Mais
de 50 times de futebol da Argentina, desde os grandes Boca Juniors eRiver Plate
aos pequenos El Porvenir e o Chaco For Ever, estão padecendo uma intensificação
generalizada das atividades dos“barrabravas”, denominação nativa para os
“hooligans”. Tiroteios, assassinatos, espancamentos, extorsões e depredação da
propriedade privada e pública foram a tônica no futebol local nos últimos
meses, somadas às costumeiras atividades de vendas de drogas, revenda de
entradas nos estádios, entre outras. No meio da polêmica sobre esta escalada de
violência os responsáveis por estas ações estão planejando detalhadamente sua
viagem ao Brasil, onde pretendem assistir os jogos da Copa do Mundo.
Ou,
caso não consigam as entradas (a imensa maioria destes barrabravas, segundo
informações extraoficiais, ainda não contam com os tíquetes), ficariam do lado
de fora dos estádios, fazendo o que os argentinos denominam de “el
aguante” (expressão local para designar a exibição de respaldo
enfático que uma torcida propicia a seu time).
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Diversas
estimativas indicam que ao redor de 650 barrabravas de 38 clubes argentinos
viajariam ao Brasil em dez ônibus para estar presentes durante a Copa. Este
volume implicaria em um aumento de 150% em comparação ao número de barrabravas
que viajaram à Copa da África do Sul em 2010.
Estes
barrabravas integram a Torcidas Unidas Argentinas, entidade conhecida pela
sigla “HUA”, que se auto-apresenta como uma ONG para divulgar a “cultura
do futebol”. Mas, enquanto que na Copa de 2010 os barrabravas desta
organização contavam com lideranças fortes que serviam de interlocutor com
diversos integrantes do governo dapresidente Cristina Kirchner, que lhes
conseguiam financiamentos, atualmente não possuem um comando único, além de
receberem apoios econômicos por parte de aliados da Casa Rosada e da oposição.
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O
município de Quilmes, na Grande Buenos Aires, foi o cenário de confrontos de
barrabravas na semana passada. Os torcedores do clube Quilmes, famosos por sua
violência, espancaram os rivais do All Boys com pás, além de desferir
punhaladas. Além dos conflitos com outras torcidas, os divididos barrabravas do
Quilmes também protagonizam combates internos. Segundo o deputado Fernando
Pérez, da União Cívica Radical (UCR), “a Copa acelera as disputas porque os
barrabravas se desesperam por financiar suas viagens ao Brasil”.
Estimativas
das agências de turismo indicam que 15 mil argentinos viajariam ao Brasil
para participar dos eventos da Copa. Mas, deste total, apenas 4.300 argentinos
conseguiram entradas por intermédio da site na internet da Associação de
Futebol da Argentina (AFA). Uma parte destes visitantes conseguiriam entradas
por intermédios dos cambistas. No entanto, a maioria ficaria sem entradas.
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Ao
contrário de outros países onde as torcidas organizadas mais violentas estão
vinculadas a grupos de skinheads e neonazistas, na Argentina os barrabravas
possuem fortes laços políticos e econômicos com ministros, senadores,
deputados, governadores, prefeitos e vereadores, para os quais trabalham
organizando comícios, cabos eleitorais e seguranças.
Nos
últimos anos na cidade de Buenos Aires e nos municípios da Grande Buenos Aires
os barrabravas assumiram gradualmente o controle dos flanelinhas que circulam
nas áreas dos shows de rock, estádios de futebol, exposições e demais lugares
de passeio dos habitantes da área. Os barrabravas também estão vinculados ao
tráfico de drogas, que cresceu de forma acelerada na última década no país. As
lideranças destas torcidas organizadas obtêm dos cartolas dos times argentinos
entradas para os jogos que são revendidas e também arrancam dízimos dos vendedores
de cachorro-quente e outros camelôs. “Não somos escoteiros”, admitiu um
barrabrava consultado pelo Estado.

Merellas
havia pedido ajuda ao governador de Buenos Aires e ao secretário da Justiça, que
colocaram à sua disposição uma viatura policial para proteger sua casa. No
entanto, na hora do ataque, os policiais não estavam no carro.
No
mesmo dia, no norte da Argentina, na província do Chaco, a casa de Héctor
Gómez, presidente do clube Chaco For Ever, da terceira divisão, foi alvo de
tiros disparados por um grupo de barrabravas, irritados com sanções da Justiça
que determinam que somente os sócios do time podem assistir os jogos quando o
clube é anfitrião. “É muito difícil combater a violência no futebol argentino”,
lamentou Gómez, que destacou que as drogas e álcool dentro de um estádio tornam
“incontrolável” o comportamento dos barrabravas. Segundo Gómez, “o governo e a
política usam estes rapazes”.
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Meses após a final de
1978, apadrinhado pela Marinha argentina – que participava da Junta Militar –
estabeleceu-se um grupo de poder no controle da Associação de Futebol da
Argentina (AFA), liderado por Julio Grondona, que mantém-se no comando do
futebol argentino há três décadas e meia. Grondona reelegeu-se
ininterruptamente nove vezes desde os tempos da Ditadura. Octogenário, não
exibia em 2014 sinais de querer se aposentar.
FONTE: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires.
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