O Harry Potter do PSOL contra a
“farsa da direita”
Os fãs tentam entender por que diabos Harry Potter não recorre a seus poderes para curar o problema na visão e abandonar os óculos. Por que ele é o único aprendiz de feiticeiros que porta o acessório em Hogwarts?
Independentemente das explicações nas fanpages, tão imaginosas quanto a saga da britânica J. K. Rowling, o fato é que aqueles óculos são a marca registrada do bruxinho. E é por causa deles que o senador pelo Amapá Randolfe Rodrigues, candidato do PSOL à Presidência da República, é conhecido pelo nome do protagonista da série.
“Não é,
Harry Potter?”, brincava o senador Magno Malta (PR-ES) numa manhã de fevereiro,
num dos corredores do Senado, enquanto defendia em entrevista a redução da
maioridade penal. “Hoje não é um bom dia para isso, senador. Senão conto quem é
Voldemort”, revidou Randolfe.
Os óculos
de Randolfe causam tanto frisson aos
marqueteiros do PSOL quanto os de Harry Potter aos fãs. Há catorze anos o
senador foi diagnosticado com um leve astigmatismo e comprometimento da
convergência ocular. “Há duas semanas o oftalmologista me disse que não tenho
mais nada.” Mas o programa do partido veiculado no início de fevereiro trazia
cenas do senador com os indefectíveis óculos. O candidato não sabe o que fazer
com a imagem forjada por ocasião da disputa de 2011 à presidência do Senado, da
qual José Sarney (PMDB-AP) saiu vencedor por setenta votos a oito.
Além da
dúvida sobre manter ou não o figurino Harry Potter no candidato, há outra
mágica a ser feita pelo PSOL: rejuvenescer ainda mais o jovem Randolfe, de
meros 41 anos. O marqueteiro – “Luiz Arnaldo Campos, um cineasta militante que
não visa ao lucro” – vetou o uso de terno e gravata na tevê. E será preciso
muito feitiço para tornar sedutor o discurso do candidato: não bastasse a voz
estridente e a retórica professoral, Randolfe é, segundo um correligionário,
“gongórico”, ou seja, abusa de imagens rebuscadas e muitas vezes herméticas.
Januário
Martins, pai do senador e petista histórico, não aprovou o programa do PSOL:
“Parecia aquelas coisas do PT de antigamente.” Randolfe admite que não vai ser
fácil encantar os eleitores falando da “auditoria da dívida externa” na tevê,
com as ruas em ebulição. Ele se anima, porém, com a liberdade com que o partido
poderá tratar da pauta “dos costumes”, como direitos homoafetivos e a
descriminalização do aborto e da maconha. A agenda das mobilizações de junho
também será encampada pelo PSOL: “Tarifa zero é exequível e realizável.”
"Até que enfim ganhamos uma aqui dentro”, celebrava
Randolfe ao final da votação em que a Proposta de Emenda Constitucional na
Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) sobre a redução da maioridade penal
foi derrotada por 11 a 8. O senador repetia a piadinha que circulava nos
corredores do Senado: “Passagem do meu estado até Brasília: 650 reais.
Abastecer o carro do Senado: 400 reais. Ver a cara do Magno Malta depois da
derrota da proposta: não tem preço.”
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Entre um
bocado e outro, falou das dificuldades para arrumar namorada na juventude.
“Para namorar comigo tinha que resistir a pelo menos uma reunião do DCE e a uma
panfletagem.” Hoje já é avô de Antônio Gabriel, filho de Thaís, sua caçula, de
18 anos. O primogênito, Gabriel, um ano mais velho que a irmã, lhe apresentou o
mundo de Harry Potter. Divorciado, Randolfe vive com a nova companheira em
Macapá, mas passa grande parte dos dias em Brasília. Fez poucos amigos. Não
conseguiu aderir à pelada do deputado Romário (PSB-RJ) e do senador Petecão
(PSD-AC) às terças-feiras. “É rara uma terça em que eu não queira fazer um
pronunciamento”, justifica o flamenguista.

O PSOL
considera a tentativa de ligar o partido ao financiamento de black blocs uma “farsa do sistema” e diz estar
afinadíssimo para tratar do assunto se “a direita” quiser ressuscitá-lo na
campanha.
Dias
antes de ser oficializado pré-candidato, Randolfe admitia não entender por que
Freixo não aceitou concorrer. “Ele teria as melhores condições.” Para o
senador, não há “razoabilidade” na recusa do colega. Freixo, deputado estadual,
quer disputar a Prefeitura do Rio em 2016 e acha que precisa estar na
Assembleia em 2015. Para não morrer de vez, a única meta real do PSOL em 2014 é
eleger bancadas estaduais e federais, e Freixo é fundamental nessa engrenagem.
“Pelo
sim, pelo não”, Randolfe mantém no pulso uma fitinha vermelha do Senhor do
Bonfim que ganhou em Salvador. A militante que lhe deu a mandinga insistiu que
ele a tirasse somente no segundo turno.
FONTE: Revista
Piauí / Malu Delgado