diferentes









Conheça os diferentes grupos que tem atuado na guerra civil do Mali
  
País de divisões econômicas, sociais e históricas intensas entre sul e norte, o Mali enfrenta quatro diferentes grupos armados na guerra civil que atingiu o país desde o início de 2012.


Com o recrudescimento do conflito, houve muita confusão inicial para identificar os objetivos e origens de cada um deles.

O conflito começou entre o governo e grupos separatistas do norte, pertencentes ao povo tuaregue. Os grupos de orientação islâmica que hoje combatem juntos as tropas do governo auxiliado pela França apareceram posteriormente. Eles se aliaram aos separatistas na tomada da região e romperam meses depois, tomando o controle das cidades.

Conheça abaixo os principais atores desse conflito:

Tuaregues

Povo berbere de natureza nômade localizado entre a região do deserto do Sahara e do Sahel. Sua população no Mali é estimada em 450 mil pessoas, basicamente concentradas na região norte, com línguas e costumes diferentes do sul.

São seguidores do Islã misturado a tradições locais – por serem majoritariamente nômades, por exemplo, nem todos tem possibilidade ou costume de seguir o Ramadã à risca. Seguem uma corrente sufista (que não interpreta o Islã de forma literal), o que vai de encontro aos princípios da sharia No século XX, quatro grandes rebeliões tuaregues são registradas na região desde 1914, a última em 2009.

Conheça o histórico de rebeliões tuaregues e a história de conflitos do Mali aqui.



MNLA (Movimento Nacional pela Libertação de Azawad)

Muitos dos atuais insurgentes do MNLA lutaram nos dois lados na guerra civil da Líbia em 2011, que terminou com a queda do regime do coronel Muamar Kadafi (1969-2011). Formado em 23 de outubro de 2011, três dias após a morte de Kadafi. Voltaram para o Mali, em sua maioria, sem emprego, mas fortemente armados.

O MNLA, formado por milicianos separatistas tuaregues, é um grupo secular secular. Mas, para conquistarem o norte do Mali (ver histórico abaixo), contaram com ajuda de grupos armados de orientação islâmica. Posteriormente à conquista da região, em abril de 2012, e a declaração (não-reconhecida) da independência de Azawad, entraram em conflito com os grupos islâmicos, perdendo o controle das principais cidades em julho. Atualmente, apoiam o governo do Mali e a intervenção francesa.


Ansar Dine (Defensores da Fé, em árabe)


Começou suas operações em março de 2012, ao ajudar os separatistas do MNLA a tomarem o controle do Mali. Seu objetivo declarado é a imposição da sharia em todo o território. O grupo se opõe à orientação sufista, tradição entre os tuaregues.

Após a tomada da histórica cidade de Timbuctu, em abril de 2012, o fundador e líder da organização, Iyad ag Ghaly deu uma entrevista à rádio local anunciando a aplicação da sharia e seus respectivos detalhes: imediata obrigatoriedade do uso de véu nas mulheres, apedrejamento de adúlteras e mutilação de ladrões.

Logo após o anúncio, boa parte da população cristã fugiu para outras cidades. Foi o principal  com o Ansar Dine que o MNLA teve o maior número de atritos.



O Ansar Dine nega relações com a Al Qaeda, afirma não ter envolvimento com o sequestro de reféns no campo de tratamento de gás em uma petrolífera no sul da Argélia.


Aqim (sigla em inglês de Al Qaeda no Magreb Islâmico)
Existente desde 1998, tem base no Mali. A maioria de seus integrantes é de origem argelina, mas também atua na Mauritânia, no Chade, Níger, Nigéria e Líbia. Tem como principal objetivo transformar esses países em estados islâmicos.


Além das ligações confessas com a Al Qaeda, seus integrantes são acusados de se utilizarem de métodos  como sequestros, tráfico de armas e cigarros, extorsões e lavagem de dinheiro.

Mujao (Movimento pela Unidade e Jihad na África Ocidental)

Dissidência da Aqim. Seu objetivo é a implementação da jihad (guerra islâmica) na África Ocidental. A Aqim, de maioria argelina, teria se afastado desse princípio, segundo os fundadores, do Mujao Em sua principal batalha, ajudou o Ansar Dine a tomar a cidade de Gao do MNLA em junho do ano passado.

Os três grupos islâmicos também contam com ajuda militar, estratégica e financeira do grupo extremista Boko Haram, baseado na Nigéria.

Para o senegalês Hamidou Anne, especialista em relações Internacionais africanas e membro do think tank africano Terangaweb, a coalizão dos três últimos grupos de orientação islâmica tratam-se não tem na religião o único desafio: eles também têm interesses econômicos e políticos envolvidos.

“A religião é só um pretexto. Muitos desses dirigentes não creem mais no que pregam, o que realmente querem são duas coisas: desenvolver uma ideologia marcada por uma série de violações de direitos humanos sob desculpa da sharia; mas também prosperarem através de uma economia ‘do mal’, baseada em sequestros, contrabando de cigarros, tráfico de drogas. E depois pregam o islã. O que lhes fornece recursos para colocarem na prática seu projeto totalitário”, afirma.

Ele lembra que a principal vítima desses conflitos têm sido os próprios muçulmanos. “A reação dos malineses face a ataques fundamentalistas é semelhante a dos nigerianos com o Boko Haram: esse não é o meu islã. O Corão é claro, ninguém se tornará muçulmano obrigado”, diz o especialista.

FONTE: ÓPERA MUNDI

Ìntegra do discurso de posse do novo mandato de Barack Obama


O presidente dos EUA, Barack Obama, comemorou nesta segunda-feira a posse de seu segundo mandato.

No discurso, ele fez um chamado à união nacional e uma aberta defesa aos direitos dos homossexuais. Ele também deu sinais de sua agenda para o segundo mandato, que inclui a reforma migratória, promessa da primeira campanha.

Leia a íntegra do discurso:

"Vice-presidente Biden, senhor presidente da Suprema Corte, membros do Congresso dos Estados Unidos, distintos convidados e concidadãos:

Cada vez que nos reunimos para dar posse a um presidente, damos testemunho da força duradoura de nossa Constituição. Afirmamos a promessa de nossa democracia. 

Recordamos que aquilo que une esta nação não é dado pelas cores de nossas peles, os dogmas de nossa fé ou as origens de nossos nomes. O que nos torna excepcionais --o que nos faz americanos-- é nossa fidelidade a uma ideia articulada numa declaração feita mais de dois séculos atrás:

'Consideramos que estas verdades são manifestas: que todos os homens são criados iguais, que eles são dotados por seu Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes estão a Vida, a Liberdade e a Busca da Felicidade.'

Hoje levamos adiante uma jornada sem fim para lançar uma ponte entre o significado daquelas palavras e as realidades de nosso tempo. Pois a história nos diz que, embora essas verdades possam ser manifestas, elas nunca se concretizaram sozinhas; que, embora a liberdade seja uma dádiva de Deus, ela deve ser assegurada pelo povo de Deus aqui na Terra. 

Os patriotas de 1776 não lutaram para substituir a tirania de um rei pelos privilégios de poucos ou pelo governo de uma turba. Eles nos deram a República, um governo do povo, pelo povo e para o povo, encarregando cada geração de zelar por nosso credo de fundação.

Há mais de 200 anos, nós o temos feito.

Passando pelo sangue arrancado pelo açoite e o sangue arrancado pela espada, aprendemos que nenhuma união fundamentada sobre os princípios da liberdade e igualdade poderia sobreviver metade escrava e metade livre. Nós nos recriamos e juramos avançar juntos.


Juntos, determinamos que uma economia moderna requer ferrovias e rodovias para acelerar as viagens e o comércio; ela requer escolas e faculdades para formar nossos trabalhadores.


Juntos, descobrimos que um livre mercado só floresce quando há regras que garantam a competição e o fair play.

Juntos, decidimos que uma grande nação precisa cuidar dos vulneráveis e proteger sua população dos piores infortúnios e perigos da vida.

Ao longo de tudo isso, nunca abrimos mão de nosso ceticismo em relação à autoridade central, nem sucumbimos à ideia fictícia de que todos os males da sociedade possam ser sanados unicamente através do governo. Nossa celebração da iniciativa e do empreendimento, nossa insistência sobre o trabalho árduo e a responsabilidade pessoal, são constantes em nosso caráter.

Mas sempre entendemos que, quando os tempos mudam, também nós precisamos mudar; que a fidelidade a nossos princípios fundadores requer novas respostas a novos desafios; que, em última análise, a preservação de nossas liberdades individuais requer ações coletivas.

Pois o povo americano não pode mais fazer frente às exigências do mundo de hoje agindo sozinho, não mais do que os soldados americanos poderiam ter enfrentado as forças do fascismo ou comunismo armados apenas com mosquetes e milícias.

Nenhuma pessoa sozinha é capaz de formar todos os professores de matemática e ciências de que vamos precisar para equipar nossas crianças para o futuro, nem é capaz de construir as estradas, as redes e os laboratórios de pesquisas que trarão novos empregos e empreendimentos a nosso país. Hoje, mais que nunca, precisamos fazer estas coisas juntos, como uma nação e um povo.

Esta geração de americanos foi testada por crises que fortaleceram nossa determinação e comprovaram nossa resiliência. Uma década de guerra agora está chegando ao fim. Uma recuperação econômica começou. 

As possibilidades da América são infinitas, pois nós possuímos todas as qualidades que este mundo sem fronteiras requer: juventude e garra; diversidade e abertura; capacidade ilimitada de encarar riscos, e um dom de reinvenção.

Meus concidadãos americanos, fomos feitos para este momento e vamos fazer bom uso dele --desde que o façamos juntos.


Compreendemos que programas superados são inadequados para atender às necessidades de nossos tempos. Precisamos atrelar novas ideias e tecnologias para refazer nosso governo, renovar nosso código tributário, reformar nossas escolas e empoderar nossos cidadãos com as habilidades de que precisam para trabalhar mais, aprender mais e ascender mais. 


Contudo, embora os meios mudem, nosso objetivo permanece o mesmo: um país que recompense os esforços e a determinação de cada americano. É isso o que este momento requer. 

É isso o que vai conferir significado real a nosso credo.Pois nós, o povo, compreendemos que nosso país não pode dar certo quando alguns poucos, que são cada vez menos, se saem muito bem enquanto muitos, que são cada vez mais, mal conseguem sobreviver. Acreditamos que a prosperidade da América deve se apoiar sobre os ombros largos de uma classe média ascendente. 

Sabemos que a América cresce e se sai bem quando cada pessoa pode encontrar independência e orgulho em seu trabalho; quando os salários recebidos pelo trabalho justo libertam as famílias da quase pobreza. Somos fiéis a nosso credo quando uma menininha que nasce na pobreza mais áspera sabe que tem as mesmas chances de dar certo na vida quanto qualquer outra pessoa, porque ela é americana, é livre e é igual, não apenas aos olhos de Deus, mas também perante nossos olhos.

Nós, o povo, ainda acreditamos que cada cidadão merece uma medida básica de segurança e dignidade. Precisamos fazer as escolhas difíceis para reduzir o custo da saúde e as dimensões de nosso déficit. Mas rejeitamos a ideia de que a América deva optar entre cuidar da geração que construiu este país e investir na geração que vai construir seu futuro. Pois nos lembramos das lições de nosso passado, quando os anos da velhice eram passados na pobreza e quando os pais de uma criança com deficiência não tinham onde buscar ajuda.

Não acreditamos que neste país a liberdade seja reservada para os que têm sorte ou que a felicidade seja reservada para poucos. Reconhecemos que, não importa quão responsavelmente vivamos nossas vidas, qualquer um de nós, a qualquer momento, pode enfrentar a perda de um emprego, uma doença repentina ou a perda de sua casa, destruída numa tempestade terrível.

Os compromissos que assumimos uns com os outros --através do Medicare, do Medicaid e da Previdência Social--, estas coisas não enfraquecem nossa iniciativa: elas nos fortalecem. Elas não nos convertem numa nação de tomadores --nos libertam para assumir os riscos que fazem este país ser grande.

Nós, o povo, ainda acreditamos que nossas obrigações, como americanos, não são apenas conosco, mas com toda a posteridade. Vamos responder à ameaça das mudanças climáticas, cientes de que deixar de fazê-lo seria trair nossos filhos e as gerações futuras. Alguns podem negar o parecer dominante da ciência, mas ninguém pode evitar o impacto devastador de incêndios descontrolados, secas devastadoras e tempestades mais poderosas. O caminho em direção a fontes de energia sustentáveis será longo e às vezes difícil.

Mas a América não pode resistir a essa transição --precisamos liderá-la. Não podemos ceder a outros países a tecnologia que vai alimentar novos empregos e novas indústrias --precisamos reivindicar sua promessa. É assim que vamos conservar nossa vitalidade econômica e nosso tesouro nacional: nossas florestas e nossos rios, lagos e mares, nossas terras agrícolas e nosso picos nevados. É assim que vamos preservar nosso planeta, entregue por Deus aos nossos cuidados. É isso o que vai conferir sentido ao credo que os fundadores de nossos país declararam no passado.

Nós, o povo, ainda acreditamos que segurança e paz duradouras não requerem guerra perpétua. Nossos bravos homens e mulheres de uniforme, endurecidos pelas chamas da batalha, são ímpares em habilidade e coragem. Nossos cidadãos, marcados pela memória daqueles que perdemos, conhecem bem demais o preço que é pago pela liberdade. A consciência de seu sacrifício nos conservará para sempre vigilantes contra aqueles que gostariam de nos ferir. Mas também somos herdeiros daqueles que conquistaram a paz e não apenas venceram a guerra, que converteram inimigos jurados nos aliados mais leais, e precisamos trazer estas lições para este tempo, também.

Vamos defender nosso povo e nossos valores pela força das armas e da lei. Vamos demonstrar a coragem necessária para tentar solucionar pacificamente nossas diferenças com outros países --não porque sejamos ingênuos em relação aos perigos que enfrentamos, mas porque o engajamento com outros países poderá acabar com as desconfianças e o medo de modo mais duradouro.

A América continuará a ser âncora de alianças fortes em cada canto do planeta; e vamos renovar as instituições que ampliam nossa capacidade de lidar com crises no exterior, pois ninguém tem maior interesse num mundo pacífico do que a nação mais poderosa do mundo. Vamos apoiar a democracia da Ásia à África e das Américas ao Oriente Médio, porque nossos interesses e nossa consciência nos obrigam a agir em prol daqueles que anseiam pela liberdade. E precisamos ser uma fonte de esperança para os pobres, os doentes, os marginalizados, as vítimas de preconceito --não apenas por simples caridade, mas porque a paz em nossos tempos exige o avanço constante dos princípios que nosso credo comum descreve: tolerância e oportunidade, dignidade humana e justiça.

Nós, o povo, declaramos hoje que a mais evidente das verdades --que somos todos criados iguais-- é a estrela que ainda nos guia; assim como guiou nossos antepassados em Seneca Falls, Selma e Stonewall [alusões a lutas pelas direitos das mulheres, dos negros e dos gays]; assim como guiou todos aqueles homens e mulheres, aclamados e anônimos, que deixaram seus rastros neste grande parque, para ouvir um pregador dizer que não podemos caminhar sozinhos; para ouvir um King (Martin Luther King Jr.) proclamar que nossa liberdade individual está inextricavelmente vinculada à liberdade de cada alma na Terra.

Cabe a nossa geração, agora, levar adiante o que aqueles pioneiros começaram. Pois nossa jornada não estará completa enquanto nossas esposas, mães e filhas não puderem ganhar a vida segundo seus esforços.

Nossa jornada não estará completa enquanto nossos irmãos e irmãs gays não forem tratados como todas as outras pessoas perante a lei --pois, se somos verdadeiramente criados iguais, então com certeza o amor que dedicamos uns aos outros também deve ser igual. Nossa jornada não estará completa até que nenhum cidadão seja obrigado a aguardar por horas para exercer o direito de votar. 

Nossa jornada não estará completa enquanto não encontrarmos uma maneira melhor de receber os imigrantes jovens e esforçados que ainda enxergam a América como terra de oportunidades; enquanto estudantes e engenheiros jovens e inteligentes não forem recrutados para nossa força de trabalho, ao invés de serem expulsos de nosso país. 

Nossa jornada só estará completa quando todos nossos filhos, desde as ruas de Detroit até as montanhas da Apaláchia e as ruelas silenciosas de Newtown, souberem que são cuidados, amados e que serão sempre protegidos contra perigos.

É essa a tarefa que cabe à nossa geração: tornar essas palavras, esses direitos, esses valores --a Vida, a Liberdade e a Busca da Felicidade-- reais para todos os americanos. Sermos fiéis a nossos documentos fundadores não requer que concordemos em relação a cada aspecto da vida; não significa que iremos todos definir a liberdade de exatamente a mesma maneira, nem que vamos todos seguir exatamente o mesmo caminho em busca da felicidade. O progresso não nos impõe resolvermos para sempre divergências seculares quanto ao papel do governo --mas requer que atuemos em nosso tempo.

Pois há decisões que precisamos tomar agora, e não podemos nos dar ao luxo de adiá-las. Não podemos confundir princípios com absolutismo, nem substituir a política pelo espetáculo ou tratar a troca de acusações como se fosse debate baseado em argumentos. Precisamos agir, mesmo sabendo que nosso trabalho será imperfeito. Precisamos agir, mesmo sabendo que as vitórias de hoje serão apenas parciais e que caberá àqueles que aqui estiverem dentro de quatro anos, de 40 anos e de 400 anos levarem adiante o espírito atemporal que nos foi outorgado no passado num salão modesto de Filadélfia.

Meus concidadãos americanos, o juramento que prestei diante de vocês hoje, como o juramento repetido por outros que servem neste Capitólio, foi um juramento prestado a Deus e ao país, não a um partido ou uma facção --e devemos cumprir essa promessa com fidelidade durante todo o tempo em que prestarmos serviço. Mas as palavras que eu proferi hoje não são muito diferentes do juramento prestado a cada vez que um soldado se alista para prestar serviço ativo ou que uma imigrante concretiza seu sonho. 

Meu juramento não é tão diferente do juramento que todos nós fazemos à bandeira que tremula ao alto e enche nossos corações de orgulho.

São as palavras de cidadãos, e elas representam nossa maior esperança.

Vocês e eu, como cidadãos, temos o poder de traçar o rumo deste país.

Vocês e eu, como cidadãos, temos a obrigação de moldar os debates de nosso tempo --não apenas com os votos que depositamos nas urnas, mas com as vozes que erguemos em defesa de nossos valores mais antigos e ideais mais duradouros.

Que cada um de nós agora abrace, como dever solene e com alegria respeitosa, aquilo que é nosso direito inato e duradouro. Com esforço comum e determinação comum, com paixão e dedicação, vamos atender ao chamado da história e carregar aquela luz preciosa da liberdade em direção ao futuro incerto.

Obrigado, Deus os abençoe, e que Ele abençoe para sempre estes Estados Unidos da América."
Tradução de CLARA ALLAIN

LEIA TAMBÉM:

Discurso de posse do presidente dos EUA, Barack Obama.

http://guebala.blogspot.com.br/2009/01/discurso-de-posse-do-presidente-dos-eua.html

segunda-feira, janeiro 21, 2013

Há um ano da desocupação, moradores do Pinheirinho ainda buscam justiça














A violenta desocupação do Pinheirinho, em São José dos Campos (SP), completará um ano no próximo dia 22 de janeiro. Para que não caia no esquecimento a ação bárbara do governo do Estado de São Paulo e da Polícia Militar, um ato será realizado no Centro Poliesportivo do Campo dos Alemães, a partir das 18h.

Um ano depois, os moradores ainda lutam por justiça. “Temos o dever de nunca olvidarmos, para que não venha acontecer novamente e, principalmente, exigir moradia para as famílias desalojadas e punição aos responsáveis, disse Antônio Donizete Ferreira, advogado e liderança da ocupação.

A principal característica do bairro era a sua forma de organização. Os moradores deliberavam, em assembleias, sobre questões de interesse específico da comunidade e sobre a atuação política na cidade, no estado e mesmo no país, como nas diversas marchas a Brasília da qual participaram. O PSTU atuava – e atua ainda hoje – na coordenação do Pinheirinho.

A organização e a politização do Pinheirinho provocaram a fúria do Estado e da polícia. No dia em que ocorreu a desocupação, os moradores ainda comemoravam uma trégua acordada na Justiça. Infelizmente, o governo federal, que podia ter efetuado a compra do terreno, nada fez. Ativistas, organizações políticas e sociais, personalidades e pessoas comuns se mobilizaram em solidariedade ao Pinheirinho no mundo inteiro. 

A desocupação
Na madrugada de 22 de janeiro de 2012, os nove mil moradores do Pinheirinho foram surpreendidos com a invasão da Polícia Militar para a desocupação do terreno. Mais de dois mil soldados, cavalaria, helicópteros, bombas de gás, balas de borracha e de fogo foram utilizadas contra trabalhadores que moravam no local há quase oito anos. A ação chocou pessoas no mundo inteiro por sua desumanidade.

As cenas eram de guerra. Famílias inteiras ficaram sem suas casas e foram levadas a abrigos semelhantes a campos de concentração. Foram registradas denúncias de estupro por policiais da ROTA no bairro vizinho, Campo dos Alemães. A violência também teve como consequência duas mortes, uma por atropelamento de um trabalhador e outra de um idoso causada diretamente por espancamento.

O terreno ocupado em 2004 pertencia, supostamente, à massa falida da indústria Selecta, pertencente ao megaespeculador Naji Nahas. Além de dever os impostos da área aos cofres públicos, Nahas é um bandido de fama internacional, condenado por diversos crimes financeiros. Mesmo assim, nada foi feito para regularizar o bairro e entregar a terra aos moradores do Pinheirinho.

Durante os oito anos em que lá estiveram, estas famílias construíram um verdadeiro bairro, com igrejas, pequenos comércios e prestadoras de serviços. A comunidade também era conhecida por participar da vida política da cidade, como nos protestos contra aumento de salário dos vereadores e contra o aumento das tarifas de ônibus, por exemplo. No Pinheirinho, a maioria dos trabalhadores era formada por empregadas domésticas, metalúrgicos, garçons entre outros.

SERVIÇO:
Dia 22/1/2013
Às 18h
Local: Centro Poliesportivo do Campo dos Alemães (Estrada do Imperador, em frente ao terreno do Pinheirinho – São José dos Campos)

Atualizados o local e o horário do ato em 11/1/2013, às 17h36

FONTE: OPINIÃO SOCIALISTA / LUCIANA CANDIDO

domingo, janeiro 20, 2013

História do Brasil no Araguaia


Chega às livrarias a primeira reimpressão de Mata! O major Curió e as guerrilhas do Araguaia, do jornalista Leonencio Nossa, lançado em junho com tiragem de 8 mil exemplares. Não é mais um livro sobre luta armada, guerrilha rural, organizações de esquerda, repressão – embora sejam bem-vindos todos os que ajudem a entender como o país chegou até aqui. É um livro sobre a história da terra, de seus habitantes, das violências vividas no passado, no presente. E que, por um tempo que é impossível prever, voltarão a ocorrer no futuro.

É um relato sobre facetas inglórias da civilização brasileira, ou, se preferirem, da barbárie brasileira. Articulação de jornalismo e história. Abre um campo de trabalho intelectual pouco explorado no país. Até aqui, coube quase exclusivamente à literatura e ao jornalismo abordar o que aconteceu com as pessoas comuns colhidas na engrenagem do confronto. Quem eram os militantes? E os militares que os enfrentaram em condições de mortífera desigualdade?
Nesta entrevista  ao programa de rádio do Observatório da Imprensa, Leonencio Nossa, repórter do Estado de S. Paulo, diz modestamente que não precisaria ter escrito seu livro se a imprensa, a polícia, a Justiça, o Ministério Público e entidades profissionais fizessem o que lhes cabia, depois da redemocratização, para recolher as histórias e contá-las para a sociedade.
Eis a entrevista.
Dez anos em campo

Faz dez anos que você começou a pesquisar a guerrilha do Araguaia?

Leonêncio Nossa – O projeto é de 1997. Em 2002 eu comecei a fazer as viagens, a apurar, e daí passei quase toda a minha carreira jornalística, até aqui, nessa pesquisa.

Quando você se lançou nisso já havia livros sobre o Araguaia.


L.N. −O primeiro livro do Araguaia é de 1979, Guerra de guerrilhas no Brasil, de Fernando Portela. O Fernando fez a primeira grande reportagem sobre o Araguaia no Jornal da Tarde, em 1979. Era a segunda vez que o Araguaia era mencionado na imprensa, porque em 1972 um repórter aqui da sucursal de Brasília foi mandado para o Araguaia para fazer uma matéria. O Estadão publicou a primeira reportagem em setembro de 1972. Essa reportagem furou a censura e acabou entrando no jornal. E ali já tinha alguns nomes de guerrilheiros e todo aquele trabalho de massa que era feito pelos guerrilheiros na região, todos os deslocamentos de tropas, essa coisa toda.

Agora, a guerrilha só foi mesmo ser contada com detalhes, com mortes de guerrilheiros, a repressão, em 1979, com o Portela. O Portela se baseou numa entrevista de um oficial importante, um comandante, que eu suponho seja o Hugo Abreu. Porque no livro tem uma carta em que o Hugo Abreu diz que tinha gostado do livro, etc. Aí entraram os jornais alternativos – a imprensa alternativa fez um trabalho também muito legal sobre o Araguaia.
Depois, em 1980, 1982, o Estadão voltou ao tema. Em 1992, o Jornal do Brasil fez uma série também muito importante. E, em 1996, o Globo fez a segunda série que teve grande impacto, com a foto em que o Genoíno aparece amarrado em uma árvore, chamada “Guerrilha no Araguaia”. Em 1998, o Globo ainda publicou algumas matérias do arquivo do [general] Antonio Bandeira, “O baú do general”, que também foi um momento muito importante nessa cobertura. Nesse intervalo, o Pedro Cabral – um militar que foi piloto da Aeronáutica – publicou um romance chamado Xambioá. O PCdoB chegou a publicar um livrinho chamado Guerrilha do Araguaia. Tem um livro de um professor de Goiás que o Elio Gaspari cita muito na obra dele [a tetralogia As ilusões armadas], chamado Guerrilha do Araguaia: a esquerda em armas [de Romualdo Pessoa Campos Filho].

Em 2005 teve um livro do pessoal do Correio Braziliense chamado Operação Araguaia: os arquivos secretos da guerrilha [de Eumano Silva e Taís Morais]. Mais recentemente, dois militares publicaram livros também. Sempre foi um tema muito da imprensa, nunca um tema que despertou interesse da universidade ou da academia, nem de literatos, escritores. Na verdade, é um tema que começa agora a ter o interesse da universidade. É uma bibliografia muito escassa. E, claro, o livro do Elio Gaspari tem um capítulo dedicado à guerrilha.

Tem um livro do Hugo Studart...

L.N. –Tem. O livro do Hugo Studart é A Lei da Selva, de 2006.

Repetição de histórias antigas

E ao longo desse tempo em que você já tinha o projeto nenhum desses livros satisfez sua curiosidade ou suas indagações mais importantes? Você continuou porque achou que teria outras coisas que você poderia apurar, dizer?

L.N. – Não é crítica, mas todos esses que nós falamos, o livro do Portela, o livro do Eumano, do Hugo, são baseados em depoimentos em off, personagens aparecem com nomes fictícios. São momentos dessa história. E hoje eu acho que não dá mais para fazer como a gente fazia na imprensa alternativa, aqueles livros com textos únicos de personagens, você chegava, o cara falava, falava, falava. Hoje não faz muito sentido você se basear no off.

Nos últimos anos houve muita repetição de histórias antigas que vêm à tona. Eu vou colecionando jornais, essas coisas. E tem uma foto, por exemplo, de um guerrilheiro morto, que foi publicada em minha conta oito vezes. Sempre dada como inédita.
Respondendo a sua indagação, é uma história muito complexa. Primeiro porque são 70 guerrilheiros, incontáveis militares, você tem todo um aparato militar, a única guerrilha que a esquerda conseguiu estruturar no século 20. Então, tem muitas nuances essa história. Eu acredito que o Araguaia ainda vai depender de uns 15 anos para a gente ter uma compreensão perto do total. E a minha pesquisa é sobre o Araguaia histórico, sobre a ocupação da região de 1790 até 2005. Eu conto a história de uma região que passou por vários movimentos sociais, movimentos políticos, movimentos guerrilheiros. E outra coisa: como já tinha muito livro, não sobre o Araguaia, mas outros livros que falam de histórias da época da ditadura, que na verdade são capítulos da Guerra Fria, eu tentei mostrar o Araguaia do ponto de vista de um episódio da história do Brasil.
A barbárie como identidade

Pode parecer uma coisa meio boba, mas tem uma diferença muito grande, porque os livros geralmente colocam o Araguaia como um episódio a partir daquele momento político internacional, o mundo disputado entre duas potências. Eu acho que a origem do Araguaia pode estar realmente nessa Guerra Fria, mas o que ocorreu lá – eu falo a barbárie – está mais conectado a uma história nacional, como se fosse uma construção de país, de identidade nacional. Por isso, quando escrevo sobre o Araguaia coloco-o como um capítulo da história brasileira, cito outros momentos da história brasileira, faço comparações, cito outros personagens, mais antigos. Então eu estava sentando diante de um livro, na minha avaliação, inédito.
Agora, do ponto de vista jornalístico, se você me perguntar, com toda sinceridade eu diria o seguinte: se as coisas tivessem ocorrido como deveriam ter ocorrido eu talvez não precisasse ter escrito este livro.
Porque se o Estado brasileiro tivesse cumprido sentença judicial de setembro de 2003, para abertura dos arquivos, para explicar o que ocorreu lá, acho que meu livro não faria sentido. Se o Ministério Público (MP) tivesse feito o seu papel investigativo desde que surgiu, lá em 1988, como deveria, eu não precisaria publicar meu livro agora. O MP recolheu dezenas de depoimentos no Araguaia em 2002. Por que só agora vêm ações?
População esquecida

Que tipo de ação?

L.N. −Eu falo o seguinte, você tem uma população que sofreu no Araguaia, uma população civil que ficou no meio da guerra, não vou entrar nem nessa discussão entre militares e guerrilheiros, mas do ponto de vista da população, por que até hoje essa população não foi olhada pelo MP?
Desde a redemocratização?

L.N. −Eu diria desde o início do anos 1990, quando tivemos uma compreensão maior, as pessoas começaram a falar mais da região. Eu pergunto outra coisa. A OAB, que é uma instituição de classe, mas teve um papel meio de organismo da sociedade civil, no final dos anos 1990 ouviu milhares de camponeses no Araguaia: onde estão os depoimentos? O que a OAB fez com esses depoimentos?

Essa coisa de livro não fazer sentido eu acho que é uma visão um pouco torta que a gente tem no Brasil. Você vai pegar qualquer episódio em outros países, tem dez livros sobre o episódio, cinquenta, se for importante; a história vai sendo reescrita.

L.N. −Você me perguntou o que causava insatisfação nas narrativas que existem. O livro não precisava trazer novidade, não tem absolutamente que revelar nada. O livro por si só se justifica. Eu concordo com você. Aquela sua pergunta, por que eu escrevi o livro, de certa forma foi um pouco disso. Meu trabalho é mais jornalístico. Desse ponto de vista eu acho que sobre alguns pontos não precisava realmente escrever. Agora, se você perguntar sobre a importância, eu também acho que todo livro é importante. É aquilo que eu falei: a gente vai esperar mais uns 15 anos para essa história do Araguaia ser bem contada.
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FONTE: OBSERVATORIO DA IMPRENSA / [Transcrição de Lucas Campos]